Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 20, 2017 8:25 pm

O visitante inesperado examinava o quarto com um olhar sombrio, cheio de ódio.
Ao ver na cama a roupa ensanguentada, o homem jogou-se a Dolores.
— Ah! Canalha!
Você a matou! — gritou ele.
Rex rugiu e pulou.
Ele era muito apegado à jovem e a seguia por toda a parte.
Percebendo o perigo por parte de um desconhecido, correu para a cama querendo defender Dolores.
Mas, o jovem senhor, com a rapidez de um relâmpago, tirou da cintura uma pistola e atirou rápido na cabeça da fera.
O tigre, então, caiu morto no chão.
Indignado com aquela atitude atrevida do desconhecido e totalmente fora de si, José pulou da cadeira e correu furioso para cima dele.
— Quem é você?!
Como ousa entrar aqui e ir agindo como bem deseja?! — gritou ele.
Fora criatura insolente!
Como se atreve, bandido!
Um sorriso altivo e irónico deslizou pelos lábios do jovem desconhecido.
— Sou Ramiro de Mornos!
Eu é que tenho o direito de lhe perguntar o que significa o estado em que minha irmã se encontra e essa roupa toda ensanguentada.
Mas agora chega de tanta conversa e siga-me imediatamente.
No gabinete de seu pai as autoridades estão o aguardando para resolver um assunto muito sério e da maior urgência.
Enfurecido e descontente com aquela invasão, José achou melhor se desfazer logo daquela visita intempestiva e indesejada que chegara para entristecê-lo ainda mais, matando num repente o único companheiro que lhe restava.
No dia anterior, dom Pedro e seus filhos estavam sentados à mesa no jardim de uma pequena casa em Havana com uma garrafa de vinho velho.
De repente, apareceu um negro a cavalo e bateu no portão.
O corpo do cavalo estava todo coberto de espuma.
Era um mensageiro enviado pela manhã por Bartolomeu Janto, trazendo uma carta a dom Pedro.
O gerente escrevia:
"Meu senhor.
Venha sem perder tempo.
Seu irmão está agonizando e não passará de hoje.
Ele não fez o testamento.
Tragam consigo autoridades para constatar o falecimento de dom Fernando e confirmar seus direitos à herança."
Outro bilhete fora endereçado a Ramiro e continha apenas as seguintes palavras:
"Está tudo arranjado!"
Mas, isso foi o suficiente para deixar o jovem Conde eléctrico.
Rápido e enérgico, ele reuniu todas as pessoas necessárias.
Uma hora e meia depois, todos cavalgavam pelo caminho até a fazenda dos Martinez.
Eram quase sete horas da manhã quando o Conde de Mornos, um juiz, um tabelião e um advogado chegaram à fazenda.
Desmontando dos cavalos, eles perceberam a agitação que reinava entre os numerosos escravos e, evidentemente, atribuíram o movimento à morte de dom Fernando.
Mas, pode-se imaginar o terror e o desespero de dom Pedro, quando o pálido e aflito Bartolomeu, que chegou correndo para recebê-los, comunicou em voz baixa ao Conde que Dolores, no dia anterior, casara-se inesperadamente com José.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 20, 2017 8:25 pm

— É claro que esse matrimónio fica inválido se o jovem não apresentar o documento legal sobre sua adopção acrescentou o gerente.
Infelizmente, dona Dolores levou isso muito a sério e tentou tirar a própria vida.
— Mas, ela não morreu?!
Quero vê-la! — gritou o Conde louco de desespero.
— Não fale nada sobre o casamento, senhor.
Na fazenda corre o boato de que ele não foi realizado.
Assim é melhor.
Mas, permita-me levá-lo ao gabinete do falecido.
Logo que a situação dos senhores e a de dom José for esclarecida, levarei o senhor à Condessa que, no momento, está dormindo, como me disse o médico.
Embora estivesse profundamente emocionado, dom Pedro entendeu que o gerente tinha razão.
Sem objecção alguma, deixou que seus acompanhantes e ele fossem conduzidos ao gabinete do falecido irmão.
Ramiro pediu a Janto que mandasse alguém levá-lo ao quarto da irmã.
À ordem de Bartolomeu, Scipión conduziu o jovem Conde até os aposentos de José.
Pálido, com os lábios apertados, cheio de ódio e amargura, dom Pedro andava pelo gabinete.
Por isso, quando a porta se abriu e José entrou, acompanhado por Ramiro, o coração do velho senhor encheu-se de tanta cólera e ódio, que apagaram- se toda a sua magnanimidade fidalga, condescendência e senso de justiça.
O jovem fazendeiro olhou para as visitas indesejadas fria e hostilmente.
Depois, fez uma leve reverência.
Para sua grande surpresa, ela foi respondida apenas pelo juiz, que José conhecia de vista, e pelo advogado.
Já os Mornos pareciam não tê-lo notado.
Dom Pedro continuava a andar pelo quarto e Ramiro, em meio-tom, conversava com Bartolomeu que, muito nervoso, procurava não olhar para o lado de José.
Essa insolência fez José explodir.
Ele abriu a boca para fazer uma observação não muito gentil, mas o juiz adiantou-se:
— Senhor, a morte de dom Fernando impõe-me a obrigação de lhe perguntar se tem o testamento de seu pai e o documento legal sobre sua adopção.
Caso os tenha, apresente-os ou indique onde se encontram.
— Os documentos dos quais fala estão aqui no "bureau" de meu pai e eu lhos entregarei agora.
Mas, acho que o senhor juiz poderia esperar e revogar essa exigência até que o corpo de dom Fernando seja sepultado.
Confesso que me é estranha essa pressa de vossa parte — contestou.
José tirou a chave do bolso, sentou-se ao "bureau" e abriu uma gaveta secreta.
De repente, ele empalideceu e febrilmente começou a revirar os papéis.
Infelizmente em vão.
Um volumoso pacote selado havia desaparecido sem deixar vestígios.
José revirou mais uma vez os papéis e examinou cada canto da gaveta.
Ramiro, com o coração palpitante, observava o primo, temendo que ele tirasse de algum esconderijo as duplicatas dos documentos.
Mas, o pálido e assustado rosto de José, que tremia de corpo inteiro, convenceu-o logo de que Bartolomeu havia cumprido a missão com maestria, aniquilando os únicos documentos que poderiam livrar o filho do tio de seu ódio e de sua vingança.
A cabeça de José girava; sentia-se à beira de um abismo.
— Dom Bartolomeu — disse ele com voz rouca — , você deve saber onde estão esses documentos.
Não passou nem um mês desde que você os viu aqui, na minha presença e na presença de meu falecido pai.
O gerente deu de ombros e balbuciou algo, mas ninguém conseguiu entender.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 20, 2017 8:25 pm

— Senhor Juiz, meu pai formalizou minha adopção.
Ele me reconheceu como seu filho e herdeiro.
Por alguma casualidade incompreensível, os papéis sumiram desse "bureau".
Provavelmente, estão escondidos em algum outro lugar.
Em todo caso, deve haver cópias deles...
Ele calou-se de repente.
Ao encontrar olhares irónicos e desconfiados, sentiu um aperto na garganta.
— Que tabelião testemunhou esses documentos e quem os assinou como testemunhas? — perguntou friamente o juiz.
— O tabelião chamava-se dom Pablo Henriquez e as testemunhas foram o velho senhor Gonzalez e o abade dom Gomez.
— Todos os três morreram — observou o juiz desdenhosamente.
Dom Pedro parou e, medindo José com o olhar cheio de ódio e desdém, disse:
— Senhor Juiz, tenha a bondade de ler o artigo da Lei que confirma meus direitos sobre a herança deixada por meu falecido irmão dom Fernando, caso não haja documentos provando que ele passou seu nome e sua fortuna a seu filho ilegítimo José, nascido da mulata Eva.
O Juiz pegou um livro que havia trazido consigo e leu o artigo da Lei que dizia:
"Filho fora do casamento não legitimado e nascido de escrava não alforriada, não apenas não tem nenhum direito a herança, como torna-se escravo do novo proprietário."
Era indescritível o que acontecia naquele instante dentro do infeliz José.
As palavras da Lei, como um vago zumbido, chegavam até seus ouvidos.
Ele conhecia perfeitamente aquele artigo, mas nunca pensou que poderia ser aplicado a ele.
Estava perfeitamente consciente apenas de que estava sendo privado de todos os direitos humanos, que tiravam-lhe tudo e que o homem que tanto o amou e deu-lhe tudo, profetizou a aproximação dos inimigos, apressados em acabar com ele.
De repente, teve um tremendo acesso de fúria contra os ladrões que armaram contra ele aquele terrível complô.
— Não encontro os documentos, é verdade!
E eu não consigo imaginar de que maneira conseguiram roubá-los! — gritou ele, espumando.
Mas os documentos existem e aparecerão! Até lá, provarei a vocês que o dono aqui sou eu! Fora!
Ao tirar do cinto um apito de prata, deu um silvo estridente.
Só que daquela vez ninguém se apressou em atender sua chamada.
Dom Pedro apenas observou com desprezo:
— Deve-se fazer cópias de documentos tão importantes, precavendo-se contra o roubo.
Mas, basta sobre isso!
Como único herdeiro de meu irmão, tomo posse de todas as suas propriedades.
Quanto ao filho da escrava não alforriada, será escravo como os outros.
Que se ponha novamente no lugar que nunca deveria ter deixado.
Dom Sebastião, prepare as atas necessárias e o senhor, dom Bartolomeu, dê ordens a todos os negros da fazenda para se reunirem na praça da aldeia.
Irei falar com eles.
E mandem também para cá alguns criados, antes que este escravo desaforado, que tanto abusou da fraqueza de meu irmão e que se passava por senhor, tente aprontar alguma coisa.
O juiz, o tabelião e o advogado saíram do gabinete.
Janto seguiu-os apressado.
Contra sua vontade, tinha um sentimento penoso ao ver seu antigo patrão que, pálido e com o rosto transfigurado, privado de nome, fortuna e liberdade, repudiado por todos, convulsivamente agarrava o encosto da cadeira que estava perto dele.
Dom Bartolomeu procurava evitar o olhar de sua vítima que, naquele momento, lembrava-lhe de modo estranho o moribundo dom Fernando.
Com ar preocupado, ele correu do gabinete.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 20, 2017 8:25 pm

Quase no mesmo instante, José ergueu-se.
Em sua mente perturbada surgiu uma nova ideia:
não era ele marido de Dolores?
Com a mão trémula, ele tirou do bolso a certidão de casamento e entregou-a ao velho Conde.
— Sou seu genro, dom Pedro de Mornos.
O senhor não vai querer aplicar o artigo da Lei, aqui lido, ao marido de sua única filha.
Dom Pedro, sem ler, rasgou o papel e jogou os pedaços aos pés do miserável.
— Este documento teria valor se você fosse filho legitimado de meu irmão e não escravo sem nome nem direitos.
Perante a Lei, seu matrimónio não tem valor algum — disse ele com desprezo.
— Mas, ele tem perante Deus!
Dolores tornou-se minha esposa por livre e espontânea vontade!
— Sua tentativa de suicídio prova o quanto sua decisão foi espontânea e o quanto o seu amor trouxe-lhe felicidade — observou Ramiro em tom cáustico.
— A questão entre nós era o dinheiro, não o amor.
Vocês mandaram sua filha para cá a fim de que ela conquistasse meu coração ou talvez algo mais importante para vocês, disse José com amargor.
Talvez ela mesma, a meiga sobrinha, a quem meu pai adorava e para a qual não tinha segredos, tenha levado do "bureau" os documentos que garantiam meus direitos e entregue seu marido legítimo a um destino insólito.
O falecido fez tudo para garantir minha felicidade e minha independência.
Pobre do meu pai!
Ele não sabia que sobre seu leito de morte já pairavam urubus que preparavam, muito habilmente, um golpe.
— Cachorro desaforado!
Como ousa sujar o nome de Dolores com tal suspeita?! — exclamou o velho Conde, tremendo de raiva.
Peguem-no e levem-no à praça da aldeia! — ordenou aos negros que acabavam de chegar e, respeitosamente, esperavam na porta.
Eles obedeceram.
Ao ver que fora agarrado pelos braços dos mesmos escravos que desde seu nascimento obedeciam suas ordens, José caiu numa verdadeira cólera.
Ele se debatia como um demente e apenas com grande esforço conseguiram amarrá-lo e levá-lo até a praça.
Lá já se reuniam centenas de negros e seus capatazes.
Os ajudantes do gerente estavam um pouco afastados.
Os olhos de todos dirigiam-se com curiosidade e medo a José, pálido, desgrenhado, com a roupa rasgada.
Quatro homens fortes o seguravam.
Depois de uma curta espera, que à multidão parecia uma eternidade, chegou dom Pedro acompanhado por seus filhos e por dom Janto.
Em poucas e benévolas palavras, o velho senhor anunciou aos escravos reunidos que agora tinham um novo senhor e prometeu-lhes facilidades e uma vida melhor.
As últimas palavras do Conde foram respondidas por gritos de alegria.
Aquela multidão com esperança e euforia recebia o pai e os irmãos de Dolores, sua boa e incansável protectora.
Nenhum olhar de pena ou condolência foi lançado ao severo e cruel homem que tão impiedosamente exercia sobre eles seu poder.
Ele voltava à escravidão, da qual o acaso lhe tirara, e isso nada mais era que a justiça.
— Levem o escravo José!
Troquem sua roupa, tranquem-no numa cabana e não tirem os olhos dele — ordenou Ramiro, a quem o pai deu toda a liberdade na gerência das propriedades.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 20, 2017 8:26 pm

— Scipión, você será o guarda desse preguiçoso e irá vigiá-lo para que trabalhe na roça como os outros.
Há tempos o trabalho deveria fortalecer essas costas, delicadas demais para suportar o cansaço de uma viagem à Europa.
Vendo José cair no chão como um corpo sem vida, Ramiro virou a cara com um sorriso sarcástico e dirigiu-se para casa, seguido por dom Janto.
— Dom Bartolomeu, venha me ver à noite.
Espero que nossa conversa deixe-o satisfeito — acrescentou ele, amigavelmente.
Sem sentidos, José foi levado da praça.
Enquanto estava inconsciente, colocaram nele roupas de escravo:
uma camisa e calças de pano rústico.
Depois, jogaram-no em cima da palha.
Já era dia quando o infeliz voltou a si.
Estava tão acabado moralmente, que nem viu onde se encontrava.
Indiferente, sem pensar em nada nem se desesperar, José fechou os olhos.
Não ouviu quando a porta se abriu e na cabana entrou Scipión com um chicote na mão.
Por um minuto, o negro com ares de suficiência rude ficou olhando para seu antigo senhor, diante do qual tremeu durante tantos anos e que um acontecimento incrível acabou entregando-o em suas mãos.
— Levanta, seu preguiçoso, e vai para a plantação de cana! — gritou Scipión, dando um forte chute nele.
José estremeceu e, ao ver seu antigo escravo, ficou furioso.
Levantou-se de um pulo para avançar em Scipión, mas este deu um passo atrás, chicoteou-o e gritou:
— Ah! Canalha! Ainda se atreve a se revoltar contra seu capataz!
Será que esqueceu que seu poder acabou e agora nós aqui somos mais importantes do que você?!
José parou, petrificado.
Em sua camisa surgiu uma faixa de sangue e uma terrível dor, sentida por ele pela primeira vez, incapacitou-o de raciocinar e de se movimentar.
Scipión aproveitou o momento e chamou os escravos.
José foi agarrado e levado à força para a plantação de cana.
Lá já estavam Ramiro e Janto.
Montado em Baobdil, o cavalo preferido do dono destituído, o jovem Conde fazia perguntas sobre o tamanho da plantação de cana-de-açúcar, quando José chegou conduzido, ou melhor, arrastado.
— Escravo José — disse Ramiro, olhando para ele — vá trabalhar e com seu esmero tente justificar os anos que passou na mordomia.
Se for diligente, recompensarei você e talvez o liberte.
José levantou a cabeça e os jovens trocaram olhares cheios de ódio.
— Seu ladrão!
Pode me matar, mas não vou trabalhar em minhas próprias terras.
O que significa para você um crime a mais?
Ramiro sorriu.
— Scipión, seu subalterno trabalha mais com a língua do que com as mãos.
Com ar feroz, Scipión agarrou o jovem infeliz pela gola e, dando-lhe chicotadas, empurrou-o para a multidão de negros.
Ao ouvir os gemidos do coitado, dom Bartolomeu, emocionado, virou-se e começou a conversar com um de seus ajudantes.
Neste ínterim, colocaram um facão na mão de José para que ele começasse a cortar a cana.
Scipión não largou seu chicote enquanto o infeliz, vencido pela dor física, não se submetesse à severa necessidade e não começasse logo a trabalhar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 20, 2017 8:26 pm

Quantas vezes, montado em seu fogoso corcel, o altivo José via calmamente os mesmos espectáculos e apenas gritava:
"Façam esse vagabundo se mexer!"
Agora, quando ele mesmo experimentava aquele tratamento humilhante, ninguém tinha pena dele.
Ninguém olhava para o desfigurado rosto e as costas ensanguentadas do homem, cuja imagem, durante muitos anos, fez tremer a todos e cuja presença significava mais trabalho para os escravos.
Ramiro notou a perturbação de Janto.
Quando o gerente quis sumir sob o pretexto de ter algumas ordens a dar o jovem Conde parou-o e perguntou-lhe com ironia:
— Aquilo que vimos agora é desagradável para você, dom Bartolomeu?
— Confesso, Conde, que não esperava vê-lo aplicando todo o rigor da Lei ao filho de seu tio.
Se dona Dolores estivesse bem de saúde ela, certamente, protegeria o homem que por algumas horas foi seu marido.
— E ela não teria razão!
Esse famigerado marido não se acanhou em deixá-la ser envenenada pela mulher que também é sua concubina, como eu soube, dom Bartolomeu.
— Há muito tempo Gilda deixou de representar tal papel para mim, dom Ramiro.
Apenas o estranho amor de dom José por ela obrigava-me a ser condescendente com todas as malfeitorias dessa megera — respondeu o gerente.
— Ah! Excelente!
É preciso unir esses dois amantes dignos um do outro e obrigar Gilda a trabalhar também.
Ela não serve como supervisora.
Depois, pode-se casá-los.
Isso, pelo menos, acabará com as fofocas sobre a tola história do casamento dele com Dolores — concluiu Ramiro, rindo de todo o coração.
Na noite anterior, Scipión entregou a dom Pedro a pasta e a carta de Dolores.
Terrivelmente desesperado, o velho senhor ficou à cabeceira da cama da filha, deixando todos os negócios para Ramiro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 20, 2017 8:26 pm

CAPÍTULO X
Através de Bartolomeu, Ramiro ficou sabendo do amor de Dolores por Alfonso e resolveu unir os jovens.
Informou-se sobre o capitão e soube por um de seus amigos que ele vivia em Havana e que a "Sílfide" e seu comandante logo chegariam a Cuba.
Aquela notícia estimulou Ramiro e convencido de que o melhor remédio para Dolores seria a presença do homem amado e a certeza de pertencer a ele, o jovem Conde resolveu eliminar todos os obstáculos e a nebulosa lembrança do infeliz casamento da irmã com José, o que, aliás, não deveria chegar aos ouvidos de Vasconcellos.
Ramiro conhecia a índole franca, magnânima e escrupulosa de seu amigo de infância, que não apenas insistiria no divórcio formal, como protestaria contra o tratamento desumano dado a José.
E Ramiro não tinha a menor vontade de mudar suas atitudes, pois não podia esquecer nem perdoar o primo pelas inúmeras humilhações que o fizera sofrer.
Ele não podia esquecer também que os constantes adiamentos e a ironia desdenhosa de José foram a única causa das desgraças da família.
Convencer o pai e a irmã não seria difícil.
Restava apenas assegurar o silêncio da testemunha mais perigosa, o abade Linier, e destruir o registo do casamento feito no livro da igreja.
Mas, ao pesquisar sobre o carácter do jovem padre, Ramiro não duvidava que iria conseguir um acordo com ele.
Finalmente, a "Sílfide" ancorou em Havana.
Sabendo disso, Ramiro dirigiu-se para a cidade e facilmente encontrou o amigo.
O relato sobre os acontecimentos alegraram Vasconcellos; apenas a notícia sobre a tentativa de suicídio de Dolores causou- lhe uma forte dor.
— Acalme-se!
Agora ela já está se recuperando.
Acho que se você a visitasse na fazenda seria o melhor remédio à minha pequena irmã maluquinha — observou Ramiro com vivacidade.
— Duvido que dona Dolores vá gostar de sua brincadeira — disse o capitão, corando.
Ramiro riu alto.
— Venha e pergunte a ela!
Durante o delírio Dolores só falava em você e até lhe deixou uma carta de despedida.
Como vê, não estou abrindo nenhum segredo especial.
Se você não a esqueceu, venha receber a bênção de meu pai e o beijo de noivado — respondeu o Conde, já em tom sério.
Em lugar de uma resposta, Alfonso apenas deu-lhe um forte abraço.
A convalescença de Dolores era lenta, mas ajudava-lhe a alegria de ver seus parentes.
Porém, ela ainda estava muito fraca e parecia ter perdido a memória, pois nunca falava do que havia acontecido, não perguntava sobre José e não ficou nem um pouco surpresa com o fato de ver seu pai fazendo o papel de dono da fazenda.
Receando emocionar a filha, dom Pedro procurava evitar alusões aos tristes acontecimentos que tinham causado sua doença.
O velho Conde recebeu Vasconcellos como um filho.
Sem a menor hesitação, ele consentiu com o casamento e, com ar alegre, levou-o até a enferma.
Dolores estava dormindo na rede.
Sua lividez e a terrível fraqueza partiram o coração de Alfonso.
Ele já havia lido a carta de despedida da jovem e estava cheio de ternura e amor.
Ao se inclinar sobre ela, o jovem tocou com os lábios a pequena diáfana mão de Dolores.
Ela, em seguida, abriu os olhos.
Por um minuto, olhou confusa para ele.
Depois, estremeceu, ruborizou e balbuciou:
— Você aqui, dom Alfonso?
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 20, 2017 8:26 pm

— Sim, minha querida, ele está aqui para nunca mais se separar de você — disse dom Pedro, pegando na mão de Vasconcellos.
Sare logo para que eu possa celebrar suas bodas.
E agora, meu filho, beije sua noiva e divirta-a.
Eu confio minha filha a você.
Feliz e emocionada, Dolores permitiu ser beijada.
Mas, de repente, seu rosto ficou triste e o olhar passava do pai para Ramiro.
Os dois sorriam alegremente.
Logo, uma conversa animada e interessante do capitão distraiu-a e ela parecia ter esquecido o que oprimia seu coração.
O dia passou rápido.
Às sete horas da noite, dom Pedro, que receava cansar demais a filha, disse que por aquele dia já tinham falado muito em amor e que Dolores deveria dormir.
Então, todos saíram e Ramiro conduziu Vasconcellos ao seu quarto.
Durante a conversa, Alfonso perguntou:
— Onde está José?
— Acontece que pela Lei ele tornou-se escravo.
Eu o mandei à plantação para que experimente a agradável vida dos negros, com os quais era tão severo.
É claro que ele trabalha moderadamente.
Meu pai decidiu lhe dar a liberdade logo depois que vocês se casarem e viajarem.
Ele lhe dará também uma boa soma em dinheiro e o mandará para a Europa.
Que viva lá como quiser! — contou Ramiro.
— Reconheço a generosidade de dom Pedro.
Mas, o castigo, aquele miserável mereceu!
Como deve ter torturado nossa pobre Dolores, se ela decidiu atentar contra a própria vida!?
Graças a Deus, vocês chegaram a tempo de impedir o casamento com José.
A chegada de um criado interrompeu a conversa dos amigos.
O escravo disse que dona Dolores pedia que Ramiro fosse vê-la imediatamente.
O jovem Conde atendeu o pedido da irmã e encontrou Dolores já na cama, preocupada e emocionada.
— O que você quer, Dolores? — perguntou Ramiro, sentando-se ao lado dela na cama.
A jovem soergueu-se e, ao pegar a mão de Ramiro, disse, desanimada:
— Quero lhe perguntar sobre uma coisa que me atormenta desde cedo, embora tivesse esquecido disso conversando com Alfonso.
É que minha cabeça ainda está muito fraca.
Diga-me, você sabe que estou casada com José?
Onde ele está?
Por que não aparece?
Como papai pôde nos noivar se já estou comprometida com outro e minha felicidade está destruída para sempre?
— Acalme-se, minha querida, você está livre!
Será que papai admitiria isso se você não tivesse o direito de se casar?
O tio não legitimou José, portanto, ele, como filho de escrava, tornou- se escravo e perdeu todos os direitos.
Seu casamento com ele não tem valor nenhum perante a Lei.
Mas, como ele está enfurecido e poderia atacar Vasconcellos e até matá-lo, nós o mantemos recluso, tratando-o com toda a condescendência, é claro!
Quando vocês se casarem e forem embora, ele terá a liberdade, um capital razoável e poderá ir para onde bem entender — tranquilizou a irmã.
— Mas, do ponto de vista moral, não posso me considerar livre, pois nossa união foi consagrada pela Igreja! - exclamou Dolores com desconfiança e inquietude.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 20, 2017 8:27 pm

O Conde, por um minuto, bateu os dedos na cama.
Depois, fitou a irmã com olhar perscrutador.
— Diga-me a verdade!
Você chegou a ser sua esposa de facto?
Sim ou não?
— É claro que não! — respondeu Dolores, corando.
— Nesse caso, a cerimónia foi uma simples formalidade sem nenhuma consequência.
Além disso, a seu favor está o facto de quase ninguém saber dessa história.
O abade Linier viajou para a Europa e a Igreja, com todos os livros onde poderia estar registado seu casamento, pegou fogo.
Portanto, não há nenhuma prova dessa história.
— Em todo caso, devo contar toda a verdade a Alfonso.
Não posso omitir dele essa circunstância tão importante.
— Pois isso é que seria totalmente inconveniente.
Criaria apenas uma série de aborrecimentos — interrompeu Ramiro.
Para que contar que durante algumas horas você foi esposa desse miserável só no papel?
Alfonso é, às vezes, insuportavelmente formalista e exigiria o divórcio.
O caso se prolongaria, chegaria até o bispo e cairia na boca do povo, o que não seria bom para você.
Mas, se não contar, pode-se evitar todo esse falatório.
Meu pai, dom Bartolomeu e eu decidimos não lhe dizer nada sobre esse caso desagradável.
Se dizemos que pode se casar com seu capitão bonitão de consciência tranquila, acho que pode acreditar em nós.
E mais:
José também foi comunicado de que seu casamento não tem validade.
Ele recebeu isso muito tranquilamente e declarou que gostaria de se casar com Gilda.
— Será que ele a ama realmente? — perguntou Dolores, corando fortemente.
— Pelo visto, ele a ama de paixão.
E você, acredito, não vai querer impedir sua felicidade, não é Dolores?
— Claro que não!
Eu aceito seus argumentos e vou ficar calada, embora a mim seja muito desgostoso ter segredos para Alfonso.
O tempo que se seguiu foi de muita felicidade para a jovem.
A companhia de Alfonso já não era um fruto proibido para ela.
Abertamente Vasconcellos cercava-a de amor e de cuidados.
Ela deliciava-se com o luxo que amava tanto.
Seu querido pai e seus irmãos, junto com ela, gozavam da riqueza e seu futuro estava livre de qualquer amargor.
Entretanto, a vida de José era uma tortura.
Espancamentos, ofensas, trabalho pesado sob o chicote de seu antigo lacaio, levavam-no a um desespero inerte e à submissão.
Não reparava em nada do que acontecia à sua volta.
Mas, o boato sobre as bodas de Dolores tirou-o daquele torpor espiritual.
A revolta levantou-se em seu coração e a fúria cegou sua mente.
Gilda, que foi colocada na cabana dele, instigava esse seu estado mental, contando-lhe detalhes daquilo que se passava na casa grande.
Ramiro inventou para José mais um escárnio requintado:
mandou-o arrumar a casa, onde os recém-casados passariam seus primeiros dias juntos, um pavilhão isolado na ilha do parque.
É impossível descrever os sentimentos do jovem infeliz
naquelas longas horas de tortura refinada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 20, 2017 8:27 pm

Aparentemente, ele parecia uma máquina, mas dentro de si acumulava-se algo infernal, amadurecia um furacão avassalador, precedido por uma calmaria, como acontece com os mais terríveis ciclones.
Com funesta indiferença, ele ouvia as conversas de Scipión com os trabalhadores e assim ficou sabendo a data do casamento.
Soube também que a festa começaria com um grande baile e terminaria à meia-noite com a cerimónia matrimonial.
Depois, os convidados acompanhariam os recém-casados, através do parque iluminado, até a beira do açude.
De lá, uma gôndola dourada os levaria ao pequeno paraíso.
No dia do casamento, Ramiro mandou casar José e Gilda.
José resistia àquela chacota, mas foi espancado impiedosamente e, ensurdecido, apresentou-se diante do altar com a horrenda mulata.
Ramiro, com sorriso diabólico, presenciou a cerimónia sacrílega.
José foi tomado pela cólera.
— Ladrão sórdido!
O que mais você ousou inventar?!
Já sou casado com sua irmã! — gritou ele, fora de si.
Prefiro a morte a essa comédia!
— Seu negócio é obedecer, não falar — respondeu Ramiro, fazendo um sinal a Scipión.
Em seguida, uma chuva de chibatadas caiu sobre o infeliz.
Aliás, uma delas acertou a cabeça e foi tão forte que ele perdeu a consciência.
Ramiro mandou jogar um balde de água fria nele.
Depois, começou aquela terrível farsa do casamento.
Quando tudo estava terminado, Ramiro, ironicamente, mandou deixar os recém-casados gozarem de sua felicidade e foi ver Dolores.
A moça estava perto da janela, pálida e distraída.
Ramiro fingiu não notar aquilo e começou a falar alegremente da festa e da felicidade e impaciência de Alfonso.
Depois, acrescentou:
— Aliás, acabei de presenciar uma cerimónia, que é de seu interesse, Dolores.
José acaba de se casar com Gilda.
A jovem reagiu.
— Ah! Quer dizer que é um amor verdadeiro?
— Sem dúvida!
Ele parecia muito feliz.
Logo que você partir, nós libertaremos a ele e a esposa.
Que vivam aonde quiserem!
— E ele não expressou nenhum desejo de me ver? — perguntou Dolores com certa insegurança.
— Ah! Não! Ele entende que o encontro com você não tem nenhum propósito e seria inconveniente.
Desde que José voltou ao seu meio, tornou-se um jovem muito prudente.
Ficando só, Dolores começou a andar pelo quarto, agitada.
Num primeiro instante, ao receber a notícia do casamento de José, ela sentiu um verdadeiro alívio:
se ele se casou, ela poderia tranquilamente sentir-se feliz.
Porém, aquela tranquilidade não durou muito.
Uma dúvida estranha e um vago pressentimento apertaram novamente seu coração.
Era completamente incompreensível para ela que José, sem protestar nem lamentar, tenha abdicado dela.
Por mais que a jovem tentasse afugentar aquela insistente dúvida, ela continuava a atormentá-la.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 21, 2017 8:40 pm

Mas, a chegada de um grupo de jovens para vestir a noiva distraiu Dolores de seus pensamentos sombrios.
Então, quando ela entrou na sala iluminada, vestida como uma rainha e linda como num sonho, esqueceu-se de tudo além da felicidade que preenchia todo o seu ser.
Neste ínterim, na aldeia dos escravos, ao ficar a sós com a esposa imposta, José caiu sem forças na palha e ficou imóvel numa espécie de torpor.
Incapaz de pensar, sentia apenas um terrível peso no coração.
A dor aguda das chibatadas, fazia-o gemer de vez em quando.
E assim, passou-se o dia.
À noite, quando o barulho da festa, a música, o canto e os gritos dos negros chegaram até a prisão do fazendeiro deposto, José acordou de sua apatia, que cedeu lugar a uma tempestade de raiva e de ciúme.
Como tigre na jaula, ele
corria pela cabana, rangendo os dentes e apertando os punhos.
Em sua imaginação inflamada surgia a resplandecente imagem da traidora Dolores, que se casava com Alfonso, contrariando todas as leis divinas, rejeitando a ele e aos seus direitos de marido.
Dentro de algumas horas, ela pertenceria ao belo marinheiro, enquanto ele, José, atreveram-se a casá-lo com uma escrava repugnante.
De repente, surgiu-lhe uma ideia.
Já devia ser meia-noite e, provavelmente, os guardas tinham saído para participar da festança.
Então, ele deveria aproveitar aquele momento e escapar dali.
No canto da cabana, onde passou sua primeira noite como escravo, José escondeu a aliança que esqueceram de lhe tirar:
nela estava gravado o nome de Dolores e o dia de seu casamento.
Depois de uma rápida busca, José a encontrou.
Com nojo, ele tirou de seu dedo o anel de prata que haviam-lhe colocado pela manhã, pôs o de ouro e sentiu-se forte e seguro de seus direitos.
Depois, levantou-se e olhou ao redor.
Como sairia dali?
A janela era muito pequena e a porta estava trancada.
Então, ele chegou até a porta e a forçou.
Todo o tempo, Gilda não tirava os olhos de José.
Ao adivinhar sua intenção, ela começou a protestar:
— O que você pretende fazer, seu maluco?
Não tem dó de suas costas?
Sua presença é dispensável na festa.
Além disso, você não tem o direito de me deixar aqui.
Afinal, você é meu marido!
— Fique quieta, sua idiota! — resmungou José.
— Idiota?! Oh! Não!
Sou a única amiga que lhe restou!
Deus o castigou por ter rido na minha cara, dizendo que sou velha e gorda e que só sirvo como amante, quando falei da possibilidade de nos casar.
Não respondi às suas ofensas, achando que você não queria provocar ciúmes em Bartolomeu.
Agora, quando é abandonado por todos, quando ninguém mais quer saber de você e todos o desprezam por seu mau-carácter e sua miséria, sou a única que ficou fiel a você.
Ah! A porta está rangendo, José! Seu burro!
Proíbo-o de me largar aqui por causa da festa, está ouvindo?!
Ou vou abrir tamanho berreiro que todos virão correndo para cá!
A última frase foi imprudente demais da parte de Gilda.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 21, 2017 8:41 pm

Se, na penumbra, ela pudesse ver o feroz e alterado rosto de seu companheiro, estremeceria de pavor.
José enxergou uma corda com um laço na ponta, que pendia do tecto e servia para pendurar coisas.
Com um rápido movimento, ele pegou a megera pela nuca e, antes que ela adivinhasse sua intenção, pôs sua cabeça no laço.
Depois, amarrou-lhe os braços e correu para a porta.
A incrível excitação duplicou suas forças e com um só golpe de ombro ele arrombou a porta.
Ele não se enganou:
os dois guardas haviam deixado seus postos perto da cabana.
Com a rapidez de um cervo perseguido por cães, José chegou até o parque e dirigiu-se à ilha.
Ele precisava dar uma grande volta para evitar as alamedas iluminadas, cheias de pessoas.
Mas, conhecia cada árvore, cada vereda, e sem nenhuma dificuldade chegou até o açude e se escondeu entre os arbustos.
Depois, arrastou-se até um lugar mais escuro e pretendia chegar à ilha a nado, quando notou um pequeno barco que os criados usavam.
Querendo manter- se seco, José entrou no barco e, em poucas remadas, já estava na ilha.
Quando chegou, novamente se escondeu nos arbustos e ficou observando a beira oposta.
Logo os gritos, exclamações alegres e a música anunciaram a aproximação do cortejo.
À frente, vinham os recém-casados.
Ao trocar os últimos beijos e as reverências, eles entraram na gôndola dourada com dois remadores à sua espera.
Por um segundo, o olhar ardente de José ficou preso ao casal.
Depois, ele virou-se e, como uma sombra, penetrou na casa.
Alfonso e Dolores, alegres e emocionados, olhavam para a casa luxuosamente iluminada que se reflectia nas serenas águas do açude.
Quando a gôndola chegou à beira, Vasconcellos saiu do barco primeiro e ajudou a mulher.
Enquanto ele pagava os remadores, Dolores entrou na casa e foi directamente ao dormitório.
Ela parou, admirando-se no espelho que estava na penteadeira.
Queria chamar Sara para que a livrasse do vestido pesado, mas, naquele momento, entrou seu marido e ela, esquecendo-se de sua intenção e sorrindo, virou-se para ele.
Alfonso tirou a espada da cintura e jogou-a na cadeira.
Em seguida, aproximou-se da esposa e abraçou-a, apertando-a contra seu peito.
— Graças a Deus, finalmente você me pertence por toda a vida.
Uma vida cheia de felicidade que, espero, fará você esquecer de tudo o que sofreu.
— Oh! Como estou feliz!
Poderia um dia esperar que tudo se arranjasse tão bem? — respondeu a jovem mulher, deliciando-se com as palavras de amor que ele lhe sussurrava.
De repente, ela estremeceu e ergueu-se.
Parecia ter ouvido alguns passos e uma respiração pesada com chiado.
"Será que entrou aqui algum dos cães de caça de Ramiro?", pensou ela e, de repente, deu um grito.
Por trás da pesada cortina da cama saiu um homem vestido como escravo.
Naquele pálido, magro e mudado rosto, que lançou para ela um olhar sinistro, Dolores reconheceu José.
Alfonso também ouviu.
Ao pular do sofá, ele gritou, enrubescendo de ira:
— Insolente!
Como se atreve a entrar aqui?!
— Estou aqui em minha casa!
Vim defender meus direitos e exigir minha esposa!
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 21, 2017 8:41 pm

O senhor pode ser apenas seu amante.
Eu sou José de Martinez!
Dolores fechou o rosto com as mãos.
Espantado e emocionado, Alfonso olhava para o antigo fazendeiro, que mal reconheceu naquela infeliz criatura que estava diante dele.
— Explique-se com clareza! — disse ele, após uma curta hesitação.
— Não sou um louco, como o senhor pode achar — respondeu José com amargor.
Então, em poucas palavras, contou sobre o desaparecimento de todos os seus documentos, o que atribuía a um roubo premeditado.
Depois, descreveu o vergonhoso e desumano tratamento que estava recebendo e, finalmente, mencionou seu casamento com Dolores.
— Eis aqui a irrefutável prova de nossa união sagrada! — acrescentou ele, tirando a aliança e entregando-a a Vasconcellos.
À medida que José falava, uma palidez cobria o rosto do capitão.
— Diga! — com voz sufocada gritava ele, apertando fortemente a mão da jovem mulher.
Responda! É verdade o que conta esse homem?
— Que negue se tiver coragem!
Aliás, a culpa está escrita em seu rosto! — observou José com desdém.
Com aquelas palavras, Dolores ergueu-se.
Estava pálida, mas com ar resoluto.
— É verdade! — disse ela.
Explorando a infelicidade de meus parentes, ele me obrigou ao casamento, que durou algumas horas e foi apenas formal.
Meus parentes me asseguraram que esse casamento não tem validade, porque José é um escravo e não tem direitos civis.
Portanto, pela Lei, sou sua esposa, e ele não tem sobre mim nenhum direito.
— E é assim que vai responder a Deus? — perguntou severamente Vasconcellos.
A cerimónia sagrada é sagrada para sempre!
E como você, que eu adorava como um ideal feminino, pôde me enganar dessa maneira?
Como pôde omitir essa circunstância tão importante?
Se me confessasse tudo, conseguiríamos um divórcio e você estaria livre!
Dom José tem razão, ele é seu legítimo marido.
E eu, para você, sou nada...
Por um momento, ele calou-se.
Depois, virando-se, acrescentou com a voz trémula de raiva e amargor:
— Então, fique com ele!
Eu vou embora, porque a amo demais para ser seu amante.
Dolores cambaleou.
Depois, lançando-se a Vasconcellos, ela gritou com a voz aflita:
— Alfonso!
Eu decidi me matar para me livrar de José.
E você, você agora quer me deixar ao arbítrio de sua brutalidade?
É esse o amor que me jurou?
Fique, se você me ama!
Eu prefiro ser sua amante a ser esposa dele.
Vasconcellos parou.
Seu olhar não se separava de Dolores, que caiu de joelhos e com súplica estendia-lhe as mãos.
Nunca estivera tão bela como naquele momento de emoção e de desespero.
José também não tirava os olhos dela.
Toda a sua selvagem paixão, tão longamente contida, surgiu nele com nova força.
Parecia que em suas veias, em lugar de sangue, corria metal fundido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 21, 2017 8:41 pm

Pode-se imaginar sua loucura e sua fúria quando Alfonso, com olhar fulminante, jogou-se a Dolores, levantou-a e gritou:
— Que Deus seja nosso juiz!
Eu fico com você!
— Covarde! Traidor!
Morra antes de possuí-la! — chiou José e correu até a cadeira, onde estava a espada do capitão.
Antes que Alfonso pudesse adivinhar sua intenção, José agarrou a espada e enfiou-a no abdómen de Vasconcellos, que cambaleou, estendeu as mãos e caiu no tapete, banhando-se em sangue.
Dolores, petrificada, muda de pavor, olhava para aquele aterrorizante espectáculo.
Quando José passou por cima do corpo de Alfonso e estendeu a mão para pegá-la, o instinto feminino fê-la reagir.
Ela pulou para trás e agarrou o fio da campainha, mas ele havia sido previamente cortado.
Sabendo que ninguém a ajudaria, a jovem mulher, sem forças, sentou-se no leito.
Como uma fera selvagem, José correu até ela e, quebrando sua resistência, possuiu-a como sua esposa.
Aquela foi a satisfação de sua paixão e de sua vingança:
fazer Dolores para sempre indigna de Vasconcellos, fidalgo altivo e escrupuloso, se ainda continuasse vivo.
E com um gesto rude, ele fez a jovem mulher voltar a si só para que ela ficasse realmente ciente daquela grosseira vingança e desonra.
Sara aguardava no vestiário a chegada de sua jovem patroa.
Quando ouviu os recém-casados entrarem não conseguiu conter sua curiosidade e olhou pela fresta das cortinas.
Viu Alfonso e sua esposa sentados no sofá como dois pombinhos.
A moça sorriu contente e foi embora.
Quando voltou para casa, chegou aos seus ouvidos um gemido fraco, acompanhado de um suspiro rouco.
Sara estremeceu e seu coração gelou.
O suspiro repetiu-se, ela correu para o dormitório e parou na porta imóvel.
Viu Vasconcellos, gemendo numa poça de sangue e a alguns passos dele Dolores, estirada, com o vestido totalmente rasgado, parecendo estar morta.
O candelabro no chão evidenciava uma luta.
Horrorizada, Sara olhava para aquela atrocidade.
Depois, saiu correndo e gritou fora de si:
— Socorro!... Assassinos!
A sala de jantar da casa grande não comportava todos os convidados.
Por isso, improvisaram outra numa grande área do lado de fora, colocando uma tenda fortemente iluminada sobre um tablado de vários degraus.
À mesa, onde brilhava prata e cristal, reuniam-se todos os jovens.
Ramiro havia acabado de brindar aos convidados, quando irrompeu um escravo que, agitando os braços, gritou:
— Socorro! Ajudem!
Estão matando os recém-casados!
Um silêncio mortal durou alguns instantes e logo começou um alvoroço.
Todos pulavam, derrubando as cadeiras.
Depois, o tropel de convidados correu pelo parque até o açude.
Ramiro e Janto estavam na frente.
Foram os primeiros a alcançar a beira e pular na gôndola.
Mas, a multidão estava a tal ponto excitada e curiosa, que alguns homens pularam junto, correndo o risco de virá-la.
Outros jogaram-se no açude e foram nadando.
Porém, ninguém além de Ramiro ousou entrar na casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 21, 2017 8:41 pm

Todos agruparam-se em volta de Sara.
Mas, esta parecia tão transtornada que nada conseguiu-se saber dela.
Um minuto depois, Ramiro saiu da casa.
O jovem Conde estava terrivelmente pálido, seu rosto transfigurado.
Chamou por Janto, Sara e alguns criados.
Depois de algum tempo, saiu o gerente.
Atrás deles, num tapete, carregavam Vasconcellos e, numa maca improvisada, Dolores.
A fiel camareira, chorando, a seguia.
De repente, ela gritou:
— Foi dom José quem esteve na casa!
Oh! Canalha! Foi ele!
Com aquelas palavras, Ramiro, que ajudava a colocar a irmã na gôndola, parou e, batendo com a mão na cabeça, falou com fúria:
— Oh! Cachorro!
Como não me lembrei dele?!
Quando chegaram à beira, Scipión lançou-se ao Conde e gritou com voz entrecortada:
— José desapareceu!
— Soltem a matilha atrás dele!
Cem dobrões a quem o trouxer vivo ou morto! — disse o jovem Conde, enxugando a espuma de seus lábios.
Mas, as desgraças daquela noite ainda não haviam terminado.
Quando dom Pedro soube do acontecido teve um derrame, e KakhlaSarma precisou cuidar dos três.
Todos os convidados, incrivelmente agitados, foram embora.
Os condes de Mornos já haviam conquistado a simpatia dos vizinhos, que lamentavam sinceramente a desgraça desabada sobre a família.
Na opinião geral, o culpado era José, que para vingar-se de sua situação matara perfidamente o marido e violentara a mulher, penetrando na casa deles.
Ninguém sabia sobre o casamento; portanto, não havia nenhum atenuante para José e todos, unanimemente, achavam que ele merecia ser executado da maneira mais cruel.
A partir daí, vieram tempos difíceis.
O Conde recuperava-se devagar de seu derrame que, por pouco, não o matara; Vasconcellos estava entre a vida e a morte; mas, o pior de tudo era o estado de Dolores:
ela tinha perdido a razão.
Quando acordou, depois das longas horas do desmaio, seu olhar sombrio não expressava nada.
A jovem mulher estava apática e não reconhecia nem os seus próximos.
Alimentava-se apenas quando lhe davam comida na boca e não deixava ninguém tocá-la, além do hindu e de Sara.
Qualquer outro, ela empurrava e saía correndo com gritos estridentes:
— É ele!... É ele!
Ramiro estava fora de si.
Com lágrimas de desespero ele beijava a irmã, tentava fazer com que ela o reconhecesse, pretendendo despertar sua memória.
Mas, todos os esforços eram em vão.
Tremendo de corpo inteiro, Dolores se arrancava dos braços dele, apertava-se em algum canto e gritava, empurrando com os braços o inimigo invisível:
— É ele! Não toque em mim!
José sumiu sem deixar vestígios.
Os cachorros não conseguiram rastreá-lo por causa da água, pois ele atravessou o açude a nado.
Ramiro estava colérico.
O futuro de sua irmã e a impossibilidade de vingá-la, quase o levaram à loucura.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 21, 2017 8:42 pm

Alfonso recuperou-se, finalmente. Difícil de descrever sua desolação, quando soube que Dolores havia enlouquecido.
O jovem resolveu, então, abandonar Cuba para sempre e logo partiu na "Sílfide".
Um novo golpe estava à espera dos orgulhosos condes de Mornos.
Logo, verificou-se que Dolores seria mãe.
A notícia de sua gravidez atingiu a Ramiro mais que aos outros; talvez porque ele se sentisse culpado por aquela desgraça.
Tomado por verdadeira fúria, ele rasgava suas roupas e mordia os móveis.
Ele ansiava lavar com o sangue de José o ultraje à sua irmã.
Com nova motivação, recomeçou as buscas ao fugitivo, cuja pista, como lhe parecia, estava em Havana.
Supunha que José queria fugir para a Europa.
Nos esquecemos de mencionar que um colar de brilhantes de Dolores havia sumido de seu pescoço que sofrera vários arranhões.
A jóia tinha um valor enorme e se o fugitivo conseguisse vendê-la sem ser pego, apenas com o diamante menor poderia não somente viajar como também ter um capital decente.
Mas, a pista era falsa.
Então, toda a raiva de Ramiro desabou contra a infeliz criança, que ele amaldiçoava e jurava estrangular logo que nascesse.
— Talvez eu devesse mandar Dolores também para um mundo melhor para lhe fazer um bem, deixando-a morrer sem saber de sua vergonha — dizia ele com fúria a Janto.
Quando este tentava dissuadi-lo, o jovem retrucava:
— Não diga bobagens, dom Bartolomeu!
Não vale a pena recuperar a consciência para perdê-la de novo ao saber dessa desonra.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 21, 2017 8:42 pm

CAPÍTULO XI
Os infortúnios continuavam a perseguir os condes de Mornos.
Dom Pedro teve um segundo derrame.
Sentindo a aproximação da morte, o velho Conde chamou Ramiro e exigiu que jurasse tratar a criança de Dolores como legítimo membro da família e que cuidasse dela.
Ao ouvir o juramento, dom Pedro morreu descansado.
Para todos, o nascimento do filho de Dolores não traria nada de bom.
Apenas o velho e sábio hindu depositava grandes esperanças na criança.
Na sua opinião, a emoção do parto poderia devolver a razão à infeliz.
E realmente foi o que aconteceu.
Depois do parto, Dolores dormiu profundamente e, ao acordar, demonstrou os primeiros sinais de lucidez.
Junto com a lucidez voltou sua memória que, implacavelmente, restituiu tudo o que acontecera na casa da ilha.
Cheia de vergonha, ira e desespero, a jovem mulher irrompeu em prantos.
O hindu não deixava ninguém chegar perto da convalescente e apenas duas semanas depois permitiu que Ramiro entrasse em seu quarto.
Calado, o irmão abraçou-a.
Ele mesmo estava muito emocionado e sufocado pelo remorso e por pena de Dolores.
Quando a jovem, finalmente, esgotou todas as lágrimas, o Conde pediu-lhe perdão em voz baixa por ter-lhe dado tão maus conselhos.
Depois, acrescentou:
— Sente-se forte o bastante para ouvir o que aconteceu durante sua terrível doença?
— Sim, conte-me tudo!
Em minha memória há uma lacuna que não consigo preencher, desde que Alfonso caiu ferido, ou morto, até quando Sara me entregou essa criatura nojenta que dizem ser meu filho.
Fortemente corada, Dolores falava com voz trémula.
Ramiro, embora emocionado, piscou alegremente olhando para o berço e disse com um sorriso:
— É claro! Sem dúvida é seu filho!
E devo lhe dizer, Dolores, que nosso pai o abençoou.
Ele nos obrigou a jurar que amaríamos e defenderíamos esta criança.
— Papai concordou em aceitar essa mancha em nossa honra?
Mas, com certeza está zangado senão já tinha vindo me ver — balbuciou a jovem mulher.
Ramiro balançou a cabeça e seu olhar ficou triste.
Em voz baixa, começou a contar tudo o que havia acontecido durante a doença dela.
A notícia da morte do pai afligiu Dolores profundamente.
Mas, quando soube que Vasconcellos estava vivo e que a criança havia sido baptizada com o nome dele, uma imensa gratidão e amor encheram seu coração.
A partir daquele dia, a jovem Condessa ficou um pouco mais tranquila.
Sua saúde melhorava rapidamente, apenas não conseguia vencer a aversão à criança.
Agora, ela vivia completamente isolada e entregue à tristeza e às lembranças do pai.
Pouco a pouco, a tempestade em sua alma amainara e ela submeteu-se à vontade de Deus.
Com o tempo, o amor materno também despertou.
Ela começou a se ocupar com o filho, vencendo corajosamente a aversão que, apenas de vez em quando, aflorava.
A surpreendente semelhança com José fazia lembrar-se dele.
O que teria acontecido com aquela criatura intempestiva?
Como seus próximos vingaram a ofensa à sua honra e ao orgulho da família?
Cada vez que ela se questionava intimamente, experimentava um estranho sentimento doloroso.
Sem conseguir mais se conter, perguntou em tom hesitante:
— Diga-me, Sara!
O que aconteceu com José?
Mas, conte-me apenas a verdade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 21, 2017 8:42 pm

A camareira ficou muito nervosa.
— Ele fugiu para a floresta e não conseguiram achá-lo.
Não se sabe se está vivo ou se as feras selvagens o dilaceraram.
Dolores estremeceu e fechou os olhos.
O que estaria sentindo aquele inteligente e mimado homem, vendo-se na terrível situação de escravo fugido?
Privado mesmo de um tecto, talvez estivesse vagando nu e faminto, se as feras o tivessem poupado.
Uma imensa vergonha e o remorso apertavam seu coração.
Seus parentes tão severamente julgaram dom Fernando por ter demorado a ajudá-los.
E eles? O que fizeram quando o acaso entregou o poder em suas mãos?
Nem a mísera liberdade e alguns mil écu, eles deram ao único filho daquele que lhes deixara milhões!
Ela levantou-se bruscamente:
— Sara! — disse ela.
Se um dia José aparecer, ou se for capturado, você me avisará logo em seguida, está ouvindo?
— Está bem, senhora!
Mas, será que tem pena de dom José? — balbuciou Sara, surpresa.
— É claro!
Apesar de todo o mal que ele me fez, José continua sendo uma pessoa humana, sofrida e infeliz.
Além do mais, ele é filho de meu tio.
— Oh! A senhora é um verdadeiro anjo!
Se dom José se apaixonasse a tempo pela senhora, nenhuma dessas desgraças teria acontecido.
De que felicidade divina ele se privou! — exclamou a ingénua Sara, cobrindo as mãos de Dolores com beijos.
A vida para Dolores passava monótona, sem nenhuma alegria.
Pensando em José, ela chegava à conclusão que o infeliz tinha conseguido fugir para o continente ou para a Europa.
Um dia, muito agitada, Sara entrou correndo e caiu de joelhos.
— O que há com você? — inquietou-se Dolores.
— Oh! Eles querem enforcá-lo! — exclamou Sara aos soluços.
— Enforcar a quem? — perguntou a jovem mulher, empalidecendo.
— A dom José! — balbuciou a camareira, assustada com suas próprias palavras, vendo dona Dolores cair na poltrona, pálida e desfalecida.
Na selva, em meio aos pântanos intransitáveis, dom José achara um abrigo.
Era uma cabana na qual se escondiam os negros foragidos.
Ali, ele encontrou tudo que era preciso para sobreviver, até um fuzil, pólvora e outros instrumentos de caça.
Outrora, Dolores tinha dado todos aqueles objectos a um dos escravos de José, ajudando-o a esconder-se da fúria do patrão.
Por muito tempo ninguém incomodou o fugitivo.
Ele ficou esperando a primeira oportunidade para chegar a algum porto e, em algum navio, como marinheiro, ir à Europa.
Um dia, voltando da caça, viu Eleazar numa clareira com outro negro.
— Ah! Finalmente achei você, seu miserável!
Tinha certeza que acharia esse abrigo! — gritou o mulato, apontando para ele a pistola.
Com a rapidez de um relâmpago, José levantou o fuzil e atirou.
Eleazar caiu com um grito selvagem.
Seu companheiro sumiu na floresta como uma sombra.
Em vão, José tentou alcançá-lo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 21, 2017 8:42 pm

Depois de longa perseguição e das buscas infrutíferas, ele voltou desesperado ao seu abrigo, que estava agora perdido para ele.
Sem olhar para o cadáver de Eleazar, José entrou na cabana, pegou o colar de brilhantes e colocou o facão na cintura.
Depois, apanhou um saco com algumas provisões e saiu mato adentro, decidido a tentar mais uma vez chegar à outra beira da ilha.
Mas, também dessa vez a esperança o enganou.
Acharam sua pista e a caça ao fugitivo recomeçou com novo afinco, culminando na captura do infeliz.
José, então, foi amarrado a um cavalo e arrastado pelo caminho até perder os sentidos.
Por isso, não percebeu o momento trágico em que entrava nas próprias terras para nelas ser enforcado.
No entanto, um balde de água fria na cabeça fê-lo acordar e ele, assustado, viu-se na praça da aldeia.
Lá, já estavam reunidos todos os negros da fazenda junto com seus capatazes.
Ramiro e dom Bartolomeu leram a sentença.
Segundo a Lei sobre escravos fugidos e outra Lei sobre escravos que atentavam contra os seus senhores, José estava condenado à morte.
Depois disso, trancaram-no numa cabana.
Ramiro montou num cavalo e disse que voltaria na manhã da execução, encarregando Scipión e Bartolomeu de guardar o prisioneiro.
Ao saber o que estava se preparando, Dolores perdeu os sentidos para o grande pavor de Sara, que sabia como qualquer emoção era prejudicial para ela.
Mas, com sais Dolores voltou a si e indagou Sara sobre todos os detalhes.
Ela estava pálida e em seu rosto percebia-se uma terrível luta interior.
Muito emocionada, com lágrimas nos olhos, Dolores ajoelhou-se e, após uma curta, mas fervorosa prece, pegou o Evangelho e abriu-o ao acaso.
O livro sagrado transmitir-lhe-ia a vontade divina, à qual ela obedeceria.
A resposta deixou-a mais pálida ainda.
Com uma mão, ela apontou o versículo da parábola sobre o bom samaritano; com a outra, as palavras de Jesus Cristo na cruz:
"Pai! Perdoai-os, eles não sabem o que fazem".
Dolores colocou o Evangelho no mesmo lugar.
Sua decisão foi tomada.
Por mais difícil que fosse, ela queria salvar José.
Sua energia voltou.
Ela arquitectou um plano que não apenas salvaria José da forca, mas garantiria o seu futuro.
A voz suplicante de Sara, que repetia:
"Salve-o, minha boa senhora!
Não permita que matem o pai do pequeno Alfonso!" tirou-a dos pensamentos e lembrou-lhe que deveria se apressar se quisesse alcançar sua meta.
— Sim, Sara!
Farei tudo o que posso para salvá-lo.
Mas, antes, mande chamar Scipión com urgência.
Sara obedeceu.
Tremendo de medo que seu marido descobrisse quem tinha dado com a língua nos dentes, ela escondeu- se atrás da cortina.
— Scipión, dom Ramiro está em casa? — perguntou Dolores, logo que o negro entrou.
— Não, senhora.
O Conde saiu a cavalo e não sei quando volta.
— É uma pena!
Nesse caso, você deve me ajudar a salvar aquele que foi trazido hoje à noite — disse ela com voz firme.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 21, 2017 8:42 pm

Scipión, indeciso e confuso, abaixou a cabeça.
Quando Dolores completou:
"Faça isso por mim!" ele foi vencido, caiu de joelhos e beijou a mão da jovem mulher.
— Minha benfeitora!
Pode mandar em mim!
Pela senhora, o pobre Scipión se deixará enforcar no lugar de José!
Mande que eu obedeço!
As lágrimas o impediram de continuar.
— Obrigada! — disse ela e pegando da mesa um copo de prata que sempre usava entregou-o a Scipión.
Guarde isso como lembrança minha e deste momento.
E agora, mãos à obra!
Não podemos perder tempo.
Scipión, com afinco incomum, ajudava a jovem mulher em todos os preparativos.
Antes de mais nada, ele trouxe do antigo vestiário de José roupas íntimas, dois ternos de veludo preto, um social, outro de viagem, e uma pequena mala elegante.
No forro de um dos ternos, Dolores costurou quinhentos mil reais, que pegou de Ramiro, e alguns outros documentos.
Ao pequeno embrulho ela acrescentou um anel de dom Fernando e um medalhão com retratos do velho fazendeiro e do pequeno Alfonso.
Depois disso, Dolores foi ver o prisioneiro.
A noite estava escura, mas a jovem mulher conhecia cada árvore, cada arbusto.
Rapidamente, ela aproximou-se da cabana.
Um raio de luz que passava pela fresta da porta iluminava a alta figura
de Janto.
Dolores reconheceu em seguida o gerente e reparou no brilho do cano da pistola em sua mão.
— Como, dom Bartolomeu?
O senhor, cumprindo obrigações de aguazil2? — disse Dolores com ironia e desprezo.
O gerente virou-se rapidamente.
— Dona Dolores? A senhora por aqui a essa hora? — disse Janto com visível descontentamento.
— Sim, vim para realizar aquilo que sua própria consciência deveria obrigá-lo a fazer:
salvar dom José.
Janto deu um pulo.
— Desculpe, dona Dolores, mas... mas... parece que a inteligência está traindo a senhora, desta vez.
Não tenho direito de salvar o homem condenado por seu irmão!
— Está bem! — disse Dolores, tranquilamente.
Não considera que o senhor mesmo tem obrigações para com esse homem, que cresceu sob seus olhos, sempre foi bom com o senhor e cujo pai lhe demonstrava amor e confiança?
Lembre-se que somos todos mortais e que lá, no Além, se encontrará com dom Fernando.
O que responderá o senhor se, no Juízo Final, ele lhe perguntar sobre isso?
Um repentino terror comoveu o forte rosto do gerente.
Apesar da pouca luz, Dolores notou uma aflição e medo do sobrenatural em seu rosto.
Bartolomeu evitava o olhar da jovem mulher.
Mas, ao reprimir sua emoção com visível esforço, respondeu depois de um penoso silêncio:
— A senhora é tão convincente que é impossível recusar-lhe.
Eu me rendo e vou ajudá-la.
Mas, passo à senhora toda a responsabilidade diante do Conde.
— Evidentemente! Tudo é feito por minha ordem.
Mas, não podemos perder tempo.
Aguazil — No original: policial, oficial de justiça.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 22, 2017 8:56 pm

Certamente, o prisioneiro não notou a chegada deles, porque, quando entraram, não houve nenhum movimento.
Só após alguns instantes, quando seus olhos se acostumaram à escuridão, Dolores viu José sentado perto da parede oposta.
O cabelo despenteado e a longa barba emaranhada o faziam quase irreconhecível.
Mas, o que mais surpreendeu a Condessa foi a expressão de fúria desesperada estampada em seu pálido rosto.
A raiva de Dolores desapareceu totalmente, dando lugar a uma pena sincera.
Todo o mal que ele lhe causara já fora vingado!
Dolores não hesitou mais.
Aproximando-se rapidamente do infeliz, ela colocou a mão em seu ombro e disse:
— Dom José!
Ele estremeceu.
Ao ver Dolores inclinada sobre ele, pálida, emocionada e cheia de compaixão, achou que estava tendo uma alucinação.
— Você aqui?
Também veio para se deleitar vendo a minha desgraça?
— Não, não! Vim salvá-lo — respondeu ela com voz entrecortada.
Está tudo pronto para a sua fuga. Apresse-se!
— Dolores, você me propõe fugir?
Isso significa que não deseja minha morte?
— Quero que você viva.
Vá embora, José, e que Deus seja nosso juiz! — respondeu Dolores, evitando o olhar dirigido a ela.
Mas, justamente aquele gesto instintivo, o recuar e o baixar dos olhos, amargurou o coração de José.
— Eu entendo!
É desagradável para você que um homem, cuja consciência reconhece como seu legítimo marido, morra aqui dessa maneira vergonhosa.
E você me dá a vida como esmola.
Então, saiba, não quero sua misericórdia!
A vida nada mais pode me oferecer!
Eu quero morrer!
Melhor assim, porque não vou ter o trabalho de cometer um pecado suicidando-me!
José virou-lhe as costas, cruzou os braços e sentou-se no banco.
Gotas de suor apareceram na testa de Dolores.
— Quero que você viva!
Fuja, José, eu lhe imploro! — a voz da jovem mulher denunciava, traiçoeiramente, as lágrimas que logo iriam escorrer.
Quase vencido, José perguntou:
— Essa insistência em me salvar é muito estranha.
Gostaria de saber as verdadeiras causas que a preocupam.
— Ah! Você me enlouquece com suas perguntas e sua teimosia! — exclamou Dolores, ficando vermelha de vergonha e raiva.
Então, saiba!
Não quero que o pai de meu filho tenha uma morte vergonhosa a cem passos dele!
Por um minuto, José ficou calado e imóvel, como se tivesse sido fulminado.
Quer dizer que ele tinha no mundo algo que lhe pertencia: uma criança.
A própria Dolores lhe dissera isso.
Como tal possibilidade nunca lhe passara pela cabeça?
— Dolores, você está mentindo? — balbuciou ele, finalmente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 22, 2017 8:56 pm

— Que objectivo pode ter uma mentira que tão pouco me honra? — objectou Dolores, ruborizando de desgosto.
— Está bem!
Agora entendi e vou embora!
Mas, só com uma condição:
você deve me mostrar a criança.
— É claro!
Faria isso mesmo que não me pedisse — respondeu Dolores sem hesitar.
Apresse-se! O tempo é precioso.
Dom Bartolomeu, ajude-o a se vestir!
Eu os esperarei na porta da cabana.
Janto abriu o embrulho da roupa.
Com uma tesoura, ele cortou a barba e o cabelo de José, depois ajudou-o a colocar o terno.
Dolores esperava sentada no banco, junto à porta da cabana.
Ao ver José, ela levantou-se.
— Siga-me!
E o senhor, dom Bartolomeu, tenha a bondade de trazer ao meu terraço Ereb, que já mandei selar.
A propósito, coloque duas pistolas nos coldres e amarre bem à sela a maleta que Sara lhe entregará.
Janto acompanhou com os olhos os jovens que se afastavam rapidamente.
Apressada, Dolores dirigiu-se para casa.
Era preciso atravessar clareiras e bosques para encurtar o caminho e evitar as alamedas, onde podia haver gente.
O coração de José bateu forte quando eles chegaram à frente do terraço de sua antiga casa.
Então, ela vivia ali com uma pequena e infeliz criaturinha, concebida na hora de sua vingança.
Suprimindo com esforço a tempestade dentro de si, José seguiu Dolores até o seu dormitório.
Perto da grande cama com colunas, ele viu um berço fechado com rendas que o fez esquecer-se de tudo.
Como um demente, jogou-se ao pequeno leito, onde pacificamente dormia uma linda criança que era seu retrato vivo; exactamente uma miniatura dele quando tinha sete anos.
Emocionado, experimentando aflição e felicidade ao mesmo tempo, José levantou a criança e cobriu-a de beijos apaixonados.
O menino acordou e começou a chorar.
José tentou acalmá-lo, depois colocou-o de volta no berço e procurou Dolores com os olhos.
A jovem mulher, já sem capa, estava encostada à cama.
Ela fechou os olhos com as mãos e lágrimas pesadas corriam por entre seus dedos.
Um sincero amor, arrependimento e compaixão por aquela bela jovem, que sua hesitação e, depois, a vingança colocaram numa situação tão terrível, apertaram o coração de José.
Ele chegou perto dela e puxou-a para si.
A paixão, tão longamente reprimida, veio à tona com toda a força.
Confissões de amor misturadas com explicações de suas atitudes e súplica por perdão, como uma torrente, jorravam de sua sofrida alma.
Dolores ouvia em silêncio.
Assustada, vendo-se nos braços de José e sentindo os lábios ardentes dele contra os seus, a jovem quis empurrá-lo, mas um instinto soprou-lhe ao ouvido que naquele instante exteriorizava-se o sentimento há tanto tempo escondido e oprimido por aquele homem fechado.
Ela entendeu que era um furacão de paixão e desespero que explodia naquele forte abraço e nos beijos ardentes, nas palavras entrecortadas que sussurravam-lhe seus lábios trémulos.
Uma atitude severa naquele momento poderia transformar-se numa desgraça.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 22, 2017 8:56 pm

Por isso, apesar de seu pavor, Dolores permanecia imóvel, com a cabeça no peito de José.
Por fim, o jovem acalmou-se.
Ao levar a mão de Dolores a seus lábios, ele disse em voz baixa:
— Perdoe-me, Dolores, essa minha veemência que tanto a assustou!
Mas, estava acima de minhas forças partir, deixando você talvez para sempre sem dizer que não apenas avareza e crueldade moviam meu coração, mas também amor não correspondido e orgulho ferido.
Agora, sou castigado tão terrivelmente que meu pior inimigo pode se sentir satisfeito.
O destino arrasou-me, tirando-me não somente a fortuna, mas a própria liberdade.
Reduzido à miséria e à escravidão, devo fugir de minha própria casa, abandonar a esposa, a criança e esse abrigo de felicidade e paz, onde tanto gostaria de descansar minha alma e meu corpo doente e esgotado.
Extremamente emocionado, ele calou-se.
Pálida e deprimida, Dolores aproximou-se dele.
— Agora você não é mais miserável, José!
No forro de seu terno costurei dinheiro que lhe permitirá viver decentemente.
Além disso, encontrará passaporte e outros documentos de um cavalheiro francês que morreu de febre amarela aqui na fazenda.
Sei que ele não tinha parentes próximos.
Consegui esses documentos com Ramiro.
Se for à França, pode aproveitá-los e começar vida nova.
Permita-me dizer também que lamento profundamente a falta de previdência de dom Fernando, mas não aceito a ideia de que devemos a herança a um roubo.
Um sorrido amargo e desdenhoso passou pelos lábios de José.
— Acredita mesmo que meu pai não se preocupou em garantir meu futuro?
Acha que ele entregaria meu corpo e minha alma nas mãos de parentes, cuja generosidade ele conheceu e que me repudiariam e me torturariam logo que o poder estivesse em suas mãos?
Meus documentos foram roubados.
Como e por quem, não sei.
Mas, meu pai não tem culpa de minha desgraça.
Aliás, deixemos esse assunto de lado!
Acusação sem provas de nada vale agora!
José abaixou a cabeça e calou-se.
Dolores, trémula e emocionada, também mantinha silêncio.
O olhar lançado por acaso ao relógio, fê-la estremecer.
— Vá embora, José!
Já são quase três horas!
Se Ramiro voltar, estará tudo perdido!
Não, tudo não! Apenas eu!
O que mais posso perder?
Depois dessas horas que passei aqui, a vida longe de você e da criança perderam para mim qualquer sentido.
Mas, não se assuste!
Não quero que sua magnanimidade seja desperdiçada, Dolores.
Com aquelas palavras, ele levantou-se, beijou a criança novamente, colocou-a no berço e ajoelhou-se por um minuto diante dela.
Depois, aproximando-se de Dolores, com um gesto nervoso levou suas mãos aos lábios.
— Adeus, Dolores!
Perdoe o mal que lhe causei.
Não me amaldiçoe e não ensine a criança a me desprezar e a me odiar.
As lágrimas não o deixaram continuar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 22, 2017 8:56 pm

Virando-se rapidamente, ele foi até a porta.
A alguns passos do terraço, debaixo das árvores, estava Janto, segurando as rédeas de um lindo corcel negro que batia o casco com impaciência.
José montou no cavalo e tomou as rédeas.
Não quis se despedir de Janto, aquele traidor que ele considerava o culpado de sua desgraça e cujos favores, com certeza, haviam sido bem pagos.
Sem se dignar a olhar para Bartolomeu, José esporeou o cavalo e em um minuto sumiu na densa escuridão da noite.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Fev 22, 2017 8:56 pm

CAPÍTULO XII
No espaçoso terraço que pertencia aos antigos aposentos de José, estava Dolores bordando.
A cada minuto, seu olhar desviava-se para um homem com trajes de fazendeiro que ajudava um menino de quatro anos a fazer um jardim.
A jovem mulher havia crescido e ficado mais bonita.
Uma expressão de paz e de felicidade estava estampada em seu rosto.
Somente às vezes seus olhos entristeciam e perscrutavam o rosto de Vasconcellos, que tagarelava alegremente com seu pequeno companheiro.
— Agora chega de brincadeira, meu amigo!
Sara já vem buscá-lo; está na hora de tomar banho — disse o capitão, beijando o menino.
Com ar descontente, o menino seguiu a criada.
Vasconcellos acendeu um cigarro e começou a andar na frente do terraço.
Sem parar de observá-lo, Dolores notou que ele estava absorto em pensamentos pouco agradáveis, pois com um gesto nervoso jogou o cigarro e passou a mão na testa, como se quisesse afugentar as insistentes lembranças.
Depois, subindo rapidamente a escada, sentou-se ao lado de Dolores.
— Por que está tão calada e contemplativa, minha querida? — perguntou ele, beijando a mulher.
— Eu poderia fazer a mesma pergunta a você, Alfonso.
Frequentemente fica silencioso, distraído e nervoso e pode-se imaginar que alguma coisa o aflige.
Confesse, o que lhe falta?
— Nada, sua desconfiada é que suspeita de cada gesto e cada olhar meu.
Mas, entendo você!
Quer que eu repita que estou tão feliz quanto um mortal pode ser e que desejo apenas uma coisa:
que a Providência Divina proteja minha felicidade.
Feliz e comovida, Dolores pôs a cabeça no ombro do capitão.
Quem cuidou da felicidade de Dolores foi Ramiro.
Um dia, voltando de sua viagem a Havana, que durou cerca de três semanas, ele, radiante, foi cumprimentar a irmã.
— Tenho um pedido a lhe fazer — disse o jovem Conde no meio da conversa.
— Trouxe um amigo que gostaria de cumprimentá-la de maneira especial.
Por isso, quero lhe pedir que venha à sala de visitas e participe do almoço.
— Você sabe como me são desagradáveis todas as pessoas novas, Ramiro.
— Oh! Mas, meu amigo é uma pessoa agradável; é um jovem muito bonito e, quem sabe, você vai gostar dele.
Não pode continuar viúva para o resto da vida — observou o Conde, sorrindo.
— Deixe-me em paz!
Dois maridos para mim já chega!
Não vou gostar de mais ninguém — respondeu Dolores com amargor.
Mas, Ramiro continuou insistindo e só parou de tentar convencê-la quando conseguiu a promessa de que iria receber a visita.
Pouco antes do almoço, Ramiro foi buscar Dolores.
Juntos, eles foram à sala de visitas, que estava vazia.
O Conde atravessou-a rapidamente, abriu a porta do gabinete ao lado e empurrou Dolores para lá.
— Tome! Trouxe a você sua noiva, esposa, enfim, tudo o que você quer! — gritou ele, alegremente.
— Você enlouqueceu! — gritou Dolores, tentando recuar, mas não pôde fazê-lo porque quase caiu nos braços de um homem que estava no gabinete.
Ela deu um novo grito, mas, desta vez, de alegria e surpresa, quando reconheceu Vasconcellos.
Este, profundamente emocionado, apertou-a contra seu peito.
Quando a euforia passou, entabulou-se uma conversa animada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Dolores / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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