Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:49 pm

Dolores
Wera Kry zhanovskaia

J. W Rochester

CAPÍTULO I
CAPÍTULO II
CAPÍTULO III
CAPÍTULO IV
CAPÍTULO V
CAPÍTULO VI
CAPÍTULO VII
CAPÍTULO VIII
CAPÍTULO IX
CAPÍTULO X
CAPÍTULO XI
CAPÍTULO XII
CAPÍTULO XIII

VERA JVANOMA KRY ZHANOVSKAIA
Notas


Sobre a obra:
"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."
Há certas tramas habilmente colocadas em nossas vidas pela Providência Divina, numa inteligente oportunidade para resgate de débitos passados, que são dignas de novela!
Frutos da Lei que nos impulsiona ao progresso espiritual, as razões dessas situações inusitadas, ofuscadas pela vestimenta carnal, são sempre questionadas por nós, resultando numa inevitável cobrança à Justiça Divina.
Assim se sente Dolores, personagem principal desta nova obra de Rochester, agora trazida ao público.
Nossa bela heroína, filha mais nova da aristocrática família de Mornos, é uma altiva jovem de futuro promissor, que após infrutíferas tentativas de livrar a famí1ia da falência financeira, através do matrimónio, se vê obrigada a abdicar de seu grande amor, Alfonso, em favor de uma união indesejada que interessava apenas aos seus familiares.
A história se passa na Espanha e em Cuba no final do século XVIII em tempos de exploração do trabalho escravo, onde predomina o desprezo pela raça negra, tratada a chibatadas pelos senhores das fazendas.
Esse racismo custou caro à família de Mornos:
as leis da Acção e Reacção proporcionaram ao mulato José, filho ilegítimo e herdeiro de dom Fernando, tio de Dolores, a oportunidade de se vingar do pesado preconceito a que fora submetido.
Entretanto, num voluntarioso sacrifício, Dolores concorda em suportar as novas provações que lhe são impostas pela vida.
A partir dai, revolta e resignação, desespero e tolerância, ódio e amizade são os sentimentos que passam a se revezar no coração da linda moça, presenteando-nos com belas lições de amor e de justiça que se contrastam com as armações e as baixezas de seu irmão, dom Ramiro, intolerante, vingativo, orgulhoso, racista e um dos grandes responsáveis pelo destino de Dolores.
A doutrina espírita sabiamente nos esclarece sobre a origem de todos esses dissabores, oriundos de nossos próprios actos.
Assim, os fatídicos encontros entre "Josés" e "Dolores", de vida em vida, frequentemente são programados pela Espiritualidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:50 pm

E que lutas íntimas esses espíritos terão que travar para se unirem pelos laços do afecto!...
Sabemos que muitos livros de Rochester são sequências de vidas pregressas que narram, através dos dramas seculares, as histórias de um grupo de personagens que acompanhou o autor durante várias jornadas de experiências encarnatórias e do qual ele se fez tutor num importante compromisso firmado com a Espiritualidade.
A obra "Dolores", segundo afirma o prefaciador francês de "A Vingança do Judeu", estaria inclusa neste contexto e retractaria a última encarnação de Rochester, voltando a reunir esses mesmos personagens que constantemente preservaram seus instintos e atributos pessoais, ora ascendendo na escala evolucional, ora permanecendo estacionários, mediante as quedas probatórias às quais eram submetidos.
Infelizmente esta nova obra de Rochester, originalmente editada em Riga, na Letónia, anos após o desencarne da médium Vera Kry zhanovskaia foi reproduzida sem prefácio ou notas de rodapé que permitam identificar os conhecidos personagens dos livros anteriores.
Entretanto, é possível tentar identificá-los pela análise dos perfis e de comportamentos pessoais, inerentes à personalidade de cada ser encarnado.
Tomando Rochester como exemplo, percebemos claramente seu orgulho e sua impetuosidade no personagem José, da obra "O Chanceler de Ferro do Antigo Egipto", ou em Mernephtah, de "O Faraó Mernephtah", características comuns nos antigos soberanos.
Como o gladiador Astartos, da obra "Episódio da Vida de Tibério", e como o patrício Caius Lucilius, de "Herculanum", na Roma Imperial, destacam-se a vaidade e o orgulho que sentia por sua beleza e por suas conquistas pessoais, tendo ele inclusive se convertido e depois renegado a doutrina cristã.
Já a inteligência, a perspicácia, o espírito de vingança e, mais uma vez, o orgulho, são atributos do autor espiritual no papel do personagem Lotário de Rabenau, fundador de uma irmandade secreta, na obra "A Abadia dos Beneditinos".
Exactamente como o poeta John Wilmot, desperdiçou a vida em intrigas amorosas e se entregou à luxúria, desencarnando ainda jovem.
Entretanto, em todas as suas etapas reencarnatórias Rochester sempre procurou ter senso de justiça e nunca foi perverso ou cruel.
Tal era o perfil do estimado autor espiritual quando se dedicou à divulgação da doutrina espirita, auxiliando a tarefa de Kardec que esteve presente junto a ele em várias etapas existenciais.
Sobre a médium Vera Kry zhanovskaia também notamos traços característicos e comportamentais explícitos em alguns personagens.
Extremamente orgulhosa e corajosa, mas de certa forma justa e honesta, preferiu várias vezes a morte à submissão, a exemplo do que dizia a Tibério:
"Mata-me, tu não poderás fazê-lo duas vezes!"
Reencarnando como Asnath, na obra "O Chanceler de Ferro do Antigo Egipto", como Smaragda, em "O Faraó Mernephtah", no papel de Lélia, em "Episódio da Vida de Tibério", como Virgília, em "Herculanum", ou Rosalinda, em "A Abadia
dos Beneditinos", sempre despertou paixão em mais de um personagem, compondo um triângulo amoroso que via de regra contou com a participação de Rochester e de outro espirito considerado o verdadeiro amor de sua existência — integro, virtuoso e compreensivo conquistou sua confiança e seu coração em várias etapas evolutivas como, por exemplo, no papel de Marcus Fábius em "Herculanum".
É quase certo que em "Dolores" esta sua alma gémea tenha retornado na figura de Alfonso.
Já dentre os vilões, destacamos Tibério, personagem principal da obra "Episódio da Vida de Tibério", e Kurt de Rabenau, de "A Abadia dos Beneditinos".
O primeiro teve uma vida repleta de conhecimentos científicos na pele do egípcio Pinehas, de "O Faraó Mernephtah", os quais eram utilizados para satisfazer seus caprichos pessoais e sua louca paixão por Smaragda.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:50 pm

Retornando cerca de vinte e cinco séculos depois como o Conde Hugo de Mauffen, em "A Abadia dos Beneditinos", sua vida continuou dedicada ao prazer com requintes de crueldade, aliás, resquícios pregressos do cruel Imperador Romano.
E o segundo, espirito vil, infiel e perjuro, além de ter reencarnado como Kurt de Rabenau, da obra "Abadia dos Beneditinos", também aparece como Mena, na obra "Romance de Uma Rainha", Radamés, em "O Faraó Mernephtah" e Dafné, em "Herculanum", mostrando-se, continuamente, preguiçoso, egoísta, interesseiro e, por vezes, cruel, confiando sempre no perdão de Rochester, por cujos laços de amor está ligado, apesar da diferença de carácter e da distância evolutiva que os separam.
Bem, a estes "actores", cujas sucessivas vidas formaram o palco dessas grandes obras espíritas e confortaram o coração de inúmeros leitores, confessando penosamente seus erros, expondo seus mais íntimos sentimentos e retornando até hoje às experiências materiais em busca da Luz, rogamos a Deus que os ilumine nos caminhos da evolução espiritual e que trilhem na Paz, no Amor e em constante progresso moral.
É a eles que agradecemos e dedicamos esta edição de "Dolores".

António Rolando Lopes Júnior
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:50 pm

CAPÍTULO I
O castelo dos condes de Mornos situava-se numa das aristocráticas ruas de Toledo
. Embora tivesse sido construído luxuosamente, o palacete já apresentava lamentáveis sinais de abandono e depreciação, o que, aliás, era amenizado em parte pela exuberância do belo parque que se estendia por detrás dele.
Numa linda manhã primaveril de mil setecentos e setenta e dois, um grupo de crianças buliçosas brincava na areia diante de um amplo terraço sob os cuidados de um preceptor e de uma governanta.
Eram quatro meninos de seis a doze anos e uma linda menina de três anos, que era o centro das brincadeiras de seus agitados coleguinhas.
Os meninos carregavam-na num carrinho; depois viravam o brinquedo de ponta-cabeça e colocavam a menina em cima dele, como se fosse num trono.
Agora, ela passava a representar o papel de árbitro de um duelo e colocaria na cabeça do vencedor uma coroa de grama com flores que segurava nas mãozinhas numa cena muito engraçada.
A pequena rainha das brincadeiras infantis era Dolores, a única filha do Conde Pedro de Mornos.
Ela e sua mãe eram os seus ídolos, mas ele ainda tinha mais três meninos de seis, oito e dez anos que brincavam no grupo.
O mais velho de todos, no entanto, era Alfonso Vasconcellos, de doze anos, filho de um amigo do Conde.
As graves desavenças em farrn1ia obrigaram o pai a se separar do filho.
O senhor Vasconcellos decidira se divorciar da mulher, que o traía sem nenhum constrangimento, o que chocava toda a sociedade, mesmo numa época de total imoralidade.
Para livrar o menino do desagradável drama familiar, ele o deixou na casa do padrinho, o Conde de Mornos, que o estava criando junto com os seus há mais de dois anos.
Alfonso Vasconcellos era um menino muito bonito, sério e um tanto melancólico.
Tinha atracção por ciências e pela leitura e era muito amigo de Ramiro, o filho mais velho do Conde de Mornos, embora os dois tivessem temperamentos totalmente opostos.
Ramiro era impulsivo, voluntarioso, irritadiço e preguiçoso, enquanto seu amigo era assíduo, calmo e modesto.
Na brincadeira, os dois amigos duelavam com entusiasmo, usando todas as técnicas que o professor de esgrima lhes ensinara.
Alfonso atacava segundo as regras e rebatia as investi das sem perder a calma por um só instante.
Já Ramiro, estava muito exacerbado, desprezava todas as regras estabeleci das e logo conseguiu das armar o adversário.
Triunfante, Ramiro dirigiu-se a Dolores e, ajoelhando-se, exigiu seu prémio.
No entanto, a menina não se apressou em coroar o verdadeiro vencedor.
Apertando a coroa contra o peito, ela declarou que gostaria de entregá-la a Alfonso.
Ramiro, então, tentou arrancar a coroa das mãos de Dolores, que protestou gritando, mas Alfonso lançou-se em sua defesa.
A briga tornou-se tão ruidosa, que o preceptor e a governanta tiveram de interferir.
Naquele momento, apareceu no terraço um homem ainda jovem, alto e bem vestido e perguntou, descontente, o que significava aquele barulho.
Ao vê-lo, as crianças ficaram quietas.
Alfonso, como o mais velho, contou o que tinha acontecido entre eles.
— Vocês não têm vergonha de fazer tanta confusão sabendo que sua mãe está com dor de cabeça? — disse o homem, que era o próprio Conde.
E você, Ramiro?
É assim que segue as lições do senhor Gomez?
Você luta como um bárbaro, não como um fidalgo!
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:50 pm

Ao estabelecer a ordem, o Conde de Mornos beijou todos os filhos e, deixando o terraço, dirigiu-se ao "boudoir" da esposa.
Algo sério preocupava dom Pedro.
Ele parou, tirou do bolso uma carta e correu os olhos por ela; depois, pensativo, colocou- a de volta no bolso.
Com passos leves, entrou numa pequena sala forrada com cetim cor-de-rosa.
Num pequeno sofá, revestido de seda com estampa de flores douradas, estava deitada uma jovem mulher de penhoar branco de seda.
Era uma criatura maravilhosa, tenra como criança.
Seus grandes olhos azuis, orlados de cílios negros, pareciam duas safiras cintilantes.
Apenas uma terrível palidez e uma expressão doentia ofuscavam um pouco a beleza daquele rosto.
— Como se sente, minha querida?
Passou sua dor de cabeça? — perguntou o Conde, beijando a mão da esposa com ternura e sentando-se na poltrona ao lado dela.
— Obrigada, Pedro!
Agora estou bem.
A carta que recebi hoje de manhã me deixou um tanto perturbada, apenas.
Por isso, quero lhe fazer um pedido.
— Se o meu consentimento lhe satisfaz, já o tem de boa vontade.
Conte-me de que se trata — disse o marido, sorrindo ao ver que nos olhos azuis de sua mulher brilhara uma expressão de alegria e reconhecimento.
— Oh!... meu querido, muito obrigada! — exclamou contente a Condessa.
Recebi uma carta de minha boa amiga Ximena.
Seu marido faleceu sem lhe deixar nenhum meio de vida.
Parentes ela também não tem.
Por isso, resolveu entrar para o convento, mesmo não tendo vontade nenhuma.
Pois bem, gostaria de propor a ela que viesse morar connosco.
Apesar de ser mais velha que eu, sempre tive grande afinidade por Ximena e como agora fico doente e cansada com frequência, ela poderia me ajudar nos cuidados da casa e na educação de Dolores.
Você mesmo sabe como Ximena é inteligente e como são rigorosos os seus princípios.
— Aprovo totalmente sua intenção, minha querida, e peço que escreva a dona Ximena.
O dia de hoje está realmente muito estranho.
Também recebi uma carta, na qual me pedem para aceitar um novo membro em nossa família.
— Quem fez o pedido? — perguntou, surpresa, a Condessa.
— Fernando.
Como sabe, ele tem um filho ilegítimo que simplesmente idolatra e gostaria de dar-lhe uma educação decente.
Enfim, ele suplica que aceitemos seu filho José, de doze anos, e que o eduquemos durante alguns anos junto com os nossos meninos.
A Condessa ergueu-se rapidamente.
Um rubor cobriu seu pálido rosto.
— Está ele em sã consciência?!
Ousa pedir que eu admita o filho ilegítimo de uma escrava, um negro, em companhia de minhas crianças?!
Não! Isso realmente ultrapassa todas as fronteiras.
Primeiro, ele nos ofendeu, recusando a mão de minha irmã; agora, quer nos impor como um igual o filho de sua concubina.
Ouça, Pedro, me revolto e me oponho a isso categoricamente!
Uma profunda ira e verdadeiro desprezo soaram na voz da Condessa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:51 pm

— Não se altere tanto!
Novamente vai lhe doer a cabeça — disse o Conde com um tom conciliador.
Já que isso é tão desagradável para você, não insisto na admissão de José em nossa família.
Reconheço que é penoso para mim ofender Fernando.
Pensando nele, sempre sinto remorso.
Não fui eu quem lhe roubou a felicidade de sua vida?
Com aquelas palavras, dom Pedro apertou contra seus lábios a mão da Condessa com ternura.
— Cada um tem de ficar no lugar que Deus lhe destinou.
O lugar do pequeno mulato José é na cozinha do Conde de Mornos, não na sala.
O Conde não fez nenhuma objecção, conversou mais um pouco sobre outros assuntos e saiu.
Taciturno e preocupado, entrou em seu gabinete e sentou-se ao "bureau".
Ao terminar de redigir, foi até a janela e entregou-se aos pensamentos.
A carta do irmão trouxera-lhe mil lembranças:
todo o passado, quase esquecido, avivou-se novamente.
O pai de dom Pedro, Conde Rodrigo de Mornos, era um homem muito bonito e apreciava a boa vida.
Louco pelo jogo e pelas aventuras amorosas, abalou bastante a grande fortuna deixada por seus antepassados; quase indo à ruína, mas um acaso o ajudou:
conheceu uma jovem mestiça, muito rica, viúva de um fazendeiro cubano.
Dom Rodrigo era solteiro e ainda muito bonito, apesar de seus quarenta e dois anos.
Sendo assim, conquistou facilmente o coração da jovem mulher e casou-se com ela.
Dona Elvira Martinez era parente distante da família de Mornos e tinha um filho de quatro anos do primeiro casamento.
Seu falecido marido possuía muitas terras nas redondezas de Toledo, na Espanha, para onde ela viajou pretendendo tratar de assuntos de herança e, então, conheceu o Conde Rodrigo.
A maior parte da enorme fortuna de Martinez passara para as mãos de seu filho, o pequeno Fernando, mas a própria dona Elvira era rica o suficiente para tirar o novo marido dos apuros.
Se dom Rodrigo fosse capaz de se conter, bastaria alguns anos para apagar as sequelas de suas loucuras, mas ele continuava jogando e levando uma vida luxuosa, que excedia seus meios.
O nascimento do filho deixou o Conde muito feliz, mas não mudou seus hábitos.
Os pais adoravam o pequeno Pedro e o mimavam muito.
Quando ele completou vinte e um anos e Fernando vinte e cinco, o Conde Rodrigo contraiu tifo e faleceu.
A esposa, que cuidava dele com abnegação, contagiou-se também e, alguns dias depois, seguiu o caminho do marido.
O jovem Pedro de Mornos, que adorava os pais, ficou tão abalado que se rendeu totalmente à sua desgraça.
Mas, quando a vida obrigou-o a ocupar-se dos negócios e das propriedades do pai, soube, com pavor, que em lugar de uma grande fortuna sobraram-lhe apenas terras inférteis e dívidas enormes.
Ao saber das dificuldades financeiras do irmão, Fernando ofereceu-lhe ajuda, mas Pedro a recusou.
Os irmãos sempre foram amigos, mas o amor pela mesma moça esfriou seu relacionamento.
Os dois se apaixonaram por Dolores, filha de um rico fidalgo.
Mas, ela preferiu Pedro, o mais bonito.
Este golpe afectou fortemente Martinez, que teve uma crise nervosa e, ao se recuperar, decidiu ir morar em Cuba.
Depois da partida de Fernando, os contactos entre os irmãos tornaram-se cada vez mais raros e esfriaram completamente quando dom Pedro soube que Martinez havia se envolvido com uma de suas escravas, com quem tivera um filho, dando aos dois uma posição muito superior à condição deles.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:51 pm

O aristocrata orgulhoso achava muito natural que Fernando tivesse uma escrava como concubina, mas indignava-lhe a ideia de que ele tratasse aquela criatura de igual para igual e olhasse para o filho dela como seu legítimo herdeiro.
O Conde, então, escreveu uma carta ao irmão cheia de censuras e tentava convencê-lo a criar juízo e contrair um matrimónio decente.
Com esse intuito, lhe propôs que se casasse com Bianca, a irmã mais nova de Dolores, muito parecida com ela.
Para grande surpresa do Conde e profunda indignação de sua esposa, dom Fernando recusou, terminantemente, a proposta, declarando que queria ficar livre, pois na pessoa do pequeno José ele tinha um herdeiro a quem resolvera, irrevogavelmente, dar o seu nome e a sua herança, adoptando-o como filho.
Aquela carta esfriou definitivamente o relacionamento entre os irmãos.
A correspondência ficou mais rara ainda; por isso, a carta com o pedido para que aceitasse o pequeno José em sua família, que chegou três anos depois de um silêncio absoluto, foi uma verdadeira surpresa para dom Pedro.
Tal resposta àquela carta não restabeleceria, é claro, o bom relacionamento.
Então, a ligação entre os dois irmãos foi cortada, definitivamente.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:51 pm

CAPÍTULO II
Era um dia de outono de mil setecentos e oitenta e quatro.
No gabinete, onde outrora havia escrito ao irmão que se recusava a aceitar o pequeno José, estava recostado na poltrona o triste e meditativo Conde Pedro de Mornos.
Ele acabara de folhear um volumoso pacote de correspondências e de outros documentos, e a leitura daqueles papéis provavelmente o havia irritado.
Estava a tal ponto mergulhado em seus pensamentos, que não ouviu os passos rápidos e o tilintar de esporas.
Só quando uma voz sonora disse:
"Bom dia, papai!" é que ele estremeceu e respondeu num tom cansado:
— É você, Ramiro? Por que voltou tão cedo?
— Não quis mais ficar para jogar.
Dei a desculpa de que não estava me sentindo bem e vim embora logo que acabaram as negociações sobre a recepção do Duque.
— Quando chega Suzá?
— Na próxima segunda-feira.
No dia seguinte vão lhe oferecer um almoço de boas-vindas e, à noite, um grande baile.
Você, é claro, participará dos festejos, papai, pois Suzá é seu amigo.
— Na juventude, durante minha estada em Madrid, eu era muito próximo do Duque.
Depois, nosso relacionamento esfriou um pouco, porque Suzá também se apaixonou por sua falecida mãe.
Mas, depois do casamento, nós fizemos as pazes.
Desde então, nos perdemos de vista.
Sei que ele é viúvo e tem um filho quase de sua idade.
— Hoje nada se falou do filho dele.
Nem sei se também viria.
— Provavelmente não.
Ouvi falar que o jovem Duque é feio e vive isolado num castelo perto de Granada.
De repente, instalou-se um silêncio.
O jovem Conde andava pelo quarto, escrutando o pálido e sombrio rosto do pai que, novamente, mergulhara em seus pensamentos.
Ramiro de Mornos agora era um jovem de vinte e três anos, esbelto, de corpo bonito como o pai.
O silêncio do Conde o oprimia.
Finalmente, Ramiro parou na frente dele e disse com irritação mal contida:
— Diga-me, pai, que notícias você recebeu?
Não estaria tão triste sem motivo.
— O motivo é o mesmo, meu filho, exigências que não posso satisfazer.
Sempre o mesmo jogo.
Empréstimo para pagar a dívida, nova dívida para pagar o empréstimo.
Só Deus sabe como poderei sair dessa miséria, à qual nos levou seu infortunado noivado.
— Sim. A morte de Isabela foi um golpe, tanto para o meu coração quanto para nossos planos.
Mas, não se aflija, pai!
Sinto que tudo se arranjará.
Agora, ouça o que quero lhe propor a respeito de Dolores.
— Fale, o que quer dizer sobre sua irmã?
— Está na hora de tirá-la da reclusão em que vive.
Lembre-se, pai, que Dolores já tem quase dezasseis anos e já é tempo de mostrá-la à sociedade.
Ela é bonita e talvez consiga um bom partido.
— Já pensei nisso.
Mas, me segurava só de pensar nos gastos que traria essa alternativa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:51 pm

— Mais cedo ou mais tarde, você terá de fazer esse sacrifício.
O baile que a nobreza vai oferecer ao novo governador de Toledo é uma excelente ocasião para apresentar a menina à sociedade.
Ela vai impressionar muito; lá estarão cavalheiros de todas as províncias.
Sua toalete não vai custar tão caro assim, porque nas arcas que dona Ximena guarda como um dragão deve ter muitos tecidos, rendas e até jóias, que ficaram guardados depois da morte de nossa mãe.
Dom Pedro não conseguiu segurar o riso.
— Você tem razão! Diabos!
Admiro sua cabeça engenhosa.
Então, temos que avisar às damas que Dolores irá ao baile na próxima segunda-feira.
Dá tempo para lhe preparar um bom traje.
O velho Conde levantou-se.
Os dois dirigiram-se, através de uma galeria de quartos semi-escuros, à outra ala do palácio, onde vivia a jovem Condessa com sua preceptora.
Durante os últimos anos, dom Pedro passou por muitos infortúnios.
A morte da mulher deixou em seu coração uma daquelas feridas que nunca saram.
Ele, então, entregou-se à apatia e largou completamente os assuntos financeiros.
A falência do banco, ao qual confiara capitais consideráveis, e um terrível incêndio que acontecera na melhor das propriedades que ainda possuía, arruinaram-no definitivamente.
Mas, as desgraças não pararam por aí.
Ramiro apaixonou-se pela única filha de um vizinho, proprietário de terras.
O pai da jovem concordou com o casamento, pois era um antigo amigo do velho Conde e considerava seu filho um jovem digno.
O casamento seria uma grande felicidade para toda a família de Mornos, porque Isabela D'Alvarez não só era bonita e tinha um excelente carácter como traria também mais de meio milhão de dote.
Dom Pedro, que achava natural e necessário o desejo de o filho preparar para a mulher amada um ninho digno, não protestou contra os gastos desmedidos de Ramiro e ainda o ajudou a fazer uma série de empréstimos pesados.
Contando com a herança da noiva, os agiotas foram condescendentes daquela vez.
Aliás, tudo daria certo se um imprevisto não frustrasse todas as expectativas de Ramiro.
Ao sair de um baile, dona Isabela ficou resfriada e uma pneumonia forte consumiu-a em poucos dias, apesar de todos os esforços dos melhores médicos da cidade.
A morte da noiva não apenas assolou Ramiro, que a amava com paixão, como também desferiu um golpe irreparável na péssima situação do Conde.
Os credores tornaram-se impertinentes e o Conde de Mornos teve de se esmerar em manobras financeiras para rebater seus ataques.
A ideia de casar Dolores com algum aristocrata rico, então, agradou -lhe.
Num grande quarto, decorado no estilo do século XVII, inclinadas sobre bastidores, estavam duas mulheres.
Uma idosa, dona Ximena, que a falecida Condessa abrigou em sua casa, e uma jovem, Dolores, que tornou-se tão bela quanto era sua mãe.
A chegada de dom Pedro e Ramiro interrompeu o trabalho das damas.
Largando a agulha, Dolores correu para abraçar o pai e beijar o irmão.
Este pegou-a pela orelha e disse com malícia nos olhos:
— Se você soubesse que novidades estamos trazendo, ia pular até o tecto!
— Vocês querem me levar para assistir uma comédia? — perguntou Dolores com as faces ardendo.
— Muito melhor! Papai levará você a um grande baile que a nobreza dará em homenagem ao Duque de Suzá, o novo governador de Toledo, que está para chegar.
A moça deu um grito de felicidade e pôs-se a dançar pelo quarto todo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:52 pm

Ao ver o rosto descontente de dona Ximena, o Conde Pedro disse:
— Está esquecendo, minha amiga, que Dolores tem dezasseis anos e é tempo de pensar em seu destino.
Tenha a bondade, costure para ela um traje decente, usando tudo o que tem.
Depois de conversar sobre o horário da festa e sobre outros detalhes, os dois condes retiraram-se.
Dolores ficou embriagada de alegria.
A impaciência tomou conta dela de tal maneira que dona Ximena teve de ceder às suas insistências e, em seguida, ir ao quarto onde estavam as arcas com vestidos, tecidos, rendas e outras coisas de toalete, que pertenciam à falecida Condessa.
Os dias seguintes a jovem viveu como num sonho.
Com vivo interesse, ela seguia o trabalho das duas costureiras que faziam seu vestido.
Quando chegou o dia do baile tão desejado, bem antes da hora, ela já estava pronta.
Para conter sua impaciência e matar o tempo, ela não parava de se admirar no espelho.
O rumor de que o Conde de Mornos levaria ao baile sua única filha correu rapidamente entre os convidados.
Muitos sabiam da existência de Dolores, mas poucos a conheciam.
A surpreendente beleza da jovem Condessa surtiu enorme efeito.
Uma multidão de jovens cavalheiros a cercou, querendo ter a honra de convidá-la para dançar.
No começo, Dolores sentiu-se um pouco acanhada, mas sua desenvoltura logo voltou.
Ela tagarelava alegremente com o Marquês de Santos, quando, de repente, sua atenção foi atraída por um movimento estranho.
Todos os hóspedes abriram larga passagem e ela viu um senhor de idade que vinha fazendo reverências para todos os lados.
— É o novo governador — sussurrou a Dolores sua vizinha, quando o Marquês de Santos deixou-as apressado para cumprimentar o Duque.
Ao notar os dois condes de Mornos entre os convidados, o Duque foi em sua direcção e, em seguida, entabulou-se uma conversa animada entre eles.
O Conde de Mornos não demorou em apresentar seu amigo à filha e o Duque encantou-se com ela.
Dançou muito com Dolores e quase não a deixou durante toda a noite, o que provocou inveja e descontentamento entre as outras damas.
No dia seguinte, à noite, o Duque fez uma visita a Dolores para saber como ela se sentia depois do primeiro baile.
Levou consigo uma gigantesca bomboneira e um esplêndido buquê de flores.
A jovem aceitou os presentes com visível contentamento, pois ainda não estava acostumada à atenção masculina e o cortejo do Duque a divertia muito.
Passaram-se três semanas.
O Duque se excedia em gentilezas; cobria Dolores de flores, bombons; adivinhava seus mínimos desejos e se preocupava tão pouco em esconder seus sentimentos, que toda a cidade começou a falar de sua loucura pela moça.
Apenas Dolores nada percebia.
Ela ria das gentilezas de seu idoso admirador, não conseguia entender a tristeza de dona Ximena e aquele estranho tom de lamentação que transparecia em sua voz, quando ela, às vezes, dizia:
— Pobre, pobre criança!.
Finalmente, chegou o dia em que o Duque pediu ao Conde a mão de sua filha.
Dom Pedro, que já esperava por aquilo, deu seu consentimento, mas não sabia como falar com Dolores sobre o pedido de casamento.
Então, foi Ramiro quem se encarregou do assunto.
Primeiro, a jovem Condessa recusou, categoricamente, a proposta do Duque.
— Mas, ele é um velho!
Ele é mais velho do que papai! — exclamou ela, indignada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:52 pm

Espanta-me como você e papai podem me oferecer um marido desses!
Ramiro suspirou.
— Não tenho a menor vontade de influenciar você.
Quero apenas esclarecer-lhe nossa real situação.
Papai, evidentemente, não lhe disse nenhuma palavra sobre isso.
Em poucas, mas expressivas palavras, ele descreveu a história da ruína de sua família e falou a verdade sobre os meios que ainda mantinham o brilho externo e mal encobriam a miséria que Dolores, por sua inexperiência, até aquele momento não havia percebido.
Pálida e aflita, a jovem escutou o irmão em silêncio.
Mentalmente, ela acompanhava todas as penosas etapas da queda que os levara à falência total.
Parecia que uma nuvem de chumbo baixara sobre ela e encobria o radiante futuro com o qual sonhava.
Em sua alma inocente brotou a ideia e a convicção de que deveria sacrificar suas ilusões para salvar o pai e os irmãos de um futuro vergonhoso e miserável, pois nem por um minuto a riqueza e a grandeza a seduziam.
Depois de um longo silêncio, que Ramiro não se atrevia a romper, Dolores disse com voz desanimada:
— Diga a papai que aceito o pedido do Duque.
Depois, arrasada e assustada com suas próprias palavras, ela fechou o rosto com as mãos e chorou amargamente.
Uma hora antes do almoço chegou o Duque de Suzá.
Ele estava empoado e perfumado, cheio de embrulhos e bomboneiras.
Parecia que a felicidade o havia rejuvenescido.
Quando Dolores apareceu, ele beijou sua mão cortesmente e expressou o desejo de dar-lhe o beijo de noivado.
A jovem não protestou.
Mas, quando Suzá a beijou, lágrimas pesadas brotaram em seus olhos e escorreram pelas faces.
Os dias que se seguiram passaram-se para a jovem num turbilhão de festas e todo o tipo de diversões.
O casamento seria celebrado três semanas depois.
Nada estragava o bom relacionamento entre os noivos, porque a atenção refinada e os presentes do Duque divertiam Dolores.
Seu ego sentia-se lisonjeado.
Na véspera do casamento, o Duque, que demonstrava empolgação e vivacidade de um jovem, inventou fazer uma despedida de solteiro.
No palácio do governador reuniu-se uma numerosa elite.
O Duque estava numa tremenda euforia: recebia a todos de braços abertos, dando exemplo de animação.
O vinho fluía como água.
Suzá esvaziava um copo atrás do outro.
Havia um brilho febril em seus olhos.
De repente, ele empalideceu e balançou.
O que há com o senhor? — perguntou Ramiro, olhando para ele preocupado.
— Nada, nada, bobagem!
É uma simples tontura, respondeu o Duque, estendendo o copo ao serviçal, que o encheu em seguida.
Alarmado, Ramiro observava o Duque, quando, apavorado, notou que seu rosto tinha ficado vermelho e, logo depois, azulado.
O cálice que ele pretendia levar aos lábios caiu de sua mão trémula e o vinho derramou-se pela toalha.
Suzá recostou na cadeira de boca aberta e olhar vidrado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:52 pm

Armou-se uma confusão:
uns lançavam-se sobre o Duque, outros chamavam por médicos, os criados corriam atordoados.
Finalmente, Suzá, sem sentidos, foi levado para a cama.
O médico que o examinou, balançou a cabeça e disse que ele tinha sofrido um derrame dos mais graves e faleceu sem recuperar a consciência.
A morte do Duque chocou Dolores, mas, nos primeiros dias, a jovem não teve tempo de se entregar aos pensamentos.
Sendo noiva do falecido, ela deveria participar de todas as missas e outras cerimónias fúnebres.
Como estavam esperando pelo filho do Duque, o enterro foi adiado até a sua chegada e o corpo transferido para a catedral.
Aquela triste cerimónia impressionou profunda e penosamente a jovem.
Os olhares dirigidos a ela, curiosos e, por vezes, maldosos, desagradavam-na terrivelmente e ela esperava com impaciência a hora do enterro, depois do qual poderia se esconder da indiscrição malévola na solidão de sua casa.
Finalmente, na manhã do sexto dia após a morte de Suzá, Ramiro comunicou que o jovem Duque havia chegado à noite e que o enterro aconteceria naquele mesmo dia.
Pálida, mas encantadora em seu véu de luto, Dolores foi à igreja acompanhada pelo pai.
Quando chegaram, a catedral estava repleta de gente.
De cabeça baixa, sem olhar para ninguém, a jovem atravessou a igreja e ficou perto da essa, no lugar destinado a ela.
Absorta em pensamentos tristes, nem reparou no jovem pálido e levemente corcunda que se aproximou do pai e dirigiu-se a ele em voz baixa.
Só quando dom Pedro lhe disse:
"Dolores, permita-me apresentar-lhe o Duque Lui de Suzá", ela levantou os olhos e viu a magra e desajeitada figura do jovem nobre, que a cumprimentou gentilmente.
Ao ver a mulher que ia se tomar sua madrasta, o Duque estremeceu e suas faces pálidas coraram.
Passou, então, a não mais tirar os olhos do encantador rosto da jovem.
Quando a cerimónia terminou, ele aproximou-se do Conde e pediu-lhe permissão para ir à sua casa.
Em vez de voltar a Granada, como pretendia, o jovem Suzá ficou em Toledo e tomou-se visita frequente na casa dos Mornos.
E a situação acabou numa proposta de casamento do Duque a Dolores, que foi aceita, embora a jovem Condessa não sentisse nenhuma ternura pelo infeliz corcunda:
falava mais alto nela o interesse e o desejo de tirar a família da situação lamentável.
Mas, o destino parecia estar contra aqueles planos, pois uma semana antes do casamento, o Duque, nadando no rio, de repente se afogou.
Quando o tiraram da água, ele já estava morto.
O falecimento do segundo noivo abateu profundamente Dolores, mas ela continuou decidida a tirar a família da dificuldade.
Só que, por enquanto, não havia mais pretendentes.
Logo depois do Duque, faleceu dona Ximena.
Revirando seus pertences, Dolores achou algumas cartas de sua mãe e ficou sabendo através delas da existência de seu tio Fernando, que residia em Cuba.
Então, durante um jantar, ela perguntou ao pai sobre ele.
— Fernando é meu meio-irmão, filho do primeiro casamento de minha mãe com dom Enrico de Martinez — explicou o Conde.
Depois, em poucas palavras, contou-lhe a história de sua rivalidade com o irmão e o motivo de sua separação.
— Naquela época, foi duro para mim ofender Fernando — acrescentou ele — , mas sua mãe estava tão hostil àquele projecto que fui obrigado a negar o pedido dele.
Desde então, não recebo notícias e nem sei se ele está vivo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:52 pm

— Mas, se ele morreu, você deve receber a herança que ele deixou — observou Ramiro.
— Ah! Não!
Sem dúvida ele deixou toda a sua enorme fortuna para José, pois me escreveu uma vez dizendo que queria adoptá-lo.
— Mas, se ele é tão bondoso e magnânimo como o senhor diz, talvez possa ajudá-lo a sair dessa situação.
Por que não escreve e não renova o contacto com seu irmão?
Ele não deve ter guardado rancor por tanto tempo.
Já pensei várias vezes nessa saída, mas ela me desagrada de tal maneira, que não consigo escrever para Fernando.
Mas, por amor a vocês, meus pobres filhos, terei que fazê-lo, por mais pesada que seja essa tarefa para mim.
— Talvez tudo se arranje melhor do que imagina, papai — disse Ramiro.
O dinheiro que você precisa é uma ninharia para um milionário como tio Fernando.
Além disso, você lhe devolverá esse empréstimo.
Afinal, ele tem o dever de ajudar a um parente próximo que, pelo nascimento, é seu herdeiro, se é que tio Fernando é solteiro.
Ele já lesa você, deixando toda a sua fortuna para um filho ilegítimo — concluiu o jovem Conde e em seus olhos surgiu um brilho funesto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:52 pm

CAPÍTULO III
A fazenda de dom Fernando Martinez ficava a um dia de viagem de Havana.
Sua bela propriedade situava-se num lugar pitoresco e era famosa por seus excelentes pomares.
Certa tarde, quando o calor abrasador dava lugar a uma agradável brisa, numa das varandas estava um senhor pensativo e triste, com aspecto doentio, sentado numa poltrona de vime, mergulhado a tal ponto em suas meditações que não reparava no que acontecia à sua volta.
Não via os negros que passavam por ele silenciosos à espera de ordens, nem o homem num elegante terno de linho com um lenço de fular no pescoço, que tentava chamar sua atenção, levantando o chapéu de palha e fazendo modestas reverências.
Finalmente, uma tosse leve, mas insistente, tirou aquele senhor de seus pensamentos.
Ele ergueu-se e perguntou, distraído:
— Ah!... é você, dom Bartolomeu.
O que quer?
— Vim receber suas ordens, dom Fernando, a respeito dos dois negros foragidos que foram recapturados e trazidos hoje e também do relatório do inspector das minas sobre a necessidade de alguns reparos...
— Dirija-se a José.
Você sabe que confiei a ele todos os negócios — interrompeu-o dom Fernando, impaciente.
— Dom José está ausente e não se sabe quando voltará; no entanto, há assuntos importantes que exigem soluções imediatas.
— Nesse caso, fale com ele amanhã de manhã.
Hoje, dom Bartolomeu, sinto-me terrivelmente cansado e incapaz de me ocupar com os negócios.
Dom Bartolomeu reverenciou-o, desceu a escada e seguiu por uma alameda ensombrada até o pavilhão onde morava.
— Velho preguiçoso! Burro!
Tem medo de mexer um dedo e dar ordens sem o consentimento desse patife, desse satanás!
— resmungava ele, batendo com sua bengala nas flores e folhas das árvores que beiravam a vereda.
Bartolomeu Janto era o filho mais novo de uma nobre família espanhola que vivia em Cádis.
Recebeu uma excelente educação, mas, não tendo recursos, precisava ganhar o pão de cada dia; por isso, foi trabalhar como o primeiro gerente de dom Fernando.
Naquela época, quando o senhor Janto assumiu a fazenda, José tinha apenas sete anos.
Era uma criança altiva, reservada e insolente.
A admiração desmedida do pai já havia feito dele um pequeno tirano, que fazia os escravos pagarem caro por cada demora ou mau jeito no cumprimento de seus caprichos.
Desde o primeiro dia, dom Bartolomeu entendeu que José era uma força a ser considerada e começou a se comportar de acordo.
Odiando, como todo espanhol, as pessoas de cor, ele conseguiu insinuar a José que era seu amigo sincero.
pavilhão que Bartolomeu ocupava era uma bonita casinha branca, que tinha uma grande varanda com marquise listrada.
Bufando alto, o gerente subiu a escada.
Ao jogar o chapéu no banco, sentou-se numa cadeira de junco, enxugando a testa suada.
Um minuto depois, apareceu na varanda uma mulher gorda de saia listrada com um lenço amarelo na cabeça e perguntou se dom Bartolomeu não gostaria de almoçar.
Ao receber resposta positiva, ela se retirou e voltou acompanhada por uma negra, que o ajudou a preparar a mesa e pôr pratos refinados.
Sentando-se à frente de dom Bartolomeu, que comia com raro apetite, Gilda passou a servi-lo, ao mesmo tempo em que começava infindáveis queixas e reclamações sobre o desleixo e a má vontade da criadagem que ela supervisava.
Quando jovem, ela fora uma beldade e dom Fernando cedeu-a como concubina para dois vizinhos seus.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 16, 2017 8:53 pm

Depois, o jovem José também se sentiu atraído por ela e entregou-lhe o ardor de sua primeira paixão, o que destacou a mulata entre os escravos de dom Fernando.
Mesmo agora, ao perder sua beleza e tornar-se uma gorducha rabugenta, ela tinha enorme ascendência sobre José.
Ao ficar só, dom Fernando entregou-se novamente aos seus pensamentos.
Ele aparentava mais idade do que tinha.
Sua figura alta havia-se encurvado, o cabelo preto estava quase todo branco e havia nele sinais de fraqueza e cansaço.
Alguns anos atrás tivera febre amarela que, por pouco, não o levara ao túmulo.
Desde então, dom Fernando não conseguia se recuperar totalmente.
Sua saúde estava abalada e, por isso, ele caiu sob a influência absoluta de seu filho.
Passos firmes, bem conhecidos, obrigaram o fazendeiro a levantar a cabeça.
Seu olhar, com amor e orgulho, dirigiu-se a um alto e esbelto jovem, que se aproximava da varanda, assobiando um tema de caçador.
Era um jovem de vinte e quatro anos, bonito, com traços finos e regulares, cabelo preto espesso e grandes olhos escuros e frios.
Sua pequena boca com lábios finos expressava altivez e desdém; seu rosto era levemente amorenado.
Em geral, era um homem elegante e encantador, com maneiras aristocráticas.
Apenas a pele escura em torno das unhas revelava o sangue mestiço que corria em suas veias.
O jovem fazendeiro era seguido, pacificamente, por um enorme tigre, que deitou-se dócil aos seus pés, quando ele, ao beijar o pai, sentou-se à sua frente.
— Alguém esteve aqui, papai? — perguntou José, acendendo um cigarro.
— Sim, visitou-me dom Gonzalez.
— Contou-lhe alguma coisa desagradável?
Você parece estar perturbado.
— Imagine só, ele me trouxe um carta de Pedro!
Ele descreve todas as desgraças que caíram em cima dele, sobre as coisas que nós já ouvimos e...
— Pedindo dinheiro? — interrompeu José.
— Sim pede trezentos mil reais para se reerguer, prometendo devolvê-los aos poucos.
— E você está disposto a lhe prestar essa ajuda?
Nesse caso, não foi capaz de guardar rancor!
Dom Fernando parecia constrangido.
Seu olhar vagou indeciso pelo rosto sombrio do filho.
Depois, respondeu com uma leve hesitação.
— Confesso que, pela memória de Dolores, ser-me-ia muito penoso se seus filhos afundassem na miséria.
Por isso, quase me decidi a atender seu pedido.
Mas, quero colocar uma condição a Pedro, que o castigaria um pouco pelo seu orgulho anti- cristão.
Mas, espero que isso não desagrade a você.
A condição é a seguinte: ele deve oferecer a você a mão de sua filha Dolores em casamento.
Se ela se tornar minha nora, não apenas pagarei todas as dívidas dele, como ainda lhe darei um capital com o qual ele conseguirá restabelecer todo o brilho anterior de seu nome e garantir o futuro de seus filhos.
Mas, antes de escrever a Pedro, preciso saber o que você pensa do meu plano e se aceita a aliança que eu lhe proponho.
Dom Fernando calou-se e viu, contente, que o rubor cobria o rosto de seu filho.
José parecia estar relutando consigo mesmo.
Mas, depois de um minuto, respondeu em voz baixa:
— Será um partido brilhante, uma alegria para você e uma enorme satisfação para mim.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:15 pm

Por que me oporia a algo tão vantajoso para todos?
Escreva, pai!
Outrora, você não pretendeu oferecer-lhe um milhão para que ele lhe cedesse sua noiva?
Então, dê-lhe agora como pagamento pela filha.
Visivelmente surpreso, dom Fernando olhou para José.
Ele sabia como seu filho era parcimonioso, até avaro às vezes, e como gostava do ouro.
— Está bem! — disse ele, depois de um certo silêncio.
Escreverei ao meu irmão hoje mesmo.
Mas, não gostaria de levar essa carta você mesmo?
Conheceria a jovem e poderia trazê-la para cá, já como sua esposa, pois você não dizia que queria conhecer a Europa?
O rubor no rosto de José, em seguida, trocou-se por uma palidez mortal e seus traços adquiriram uma expressão de crueldade gélida.
— Quando tive a ideia de visitar Toledo, não sabia a que ponto me desprezavam os nobres condes de Mornos.
Nunca mais pisarei na casa deles!
Não nego que estou pronto para me casar com uma mulher parecida com a falecida Condessa.
No entanto, meu matrimónio com Dolores deve, em primeiro lugar, servir de satisfação a mim pela ofensa desmerecida e de castigo ao pai dela por seu tolo orgulho.
— Entendo! Quer se vingar de dom Pedro, mas você se esquece que uma moça de dezasseis ou dezassete anos não pode fazer uma viagem dessas sozinha, mesmo que Pedro consinta em deixá-la vir para cá — alegou dom Fernando.
— Mas eu não pensei em obrigá-la a viajar sozinha.
Apenas não quero ir buscá-la.
Eu proponho o seguinte:
mande com Janto a carta e, pelo menos, cinquenta mil reais para entregar ao Conde, porque, pelo visto, ele não tem um tostão. Janto poderá trazer a jovem, se deixarem-na sair.
Dom Bartolomeu é um empregado confiável e, pela sua idade e origem nobre, ele é a pessoa mais indicada para cumprir essa missão tão delicada.
Além disso, será um acompanhante muito cortês — explicou José, tentando convencer o pai.
Dom Fernando, com ar cansado, balançou a cabeça.
Muitas coisas no plano do filho não lhe agradaram.
Mas, acostumou-se a obedecer ao jovem em tudo e sua doença reflectiu tanto no seu carácter, já fraco, que ele, como sempre, concordou.
Meia hora depois apareceu dom Bartolomeu, estranhando ser chamado fora de hora.
Quando o gerente soube que tarefa melindrosa queriam lhe incumbir, franziu a testa.
Além do mais, uma viagem longa e perigosa não o seduzia nem um pouco.
Tentou fazer algumas objecções, assim como dom Fernando, mas ao notar o tom com o qual José as refutou, entendeu que qualquer tipo de discussão não levaria a nada.
Então, parou de opor-se e demonstrou grande afinco.
Decidiu ir a Havana para pegar o dinheiro, fazer as compras necessárias e saber se algum navio partiria em breve para a Europa.
Para a grande decepção de dom Bartolomeu, verificou-se que o único navio com destino a Cádis tinha sido avariado e estava sendo reparado.
Portanto, embarcaria somente dentro de três semanas.
Ele já pretendia voltar à fazenda com a notícia, que não correspondia à impaciência de dom Fernando, quando soube, por acaso, que no anteporto um outro navio levantaria âncora em dois dias e rumaria à Espanha.
— Mas, duvido que o senhor consiga viajar nele, acrescentou o banqueiro que lhe deu a informação.
— Por quê?! — perguntou Janto, novamente decepcionado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:15 pm

— Porque o capitão da "Sílfide" não aceita passageiros.
Sem perder tempo, dom Bartolomeu foi ao cais, alugou um barco e mandou que o levassem à "Sílfide".
Ao subir no convés, pediu que um marinheiro o conduzisse ao capitão, que estava em seu camarote e recebeu Janto com certa frieza.
Quando este lhe expôs o pedido, no rosto expressivo do capitão via-se claramente a recusa.
O gerente perdeu sua coragem, porém não desistiu.
Sabendo que o capitão dom Alfonso de Vasconcellos também pertencia à aristocracia espanhola, dom Bartolomeu deu-lhe a entender, com habilidade, que a viagem tinha como propósito levar uma carta muito importante que dom Fernando Martinez mandava ao Conde de Mornos e que ela devia chegar às mãos daquele nobre o quanto antes.
Quando ouviu o nome do Conde de Mornos, o severo rosto de Alfonso iluminou-se.
Ao perguntar sobre o Conde e saber que ele vivia em Toledo, o capitão contou que conhecia dom Pedro e tinha morado cerca de dois anos em sua casa.
Então, para agradar o padrinho, aceitava Janto a bordo.
Vasconcellos pediu apenas que ele fosse pontual, pois no dia seguinte bem cedo içaria as velas.
Eufórico com seu sucesso, Janto voltou para casa e ocupou- se com os últimos preparativos.
Uma hora antes da partida, chegou correndo um escravo chamado Scipión e disse que dom Bartolomeu deveria ir imediatamente falar com José.
Irritado com aquela perda de tempo, Janto foi ao quarto de seu jovem senhor.
José estava na rede e dois escravos o abanavam.
— Quero lhe entregar pessoalmente duas encomendas que você levará a dona Dolores, uma em meu nome e a outra em nome de meu pai — disse ele, pegando com negligência dois estojos, que entregou a Bartolomeu.
— Este — apontou ele para o estojo maior — meu pai manda para sua sobrinha; e este é meu retrato.
Anexei a ele uma carta endereçada à minha linda prima, que contém um pequeno programa sobre como conquistar meu coração acrescentou ele com um sorriso meio altivo, meio malicioso.
Janto, então, prometeu cumprir a incumbência com rigor e retirou-se.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:16 pm

CAPÍTULO IV
Com muita impaciência, aliás bem compreensível, dom Pedro esperava resposta de Cuba.
Nunca antes precisou tanto de uma ajuda substancial.
Como sempre acontecia, os gastos ultrapassavam os rendimentos e para pagar uma dívida contraía outra.
Os negócios de dom Pedro complicaram-se tanto que ele já não sabia mais o que fazer.
Além disso, ultimamente o azar o perseguia com tenacidade.
Sofrera fracassos um após o outro e os agiotas mostravam-se cada vez mais implacáveis.
O Conde não tinha saída e não conseguia fazer empréstimo em lugar nenhum.
Parecia que todos os agiotas de Toledo haviam feito um complô contra ele.
A situação agravou-se mais ainda depois que dom Pedro, indignado, negou a mão de sua filha a um rico banqueiro local, que imaginava, visto a situação difícil do Conde, poder tornar- se parente dele.
O banqueiro rejeitado comprou todas as letras promissórias do Conde e não lhe dava trégua.
Bartolomeu, que chegou à Espanha depois de uma viagem feliz e bastante rápida, encontrou o Conde exactamente nessa situação.
Ele alojou-se num pequeno hotel.
Ao trocar de roupa, mandou que o levassem ao palácio dos Mornos.
A criadagem examinou Janto com desconfiança, mas ao saber que ele vinha de Cuba como enviado de dom Fernando de Martinez em seus rostos surgiu uma expressão de surpresa agradável.
Todos eles, com solicitude incomum, correram para levar a notícia.
Percebia-se que a criadagem também depositava suas esperanças no irmão milionário do patrão.
Dois minutos depois, dom Bartolomeu entrou no gabinete de dom Pedro, prestou reverência ao velho aristocrata, cujo ar majestoso e elegante impressionou-o fortemente.
— Sente-se, senhor — disse o Conde — , e transmita-me a mensagem de meu irmão.
— Senhor Conde, trago uma carta de dom Fernando e estou encarregado de conversar com vossa excelência a respeito de um acordo familiar, cujos detalhes o senhor encontrará nesta carta que tenho a honra de passar às suas mãos.
— Nesse caso, conversaremos sobre o assunto hoje à noite ou amanhã de manhã.
Antes, preciso ler a carta de meu irmão, examinar e pesar sua proposta e tomar uma decisão.
Enquanto isso, dom Bartolomeu, peço-lhe que seja meu hóspede.
Meu filho cuidará de seu alojamento.
Janto levantou-se, em seguida, e saiu acompanhado por Ramiro, que deu as ordens necessárias ao serviçal.
Este o levou através de salas, outrora luxuosas, até um pequeno quarto confortável.
Lá mesmo serviram-lhe um lanche.
Depois, dom Bartolomeu mandou trazer do hotel suas malas.
Quando Ramiro voltou ao gabinete, encontrou o pai sombrio e pensativo.
— E então, pai? — perguntou o jovem com impaciência.
— Dom Fernando vende-me sua ajuda por um preço tão incrível, que se Janto não fosse um simples enviado, mereceria ser simplesmente enxotado daqui da forma mais humilhante — revelou-lhe dom Pedro.
Ramiro empalideceu, mas não teve tempo de responder, porque a porta lateral se abriu, de repente, e no gabinete entrou Dolores, animada e corada.
— O que se passa, papai? Que notícias recebeu do tio?
Ele mandou uma pessoa que, sem dúvida, trouxe a soma de dinheiro que você pediu.
— Oh! Ele mandou muitas coisas boas!
Dom Fernando continua fiel ao seu mercantilismo — respondeu dom Pedro com um riso amargo e sarcástico.
Outrora, ele quis me vender sua ajuda pelo preço da mão de sua querida mamãe; agora, ele negocia você, Dolores, e exige que eu lha conceda para tornar-se esposa de seu bastardo José.
— Não é possível! — exclamou Ramiro, enrubescendo de raiva.
— Ouçam e julguem vocês mesmos! — disse dom Pedro, pegando a carta.
E leu em voz alta a longa mensagem do irmão.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:16 pm

— Essa resposta é uma verdadeira zombaria!
Para nos seduzir, ele joga uma esmola como jogam um osso ao cachorro faminto e estabelece, de antemão, o preço de sua ajuda, exigindo a Condessa de Mornos para seu ilegítimo filho mulato.
Ele nem mesmo mandou para cá esse pretendente, mas exige que uma jovem faça sozinha essa viagem para tentar conquistar aquele mulato...
A voz do Conde tremia de ira, mas ele fez esforço para se controlar e acrescentou:
— Não vamos mais falar nisso!
Tentando mudar de assunto, o Conde passou a falar sobre a situação.
Dolores não pronunciou uma palavra.
Acotovelada no "bureau", ela ouvia as deliberações dos homens.
Estes, acostumados a deixar Dolores a par de todos os assuntos, falavam com toda a franqueza, sem esconder seu medo do banqueiro
que realmente criara uma situação desesperadora.
— Nesse momento, temos apenas um meio de sair dessa:
minha viagem a Cuba.
E é o que pretendo fazer — intrometeu-se, inesperadamente, Dolores.
— Sua maluquinha!
Não sabe o que diz! — interrompeu dom Pedro, zangado.
— Por acaso prefere que o banqueiro apareça aqui, venda tudo, até as nossas roupas, e que isso se torne um escândalo em toda Toledo?
Escute, papai, permita-me ir!
A sociedade não encontrará nada de vergonhoso no facto de eu ir visitar
meu parente adoentado sob a guarda de seu empregado de confiança.
O dinheiro que dom Fernando mandou o tirará dos apuros por algum tempo.
Chegando em Cuba, vejo o que pode ser feito.
— Oh! Deus! Por que pecado me castiga e me precipita a um abismo de desgraças?! — balbuciou o Conde, pondo as mãos na cabeça.
— Vão, crianças, me deixem só!
Eu preciso reflectir a fundo sobre tudo isso.
Os jovens, então, se retiraram preocupados.
A necessidade é uma conselheira persistente.
Na mesma noite, depois da última reunião familiar tempestuosa, ficou decidido que Dolores iria a Cuba.
Terrivelmente transtornado, dom Pedro não conseguiria conversar pessoalmente com Janto.
Por isso, foi Ramiro quem discutiu com ele as condições da proposta que o enviado de dom Fernando chamou, cortesmente, de "acordo familiar".
Como resultado da conversa, dom Bartolomeu expressou o desejo de ser apresentado a dona Dolores.
Ramiro respondeu- lhe, então, que sua irmã o receberia no dia seguinte pela manhã.
Na hora marcada, Bartolomeu Janto chegou aos aposentos da jovem com a carta e os dois estojos nas mãos.
Uma arrumadeira idosa levou-o ao "boudoir" de Dolores, muito luxuoso e outrora mobiliado para ela pelo Duque de Suzá.
Naquele ambiente de esplendor, que combinava com sua beleza e ternura, a jovem pareceu-lhe encantadora.
Com frieza e segurança, ela começou a fazer perguntas ao gerente sobre Cuba, sobre a duração e as condições da viagem e, finalmente, sobre dom Fernando.
Nenhuma vez ela mencionou o nome de José.
No entanto, dom Bartolomeu achou conveniente, naquela oportunidade, entregar-lhe as encomendas de seus senhores.
Delicadamente, ele pediu à moça que aceitasse o presente do tio e entregou-lhe o estojo aberto, no qual, sobre veludo negro, brilhava uma jóia de rubi e pérolas.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:16 pm

Dolores ficou vermelha e empurrou o estojo sem nem olhar para ele.
— Isso é ridículo!
Não posso acreditar que meu tio queira me ofender mandando-me isso como presente.
Está enganado, senhor Janto!
A jóia, com certeza, faz parte da soma que ele está pagando pela minha ida a Cuba.
Então, devolva este estojo a seu patrão.
Eu usarei as jóias somente quando me tornar a dona da fazenda.
Bartolomeu fez reverência e fechou o estojo.
Não encontrando resposta a dar, apenas pensou:
"Opa, a senhorita não é das mais dóceis!
Dom José faria melhor se tivesse vindo para cá pessoalmente".
Depois, em voz alta, disse:
— Nesse caso, Condessa, permita-me entregar-lhe a carta de dom José de Martinez e este estojo com seu retrato.
Dolores, com desprezo fulminante, olhou para o estojo.
— Será que além de suas virtudes, dom José sofre de uma vaidade baixa, achando que basta olhar para seu retrato para eu me conciliar com sua grosseira falta de cortesia? — disse ela com ironia cáustica.
Peço-lhe, senhor Janto, que devolva-lhe isto.
Para mim basta a imagem que fiz dentro de minh'alma.
Não demorarei a ver o original.
Mas, que papel é este? Seria uma carta?
— Sim, senhora, é a carta de dom José.
Ele disse que nela expôs um pequeno programa de como conquistar seu coração.
Uma expressão de ódio e desdém chamejou nos olhos azuis de Dolores.
— Sim, dom José possui virtudes tão fidalgas que não me permitem duvidar de sua origem.
Devolva-lhe esta carta também.
Quando chegar a Cuba e ver tudo eu mesma, farei meu próprio programa.
Dom Fernando é um verdadeiro "gentleman" e me colocarei sob sua protecção.
Dolores levantou-se, dando a entender que a audiência havia terminado.
Janto retirou-se em seguida.
Estava intrigado e sentiu profundo respeito por Dolores.
Aquela altiva e inacessível aristocrata, como se fosse de propósito, fora criada para governar fortunas.
Bartolomeu podia jurar que o irresistível dom José teria muitos momentos desagradáveis, porque se apaixonaria loucamente e lamentaria muito não ter simplesmente ajudado seus primos.
A partida de Dolores fora marcada para três semanas depois, pois Janto disse que se a jovem estivesse pronta para aquele dia, eles poderiam fazer a viagem no navio de dom Alfonso de Vasconcellos, que voltaria para as Antilhas.
O nome do capitão da "Sílfide" produziu uma impressão agradável aos condes de Mornos.
Ramiro, então, escreveu a seu companheiro de infância, avisando que sua irmã iria a Cuba para visitar o tio doente e pediu que ele a tomasse sob sua protecção.
Para responder à carta, Vasconcellos preferiu ir pessoalmente a Toledo, pois ficaria muito contente em ver dom Pedro e seus amigos de infância.
Jurou ao Conde levar Dolores sã e segura ao seu lugar de destino.
Dolores impressionou profundamente Vasconcellos.
E, cada vez que os grandes olhos negros do capitão a fitavam com admiração mal dissimulada, um leve rubor aparecia nas faces de Dolores e um sorriso iluminava seu rosto tristonho.
Aparentemente, a moça continuava tranquila e corajosa.
Aliás, as circunstâncias a obrigavam a isso, porque nem Vasconcellos, nem qualquer outro em Toledo, podiam saber do verdadeiro motivo de sua viagem.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:16 pm

Todos achavam muito natural que dom Pedro se apressasse em atender o pedido do irmão, o que significava uma reconciliação.
Se o velho milionário tinha mandado uma pessoa de confiança buscar sua sobrinha, era prova de seu desejo sincero de fazer as pazes e pressupunha-se que isso logo levaria a uma ajuda financeira.
Apenas à noite, quando ficava sozinha e ninguém podia ver suas lágrimas, Dolores entregava-se ao desespero.
A separação próxima de seus parentes, a solidão que a esperava num país distante e a iminente batalha com uma pessoa vaidosa e indelicada, que nunca tinha visto na vida, mas que já a tratava como um objecto comprado, enchiam sua alma de uma indizível aflição.
Apenas da prece e do seu amor filial, ela tirava forças para fazer aquele sacrifício.
Na véspera do embarque, Ramiro convidou Bartolomeu para uma conversa íntima.
Um plano monstruoso surgiu na cabeça daquele inescrupuloso jovem homem e ficando a sós, ele disse:
— Dom Bartolomeu, o senhor conhece o grau de parentesco que liga meu pai a dom Fernando? — perguntou Ramiro com voz surda.
— Parece que são irmãos por parte de mãe — respondeu Janto.
— Sim! Mas, além disso, devo lhe explicar os laços de parentesco que ligam as famílias Mornos e Martinez.
O jovem fez um rápido esboço da árvore genealógica das duas famílias.
— Então, se dom Fernando morrer solteiro, quem, na sua opinião, deve ser seu herdeiro?
— Sem dúvida o Conde, seu pai.
Mas, devo observar que mesmo sendo solteiro, dom Fernando tem um filho legitimado, que é dom José.
— Sei disso.
Mas, sua mãe escrava foi alforriada?
— Não posso lhe dizer com certeza.
Não ouvi nada sobre isso — respondeu Janto, olhando com desconfiança.
— O senhor disse-me também que meu tio está muito doente e que, segundo os médicos, não viverá muito tempo.
Dom Bartolomeu ergueu-se na poltrona e lançou um olhar frio e penetrante a seu interlocutor.
— Sim, disse isso!
Mas, doença ainda não é morte, os médicos podem estar enganados.
Devo acrescentar, senhor Conde, que não entendo qual vantagem lhe dará a morte de seu tio.
— Logo, o senhor entenderá.
É muito próximo de meu tio? — perguntou Ramiro.
— Orgulho-me de gozar da plena confiança de meus patrões — respondeu com dignidade Bartolomeu.
— Fico feliz em ouvir isso.
Então, o senhor entende que se dom Fernando morrer sem testamento toda a sua fortuna passará para meu pai?
Bartolomeu pulou da cadeira.
Estava muito nervoso.
— Ah! Senhor Conde, repito que existe um testamento e todos os documentos legando a herança ao filho.
Ramiro apoiou fortemente sua mão no ombro de Bartolomeu.
Depois, inclinou-se e, olhando com fervor nos olhos do gerente, em voz baixa, pronunciou nitidamente cada palavra:
— Então, não é tão próximo dele quanto pensei!
Caso contrário, poderia facilmente se apoderar do testamento e de outros papéis.
Janto objectou, ofendido:
— Eu entendo, mas o senhor está profundamente enganado, procurando em mim o cúmplice de um crime.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:17 pm

Sou um homem honesto!
— Nunca duvidei disso!
Apenas quero saber o que responderá esse homem honesto se lhe dermos meio milhão no dia em que meu pai e eu tivermos a posse da herança.
O efeito foi fulminante!
Janto, sem fôlego, sentou-se na poltrona.
Queria falar, mas faltava-lhe ar.
Só depois de um minuto ele balbuciou com voz entrecortada:
— Meio milhão... meio milhão!
Os olhos de Ramiro acenderam-se triunfantes.
Janto cedera à tentação e, aproveitando aquele momento de fraqueza, ele continuou:
— Sim, meio milhão, ou seja, riqueza e independência.
Tudo isso apenas por algumas folhas de papel rasgadas que, provavelmente, estão guardadas no "bureau" de dom Fernando e, se quiser, a gerência total de todas as terras.
Eu acho que é mais agradável ser o primeiro empregado do Conde de Mornos, que de algum negrinho bastardo.
Bartolomeu estava calado como se tivesse perdido todos os sentidos.
Fechou os olhos, mas, pela mímica nervosa de sua fisionomia, percebia-se que estava ponderando e que as pálpebras abaixadas deveriam esconder do interlocutor os resultados de seus pensamentos.
Ramiro sorriu. Estava certo de que tinha Janto em suas mãos.
— E, então, dom Bartolomeu? Posso contar com sua colaboração? — perguntou ele, depois de um certo silêncio.
Janto ergueu-se.
Estava pálido, seus lábios tremiam e nos pequenos olhos cinzas transparecia uma ganância desmedida.
— Estou de acordo, Conde!
O senhor receberá os papéis.
Posso confiar em sua promessa?
Sem responder uma palavra, Ramiro pegou uma folha de papel e com a mão firme escreveu que ele, Ramiro de Mornos, herdeiro de seu pai e de dom Fernando, comprometia-se a pagar a dom Bartolomeu de Janto quinhentos mil reais no dia em que ele e seu pai tomassem posse das propriedades de dom Fernando de Martinez.
Uma hora depois, a "Sílfide" levantava âncora e a toda a vela saiu de Cádis.
No convés estava Dolores, mortalmente pálida.
Pesadas lágrimas corriam por suas faces, enquanto seu olhar não separava-se da costa até ela sumir na neblina.
Então, a jovem foi ao seu camarote e entregou-se ao desespero.
Pobre criança, que viveu sempre cercada de amor em companhia de seus próximos, acostumada à constante protecção!
Sentia-se perdida, solitária e abandonada no meio do oceano por um Bartolomeu "não-sei-de-quê", em quem ela, instintivamente, não confiava.
A moça não podia dizer o porquê, mas seu único consolo era a ideia de que estava sob a protecção de Vasconcellos.
Ele não era próximo, nem poderia ser; no entanto, em seus tormentos, a alma de Dolores voltava-se à imagem do jovem capitão.
Um momento perigoso para ela e fatal para José, pois exactamente por isso ele perdera para sempre o coração da moça que havia escolhido como companheira de sua vida.
Naquele tempo, a viagem para as Antilhas durava meses inteiros.
As pequenas dimensões do navio e os encontros diários entre os dois criavam uma intimidade perigosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:17 pm

Portanto, seria muito natural que entre duas criaturas jovens e bonitas, como Alfonso e Dolores, cujos temperamentos e gostos combinavam, a simpatia inicial se transformasse em amor.
Com uma satisfação maldosa, dom Bartolomeu pensava em José, vendo que dom Alfonso conquistava o coração da moça:
"Faria melhor, seu burro, se tivesse vindo pessoalmente à Europa, ao invés de bancar o sultão!
Juro pela minha honra que se apaixonará perdidamente por essa criatura inteligente e bela, tão diferente das nossas tolas e sensuais senhoras.
Mas, agora, já é tarde demais!
Por sua própria culpa, perdeu o primeiro e o melhor movimento de amor desse jovem coração!"
O tempo passava com monotonia e não trazia nenhuma mudança no relacionamento entre os jovens.
O final da viagem aproximava-se, quando aconteceu o inesperado:
uma tempestade estava para cair e, a pedido do capitão, os passageiros desceram para a sala de refeições.
Mal havia passado quinze minutos de alerta, quando um ziguezague de fogo cortou o céu e uma luz sinistra iluminou a sala.
No mesmo instante, uma rajada de vento adernou a embarcação.
Foi o sinal do começo de uma tempestade que se desencadeou com uma força terrível.
Raios e trovoadas seguiam-se sem parar.
Encolhida nas almofadas do sofá, calada, Dolores prestava atenção aos ruídos da tormenta, ao assobio do vento no cordame e aos gritos dos marinheiros que manobravam o navio.
Mas, seu pensamento estava no convés, junto ao capitão que, corajosamente, defendia aquele frágil abrigo contra a fúria da natureza.
Dolores não conseguiu se conter e, cambaleando, dirigiu-se à porta.
Leve como uma gazela, num instante chegou até o mastro e agarrou-se ao cordame, procurando com os olhos por Vasconcellos.
Todo encharcado, com a cabeça descoberta, tranquilo e decidido, o capitão dava ordens através do megafone.
Os apaixonados têm ouvidos muito apurados.
Alfonso percebeu a presença de Dolores e seus olhos de águia logo encontraram a silhueta branca perto do mastro principal.
A tempestade amainou-se por alguns instantes.
Aproveitando a serenidade, o jovem correu até o mastro:
— Dona Dolores... a senhora aqui!
A jovem dirigiu a ele um olhar suplicante:
— Não quero morrer sozinha lá embaixo!
Permita-me ficar aqui, dom Alfonso!
— Está bem! Já que não tem medo e não quer descer para a sala, venha comigo! — disse ele, após uma hesitação momentânea.
Vou segurá-la.
Se morrermos, será pela vontade de Deus!
Abraçando-a pela cintura para dar-lhe equilíbrio, Afonso levou-a até seu posto de comando.
Feliz, sem pensar no perigo e sem notar que estava encharcada dos pés à cabeça, a jovem apertou-se contra seu acompanhante.
Os sentimentos que emocionavam sua alma inocente reflectiam-se tão claramente em seus olhos que o coração de Vasconcellos bateu forte.
Inclinando-se a ela, balbuciou com paixão:
— Dolores!
Ela, então, estremeceu.
Ele continuou:
— Dolores, eu a amo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:17 pm

Imploro que me permita amar e defender você pelo resto de minha vida.
Feliz e desesperada ao mesmo tempo, ela ouvia aquela confissão em meio aos estrondos da tempestade.
— Oh! Alfonso, também o amo mais que a minha vida.
No entanto, não espero nada de meu futuro.
Acharia o auge de felicidade dar aquele passo que nos separa do abismo e morrer apoiando-me em seus braços; apertando-me contra seu coração — respondeu ela, quase inaudível.
— Ah! Que terrível tentação tomou conta de você, Dolores!
Será que não sabe que o capitão de um navio só tem direito de morrer em terra firme?
Com você quero viver, não morrer.
Quero que me explique a causa de seus pensamentos sombrios.
Agora, vá até a sala!
Ele levou a moça até a escada.
Depois, alegre e cheio de energia, voltou ao seu posto.
Uma hora depois, a tormenta se acalmou.
Os dois passageiros jantavam no camarote do capitão, que estava em óptimo estado de espírito.
Servia ponche quente aos hóspedes e cercava Dolores com toda a atenção possível.
Em seu tom de voz e no olhar notava-se a terna intimidade de um noivo.
Janto fingia estar surpreso e dirigiu para a moça um olhar de interrogação.
Esta ficou rubra.
Quando eles se levantaram da mesa, ela disse para o gerente:
— Peço-lhe, dom Bartolomeu, que deixe-me sozinha com o capitão Vasconcellos.
Preciso conversar com ele sobre assuntos sérios.
Quando Bartolomeu retirou-se humildemente, Vasconcellos levou a moça até o sofá e, pegando em sua mão, disse emocionado:
— Dolores, revele-me esse mistério que a cerca!
Você anseia morrer, não respondeu directamente à minha proposta e fala com o gerente como se estivesse se desculpando perante esse palhaço.
O que significa tudo isso? Tenho o direito de saber.
Dolores empalideceu, balbuciou algo incompreensível e, de repente, desatou a chorar.
Nunca o sacrifício lhe parecera tão penoso e odioso como naquele instante.
Recusar o amor de Alfonso, uma felicidade tranquila, para se casar com um mulato grosseiro, que ousara ofendê-la, mesmo sem conhecê-la, parecia-lhe estar acima de suas forças.
Mas, ela tinha de contar a verdade à pessoa amada.
Com voz entrecortada de emoção, Dolores contou-lhe sobre a ruína e a vida miserável de sua família, sobre seu noivado com os dois duques de Suzá, as condições nas quais dom Fernando concordava em ajudá-los, e sobre o escândalo inevitável e a vergonha que aguardavam seu pai e seus irmãos, caso não recebessem aquela ajuda.
À medida que ela falava, uma palidez terrível cobria o bonito rosto de Vasconcellos.
Triste e abatido, ele abaixou a cabeça.
— Se eu, pessoalmente, tivesse a possibilidade de livrar dom Pedro dessa situação, lhe diria:
vamos voltar à Espanha e pedir a bênção de seu pai.
Infelizmente, os bens de meu pai foram desperdiçados por minha mãe.
Tudo o que tenho, incluindo este navio, não dá nem metade da soma que vocês precisam.
Será que tenho o direito de impedir que você faça seu nobre sacrifício e torne-se responsável pela desgraça de seus próximos?
Não, não ouso fazer isso.
Melhor tentar me esquecer, Dolores!
— Como? Você, Alfonso, me aconselha a esquecê-lo?
Não posso amar José, aquele bastardo rude, que se vangloria de sua fortuna!
Tanto melhor que não me ame.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:17 pm

O que, além de nojo, pode me insinuar o amor de um negro?
Ela calou-se e fechou os olhos com as mãos. Um ciúme intenso apertou seu coração.
Enquanto ela estaria se sacrificando, sufocada nos laços de um matrimónio odioso, ele, livre, bonito e amado, continuaria seu caminho pelo mundo e a esqueceria por outra mulher e se sentiria feliz.
Vasconcellos entendeu os sentimentos que torturavam a moça, percebidos claramente em seu rostinho infantil.
Um sorriso bondoso, que não ofenderia a mulher mais sensível, iluminou seu rosto.
— Eu — disse ele, inclinando-se a Dolores — continuo sendo marinheiro e nunca mais amarei ninguém além de você, de "Sílfide" e do mar.
Juro, Dolores, que nunca outra mulher ocupará em meu coração o lugar que lhe pertence!
Que nenhuma dúvida perturbe seu penoso, mas nobre, sacrifício, se Deus não quiser nos unir, apesar de todas as barreiras.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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