Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:17 pm

CAPÍTULO V
Tudo corria como de costume na fazenda de dom Fernando durante os longos meses da ausência de Bartolomeu.
Dom José caçava e visitava propriedades longínquas.
Além disso, ele gostava de ciências ocultas e estudava-as com um velho hindu, que havia-se apegado muito a ele.
Parecia que tinha esquecido completamente o motivo da ausência do gerente e do importante resultado, caso as negociações tivessem êxito.
Mas, o esquecimento era apenas aparente.
Na realidade, uma impaciência febril frequentemente tomava conta do jovem.
Apenas o sentimento de orgulho ferido, misturado com raiva e um vago receio, cerrava seus lábios quando o pai começava a falar sobre a possível chegada de Dolores ou sobre como ele ficaria desgostoso se o irmão, ofendido por sua proposta, recusasse sua ajuda e, com isso, a possibilidade de reconciliação.
Finalmente, chegou a carta de Janto, onde ele comunicava o sucesso das negociações e o dia de sua partida com a jovem Condessa.
Ao ler a correspondência, um leve rubor deslizou pelas faces morenas de José.
Já dom Fernando ficou muito contente e concluiu que, se nada atrasasse a partida e a viagem fosse tranquila, Dolores deveria chegar em Cuba dentro de umas três semanas.
— Terei tempo de preparar tudo para recebê-la! exclamou o velho, animado.
Em seguida, mandou chamar o segundo gerente e ocupou-se com a escolha dos quartos, dos móveis e da criadagem pessoal para sua sobrinha.
Com afinco e interesse quartos destinados a Dolores:
uma varanda com colunas, bastante espaçosa, levava a um grande salão, no meio do qual, de uma piscina de mármore, saía um jacto d'água prateada quase até o tecto; sofás baixos e estofados com cetim branco acompanhavam as paredes.
As janelas e as portas fechavam-se com cortinas do mesmo tecido.
Uma verdadeira floresta de plantas cítricas, mitras e amêndoas, em vasos chineses e japoneses, enchia a sala.
No meio daqueles conjuntos aromáticos havia uma rede de seda com almofadas da mesma cor.
Em frente estava o enorme espelho que deveria reflectir a imagem graciosa daquela que iria se balançar naquele ambiente de luxo requintado.
Mais adiante havia uma sala de visitas não muito grande, que servia de biblioteca; depois o "boudoir", forrado de seda com um espelho em cada parede e com um pequeno "bureau", perto do qual estendia-se no chão uma pele de tigre. Finalmente, chegava-se ao dormitório, todo branco, um verdadeiro ninho de seda e musselina com uma penteadeira coberta de rendas e uma cama acortinada, onde, por uma irónica proposta de José, colocaram o brasão da família de Mornos, representando uma coroa de nove dentes.
José não participava dos preparativos, mas a imagem de sua prima ocupava cada vez mais seus pensamentos.
À medida que aproximava-se o dia da chegada da jovem tomava conta dele uma impaciência misturada com aflição e desassossego estranhos.
Quando José perguntou ao hindu Kakhla-Sarma que consequências traria a chegada de sua parente, este pareceu ter ficado espantado pela previsão dos astros.
Fitando o jovem com um olhar esquisito, declarou que a chegada daquela moça causaria acontecimentos que mudariam totalmente a sua vida, mas omitiu os detalhes, dizendo que eles ainda estavam ocultos pelas nuvens.
Aliás, o próprio José achava aquela previsão natural, porque o casamento, sem dúvida, iria mudar profundamente o seu modo de vida.
Passaram-se quatro dias desde que o palanquim destinado a carregar Dolores fora mandado para a cidade.
E quando José voltava do pomar, depois de vistoriar as plantações, chegou correndo um negro, mandado de Havana por dom Bartolomeu, trazendo notícias de que a Condessa e o gerente já haviam chegado e que ele antecipava-se apenas duas ou três horas na frente deles.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:18 pm

A notícia causou uma forte emoção em dom Fernando.
Sentindo-se indisposto, propôs a José que saísse ao encontro da prima, mas este, alegando cansaço e uma forte dor de cabeça, foi para seus aposentos.
A janela de seu gabinete dava para a grande alameda de palmeiras.
Dolores deveria passar por ali para chegar aos aposentos destinados a ela.
José sentou-se junto à janela e abaixou as venezianas.
Para enganar sua impaciência, tentou ocupar-se com a leitura e, depois, cochilar, mas não conseguiu nem uma coisa nem outra.
Seus olhos e seus pensamentos estavam presos à ensombrada e deserta alameda.
Finalmente, depois de uma longa espera que lhe pareceu uma eternidade, José viu aparecer na alameda o palanquim trazido pelos carregadores, os negros que o escoltavam e Bartolomeu a cavalo, visivelmente cansado.
José não tirava os olhos curiosos do pequeno cortejo que passava a poucos passos de sua janela.
Mas, sua curiosidade não foi satisfeita.
As cortinas verdes de seda do palanquim estavam totalmente fechadas.
Furioso por dentro, o jovem abandonou seu posto de vigia.
"Ela deve estar dormindo.
Do contrário, por vaidade feminina, não resistiria ao desejo de se mostrar", pensou.
Depois, passando por um terraço, José deitou-se na rede e mandou os criados abanarem-no.
Logo foi a ele dom Bartolomeu.
Ao saber por um criado que dom Fernando desde de manhã não se sentia bem, e que tinha tomado calmantes e estava dormindo, dom Bartolomeu procurou por José.
No fundo, ele estava terrivelmente revoltado com a falta de cortesia do jovem casquilho que, mesmo ali, em sua própria casa, não se preocupara em receber a mulher como anfitrião que era.
"Espere só, canalha!
Ela vai ensiná-lo a se mexer, enquanto o próprio destino não o coloca em seu devido lugar!", pensou o gerente.
Dom José continuava na rede com ar de tédio e cansaço.
Ao responder com um aceno de cabeça à reverência de Janto, perguntou rapidamente:
— E então, dom Bartolomeu?
Para que cercar de tanto mistério sua fada?
Vi pela janela que todas as cortinas estavam fechadas.
— Isso foi feito por ordem da Condessa.
— Por ordem?
Ela até dá ordens, de vez em quando? — perguntou, ironicamente, o jovem.
— Sempre!
José apoiou-se sobre o cotovelo e em seus olhos entreabertos surgiram faíscas maliciosas.
— É verdade?
Conte-me, por favor, os detalhes de sua viagem e de suas negociações.
Acredito que não foram muito complicadas — quis saber o jovem.
Dom Bartolomeu, breve, mas detalhadamente, relatou tudo o que aconteceu em Toledo.
Para concluir, tirou do bolso a jóia enviada por dom Fernando e colocou-a na mesa.
— É isto e mais uma coisa que devo lhe devolver.
— Por que não entregou essa jóia à minha prima? perguntou José, franzindo as sobrancelhas.
— Dona Dolores recusou-se a aceitá-la.
Ela afirma que entendi mal as instruções e que essa jóia faz parte da soma paga por sua vinda — respondeu Janto, fingindo constrangimento.
Dom Pedro tampouco a aceitou, dizendo:
"Já fui pago com a soma que o senhor me entregou.
Portanto, devolva a dom Fernando essa peça excedente."
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:18 pm

Dom José caiu nas almofadas.
Seu rosto bronzeado ficou vermelho.
— Miseráveis! — balbuciou ele.
— E mesmo assim continuam sendo os orgulhosos condes de Mornos, o que ninguém lhes pode proibir observou o gerente, entregando ao jovem outro estojo e a carta dele.
— Ah! Uma carta! De quem é?
Do Conde ou de Ramiro? — perguntou ansioso.
— Não, sua excelência!
Estou lhe devolvendo sua própria carta e o medalhão com seu retrato.
— Minha carta!
E sem ser aberta!
O que significa isso?
Hesitante e constrangido, Janto transmitiu as palavras pouco agradáveis com que Dolores acompanhara sua recusa ao ler o programa da conquista do coração do futuro marido.
Dessa vez, os escuros olhos de José abriram-se largamente e um rubor de ira cobriu suas faces.
Com um forte golpe, ele jogou longe o livro que o negro continuava a segurar, estando de joelhos à sua frente.
— Animal!
Não vê que estou conversando e não lendo?!
Por que me põe esse livro estúpido debaixo de meu nariz?! — vociferou o jovem mestiço.
Desconcertado, o negro apressou-se em levantar o livro, mas José já havia-se acalmado.
— Continue, dom Bartolomeu!
Tudo isso é muito engraçado.
Mas, ainda vejo em suas mãos um pequeno pacote.
Espero que os orgulhosos de Mornos não estejam devolvendo o dinheiro da viagem.
— Devo confessar que foi dom Ramiro quem pagou a viagem ao capitão Vasconcellos.
— Vasconcellos?! — sua testa franziu-se.
Me parece que já encontrei esse senhor na casa de Olivero.
É meio marinheiro, meio flibusteiro.
Você poderia escolher uma embarcação mais segura para o transporte de minha prima e um capitão com reputação mais sólida.
Aliás, o que está feito não pode ser corrigido.
— "Sílfide" é um barco excelente.
Nenhum outro poderia oferecer a dona Dolores tanto luxo e conforto.
Mas, permita-me, dom José, terminar meu relatório, entregando-lhe mais este estojo que, como já tive a honra de lhe comunicar, contém seu retrato.
— Estranho não tê-lo deixado com a prima.
Aliás, o que foi que ela disse quando viu o retrato?
— Ela não o viu, senhor.
— Como, não viu?
Você estragou o medalhão?
Isso seria lamentável!
— Ela não quis vê-lo, senhor.
Em palavras secas e desdenhosas, ela disse coisas que prefiro não lhe transmitir.
— Não, não, fale!
É muito interessante saber a opinião dessa Cinderela orgulhosa.
Quando Janto repetiu as palavras de desprezo de Dolores, um tremor de ira passou pelo corpo de José.
— Que atrevida! — exclamou ele, furioso.
Mas, ao encontrar o olhar malicioso de Bartolomeu, calou-se, tomado por uma desconfiança.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:18 pm

Bartolomeu retirou-se.
Ao se ver sozinho na alameda que levava à sua casa, não precisou esconder sua expressão cáustica e gozadora.
"José nem viu ainda Dolores e já tem ciúmes de Vasconcellos. Engraçado!
Mas, que instinto de rivalidade!
Vejo que vamos ter boas histórias por aqui.
Só receio que seja difícil impedir o casamento se o velho não se apressar em morrer."
Absorto em seus pensamentos e nos planos que arquitectava, o gerente foi para casa.
Após a saída de Bartolomeu, José mandou os escravos embora e proibiu que o incomodassem até que ele mesmo os chamasse.
Numa agitação nervosa, começou a andar pelo terraço.
Tudo o que ouvira o irritava e intrigava ao mesmo tempo.
A raiva impelia-o a humilhar Dolores e seus parentes.
Apesar da proposta, ele desprezava Dolores pela rapidez com a qual concordara em ir conquistar seu coração.
Agora, sabendo que ela não tinha lido sua carta e não se dignara a olhar o retrato, convicta de sua beleza, sem dúvida estaria com a intenção de encantá-lo e, depois, responder a ofensa com ofensa.
A curiosidade de José era tão grande que abafou a ira e o amor-próprio ferido.
Ele pegou o chapéu de palha, chamou Rex e, decidido, dirigiu-se aos aposentos de Dolores.
No caminho encontrou a camareira que, com ar preocupado, corria com um monte de coisas nas mãos.
— Onde está sua senhora, Sara? — perguntou José.
— A senhora Condessa trocou de roupa e encontra-se agora em seu "boudoir" — respondeu a moça, reverenciando o patrão.
José dispensou a criada com um gesto de mão e ela sumiu rapidamente.
"Vou cumprimentá-la e a levarei para ver papai.
Estou muito curioso para dar uma olhada nessa Condessa", pensava José, subindo a escada do terraço dos aposentos de Dolores.
Não havia ninguém no terraço, nem na galeria envidraçada.
Na grande sala de visitas, onde a fonte borbulhava suavemente, José viu a silhueta feminina deitada na rede.
O jovem parou e fez um sinal para Rex não rosnar.
Depois, aproximou-se silenciosamente sem tirar os olhos da desconhecida, imóvel, de olhos fechados na rede.
"Está dormindo.
Significa que ao acordar, não poderá fingir", foi o primeiro pensamento de José.
Quanto mais José olhava para a desconhecida, mais forte batia seu coração.
Então, era assim aquela que deveria conquistar seu coração!
Não parecia nem um pouco com as lindas cubanas, suas compatriotas.
Se Dolores soubesse que saíra vencedora, ela o faria pagar cruelmente pela ofensa que sofreu.
José virou-se e, ao sair do terraço, caiu sentado no banco.
Um sentimento estranho de aflição e tristeza apoderou-se dele novamente.
Parecia ser o presságio de alguma desgraça.
Mas, seria possível que aquela criança encantadora representasse aquela previsão fatal?
Um grito estridente interrompeu os pensamentos do jovem.
Dolores, mortalmente pálida, corria pelo terraço, perseguida pelo tigre.
Rex imaginava que seu dono levara-o para guardar a adormecida e, então, colocou a pata no peito da jovem.
Ao sentir o peso no peito e a respiração ruidosa do animal, Dolores quis levantar-se.
Mas, quando viu o olhos verdes e a fuça da fera sanguinária a dois dedos de seu rosto, ficou apavorada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 17, 2017 9:18 pm

Deslizando da rede, ela correu para o terraço como um gamo perseguido.
A emoção foi forte demais para ela.
Deu alguns passos vacilantes e seu olhar passou pela figura de um homem desconhecido.
Depois, cambaleou e teria caído no chão se José não a amparasse.
"Se acreditar nas previsões, o que deve significar isso?", pensou José, carregando a moça para o banco.
O desmaio de Dolores não foi profundo.
Em alguns minutos ela voltou a si e abriu os olhos.
Primeiro, seu olhar perdido passou pelo rosto do homem inclinado sobre ela.
De repente, entendeu que estava no colo de um homem desconhecido.
Corando de vergonha e de indignação, ela se libertou dos braços de José.
— Quem é você?!
Um simples atrevido ou um selvagem?! — perguntou ela com olhar ardente.
O jovem também levantou-se.
— Permita-me que me apresente, dona Dolores.
Sou seu humilde servidor e primo, José de Martinez — disse ele com profunda reverência.
Dolores empalideceu.
Com um olhar rápido e bravo, ela mediu aquele homem que deveria conquistar e do qual dependia a salvação de seus próximos.
Sem dúvida era um homem bonito, alto, de corpo bem feito.
Seu rosto, levemente bronzeado, tinha traços regulares e finos.
Os lábios delicados, vermelhos e os olhos castanhos escuros e frios, indicavam temperamento cruel e orgulhoso.
Vestia um terno de seda, cingido com um fular vermelho.
Reverenciando a prima, levantou de leve o chapéu de palha que cobria seu cabelo curto.
"Sendo herdeiro de tantos milhões, provavelmente considera desnecessário tirar o chapéu diante de uma mulher", pensou Dolores.
A primeira impressão que José produziu em Dolores não lhe foi favorável.
— Ah!... é você?
Esperava delicadeza maior de sua parte, senhor de Martinez.
O tom com que foram pronunciadas aquelas palavras fez José corar.
Mas, a moça já estava olhando para o tigre que, pacificamente, espreguiçava-se no tapete.
— É um tigre domesticado?
Pena que não soube disso antes.
Ele me deixou apavorada!
Dolores fez um gesto carinhoso, o tigre entendeu, aproximou-se da jovem e começou a se encostar nela como um gato.
No entanto, percebia-se que o terrível animal lhe inspirava pouca confiança, porque ela estremeceu quando o tigre lambeu sua mão.
José ficou surpreso com aquele bom relacionamento.
Normalmente Rex expressava sua disposição a poucas pessoas e nunca à primeira vista.
O jovem sentia-se constrangido e não sabia o que falar.
Com raiva de si mesmo, ele propôs a Dolores que visitasse dom Fernando, que estava ansioso para vê-la.
— Seu pai está doente? — perguntou ela.
— Não, teve uma leve indisposição.
— Então, por que não satisfez ainda seu desejo de me ver? Mas... vamos!
Sempre esqueço que estou num país onde as noções de cortesia são inversas.
Dom Fernando já estava para ir ver a sobrinha, quando esta apareceu, acompanhada de José.
Ao ver um membro da família que ele abandonou, a imagem viva de uma mulher que amou loucamente provocou uma forte emoção no velho fazendeiro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 18, 2017 8:01 pm

Pálido e tremendo, ele encostou na poltrona.
Depois, abriu os braços e abraçou Dolores, balbuciando com ternura:
— Seja bem-vinda, minha querida criança!
Sinta-se em casa sob o tecto de seu velho tio.
Quando viu o fraco e sofrido velho, que falava tão sentido e sincero, o olhar de Dolores perdeu sua expressão fria e hostil.
Um sorriso bondoso e alegre, que combinava tão bem com seus traços infantis, iluminou o rosto da jovem.
Oferecendo o rosto ao beijo de dom Fernando, ela respondeu:
— Agradeço, tio, sua cordial recepção. Espero que Deus queira nosso bem-estar.
Com aquelas últimas palavras, seus olhos encheram-se de lágrimas; mas envolvido por tamanha felicidade dom Fernando não notou a emoção de Dolores.
José estava um pouco afastado e começou a brincar com um macaquinho, puxando seu rabo para fazê-lo gritar.
Um sentimento penoso e amargo apertava seu coração.
Por dentro ele sofria, vendo a cordialidade filial de Dolores e ouvindo a conversa animada e amigável entre ela e seu pai.
Irritava-lhe a ideia de que em seu pai ela via não apenas um parente, mas um aristocrata de berço.
Todos aqueles condes, duques e marqueses eram alheios a ele e, certamente, cada um deles poderia lhe jogar na cara as palavras de desprezo do Conde de Mornos:
"Em nossa sala de visitas não há lugar para um bastardo de cor."
Entregue àqueles sentimentos, o jovem não entrou na conversa.
No dia seguinte, Dolores sentia-se mais forte e mais tranquila.
Como todos deveriam se reunir apenas para a segunda refeição, a jovem resolveu se ocupar de sua instalação na nova moradia e ordenou a Sara que arrumasse seu guarda-roupa.
Enquanto observava como ela desdobrava os vestidos e os casacos e separava a roupa de cama, os tecidos e as rendas, Dolores conversava com a pequena criada negra, pois gostou muito dela e agradou-lhe seu esmero e benevolência.
Sara era muito comunicativa.
Feliz com a bondade de sua nova senhora, ela tagarelava sem parar e comunicava à jovem Condessa todas as novidades, não só de sua fazenda como das fazendas vizinhas também.
Dolores ria de todo o coração.
Depois, animada, pegou sua mantilha e dirigiu-se ao grande terraço, onde, segundo Sara, já estava servido o lanche.
A jovem notou que dom Fernando olhava com impaciência para a porta pela qual ela deveria entrar.
José, um tanto afastado, estava lendo.
Dolores cumprimentou-o, mas ele a tal ponto estava distraído com a leitura que nada viu, nem ouviu.
— José! — chamou-o em voz alta o pai, todo corado.
— Pelo amor de Deus, tio, não perturbe o senhor José, já que ele tem essa rara capacidade de se abstrair.
Deve imaginar-se numa floresta virgem — disse Dolores com ironia, querendo descobrir, pela reacção do jovem, se ele realmente estava tão absorto na leitura.
Pelo leve tremor dos lábios e das mãos do primo, Dolores entendeu que a falta de cortesia tinha sido proposital.
Isso lhe pareceu tão ridículo, que ela caiu em gargalhadas.
O riso foi tão inesperado que José levantou a cabeça e corou. Dom Fernando observou com bonomia:
— Mas, que criança é você ainda, Dolores!
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 18, 2017 8:02 pm

Durante o lanche, Dolores pediu permissão para ver as cabanas; e dom Fernando, com um sorriso, consentiu.
Além disso, pediu a ela que visitasse, de vez em quando, a galeria feminina e assumisse a supervisão dos trabalhos artesanais, pois contava com seu bom gosto na escolha de novos desenhos.
A jovem, feliz em ter uma ocupação, agradeceu calorosamente ao tio.
Ela reparou que aquela proposta não tinha agradado José, mas como ele não fizera nenhuma objecção, alegrou-se com seu descontentamento.
Logo que o lanche terminou, Dolores mandou Sara levá-la à galeria feminina, um prédio comprido onde mais de duzentas negras e mulatas, sentadas em fileiras, faziam trabalhos de tecelagem, bordado, costura e renda.
No fim da comprida sala, num pequeno tablado, estava sentada a supervisora que Dolores tinha visto durante o almoço, no dia anterior.
Naquela oportunidade, ela usava uma roupa brilhante e muito chamativa e agora estava de roupa íntima, suja e indecente.
Apesar de sua aversão, Dolores tratou-a com gentileza.
A mulata chamava-se Gilda.
Quando esta soube que dom Fernando passara à recém-chegada a supervisão de todos os trabalhos femininos, sua atitude tornou-se exageradamente lisonjeira, até desagradável.
Cedeu a Dolores sua poltrona e começou a lhe servir frutas exóticas.
Cantou hinos à beleza, à bondade e à virtude de Dolores que, ouvindo aqueles elogios, mal segurava o riso.
Dolores visitou também as aldeias dos escravos, que ficavam em volta da fazenda.
Entrava nas cabanas, conversava com as mulheres e os velhos e tratava os doentes, pois aprendera medicina popular com dona Ximena.
Distribuía frutas e doces entre as crianças.
Até tornou-se madrinha de algumas delas.
Ela procurava usar sua crescente influência sobre dom Fernando a favor de seus protegidos.
Todos a adoravam.
Já havia-se passado um mês desde a chegada de Dolores e em toda a fazenda não havia um negro, cujo rosto não se iluminasse com um sorriso feliz e agradecido ao vê-la.
Todos viam nela um génio do bem.
Cada vez mais dom Fernando apegava-se à sua sobrinha, cuja personalidade encantadora e inteligência o animava e o distraía.
Dolores havia trazido consigo livros recentes da Europa e, depois do jantar, quando todos se reuniam, ela e José revezavam-se na leitura em voz alta.
O relacionamento entre os jovens era muito tenso e ainda nenhuma palavra tinha sido dita a respeito do casamento.
José sentia a antipatia da prima, apesar da gentileza e cortesia com os quais ela o tratava.
Este sentimento tornava-se mais penoso, porque Dolores, a cada hora, o encantava mais e mais.
Ele mesmo não se dava conta da medida de seu envolvimento, inflamado ainda mais pelas alusões de Bartolomeu à grande amizade entre sua prima e o bonito capitão durante a viagem.
Por mais vagas que fossem, era o suficiente para provocar toda uma tempestade de ciúmes na alma do jovem.
Vaidoso e orgulhoso de sua riqueza, no íntimo, era sempre humilhado e torturado amargamente por sua desprezível origem.
Constantes atritos entre os jovens agravavam o clima que fora criado.
Um dia, José mandou de presente para Dolores algumas peças de tecidos caros e ela as devolveu por intermédio de Sara, José ficou tão furioso que, por pouco, não matou a camareira.
— Ai, como fiquei assustada! — dizia Sara ao voltar, tremendo de pavor.
Mas, por sorte, tudo acabou bem.
Agora ele pode entregar essa cesta a sua querida Gilda.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 18, 2017 8:02 pm

— Por que a Gilda? — perguntou Dolores, surpresa.
Sara corou, balbuciou algo incompreensível, mas acabou confessando que Gilda era amante de dom José e de dom Janto também.
— Meus Deus!
Por que eles têm a mesma amante?
Parece que mulheres na fazenda não faltam!
E como dom José pode gostar de uma criatura tão suja e velha? — disse Dolores, ficando pálida de nojo e de espanto.
— Isso é um mistério para todos.
A ligação já dura cinco anos — contou Sara.
— Quer dizer que dom José ainda era adolescente quando caiu em seus encantos — observou, ironicamente, Dolores.
— Sim! Mas, devo lhe dizer, minha bondosa senhora, que Gilda é uma bruxa e tanto.
Ela sabe tanto encantar quanto botar olho gordo.
Na fazenda ninguém duvida que ela tenha enfeitiçado dom José e dom Bartolomeu, porque os dois obedecem-na e perdoam todas as suas faltas.
Ela é má como um demónio e ciumenta como um tigre.
Azar daquela de quem dom José gostar.
— O que acontece com aquelas que caírem nessa desgraça? — perguntou a jovem, tomada por um sentimento desagradável.
— Elas morrem! — respondeu Sara em voz baixa.
A conversa causou uma impressão forte em Dolores.
À antipatia que José lhe inspirava acrescentaram-se desconfiança e nojo.
Tornar-se-ia ela rival e vítima daquela criatura imunda e criminosa ao casar-se com o jovem fazendeiro?
José nem suspeitava dos novos sentimentos que ele provocava em sua prima, apenas intrigou-o o olhar estranho com o qual ela o fitara, quando o surpreendeu conversando com Gilda.
O jovem ficava cada vez mais nervoso, sua frieza e impassibilidade deram lugar à agitação e tornara-se mais difícil conservar a máscara de indiferença altiva na frente das pessoas.
Ele nem percebia o quanto seu estado de espírito e suas atitudes reflectiam no seu relacionamento com Dolores.
Certa manhã, José precisava transmitir algo para Janto.
Então, ao voltar das plantações foi à casa do gerente, amarrou o cavalo à coluna da varanda e, sem cerimónia, entrou em seu quarto.
Em lugar de Bartolomeu, encontrou Gilda.
Ela estava sentada ao "bureau" e examinava um envelope meio rasgado com tanta atenção, que nem reparou na chegada de seu senhor.
— O que faz aqui? — perguntou José.
A mulata estremeceu.
Seu olhar penetrante e desconfiado passou pelo interlocutor.
Depois, ela respondeu:
— Este envelope foi rasgado por acaso e estou tentando consertá-lo.
É uma pena, porque a carta é de dona Dolores.
Ela mandou Sara entregá-la a Janto para que, junto com outra correspondência, fosse levada ao porto.
Se dona Dolores souber disso, ficará brava e pode imaginar Deus sabe o quê.
Dando uma bofetada em Gilda, José pegou a carta com a intenção de colocá-la num novo envelope.
Porém, a tentação de ler o que Dolores tinha escrito venceu e ele a abriu.
Era uma correspondência de Dolores ao pai, onde, detalhadamente, ela descrevia José, seu temperamento e seu carácter.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 18, 2017 8:02 pm

Não poupou tintas e o retrato de José saiu muito vivo, porém repugnante, ainda que muito próximo do original.
A descrição era impregnada de um ultrajante desprezo a José, desprezo de uma aristocrata altiva a um homem de sangue misto.
Sufocando-se de fúria, José leu a carta até o fim.
— Espere só, linda Dolores! — exclamou ele.
Você ajustou as contas sem o patrão.
Se não se tornar minha esposa, não receberá nem um dobrão de meu pai!
Isso eu lhe garanto!
Quanto a mim, mais do que nunca quero possuí-la; mas farei você, mendiga orgulhosa, suplicar meu amor.
E esta carta nunca chegará a Toledo.
Eu a guardarei como prova, como escudo contra a fraqueza, se um dia seus olhos de safira tiverem poder demasiado sobre mim.
O ataque de fúria demente deixou José sem forças.
Ele deitou-se e mandou avisar que não iria almoçar.
Dom Fernando, em seguida, chegou apressado para saber o que havia acontecido com seu xodó, mas ao ver que não havia nada de grave, deixou-o sozinho.
Apesar de José não aparecer durante três dias consecutivos, ninguém o perturbava.
Finalmente, no quarto dia de manhã o jovem saiu de seus aposentos.
Dolores tinha ido à igreja e, aproveitando sua ausência, José decidiu ir ao seu quarto.
Achava que encontraria lá mais cartas com referências a ele.
Passou pela sala de visitas e pela biblioteca sem se encontrar com ninguém; parou no "boudoir" e revirou toda a escrivaninha, sem resultado.
As buscas no dormitório foram mais felizes:
na pequena mesa, sobre um livro aberto, estava um caderno grosso de capa dura com a inscrição "Meu Diário".
O achado deixou José tão empolgado que ele esqueceu-se que estava em território alheio.
Ao sentar-se na poltrona, abriu o caderno e começou a ler.
Ficou absorto e não reparou que a porta do vestiário abrira-se e ali estava Sara, parada, estranhando a presença do patrão.
De repente, a camareira entendeu o que estava se passando e, correndo à mesa, gritou:
— O que está fazendo, dom José?!
Não posso permitir que toque no diário de dona Dolores.
José, surpreso, levantou a cabeça e olhou para ela com desprezo.
— É você, sua idiota, quem vai decidir o que permitir ou proibir para mim?
Fora daqui!
Se você ousar dizer uma palavra a minha prima sobre o que viu, vai pagar por essa língua solta com suas costas!
Mas, o desespero deu coragem a Sara.
— Não, não! Dê-me esse caderno!
É o diário de dona Dolores!
Ela ficará muito brava se souber que o senhor leu-o! — gritava ela.
— Não é de sua conta, imbecil!
Fico com o caderno aqui e vou continuar lendo!
Se você se atrever a fazer mais um movimento, eu a estrangulo!
— Pode estrangular!
Socorro, me ajudem, um ladrão! — gritava ela, ao sair correndo do quarto.
Enfurecido e espantado, José jogou o caderno e foi embora.
— Espere só, animal!
Pagará caro por essa ousadia — resmungava ele, indo depressa para seu quarto.
Apesar da raiva contra a negra, o jovem não tinha como castigá-la por ela não ter-lhe deixado cometer aquela indiscrição imperdoável.
José entendia isso e, apesar de sua irritação, deveria manter silêncio, por enquanto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 18, 2017 8:02 pm

CAPÍTULO VI
Passaram-se cerca de três semanas.
O relacionamento entre José e sua prima continuava frio e tenso como antes.
Sentimentos conturbados como ira, ciúme e paixão tempestuavam na alma do jovem, mas ele mantinha a aparência gélida.
Pelo profundo amor que lhe inspirava sua sobrinha, dom Fernando resolveu mandar imediatamente a soma necessária ao irmão e convidá-lo a conhecer Cuba para presenciar o casamento de seus filhos.
Para a grande surpresa do velho, seu plano encontrou furiosa oposição da parte de José.
Com uma amargura que dom Fernando não conseguia entender, o jovem implorava ao pai que não mandasse nada ao Conde de Mornos enquanto o casamento não se realizasse ou, pelo menos, não fosse decidido.
A causa da fúria de José era a infeliz carta de Dolores que estava sempre com ele e cujo farfalhar era suficiente para fazer seu sangue ferver.
Além do mais, naquela carta ela falava de sua ligação com Gilda.
O conhecimento daquele facto fazia-o desprezível e miserável aos olhos de Dolores.
Ele entendia isso e se roía por dentro.
Quem ousara contar a Dolores que Gilda era sua amante?
Então, resolveu falar sobre o assunto com a mulata.
— Você certamente gaba-se para todo mundo que é minha amante — disse ele.
De outra maneira, como Dolores pôde saber disso?
Se eu souber que foi você quem se atreveu a espalhar isso, mandarei açoitá-la e de suas costas gordas vai escorrer banha!
A mulata caiu em prantos e fechou o rosto com o avental.
Mas, por entre os dedos, ela fitava o jovem com seu olhar cáustico.
— Coitada, infeliz de mim!
Outros pecam e sou eu quem deve pagar! — uivava ela.
— Outros?!
Quem são esses outros? — perguntou José, inquietando-se.
— Quem? Evidente que é Sara.
Essa fofoqueira sem vergonha, a camareira de dona Dolores, que lhe conta tudo.
Através de seu namorado Scipión, ela fica sabendo de qualquer coisinha que acontece na casa.
José acalmou-se.
As astutas palavras da megera deram nova direcção aos seus pensamentos.
Era uma ocasião excelente para ajustar as contas com a camareira por não lhe ter deixado ler o diário de Dolores e, com isso, vingar-se da prima por seus olhares de desdém, pelos sorrisos irónicos e pela indiferença altiva para com ele.
José voltou para os seus aposentos tranquilizado e chamou Sara.
Pode-se imaginar o pavor da moça quando ele, severo e zangado, começou a censurá-la por ter espionado o patrão e, além disso, ter ousado macular os ouvidos de dona Dolores com aquela fofoca escandalosa, cuja veracidade ela não podia provar.
Por mais que ela jurasse sua inocência e que não tinha dito nenhuma palavra a sua patroa sobre ele e Gilda, José não quis nem ouvir.
— Eu vou-lhe ensinar a usar sua língua solta e mentirosa com mais discrição e cuidado — disse ele.
Amanhã receberá vinte e cinco chibatadas.
Aposto que depois dessa lição, você ficará muda como um túmulo.
Com um grito de pavor, Sara caiu de joelhos.
Em vão, ela rolava pelo chão suplicando misericórdia, beijava seus pés e banhava-se em lágrimas.
José continuou implacável e mandou-a sair.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 18, 2017 8:03 pm

Quando Sara, cambaleando, levantou-se, ele acrescentou com um ar muito significativo:
— Não se esqueça, se disser a sua patroa que está sendo castigada mandarei dobrar as chicotadas.
Portando, seja prudente em seu desespero.
Dolores ficou terrivelmente revoltada ao saber do vergonhoso e cruel castigo aplicado a sua camareira.
A primeira ideia da jovem foi correr ao tio e conseguir perdão para Sara.
Mas, para seu grande desgosto, dom Fernando, que sentia-se mal desde de manhã, havia tomado calmantes e estava de cama.
Ela sabia que, nesses casos, ele acordava só no dia seguinte e já seria tarde demais, porque a camareira seria levada ainda à noite e castigada bem cedo na presença do próprio José.
Enérgica como sempre, Dolores decidiu apelar directamente ao primo.
Apesar de sua aversão a ele, ela correu para os aposentos de José, que encontrava-se no terraço.
Por mais leves que fossem os seus passos, ele os ouviu e, surpreso, perguntou:
— Como, é você, prima?
— Sim, sou eu.
Vim perguntar por que motivo me tiram a camareira para torturá-la e me deixam sem empregada? — disse Dolores, vermelha de indignação.
— Ela é levada e será castigada porque tem a língua muito comprida e os ouvidos curiosos demais — respondeu José.
Vendo o espanto da jovem que provavelmente não o tinha entendido, ele acrescentou, querendo evitar esclarecimentos desagradáveis:
— Se leva castigo, é porque merece.
Não se irrite por tais ninharias.
Amanhã ela lhe será devolvida.
— Sim, desfigurada e doente!
Eu não admito essa crueldade! Não posso acreditar que ela tenha feito algo que mereça um castigo tão terrível.
Eu lhe imploro, José — ela aproximou-se dele e pegou sua mão — , tenha bondade, perdoe a pobre moça!
Ao encontrar o húmido e suplicante olhar daqueles olhos azuis, José sentia seu coração amolecer e encher-se de um novo sentimento, desconhecido para ele.
E quase abriu a boca para dar o perdão a Sara quando, de repente, em sua cabeça,
rápido como um relâmpago, passou a lembrança da infeliz carta e o severo julgamento nela expresso pela solicitante.
Ele ergueu-se como se fosse mordido por uma serpente.
Envergonhando-se com sua fraqueza àquela mulher que o desprezava, respondeu em tom severo:
— Lamento muito ter de recusar seu pedido, prima.
Essa moça merece o castigo e será castigada.
Aliás, ser-lhe-ei muito grato, Dolores, se não se meter nos assuntos que eu já resolvi.
Um forte rubor cobriu as faces de Dolores.
Sem dizer uma palavra, ela virou-se e foi embora do terraço.
Estava indignada e surpresa ao mesmo tempo.
Era muito mulher para não ter lido nos olhos de José o quanto estava próxima da vitória.
Ela quebrava a cabeça, tentando descobrir o que provocara aquela hostilidade repentina.
Mas, todos os seus raciocínios não levaram a nada.
Como poderia adivinhar que sua carta, da qual já nem se lembrava, estava nas mãos de seu primo?
Dolores, desgostosa, não conseguiu dormir a noite toda.
De manhã, ela mandou selar o cavalo e foi voando à aldeia, onde Sara seria castigada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 18, 2017 8:03 pm

Na praça, cercada de cabanas, estava uma multidão de negros, os capatazes, José e Janto.
Atrás deles, de joelhos, Scipión batia a cabeça contra o chão, o que, é claro, só o crânio de um negro poderia suportar.
Seu rosto estava inchado, cheio de lágrimas, suplicando em vão ao seu senhor para que ele levasse as vinte e cinco chibatadas no lugar de sua noiva.
Então, trouxeram Sara, aos prantos; tiraram suas roupas e amarraram-na ao poste.
Naquele instante, ouviu-se o galopar de um cavalo e Sara e Scipión deram um grito de alegria.
José virou-se rapidamente.
Ao ver Dolores, ficou vermelho e seus olhos não desgrudavam da moça, que nunca lhe parecera tão encantadora como naquele momento.
Seu acompanhante, Eleazar, pulou do cavalo e ajudou sua senhora a descer da sela.
José notou nos olhos do jovem mulato uma grande adoração e uma enorme raiva e ciúme tomaram conta de todo o seu ser.
— O que quer aqui, prima? — perguntou ele, zangado.
— Quero lhe implorar mais uma vez misericórdia e perdão a essa moça! — respondeu Dolores com lágrimas nos olhos, estendendo-lhe as mãos unidas.
Então, instalou-se um silêncio mortal.
Os olhos de todos dirigiam-se à jovem, a quem os negros da fazenda já adoravam há tempos como sua protectora e génio do bem.
José sentiu novamente que estava fraquejando.
Resistindo àquele sentimento, ele gritou com voz rouca a um negro que estava perto do poste com um chicote levantado:
— Vai!
Este hesitou por um instante, depois, a primeira chicotada foi desferida à camareira, que gritou desesperadamente.
Dolores empalideceu e fechou os olhos.
Scipión lançou-se à ela e, beijando seus joelhos, suplicou que não abandonasse Sara.
A jovem, instintivamente, colocou a mão sobre a cabeça encaracolada do negro.
Nesse mesmo instante, um outro grito, mais terrível ainda, estremeceu todo seu corpo.
Um ciúme inconsciente tomou conta de José, quando viu que alguém ousava tocar Dolores.
Ele levantou o açoite e correu a Scipión gritando, fora de si:
— Animal!
Como ousa importunar a Condessa e perturbar a execução do castigo?
Dolores viu o açoite levantado e o rosto do fazendeiro desfigurado de ira.
Instintivamente, ela avançou para segurar o braço dele e assim protegeu as costas de Scipión.
Uma forte chibatada caiu em cima dela, arrancando o lenço de rendas, fazendo um sulco sangrento em seu ombro delicado.
Ao ver o sangue que tingiu o vestido branco de Dolores, José caiu em si.
Por um minuto ele ficou paralisado, olhando para a moça, terrivelmente pálida.
Seus olhos estavam fechados e ela parecia estar prestes a cair.
O único grito de Dolores deixou todos petrificados.
O incidente não durou mais de um segundo.
Vendo que Dolores cambaleava e caía sem sentidos, José esqueceu-se de tudo.
Num piscar de olhos ele já estava ao lado dela, segurando-a.
— Desamarrem aquela idiota!
E que vá para o inferno! — gritou ele, pegando Dolores nos braços e levando-a até um banco.
Água e gaze! — ordenou ele.
José lavou imediatamente a ferida, fez uma bandagem e, do lenço que usava como cinto, fez uma tipóia para o braço ferido de Dolores.
Mal terminou aquela operação, Dolores abriu os olhos.
Em seus lábios, lia-se desprezo e ódio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 18, 2017 8:03 pm

Ao empurrar o jovem, ela tentou levantar-se, mas estava fraca e não conseguiu.
Naquele instante, Sara banhada em lágrimas, aproximou-se dela.
— Fora daqui, miserável!
E esteja em casa antes de chegarmos! — disse José.
— E você, minha prima, permita-me que eu a coloque na sela.
Infelizmente aqui não há palanquim e, se mandar buscá-lo, levará muito tempo.
Cavalgaremos devagar e eu a segurarei.
Para chegar aos aposentos de Dolores, era preciso passar ao lado do terraço de dom Fernando.
O velho fazendeiro já havia-se levantado e estava tomando café.
Ao ver um estranho cortejo, ele chamou José.
Este teve de parar e ajudar a prima a descer do cavalo.
— Dolores, minha querida criança!
O que aconteceu?! — gritou ele, apavorado, vendo que a jovem subia as escadas cambaleando e ao notar uma bandagem ensanguentada em seu ombro.
— Nada, tio.
Tive o descuido de proteger perante dom José minha camareira Sara, que ele havia mandado chicotear.
Então, para variar, ele me castigou também por minha inconveniente intromissão.
Ele foi grosseiro comigo e...
Ela não terminou sua brincadeira maldosa.
Sua cabeça girava e, de fraqueza e emoção, perdeu os sentidos.
Dom Fernando lançou ao filho um olhar que dom José nunca tinha visto em sua vida.
— O quê?! Você enlouqueceu a tal ponto?! — perguntou dom Fernando, segurando a sobrinha e olhando para o filho com espanto e ira.
Este, cuidando de Dolores, tentava se justificar e explicar o acidente.
Por fim, a jovem, ainda inconsciente, foi levada ao seu dormitório.
O hindu foi chamado para fazer companhia à Condessa.
Este caso, evidentemente, não podia favorecer o relacionamento entre os jovens e deu muito desgosto a dom Fernando.
Por duas semanas Dolores não abandonou seus aposentos até que, completamente curada, apareceu na hora do almoço.
Então, a vida tomou seu rumo habitual.
Porém, mais do que nunca ela demonstrava frieza e altivez para com o primo, mal escondendo sua hostilidade.
Havia duas causas para aquele comportamento: a primeira era a carta de seu pai, na qual este descrevia uma série de aborrecimentos e dificuldades financeiras que lhe arranjava o banqueiro rejeitado que, no desejo de se vingar, uniu contra ele todos os agiotas.
A segunda era a iniciativa de dom Fernando que com um correr de pena poderia pôr fim àquela desonra e miséria e que poderia ter-lhes ajudado há muito tempo, mas que continuava se prorrogando por causa de seu filho.
Tal impasse enchia de raiva o coração da jovem mulher por José.
Assim, passaram-se dez dias.
Atormentado por cólera, pelo ciúme e por sua paixão secreta, José ora procurava se encontrar com a prima, ora a evitava.
Num dia, pouco antes do almoço, ele entrou na sala de visitas e Dolores estava lá sentada num sofá, brincando com seu macaquinho de estimação.
A jovem respondeu ao cumprimento do primo com um aceno de cabeça.
Quase em seguida, levantou-se e saiu.
José, mal contendo sua raiva e amargura, caiu na poltrona que estava perto da janela e tentou ler.
Estava tão absorto em seus pensamentos que não apenas se esqueceu do livro aberto em suas mãos, como não viu, nem ouviu Dolores retornar à sala.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 18, 2017 8:03 pm

De repente, um grito rouco da jovem trouxe-o de volta à realidade.
Ele virou-se rapidamente e ficou imóvel, como se estivesse paralisado.
O sangue subiu-lhe à cabeça com tanta rapidez que sua vista escureceu.
Não se sabe se José tinha perdido a carteira ou se o macaco a retirara de seu bolso.
O facto é que o maldito animal estava sentado no sofá com uma carteira no colo e segurava nas patas uma carta como se estivesse lendo-a, imitando José.
Era a fatal carta de Dolores!
Pálida, a jovem olhava para o macaco.
Depois, com um gesto rápido, arrancou a carta do bicho.
Ao correr a vista pelo papel e tremendo de corpo inteiro, ela virou-se ao imóvel e emudecido José.
— Eu não estava enganada! — disse ela, fulminando o primo com um olhar desdenhoso.
Só um bruto enriquecido pode cometer um ato desses, digno de um lacaio.
José ergueu-se como um boneco de mola.
O tom e o olhar da moça produziram nele o efeito de uma bofetada.
Irritadiço, arrogante, acostumado à adoração de todos, excedendo-se na raiva, que apagara sua razão, ele não se lembrou que a culpa era só dele.
Com o rosto ardente, avançou para a prima:
— Está esquecendo do conteúdo dessa maldita carta que caiu em minhas mãos por acaso? — perguntou ele com voz rouca.
A zombaria e a opinião "muito lisonjeira" que você revelou provam sua gratidão à família que a acolheu.
— Gratidão?! — repetiu Dolores com uma expressão indescritível.
Não tenho nenhum motivo para ter esse sentimento por você!
— A resposta é muito cómoda.
Não menos genial é seu plano de me isolar no nosso trato.
Sabe muito bem do que estou falando.
Mas, permita-me aproveitar a ocasião e tirá-la do equívoco.
Enquanto eu viver, não conseguirá conquistar meu pai e não receberá dele o dinheiro que o Conde de Mornos precisa.
Não fomos nós quem os procurou em Toledo.
Foram vocês quem se dirigiram a nós pedindo ajuda.
Eu não consenti esse trato familiar com a condição de nosso casamento para ser brinquedo de seus caprichos e sofrer com sua revolta e seu orgulho.
Portanto, tenha cuidado, Condessa, e tente não me ofender demais, pois pode acontecer que eu me recuse a me casar com uma mulher atrevida, cujo dote eu mesmo devo pagar.
Cego pela fúria, José entregou-se ao desabafo.
A palidez de Dolores, encostada na mesa mal se apoiando, fê-lo voltar a si.
Lamentando suas palavras impensadas, ele correu para amparar a moça, mas Dolores deu um passo atrás, como se encarasse uma cobra.
— Tem razão, dom José!
Realmente nos dirigimos a vocês ao esquecer quem são e recebemos o que merecemos.
Reconheço minha ingratidão por todos os favores com que me cercaram.
Você me golpeou e agora me liberta também como a uma escrava, que pode ser vendida ou comprada à vontade.
Deus me livre de esperar por novas provas de sua magnanimidade e me sujeitar à sua recusa nesse acordo familiar.
Eu mesma me recuso a ele e à sua hospitalidade também.
No primeiro navio eu deixo Cuba.
A voz de Dolores tornou-se firme e a palidez trocou-se por uma face corada.
José ficou calado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 18, 2017 8:04 pm

Ele não esperava um resultado daqueles e a ideia da partida da jovem atingiu-o directamente no coração.
No entanto, ele preferiria morrer a reconhecer sua fraqueza.
Naquele momento crítico, ouviram-se os passos pesados de dom Fernando e o velho entrou, apoiando-se na bengala.
Bastava olhar para o rosto dos jovens para entender que entre eles houvera uma tempestade.
— O que aconteceu?
O que há com você, Dolores?
Por que está tão agitado, José? — perguntou dom Fernando, inquieto.
— Nada de importante, tio!
Dom José apenas declarou-me que nunca permitirá que eu ganhe a simpatia do senhor para lhe arrancar a ajuda necessária a meu pai.
Cansada de tantas ofensas, deixo imediatamente sua casa e mudo-me para a de dona Ana, onde estarei até a partida do primeiro navio, que me levará a Espanha.
Dom Fernando sentou-se na cadeira, tremendo de corpo inteiro.
Ele ansiava casar José com sua sobrinha.
Além do mais, tinha certeza que seu filho estava loucamente apaixonado por ela e receava que sua estranha teimosia lhe custasse a felicidade de toda uma vida.
— Acalme-se, Dolores, e conte-me o que aconteceu!
Não posso permitir que você mantenha sua decisão tão precipitada sem antes analisá-la a fundo, porque você foi-me confiada por Pedro.
E você, José, saia. Deixe-nos a sós.
Docilmente, José obedeceu.
Ele sabia que o assunto estava em boas mãos e suspirou aliviado.
Dom Fernando, com ternura, tentou dissuadir Dolores e suplicou-lhe que não o abandonasse.
Após uma longa resistência, a jovem acabou cedendo e prometeu ficar.
Apesar do ódio ao primo, ela tinha medo de perder a última possibilidade de salvar seus próximos.
Ciente de que sua ausência era o melhor meio de fazer esquecer o escândalo, José declarou que na manhã seguinte visitaria as plantações e as minas distantes, onde passaria alguns dias, porque era preciso fazer alguns reparos sérios por lá.
Dias depois, o fazendeiro vizinho, dom Olivero, deu um grande baile.
Martinez e Dolores foram à festa.
Mas, para sua enorme surpresa, a jovem encontrou entre os convidados Alfonso de Vasconcellos, que aproximou-se dela e logo já estavam sentados juntos, conversando.
"Ele está mais bonito ainda", pensava Dolores, que nunca o havia visto num rico traje de gala.
De repente, um desgosto tomou conta dela.
"Para que ele veio?
Não seria para ser admirado pelas mulheres, cujos olhos não desgrudam dele?"
Como se confirmando aquele pensamento, Vasconcellos, após alguns minutos, levantou-se, fez-lhe reverência e misturou- se às pessoas.
Depois de ter dançado com muitas damas, Vasconcellos chegou a Dolores e convidou-a para o próximo minueto, mas ela se recusou, alegando que já tinha sido convidada.
Para deixá-lo bem irritado, foi dançar o minueto com José.
O ciúme a havia perturbado tanto que ela mal se controlava e resolveu isolar-se num dos gabinetes em volta da sala, cheio de flores e de folhagens.
Acabava de sentar-se, abanando a face ardente, e ouviu por trás das plantas a voz de Vasconcellos.
— Que pensamentos ruins, Dolores, emocionam sua alma?
Será que se esqueceu de minha promessa?
Por acaso, posso me comportar de outra maneira na sociedade, sem provocar a atenção geral?
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 19, 2017 8:48 pm

E, por isso, está tão zangada que nem quer dançar comigo?
A raiva de Dolores passou em seguida.
— Onde você está?
Não estou vendo você.
Venha, vamos dançar! — disse ela, levantando-se e voltou para a sala.
Minutos depois, Vasconcellos apareceu e ofereceu-lhe a mão.
Durante a dança, ele perguntou em voz baixa:
— E, então, como é seu relacionamento com José?
Espera ter uma vida mais ou menos tolerável?
Todas as emoções daquela noite deixaram Dolores muito nervosa.
Com aquela pergunta, grande aflição e amargura se apoderaram de tal maneira da jovem que ela mal segurava o pranto.
Alfonso percebeu sua terrível emoção e apertou fortemente a mão dela.
— Pelo amor de Deus, Dolores, acalme-se! — balbuciou ele.
Precisamos conversar.
Arranjarei nosso encontro de uma maneira ou de outra.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 19, 2017 8:48 pm

CAPÍTULO VII
Depois da partida de Dolores, reinava no antigo palácio dos condes de Mornos uma sinistra tristeza.
A ausência da jovem encantadora e corajosa formou um vazio que nada podia preencher.
A primeira carta de Dolores consolou o velho Conde.
A recepção cordial de dom Fernando a sua filha deu uma nova esperança à família.
Mas, aquela alegria não durou muito. Uma tempestade que se formava no escuro desabou inesperadamente sobre as cabeças do Conde e de seus filhos.
O banqueiro Levisón, tão severamente posto para fora do castelo por dom Ramiro, depois da infeliz tentativa de receber a mão da filha do orgulhoso senhor, não conseguia esquecer aquela ofensa feita.
Ele comprava as letras promissórias dos condes de Mornos e as passava para seus patrícios.
Choveram aborrecimentos de todo o tipo sobre os Mornos:
ora recebiam recusa de empréstimo da forma mais grosseira, ora cobranças de dívidas inesperadas que eles não tinham possibilidade alguma de pagar e, por fim, ameaças dos agiotas de vender tudo em leilão, junto com os móveis do palácio.
Passaram-se meses e de Cuba não vinha ajuda, nem esperança de salvação próxima.
Então, uma enorme impaciência e grande desespero começaram a atormentar o jovem Conde, quando, finalmente, recebeu uma carta que deu nova direcção aos seus pensamentos e seus planos.
A correspondência vinha de Janto.
Em poucas palavras, o gerente comunicava o que havia acontecido na fazenda e acrescentava:
"O negócio que é de seu conhecimento está encaminhado.
Já sei onde estão as coisas que lhe são necessárias.
Chegando o momento da acção, será fácil tomar posse delas.
Dom Fernando está doente.
Sua saúde piora tão rapidamente que não teremos de esperar muito por sua morte.
A esse respeito, devo lhe dizer, senhor Conde, que, na minha opinião, o senhor e seu pai precisam vir a Cuba.
Deverão estar aqui para tomar as medidas necessárias e apresentar seus direitos.
Poderão viver incógnitos em Havana e aparecerão no momento apropriado.
Por favor, senhor Conde, comunique-me sua decisão e o dia de sua partida, se resolver seguir meu conselho."
Aquela carta deixou Ramiro aceso.
Os resultados da arrojada intriga que o desespero fizera surgir em sua cabeça superava todas as expectativas.
Por fim, ela lhe traria riqueza, livrá-lo-ia de todos os aborrecimentos e, além disso, daria a possibilidade de se vingar do desprezível mulato, que caçoava de sua desgraça e se divertia com os tormentos e a humilhação de toda a sua família.
O pai dele insistia no casamento com a moça tão encantadora que fora cortejada humildemente por aristocratas como os duques de Suzá, e aquele filho de uma escrava nem se apressava a contrair o matrimónio tão brilhante.
— Espere só, cachorro!
Quando me tornar dono da fazenda, você me pagará por todos os nossos infortúnios e por cada lágrima de Dolores — resmungou ele, apertando os punhos.
Ramiro decidiu deixar Toledo logo, porque sua vida na cidade natal havia-se tornado odiosa para ele.
Achou mais prudente não dizer nada ao pai, aristocrata severo e escrupuloso, sobre seu acordo com Bartolomeu.
Ao vender secretamente tudo o que pôde e juntando a soma necessária para a viagem, Ramiro aproveitou uma das cenas mais pesadas entre o pai e um agiota e convenceu-o a ir para Cuba.
Muito a contragosto, dom Pedro concordou com a partida, que mais parecia uma fuga vergonhosa.
Tiveram de viajar às escondidas e o amor-próprio do orgulhoso Conde se ofendia com aquilo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 19, 2017 8:48 pm

Ramiro tinha preparado tudo.
Sem dificuldades, eles chegaram ao porto e entraram num navio.
Era uma caravela pesada e velha que, por ironia, chamava-se "O Fugitivo".
— Vamos esperar que não nos persigam agora, apesar disto aqui ser um verdadeiro delato — observou dom Pedro, ao ler o nome da embarcação.
A viagem foi demorada, mas feliz.
Dois meses depois, os Mornos estavam em Havana e comunicaram sua chegada a Dolores e a Bartolomeu.
Logo receberam duas cartas: uma de Dolores a dom Pedro, outra de Janto a Ramiro.
Um vergonhoso amargor pela fuga dos parentes de Toledo e por sua situação desesperadora transparecia em cada palavra de Dolores.
A jovem enviou algumas jóias e comunicou que dom Fernando, a pedido dela, ordenou a Janto que lhes mandasse dinheiro e os convidasse para ir à fazenda, mas José expressou seu descontentamento tão abertamente que ela aconselhou o pai e os irmãos a não aparecerem e aguardarem até que o destino dela se resolvesse.
Isso não iria demorar, porque o tio, cada vez com maior insistência, expressava seu desejo de ver o matrimónio realizado.
A carta de Janto também estava acompanhada de dinheiro.
O gerente escrevia que dom José, entregando-o aquela soma, mandava-lhe dar a entender ao tio e aos primos que lhe dariam grande satisfação se não fossem à fazenda.
Após o casamento, eles receberiam o combinado e, então, poderiam voltar à Espanha.
Lendo aquela insolência, Ramiro tremia de cólera, mas a continuação da carta acalmou-o um pouco.
Bartolomeu comunicava que dom Fernando estava muito mal e que sua morte se aproximava.
Alguns dias depois, apareceu o próprio Janto para visitá-los.
Ele disse a dom Pedro que seu irmão ficara gravemente doente depois da rebelião nas minas, o que por pouco não custou a vida de José.
O gerente acrescentou que não podia entender porque o velho, apesar de seu louco amor pelo filho, não pensava em garantir seu futuro com um testamento e uma adopção.
Sendo filho de uma escrava não libertada, José continuaria sendo escravo, se dom Fernando morresse sem legalizar a situação dele.
— Se o orgulho nato de um homem branco ou algum outro motivo impede dom Fernando de fazer isso, eu não sei.
Mas, se ele morrer sem deixar os documentos necessários, posso apenas cumprimentar vossa excelência.
Sorrindo, Bartolomeu fez reverência aos condes.
— É pouco provável!
Meu irmão não deixaria seu xodó em nosso poder sem garantir seu futuro — observou o velho Conde.
— Na verdade, fui incumbido de avisar o juiz e o tabelião que estejam prontos para vir até a fazenda à primeira chamada, mas dom Fernando está protelando demais respondeu o gerente, dando de ombros.
Depois, numa conversa secreta com Ramiro, Janto disse-lhe que sabia onde estavam os documentos e que já havia tomado todas as providências para liquidá-los na hora certa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 19, 2017 8:49 pm

CAPÍTULO VIII
Dolores e José continuavam evitando um ao outro.
Porém, a briga não diminuiu a paixão de José, mas inflamou-a ainda mais.
Se o orgulho e a teimosia davam-lhe forças de esconder seus sentimentos na presença de Dolores, quando ficava só eles vinham à tona com força maior.
O jovem rondava seus aposentos, espiava Dolores sem ela perceber e deliciava-se de longe com sua beleza, vendo-a se balançar na rede ou brincar com alguma criança negra.
José não notava o sinistro ciúme de Gilda.
Aquela megera entendia que escapava dela um jovem e rico amante e sentia por Dolores um ódio tão profundo que decidira envenená-la.
Um dia, depois do almoço, Dolores voltou ao quarto terrivelmente pálida e cansada.
Ao ler um pouco, deitou-se e tocou a campainha para chamar Sara.
— Traga-me algum refresco.
Tenho muita sede, estou queimando por dentro.
A camareira correu para cumprir a ordem.
O aspecto fraco da jovem, as olheiras enormes, a preocuparam muito.
Quando voltou com um copo de limonada gelada numa pequena bandeja, viu com pavor sua senhora pular da cama e correr até a janela.
— Ar! Preciso de ar!
Estou me sufocando!
Dolores queria arrancar a cortina, mas sentiu tontura e caiu de joelhos perto da janela.
Parecia estar morta.
Seus olhos abertos ficaram parados, o rosto e as mãos cobriram-se de manchas negras e em seus lábios apareceu uma espuma esverdeada.
Sara gritou por socorro.
Por sorte, o hindu estava por perto e apressou-se em socorrer a desfalecida.
Ele diagnosticou envenenamento e deu-lhe um antídoto, graças ao qual Dolores foi salva.
José entendeu que tinha sido obra de Gilda.
No começo, quis enforcá-la, mas Janto implorou para que ele a deixasse viver.
Então, José, com suas próprias mãos, açoitou a canalha.
A mulata suportou o castigo com ar de vítima e continuou insistindo em sua inocência.
— Provavelmente, dona Dolores comeu algumas frutas venenosas e eu, mulher inocente e indefesa, devo pagar por sua imprudência! — dizia ela.
Depois, começou a lamentar a cegueira de José, que tratava com tanta grosseria a pessoa profundamente fiel a ele por causa da mulher que não dava valor algum à bondade dele e cujo coração pertencia a outro.
Aquelas alusões surtiram enorme efeito.
Sem reparar nos cáusticos olhares da megera, o jovem objectou, furioso:
— Cale-se, serpente!
O que pode saber dos sentimentos de dona Dolores?
— Mais do que o senhor pensa!
Se, em lugar de procurar brigas com o coitado do Olivero, vigiasse melhor sua futura esposa, notaria certamente que ela está apaixonada pelo bonitão Vasconcellos.
Vendo a fúria e a surpresa de José, ela lhe contou tudo o que soube por Bartolomeu sobre o amor dos jovens e a conversa deles durante a tempestade no navio.
Aquelas revelações provocaram uma verdadeira revolta na alma de José.
Há muito tempo, seu amor próprio ferido soprava-lhe que a causa da indiferença de Dolores era o amor a outro homem.
Neste ínterim, dom Fernando estava se apagando.
Um dia, seu estado agravou-se bruscamente e ele sentiu-se tão mal que pediu a José que mandasse buscar o padre para lhe dar a extrema-unção.
O jovem, em seguida, mandou ao abade Linier um mensageiro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 19, 2017 8:49 pm

Este voltou comunicando que o abade havia sido chamado a outra fazenda e quando voltasse seria avisado que estavam esperando por ele na fazenda de Martinez.
Foi uma noite difícil.
Exausta, Dolores foi ao seu quarto para descansar um pouco.
José ficou sozinho com o doente, que estava tendo um sono pesado.
Acotovelando-se sobre a escrivaninha, o jovem entregou-se aos seus tristes e revoltosos pensamentos.
De repente, dom Fernando abriu os olhos.
Com tristeza, olhou para o rosto sombrio do filho e tocou sua mão.
— José, para que faz sua própria infelicidade?
Você ama Dolores, não negue isso — acrescentou ele, vendo o jovem estremecer e balançar a cabeça.
A mim você não engana.
Para que mentir?
Vejo que está sendo consumido pela paixão.
Por que não se casa e põe fim a essa falsa e insuportável situação?
— Porque Dolores ama outro.
Por mim sente apenas ódio e desdém — disse José com amargura.
O doente suspirou.
— Se é assim, é lamentável.
Mas, será que é verdade?
Em todo caso, suas deduções são injustas.
Dolores, essa criança pura e orgulhosa, não trairá nunca seu dever e não o difamará com a infidelidade.
Quando se casarem, nenhum mal- entendido injustificado irá separar vocês.
Case-se enquanto estou vivo. Um pressentimento me diz que tudo acabará mal se continuar protelando.
Mas, se vocês se casarem enquanto estou vivo, morrerei tranquilo.
Por um momento, a paixão e o orgulho lutaram na alma do jovem, mas o amor finalmente triunfou.
— Está bem, papai! Sua vontade é sagrada para mim e corresponde ao desejo de meu coração.
Amanhã de manhã falarei com Dolores e marcaremos o dia de nosso casamento.
Depois, ao discutir com o pai todos os detalhes, o jovem, com impaciência, ficou esperando o dia nascer para conversar com a prima.
Dolores sabia que mais ceda ou mais tarde teria de se casar com aquele homem odioso para ela.
Os assuntos do pai exigiam aquele sacrifício; então, aceitou a proposta de José.
Sua honestidade lembrou à sua consciência que ela tinha mau conceito do rapaz e provavelmente por isso José tivesse raiva dela, que não o amava.
Uma palavra calorosa naquele momento poderia ser a salvação para os dois, além de aliviar sua vida conjugal, já que deveriam se unir pelos laços do matrimónio.
Todos aqueles pensamentos, que duraram poucos segundos, provocaram na alma da jovem uma reacção inesperada.
— Dom José — disse ela, dirigindo a ele um olhar luminoso — confesse-me, diga-me francamente, de todo coração, se me ama.
Acredite que quero essa confissão não por vaidade, mas preciso dela como uma base, na qual possa construir minha vida e dar a ela uma finalidade:
fazer sua felicidade e aliviar o destino dos pobres negros.
É verdade que meu coração está morto.
Mas, ofereço-lhe minha amizade por toda a vida.
Aquele olhar caloroso e bondoso e aquela voz acariciante fizeram o coração de José bater forte.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 19, 2017 8:49 pm

O amor fê-lo esquecer-se de tudo e os lábios já iam se abrir para pronunciar:
"Amo você mais que minha vida!
Dê-me, pela menos, um pouco de amor", quando, de repente, a última frase de Dolores estragou tudo.
Seu coração morreu para José, é claro, mas batia por Vasconcellos.
Para ele restava apenas a amizade, que ela lhe jogava como esmola.
— Agradeço, bela prima, sua magnanimidade — respondeu ele com um sorriso irónico.
Amizade é o mínimo que uma mulher pode dar a seu marido, enquanto eu coloco a seus pés tudo o que posso lhe dar:
minha admiração pela sua incomparável beleza.
O tom foi gentil, mas o olhar cínico e insolente revoltou Dolores.
Aquela resposta ao seu franco e nobre apelo pareceu-lhe duplamente ofensiva.
Num segundo seu rosto mudou e o olhar flamejante e severo que lançou a José, fê-la lamentar por a ter ofendida.
Ele inclinou-se e quis pegar a mão dela, mas Dolores levantou-se e recuou.
— Concordo com o senhor, dom José.
Que seja feita a vontade do tio e que ele veja antes de morrer a realização do acordo pelo qual vocês se ligam à família de Mornos.
Estarei pronta na hora que o senhor quiser marcar.
Apenas quero que, antes da cerimónia matrimonial, seja-me entregue o capital combinado.
Espero que ache justa essa minha vontade.
— Sem dúvida! — respondeu José, também levantando-se.
Os papéis, no valor de quinhentos mil reais, serão entregues por meu pai.
Por enquanto, ele lhe manda isto aqui — José tirou do bolso dois documentos dobrados e os entregou à jovem.
— São as cartas de alforria de Scipión e Sara.
Há tempos você queria tê-los, mas ficaram prontos apenas ontem à noite.
Os noivos se despediram trocando reverências frias.
Descontente consigo mesmo e com tudo, José foi para os seus aposentos com o coração pesado.
Na alameda que levava ao seu terraço, ele encontrou Bartolomeu conversando com KakhlaSarma.
O hindu estava triste e o gerente preocupado e aflito.
Juntando-se a eles, José disse a Janto que iria se casar naquele mesmo dia e deu-lhe algumas ordens referentes à cerimónia.
O abade Linier chegou bem mais tarde que o previsto e, em seguida, começou a unção do moribundo.
Ao receber a extrema- unção, dom Fernando ficou tão fraco que todos pensaram que seria seu fim.
Mas, ele melhorou e sussurrou:
— Que comecem logo a cerimónia!
No quarto do doente, improvisaram rapidamente um altar.
Depois, José foi buscar a noiva.
Dolores estava lívida, mas com ar tranquilo e decidido.
Com aflição, o moribundo olhava ora para o filho, ora para a sobrinha.
Seus lábios tremiam, mostrando seu nervosismo.
José levou Dolores à mesa, na qual estava o registo do casamento, preparado às pressas.
A jovem não fez nenhuma objecção.
Com indiferença e frieza ela escreveu seu nome abaixo do nome de José.
Dom Bartolomeu e um dos velhos gerentes assinaram o documento como testemunhas.
Janto entregou à jovem uma pasta com a soma combinada.
Depois, os noivos aproximaram- se do altar.
Os dois estavam sombrios e visivelmente emocionados.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 19, 2017 8:49 pm

Ao término da cerimónia, José se dirigiu com a noiva até o pai.
Este, com lágrimas de alegria, deu-lhes sua bênção.
Quando eles se levantaram, José atraiu Dolores para si, querendo beijá-la, mas ela recuou.
Com o olhar frio e hostil, ela disse severamente:
— Para que essa comédia?
José não respondeu e sentou-se à cabeceira de dom Fernando.
O doente, cansado daquela agitação, fechou os olhos e mergulhou num profundo sono.
Junto ao moribundo ficaram também Bartolomeu, Dolores e Sara.
O abade retirou-se, alegando ter um assunto inadiável.
Mais de uma hora se passou em absoluto silêncio, rompido apenas pela respiração rouca e entrecortada do doente.
Subitamente, dom Fernando solevantou-se.
Com um olhar imóvel para o espaço, ele exclamou:
— Vá buscar, José! Vá buscar, enquanto estou vivo!
Ali, ali! Oh!... minha infeliz criança, salve-se!
— O que quer dizer, pai? — perguntou José, apoiando o moribundo, que caiu para trás, sem forças.
Naquele momento, dom Bartolomeu chegou correndo até a cama, gritando com voz dilacerante:
— Ele está morrendo!
Chamem o hindu! Depressa! Depressa!
— Eles estão chegando...
Oh! Meu filho! — sussurrou dom Fernando.
O corpo dele estremeceu, ele suspirou pesado e estirou-se.
Tudo estava terminado.
Instalou-se um silêncio solene no ambiente.
Depois, dom José, com a mão trémula, fechou os olhos do pai e Sara cobriu seu corpo.
Janto, nesse meio tempo, respirava pesado e enxugava o suor abundante de seu rosto.
Estava tão agitado que não podia ficar parado, mal ouvia o jovem fazendeiro e lhe respondia fora de propósito.
Ao tomar alguns copos de vinho, disse que sentia-se mal por causa do calor e da emoção.
Estranhando, José deixou-o ir e trancou-se no quarto do pai.
Uma grande inquietude e uma tristeza profunda oprimiam o jovem.
Ao tirar a coberta, ele inclinou-se sobre o corpo e olhou longamente para o homem que a vida toda pensou apenas em fazê-lo feliz e satisfazer todos os seus desejos e caprichos.
Agora, ele estava sozinho no mundo.
A única criatura que o amava sem interesse havia morrido.
Um sentimento de solidão terrível tomou conta de José e ele, com um gemido abafado, apertou seus lábios contra a mão fria do pai.
Depois, sentou-se sem forças na cadeira, fechou o rosto com as mãos e por suas faces correram lágrimas quentes.
Quando José saiu do quarto, pesaroso pela perda do pai que ele amava tão sinceramente, encontrou Sara.
Seu rosto estava banhado em lágrimas.
Ao ver o fazendeiro, ela correu a ele, gritando com voz entrecortada:
Graças a Deus!
Ainda bem que o senhor chegou, dom José.
Rezava a Deus para que trouxesse o senhor aqui!
É que a senhora estava tão esquisita!
— Esquisita como?
O que está dizendo? — perguntou o jovem, empalidecendo.
— Ela distribuiu todas as suas coisas e mandou entregar este bilhete ao senhor.
Com aquelas palavras, Sara entregou-lhe o papel.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 19, 2017 8:49 pm

José arrancou-o das mãos da camareira.
Mal olhou para ele, deu um grito e correu para o dormitório como louco.
A última conversa com José deixou Dolores com uma impressão muito ruim.
Quando ele disse que amava nela apenas a mulher bonita, tamanha ira e ânsia por vingança tomaram conta da jovem e, num instante, surgiu e amadureceu em sua mente uma decisão ousada.
Foi aquela decisão que lhe devolveu a calma.
Pensando nisso, ela foi para o seu quarto e começou a andar de um lado para outro febrilmente.
Sim! Ela castigaria aquele insolente que se atrevia a ofendê-la e igualá-la a uma amante.
Ela se vingaria dele, castigando sua avareza e frustrando todos os seus desejos.
Um dia seu pai lhe disse:
"Morreremos todos juntos!" e ela respondeu, na ocasião:
"Para que todos?
Basta sacrificar uma vida e, se for preciso, pode ter certeza, pai, que eu saberei morrer".
Chegara o momento de realizar aquela orgulhosa decisão.
Ela queria e precisava salvar os seus, mas sua honra feminina não lhe permitia viver com José.
Afinal, o que ela estava perdendo?
Uma existência sem amor nem esperança.
Uma vida com a ferida sempre aberta:
a lembrança de Vasconcellos.
Ao pensar que naquele mesmo dia deveria esquecer Alfonso para sempre, pertencer a José e suportar a presença daquele homem odioso, uma dor tão terrível apertou o coração de Dolores que até o suicídio lhe pareceu uma libertação.
A partir de então, começou a agir resolutamente.
Escreveu cartas de despedida ao pai e ao irmão, entregou a Scipión a pasta com o dinheiro para que ele a levasse ao Conde de Mornos e, a José, deixou o seguinte bilhete:
"Seu egoísmo e sua crueldade, que não reservaram para mim um lugar decente em seu coração nem nesta casa, mandam-me embora daqui.
Morro deixando-lhe aquilo que você comprou e o que queria possuir: meu corpo, e apenas o corpo.
Você desprezou minha alma e, hoje de manhã, recusou tudo aquilo que ela poderia lhe dar.
Por isso, eu a levo comigo.
Espero que, ao me ver morta, seu coração cruel esteja livre de qualquer lamentação e remorso.
Aliás, resta-lhe aquilo que ama mais do que tudo no mundo:
o orgulho, o egoísmo e o ouro. Dolores de Mornos."
Depois de dobrar a carta, ela a deixou num lugar visível; passou um olhar meio triste, meio irónico, pelo quarto que um dia viu por acaso.
Nada havia sido mudado ali, pois não houve tempo para grandes preparativos.
Fora colocada apenas mais uma penteadeira coberta com rendas e, na larga cama, uma colcha branca de seda e novas almofadas.
"Nestas almofadas descansará apenas meu cadáver", pensou ela, aproximando-se da penteadeira de José.
Ao ver um estojo, ela abriu-o.
Nele, como esperava, estavam as navalhas.
Era isso o que ela precisava, porque resolvera cortar as veias, tendo lido em algum lugar que era a morte mais fácil.
Deveria apressar-se, pois se José passasse por aquela porta estaria perdida.
Mas, no momento crítico, a coragem a abandonou.
As forças vitais de seu jovem corpo revoltavam-se contra a destruição.
O medo do desconhecido e do sofrimento físico apoderou-se da jovem.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 19, 2017 8:50 pm

Lívida, Dolores fechou os olhos e recostou a cabeça na poltrona.
Sentia vergonha de si mesma.
Em vão, ela tentava recuperar a coragem.
Mas, naquele instante, parecia que estava ouvindo passos masculinos no quarto ao lado.
Ela ergueu-se, como se levasse um choque e, com súbita decisão, passou a navalha por ambos os pulsos.
Foi um alarme falso. José não apareceu.
Excitada, Dolores quase não sentiu dor.
Com uma sensação estranha ela olhava para os dois fios de sangue que escorriam de seus pulsos, tingindo as flores e as rendas de seu vestido.
A dor acalmou-se.
Sentiu apenas uma terrível fraqueza.
Seus ouvidos começaram a zunir e seus olhos fecharam-se com uma nuvem escura.
Ela queria orar pela última vez, mas sua mente estava confusa.
A voz de alguém, que chegou ao seu ouvido como uma trovoada longínqua, por um instante, tirou-a do torpor.
Como que através de uma neblina, ela viu o rosto de José, inclinado sobre ela, mas não entendeu suas palavras.
Quase em seguida, tudo sumiu e sentiu como se estivesse voando sobre um abismo negro.
Dolores perdeu os sentidos.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 19, 2017 8:50 pm

CAPÍTULO IX
A carta de Dolores passada por Sara teve o efeito de um golpe de marreta em José.
Nunca lhe havia passado pela cabeça que a jovem poderia atentar contra a própria vida.
Acusando-se amargamente por ter demorado tanto para socorrer a esposa, José correu para o dormitório.
Ao ver Dolores toda ensanguentada quase perdeu a razão.
Ele a chacoalhava, chamava-a pelos nomes mais carinhosos e tentava trazê-la a si.
Os gritos dilacerantes de Sara, que entrou atrás dele no quarto, devolveram a José a presença de espírito.
Jogando-se sobre a cama, ele arrancou o lençol, cortou-o e amarrou fortemente os pulsos de Dolores.
Colocando-a na cama, gritou alto:
— Chamem KakhlaSarma!
Os prantos e lamentações de Sara atraíram outros criados e, junto com eles, Bartolomeu.
Este, ao ver o corpo imóvel de Dolores, começou a arrancar os cabelos.
— Ela morreu!
Morreu! — repetia ele.
Minutos depois, chegou o hindu conduzido pelos negros, pois caminhava muito devagar.
Por ordem dele, todos saíram do quarto, excepto José e Sara.
Então, tiraram a roupa manchada de Dolores.
KakhlaSarma inclinou-se sobre ela e pingou em sua boca gotas de um fortificante.
— Ela vai viver? — perguntou José, que ajudava Sara a limpar o sangue das compridas tranças de Dolores.
Ele estava quase tão pálido quanto a moça e por todo o seu corpo passava um tremor nervoso.
— Nesse exacto momento não posso dizer nada.
Ela perdeu muito sangue — respondeu o hindu.
Dei-lhe um remédio forte que vai causar um delírio.
Amanhã verei se há possibilidade de salvá-la.
A cada hora é preciso dar-lhe cinco gotas de um medicamento que enviarei.
De madrugada é que vou ver que efeito ele produziu.
Agora, não posso fazer mais nada.
José, abatido, sentou-se na cabeceira de sua mulher.
Ao pé da cama, num banquinho, sentou-se Sara.
Novamente um terrível sentimento de solidão apoderou-se dele.
Com amargor pensava na triste noite de núpcias que lhe preparara o destino:
a morte do pai, a mulher morrendo e nenhum amigo verdadeiro para ajudá-lo nem apoiá-lo.
Naquele instante, uma cabeça peluda encostou em sua mão e tirou-o de seus pensamentos.
Era Rex. Vindo do quarto ao lado, fitava José com seus olhos verdes.
"Eis o amigo do qual me esqueci", pensou José, acariciando o tigre, deitado tranquilamente em seus pés.
Subitamente, Dolores mexeu-se e abriu os olhos.
Seu rosto tinha manchas vermelhas e seus olhos brilhavam febrilmente.
Ela não reconheceu José que, timidamente, inclinou-se sobre ela.
Tomando-o por Vasconcellos, a jovem murmurou com um sorriso alegre:
— Alfonso, querido!
Apenas um rubor escuro delatou a emoção do fazendeiro, causada por aquelas palavras.
Mordendo os lábios, José apoiava Dolores e dava-lhe o remédio prescrito.
Passaram-se cerca de duas horas.
Dolores estava num sono profundo, que parecia um desmaio.
Sara acomodou-se num outro canto do dormitório.
Terrivelmente cansado, José recostou a cabeça na almofada e fechou os olhos.
De repente, o rugido de Rex fê-lo estremecer.
José levantou- se com espanto e viu um jovem desconhecido à porta do quarto.
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