LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 11:13 am

16 - DRAMA NO CATIVEIRO

Em segundos, Lucas e Durval fizeram-se presentes no cativeiro onde Rafael e Daniela foram aprisionados.
Era uma casa antiga e maltratada, que ficava em um sítio abandonado, numa pequena cidade do interior.
Em um quarto húmido, com pouca iluminação trazida somente durante o dia pelos raios de sol, que penetravam através das frestas da velha janela, Rafael e Daniela eram mantidos bem amarrados.
As cordinhas de náilon que foram utilizadas, como amarras, já faziam feridas nos pulsos de Daniela, que se encontrava febril e com a saúde abalada devido às más condições do ambiente.
Desenvolvia-se, na jovem, infecção nas vias respiratórias.
Eles possuíam poucos movimentos, pois das cordas que amarravam seus pulsos, uma extensão de uns três metros tinha a ponta presa numa parede, amarrada firme a um gancho de rede.
Ao ficarem em pé, eles não conseguiam se afastar muito da referida parede.
No chão de cimento liso, foram jogados alguns cobertores e travesseiros, que não isolavam a friagem que os envolvia, principalmente durante a noite.
Enfraquecidos pela pouca alimentação oferecida somente uma vez ao dia, só lhes restava aguardar, sem manifestação de rebeldia para não sofrerem represálias.
Daniela, encolhida pelo estado febril, encostava-se em Rafael, que mesmo com as mãos atadas, envolvia-a, procurando aquecê-la.
—Procure reagir, Dani.
É só uma gripe, meu bem.
Por favor, reaja! - — incentivava ele, carinhosamente, tentando animar Daniela que se mantinha quieta.
Ele se preocupava, pois podia sentir os tremores provocados como reacção da febre.
Por precaução, Rafael solicitava a presença dos sequestradores somente em extrema necessidade.
Vendo que Daniela não parecia nada bem, agiu como lhe foi indicado quando preciso.
Ficou em pé e esticou-se muito, porém mal alcançava a porta com o pé, chutando-a com força para ser ouvido no outro cómodo onde uma música, em volume muito alto, tocava.
Depois de algum tempo, um dos homens veio atendê-lo estupidamente.
—O que é?
Banheiro outra vez?!
Se um copo d'água tá fazendo tanto efeito assim, não vamos te dar mais! -— reagiu brutalmente o vigia do cativeiro, intimidando-o.
—Não é isso.
Ela não está nada bem.
Está com muita febre, tosse, tremores.
Ela precisa de um médico.
Gargalhando descontroladamente, o meliante perguntou:
—Tu acha que temos um médico aqui?!
Tu é idiota?
—Vejo que vocês me têm e isso é o bastante para receberem o que querem.
Poderiam soltá-la e...
Interrompendo-o, o homem completou asperamente:
—... e deixá-la dar com a língua nos dentes!
Essa história de inventar que está doente já é velha.
Ela tá assim desde quando chegou, não sei se isso é doença.
—Ninguém pode inventar uma febre alta.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 11:13 am

Por favor, faça alguma coisa -— pediu Rafael, o mais humilde possível, para não instigá-lo à violência, porque se podia perceber nitidamente a insatisfação animalesca daquele homem.
Sem dizer nada, o sequestrador saiu e fechou a porta, deixando-os sem resposta.
Na espiritualidade, Durval observava pacificamente a cena quando Lucas questionou:
—Por que esse mal-estar súbito em Daniela?
Logo que foi trazida para cá sua saúde ficou comprometida.
Teve vómitos, visível abatimento físico, febre, tosse...
—Pode ser penoso para ela todo esse mal-estar, todavia, analisemos que há sempre o bem onde acreditamos ver o mal.
—Desculpe-me, Durval, mas observe seu visível estado doentio -— propôs Lucas, piedoso.
—Não seriam esses sofrimentos físicos menores que outros?
— Como assim?
—Daniela é jovem, bonita.
Com uma aparência saudável não seria ela uma vítima de assédio?
Veja, logo após sua chegada neste local, os vómitos provocaram, além da sujeira, um rápido aspecto doentio.
A febre e a tosse excessiva a deixaram fraca e com uma aparência nada agradável.
Espiritualmente, podemos ver que Fabiana lhe dá o amparo necessário.
—Como a natureza é sábia, e como fui ingénuo em não perceber a repugnância que sentiram para com ela nesse estado -— reparou Lucas.
—Lucas, todos nós deveríamos observar, com especial carinho, nossos supostos males antes de julgá-los como um mal.
São poucas as criaturas que se equilibram e emitem permanentes pensamentos no bem diante de situações aflitivas.
Observe as vibrações dos pensamentos emitidos por Daniela.
São vibrações de amor e aceitação imperecíveis na fé.
Seus esforços na harmonia se transformam numa prece quase perene.
Enquanto que Rafael vibra na insegurança.
Ele contempla constantes pensamentos de dúvida e se impressiona na formação de quadros mentais que não ocorreram e que poderá desequilibrá-lo, pois irmãos desencarnados, que se comprazem com o nosso sofrimento, poderão aproveitar esse estado de pouca fé que a dúvida e a insegurança indica e induzi-lo ao pânico ou à agressividade que, na actual circunstância, seria um imensurável erro porque o revide seria de maior proporção.
—Isso é verdade.
A insegurança de Rafael e a ausência de prece dificultam seu envolvimento.
Ele está muito nervoso.
A falta de controle das emoções provoca desarmonia, por essa razão não se beneficia com nosso envolvimento.
Daniela, deitada sobre as finas cobertas que lhe serviam de colchão, encolhia-se procurando acomodar-se o melhor possível entre o chão rígido e Rafael, que lhe afagava os cabelos e a face.
Percebendo a febre aumentar gradativamente e colhido pelo desespero, Rafael alteou a voz amargurado:
— Meu Deus! O que faço?!
Daniela, suavemente abriu os olhos avermelhados e respondeu com a voz branda e entrecortada pela tosse.
— Ore, meu bem. Tenha fé.
As lágrimas transbordaram dos olhos de Rafael e encostando seu rosto ao dela, passou a embalá-la com suave balanço.
Durval, chamando Lucas com o olhar, fez com que o seguisse.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 11:13 am

No cómodo ao lado os dois vigias do cativeiro discutiam.
— O que a gente faz? -— perguntou Zeca, que era um deles.
— Sei lá! -— respondeu Tonhão, a quem Rafael havia pedido ajuda.
—E se ela morre, Tonhão?
—Enterra!
—Espere aí!
Tu sabe que não gosto de assassinato.
Ninguém disse que ia ter morte.
—Qual é, cara?!
Tu é tão ingénuo que acha fácil receber a grana e sumir, entregando o cara e a mina vivos?!
Eles já viram a nossa cara.
— Se for ter morte, eu tô fora! -— decidiu Zeca.
— Zeca, se tu der o fora, tu é um cara morto.
Zeca ficou temeroso e pensativo.
O espírito Durval, aproveitando a apreensão de Zeca, aproximou-se dele procurando envolvê-lo na piedade fraterna.
Nesse instante, Zeca lembrou-se de sua irmã caçula, a quem muito estimava e há muito não via.
Ele acreditou que ela tivesse a idade e até a aparência de Daniela.
Tonhão, impaciente, acendeu um cigarro e foi para fora afastando-se da casa a passos lentos.
Zeca, aproveitando sua ausência, entrou no quarto onde os reféns estavam aprisionados e observou que ambos, imensamente abatidos, encontravam-se sentados no chão, abraçados.
Assustado, Rafael ficou observando enquanto Daniela não se deu conta de que havia mais alguém ali.
Zeca acendeu a luz que provinha através de uma adaptação feita com uma bateria de automóvel e olhou para o local extremamente sujo, empoeirado e com várias teias de aranhas entre as vigas que sustentavam o telhado.
O cheiro de bolor misturava-se ao odor azedo que Daniela verteu em seus enjoos ao passar mal.
Até as próprias roupas ela sujara.
A nenhum dos dois era permitido tomar banho e mal podiam usar o banheiro.
Houve até ocasião em que, diante da solicitação não atendida,
tiveram de fazer suas necessidades fisiológicas naquele quarto e o mais longe que podiam de onde se deitavam, pois estavam amarrados e presos a um gancho.
Zeca, agora ainda mais apiedado, perguntou:
— O que ela tem?
—Febre forte, muita tosse, dores no corpo.
Pode estar até com pneumonia.
Ela precisa de socorro.
—Aqui não tem médico.
Vou ver se dá pra arrumar alguns remédios.
Quando Zeca apagou a luz e ia fechando a porta, Rafael insistiu:
— Por favor!
O homem voltou e ele pediu:
— Essa friagem está sendo muito prejudicial.
Ela está fraca, sem alimentação saudável.
Quem sabe um banho e roupas limpas, que a aquecessem, pudessem fazê-la ficar melhor?
Veja?! -— pediu Rafael piedoso, exibindo os pulsos de Daniela
Os pulsos estão machucados, com feridas por causa das cordas, se pudesse soltá-la...
Vendo que Daniela se encontrava realmente doente e sem reacção que oferecesse ameaça, Zeca, tirando um canivete do bolso, cortou as cordas que prendiam os pulsos da moça.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 11:13 am

Nesse instante, Daniela ergueu o olhar piedoso como se quisesse agradecer-lhe, porém não conseguiu dizer nada.
Suspirou fundo, tossiu, moveu-se um pouco e procurou aconchego em Rafael que, agradecido, insistiu:
— Obrigado. Por favor, ajude-a.
Não é nada para mim. Só peço por ela.
Zeca não disse nada, porém em seus olhos podia-se notar a piedade que fora implantada em seu coração.
Não deixou de pensar em sua irmã e passou a imaginar Daniela como se a fosse, isso magoou seu coração.
Naquela mesma tarde, ele apoderou-se do carro que os servia.
Foi até a cidade e fez pequenas compras.
Quando retornou, Tonhão o repreendeu:
—Quer morrer, cara?! Onde se meteu?!
—Resolvi comprar umas coisas.
—Que coisas?!
~ Temos que comer, não temos?! -— respondeu Zeca, demonstrando descontentamento para não ser mais questionado.
—Veja lá. Tem coisa de comer aí.
Tu não precisava sair.
—O que temos de comida?!
Algumas latas de feijoada arroz cru e sal.
Nem óleo tem.
O Carioca e o Biló tão pensando que somos escravos deles?!
Estamos esquecidos aqui!
Nós estamos fazendo o serviço sujo e eles vão sair com a melhor.
Mais uns dias e só teremos água e sal.
Você já viu como estão esses dois aí dentro?!
—Isso não é problema meu!
—E sim!
—Qual é, Zeca?
Defendendo os burgueses?
—Não tô não!
Aquela menina tá doente mesmo.
Lá dentro tá que é uma imundície só.
A gente só pode dar comida pra eles uma vez por dia e eu estou incomodado com o cheiro!
—Toma, aperta1 um baseado2 que passa.
—Se ela morrer, a culpa é nossa, Tonhão!
Eu não sou assassino.
—E o que tu pretende fazer?
—Dar um remédio e uma comida melhor para ela.
Dar roupa. Sei lá!
—Virou babá ou enfermeira? -— perguntou Tonhão, irónico.
—Tu tem irmã?!
—Não vem não! -— reagiu Tonhão.
Eu tenho. Lembro sempre dela.
Não queria que ela estivesse assim.
Tonhão calou-se e saiu.
Zeca pegou a água e o remédio antitérmico que havia comprado, entre outros, e levou para Daniela.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 11:14 am

Rafael quase não acreditou quando o viu entrar.
Daniela mal reagia pela febre, agora mais alta.
Rafael, com as mãos atadas, não conseguia animá-la e fazê-la sentar para ingerir o medicamento.
Zeca abaixou-se e ameaçou:
— Se tu tentar qualquer gracinha, cara, tu tá morto.
Meio rude ao falar, para não parecer amigável, Zeca segurou Daniela e a fez tomar os remédios, deitando-a novamente próxima de Rafael.
Entregou a ele as embalagens do medicamento, saiu do quarto e retornou em seguida dizendo:
— Tome, tem mais coberta aqui.
Ponha essa espuma no chão pra ela deitar em cima.
Disse ele, jogando no chão a espuma de um colchão sem capa e mais alguns cobertores que Rafael, prontamente, ajeitou para Daniela ficar mais confortável.
Antes de fechar a porta, Zeca ainda ouviu Rafael dizer:
— Obrigado. Deus lhe abençoe.
Aquelas palavras fizeram Zeca pensar por muito tempo:
como alguém que estava sendo tão maltratado, diante de um mínimo auxílio, poderia desejar que Deus o abençoasse?
Mais à noite, Zeca voltou ao quarto com uma porção de arroz para Daniela.
— Vamos, menina! Come isso.
Mesmo com a febre mais baixa, Daniela estava esmorecida.
Muito fraca, ela quase não reagia.
— Vamos, Dani, coma. -— insistia Rafael.
Zeca ajudou Daniela a sentar-se melhor e ofereceu-lhe o arroz em uma colher.
A inapetência, provocada pelo seu estado de saúde, d~ minava-a e ela mal mastigava o alimento.
Depois de poucas colheradas, Daniela virou o rosto recusando a oferta e agradeceu:
—Para mim, chega. Muito obrigada.
—Coma um pouco mais, Dani.
Você precisa -— sugeriu Rafael.
Daniela ia tentar comer mais quando Tonhão, o outro vigia, vendo a porta daquele quarto aberta e o clarão de luz, adentrou ao recinto com estupidez.
— Onde pensam que estão?
Em um hotel cinco e trelas?!
Em meio a alguns palavrões, Tonhão aproximou-se de Zeca, empurrando-o e dizendo:
— Idiota! Ficou louco?!
Tu acaba morrendo por causa disso!
— Cala a boca! Eu sei o que tô fazendo! - revidou Zeca com veemência.
Descontente, Tonhão chutou a vasilha onde estava o arroz que Daniela comia.
Foi aí que Tonhão percebeu que a moça estava sem a amarras nos pulsos e, violentamente, agrediu Zeca por isso.
Iniciou-se uma luta entre eles por esse motivo, acabando por saírem do quarto durante a briga.
Minutos depois, Tonhão voltou, apagou a luz e fechou porta novamente.
Por alguns segundos, Rafael teve esperanças de ver Zeca sair com vantagem da luta e, revoltado pela agressão sofrida, deixá-los fugir.
Frustrado com o resultado, Rafael abraçou Daniela que, mesmo adoentada, procurou reconfortá-lo.
—Não fique assim, Rafael.
Vamos sair daqui.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 11:14 am

—Eu sei, Dani.
Mas de que maneira? Mortos?!
—Não diga isso, por favor.
Procure ter fé.
—Desculpe-me, mas... está sendo difícil.
Eu não aguento mais.
Você não imagina como estão meus pensamentos.
—Imagino sim, Rafael. Eu também penso.
Só que procuro mudar as imagens ruins que vão se formando.
—Como?
—Procure orar.
Pensar em como vai ser quando sairmos daqui... coisas desse tipo.
—Meus pensamentos são um turbilhão de inquietações, de momentos que me chegam...
Não sei lhe dizer quanto tempo não durmo.
Não sei mais quantos dias estamos aqui.
Estou muito preocupado com você.
Eu não queria tê-la aqui.
Tenho medo que eles...
—Acalme-se, Rafael.
—Como?! Isso é um inferno!
—Vão nos encontrar. Creia, Rafael.
Talvez, quem sabe, esse homem tenha piedade e nos ajude.
—Temo que agora ele não consiga nem ajudar-se.
—Pobre homem! Ele tem o coração bom.
Talvez não tenham lhe dado uma oportunidade.
Veja como ele me ajudou.
Rafael observou a bondade de Daniela que, mesmo em situação difícil, não reclamava e ainda conseguia enxergar o pouco beneficio que lhe ofertaram.
— Dani, estou com os remédios aqui.
Não tenho nenhuma noção do tempo, mas acho que seria bom você tomá-los agora.
Sem alternativa, Daniela concordou.
Rafael não manifestava seu nervosismo nem revolta e palavras ou acções.
Contudo ele estava imensamente amargurado com aquelas condições subhumanas.
Ele não conseguia prognosticar um futuro animador, principalmente sabendo que Biló estava para chegar.
Na manhã seguinte, eles não ouviram nenhum barulho Nem o rádio fora ligado.
Os remédios não estavam fazendo efeito e a febre de Daniela havia voltado durante a noite.
Ela estava muito fraca.
— Tome esse remédio novamente, Dani.
Ontem À tarde você melhorou um pouco com ele.
Daniela ingeriu o medicamento e acomodou-se junto a Rafael.
Horas depois, Daniela parecia delirar.
Resmungava e dizia palavras desconexas.
Rafael sentiu que a febre havia aumentado.
Daniela sofria fortes tremores e murmurava:
— Água... me dá água... pega aquele cobertor para mim.
Ele levantou-se e chutou a porta várias vezes, mas não foi atendido.
Chamou por alguém e nada.
No início da tarde, ao ouvir barulho, Rafael tornou a chamar.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 11:14 am

Tonhão abriu a porta e perguntou agressivo:
— O que é?!
—Ela não está bem. Por favor...
—Não posso fazer nada!
— Dê-me um pouco d'água, pelo menos -— implorou Rafael.
Tonhão saiu e voltou logo, entregando a Rafael uma caneca plástica com água.
Enquanto Daniela bebia a água, Tonhão alertou irónico e maldoso.
— Teu amigo Biló chega amanhã.
Rafael estremeceu e sentiu-se gelar.
Ele ficou em choque, porém nada disse ou manifestou.

1 Aperta, ou apertar, é uma gíria usada para substituir a palavra fuma ou fumar.
2 Baseado, nome vulgar dado ao cigarro de maconha.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 11:14 am

17 - TOMADA DE CONSCIÊNCIA

O senhor Paulo recebeu uma ligação telefónica por parte dos sequestradores.
—A gravação foi feita?
—Sim. Gravamos totalmente a conversa, só não conseguimos rastrear, ainda.
—Como não?!
—Não é tão simples assim.
De posse do número, levantaremos onde ele se instala e...
—Seus incompetentes! -— vociferava ele aflito e impaciente.
— Eu exijo que tragam meu filho de volta!
Eu exijo! Darei uma farta recompensa a quem o fizer!
O desespero tomava conta dos sentimentos daquele homem que, até então, acreditava poder comprar tudo.
—Melhor! -— tornou ele, ainda gritando:
— Pagarei o resgate conforme foi solicitado.
—Não aconselhamos.
Nesse caso, uma acção impensada poderia atrapalhar -— aconselhava o delegado.
—Não me interessa! Nada está sendo feito!
Não vejo nenhum resultado positivo.
Eu quero meu filho de volta!
. Antes temos que obter uma prova de que eles estão vivos.
_ O que querem?! Um pedaço do corpo dele? Já decidi: vou pagar o resgate!
O senhor Paulo começou a perder o controle emocional.
Ele não ia mais à empresa, deixando tudo aos cuidados do seu sócio, o senhor Rodolfo.
Todos da família estavam abatidos devido ao desgaste emocional.
Somente Jorge, o irmão mais novo de Rafael, no auge da adolescência, não se alterava com a situação.
Ao contrário, achava excitante ter toda aquela equipe de investigações montada em sua casa.
Dona Augusta, cercada de mimos e atenção, acreditava necessitar constantemente do médico da família, vivendo sob o efeito de comprimidos e lamentações.
— Meu Deus! -— reclamava dona Augusta, estendida no leito confortável de sua luxuosa suíte.
— Acho que vou morrer!
Não suporto mais tanta tensão.
Dona Dolores, sua melhor amiga, pousando a xícara de chá no pires, consolava:
—Não se stresse, Augusta.
Essa tensão é temporária. Logo resolverão essa situação.
A propósito, assim que libertarem Rafael, o Paulo deixará a imprensa fazer a divulgação?
—Não sei, Dolores. O Paulo é muito reservado.
Ele gosta de discrição.
Eu temo que esse sequestro, vindo a ser divulgado, possa interferir negativamente o nosso nome nas colunas sociais.
Afinal, temos que pensar em nossos relacionamentos futuros.
—Imagine! Um sequestro desse interferir negativamente! É um absurdo!
—Por quê? Você acha que isso nos promoverá nas colunas sociais? —- questionou dona Augusta, recuperando subitamente de suas lamúrias, voltando sua atenção ao que mais lhe interessava.
—Claro! E óbvio que toda a atenção da imprensa seria voltada para seu nome.
Principalmente se for divulgado o valor pedido no resgate.
E se for dito que Paulo pagou o exigido...
Nossa! Ninguém mais a deixará em paz!
Você ocupará as primeiras páginas!
Os olhos de dona Augusta brilharam.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 11:16 am

O primordial para a maioria das damas de sua classe social era, além do STATUS, ocupar o primeiro lugar nas badaladas colunas sociais que exibiam suas luxúrias, ressaltavam sua elegância e seus valores nobres de futilidades.
As ideias de destaque e atenção começaram a surgir na mente de dona Augusta, mas por um instante ela lamentou:
— Que pena! O Paulo não quer que a imprensa saiba.
Ele acredita que isso irá atrapalhar as negociações e o resgate do Rafael.
— Não vejo como atrapalharia!
As amigas passaram a confabular sobre a divulgação do ocorrido.
A preocupação com o sequestro de Rafael deixou d existir.
Para sua mãe, o mais importante era o destaque nas colunas sociais.
Dona Augusta nem se dava ao trabalho de apego e atenção aos outros dois filhos, que ficavam por conta própria, para todos os bens materiais e préstimos serviçais eram mantidos em fartura.
Caio entrara em crise depressiva.
Não ia trabalhar nem se alimentava correctamente.
Barba crescida e cabelos desalinhados, ele se largou completamente ao desânimo.
— Filho -— dizia Maria, a empregada, tentando animá-lo - toma este suco e coma este lanche que você vai melhorar.
Maria parecia exercer o papel de mãe.
Mesmo assim, Caio recusou:
— Pode levar, Maria. Não estou com fome.
— Você tem que comer.
Eu sei que não posso ficar me envolvendo desse jeito na vida de vocês, mas numa situação dessas, a fraqueza vira doença.
E, se você não estiver forte, será um problema a mais.
Não poderá ajudar seu irmão...
Atalhando-a, Caio concluiu:
— Sou imprestável, Maria.
A culpa do sequestro é minha.
Sou covarde o suficiente para não salvar a vida do meu irmão.
— Não fale assim, menino.
Você não sabe o que diz.
Nesse momento, ele a olhou indefinidamente.
Os olhos grandes e negros brilhavam e Maria sentiu, nesse instante, poderosa força invadir-lhe a alma, fazendo-a acreditar que dizia a verdade.
Caio sentou-se, pegou as mãos da amável mulher, encostou em seu rosto e chorou como se estivesse indefeso, pedindo:
— Maria, ajude-me...
Maria aproximou-se mais do rapaz que deitou sua cabeça em seu peito.
Surpresa com a reacção dele, amorosamente, ela afagou-lhe os cabelos sem conseguir articular qualquer palavra.
Caio chorou como um menino assustado em busca de auxílio.
—A culpa é minha, Maria.
—Calma, filho.
—Não consigo ter calma.
Você nem imagina o que fiz.
Eu não devia ter nascido.
Rafael não merecia passar por isso.
Ele é tão... perfeito.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 11:16 am

Depois de breve pausa, lamentou:
que foi que fiz com meu irmão?!
—Você e o Rafael sempre se deram muito bem.
Você nunca fez nada de errado para ele.
—O sequestro do Rafael foi porque quiseram se vingar de mim.
Você não sabe de nada! Nem imagina...
—Se foi para se vingarem de você, então a culpa não é sua.
Não importa o que tenha feito de errado.
Não foi você quem sequestrou seu irmão.
Não se culpe pelo erro dos outros.
A atenção e o carinho da bondosa senhora não mudavam a opinião de Caio.
Contudo ele conseguia ficar mais calmo.
Sempre lhe faltou, desde a infância, o contacto, a atenção o carinho de mãe.
Depois de alguns minutos desfrutando o toque carinhoso de Maria, afastou-se, olhou-a bem e comentou:
— Você é a mãe que eu não tenho.
Eu e o Rafael sempre comentamos isso um para o outro.
Acho que foi Deus que mandou aqui.
Você não imagina o que eu estava pensando.
Ela não entendeu o que Caio quis dizer quando comentou sobre seus pensamentos.
Maria sorriu encabulada e aproveitou para chantageá-lo.
— Então toma este suco e come este lanche para me deixar feliz.
Não quero vê-lo fraco.
Preciso de você bem saudável.
Envolvido pelas amorosas palavras e gestos simples, para contentá-la, Caio alimentou-se.
Ressaltando em seguida:
—Não comente com ninguém o que lhe confessei, tá?
—Você me conhece, filho.
Não precisa pedir isso.
Agora eu vou indo.
Tenho que fazer o Jorginho comer também.
Ao chegar ao quarto de Jorge, Maria não o encontrou à primeira vista.
Chamou-lhe, mas não obteve resposta.
Sabendo que o garoto não havia saído, pois a segurança de todos estava bem controlada, resolveu bater à porta do banheiro para certificar-se de sua ausência antes de ir à sua procura em outros cómodos.
Aproximando-se da toalete, ela ouviu barulho de água.
Maria chamou-o novamente enquanto batia à porta.
— Jorginho?...
Nenhuma resposta e ela insistiu:
— Jorge, sou eu.
Trouxe uma vitamina de frutas.
Diante do silêncio, resolveu entrar.
A cena, não esperada, provocou um grito que atraiu a atenção de todos.
— Meu Deus! Socorro!
Jorge, em convulsão, debatia-se no chão do banheiro enquanto seus olhos reviravam-se na órbita ocular.
Ela segurou a cabeça do menino e insistiu no grito de socorro.
Um segurança, junto com o senhor Paulo, chegaram rapidamente.
Envolveram o garoto em cobertas e o socorreram às pressas para um hospital.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 10:58 am

Atendido de imediato, o médico, experiente, diagnosticou:
— Ele sofreu uma convulsão por overdose.
—Ele está tomando antibióticos .— explicou a mãe.
— Será que exagerou na dose?
—Isso explica melhor ainda a convulsão -— concluiu o médico.
— Se Jorge tomava antibióticos, a mistura desse medicamento com drogas, levou-o a esse estado convulsivo.
Ele poderia ter entrado em óbito directo.
—Desculpe-me, doutor.
Creio que não entendi -— interrompeu o senhor Paulo, desejoso de mais detalhes.
— O senhor disse:
mistura de antibióticos com drogas?
—Não, Paulo! -— interferiu dona Augusta.
— O Jorge tomou antibióticos demais.
Não foi isso, doutor?
—Não senhora —- afirmou o médico, com convicção.
— Jorge fez uso de entorpecentes.
Na minha opinião, deve ter inalado cocaína, provavelmente em excesso.
O exame de sangue irá nos informar melhor.
Como a senhora lembrou que ele está se medicando com antibióticos, pode não ter sido overdose só com a cocaína, mas sim a mistura química dessa droga com o medicamento antibiótico.
O senhor Paulo ficou paralisado e boquiaberto.
Ele não conseguia se expressar.
Dona Augusta, diante da afirmação, reagiu aos gritos:
— Vou acusá-lo por difamação! Seu incompetente!
— Desculpe-me, senhora.
Como médico, meu dever e informar aos responsáveis o estado clinico do menor.
Com licença -— disse o médico, retirando-se, tenho outros pacientes.
Quando dona Augusta fez menção de se manifestar novamente, o senhor Paulo a repreendeu:
— Cale-se, Augusta.
Não diga uma única palavra.
—Eu não deveria ter me dado ao trabalho de levantar adoentada para acompanhá-lo até aqui, já que não quer ouvir o que tenho a dizer.
Vou chamar o doutor Assis.
Esse incompetente não sabe o que está dizendo.
Quero a alta do meu filho.
Vou tirá-lo deste hospital.
—Você vai voltar para casa, Augusta -— ordenou o senhor Paulo, com voz baixa, pausada e grave.
—O que vou dizer para minhas amigas, Paulo?
O que falo sobre o desmaio do Jorge?
Sem dar-lhe resposta, o senhor Paulo virou-lhe as costas, indicando a um dos seguranças e ao motorista que a levassem de volta para casa.
A noite foi longa para o senhor Paulo, que decidiu ficar ao lado do filho no quarto de hospital.
Jorge teve de ficar internado e entubado sob monitoração constante de aparelhos.
Ele ainda corria risco.
Seu organismo poderia não suportar tamanha dosagem de drogas.
O senhor Paulo sentia-se desamparado e confuso.
Um sentimento de culpa invadiu-lhe.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 10:58 am

Seu poder económico, bem como a sua hierarquia social, de nada lhe adiantavam naquele momento.
Ele poderia comprar todos os medicamentos necessários, pagar a todos os médicos e até comprar hospitais.
Entretanto seu dinheiro não comprava a recuperação de seu filho, Jorge.
Seu dinheiro não comprou a segurança de seu filho Rafael, que só Deus saberia dizer onde estava e em que condições.
Quanto a Caio, ele não saberia dizer.
Ele tinha consciência de que seu filho passava por dificuldades, mas preferi ignorá-las.
Caio nunca conversava com ele sobre seus assunto particulares.
Lembrou-se da conversa que teve com Rafael.
Rafael tinha toda razão:
ele e a mãe não conheciam os filhos que tinham.
Não sabia o que seus filhos viviam, preocupando-se somente em dar-lhes tudo o que seu dinheiro podia comprar.
— "Onde errei?" -— pensava o senhor Paulo, desanimado.
"Como tudo isso foi acontecer?
Tenho poder, fama dinheiro. O que me faltou?
Decerto casei-me com a mulher errada.
Sim, deve ser isso.
Augusta só se preocupou em deslizes, linda e maravilhosamente impecável para ser alvo das notícias mais importantes, as socialites.
Nunca se preocupou com nenhum dos filhos.
Aliás, ela nem os queria.
Fez três abortos entre Rafael e Jorge, deixando a última gravidez porque somente porque o médico acreditou que ela correria risco morte, pois havia pouco tempo do último aborto e a gravidade já estava bem adiantada."
Seus pensamentos percorriam velozmente as particularidades vividas com sua família.
Foi então que percebeu ter realizado muitos feitos, até piramidais, em sua carreira empresarial, mas pouco registou de positivo nas experiências com seus filhos em seu lar.
Recordou-se de quando Rafael perguntou-lhe sobre o que diferenciavam das pessoas mais pobres, caso eles possuíssem tudo o que tinham.
Ele pouco havia dado importância a Rafael naquele momento, porém, agora, observou que não era diferente de ninguém e, naquela situação, pouco os seus dotes financeiros poderiam fazer em seu favor.
Muito pelo contrário, talvez fora sua ganância pelo dinheiro e pelo poder que o colocara tão distante da vida de sua família, de seus filhos.
Pensou, então, que Rafael era mais sábio do que ele.
Seu filho manteve sua opinião quanto a não abrir mão de seus sentimentos para com Daniela, rejeitando a opinião de todos e as "melhores" moças de sua classe social, consideradas assim devido ao acúmulo de futuros bens.
Rafael apaixonou-se por uma moça humilde, modesta, mas de carácter.
Ele mesmo presenciou o estado desesperador de dona Antónia, uma mãe pobre, diante da notícia sobre o sequestro da filha.
Enquanto Augusta se preocupava com as divulgações noticiosas, dramatizando chiliques, chamando atenção para si.
Escolheu uma moça que trabalhava para sobreviver, enquanto ele se casou com uma mulher que sobrevivia somente com a finura da alta sociedade.
Jamais aceitava ouvir um não para suas luxúrias, exaltando orgulho e vaidade onde quer que estivesse.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 10:58 am

Daniela, até dentro de condições humilhantes que ele mesmo a colocara, preocupou-se com ele, perguntou se se sentia bem e lhe ofereceu um copo com água.
Coisa que ninguém jamais fez. Nem sua mulher.
Não admitia a união de um de seus filhos com uma moça pobre pela ambição de não dividir sua fortuna, querendo los casados com alguém de seu nível somente para múltipla valores.
No entanto poderia perder Rafael para sempre por causa de seu dinheiro.
Poderia também perder Jorge, que não orientado, desviou-se para o que acreditou ser conveniente e prazeroso.
Jorge não foi preparado, não recebeu atenção, simplesmente porque ele, como pai, estava ocupado em ganhar dinheiro.
Não posso agir assim com meus filhos! -— pensava ele.
Tenho que mudar. Já cometi tantos erros por ganância...
Pensei que drogas e sequestro só ocorreriam na família dos outros.
Todo o dinheiro, tudo o que ganhei fechando meus olhos para o comércio ilegal..
Do que me valeu?" -— por um instante o senhor Paulo sentiu necessidade de acreditar em algo superior.
— "Deus, se Você existe, dê-me mais uma chance com meus filhos!
Devolva-me o Rafael e o Jorge sãos!
Prometo ajudá-los e orientá-los sempre!
Ajudarei Rafael a seguir sua vida, não como eu acho que seja bom para seu futuro, mas do jeito que ele deseja ser feliz.
Para isso, Rafael precisa voltar vivo.
Vou orientar Jorge.
Vou ajudar Caio, que, também sei, passa por dificuldades..
Sinto tanto remorso por tudo... tudo."
Com o alvorecer, o médico notou a melhora de Jorge que se recuperava gradativamente.
— Senhor Paulo -— observava o médico - seu filho está fora de perigo, porém inspira cuidados.
Deverá receber alta somente amanhã ou depois, de acordo com seu estado.
Se senhor quiser ir para sua casa e descansar, nós o manteremos informado.
Quanto ao registo de ocorrência do facto perante a lei, porque o Jorge é menor de idade...
Interrompendo-o com certo acatamento, o senhor Paulo falou:
—Já conversei sobre isso com o director deste hospital.
Creio que tudo está resolvido.
—Certo -— respondeu o médico, demonstrando contrariedade.
— O senhor deve saber o que faz. É o responsável.
Deixando ordens de ser avisado sobre qualquer novidade e indicando dois seguranças para tomar conta de seu filho no hospital, o senhor Paulo retornou para sua casa.
Ao chegar, surpreendeu-se, pois somente Maria, a empregada, correu aflita ao seu encontro perguntando sobre o Jorge.
— Com licença, seu Paulo.
Como está o Jorginho? Tá melhor?
— Já está fora de perigo, Maria. Obrigado.
— Desculpe-me novamente, seu Paulo - continuou ela, torcendo as mãos com nervosismo e preocupação —- mas caso o senhor saiba de alguma coisa, por favor, me avise.
Eu gosto muito desse menino.
— Eu sei, Maria.
Agradeço e avisarei sim.
O senhor Paulo nunca foi amável com os empregados.
Mesmo usando frases curtas, desta vez, entoou na voz suave gratidão.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 10:59 am

Dirigindo-se para sua suíte, decidiu procurar por Caio, adentrando em seu quarto sem bater.
Caio espantou-se com a presença do pai, mas nada comentou.
Notando-o diferente, o pai perguntou:
— Tudo bem?
Caio estava sob efeito de entorpecentes.
Seus olhos estavam avermelhados e vidrados, sem fixarem-se em ponto algum.
—Tudo -— respondeu ele, sem encarar o pai.
—Não tem se barbeado.
Está com uma aparência estranha. Está doente?
—Não. Estou bem.
—Todos nós estamos preocupados com o Rafael, mas acredito que necessitamos ficar fortes para suportarmos pressão e tomarmos a decisão certa.
Caio não disse nada e seu pai prosseguiu:
— Ontem decidi que vou pagar o resgate.
Já tenho dinheiro dentro das exigências que fizeram.
Eu mesmo vou levá-lo.
Caio sobressaltou-se e reagiu:
—O senhor ficou louco?!
Não sabe quem são esses caras!
Eles são perigosos demais!
Já basta terem o Rafael!
—Como pode saber da reacção deles? Ninguém sabe quem são!
—Não vá, pai. Deixe-me fazer isso.
—Não posso.
—O senhor não vai a lugar algum! -— gritou, enfurecido -— Já basta!
—O que deu em você?
Que reacção é essa?!
Caio aproximou-se do pai, segurou-o pelos braços reagiu:
— Eu sei o que estou fazendo.
Se alguém tem que entregar esse dinheiro, serei eu! O senhor não vai.
Eu não conseguiria viver com esse remorso, caso lhe acontecesse algo!
— Você está nervoso. Não sabe o que está falando.
Relaxe. Tome um banho.
Todos estamos exaustos.
Caio soltou-o e virou-se para disfarçar os olhos transbordando em lágrimas.
Logo depois, sem virar-se, perguntou:
—E o Jorge, como está?
—Fora de perigo.
—Eu nem sei o que dizer, pai.
—Nem eu. Só me questiono: onde foi que errei?
—Na vida, pai.
—O quê?
—O senhor errou na escolha de vida que fez para todos nós, sem nunca ouvir nossa opinião.
O homem ficou boquiaberto e sem palavras.
A resposta inesperada afirmou sua falência como pai de família.
Caio virou-se para ele, encarando-o.
Seus olhos negros pareciam querer saltar das órbitas, e o franzir de sua testa indicou revolta contra seu pai.
O senhor Paulo acovardou-se e decidiu não enfrentá-lo.
Sentiu que seu filho tinha razão.
Saiu em seguida sem nada mencionar.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 10:59 am

18 - DESESPERO E FÉ

No cativeiro, Rafael, em um breve momento de cochilo assustou-se com o barulho do motor de um carro.
Alerta, ficou à espera de novidades que talvez não fossem agradáveis.
A porta do quarto em que ele estava se abriu e a presença de Biló o fez tremer.
— Vejam só! Como esse mundo dá voltas!- — exclamo Biló ao vê-lo naquelas condições.
— Como é, carinha? O que está pegando?
Como se sente? -— perguntou ele, satirizando.
Rafael nada respondeu.
Seu coração batia descompassado e um nervosismo provocava-lhe tremores quase incontroláveis.
— Que fedor horrível! -— disse Biló.
— Esse cheiro é típico desse cara e sua laia.
Tonhão, que surgiu à porta, comentou:
— A mina tá doente.
Foi o Zeca que a soltou.
Aproximando-se de Daniela, que se encontrava largada, com o corpo no colchão e a cabeça recostada em Rafael, Biló, zombando, criticou.
— Foi por isso aí que tu deu uma de valente? Que trapo!
Quando Biló abaixou-se para olhar Daniela mais de perto.
Rafael alterou-se:
— Não toque nela -— disse ele, com voz arranhada e ofegante pela apreensão que experimentava.
Biló, ostentando poder e maldade, segurou o braço da moça tentando virá-la.
Rafael reagiu e chutou-o com toda a força que possuía.
Rafael foi atingido nas costas por vários chutes de Tonhão que o agrediu para defender Biló.
Cuspindo em Rafael, passou a desferir-lhe socos e pontapés, em qualquer parte do corpo.
Ficou atordoado, quase perdendo os sentidos.
Biló saiu e disse:
— Pensei que a mina fosse melhor.
Não gosto de coisa suja.
Com uma careta, demonstrando repugnância, reclamou:
— Que cheiro horrível! Feche essa porta.
Todo dolorido e sangrando em pequenos cortes, na boca e no rosto, abraçou Daniela que, pela primeira vez, chorou.
Do lado de fora, Tonhão perguntava:
—O que vamos fazer com esses dois, Biló?
—Por mim, acabava com tudo agora mesmo, mas o Carioca quer a grana.
Tem muito jogo por trás desse trabalho.
—A gente pode ser preso -— temeu Tonhão.
—Temos cobertura.
Estão nos dando as coordenadas.
Vamos receber uma grana, mas não será o resgate do almofadinha.
Tem gente por trás pagando para ele ficar aqui.
Pegar o dinheiro do resgate é perigoso.
Estão pondo rastreador até nas notas de dinheiro hoje em dia.
—Aí é diferente. Quanto?
—O Carioca tá negociando. Cadê o Zeca?
—Amarrei ele lá nos fundos.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 10:59 am

Dando risada, Biló pediu:
—Traga ele aqui.
Logo depois, Tonhão trouxe Zeca, que apresentava vários hematomas.
Olhando-o e rindo com ironia, Biló perguntou:
— O que te deu, cara?
— A garota estava doente.
Dei comida pra ela e o Tonhão não gostou.
— Ele soltou a mina! -— interrompeu Tonhão.
— Ela mal respirava. Não ia dar trabalho.
Eu quis soltá-la e pronto!
—Solta ele, Tonhão — ordenou Biló, rindo.
—Mas...
— Eu mandei soltar.
Tonhão obedeceu e, ao ter as mãos livres, Zeca desferiu-lhe um soco.
— Parem com isso! -— gritou Biló.
Zeca, cuspindo sobre Tonhão, enalteceu-se:
— O Biló é meu primo! Canalha, idiota!
Tonhão amedrontou-se e não reagiu.
Zeca dando tapas nas costas de Biló, perguntou:
— O que vamos fazer, meu?
— Aguardar. Poderíamos nos divertir com a mina, mas...
— Tá horrível, não tá?
— É -concordou Biló.
— Vamos esperar o Carioca decidir.
Enquanto isso, temos que fazer uma gravação.
—Que gravação?
—Deixe o almofadinha tomar fôlego e faça-o ler a primeira página deste jornal.
É de hoje. Faça ele ler desde o nome, com o dia e tudo.
Faça a mina dar sinal de vida e de doente também — ironizou Biló.
— Amanhã vamos ligar e deixar o pai ouvir para ficar mais desesperado ainda.
Será a prova que precisam para saber que o filho tá vivo hoje.
—Boa ideia, Biló -— elogiou Zeca.
Mais tarde, enquanto Biló e Tonhão faziam uso de drogas, Zeca foi até o quarto onde estavam os reféns.
Ao observá-los, verificou que Rafael estava machucado e Daniela muito enferma.
—E aí -— perguntou Zeca —- ela não melhorou?
—Não. Ainda tem muita febre.
Parece que esses remédios não adiantaram muito.
E você, Zeca, como está? Ficamos preocupados.
Zeca surpreendeu-se com a pergunta, mas procurou não demonstrar sentimento, respondendo:
— Tô bem. Eu sabia que quando o Biló ou o Carioca chegassem, a pose do Tonhão ia desmanchar.
Tenho crédito.
Rafael ficou desconfiado, porém não via alternativa e procurou estreitar amizade.
—Ainda bem que não fizeram nada com você.
—Vou ver o que posso fazer por ela.
Não tente dar uma de valentão.
_ Por que você está nos ajudando?
— Não tô gostando do rumo que as coisas tão tomando, mas não facilite.
Eu só quero dar o fora disso tudo numa boa.
_ Não sou assassino.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 10:59 am

Mais tarde, Zeca e Biló foram até a cidade deixando Tonhão de vigia.
Ao retomarem, Biló estava alterado, sem razão aparente irritando-se com qualquer coisa.
— É hora de dar o que comer para eles -— lembrou Zeca.
— Não! -— negou Biló, nervoso.
— Vamos gravar logo a mensagem e é bom esse cara fazer direito, logo na primeira vez.
Estou cheio desse lugar.
Não gosto daqui e quero ir embora.
Entrando no quarto, estupidamente Biló ordenou:
— Olha aqui, meu, vou explicar só uma vez.
Leia isso aqui -— exibindo a folha de jornal, indicando com o dedo.
— O nome do jornal, o dia.
Fale também o mês, e o ano.
Leia essa manchete.
Não tente nenhuma gracinha. é uma gravação.
Podemos fazer de novo e quantas vezes for preciso.
Só que para cada vez errada...
Zombou Biló com uma gargalhada maldosa.
— Deixa que eu faço isso, Biló -— pediu Zeca.
— Não!
— E voltando-se para Rafael, intimou:
Quando eu apertar esse botão, tu começa a falar.
Se falar meu nome e me der trabalho, tu tá morto!
Rafael mal conseguia enxergar direito.
A ausência de claridade prejudicou-lhe a visão.
Entretanto se esforçou devido à coacção e, mesmo gaguejando, leu conforme exigido.
Desligando o gravador, Biló decidiu:
— Mudei de ideia. Melhor a mina não parecer doente.
Agora tu vai dizer o seguinte:
Pai, eu tô bem, tô sendo bem tratado.
Aguarde informações de quando e aonde levar a grana.
Diga depois que tua mina tá bem.
Rafael acenou a cabeça positivamente.
Com voz rouca e embargada, ele repetiu a mensagem conforme imposto.
Biló, ofegante e irado, foi para perto de Daniela, que estava encolhida entre a parede e Rafael.
Cutucando-a com o pé gritou:
— Vamos, vadia! Agora é sua vez!
— Deixe-a em paz -— pediu Rafael, procurando segurar as emoções de revolta.
Biló chutou-lhe o rosto e Daniela abraçou Rafael quando ele tombou no chão, e ela, chorando, pediu:
— Pare! Por Deus, pare!
Biló pouco se importou e passou a desferir vários chutes, acertando alguns em Daniela.
Zeca, contrariado, mas sem demonstrar seus sentimentos, aproximou-se, puxou Daniela, que chorava muito, e arrastou-a para um canto.
Vendo que Biló se excedia na agressão, interferiu, lembrando:
—Não acaba com ele agora não.
Podemos precisar de provas de que ele está vivo e bem.
—Eu tô só começando a descontar o que esse infeliz fez comigo.
Ainda nem comecei vingar meu irmão que morreu na cadeia.
Por isso não vou acabar com ele.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 10:59 am

Rindo, maldosamente completou:
— Não pense que vou te matar tão rápido.
Pra vingar meu irmão, vou trazer uns caras muito especiais, vai morrer que nem o Róbi, pode contar com isso.
E quanto a tu, ô vadia, se tu valesse a pena, poderíamos nos divertir, mas não me interessa, quem sabe os outros vão querer, já que eles não têm mais nada a perder.
Biló chutou Rafael novamente, virou-se e saiu.
Zeca, sob o efeito do envolvimento que sentia da espiritualidade, apiedou-se ainda mais de Daniela que se encolhia no canto, abafando o choro.
Zeca aproximou-se dela, puxou-a para sobre a espuma de colchão e fez com que Rafael, que se contraía no chão, para próximo a ela, envolvendo-o rapidamente.
Certificando-se de que ninguém o vigiava, Zeca tirou do bolso interno de sua jaqueta duas barras de chocolate e uma nova caixa de remédio, jogando-os próximos de Daniela que o olhou, agradecendo com um aceno de cabeça.
No outro cómodo, Biló chutava as portas e os móveis.
— Eu quero matar esse cara! -— gritava ele.
—Dá um tempo, Biló. Divirta-se primeiro -— aconselho Zeca.
— Se quer vingar o Róbi, tenha paciência.
Ele não morreu rápido, não foi?
—Não gosto daqui! Vou embora hoje mesmo -— informou Biló. —
Mas fiquem de olho neles. Não dêem chance.
—Quer que amarre a mina de novo? -— pergunto Tonhão.
—Se precisar, acaba com ela.
Ela não é tão importante assim.
Só tá dando trabalho.
Abraçada a Rafael, embalando-o, Daniela orava fervorosamente.
Nenhum dos dois pôde ver, mas fluido calmantes e fortalecedores caíam sobre eles como uma chuva fina.
Devido a sua fé imperecível, Daniela foi a primeira a sentir uma estranha energia aliviar suas chagas, acalmando-Ihe o medo aflitivo.
Suas dores pareciam diminuir e uma terna sonolência passou a dominar-lhe.
Rafael também pôde experimentar esse bem-estar reconfortante, mas em menor intensidade.
Entretanto não deixou de perceber algo diferente acontecer e que a espiritualidade maior trouxera-lhes as bênçãos de Deus.
***
O telefonema onde só foi ouvida a mensagem gravada com a voz de Rafael, deixou o senhor Paulo completamente descontrolado.
— Como não havia ninguém?
—As ligações estão sendo feitas de telefones públicos e de diferentes cidades vizinhas.
Não há uma sequência lógica.
Escolhem um telefone público ao acaso, talvez.
—Eu quero saber onde é o local para a entrega do dinheiro!!
Quero pagar esse resgate!
Nesse instante, Dolores e sua filha Cláudia chegavam afoitas à procura de dona Augusta em sua suíte.
— Olá, querida! -— cumprimentava Dolores ofegante. -— você está bem?
— Olá, dona Augusta! -— imitou Cláudia.
—Vocês nem imaginam! -— dramatizou dona Augusta,
_ O Paulo não quer que a imprensa saiba...
Como ele me contraria...
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 11:00 am

—Ora, ora. Deixe isso pra lá.
Nós temos uma notícia muito mais importante, Augusta.
— O que foi, Dolores?
Por que vocês duas estão com essas caras?
Cláudia e Dolores entreolharam-se e dona Augusta insistiu curiosa.
— Conte! Vamos!
Não aguento suspense! A minha pressão!
Em um rápido relato, dona Dolores desabafou:
— A Cláudia está grávida!
Depois da pausa provocada pelo susto, dona Augusta perguntou de queixo caído:
— Ah! De quem?
— Do Rafael, é claro! -— esclareceu Cláudia.
Dona Augusta paralisou-se atónita.
Ela nem piscava.
— Augusta?! Augusta?! -— insistiu a amiga.
— Não posso acreditar... do Rafael?
—E claro que é dele, Augusta.
Bem, a Claudinha contou-me hoje de manhã e logo em seguida nós fomos fazer o exame.
Amanhã sai o resultado, mas ela tem certeza da gravidez.
Já está sentindo até enjoo!
—Venha me dar um abraço, Claudinha! -— pediu dona Augusta, emocionada.
— Até que enfim provaremos para aquela pé-rapada que o Rafael não pertence ao meio dela.
Cláudia, repleta de satisfação e orgulho, sentia-se dona da situação.
Independente da versão que Rafael pudesse apresentar, ela agora tinha como provar seu relacionamento com ele: sua gravidez.
Mais tarde, Caio procura por seu pai no escritório da residência.
— O senhor já sabe o que a Cláudia está afirmando?!
_ Sim. Sua mãe, eufórica, me contou.
_ Isso não deve ser verdade, pai.
Acabe com essa história antes que se alastre.
O Rafael não está aqui para se defender.
—O que você quer que eu diga, Caio?
—Peça uma prova!
—Exames de paternidade só são realizados depois do nascimento da criança.
E isso deve ficar por conta do Rafael.
—Engana-se, pai.
Há exames modernos em que é retirado um liquido do cordão umbilical, com a criança ainda em gestação.
Eu não sei direito como é realizado, mas ouvi falar que existe sim.
—Caio, eu estou por demais preocupado, tenso, cansado.
Essa gravidez é o menor problema que temos agora.
—Mas pai, temos que defender o nome do Rafael.
Ele odiava essa mulher.
Isso nunca foi segredo para ninguém.
Ele ia embora de casa por causa da Daniela e deixou isso bem claro.
O senhor sabe!
—Quando o Rafael voltar, resolveremos.
—E se não voltar, pai?!
Ambos entreolharam-se fixamente.
O senhor Paulo sentiu o peito apertar e não soube o que responder.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 11:00 am

— Pai, por favor, faça alguma coisa em defesa do Rafael, mas faça agora, antes que essa história tome vulto.
— O que eu posso fazer, Caio?
— Eu posso confirmar que ela anda com um e com outro, não tem uma gota de moral ou bom-senso.
Só não andou comigo, porque eu não dei chance.
—Tem certeza, Caio?
—Absoluta! Por favor, pai, defenda o Rafael.
Fique a seu lado pelo menos uma vez.
Se ele voltar...
—Ele vai voltar!
—Certo... certo.
Quando ele voltar, se essa história tiver inflamada, Daniela pode deixá-lo.
Não o faça sofrer mais.
Dê-lhe uma oportunidade de vida feliz.
—Você não é feliz, Caio?
—Não, pai. Nunca fui.
—O que lhe faltou?
— Atenção, compreensão, carinho, amor.
O senhor Paulo fitou-lhe longamente.
Amigos espirituais procuraram envolvê-lo para que abraçasse seu filho naquele instante.
Entretanto, mesmo repleto de imenso desejo, ele segurou-se por livre escolha.
Seu coração parecia querer explodir.
—Desculpe-me, pai.
Estou nervoso. Nunca conversamos assim.
Dizendo isso, virou-se para sair quando seu pai chamou.
— Caio...
Voltando-se, esperou que ele continuasse:
—O que eu posso fazer para corrigir tudo isso?
—Não sei.
—Acha que é tarde?
—Não sei, pai.
Com os olhos embaçados, o senhor Paulo sentou abaixou a cabeça e esfregou o rosto murmurando:
_ Eu já sei que errei.
Mas me diga: como posso reparar?
Olhando firme para Caio, observou:
— Agora só me resta você para sinalizar o caminho e você se fecha!
Reclama o que lhe faltou, mas não me diz o que fazer.
_ Eu não posso ensinar ou dizer o que não aprendi.
Caio virou-se e saiu, enquanto seu pai dizia:
— Não me agrida mais!
Por Deus! Não me agrida mais!
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 11:00 am

19 - O RETORNO

Depois de trinta dias de cativeiro, Rafael e, principalmente, Daniela, encontravam-se quase sem forças físicas para reagir.
Rafael fora agredido fisicamente, todas as vezes que Biló ou seu irmão, o Carioca, compareciam àquele local.
—Seremos pago pelo homem, semana que vem -— informou Carioca, que fora até o cativeiro.
—Não tentaremos pegar o dinheiro do resgate? -— perguntou Zeca.
—De jeito nenhum.
Eu sei que ganharemos menos desse cara, só que tu sabe, o serviço foi encomendado e é mais garantido.
Ele tá com a cauda presa com a gente e nós com ele.
Não podemos dar pra trás.
Além disso, tem polícia no meio.
—E depois que pegar o dinheiro? -— perguntou Zeca.
—Tem que dar o fora daqui.
Talvez eu nem volte mais.
Pagarei tu e o Tonhão como sempre. Certo?
— E os dois lá dentro?
— Quando o dinheiro estiver na minha mão, mandarei uns caras virem aqui para cuidar deles.
O Biló quer assim.
— Vão matá-los?
_ Isso não me interessa.
Pagarei para eles se divertirem com esses dois, seria bom que não morressem, mas se isso acontecer, que se danem.
— Depois de breve pausa:
— Olha, Zeca, fique com essa fita de vídeo, esses negativos e fotos.
Se eu não voltar mais, quando tu estiver dando o fora, deixe tudo isso lá em cima da mesa.
E diga para os caras que chegarem para não mexer.
Estendendo o material, para que Zeca pegasse, Carioca explicou:
— Isso é a prova de que o Caio, irmão desse aí, tava lá com o ricão no dia da morte do homem em Angra dos Reis.
Eu quero que ele se dane.
Zeca apanhou o pacote e pendeu a cabeça positivamente, concordando com Carioca.
—Tô indo. Não deixa nenhuma pista quando sair daqui.
—Pode deixar.
Comigo tu sabe que não tem erro.
Na manhã seguinte, Tonhão afastou-se da casa vagarosamente, caminhando com o cigarro aceso como de costume.
Zeca, aproveitando sua ausência, abriu a porta do quarto em que Rafael e Daniela estavam.
De posse de um canivete, ele cortou as amarras que prendiam Rafael e falou:
— Se vocês ficarem aqui, vão matar vocês.
Sou um cara limpo, ninguém vai morrer por minha culpa.
Rafael sobressaltou-se, assustado.
Ele desejou tanto esse acontecimento que agora não acreditava no que estava vendo.
_ Dá pra dirigir?
Gaguejando, Rafael respondeu:
_ Tem que dar!
— A chave tá no contacto.
Levanta ela e fica lá na porta olhando.
Eu vou andar até onde está o Tonhão.
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Ave sem Ninho

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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 11:00 am

Quando eu estiver lá embaixo com ele, tu pega ela, entra no carro e dá o fora.
Virei correndo com o Tonhão e, se a gente pegar vocês não vou poder fazer mais nada.
Não posso me sujar com eles.
Fica ligado, tem pouca gasolina.
Tome. Isso aqui parece que é do seu irmão.
— Olhando para Daniela, comentou com certa emoção inesperada:
— Se eu não soubesse onde está minha irmã mais nova, diria que ela é você.
Como se parecem!
Zeca virou as costas e saiu.
Ele achava-se envolvido pelos amigos espirituais de Rafael e Daniela.
Rafael estava incrédulo.
Mal se aguentava em pé, mas munido de uma súbita força, que lhe chegou extraordinariamente, ele amparou Daniela e ficou aguardando, conforme o combinado.
Ao ver Zeca distante, conversando com Tonhão, Rafael colocou Daniela no carro.
Entrou às pressas e saiu dirigindo o veículo quase desgovernado até chegarem à estrada.
Daniela não parava de orar, enquanto Rafael, atordoa não sabia para onde ir.
Seguia estrada afora, ignorando o lugar em que se encontravam.
Após alguns quilómetros, o veículo parou por falta de combustível.
Rafael desceu e ficou à espera de alguém que pudesse auxiliá-los.
Depois de muito esperar viu, ao longe, um caminhão.
Fez sinal para que ele parasse.
O caminhoneiro chegou a diminuir muito a velocidade do veículo, quase parou, mas ao observar a aparência de Rafael, a barba crescida, o rosto machucado, roupas sujas e rasgadas, desencorajou-se de dar carona.
Bem adiante, o motorista do caminhão, intrigado com o que viu, ao encontrar uma patrulha rodoviária, resolveu relatar o facto.
Ele estava sendo envolvido para tomar aquela atitude.
—... ele está parado há uns dez quilómetros lá pra trás, perto do canavial.
— O senhor viu mais alguém?
— Ah! Tinha uma mocinha dentro do carro, que também não estava muito limpa. Eu acho.
— Eles não são hippies?
—Acho que não.
O rapaz estava machucado.
Parecia ter saído de uma briga, com o rosto cheio de marcas.
Deu uns passos para trás, meio mancando.
Seria bom ver o que é, de repente eles precisam de ajuda...
O carro estava parado no acostamento.
—Obrigado, companheiro.
Eu e meu parceiro vamos averiguar. Boa viagem!
Entrando na viatura, os policiais rodoviários manobraram e foram ao local indicado.
Ao chegarem próximo, viram o veículo descrito pelo caminhoneiro parado no acostamento.
Não havia ninguém no carro ou por perto.
Os policiais olharam em volta, sacaram suas armas e desceram para ver o veículo.
Foi quando Rafael, saindo do canavial com os braços erguidos, gritou:
_ Não atirem!
Graças a Deus vocês pararam.
Assustados, os policiais apontaram-lhe as armas.
Aproximaram-se dele, pedindo para que ajoelhasse.
Rafael jogou-se de joelhos no chão e devido ao nervosismo, às necessidades e ao desespero que sofreu, começou a chorar, deixando-se ser revistado enquanto, com a voz rouca e entrecortada pelos soluços, informava:
—Ajudem a Dani, ela está ali!
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Ave sem Ninho

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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 11:01 am

—Onde? -— perguntou um dos policiais.
—Ali! -— indicou Rafael, apontando para o canavial.
— Quem é você?! O que aconteceu?
—Fugi de um cativeiro. Fui sequestrado.
Meu nome é Rafael e ela é minha namorada, Daniela.
O outro policial surgiu com Daniela nos braços.
Ambos foram levados para a cidade mais próxima.
Rafael, muito magro e abatido, sofria tremores por todo o corpo.
Mesmo assim, não entregava aos cuidados de ninguém as fitas e negativos que trazia consigo.
Sua família foi avisada e o senhor Paulo foi buscá-los imediatamente com seu helicóptero.
Eles estavam sendo medicados no hospital da cidade quando o senhor Paulo e Caio chegaram com o médico particular e todos os outros aparatos que puderam levar.
Rafael e Daniela não conseguiam dizer nada, somente choravam, tamanho o desespero e a emoção.
O empresário abraçou o filho, caindo em choro compulsivo que ninguém jamais presenciou.
Abraçou também Daniela, que correspondeu com carinho e emoção, mesmo diante da febre que ainda sofria e fraqueza que lhe abatera.
Rafael, ao abraçar Caio, disse-lhe ao passar um pacote:
— Tome. Suma com isso.
De volta a São Paulo, eles receberam todos os cuidados ao ficarem internados no melhor hospital possível.
Dona Antónia não queria deixar a filha, por isso o senhor Paulo providenciou sua estada, como acompanhante, no hospital.
Depois da alta recebida, Daniela retornou para sua casa e Rafael a acompanhou junto com seu pai.
Na casa de Daniela, no plano espiritual, alguns espíritos, que não eram os amigos costumeiros daquele lar, estavam presentes e observando a chegada de todos.
Esses espíritos não viam ou registavam a presença de Durval, Lucas, Fabiana e outros que os acompanhavam, pois, apesar de estarem todos na espiritualidade, a equipe de mentores ocupava uma ordem superior ao grau de perfeição desses espíritos.
Durval e Lucas os observavam.
Eles não eram espíritos maus, mas ignorantes e levianos.
Estavam no aguardo de uma oportunidade para agirem porque desconheciam as Leis de Deus.
Acreditavam que tudo sabiam só pelo facto de serem espíritos desencarnados.
Julgavam-se donos da justiça e queriam praticá-la a seus moldes.
Incapazes de admitirem seu orgulho as tendências nas paixões daí decorrentes, deixando-os presos ao materialismo.
Eles não possuíam conhecimento sobre a ordem da vida espiritual, e seus sentimentos se confundiam com a ideia que fardavam sobre a vida corpórea, pois ainda se prendiam na terra e se colocavam em posição de sábios.
Não respeitavam o livre-arbítrio e queriam dirigir as experiências vividas por outros.
Isso nos é ensinado em O Livro dos Espíritos, questão número 100.
Os encarnados não registavam a presença deles.
Dona Antónia, imensamente feliz e prestativa, não se deteve em preparar um café para todos, inclusive os seguranças que não os deixavam.
— Tome, seu Paulo. Tá fresquinho.
Ele aceitou e observou que todos os outros foram tratados da mesma forma.
Depois de algum tempo, o senhor Paulo aconselhou:
— É hora de irmos, Rafael.
Rafael, indeciso, não sabia se ficava ou se levava Dani consigo.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 11:01 am

Vendo-o em conflito e sabendo que não poderia levar Daniela para sua casa devido à notícia de que Cláudia esperava um filho de Rafael; e se o deixasse ficar ali, seria bem provável que todos iriam visitá-lo e comentários talvez surgisse perto de Daniela, o pai declarou:
— Daniela precisa descansar e seguir as orientações médicas para que se recupere logo.
Enquanto você, além descanso e dos mesmos cuidados, precisa prestar mais informações à polícia para que capturem esses marginais.
Nesse instante, Carlinhos, que havia ficado aos cuidados de uma vizinha, entrou feliz e, descontrolado, atirou sobre Daniela cobrindo-a de beijos, retribuídos com lágrimas imenso carinho por parte da irmã.
— Esse é o irmão da Daniela, pai.
O senhor Paulo não disse nada.
Observou e chamou o filho em seguida para que fossem embora.
Rafael beijou dona Antónia, abraçando-a com ternura.
Após beijar Daniela, acariciando-lhe a face, afirmou:
— Eu volto, se possível, hoje mesmo.
Carlinhos, separando-os, abraçou Rafael que retribuiu com alegria sua atenção carinhosa.
Ao chegar a sua casa, Rafael começou a chorar novamente.
Maria perdeu a compostura, essencial a todos os empregados daquela casa.
Correu e agarrou Rafael, enchendo-o de beijos.
Chorou junto com ele.
O senhor Paulo observou os sentimentos de ambos e subiu para avisar sua mulher que o filho estava em casa.
Dona Augusta não foi visitar Rafael no hospital.
Depois de receber todo o carinho merecido, por parte dos empregados, Rafael, voltando-se para Maria, que ainda chorava emocionada, disse:
—Estou exausto, Maria.
Dá para arrumar meu quarto? Quero me deitar.
—Já está arrumado, Rafael. Vamos lá.
Vou encher a hidro e enquanto você toma um banho relaxante, eu mesma preparo algo gostoso para você comer.
Como você está abatido, filho!
No plano espiritual, Lucas, que acompanhava Rafael, observava alguns dos espíritos que seguiam seu protegido desde sua saída da casa de Daniela.
— É esse o irmão que procuramos? -— perguntou um os espíritos perseguidores.
_" Sim. E esse mesmo.
O primeiro aproximou-se de Rafael, passando-lhe determinados sentimentos inseguros.
Com os olhos marejando novamente, Rafael subiu para seu quarto com a ajuda de Caio e Maria.
Minutos depois, Caio ouvia suas confissões.
Depois de banhar-se, Rafael deitou e Caio sentou na beirada de sua cama, emocionando-se a cada relato.
Em alguns momentos, sensibilizado, chorava.
Lágrimas copiosas corriam-lhe pelo rosto.
—Você está muito emocionado, Rafa.
Não acha melhor contar isso depois?
Vou deixá-lo dormir um pouco.
—Não! -— reagiu, inesperadamente.
— Por favor, não saia daqui.
Por um segundo, Rafael pareceu ficar em pânico quando considerou que pudesse ficar sozinho.
Segurando-lhe a mão Caio o confortou:
— Calma, Rafa. Está tudo bem.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 11:01 am

— Desculpe-me -— pediu, mais brando.
— Não sei o que me deu.
Rafael entregou-se a um choro compulsivo.
Reacção natural de quem passou por situação de medo grande risco.
Sentado na cama, ele abraçou Caio que o envolveu com atenção.
— Está tudo bem, Rafa.
Você está em casa agora.
— Caio, estou com medo -— confessou com a voz embargada e rouca.
— A todo instante eu fico esperando aqueles caras aparecerem.
Estou em desespero. Não quero ficar sozinho.
Preciso ver a Dani.
Trazê-la para cá...
Rafael estava confuso.
Não conseguia organizar seus desejos nem harmonizar os sentimentos.
Um dos espíritos que o acompanhou desde a casa de dona Antónia, ainda procurava envolvê-lo.
Lucas, sabendo que Rafael possuía algum conhecimento doutrinário suficiente para situações como essa, não interferiu, aguardando sua reacção.
Sabia que ele era forte e que mesmo diante de circunstâncias difíceis, seu pupilo teria de pôr em prática o que já aprendera.
Se um espírito, seja ele quem for, resolver para nós os nossos problemas, jamais evoluiremos para uma ordem espiritual superior.
Mentores e espíritos esclarecidos não solucionam nossas dificuldades.
Eles procuram nos inspirar, mas deixam para nós nos fortificarmos.
Através dos nossos valores morais e espirituais, do que aprendemos nos ensinamentos de Jesus, superamos os desafios e nos elevamos com benevolência, amor e justiça.
Não sofremos pelo que não necessitamos experimentar.
O Pai Celeste é justo.
Por essa razão, Lucas observava, deixando Rafael aprender com a oportunidade.
Sem ser visto pelos outros, Lucas inspirava-o para ele resistir.
— Rafael -— dizia Lucas, amável - nossa força interior é sempre maior que o nosso desânimo.
Depende de nós, através do desejo intenso, reagirmos a nosso favor.
Rafael não o ouvia nem registava essas impressões.
Ele queria reagir. Estava sendo mais fácil deixar-se dominar.
Caio, preocupado com a saúde do irmão, indagou:
—O médico prescreveu-lhe algum calmante?
—Acho que é esse aí sobre a cómoda.
—Seria melhor tomá-lo. Vou buscar água.
—Não. Por favor, fique.
Caio não sabia como se comportar.
Ele percebeu que Rafael não admitia ficar só.
Piedoso, fez o irmão deitar-se novamente e puxou uma cadeira para acomodar-se melhor ao seu lado.
Minutos depois, a porta do quarto foi aberta.
Era dona Augusta que vinha ver o filho.
— Rafael! Que bom tê-lo novamente -— exclamou a mãe, abraçando-o.
O senhor Paulo entrou em seguida, observando que o cumprimento entre Rafael e a empregada foi mais terno e emotivo do que entre ele e a própria mãe.
—Como você está magro! Pálido!
Seu irmão disse que você estava de barba.
Você a tirou? Eu nem vi!
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