Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 4 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:06 pm

Lábios trémulos de ira, Horemseb leu:
“Eles partiram. Dentro de quatro noites, a partir de hoje, virei buscar teu escrito.
Não deixes de me dar notícias tuas.”
— Não apanhamos a miserável agora, mas não perderá por esperar — disse, voltando-se para Chamus.
Depois, deu ordens, e seguiu rumo do pavilhão de Tadar.
Sua sanha contra Neftis era indescritível, e por momentos pensou em ir tirá-la do próprio domicílio.
Reflectindo, porém, julgou tarefa assaz arriscada; o tempo era demasiado precioso para ser perdido futilmente.
A traidora não lhe fugiria.
A partir de então, febril actividade começou em palácio.
O primeiro labor foi levado a termo pelo príncipe e Tadar, sob absoluto sigilo:
retiraram do tanque a planta misteriosa, com o respectivo cesto, que foi posta em profunda fossa, com água, num local húmido e sombreado.
Depois de curvadas as hastes, recobriram-na de terra fresca e relva.
A seguir, Tadar encheu com o pernicioso líquido grandes frascos vermelhos e azuis, e também uma caixeta com sementes do perigoso vegetal, reuniu seus mais preciosos manuscritos e bem assim alguns objectos concernentes ao culto, e ainda as suas insígnias sacerdotais, encerrando tudo num cofre que, à noite, fez conduzir, num barco, para o sítio do qual falaremos oportunamente.
Todo o restante, ervas, pomadas, vidros, papiros e bagagem científica, foi enterrado sob uma árvore.
Isso concluído, começou o desmonte das bases de estacas e do pavilhão; o tanque ocupado pela planta foi arrancado, as lajes quebradas, e desfeitos os altares sacrificatórios, de modo que, dois dias decorridos, só restava ao centro do lago uma ilhota vazia, coberta de abrolhos e sem comunicação com a terra firme.
Em prosseguimento, foi destruído ou distanciado quanto possível, dos locais das orgias, tudo quanto pudesse caracterizar a sua antiga serventia, e o próprio palácio passou por transformação radical: as centenas de tripés e caçoilas foram empilhadas, e bem assim os perfumes venenosos integrantes das bacanais, em cava subterrânea, devidamente murada em seguida.
Todas as salas foram arejadas e suprimidas as grades isolantes dos apartamentos separados das vítimas de Moloc; os servos despojados dos ricos trajes e jóias que usavam, e vestidos, em troca, simplesmente de linho.
Horemseb juntou a esses objectos tudo quanto possuía de mais precioso em feitura de jóias, de baixelas e armas e também as asas douradas, tiara e paramentos hitenos de que se servia, e os escondeu em vários pontos do imenso jardim.
Em meio das febris actividades, passou o tempo rapidamente, e chegou a noite designada em que Neftis devia vir. Horemseb estava satisfeitíssimo:
tudo marchava bem, e se conseguisse demolir ainda a pirâmide e quebrar o colosso, cujos pedaços iriam parar no Nilo, podia ser feito o inquérito, porque as provas palpáveis dos seus crimes teriam desaparecido.
Antes, porém, de empreender esta última parte do trabalho de salvação, queria apoderar-se de Neftis e vingar-se, por alguma tortura inaudita.
Ao se lembrar do que lhe custava a traição dessa mulher, da mutação no estranho viver que ele tanto adorava, dos desgostos, perigos e humilhações que o aguardavam talvez, cada fibra do seu robusto corpo se encolhia de raiva:
o ódio, a sede de vindicta quase lhe suspendiam a respiração.
Quando o Sol transpôs para baixo a linha do horizonte, Horemseb, em companhia de Chamus, deixou o palácio, pela escadaria das esfinges, e, esgueirando-se ao longo do muro, ambos se agacharam nas sarças, a poucos passos do escaninho-correio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:07 pm

Aguardaram muito, e a hora era bastante avançada quando, enfim, perceberam uma sombra que se aproximava cautamente:
era Neftis, que, envolta em escuro manto, vinha buscar as notícias de Ísis.
Chegada junto do esconderijo combinado, ajoelhou e remexeu o interior, à procura do rolo de pergaminho; mas, eis que dois braços vigorosos a pegaram, repuxando-a bruscamente, e, antes que pudesse dar um grito, espessa mantilha lhe foi passada em volta da cabeça.
Sentindo que a conduziam, debatia-se em desespero, compreendendo que qualquer coisa fora descoberta, e, uma vez por detrás desses muros, entregue à vingança de Horemseb, teria morte, e morte horrível.
Exausta pela luta, abafada pelo pano que lhe cobria a cabeça, teve um atordoamento e perdeu os sentidos.
Horemseb, ele próprio, havia levantado Neftis, apesar da resistência, e, auxiliado pelo eunuco, levou-a para o jardim.
Enquanto Chamus fechava cuidadosamente a porta, atirou o fardo em terra e disse:
— Acende uma tocha, Chamus.
É preciso ver se não erramos a caça.
O eunuco obedeceu.
— Não erramos:
é a víbora, desmaiada de medo! — falou Horemseb, com desprezo.
Leva-a, e segue-me para a pirâmide.
Vamos ver de que maneira a traidora conversará com o deus.
Fizeste acender o braseiro?
— Sim, senhor — respondeu Chamus, carregando Neftis nos ombros.
Chegados à pirâmide, o eunuco depôs a jovem no chão, e desapareceu.
Horemseb encostou-se à entrada, ora fixando a vítima, com olhar malvado, ora prestando ouvido ao crepitar do fogo nas entranhas do colosso — condenado por essa mesma vítima — a ser destruído.
Logo depois, Chamus regressou, trazendo um cesto coberto e uma jarra cheia de água, e, enquanto o príncipe descobria a cesta, cheia de rosas, e dela retirou um copo e um vidro vermelho, o eunuco derramava água no rosto e peito de Neftis, na intenção de reanimá-la.
Vendo que esta fazia um movimento, Horemseb despejou sobre ela todas as flores.
A moça estremeceu e se retesou, com o olhar perturbado:
o aroma atordoante subia-lhe ao cérebro, colorindo de febril rubor as pálidas faces.
Encontrando, porém, o olhar do príncipe que a fixava sombrio, ameaçador, cheio de impiedosa crueldade, ergueu as mãos juntas, murmurando:
— Graça!
— Graça, a ti! traidora, espiã, ladra! — respondeu Horemseb, num rir estridente.
Graça a ti, que me denunciaste e traíste!
Diz-me, antes, que tortura devo inventar para te fazer pagar quanto ousaste contra mim!
Perfurarei essa língua delatora, ou vazarei esses olhos de serpente?
O furor tirou-lhe a voz.
Rangendo os dentes, espumando pelos lábios, ficou desfigurado e horripilante.
Por momento, o punhal que retirara do cinto brilhou sobre a carne de Neftis, que lhe sentiu a friúra da lâmina e permaneceu petrificada, paralisada de horror e medo.
Mas, Neftis era alma enérgica, de varonil coragem, apaixonada, odienta e vingativa em excesso; compreendeu que soara a sua derradeira hora, e que o homem criminoso, que jogara com a sua vida e a destruíra, ousava erigir-se em juiz para julgá-la, como se tivesse ela correspondido com ingratidões e traição a quaisquer benefícios dele recebidos.
Todo o seu ânimo se rebelou, e, nessa exasperação, dominou, momentaneamente, até a influência do veneno.
Repelindo as rosas que a cobriam, endireitou-se, olhos esbraseados.
— Tens razão, Horemseb; estava louca ao pedir o perdão que eu obteria mais depressa de um tigre do que de ti, para quem a morte é uma distracção.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:07 pm

Quando o acaso me ajudou a fugir, compreendi ser apenas um joguete destinado a horrível fim; mas, silenciei, durante mais de um ano, e não te trairia, porque te amo muito mais do que à própria vida, apesar da impiedosa zombaria com que propinavas o veneno para despertar no meu coração insensato amor, que repelias tão logo elevava a ti os olhos, recusando-me mesmo esse amor indigno que se concede a uma escrava.
E, no entanto — tomo por testemunho os deuses imortais e esta hora trágica —, teria sofrido em silêncio este amor, jamais saciado, e não te trairia, pois considerava teu coração gélido, incapaz de amar.
Neith desapareceu, e eu soube que uma rosa rubra fora achada presa ao véu perdido na escada.
Uma suspeita veio-me: essa mulher, tão bela e tão ilustre, bem podia ter vencido teu coração.
E quando uma testemunha ocular te viu, sentado num banco, enlaçando nos braços um corpo de mulher e cobrindo-lhe as faces de apaixonados beijos, a raiva e o desespero cegaram-me.
— Quem é essa testemunha, e onde me viu? — interrogou Horemseb, que escutara, surpreso, a veemente explosão de Neftis.
— Keniamun, que, impelido pela curiosidade, galgou o muro e te identificou.
Ele não viu quem era a dama, porém eu compreendi — eu — que era Neith e que a “ela” tu sabias amar.
— Louca! — interrompeu, com lúgubre gargalhada.
Ele possuía a consciência de não amar Neith; apenas o divertir-se com a ilustre egípcia lhe parecia mais excitante do que com as da plebe, iguais a Neftis.
Esta prosseguiu, exaltando-se cada vez mais:
— Sim, nesse cruel instante, meu amor por ti se transmudou em ressentimento, e contei a verdade a Sargon e a Ísis, de quem destruíste a irmã, a infortunada que também recebera rosas, as malditas mensagens de morte que envias às tuas vítimas.
O esposo de Neith insinuou-se em teu palácio, fazendo-se passar por escravo; Ísis, que o ama e quis vingar a irmã, o seguiu, e nossa vingança triunfou:
todos os detalhes da tua vida misteriosa, todas as provas dos teus crimes devem estar, à hora presente, no conhecimento do Faraó.
Justiça será feita, e sobre tua cabeça criminosa cairão as humilhações e os sofrimentos rivais daqueles que infligiste sem compaixão.
A estas palavras, a calma relativa com que Horemseb escutara mudou-se em sanha; pensou em um golpe de faca para cortar a vida da jovem; mas, mudando bruscamente de ideia, repôs a arma no cinto, e, com ódio frio, mais assustador ainda que a superexcitação insana, encheu o copo e, apresentando-o à vítima, disse, com sanguinária ironia.
— Bebe, e muda tua raiva em amor; ser-te-á mais doce o morrer, amando-me!
Neftis recuou, com horror.
— Deixa-me: não quero beber esse veneno.
— Bebe! — rugiu ele — ou furo-te os olhos.
E, pegando a moça pela nuca, derramou-lhe na boca o conteúdo do copo.
Durante alguns momentos, a desditosa permaneceu prostrada em completo aniquilamento.
Depois, um estremecimento percorreu-lhe o corpo, o rosto purpureou e os grandes olhos esverdinhados acenderam-se, concentrando-se no príncipe, com expressão de fera espreitando a presa.
Inopinadamente, saltou para ele, e, enlaçando-lhe os joelhos, exclamou, em voz enrouquecida, na qual vibrava estranhamente um misto de aversão e de amor:
— Horemseb, concede-me um olhar de amor, um beijo único, e morrerei sem te maldizer.
Por breve instante, ele contemplou, com satisfação cruel, a formosa criatura abatida e palpitante a seus pés; em seguida, curvando-se, murmurou com sardónico sorrir:
— Recebe o beijo que as traidoras merecem.
Com um grito desgarrador, Neftis torceu para trás o busto, o sangue jorrando de um ferimento lateral.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:07 pm

Desatando em lúgubre risada, Horemseb pegou o corpo da vítima, e, subindo os degraus da escadinha, atirou-o aos joelhos do colosso.
Neftis não estava morta, e a dor atroz despertou-a do torpor da agonia.
Emitindo gritos que não pareciam de garganta humana, ela rolou sobre o incandescente leito; mas, bem depressa lhe faltaram forças, de seus lábios saiu, como que num sibilar, terrível maldição.
Depois, emudeceu, e apenas os sacudimentos, os sobressaltos convulsivos demonstravam que a vida ainda não abandonara o jovem e robusto organismo.
O espectáculo era de tal modo horrendo, que o próprio Chamus encostara o rosto no chão, para não ver, e tapara as orelhas para não ouvir o crepitar do sangue no metal aquecido, esforçando-se também para não olfactar o nauseante odor da carne queimada.
Horemseb, ao contrário, estava imperturbável, impassível, braços cruzados, saboreando a vingança; nenhuma fibra do seu brônzeo coração estremeceu sequer, ao ver o belo corpo da infortunada cobrir-se de bolhas, a pele fender-se, os membros revirarem-se à semelhança de tições sobre carvão aceso, depois o montão de cabelos dourados incendiar-se e torvelinhar em torno dela em uma nuvem de centelhas.
Mas, então, seu olhar encontrou o da vítima, concentrado sobre ele.
Esses olhos fixos, fulgurantes, injectados de sangue, não mais pareciam pertencer a um ser humano:
os sofrimentos e as maldições de uma criatura torturada até à loucura sintetizavam-se nesse horrível mirar, que, queimando qual labareda, pesado quanto o chumbo, dir-se-ia perfurar, paralisando, a alma do nigromante.
Horemseb voltou o rosto, com involuntário arrepio:
ignorava que, naquela hora nefanda, uma alma desbordante de ódio se havia ligado a ele por milénios; que esse fatal olhar persegui-lo-ia através de séculos, pesando sobre suas vidas sucessivas, envenenando-lhe o repouso, destruindo-lhe por vezes a razão.
Quando o príncipe teve dominada a fraqueza e seu olhar voltou-se para a supliciada, os terríveis olhos estavam extintos, Neftis morrera. Horemseb saiu da pirâmide e chamou o eunuco, que se erguera lívido e em calafrios.
— Faz apagar o fogo imediatamente, lança por agora o cadáver da traidora no fornilho vazio, e que os designados comecem em seguida a demolição da pirâmide.
Agitado por estranha inquietude íntima, Horemseb regressou aos aposentos e se atirou ao leito; sentia-se derreado, e fechou as pálpebras; mas, ante seu espírito reviveu a cena a que assistira:
o olhar semi-extinto de Neftis fixava-o sem cessar, o cheiro da carne queimada sufocava-o, e espessa fumaça enegrecida surgia-lhe em torno, entorpecendo-lhe os membros, colando-se-lhe à pele, interrompendo-lhe a respiração.
Com abafado grito, ergueu-se e seu espantado olhar viu o velho Hapu, que, tremelicante, lhe apresentava tabuinhas.
— Senhor, um homem, vindo de Tebas, pede para falar-te imediatamente.
Insistiu de tal modo, que ousei despertar-te.
Ô príncipe pegou as tabuinhas e as abriu, brusco, lendo apenas uma palavra — Mena — ali traçada, mas bastante para fazê-lo pálido.
— Faz entrar o desconhecido — disse, levantando-se.
Pouco depois, um homem, envolto em manto escuro, que lhe escondia o rosto, foi introduzido por Hapu.
Logo que se retirou o escravo, o recém-chegado se desfez do manto: era o irmão de Neith, cujas vestes, amarrotadas e sujas, atestavam afadigada e ininterrupta viagem.
— Que grave notícia me trazes tu? — indagou Horemseb, apertando a mão do visitante e oferecendo-lhe uma cadeira.
— Sim, o que te venho dizer é de tal modo grave, que arrisquei minha cabeça para prevenir-te.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:07 pm

Pretextando assunto de família, pedi licença e, secretamente, corri a comunicar-te.
Estarás perdido, príncipe, se não conseguires fugir.
Sargon, diz-se, acusou-te ante Hatasu de sacrilégio, assassínios inauditos e do rapto de Neith, que manténs prisioneira aqui.
— Neith está aqui, é verdade, mas me seguiu voluntariamente, para fugir ao esposo, que ela teme e que a aborrece.
Diz, porém, minuciosamente, quanto aconteceu.
— Ninguém sabe, ao certo, o que ocorreu.
Sargon obteve audiência da rainha, presente Tutmés, que, por motivo ignorado, apunhalou o hiteno, o qual expirou duas horas depois.
Mas, à cabeceira do moribundo, Hatasu reuniu um Conselho extraordinário, ao qual o ferido formulou uma denúncia detalhada, acusando-te de crimes inomináveis.
Desde esse dia, o príncipe Tutmés foi posto incomunicável em seus aposentos e teu nome anda de boca em boca; Tebas está abalada pelas mais diversas murmurações.
Soube, de Satati, que uma comissão, composta de Ranseneb, Roma e alguns outros padres, virá a Mênfis, e, com o concurso do Grande Sacerdote, fará inquérito em teu palácio.
Keniamun, o oficial das guardas que tu conheces, acompanha Ranseneb, e traz ordem para o comandante de Mênfis pôr força armada à disposição dos sacerdotes, caso o destacamento de guardas, comandado por Antef, não seja suficiente para te prender.
Precedi a comissão, que, presumo, não chegará antes de amanhã, cedo; tens, pois, tempo de fugir, e, se queres ouvir meu conselho, trata de deixar o Egipto, porque a tua vida não vale um anel de prata, e em verdade foi preciso todo o meu desinteressado devotamento para prevenir-te, em semelhante ocasião.
— Recompensarei tua dedicação, Mena, e, se conseguir contornar o perigo que me ameaça, e defender-me, podes ficar certo de que farei a tua fortuna — respondeu Horemseb, a quem terroso palor cobrira o rosto, no decurso da narrativa do oficial.
— Tu contas fugir a tal perigo e salvaguardar tua posição? — perguntou Mena, embasbacado.
Não te iludes? Diz-se mais, que Neftis deverá depor contra ti e desvendar fatos horríveis.
— Neftis não dirá coisa alguma, porque está morta, e, quanto ao resto, os deuses me ajudarão, eu o espero, a tudo acomodar — disse Horemseb, levantando-se.
Retirou de um móvel uma caixeta cheia de jóias e um saquinho de anéis de ouro e os entregou a Mena.
— Aceita isto, em primeiro sinal da minha gratidão, e agora descansa.
Decerto queres ver Neith.
— Não; é inútil saiba ela da minha vinda aqui; desde que me asseguras estar ela viva e passando bem, fico tranquilo.
Além disso, devo deixar-te sem tardança, pois ainda tenho assunto na cidade e pressa em retomar o caminho de Tebas.
Mas, a propósito, dizes que Neftis morreu, e sabes onde residia?
— Sim (e Horemseb indicou o local).
Mas, bebe ao menos um copo de vinho para te reconfortares.
Espera! Eu to trarei pessoalmente, e vou dar algumas ordens.
Tão logo o príncipe se ausentou, Mena correu à mesa colocada junto do leito e sobre a qual havia percebido um colar e braceletes, de grande preço, que Horemseb ali pusera ao deitar-se, e os fez desaparecer nas vestes, e bem assim outros pequenos objectos em lápis-lazúli e em malaquita.
Depois, reenvolvendo-se no manto, murmurou, chacoteando e girando em torno um olhar sorrateiro:
— Doido, que, com a corda no pescoço, sonha com acomodações, em vez de fugir, como faz o veado perseguido pela cainçalha!
Eu o supunha mais atilado!
Quanto ao teu vinho, muito agradecido!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:07 pm

Bem poderia impedir-me, para sempre, de reentrar em Tebas!
Voltava Horemseb, trazendo um copo de vinho.
Mena o aceitou e fingiu nele molhar os lábios; depois, deixando-o, disse:
— Agradeço-te, príncipe, mas, escusa-me; cada minuto me é precioso. Adeus!
Possam os deuses permitir que te reveja brevemente, liberto de todos estes aborrecimentos!
Ficando a sós, Horemseb deixou-se cair numa cadeira, e fechou os olhos.
Tinha necessidade de disciplinar os pensamentos e tomar uma decisão.
Seu primitivo plano de destruir todos os vestígios dos seus crimes era impraticável, porque demolir, de um dia a outro, a pirâmide e o colosso se tornava impossível.
E agora, na perspectiva de perder definitivamente sua hierarquia e os haveres, para vagar, fugitivo e miserável, longe do Egipto, seu orgulho se rebelava.
Aquela alma tirânica, cega pela fatuidade, pela adoração de si mesmo e de desmesurada teimosia, não podia convencer-se de que o príncipe Horemseb fosse tratado no nível de um criminoso vulgar; devia ser poupado, desde que fornecesse aos juízes pretextos para ser agraciado.
De repente, lembrou-se da morte de Sargon, que acabava de saber, e tal circunstância inspirou-lhe novo plano, que devia ser a sua salvação.
Ergueu-se vivamente e encaminhou-se para o quarto de Tadar.
Instalado agora no palácio, o velho sábio não dormia: sombrio e silencioso, ele andava no aposento, de lá para cá, e não mostrou surpresa com as notícias que Horemseb lhe comunicou.
— Hesitas ainda em fugir? — perguntou apenas.
— Tenho outro projecto que me parece mais eficiente:
disse-te que Sargon morreu; nada mais me impede de desposar sua viúva, e de fazer dela um sólido escudo.
Venho rogar-te que despertes Neith, a quem falarei, e dentro de algumas horas partiremos para Sais.
Lá, o Grande Sacerdote do templo de Neith, meu tio, Ameni, casar-nos-á e concederá asilo à minha esposa, até que ela vá a Tebas, defender minha causa ante Hatasu.
Isso feito, na previsão de qualquer perigo, eu te procurarei no refúgio de Spazar, e juntos ficaremos ocultos até acalmar a tempestade.
Tadar ouvira silencioso.
— Seja; despertarei Neith, e, após vossa partida, tomarei aqui as derradeiras providências, antes de seguir para casa de Spazar.
Quando a adormecida estiver em condições, eu te mandarei chamar.
— Não; manda-a ao meu aposento.
Enquanto isso, vou regular um assunto indispensável, e preparar tudo para a viagem.
Regressando, Horemseb chamou Hapzefaá e Chamus.
Aquele recebeu todas as ordens concernentes à viagem.
Em seguida, acompanhado do eunuco, o príncipe encaminhou-se à câmara de Ísis, a quem, por sua ordem, rasparam a cabeça, sendo conduzida após, amordaçada, para um barco, no qual entraram os dois homens.
Tendo subido o rio, a certa distância, Horemseb feriu Ísis com uma punhalada, e, sangrando, atirou-lhe o corpo às águas.
Voltando aos aposentos, esfalfado de fadiga e de emoção, o príncipe apoiou os cotovelos e deu curso a reflexões, mas, sem grande intervalo, ergueu-se e pegou uma pequena ânfora vermelha e a esvaziou no copo de vinho que havia servido a Mena.
Terminava isso, quando o reposteiro foi erguido, e Neith, perturbada e indecisa, parou no limiar.
Refeita e confortada pelo longo sono, a jovem mulher havia recuperado toda a beleza e viço.
Com exclamação de contentamento, Horemseb precipitou-se para ela, e a apertou apaixonadamente de encontro ao peito.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:08 pm

— Minha bem-amada, quanto me afligiste com o teu louco ciúme!
É a ti unicamente que eu amo!
És a soberana do meu coração e de minha casa.
Como te sentes?
— Bem; apenas um tanto fatigada e com a sensação de cabeça oca — respondeu, apoiando a testa no ombro do príncipe.
— Então bebe este copo de vinho, reconforta-te, minha querida, porque tenho bem graves coisas a te confiar.
Neith bebeu, e, quase instantaneamente, rubor febril colorou-lhe o rosto.
Horemseb a observou com satisfação:
estava seguro de que nenhum poder lhe arrancaria aquela mulher; o veneno lha entregava com Insensata paixão.
— Que tens a dizer-me, Horemseb?
É feliz ou triste notícia — indagou ela, erguendo para o príncipe um olhar pleno de amor e de ansiedade.
— Quero comunicar-te que mortal perigo ameaça-me, porque fui traído.
Neith soltou um grito.
Esse momento ela o previra, e em vão suplicara renunciasse ele à vida culposa, que terminaria por perdê-lo.
— Quem te traiu?
— Sargon, teu marido, que, disfarçado em escravo, se introduziu neste palácio, e, tendo espionado tudo, denunciou-me a Hatasu; mas, pagou com a vida suas espionagens, porque Tutmés apunhalou-o.
Uma comissão de padres, acompanhada de soldados, chegará aqui, amanhã, para prender-me, sob acusação de sacrilégio e feitiçaria e outros crimes incríveis.
Acusar-me-ás tu também, Neith?
Narrarás tudo quanto viste nestes recintos?
Ou amar-me-ás bastante para guardar segredo e não revelar coisa alguma aos sacerdotes?
A jovem mulher recuou, muito pálida, revelando no expressivo semblante a luta violenta entre a verdade, que estava acostumada a dizer, e a mentira que lhe era solicitada.
O coração do príncipe contraiu-se: se a força do feitiço não chegara a subjugar aquela altiva e honesta natureza, a derradeira esperança estava perdida.
Com um enrouquecido suspiro, Neith contorcia as mãos; compreendia que a revelação da verdade implicava na morte de Horemseb; e como viveria ela, quando se extinguisse para sempre aquele olhar de flama que tão fundo penetrava o seu?
Aquela voz harmoniosa calaria por toda a eternidade?...
Comprimindo as têmporas com as mãos, e fundindo-se em pranto, exclamou:
— Não; não; nunca uma palavra da minha boca te trairá, meu bem-amado; morreria antes do que desvendar aos padres coisas que te acusariam; para te salvar, sacrificarei mil vezes a minha vida; mas, tu, foge! foge!
Horemseb abraçou-a apaixonadamente.
— Agradecido! Antes da fuga, desejava unir-me a ti para toda a vida.
Sargon morreu; nada te impede de ser minha esposa, e, por isto mesmo, minha salvação.
— De acordo! Eu o desejo; mas, de que modo nosso consórcio te salvará? — balbuciou ela.
— Defenderás, perante Hatasu, a causa de teu esposo, e lhe obterás o perdão dos erros.
— Oh! sem dúvida, eu lho suplicarei, como jamais o fiz, porém, apesar da sua bondade, atender-me-á em tão grave caso?
Horemseb curvou-se para ela, olhos brilhando.
— Se existe no mundo um ser ao qual Hatasu não saberá recusar coisa alguma, esse alguém, és tu, sua filha e de Naromath, o único homem que ela amou.
— A rainha, minha mãe? — repetiu Neith, estupefacta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:08 pm

Recordando, porém, a inexplicável afeição que a soberana lhe testemunhava, e as palavras de Satati sobre um misterioso elo que as ligava, ficou convencida, e, enlaçando o pescoço do príncipe, exclamou, com exaltação:
— Sim, sim, a rainha não desejará destruir a felicidade de sua filha, e te salvará.
Oh! depressa! providencia para nossa união, a fim de que eu tenha o direito de te defender.
Horemseb explicou sucintamente o plano que arquitectara, e, sessenta minutos mais tarde, uma barca fechada conduzia o casal a Sais.
O príncipe ordenara a Hapzefaá conservar o palácio estritamente fechado até seu regresso, e acelerar a demolição do deus; mas, embarcando, e à medida que a sombria silhueta do palácio desaparecia da treva, baixou a cabeça sob turva prostração.
Neith, coração contraído por lúgubre pressentimento, inclinou a fronte para o peito do príncipe e desatou a chorar.

(20) Em todos os semitas bárbaros, os infanticídios, principalmente de meninas, não eram raros.
Enfim, no culto de Moloc, comum a todos os semitas, em dado momento de sua existência, os sacrifícios de crianças eram de regra, queimadas vivas sob as narinas do ídolo.
Na Bíblia, Levítico, XVIII-21 e XX-2, estão expressamente condenados tais sacrifícios, e Amós, V-26, alude aos falsos deuses conduzidos pelos israelitas ao deserto, (Letourneau, L.a Fsychologie Ethnique, edição Schlelcher Frères, Paris, 1901, pág. 326 e Martin I<e8 Civilisations Primitives en Orient, ed. Didier, 1861, pág. 432):
“O mais monstruoso desses ídolos era Moloc, o mesmo descrito por Diodoro, falando de Saturno dos cartagineses:
“Uma estátua de bronze representando Kronos (Saturno), tendo as mãos estendidas e inclinadas para a terra, de modo que as crianças que lhe eram depostas nas mãos caíam, rolando, em um sorvedouro de fogo.
Jeremias, XXXII-35, verbera esse culto:
“Edificaram os altos de Baal, que estão no vale do filho de Hinnom, para fazerem que seus filhos e suas filhas passassem pelo fogo a Moloc.”
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:08 pm

VII - A MORTE DE SARGON

Fatigados e profundamente agitados, Sargon e Keniamun chegaram a Tebas.
Haviam viajado com toda a celeridade possível, porque o príncipe hiteno fervilhava por fazer seu relato à rainha.
Certamente, a notícia de que Neith estava viva deveria encher seu coração de júbilo, e ele conhecia bastante Hatasu para estar seguro de que a libertação da jovem esposa e a punição dos delitos de Horemseb, castigo que abrandaria a sua sede de vingança, não se fariam esperar.
Munido dos papiros que continham a correspondência com Neftis e um traçado da planta do palácio e dos jardins, traçado feito durante a viagem, Sargon rumou para a residência real, e, sabendo, com satisfação, que Chnumhotep estava de serviço, pediu para vê-lo Imediatamente.
O chefe das guardas recebeu-o com tanta alegria quanto surpresa.
— De onde surges tu, Sargon?
Pensamos que o Nilo te engolira.
E que péssimo semblante! — acrescentou, apertando-lhe a mão.
— Lá, onde estive, o ar era detestável; mas, não é de mim que se trata:
devo falar imediatamente á rainha, revelar-lhe factos da mais alta Importância.
Poderei ser recebido?
— A rainha está na sala particular, com Tutmés.
Vou pedir suas ordens — respondeu Chnumhotep.
Após ligeira espera, que pareceu interminável â impaciência de Sargon, o chefe das guardas reapareceu.
— Segue-me. Sua Majestade aquiesce em receber-te — disse ele, conduzindo-o, através de uma sala e pequena galeria, até junto de um reposteiro listrado de ouro e branco, que suspendeu.
Achou-se Sargon num salãozinho, do qual um dos lados era aberto para um pátio interior, plantado de acácias, palmeiras e arbustos cheirosos.
A folhagem desta luxuriante vegetação penetrava no aposento, por entre as colunetas pintadas, formando como que um gradil de frescura e perfume.
Junto de dourada mesa de cedro, colocada sobre estrado, de pintura vermelha, estavam sentados Tutmés e Hatasu, com um tabuleiro do jogo de damas posto entre ambos; mas, o anúncio de Chnumhotep havia interrompido a partida, e o jovem príncipe tamborilava com os dedos no dito tabuleiro, mostrando descontentamento, e o olhar desceu com desdenhoso rancor sobre o hiteno, que se prosternara após haver transposto o limiar.
— Levanta-te, Sargon, e dize o que de grave tens a comunicar-me — falou a rainha, benevolamente.
— Filha de Ra, tua sabedoria decidirá do valor de minha narrativa, porém o que tenho a proferir somente por teu ouvido pode ser escutado — respondeu Sargon, fixando Tutmés, com olhar sombrio e significativo.
O príncipe ergueu a cabeça, e um relâmpago de cólera iluminou seus negros olhos.
— Fala sem temor; o Faraó meu irmão tem a minha plena confiança — disse a rainha, acomodando-se na mesa e endereçando amistoso olhar a Tutmés, que, satisfeito e reconhecido, se havia levantado, e, após lhe apertar a mão, apoiou-se no encosto da cadeira.
— Pois que o ordenas, minha gloriosa soberana, falarei para desvendar-te crimes inomináveis — começou Sargon, depois de hesitar brevemente.
É de Neith que se trata.
Ao nome da desaparecida, a rainha estremeceu e seu olhar se velou.
— Que soubeste sobre o seu destino?
— Ela vive, porém está em poder do príncipe Horemseb.
Este criminoso homem, possuidor de um veneno desconhecido, mas terrível, que submete a ele a alma e os sentidos das suas vítimas, enfeitiçou Neith, que arde de amor por ele.
Actualmente, ele a mergulhou num sono maléfico, pois, insensível qual morta e apesar de viva, dorme desde há algumas semanas num pavilhão oculto do jardim.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:08 pm

— Tens consciência da gravidade de semelhante acusação contra um membro da família real? — atalhou suspeitosamente Tutmés.
É mais admissível que um homem belo e sedutor, qual o é Horemseb, conquistasse o coração de Neith, sem sortilégio algum, e ela o tenha acompanhado voluntariamente e se esconda no palácio precisamente para te evitar, a ti, Sargon, o esposo que ela jamais amou e cuja feroz paixão já uma vez lhe pôs em perigo a vida.
Um clarão de ódio mortal percorreu os olhos sombrios de Sargon.
— O que avanço, posso provar, Faraó.
Disfarçado em escravo, introduzi-me na habitação desse príncipe, nódoa do Egipto, espionei sua vida íntima, descobri seus crimes e seus segredos.
Sei que, com a ajuda e sob a direcção de um velho sábio, cultiva venenosa planta cujo sumo expande um aroma atordoante e escraviza quem o respira a brutais paixões.
Atira rosas vermelhas, saturadas desse veneno, a quantas deseja ligar a ele por insensato amor, e ele próprio traz sobre si um perfume que as atrai invencivelmente, e, ainda, quando saciado de suas torturas, assassina as desgraçadas, sacrificando-as a um ídolo impuro que ele adora, renegando as divindades do seu povo.
Oh! minha língua se recusa a relatar todos os horrores de que fui testemunha.
Foi uma das vítimas do nigromante, miraculosamente fugida do seu poder, quem me pôs no caminho da verdade.
Essa mulher, de nome Neftis, ajudou-me, e eis aqui a correspondência que mantivemos, durante a minha estada na mansão de Horemseb — acrescentou o narrador, fixando irónico e dissimulado olhar ao rosto subitamente pálido de Tutmés, que estremecera, ao nome de Neftis.
— Conta, em minúcias, tudo quanto viste e apreendeste, pois desejo tudo saber — ordenou Hatasu, com a voz enrouquecida de emoção, arrebatando das mãos de Sargon as tiras de papiros, antes que ele se ajoelhasse para lhas entregar.
Com satisfação cruel, prelibando antecipadamente a vindicta que se apropinquava, o moço hiteno relatou abreviadamente as revelações de Neftis, o plano que concertara com ela, Ísis e Keniamun, e bem assim a maneira pela qual penetrara no palácio dos dois bruxos.
Em compensação, descreveu pormenorizadamente tudo quanto surpreendera da vida de Horemseb, de suas relações com Tadar, o misterioso sábio e guardião da planta nefasta, dos sacrifícios humanos que ambos ofereciam a Moloc, e, finalmente, mencionou as festas nocturnas e as orgias inauditas com que se recreava o príncipe e às quais obrigava Neith a assistir, mau grado o horror da infortunada, horror que lhe desfigurava as feições.
— Desgraçada criança!
Serás liberta e vingada — explodiu Hatasu, trémula de emoção e cólera.
Sem perder minuto, vou dar ordens para que sejam presos os dois miseráveis, e farei julgar as iniquidades que excederam a paciência dos Imortais.
Quis erguer-se, mas Tutmés, cuja palidez aumentara no decurso da narrativa de Sargon, curvou-se vivamente e pôs a mão no braço de Hatasu.
— Minha soberana e irmã, inclino-me sempre ante a tua vontade, guiada por uma superioridade de espírito que reconheço; mas, por esta vez, antes de tomar resolução definitiva, permite-me algumas ponderações.
Não será lamentável imprudência entregar ao poder dos padres um príncipe ligado à nossa casa?
Esses homens, insolentes e ávidos de poderio, não deixarão decerto fugir este ensejo de se apossar da imensa fortuna de Horemseb e humilhar a família real, condenando um de seus membros a morte infamante.
Reflecte, igualmente, em que, se o escândalo se tornar público, o pânico se espalhará no povo, que passará a enxergar em toda parte malefícios, e esse segredo perigoso, conhecido somente de Horemseb neste momento, tornar-se-á espólio de todos; as rosas que ele atirava, e que talvez se conservem em poder dos parentes das vítimas, tomar-se-iam, nas mãos dessa gente, terríveis armas a serviço dos seus interesses.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:09 pm

Enfim, por derradeiro argumento, farei observar que essa Neftis, denunciante do príncipe (cujo principal feitiço é talvez a sua formosura), pode, quiçá por ciúme, ter inventado muitas coisas, pois a amante abandonada e exasperada é capaz de tudo.
Suplico-te, Hatasu, confia-me o inquérito deste caso:
eu te restituirei Neith, destruirei a planta venenosa e porei fim a esta história, sem repercussão e sem nisso imiscuir os padres.
A rainha escutara, com atenção, o especioso plano desenrolado pelo jovem príncipe:
a ideia de ser juiz único em tal assunto de família, com exclusão dos sacerdotes, evidentemente agradava ao seu carácter íntegro e imperioso.
— Tu és muito jovem! — ponderou, entretanto.
— Se temes que me falte prudência e severidade, associa Semnut — rogou Tutmés.
Com ele e alguns homens devotados, irei a Mênfis, e faremos Inquéritos secretos.
Se Horemseb for culpado, verdadeiramente, de tudo quanto o acusam, se merecer a morte, morrerá, mas sem ruído, e a honra de nossa raça permanecerá pura de opróbrio e de mácula, porque, qualquer que seja sua culpa — é nosso sangue que lhe corre nas veias.
Só nós podemos julgar, e tu condená-lo; os padres nada têm a fazer aqui, e eu executarei fielmente cada uma das tuas ordens.
Com agitação sempre crescente, Sargon acompanhara a conversa entre irmão e irmã, não duvidando de que Tutmés queria intervir neste caso, para impedir a descoberta da sua cumplicidade com a infeliz Neftis; de que o príncipe, que por esse mesmo veneno havia conquistado o posto que desfrutava, jamais usaria para com Horemseb a merecida severidade, e deixá-lo-ia fugir talvez.
O pensamento de que, graças a este Tutmés, tendo no momento, ao pescoço, um colar que sabia provir de Neftis, o miserável que lhe roubara Neith, que pisara aos pés todo o sentimento humano, — estaria a salvo da desonra e da justiça — tornando inócuo o pesado sacrifício — esse pensamento deu vertigens em Sargon.
— Rainha — exclamou em voz destimbrada — há crimes tão grandes que a punição deles deve ser proporcionada.
Empenhando minha vida nesse perigoso empreendimento, jurei que, se os Imortais me protegessem, arrastaria esse indigno nigromante através das ruas de Tebas, coberto de correntes e de opróbrio.
Que caia sobre ele a colheita do que semeou!
E tu, Faraó Tutmés, não te encarregues de um julgamento que poderia ser muito pesado aos teus ombros:
recusarias e abrandarias, talvez, ante o perfume das rosas rubras e dos colares enfeitiçados que encadeiam a alma e a vontade das mulheres.
O tom e olhar que acompanharam estas palavras fizeram subir um fluxo de sangue ao rosto de Tutmés.
— Insolente! — gritou fora de si.
Teu ciúme contra Horemseb te cega ao ponto de ousares intrometer-te na conversação de teus senhores!
Depois, dobrando-se de todo para Hatasu, que via surpreendidíssima a alteração e o furor de ambos, disse:
— Minha irmã e soberana, em sinal de teu favor e confiança, de que não desmereci, concede-me, na qualidade de primeiro príncipe do sangue, regular este assunto de família.
Sargon, que seguia cada um dos movimentos, compreendeu o intento de Tutmés:
o aroma enervante do colar devia atingir o olfacto da irmã e submeter a vontade independente e enérgica de Hatasu.
Insensata raiva devorou Sargon, deixando-lhe vivido apenas um pensamento:
destruir a todo custo o sortilégio que lhe ia furtar a vingança.
— Abaixo o feitiço pelo qual captas a afeição da rainha!
Que ela saiba qual a razão por que acobertas Horemseb e temes o processo — gritou Sargon.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:09 pm

E não se diga que um Faraó de Egipto governa — em vez de por sua vontade — pelo malefício de um bruxo!
Atirou-se feito louco, para Tutmés, e, pegando-lhe o colar, lho arrancou com tal violência que os anéis, quebrados, e os amuletos se espalharam por todo o recinto, e o dono cambaleou, soltando um grito.
— Ah! bando de traidores! — disse a rainha, voltando-se lívida e medindo o irmão com olhar faiscante.
Nem a minha pessoa respeitaste.
Agora compreendo a rosa vermelha!
Tutmés, que contemplara como que aparvalhado os pedaços do colar, pareceu tornar a si.
— Víbora, caluniador, morre! — rugiu ele, destacando da cintura um punhal.
E antes que Sargon, a quem não poderia ocorrer a ideia de nada semelhante em presença da rainha, pensasse em defender-se, caiu-lhe em cima, qual tigre, e lhe afundou a arma no peito.
O hiteno tombou com selvagem grito.
— Acudi, meus guardas — gritou estridente a rainha.
E vendo Tutmés erguer o braço para desferir segundo golpe, agarrou-o e lhe tirou a arma, com a força e destreza das quais ninguém a Julgaria capaz.
Espumando, doido de ira, Tutmés refez-se e difícil seria prever o subsequente, se nesse minuto não fosse aberto o reposteiro e no limiar da porta não surgissem Chnumhotep, arma em punho, seguido de numerosos oficiais e soldados.
Ante o quadro visível, o chefe das guardas pareceu de inicio petrificado, mas, dominando-se, determinou que fossem vedadas todas as saídas, e depois, com os companheiros, postou-se junto da rainha, aguardando ordens.
Punhal ainda na mão, Hatasu continuava de pé, muda e imóvel qual uma escultura, os grandes olhos sombrios fixados, coruscantes, sobre o Irmão, que, inseguro quanto um ébrio, se apoiava fortemente na mesa.
Nem por um instante a denodada mulher perdera a presença de espírito, e apenas o arfar tumultuoso do seio e o tremor nervoso dos lábios denotavam que uma, borrasca se desencadeava no seu íntimo.
Durante alguns segundos, temível silêncio reinou na câmara; depois, Hatasu arremessou a arma sangrenta, e, avançando um passo para Tutmés, disse, em voz alterada:
— Sai daqui!
E não ouses aparecer ante meus olhos, sem seres chamado.
Eu te farei saber a minha resolução.
E, até lá, Chnumhotep, que o príncipe não se mova do seu apartamento, sem ordem minha, formal.
Responderás por isso com a tua cabeça.
Tutmés soltou estrangulada exclamação e caminhou para a porta; mas, talvez porque o acesso de fúria que tivera reagisse mui violentamente sobre a sua nervosa constituição, de súbito, cambaleou e caiu desfalecido.
Enquanto o transportavam, sob a vigilância do chefe das guardas, a rainha ajoelhou junto de Sargon e apoiou o ouvido sobre o peito do ferido.
Imediatamente, estremeceu e levantou-se, lestamente.
— Respira ainda; depressa, chamem médicos.
E vós outros, levantai-o.
Ergueram Sargon e estenderam-no, com precaução, num leito de repouso, e a rainha, ela própria, bandou provisoriamente a ferida, com uma faixa tomada a um dos oficiais.
Tiglat, o velho médico hiteno, acorreu em primeiro lugar, e, fundamente emocionado, curvou-se sobre o apunhalado.
— Oh! rainha, todo o socorro humano é inútil; a ferida é mortal — disse dolorosamente.
Um sábio egípcio, chegado nesse interregno, confirmou o diagnóstico.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:09 pm

Sombria, supercílios franzidos, Hatasu não havia abandonado a cabeceira de Sargon.
— Quanto tempo viverá ainda?
Recobrará o conhecimento e possível lhe será, então, falar e responder às perguntas de um conselho extraordinário? — perguntou, em alterada voz.
— Resistirá até ao pôr do sol, e, segundo creio, recobrará os sentidos - respondeu o médico egípcio.
Se ordenares, Faraó, dar-lhe-emos remédios que animarão as derradeiras forças vitais e lhe permitirão falar.
— Fazei tudo quanto estiver em vosso poder para lhe dar a força de repetir, ante o Conselho, o depoimento que há pouco me prestou.
Enquanto os médicos se desvelavam junto de Sargon, Hatasu passou para a câmara contígua, onde estava reunida, silenciosa, verdadeira multidão de oficiais e cortesãos, ansiosos e perturbados todos, porque a notícia de uma extraordinária cena no apartamento real circulara em todo o palácio.
— Ameni! — chamou a rainha.
Um jovem cortesão, já agraciado com um colar de honra, aproximou-se, respeitoso.
— Envia imediatamente mensageiros aos Grandes Padres dos principais Templos, a Semnut, aos Antigos do Conselho Secreto e ao chefe dos escribas da minha mesa, com ordem de se reunirem aqui — imediatamente.
Ordena aos mensageiros irem correndo — acrescentou ela, com um olhar que deu asas a Ameni.
Sem atentar nos cortesãos ali reunidos em assembleia, voltou costas e regressou para a cabeceira do ferido, observando, silenciosamente, os esforços dos médicos para reanimá-lo.
Ao fim de meia hora, Sargon reabriu os olhos, e surdo gemido saiu-lhe da boca.
Imediatamente, Tiglat soergueu-o com precaução, enquanto o padre lhe aproximava dos lábios o copo cheio de uma beberagem preparada.
Tendo ingerido, Sargon pareceu reconfortado e seu olhar se avivou.
Então, Hatasu ergueu-se, e, ordenando aos médicos afastarem-se para o outro extremo da câmara, curvou-se para o ferido.
— Reúne tuas forças, pobre filho para repetires quanto me disseste ante um Conselho extraordinário que vai reunir-se — murmurou ela.
Teu depoimento será a perda do miserável sacrílego.
Apenas, não menciones que Tutmés usou o aroma contra mim.
Selvagem clarão de alegria animou os olhos do moribundo.
— Silenciarei sobre o sacrilégio ousado contra ti; mas, prometes-me, Faraó, não agraciar o infame?
Frio e cruel sorriso deslizou fugitivo pelos lábios de Hatasu.
— Tranquiliza-te: serás vingado.
Por agora, basta; não te esgotes.
Cerca de trinta minutos se escoaram em profundo silêncio, quando Semnut apareceu, pálido e inquieto, e anunciou à rainha que os dignitários convocados estavam reunidos, aguardando ordens.
A rainha tomou algumas breves deliberações, executadas prontamente.
O leito do ferido foi posto no meio do aposento, a poltrona real ao lado, e bem assim alguns tamboretes para os mais velhos dignitários, e sobre uma esteira colocados os apetrechos necessários para escrever.
Terminados tais preparativos, ingressaram os do Conselho.
Hatasu, então, levantou-se e disse, em tom firme:
— Veneráveis servidores dos deuses, e vós, fiéis conselheiros, eu vos chamei para que ouçais da boca do próprio acusador os crimes e sacrilégios que ele atribui ao príncipe Horemseb.
Chamados a velar pela justiça e respeito devidos aos Imortais, vós deliberareis e pronunciareis, em seguida, a vossa decisão sobre o assunto.
Agora, aproximai-vos, porque a voz do ferido é fraca, e tu, Nebsuon, prepara-te para tomar por escrito o depoimento do príncipe Sargon.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:09 pm

Depois de todos agrupados junto do leito, Semnut soergueu o enfermo, e, acomodando-o, sustentado por almofadas, lhe disse:
— Fala agora; os veneráveis homens reunidos aqui estão prontos para te ouvir.
Narra com a maior exactidão, porque aquele a quem acusas é um membro da família real.
Com a voz fraca, entrecortada, porém audível, começou a narrativa.
Quando o fôlego lhe escasseava, o médico acudia com a bebida reanimadora das forças do agonizante.
Ao chegar ao culto prestado a Moloc, exclamações de horror e de assombro irromperam de entre os egípcios; mas, mortal palor cobria a fisionomia de Tiglat.
Tendo, com esforço, terminado o depoimento, Sargon descaiu, sufocado, nas almofadas.
— Ar! Afogo-me! — murmurou ele, ao fim de alguns Instantes.
Levem-me à sotéia, por derradeira vez: quero ver o céu!
— Quais são tuas ordens, Faraó, para um caso tão extraordinário? — perguntou um dos Grandes Sacerdotes, dominando a tumultuosa agitação, excitada pela denúncia inaudita de Sargon.
— Quero que a justiça siga seu curso tão inexoravelmente como se se tratasse de um “parachite”(21) — respondeu Hatasu.
Ficai aqui e discuti as medidas a tomar, enquanto velo os últimos minutos daquele que acaba de prestar tão Imenso serviço ao Egipto.
Durante esse colóquio, vendo todos afastados, Tiglat abaixou vivamente para o ferido, e disse-lhe, vibrante na voz:
— Traidor, que atraiçoas teu deus, e entregas à morte um homem venerável de teu povo; sê maldito!
Um rancoroso lampejo de desprezo Iluminou os olhos, melo extintos, do hiteno.
— Esse deus que nos entregou à destruição e me deixa matar qual a uma fera das selvas, esse deus eu renego e detesto! — murmurou ele.
E, presa de debilidade, calou.
A rainha aproximara-se e, por sua ordem, o ferido foi acomodado numa cadeira de encosto e alguns homens vigorosos conduziram-no à sotéia, retirando-se depois.
Ela e Semnut foram os únicos a ficar junto do moribundo.
O olhar embaciado de Sargon divagou pela paisagem que se estendia a seus pés:
o Sol ia sumir na curva do horizonte, espectáculo maravilhoso naquelas regiões; dir-se-ia que a Natureza desdobrava todos os seus esplendores a fim de tornar mais penoso para o desgraçado moço o adeus à vida; num céu deslumbrante, marmorizado de veios róseos, rubros, metálicos, unindo-se, por uma faixa iluminada de verde, ao horizonte azul-safira, o astro-rei descia rapidamente, transformando em feérica paisagem a Terra, que ia abandonar.
Como que por último adeus, tudo se iluminou, e, sob esse céu de jóias, todas as construções pareciam de ouro, os campos e os jardins de esmeralda, o deserto ao longe, qual ametista imensa, cuja moldura de colinas se fundia na bruma.
— Destino misérrimo que me fez nascer livre nas bordas do Eufrates, para trazer-me ao Nilo e morrer escravo! — ciciou ele, com indizível amargura.
A rainha acercou-se mais e apertou-lhe a mão, com uma lágrima em pérola nos longos cílios.
— Pobre filho!
Quis fazer-te ditoso, mas meu poder é vão ante a fatalidade que destruiu teu destino.
— Eu te agradeço, Hatasu, tua bondade para comigo jamais me abandonou, e disso darei testemunho a Naromath, quando avistar a sua sombra.
Contra a sorte que podias tu?
Liberta Neith, não a deixes entre as mãos do ímpio.
— Podes duvidar?
Demais, eu te juro.
Que derradeira mensagem devo transmitir à tua viúva?
Não creias que ela tenha pretendido fugir de ti; Neith é vítima do sortilégio; eu sei que ela desejava reparar sua imprudência infantil e ser junto de ti uma esposa afectuosa e dedicada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 09, 2017 8:10 pm

Fraco sorriso luziu nos lívidos traços do moribundo.
— Diz-lhe que a amei acima de tudo no mundo, e que morri para libertá-la.
A voz faltou-lhe; sanguinolenta espuma subiu-lhe à boca, seguida de uma torrente de sangue rútilo.
Retesou-se, olhos parados; ligeira convulsão sacudiu seu corpo.
Depois, inteiriçou-se, e não se moveu mais.
— Tudo terminou, Faraó: está morto! — disse Semnut.
A rainha, que recuara vivamente, nada respondeu.
Seu obscurecido olhar voltou-se para o céu, cujas últimas tintas de azul-anil se fundiam nas trevas; mas, instantes depois, passou a mão pelos olhos, e se refez.
— Vou descer.
Tu, Semnut, encontra-me na câmara do Conselho, logo que hajas dado ordens com relação ao morto.
Toma cuidado para que o corpo do príncipe seja embalsamado como se procede com as múmias realengas.
Quando a rainha reapareceu entre os dignitários, compreendeu, pelas fisionomias afogueadas e pela agitação de todos, que a discussão fora das mais vivas.
— E então? Que haveis deliberado? — inquiriu ela, retomando seu posto.
Ranseneb, que substituía o Grande Sacerdote de Amon, acamado desde algum tempo, aproximou-se respeitosamente.
— Somos de aviso, Faraó, que convém, em primeiro lugar, prender o culpado.
Para tal fim, uma comissão, de tua escolha, deverá ir a Mênfis, e, conjuntamente com Amenófis, visitar o palácio e apoderar-se da pessoa do príncipe e do seu cúmplice.
— A meu ver, um criminoso da têmpera de Horemseb não se deixará agarrar facilmente:
é bastante atrevido para recuar mesmo diante de rebelião declarada — observou um velho dignitário do Conselho Secreto.
Por detrás dos sólidos muros está como se fosse numa fortaleza; os seus escravos são numerosos, e defender-se-á.
— É mister, pois, para prevenir toda eventualidade, que a comissão disponha de força armada — disse Hatasu.
Ranseneb, é a ti que designo para dirigir o inquérito em Mênfis.
Amanhã, darei todas as ordens indispensáveis, e, à tarde, o Conselho reunir-se-á novamente, para decidir em definitivo sobre as últimas medidas a adoptar, e escolher os membros componentes da comissão que acompanhará o profeta.
Tudo deve ser feito depressa, a fim de que nenhuma notícia advirta o criminoso.
Ficando só, a rainha isolou-se; mil diversos sentimentos trabalhavam-lhe a alma.
A notícia de que Neith, a filha que tanto pranteara, estava viva, inundava-a de júbilo; o pensamento de que Tutmés, o insolente rapaz, ousara enfeitiçá-la, e depois assassinar — ante ela própria — o irmão de Naromath, fazia fervilhar-lhe o sangue.
Mas, pouco a pouco, todas essas sensações fundiram-se em odienta ira contra Horemseb.
Para castigar o audacioso, que se atrevera pôr as impuras mãos sobre a filha querida, o sacrílego instigador de tantos crimes, nenhuma tortura lhe parecia suficiente.
À simples lembrança dele, os dedos da rainha crispavam-se e implacável crueldade empedernia-lhe a alma.
Na tarde desse agitado dia, já a informação dos acontecimentos sobrevindos no palácio real se espalhara na cidade, e esses mesmos Informes, engrossados, amplificados, desfigurados até, encheram de surdos rumores a imensa Capital.
Um fundo de verdade transpirara, em consequência da indiscrição de funcionários subalternos, e a notícia de que Sargon morrera, assassinado no decurso de sangrenta rixa com Tutmés — em presença da própria rainha, corria de boca em boca, com as variantes cada vez mais inverosímeis.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:48 pm

Alguns acreditavam em conspiração abortada pelo hiteno, o que confirmava a convocação extraordinária do Conselho, reunido em palácio, dando Ideia de que a rainha havia perecido, boato que acarretou congestionamentos de gente defronte ao palácio; mas, a presença de Hatasu, que, em liteira, acompanhada do costumeiro séquito, rumara para o templo, aquietara o povo.
Outros narravam que Sargon, para vingar-se do exílio, tentara assassinar a rainha, no que fora impedido por Tutmés, enquanto outra versão pretendia, bem ao contrário, que Tutmés pretendera matar a irmã, e Sargon havia perecido em defesa de sua protectora, após haver, durante a luta, ferido gravemente o herdeiro do trono, tendo sido Tutmés levado, sem sentidos, para seus aposentos.
Quem primeiro imiscuiu no misterioso caso o nome de Horemseb foi difícil constatar, mas, bruscamente, o príncipe nigromante passou a desempenhar, no acontecimento, papel preponderante.
Contava-se, com arrepios, que Horemseb havia raptado e matado a bela Neith; que estava acusado de enfeitiçamento, de sacrilégio e de outros crimes inomináveis, e a lembrança da morte violenta de tantas moças, vítimas do seu louco amor, ressuscitou em todas as memórias, e apenas a Inexplicável querela entre Sargon e Tutmés tornava embrulhadas as variações do ocorrido.
Era admissível, também, que a descoberta dos delitos do feiticeiro fosse a causa de mortal combate em presença do Faraó.
Enquanto essas estranhas e contraditórias novidades circulavam e eram discutidas nas ruas, agitação bem maior ainda reinava nos palácios:
Satati, ao despertar, ouvira de Pair uma parcela da verdade; em seguida, este, indo à casa de um padre, seu parente, obtivera detalhes ainda mais circunstanciados, corroborados pelas notícias que ela directamente colhera na Corte.
Neith estava viva, e isso fazia que o casal se enchesse de alegria.
Embora por motivos diferentes, ambos consideravam a jovem mulher — fonte e garantia da fortuna deles.
Mena, que estivera de serviço nessa noite em palácio, chegou ao lar multo depois do meio-dia e excitou surpresa na tia, pelo aspecto concentrado e pela indiferença demonstrada com relação aos acontecimentos que apaixonavam toda a Tebas.
Após um novo giro, à. noite, o oficial declarou que urgente assunto reclamava-o em distante propriedade, e que, tendo obtido licença para isso, partiria na madrugada.
Em outra ocasião, Satati suspeitaria qualquer mistério na conduta do sobrinho, mas, naquela oportunidade, tanto quanto o marido, estava muito preocupada para reparar em Mena.
Agitação bem maior ainda devorava Roant; em vez de regressar, à noite, terminadas as obrigações, o esposo enviara-lhe lacónica missiva, anunciando que ocorrências imprevistas o retinham ainda em palácio, e que ela não se devia inquietar.
Apesar desta final recomendação, Roant estava atormentada por mil suposições, e, pela manhã, quando o rumor público lhe chegou ao conhecimento, o temor e a curiosidade aumentaram.
A visita de duas amigas havia levado ao auge sua inquietude, pois essas duas mulheres, esperançadas de conhecer a verdade por intermédio da esposa do chefe das guardas, sem dúvida melhor informado do que ninguém, passaram à visitada todas as extravagâncias com que se matizavam a notícia da morte de Sargon e da descoberta dos delitos de Horemseb.
Ficando só, Roant andou e reandou nos aposentos, com ansiedade sempre progressiva.
Chnumhotep não viria mais, para confirmar ou desmentir tudo quanto acabara de ouvir?
Finalmente, o passo, lesto e firme, do chefe das guardas ressoou na primeira sala.
Toda perturbada, Roant correu ao seu encontro, e, sem mesmo reparar que o marido não viera sozinho, atirou-se-lhe ao pescoço.
— Afinal, chegaste!
Oh! Diz-me a verdade a respeito de tudo quanto estão narrando.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:49 pm

— Se soubesse a verdade, eu mesmo estaria bem satisfeito — respondeu ele, meio a rir, meio agastado.
Enfim, posso dar-te duas notícias certas:
Neith vive e Sargon morreu.
E agora, torna a ti, e saúda Keniamun, que não sabe mais do que todos, a respeito do belo Horemseb, que, parece, é um canalha sem rival no mundo, até o dia de hoje.
Algo confusa, Roant saudou Keniamun, que parecia triste e pensativo, e, em seguida, guiou os dois homens para o terraço, onde vinho e pastéis aguardavam-nos.
— Aqui estamos ao abrigo de indiscretos; dizei ambos:
Então é possível tal ventura? Neith está viva?
— Sim, está viva, porém não te rejubiles demasiado — respondeu Keniamun, enquanto Chnumhotep enchia um copo com vinho.
Actualmente, a inditosa se encontra mergulhada em sono enfeitiçado, que não é nem vida, nem morte.
Conseguirá despertar? Ainda é uma pergunta.
Sargon, que se introduzira no palácio, disfarçado em escravo, descobriu-a, tentou em vão reanimá-la.
— Deuses imortais! Horemseb será em verdade um feiticeiro? — exclamou Roant, perturbadíssima.
— Pior do que isso:
é um envenenador, que cultiva certa planta embruxada, da qual o sumo excita louca paixão por ele; rosas rubras, temperadas com tal veneno, são ofertadas às vítimas, e, quando delas se farta, assassina-as, bebe-lhes o sangue ou as sacrifica a um horrendo ídolo hiteno.
Por vezes, faz-se adorar como se fosse ele próprio um deus, e, para que nenhum servo possa traí-lo, ele os mutila, cortando-lhes a língua.
Mas, deixa-me narrar-te, em minúcia, tudo quanto sei...
E Keniamun descreveu o que ouvira de Neftis e de Sargon sobre a vida do bruxo.
— O espírito recusa conceber tão espantosos crimes — murmurou Roant, que escutara, pálida e como que petrificada.
E que se fará agora?
— Uma comissão, da qual farei parte, por ser uma das principais testemunhas, vai seguir para Mênfis — respondeu Keniamun.
Saía eu do palácio, aonde fui chamado para prestar depoimento, quando teu marido me encontrou.
— Mas, qual foi afinal a causa da morte de Sargon?
Contam-se a esse propósito tantas versões, que é impossível destrinçar a verdade — disse a jovem mulher.
— Sobre isso, não compreendo coisa alguma, embora haja sido uma das primeiras testemunhas da aventura — comentou Chnumhotep, pensativo.
Ao grito de chamada, dado pela rainha, nós nos precipitamos no aposento; Sargon já estava caído no chão, num mar de sangue; Hatasu, toda fremente, segurava na mão o ensanguentado punhal de Tutmés, e, este, como que enraivecido, parecia querer atirar-se sobre ela.
Que havia acontecido?
É difícil adivinhar.
Quando a rainha o fez prisioneiro, ele desmaiou, e desconheço o que ocorreu em seguida, porque recebi ordem de guardar à vista Tutmés.
Disseram-me apenas que Sargon, reanimado pelos médicos, fez ante o Conselho seu arrasador depoimento.
— Será que Tutmés, tão orgulhoso que é, arrebatado pela cólera, matou o hiteno, ante a audaciosa acusação contra um parente da família real? — observou Roant.
— Pode ser; embora, quanto a orgulho, a irmã valha o irmão, a verdade é que Hatasu abandonou Horemseb à Justiça, sem restrições; ordenou seja o processo instruído com a maior severidade, sem nenhuma consideração pela sua hierarquia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:49 pm

— Desgraçado Horemseb, que terrível sorte te aguarda! — exclamou Roant, emocionada.
— Guarda a tua compaixão para alguém mais digno do que esse celerado — disse, no momento, uma voz, vibrante e irritada.
Todos se voltaram, surpreendidos.
— Roma, tu? Sabes já que Neith está viva? — exclamou Roant, correndo para o irmão.
— Viva, talvez; que vale, porém, uma vida metade destruída pelo veneno? — respondeu o sacerdote, com amargura.
Seu semblante, tão doce e tão calmo, exprimia agora uma cólera concentrada, uma dureza rancorosa que jamais se lhe notara.
— De resto, as revelações de Sargon não me causaram surpresa; desde há muito eu desconfiava a verdade.
Apenas, os indícios eram muito ténues para permitir-me acusar.
Agora é diferente, e já fiz minhas declarações a Ranseneb, que corroboram as do hiteno, e deixei em suas mãos as provas palpáveis da culpabilidade de Horemseb.
Notando o espanto dos seus ouvintes, Roma relatou, abreviadamente, as circunstâncias que o haviam levado à pista das rosas vermelhas, e os indícios que, pouco a pouco, tinham feito concentrar as suspeitas sobre Horemseb.
— Pobre Sargon, seu devotamento e sua coragem foram verdadeiramente sublimes, e sua morte resgata os erros com relação a Neith — concluiu Roma, suspirando.
— Também sua memória será rodeada de honrarias — informou Chnumhotep.
A rainha ordenou o embalsamento igual ao das múmias da casa real, custeará os funerais, e Ranseneb declarou que todo o clero assistirá à cerimónia, cumprindo os ritos, e dirá as preces usitadas para os príncipes de raça, o que o finado mereceu, pelo serviço que prestou à religião, desvendando um sacrilégio abominável, e renegando, por isso mesmo, o deus impuro e sanguinário do seu próprio povo.
— Sim, ele bem mereceu das divindades do Egipto; mas, uma outra razão me traz — disse Roma.
A comissão segue amanhã, e porque devo acompanhá-la, vim despedir-me de vós.
— Já amanhã? — exclamou Keniamun.
Julguei que somente dentro de três dias partiria, e ignorava mesmo que nos acompanharias.
— Eu solicitei, embora Ranseneb me houvesse escolhido, à revelia.
£ compreensível que eu deseje rever Neith e reconduzi-la para aqui.
Quanto à partida, está sendo acelerada o quanto possível:
Ranseneb arde por assentar a mão sobre o sacrílego.
— E também sobre a sua fortuna, que será presa dos templos — acrescentou Chnumhotep, com malicioso sorriso.
Enquanto Keniamun, o chefe das guardas e esposa continuavam a discorrer a respeito da incrível aventura, Roma sentou-se, e, apoiando os cotovelos sobre a mesa, abismou-se em profundo cismar:
verdadeiro temporal de sentimentos sanhudos, desesperados, ciúme, se desencadeara na alma pura e harmoniosa do jovem sacerdote; previa o áspero combate que o aguardava, a pungente dor de ver a mulher amada preteri-lo por um outro, sob a acção do terrível veneno, do qual ele mesmo já experimentara o poderio.
E, ao pensamento de que o abominável criminoso lhe roubara o ídolo, para manchá-lo, e de que, gota a gota, havia derramado o veneno e a corrupção na alma honesta e cândida de Neith, seus punhos se crispavam, e, sem piedade, teria entregue Horemseb às mais bárbaras torturas.
Nenhuma punição era bastante severa para esse assassino de almas.
Que cenas espantosas, que vícios repugnantes tinham manchado o olhar, que sentimentos abomináveis haviam assolado quiçá todo o ser da jovem mulher, que ele, Roma, respeitara, não abusando nunca do poder que o amor lhe dava sobre ela?
Quanta paciência e abnegação, quanta luta íntima contra seu legítimo ciúme precisaria suportar, antes de erguer, purificar, curar tudo quanto o monstro havia pisado, ferido e destruído?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:49 pm

A voz de Keniamun, que se despedia, arrancou o sacerdote aos pungentes pensamentos.
Ergueu-se, igualmente, e, pouco depois do oficial, deixou a residência da irmã.
Necessitava ainda concluir preparativos para estar em condições de embarcar na manhã seguinte.
Alguns dias após a partida da comissão para Mênfis, a rainha achava-se, sozinha, em um gabinete do apartamento particular.
Esse retiro favorito, das horas de liberdade, estava, em grande parte, consagrado à lembrança de seu pai, Tutmés I, cuja memória era sagrada para Hatasu.
Ao fundo do aposento, em um nicho, via-se a estátua do falecido rei; em prateleiras, estavam reunidos objectos que lhe haviam pertencido, alguns troféus que trouxera das campanhas, enquanto pinturas, cobrindo as paredes, ilustravam os altos feitos do Faraó, suas vitórias nas margens do Eufrates e suas caçadas.
Os diversos objectos, armazenados nessa câmara, provavam que o móbil espírito da ocupante recreava-se por diferentes maneiras:
ali figuravam engenhos de caça e pesca, planos e modelos do túmulo em construção na cidade-morta, e bem assim dos anexos destinados ao templo de Amon-Ra.
Uma grande harpa, de vinte e quatro cordas, maravilhosamente incrustada, jazia a um canto, e um trabalho feminino pousava sobre um tamborete; mesa de expediente, sobrecarregada de papiros e tabuinhas, instalada junto da janela.
Silêncio profundo reinava no gabinete e nas câmaras circunvizinhas, quebrado apenas pelo roncar sonoro do lebreiro favorito da rainha, que dormia em grande almofada, listrada e de franjas nos dois extremos.
Recostada no alto espaldar da sua poltrona, Hatasu reflectia, mas, os supercílios contraídos, seu olhar sombrio, lábios fortemente plicados, demonstravam que os pensamentos eram desagradáveis.
Realmente, a deliberação que tomara, e se preparava para comunicar ao irmão, custava viva luta íntima.
Sempre o olhar voltava a um papiro aberto e revestido da sua assinatura.
Ao ruído de um caminhar, ora rápido, ora hesitante, que se aproximava, Hatasu retesou-se.
Sabia tratar-se de Tutmés, a quem não mais avistara desde o fatal dia da morte de Sargon.
Pouco depois, a cortina bordada a ouro foi afastada, e a elegante estatura do príncipe apareceu na moldura da porta.
Visivelmente, estava mais magro e pálido; seu semblante, carrancudo e taciturno, dizia claramente não esperar nada agradável dessa entrevista com a real irmã; mas, nos olhos brilhantes e na ruga da caprichosa boca, alternavam-se a pertinácia e a resolução desesperada de encarar o inevitável.
Evitando o olhar claro e perfurante da rainha, andou para ela, e, sem fazer a saudação de estilo, cruzou os braços, e, em soturno tom, disse:
— Chamaste-me: eis-me aqui, minha irmã! — falou, acentuando as duas últimas palavras — Que desejas dizer-me?
Hatasu franziu levemente as sobrancelhas, mas o rosto permaneceu impassível, quando disse, calma e severa:
— Obstinação e insolência, em lugar de humildade e arrependimento, é o remédio eficaz, quando não se pode negar; é o recurso dos poltrões, que temem uma justa punição.
Ah! muito me enganei contigo, supondo que, com o sangue, herdaras as qualidades de alma do teu glorioso pai, o qual, armas na mão, triunfava dos Inimigos e conquistava o mundo, rei pela audácia, tanto quanto pela origem!
E “tu”, seu filho, filho que sonha ser um dia Tutmés, o Grande, armado de colares enfeitiçados e de flores envenenadas é que abres caminho tortuoso para o poder?
Por haver usado tais meios, vergonha sobre ti e sobre o sangue real que te corre nas veias!
A medida que escutava, púrpura violácea invadiu as faces do príncipe; vergonha e raiva insensata sufocavam-no.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:49 pm

Arfante, espuma nos lábios, por instantes não pôde falar.
Depois, torrente de palavras sofreadas e incoerentes acudiu-lhe.
Afinal, dominando-se, com esforço, balbuciou, em voz refreada:
— Corta-me a cabeça, mas não me insultes; prefiro ser morto do que ridicularizado por uma mulher.
Hatasu observara, sem pestanejar, o louco acesso de ira, e, com a mesma serenidade severa vibrando na voz, respondeu, erguendo a mão:
— Basta! Torna a ti, insensato, e cala, quando a tua soberana te fala.
Não tenho necessidade da tua cabeça, menino estúpido, que pões a tua honra à mercê de uma rasteira mulher que vende filtros e está ligada a uma tenebrosa teia de crimes!
Tens necessidade, eu vejo, de uma escola mais rígida do que a vida da Corte, para seres digno do poder.
Vice-rei da Etiópia, ensaiarás tuas forças; não esqueças, pois, desde este momento, que não é mais o rapaz malcriado, e sim o primeiro funcionário do reino que se acha em presença do seu Faraó.
Ao título de vice-rei da Etiópia, um assombro incrédulo desenhou-se primeiramente no expressivo rosto de Tutmés; depois, acalmando-se súbito, disse, com respeitosa gravidade, que trouxe leve sorriso aos lábios da rainha:
— Não olvido na presença de quem estou; apenas observo que teu irmão, o vice-rei da Etiópia, como acabas de chamá-lo, não deve ser denegrido e desconsiderado em sua presença.
— Não foram as minhas palavras, e sim teus próprios actos que te desconsideraram; mas, quero esquecer o tom estranho das tuas observações.
— Sempre fui obediente executor das tuas ordens, minha irmã — ponderou Tutmés, enrubescendo.
Minha falta única foi usar o encantamento, sem dele jamais abusar, contentando-me com a tua amizade, sem te inspirar um louco amor, o que me seria tão fácil!
— És especioso na desculpa; apenas, desta vez, fazes de teu interesse uma virtude — respondeu, com ironia, a rainha.
Não sou suficientemente jovem para que me desejes na qualidade de mulher, e, em contrapeso, meu amor e meu ciúme seriam os mais incómodos do mundo para um jovem libertino.
Agiste sabiamente, preferindo a minha amizade enfeitiçada, que te proporcionaria facilmente todos os favores desejados.
Agora, basta, sobre esse incidente: o que passou, seja esquecido para sempre!
Horemseb pagará os abusos provocados pelo filtro que inventou, e tu seguirás, dentro de três dias, para assumir o cargo, com teu séquito, do qual designarei a metade, deixando-te livre a escolha do resto dos teus companheiros.
É muito perigoso ter junto de si um irmão armado de filtros de amor.
Quem sabe? Terás ainda em reserva esse irresistível meio de êxito?
— Não; hão.
Actualmente, eu próprio me horrorizo disso — exclamou, vivamente, o príncipe.
— Tanto melhor! — disse a rainha, estendendo-lhe o papiro aberto diante dela.
Eis a tua nomeação; torna-te digno da minha graça.
Tu havias posto em minhas mãos terrível arma, enredando-te nesse criminoso caso; nunca me faças arrepender de haver resguardado tua vida, arriscando quiçá a minha própria.
O feitiço agia ainda em mim?
Não sei, mas não quis destruir-te.
Tutmés ajoelhou e recebeu, respeitosamente, o precioso rolo de papiro, que lhe restituía liberdade e poderio.
— Perdoa-me, Hatasu — disse, voz baixa — e despede-me sem cólera.
Nossa amizade, ai de mim! era enfeitiçada, mas o poder do filtro é recíproco, minha irmã; esse malefício que me salvou, também me impedirá de estender a mão contra tua coroa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:50 pm

— Se ele te inspirar paciência para aguardares, honestamente, que eu desapareça, e então subires ao trono dos teus progenitores, esse filtro terá prestado serviços a nós e ao Egipto — disse a rainha, com melancolia.
Sabes que és meu herdeiro, a esperança da gloriosa raça de Tutmés.
Vai agora preparar-te para a partida, e possam os deuses assistir-te e conceder êxito em tudo que empreenderes no país para onde te envio!
Tutmés, sempre ajoelhado, pegou a mão da irmã e a beijou, com respeito e gratidão; depois, despediu-se e retirou-se alegre, cabeça erguida; sua natureza elástica reconquistara todo o aprumo.
Hatasu permaneceu imersa em sombria quimera, e, olhar fixo na efígie do rei, murmurou:
— Cumpri minha palavra!
Acontece o que tem de acontecer!

(21) PARASHITE - Na classe dos embalsamadores profissionais, aquele que, no preparo das múmias, era o encarregado de dar o corte lateral, no cadáver, para retirada das vísceras.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:50 pm

VIII - DERRADEIRAS VÍTIMAS

Depois da partida de Horemseb e de Neith para Sais, o velho sábio, que os havia acompanhado ao embarque, reentrou, precipitadamente, no palácio.
Sombrio e preocupado, subiu ao mais alto telhado liso e examinou, atento, o céu estrelado.
E, quanto mais estudava os astros e calculava os símbolos traçados sobre um papiro, mais seu semblante se anuviava e assumia expressão de ansiosa cólera.
- Só trevas; constelação terrível; presságio de desgraça e morte - murmurou.
É evidente que forças inimigas o carregam, e Horemseb não reingressará senhor neste palácio.
Ele não quis fugir; é que o destino inexorável lhe obscureceu a razão.
Fatalidade maldita!
Quando penso que mais dois anos de tranquilidade ainda, teriam bastado para ultimar a grande obra, a conquista da vida eterna!
Seus dentes rilharam e os fechados punhos ameaçaram o invisível.
Tadar estava horrendo nesse momento; o frenesi interior retorcia e sacudia-lhe o corpo ossudo, e seus angulosos traços, seus profundos olhos reflectiam ira e malvadez infernais.
Ao fim de alguns minutos, pareceu acalmar-se; passou as mãos pelo rosto e estirou os braços.
- A tarefa, em vez de perder tempo precioso! - falou a si mesmo.
Enrolou o papiro que consultara e desceu à sua câmara.
Ali, pegou pequena ânfora, que escondeu na ampla vestimenta, e fez misteriosa excursão pelas despensas do palácio, o que lhe custou quase uma hora.
Ao voltar, chamou Chamus, o qual, com Hapzefaá e todos os homens válidos, trabalhava na demolição da pirâmide.
- Deixai esse trabalho; vós o reiniciareis amanhã, quando eu o ordenar - disse.
Agora, é mister dar descanso aos homens, que devem regressar aos seus alojamentos.
Vós, Hapzefaá e Chamus, segui-me, e bem assim todos os eunucos e vigias, à sala de refeição.
Quando ali reunidos, Tadar falou:
- Tomai cada um os preciosos copos que se acham nos aparadores, enchei-os com o vinho das ânforas.
Bebei e guardai os copos, dádiva que vos faz o príncipe Horemseb, em retribuição do vosso zelo em servi-lo neste momentâneo dissabor que o atinge.
Se continuardes fiéis e não revelardes, a quem quer que seja, tudo quanto tiverdes visto aqui de anormal, ele vos recompensará mais generosamente, quando regressar, pois compreendereis que um parente do Faraó se desenvencilha de qualquer embaraço e de qualquer calúnia.
Contentes e surpresos de tal munificência régia, os homens beberam, protestando fidelidade e devotamento, e retiraram-se para descanso.
- Agora sereis fiéis e discretos, tenho certeza - murmurou Tadar, irónico.
E ainda vos poupei a tortura, que talvez vos soltasse a língua.
Regressou ao aposento e despiu a ampla vestimenta branca, da qual fez um pacote, cingindo-se com o avental de pano grosso e pondo o ?claft? de homem do povo.
Depois, atirando às costas o saco onde enfurnara diversas coisas, dirigiu-se ao jardim, que atravessou em toda a extensão.
Habilmente disfarçada em espesso mato bravo, havia pequena porta secreta, de cuja existência ninguém Jamais desconfiaria, e que, aberta, lhe deu passagem a um segundo abrolhal, não distante das bordas do Nilo.
Tadar margeou o rio, sem encontrar viva alma, pois ainda era noite, e todos evitavam as vizinhanças do palácio encantado.
Sem estorvo, esquadrinhou os caniçais e achou pequena barca, na qual, agarrando os remos, rumou célere para o lado oposto.
Tendo costeado a cidade-morta até seus últimos confins, encostou em local escondido, ocultou o barco e prosseguiu pedestremente.
Após fatigante e rápida marcha, chegou próximo de uma cadeia de rochas, nas quais se viam, aqui e ali, negras aberturas, rasgões hiantes de velhas tumbas violadas por malfeitores.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:50 pm

A região era selvática, deserta, de total desolação e supersticioso horror para aqueles que ali se aventurassem, porque ali repousavam, em milhares de túmulos, gerações desaparecidas, contemporâneas das primeiras dinastias faraónicas.
No entanto, mais de um habitante de Mênfis deslizava misteriosamente rumo desse desolado local, porque lá vivia um homem que, na cidade, desfrutava, mais ou menos, da mesma fama que Abracro conquistara em Tebas.
Era igualmente um feiticeiro, aparecido ali pouco depois do regresso de Tutmés I da sua campanha na Ásia.
A voz pública tinha-o por hiteno liberado ou fugido, de qualquer modo, do senhor que o trouxera, e o tipo do mago, sua tez clara, e o sotaque estrangeiro com que falava um vernáculo egípcio mui defeituoso, confirmava a suposição.
Não se conhecia o nome do incógnito, e, por isso chamavam-lhe o ?homem da montanha?, e o mistério que lhe cobria o viver envolvia-o de supersticioso temor, o que lhe dava mais segurança do que a de uma escolta.
Desde sua aparição, o desconhecido da montanha não mais deixara o sítio solitário que escolhera para residir.
De que se alimentava?
Era também mistério, porque jamais fazia compras e não aceitava, absolutamente, qualquer remuneração de quantos tinham coragem de vir solicitar-lhe conselhos.
Tal desinteresse e a fama de extraordinário saber atraíam-lhe clientes, embora bem menos numerosos do que os de Abracro.
Chegado perto de um conjunto de rochas, Tadar escondeu-se e emitiu, com perfeição, o prolongado grito de um pássaro nocturno, e idêntico som fez-se ouvir em resposta, som que, permutado três vezes, em sinal, fez que o sábio encetasse, a correr, caminho para a cadeia de rocha.
À metade da distância, encontrou o solitário, que o saudou, com respeito.
- É a prevista desgraça que te traz hoje, venerado mestre?
- Sim, Spazar; tudo vai muito pior do que eu julgava.
Entremos, porém, depressa, porque estou exausto de fadiga.
Haviam chegado junto da montanha.
Spazar, seguido do sábio, rastejou, com as mãos e joelhos, por entre fragmentos da rocha e grandes pedras; depois, ergueu uma cortina de espinhos e penetrou em longo e escuro corredor.
Após muitas viravoltas, em completa escuridão, Spazar empurrou uma lousa de pedra, que girou sobre si mesma, e ingressou, com o companheiro, em uma cova bastante espaçosa, iluminada por lâmpada.
Era antiga sepultura, composta de duas câmaras sepulcrais, que o hiteno havia adaptado para habitação; o ar, embora pesado e aquecido, era respirável.
Quem deitasse um olhar à segunda das duas divisões, não se admiraria de que o bruxo não comprasse mantimentos, pois lá se achavam amontoadas provisões consideráveis; carnes defumadas e salgadas, frutas secas, queijo, mel, etc., e bem assim grandes ânforas de óleo, vinho e cerveja.
A fonte de tal abundância era Horemseb, que autorizara Tadar a suprir seu compatriota de tudo quanto necessitasse.
Cada mês, o velho sábio, durante a noite, transportava para lá todo o suficiente, e, depois do temor da descoberta, Tadar escondera no refúgio de Spazar os seus mais preciosos haveres.
Na primeira câmara, confortavelmente mobiliada, Tadar se estendera num leito de repouso, e, reconfortado por um copo de vinho, narrou a Spazar os recentes acontecimentos.
- Se Horemseb estivesse comigo, neste seguro tecto, eu não desesperaria do futuro; mas, o insensato preferiu fazer derradeira tentativa para salvar a posição, e receio que, nessa empresa, ele venha a perder a cabeça.
Em qualquer conjuntura ? concluiu o velho sábio, com um suspiro ?, ele conhece o caminho do teu retiro, e aqui se refugiará, em caso de necessidade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:50 pm

No dia seguinte ao desta agitada noite, cerca de seis horas da tarde, muitos barcos, ocupados por padres e militares, chegaram a Mênfis:
era a comissão incumbida de proceder a inquérito no palácio de Horemseb, chegada de Tebas algumas horas mais tarde do que previra Mena.
Enquanto Ranseneb, Roma e seus companheiros sacerdotais se encaminhavam ao templo de Ápis, para combinações com o Grande Padre Amenófis, e comunicar-lhe o depoimento de Sargon, Antef, com o destacamento que comandava, dirigiu-se à cidade para entregar uma ordem real ao comandante de Mênfis.
Keniamun ficou, para localizar a flotilha, que devia manter-se à parte, sem comunicação com pessoa alguma.
Estava ele incumbido igualmente de prevenir Neftis e fazer uma visita ao esconderijo do muro, para colher as últimas notícias.
No dia seguinte, à alvorada, propunha-se forçar a entrada no palácio.
O oficial começava a subir a rua que, do rio, conduzia ao interior da cidade, quando, com grande espanto, viu Hartatef, que, sombrio e preocupado, caminhava ao lado de uma liteira fechada, que quatro homens carregavam com precaução.
Keniamun aproximou-se célere e bateu no ombro de Hartatef.
- Pensei estares ainda em teu posto ? disse, após as primeiras saudações.
Que transportas tu nessa liteira, com tanto mistério, se a pergunta não for indiscreta?
- Terminei minhas ocupações mais cedo do que esperava, e nessa liteira se encontra uma jovem ferida que os meus pescaram, esta noite, no Nilo, e eu levo para Tebas, para onde regresso.
Sem esperar permissão de Hartatef, Keniamun pegou e ergueu a cortina da liteira, e, ao primeiro olhar para o interior, recuou, pálido, exclamando, com abafada voz:
- Ísis!
- Conheces esta mulher, que murmura incessantemente o nome de Horemseb? - indagou, vivamente, Hartatef.
- Sim, e não é a Tebas que deves conduzi-la, e sim ao templo de Ápis imediatamente:
salvaste uma terrível testemunha contra o bruxo!
Mas, ainda não sabes nada; vou pôr-te ao corrente dos factos, e depois tu me dirás onde e de que modo encontraste esta pobre criaturinha.
Keniamun relatou, abreviadamente, a morte de Sargon, seu depoimento, disse que Neith estava viva, e ainda que um inquérito se preparava.
Súbito rubor cobrira as faces de Hartatef, ao ouvir as extraordinárias notícias.
- Suspeitava tudo isso, desde há muito, e não me equivoquei, desconfiando que os deuses haviam posto em minhas mãos terrível arma contra o miserável.
Eis de que maneira isso aconteceu:
Voltava eu, ontem à noite, quando, aproximando-me de Mênfis, julguei ouvir sobre a água débil gemido.
Fiz parar e iluminar tudo em redor, e então foi vista esta mulher, agarrada a uma tábua, que largou no momento em que a apercebemos.
Pela minha gente, foi ela retirada, e, já em nosso barco, vi estar ferida gravemente.
Enquanto eu banhava o ferimento, reabriu os olhos e murmurou:
?Horemseb, não me mates!?
Tais palavras causaram-me alarma, e, porque o nome do nigromante lhe voltasse incessantemente aos lábios, resolvi tratá-la em minha própria casa.
Aceitando o conselho de Keniamun, Hartatef transportou o seu achado ao templo, onde os padres deram a Ísis todos os cuidados possíveis.
Algumas horas mais tarde, Keniamun, muito agitado, anunciou que Neftis, que saíra de casa, na noite anterior, não havia retornado.
Os primeiros raios do Sol douravam o horizonte, quando destacamentos de soldados sitiaram o palácio de Horemseb e bloquearam a saída comunicante com o Nilo, enquanto os padres, à frente de forte escolta, batiam na porta de comunicação com a cidade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 10, 2017 7:51 pm

Durante algum tempo, silêncio de morte foi a resposta aos golpes, e já se preparava o arrombamento, a golpes de machado, quando os ferrolhos foram retirados interiormente, e um jovem preto, tremendo, apareceu.
Interrogaram-no, mas, a todas as perguntas, respondia apenas não saber coisa alguma, e que, desde a noite precedente, o chefe dos eunucos, Chamus, o intendente Hapzefaá e todos os vigias haviam desaparecido.
Quanto ao senhor, jamais o avistara.
- Pressinto que vamos descobrir algum novo crime - disse Amenófis, ordenando ao escravo indicar o caminho da habitação do intendente.
Com tanta estupefacção quanto horror, a comissão constatou que o intendente, todos os eunucos e vigias estavam mortos, evidentemente envenenados, porque os corpos não apresentavam nenhum traço de violência, nenhum ferimento; os infortunados pareciam pacificamente adormecidos.
Então, os padres ordenaram a todos os seres vivos existentes no palácio se reunissem em um dos pátios, e, bem depressa, um rebanho tremente de homens e mulheres agrupou-se; mas, o interrogatório não trouxe, igualmente, resultado algum.
- Não sabemos nada; somos dançarinas e cantoras do senhor - repetiam as mulheres.
Outros, empregados em trabalhos grosseiros da casa, nunca haviam transposto o recinto reservado ao palácio; alguns homens, apenas, declararam terem sido levados ao jardim, duas noites antes, para demolir uma construção de pedra, mas o trabalho fora prontamente mandado cessar.
Quanto aos do serviço íntimo, tanto masculino, quanto feminino, eram invariavelmente mudos e também surdos, em parte.
Impossível se tornava obter algo, e já os da comissão se aprestavam para prosseguir na visita, quando da turba se destacou um rapazelho, que, prosternando-se, começou a traçar diversas letras no chão.
- Sabes escrever? - exclamou Ranseneb, admirado.
E, erguendo o adolescente, acrescentou, bondoso: Vamos dar-te tabuinhas.
Escreve nelas, se puderes, tudo que sabes de teu senhor.
Um escriba apresentou o necessário, e o jovem traçou:
- Anteontem, à noite, Horemseb seguiu para Sais, com a mulher chamada Neith.
Os padres permutaram olhares espantados.
Roma exclamou, impetuosamente:
- É preciso perseguir o facínora, e saber com que fim arrastou com ele a sua vítima.
Deixai-me libertar Neith!
- O que propões é justo, e nós disso te diremos, logo que esteja terminada a visita - respondeu, gravemente, Amenófis.
Regressados ao templo, interrogaremos a fundo este rapaz e obteremos informações que te auxiliarão a libertar mais depressa a infortunada moça.
No momento, ele nos servirá de guia, pois havendo pertencido ao serviço íntimo, deve conhecer os meandros deste covil.
Conduzidos pelo jovem escravo, cujo olhar faiscava de ódio satisfeito, os padres, oficiais e soldados penetraram na misteriosa casa onde Horemseb, durante tanto tempo, escondera a todos os olhares indiscretos seu estéril e criminoso viver, suas orgias e seus assassínios.
O palácio perdera, em grande parte, sua feição original:
as mil caçoletas estavam extintas, o ar purificado dos aromas atordoantes, os mais preciosos objectos desaparecidos, os servos adereçados não mais circulavam nos aposentos desertos.
Contudo, o luxo real do mobiliário, a arquitectura bizarra, a arrumação fantástica e toda particular, excitavam a cada instante o pasmo dos visitantes.
Pelo terraço, no qual tantas vezes Horemseb escutara os cânticos ou contemplara, sonhador, o fascínio da Natureza, e onde Chamus também lhe apresentara Kama, a inocente vítima que substituiu Neftis, a comissão penetrou nos jardins.
Lá, igualmente, se constatou que grandes modificações haviam ocorrido, depois da fuga de Sargon.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Romance de Uma Rainha II / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 4 de 8 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum