LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Página 2 de 11 Anterior  1, 2, 3, ... 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 23, 2017 10:47 am

—O cara é o fornecedor deles. É um tal de Biló.
É isso aí mesmo!
Puxa, Rafa, você bateu nele mesmo?! -— vibrava o adolescente.
—Foi preciso.
—O Cadu disse que o cara ficou o maior doidão depois que você deu nele.
Ele contou que nem a Lola nem a Cláudia escaparam porque elas protegeram você.
Ele disse que o Biló quebrou um monte e ainda prometeu lhe acertar.
Ainda falou que vai saber de onde lhe conhece.
—Ontem o cara estava curtido. Ele acaba esquecendo.
Além do mais, eu nunca o vi antes. Tenho certeza.
Jamais esqueceria uma figura daquela.
—Vai, Rafa, me conta o que rolou!
—Não houve nada demais.
Esse tal de Biló se meteu com uma garota que estava comigo e eu o acertei.
—Rafa, o cara é da pesada.
Um pessoal já ligou pra cá pra saber se você estava bem.
O pai que atendeu.
Ele já ficou ligado.
—Pode deixar que eu me cuido.
Jorge, adolescente curioso e agitado, vibrava interessado com esse tipo de acontecimento.
Ele tinha pouca atenção dos pais e procurava, nas amizades, informações sobre a vida.
Buscava ocupação e situações onde pudesse descarregar suas energias.
Infelizmente, era um adolescente mal instruído e mal-amado.
Mais tarde ainda, Cláudia telefonou.
—Rafael?
—Fala — atendeu Rafael com desprezo.
Cláudia, com drama, começou a chorar.
—Você nem imagina o que aconteceu, ontem, depois que foi embora...
—Nem quero imaginar.
Você me convidou para um encontro com a turma.
Eu imaginei uma festa onde poderia me distrair.
O que eu encontrei?! Entrei na maior roubada.
Você me colocou numa fria.
Chega!
—O Biló me bateu. Estou com vários hematomas.
Sorte não ter marcado meu rosto.
O que minha mãe não iria dizer?
Tudo isso só porque eu o protegi.
—Tudo isso foi porque você não pensa antes de entrar numa fria.
Você não tem responsabilidade. -— Rafael irritou-se.
Ele queria interromper a conversa o quanto antes.
—Eu estou com medo.
O Biló prometeu lhe acertar porque você bateu nele.
Ele disse que ninguém havia feito isso antes.
Mais tarde eu vou aí em sua casa pra gente conversar.
— Olha, eu tenho que sair e...
Antes que ele terminasse de falar, Cláudia o interrompeu:
— Minha mãe irá até aí e eu vou com ela.
Daí trocamos uma ideia.
— Eu vou sair. Não conte com isso — insistiu ele.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 23, 2017 10:48 am

— Tudo bem, será rápido.
Contrariado, não disse mais nada.
À tarde, enquanto Rafael, no quarto, arrumava-se para sair, Cláudia era recebida junto com sua mãe por dona Augusta, mãe de Rafael.
—Olá, querida, como vai? -— recebia dona Augusta animada.
—Felicíssima! -— retribuiu dona Dolores, mãe de Cláudia, muito amiga de dona Augusta, ambas possuíam muita afinidade. —
Principalmente agora.
Você já está sabendo que a Claudinha está ficando com o Rafael?!
—Eu só soube que eles saíram juntos! -— animou-se a mãe do rapaz.
A conversa prosseguiu entre elas, pois desejavam imensamente a união dos filhos.
Cláudia foi à procura de Rafael, que estava em seu quarto, pois tinha liberdade naquela casa, uma vez que as famílias se conheciam há muito.
—Rafael! — disse Cláudia, subitamente, abrindo a porta do quarto.
—Caramba, Cláudia!!!
Não sabe bater antes de entrar?! -— retribuiu Rafael, surpreso, demonstrando desagrado.
E se eu estivesse me trocando?...
Cláudia, sem se importar, continuou:
— Estou com medo por você.
O Biló quer lhe pegar.
Ele está com muita raiva.
Rafael não se importou e, depois de breve pausa, ela prosseguiu:
_ Afinal, quem era aquela mina que estava com você ontem para pegar as chaves do seu carro?
_ Primeiro, Cláudia, eu nem sei quem é esse Biló.
Você me colocou na maior enrascada.
—Você não devia ter batido nele.
Não precisávamos de violência.
Foi você quem começou.
—Fico admirado com o que estou ouvindo. Nem estou acreditando.
Saiba de uma coisa: se há algo que eu respeito e admiro, é a dignidade dos outros.
Repugna-me o que aquele marginal tentou fazer.
Fico enojado só de pensar.
— Quem é aquela mina?
—Uma amiga. Quer saber? Vou, agora mesmo, ver se ela está bem, depois do que aquele animal fez.
—Então olhe o que ele fez comigo -— disse Cláudia, exibindo os hematomas nos braços e nas costas, levantando sua blusa parcialmente.
—Problema seu. Você procurou essa encrenca.
Agora se vire sozinha.
Quanto à Daniela, fui eu que a coloquei naquela situação vexatória e humilhante.
Sinto-me responsável e preocupo-me com ela.
— Quem é essa Daniela?
— Uma amiga — repetiu ele e, sem esperar por mais indagações, virou-se saindo do quarto.
Cláudia correu atrás.
Ao descer as escadas e chegando à sala, Rafael surpreendeu-se.
— Filho, que bom! Fiquei contente em saber sobre você e a Claudinha!
— Eu e a Cláudia, o quê?!
— Sabe o que é -— intrometeu-se Cláudia - minha mãe não queria deixar eu ir à casa da Lola, então eu tive que contar pra ela que a gente estava se entendendo.
Sabe como é... já ficamos algumas vezes juntos, trocando uma ideia, se acertando...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 23, 2017 10:48 am

Dizendo isso, ela aproximou-se de Rafael e o abraçou pela cintura.
Ele entendeu logo o que Cláudia quis propor para sua mãe e ficou sem coragem para esclarecer a situação ou desmenti-la.
O espírito Lucas tentou fazê-lo agir com sensatez, procurando inspirá-lo:
— Rafael, a verdade é conveniente nessa circunstância.
Quando a deixamos de lado, por comodismo ou covardia, podemos nos colocar em difíceis situações futuras.
O rapaz não ouviu o que seu mentor observou, contudo sentiu vontade de dizer que estiveram juntos em outras vezes, só por acaso.
Não marcaram encontro e, na noite anterior, ambos ficaram de se encontrar naquela festa.
Ele não a convidou. Porém, omitiu-se.
Sua falta de instrução quanto à mediunidade e às inspirações que recebemos do plano espiritual, deixou-o pender para as opiniões dos companheiros espirituais de Cláudia, que tentavam seduzi-lo a faltar com a verdade e alimentar aquela situação mal esclarecida.
Rafael ficou atrapalhado.
Enquanto sua mãe, demonstrando imensa felicidade, aproximou-se dele e comentou de forma incrivelmente animadora:
— Que maravilha! Pensei nunca poder sentir tanta felicidade!
Enfim temos a oportunidade de unir nossas famílias!
Se depender de mim... filha -— disse dona Dolores, mãe de Cláudia —- não vejo a hora de contar ao seu pai.
Pelo fato do Rodolfo ser tão festivo, irá proporcionar uma grande comemoração.
Ele sentiu-se entorpecer.
Aquilo não poderia acontecer, porém não sabia o que falar.
— Rafael -— envolvia Lucas - esta é uma ocasião em que sua opinião, apresentada com sensatez, juntamente com a verdade, seria extraordinariamente bem-vinda.
Teve novo impulso, porém não se decidia.
Sem jeito ou argumentos, resolveu sair para livrar se de tudo aquilo.
— Tenho um assunto sério para tratar.
Volto mais tarde -— disse ele, retirando-se com certa pressa.
— Onde você vai? -— perguntou Cláudia.
Rafael agiu como se não tivesse ouvido e continuou andando.
Ela foi atrás, alcançando-o.
— Onde vai? Posso ir com você? -— insistiu.
—Você ficou louca?! Perdeu o juízo?!
Você insinuou que estamos juntos! — questionou irritado, porém quase sussurrava para não fazer alarde.
Ele não gostava de escândalo.
—Vai dizer que não gostou da ideia? -respondeu, sorrindo.
Rafael, nervoso, deu de ombros e saiu.
Cláudia insistiu novamente:
— Posso ir?
Por ter a personalidade tranquila e educada, não soube responder com veemência sua negação e disse:
— Não tenho horas para voltar.
Dentro de seu carro, ele se achava contrariado com a atitude dela.
Em trânsito, ao parar em um semáforo, ele deu um leve soco no volante para descarregar os sentimentos irados, falando em voz alta:
—Não é possível! Essa mina só me coloca em fria.
—Isso ocorre porque você deixa — orientou Lucas a seu lado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 23, 2017 10:48 am

— Você teve oportunidade de esclarecer a situação no exacto momento em que se fez dúbia e embaraçosa.
Se o tivesse feito, não estaria agora em cólera.
Bem como ontem, quando percebeu a movimentação estranha naquela festa.
Poderia ter ido embora antes de se envolver.
Devemos ficar atentos a cada oportunidade que nos surge e a cada aviso que intuímos ou pelo qual somos inspirados.
Devido à atenção estar voltada ao trânsito, Rafael falou sem perceber que sua voz fluía como se conversasse com alguém:
—Você tem razão. Eu preciso impor mais vezes a minha vontade.
—Impor sua vontade, sim -— prosseguiu Lucas.
— Todavia, o amor e a caridade devem estar presentes para as decisões nobres, edificando o bem de todos.
Nunca devemos impor a nossa vontade para sermos aceitos como dono da verdade ou senhor absoluto.
Rafael, novamente sem perceber, comentou tranquilo:
— É difícil dizermos, com paciência e humildade, o que queremos às pessoas que se acham com razão em tudo.
Elas dificilmente nos ouvem e acabam nos atropelando, insistindo no que acreditam e querem que façamos.
—Caro amigo, a caridade e o amor devem começar a partir de nós para connosco mesmo.
Não podemos nos maltratar, agredir-nos.
Admitir que mesmo aqueles que nos amam, violentem-nos as emoções ou o raciocínio só por não compartilharem da nossa opinião, é falta de caridade para connosco.
Por isso devemos nos manter em preces constantes para nos ligarmos com a Sabedoria Divina que nos chega através dos instintos e até inspirações.
—Eu sei -— respondeu Rafael.
— Mas que é difícil fazer isso é...
Subitamente, freou seu carro.
— Meu Deus! -— exaltou-se ele confuso.
— Tenho certeza de que estou ouvindo alguém! Certeza!
Assombrado, olhou para o banco ao lado como à procura de uma resposta.
Lucas estava a seu lado, mas ele não podia vê-lo.
Os veículos, que estavam atrás do carro de Rafael, começaram a buzinar, fazendo-o prosseguir.
— "Eu ouvi!" -— pensava Rafael.
— "Tenho certeza de que conversei com alguém.
Não estou ficando louco!"
Ao chegar em frente à casa de Daniela, ele logo esqueceu o ocorrido que o intrigara devido à movimentação de pessoas no interior da residência.
Acanhado, porém curioso, Rafael, com certa dificuldade pelo aglomerado de pessoas, conseguiu entrar na pequena casa.
—O que houve? — perguntou a uma garota.
—A Denise morreu -— respondeu a menina com simplicidade.
Rafael chocou-se.
Entrando no quarto, logo observou dona Antónia chorando, e Daniela, abraçada ao irmão, entregava-se a longas lágrimas.
Incomodado pela multidão que estava ali, Carlinhos começou a ficar nervoso e passou a gritar agitado.
Daniela, com muita educação e ternura, solicitou aos presentes que se retirassem do quarto para o irmão ficar mais tranquilo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Fev 23, 2017 10:48 am

Rafael não atendeu ao pedido, aguardando que ela o visse.
Ao percebê-lo, Daniela se entregou ainda mais ao choro, abraçando-o.
Carlinhos enrolou-se nos cobertores e ficou a balbuciar sons que o autoconsolavam, parando de gritar.
Os espíritos Lucas e Fabiana dispensaram a Carlinhos fluidos calmantes, que o tranquilizaram muito.
Abraçada a Rafael, rouca pelo choro, murmurou:
— Minha irmã se foi...
— Calma. Não fique assim — confortou ele atencioso.
Daniela procurava controlar o pranto, enquanto ele não sabia o que dizer.
Depois de alguns minutos, perguntou:
— O que alegaram como causa da morte?
— Hepatite.
— Quando foi?
— Soubemos quase agora.
Ligaram do hospital para a casa da vizinha, pedindo que algum familiar fosse até lá.
Eu estava arrumando algumas coisas pessoais para levar ao hospital pois iria visitá-la.
Deixei tudo aqui e fui às pressas, para lá.
_ Quem da família está cuidando dos preparos para o velório? - indagou Rafael, preocupando-se.
— Ninguém ainda. Não temos parentes em São Paulo.
Minha mãe não vai conseguir...
Terei de ser eu mesma.
— Quer que eu a ajude?
Com os olhos chorosos e em súplicas, Daniela pediu:
—Será que você poderia?
—Claro.
Rafael cuidou de todos os detalhes do velório e do enterro.
Financiou todos os custos porque, nitidamente, percebeu que a família não possuía condições financeiras e até emocionais para solucionar aquele ocorrido inesperado.
Para não ser incomodado, telefonou para sua casa procurando falar com seu irmão.
Disse que estaria em um velório e que não retornaria naquela noite.
Desejando não responder a mais nada, ele desligou o celular.
Já no domingo, depois do enterro, Rafael deixou dona Antónia, Carlinhos e Daniela em casa.
Quando ia embora, Daniela perguntou:
— Aceita um café?
Ele agradeceu o convite, decidindo aceitar.
— Desculpe-me. Depois de tudo o que você fez, eu ia me esquecendo de mandá-lo entrar.
Por favor, perdoe-me.
— Não peça desculpas por isso, eu entendo.
Enquanto saboreava o café, dona Antónia, agradecida, falava:
— Obrigada, moço. Deus lhe abençoe.
Agradeça a do Valéria por tê-lo enviado para nos ajudar tanto.
Rafael não entendeu o agradecimento e Daniela explicou à mãe:
— Mãe, o Rafael não conhece a dona Valéria.
— Voltando-se para ele, explicou:
— Dona Valéria é a patroa, ou melhor, a ex-patroa de Denise.
— Eu não sabia —- justificou-se dona Antónia, intrigada antes que sua mãe perguntasse, sintetizou:
— Conheci o Rafael na sexta à noite quando tentava pegar um táxi e vir para casa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:41 am

Era tarde, mãe, estava garoando muito e não passava nenhum.
O único táxi que passou, esta ocupado.
Ele tem uma amiga que mora no mesmo prédio dona Valéria e estava saindo de lá.
Depois de conversarem um pouco, ele me trouxe até aqui.
Dona Antónia não gostou muito, ela não aprovava coronas, mas percebeu que aquele não era o momento de entrar em detalhes com a filha.
Seria indelicado, uma vez que Rafa estava ajudando muito.
Na hora de ir embora, Daniela se lembrou de devolva jaqueta do rapaz, já quando estavam no portão se despedindo.
—Não. Deixe-a aí. Outro dia eu pego.
—Vou lá dentro buscar, só um minuto...
— Não — insistiu ele, segurando-a, com delicadeza pelo braço. —
Outro dia eu pego. Senão será difícil arrumar um motivo para vir até aqui.
Ambos deram um leve sorriso e ela decidiu deixar como estava.
—Daniela, tendo em vista que sua irmã morreu devido a uma hepatite, seria importante vocês se vacinarem.
—Na verdade, nem sei se há vacina para isso.
—Há sim. Seria importante vocês procurarem um médico para obterem mais informações.
Ela acenou com a cabeça, positivamente, aceitando a sugestão.
— Você telefona para mim, Daniela?
Vou querer saber de você.
Tristonha e quase chorando, respondeu:
— Telefono sim.
— Depois de breve pausa, completou:
— Você nos ajudou muito.
Hoje não tenho como lhe pagar.
Por enquanto só podemos agradecer.
Mas, com certeza, nós lhe pagaremos o quanto antes.
Rafael não disse nada. Somente sorriu.
—Vá com Deus.
—Obrigado. Tchau.
Ele beijou-lhe o rosto em sinal de amizade e foi embora.
A caminho de sua casa, ele reflectia o quanto Daniela era responsável e segura.
Talvez ela fosse assim por ter necessidades e preocupações objectivas que a ocupassem.
Ele percebia em Daniela algo especial que ainda não sabia identificar.

1 Bagulho também é um termo usado para nomear entorpecente.
2 Ouro branco é outro apelido dado ao pó de cocaína.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:41 am

4 - ESCLARECENDO OS FACTOS

Ao chegar a sua casa, Rafael foi avisado por Maria, a empregada, que sua mãe o procurava aflita.
—Dona Augusta o aguarda no escritório.
—Obrigado, Maria.
Ao entrar no escritório, dona Augusta exclamou quase gritando:
—Eu já ia chamar a polícia, Rafael!
E você sabe o quanto detesto escândalo!
Liguei para Deus e todo o mundo, procurando por você!
Onde você estava?!
—A irmã de uma amiga faleceu ontem à tarde.
Senti-me impulsionado a ajudar a família e...
—Quem? Eu não soube notícia alguma a esse respeito!
—A senhora não conhece, mãe. É uma amiga nova.
—Pois então não é do nosso meio, porque ninguém soube nada sobre velório algum!
Além do que, a pobre da Cláudia ficou ontem a tarde inteira plantada aqui em casa, toda arrumadinha, esperando-o, e você nem deu satisfação!
—Mãe — encorajou —, eu e a Cláudia não temos absolutamente nada.
Neste instante o senhor Paulo, pai de Rafael, entrou no escritório.
_ Finalmente hein, Rafael!
Eu já estava preocupado.
A propósito, a Cláudia acabou de telefonar e como eu não sabia que você havia chegado, disse que não estava.
— Óptimo! — respondeu Rafael.
E decidindo explicar a situação, continuou:
-Pai, mãe, quero deixar bem claro que eu e a Cláudia não temos absolutamente nada um com o outro.
Não estamos namorando. Saímos juntos por mero acaso.
Eu não gosto dela e não temos nada em comum.
Surpresa, dona Augusta argumentou:
—Mas como, filho?!
A Claudinha é de uma excelente família, uma óptima menina.
Vocês têm tudo para serem felizes!
—Mãe, por favor -— dizia calmamente.
— Não posso nem tentar ficar com a Cláudia.
Não combinamos.
Eu já fiquei com ela uma ou talvez duas vezes e... sabe, não dá.
—Não entendo sobre essa gíria de ficar, Rafael -— disse o senhor Paulo.
— Você pode se explicar melhor?
—Ficar seria... —- tentava explicar Rafael, procurando palavras para que seu pai entendesse.
—... bem, é a gente namorar alguém sem compromisso, como se fosse um namoro de um dia, talvez uma semana, mas como se fosse só uma experiência, entende?
Ficar é menos do que um namoro, entende?
A gente fica, só que depois, cada um vai pro seu lado, não há cobrança, não temos que dar satisfações caso a gente não ficar ou procurar a pessoa, porque não é namoro.
Deu para o senhor entender?
—De forma alguma podemos nos contentar com isso, Rafael! -— dizia dona Augusta contrariada.
— Fazer isso com a filha dos nossos melhores amigos!
Não pode ser. Você não nos fará passar por uma vergonha dessas.
Se você se comprometeu com a moça, agora tem de assumir!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:42 am

—Mãe, a senhora não entendeu.
Hoje a Cláudia fica comigo, amanhã ela fica com outro, e tudo bem!
—Isso é um absurdo!
Se vocês começaram a namorar, não será de um dia para outro que você irá largá-la, terá de dar-lhe uma satisfação.
Sei que é fácil falar da moral de uma moça, porque é difícil assumir a responsabilidade...
Sentindo-se contrariado, saiu do escritório deixando sua mãe falando sozinha e foi para seu quarto onde encontrou Caio, seu outro irmão e mais velho.
— Aí, Rafa! — cumprimentou Caio.
Rafael atirou-se na cama e suspirou profundamente enquanto Caio justificava-se:
—...estou usando seu chuveiro porque estou tendo problemas com os misturadores de água do meu banheiro.
Tenho só água fria.
—Tudo bem — respondeu desconsolado.
—O que foi, Rafa?
—A mãe estava me enchendo.
Você acredita que para sair de sua casa e ir para um encontro com a turma, a Cláudia inventou que estava ficando comigo e a mãe acha que nós estamos namorando?!
Agora a mãe está dizendo que eu não posso terminar um compromisso assim, de repente, porque os pais dela são nossos amigos...
—Eu não sabia que a mãe estava tão arcaica assim. Toma cuidado.
A Cláudia é a maior fria, hein. Fica ligado!
—Eu já estou sabendo -— afirmou.
— Já pude experimentar duas belas encrencas em que ela me colocou.
Uma foi uma festa sinistra que ela me convenceu para ir.
A outra foi essa história de namoro.
—Sobre a festa eu já estou sabendo -— avisou Caio.
—Até você?! —- admirou-se Rafael.
—Não tenho nada com isso, mas toma cuidado!
Esses tipos, com os quais você se envolveu, são da pesada.
—Caio, eu não estou metido com eles, entendeu?
Eu nem sabia que a Lola e a Cláudia se envolviam com drogas e drogados.
Desconfiado, Caio passou a fitá-lo com um leve sorriso irónico e Rafael acabou confessando:
—Tá, tá bem. Eu já desconfiava sim.
Mas não tinha certeza.
Não me encontro muito com eles. Você sabe.
—Tome cuidado para que esse cara não fique no seu pé.
—Eu nunca tinha visto o cara.
Não devo nada para ele.
O que ele pode querer comigo?!
—Não existem pessoas mais vingativas e cruéis do que traficantes.
Tome também cuidado com a Cláudia.
Essa mina está a fim de arrumar um trouxa para juntar.
—Trouxa para quê?
—Ela está a fim de se casar.
Não vê que ela está se ligando em você?
Ela sabe que estamos bem estabilizados financeiramente, seu papai paga tudo...
— Rindo ironicamente, Caio completou:
— Ela não quer perder a mordomia.
Cuidado para ela não lhe amarrar com a paternidade, isso está em moda!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:42 am

—Não! Não mesmo! -— irritou-se, não gostando da brincadeira.
—A propósito, quem era aquela garota que você defendeu?
Parece que ninguém nunca a viu.
—Ah! É a Daniela! — encantou-se Rafael, com os olhos brilhando, ao falar o nome da moça.
—Daniela?! Hum!
Gostei do nome. Quem é ela?
—Nem lhe conto, Caio. Foi assim...
Ele começou a contar para seu irmão tudo o que havia acontecido, desde a festa até o enterro de Denise, irmã de Daniela.
—... é gente simples, Caio.
A Daniela é tão meiga, inteligente.
Não tem essa de ser exibida ou saliente.
Percebi muita responsabilidade e preocupação.
Coisa difícil hoje em dia, principalmente com tão pouca idade.
— Apaixonado à primeira vista?!
Rafael sorriu e confessou:
—Encantado, eu diria! Gostei muito dela.
Só me pareceu muito novinha, mas tem uma cabeça!
—Idade não significa muito. É isso aí, Rafa.
Vai em frente. Só que se prepare para enfrentar a mãe.
Você bem sabe, pra mãe, pessoal fora do nosso meio social não é gente. Se cuida.
Caio saiu e Rafael perdeu-se em pensamentos e lembranças.
Na semana que se seguiu, Rafael só pensava em Daniela.
Como ela não telefonou, ele decidiu procurá-la.
—Já sei — disse —, veio pegar sua jaqueta!
—Por favor! Nada disso.
Eu vim ver como vocês estão.
— Sabe... não está sendo fácil.
Minha mãe chora muito.
Isso me deixa ainda mais triste e meu irmão fica agitado.
Ele não entende, mas sente e percebe exactamente tudo o que está acontecendo.
_ Vim chamá-la para sair.
Vamos dar uma volta?
Assim você se distrai um pouco, talvez esteja precisando.
Vamos a um shopping?
Tenho de ver se minha mãe não vai precisar de mim.
Daniela entrou e diante da aprovação de sua mãe, ela saiu com Rafael.
Em uma lanchonete, enquanto saboreavam um suco, ele começou a conhecer a vida de Daniela, que passou por inúmeras dificuldades desde que seu pai faleceu.
Ele era motorista de táxi.
Depois de seu desencarne, a situação financeira da família se complicou muito.
— Às vezes acho você triste.
A moça sorriu largamente e argumentou:
— Triste?! Não! Não mesmo.
Eu diria que sou uma pessoa normal, consciente do que eu quero.
Entendo os meus limites e não me revolto pelas oportunidades que não tenho ou ainda não vieram.
Sei que tenho deveres a cumprir com a minha família e procuro realizá-los com responsabilidade na medida do possível. —
Brincando, ela completou:
— Além do mais, não sou boba para ficar rindo à toa só para mostrar que estou contente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:42 am

Ambos sorriram.
— Daniela, meu pai tem uma construtora.
Vou ver se posso lhe arrumar um emprego no escritório da empresa. Interessa-lhe?
Ela pareceu brilhar.
— Se eu preencher os requisitos, é claro que aceito!
— Você entende de informática, mais especificamente, você opera um computador?
Daniela se entristeceu e falou:
—O mais perto que eu já estive de um computador foi no banco para digitar a senha num terminal.
—Não faz mal. Hoje há óptimos cursos e muito rápidos, você pode fazer um.
Amanhã mesmo verei uma boa escola para você.
Até porque, dependendo do serviço, não será necessário grande domínio da máquina.
—Esquece -— respondeu ela firme.
Não tenho com pagar.
—Eu faço questão.
—Não.
—Daniela, isso para mim não será nada, tá?
—Não terei como lhe pagar.
Mesmo começando a trabalhar ficaria difícil pagar-lhe de imediato, estamos muito necessitados.
—O que você pretende fazer?
—Ficar com o emprego de pajem da minha irmã.
—Esse emprego lhe agrada?
—Adoro as crianças, mas... não!
Não me satisfaço com ele.
—Aceite, por favor.
Não terá que me pagar.
—Eu e minha mãe já estamos lhe devendo muito.
Esqueceu-se dos custos do enterro?
—E o favor que você fez quando nos conhecemos?
E a encrenca que eu a envolvi naquela noite, colocando-a em uma situação tão humilhante em que você até foi agredida?
—Isso não diz respeito a dinheiro.
—Daniela, eu faço questão. Por favor...
—Não sei. Preciso falar com minha mãe.
Rafael, mais satisfeito, renovou as esperanças e deu um leve sorriso, mas, de súbito, ficou sério e preocupado.
—O que foi? _ Nada.
—Houve alguma coisa sim.
Você mudou de repente.
Rafael sentiu uma inspiração que lhe indicou que fosse embora daquele local.
Incrédulo e desconfiado, decidiu confiar em Daniela as suas dúvidas.
— Você ouviu alguém falando?
— Há várias pessoas falando nas mesas ao lado. O que houve?
—Você vai me chamar de louco.
—Jamais. Por favor, diga.
—É que... -— disse Rafael, envergonhado -— eu dei para ouvir alguém falando comigo ultimamente.
É uma voz de homem.
Sei lá, se é... sei que é muito estranho, mas é muito nítida dentro da minha cabeça, entende?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:42 am

Ora... deixa para lá. Isso é loucura.
—O que essa voz fala? -— perguntou Daniela, atenciosamente.
E vendo Rafael desconfiado em relatar, argumentou:
— É sério. Há uma explicação para isso.
—Sabe, Dani, outro dia eu cheguei até a bater um papo, distraidamente, como se eu estivesse conversando com uma pessoa.
Pode me chamar de louco mas... ele me dava explicações, esclarecimentos...
— Sobre o que ele falava?
— Eu não me lembro das palavras exactas, só sei dizer que era algo para eu ser caridoso.
Falou de amor para com as outras pessoas e para comigo mesmo. Foi coisa de louco.
—Não foi coisa de louco não.
Você é médium, Rafael. Se a conversa,
vamos chamar assim, que teve incentivou-o para o bem, para o amor, para a harmonia, com certeza foi um espírito amigo ou seu próprio mentor orientando-o.
Ao mentor, alguns dão o nome de guardião ou anjo da guarda.
—Você acredita que isso é possível, Daniela?
—Muito. Acredito muito.
Mesmo nunca tendo conversado com meu mentor ou mentora dessa forma tão lúcida ou directa.
Às vezes sinto somente as inspirações, muito subtis, que esses amigos emanam.
Contudo, temos que tomar muito cuidado para não sermos enganados por espíritos brincalhões, zombeteiros ou obsessores que se fazem passar até por mentores para nos enganar, ridicularizando-nos quando nos induzem ou expõem a situações humilhantes e vexatórias.
—Quando podemos saber se um espírito é amigo ou não?
—É assim, Rafael:
o verdadeiro amigo espiritual é aquele que nos inspira para o bem, amor, harmonia, nunca nos incentiva a brigas, irritações, intrigas, álcool, tóxicos, sexo abusivo ou sem valor moral, brincadeiras de mau gosto, entre outras más tendências.
Quando sentimos vontade de nos deixar envolver por essas tendências mundanas, os espíritos elevados se afastam de nós, enquanto que os levianos se aproximam fortalecendo nosso desejo nessas práticas.
Observe que os espíritos com esclarecimento e elevação não nos dizem ou afirmam o que devemos fazer, eles nos inspiram e nos esclarecem, eles podem nos indicar um caminho, mas não nos obrigam a segui-lo ou nos fazem cobranças quando não seguimos suas inspirações.
O ideal é estudarmos sempre a Doutrina Espírita para sabermos identificar esses espíritos.
Uma pessoa sem instrução se deixa levar facilmente pelos espíritos brincalhões que se fazem passar por mentores e amigos, dizendo ou insinuando que podem nos ajudar.
Eles nos dão conselhos e instruções que parecem ser para o nosso bem.
Mesmo que não nos indiquem caminhos ou práticas mundanas, podem ser conselhos que nos satisfaçam na vaidade, no orgulho e no egoísmo que, com certeza, nos deterão na evolução espiritual.
Sabe, Rafael, todos nós temos certo grau de mediunidade, entretanto alguns de nós somos mais sensíveis, outros não e isso ainda depende de ser sensível em quê, uma vez que há vários tipos de mediunidade e vários tipos de médiuns.
Os médiuns natos, por exemplo, e os que não têm a obrigatoriedade de exercerem o compromisso mediúnico, mas sim, principalmente, de se instruírem o que, sem dúvida, todos devem fazer.
Essa instrução só é confiável e sem mistificação se vier através do que nos ensina a Doutrina Espírita.
Uma pessoa poderá ter o atributo de várias mediunidades.
Esse médium haverá de vigiar-se muito, principalmente, porque a quem muito é dado, muito será exigido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:43 am

Essa pessoa deverá se deter nos estudos doutrinários e a impecáveis práticas morais.
Há também aquele que possui somente uma mediunidade, mesmo assim não se pode dispensar o estudo rigoroso e a vigilância constante.
No seu caso, Rafael, você só ouve ou também vê?
—Só ouço.
—Então você é médium audiente.
— Essa doença pega? -— perguntou Rafael brincando.
Daniela sorriu e explicou:
—Se você não se cuidar, buscando harmonia e educação mediúnica, você poderá passar por turbulências inconvenientes e desnecessárias.
—Sabe, Dani, confesso-lhe que acreditei estar com algum problema mental.
Esse acontecimento não é comum.
Não se ouve falar disso.
—Não mesmo. Mas há, sim, muitas pessoas com problemas mentais por não acreditarem ou ignorarem ser excelentes médiuns.
Elas não insistem na busca de esclarecimento e não se dispõem, como deveriam, aos estudos doutrinários que o Espiritismo oferece gratuitamente.
—Eu nunca parei para pensar em Espiritismo.
—Deveria, Rafael.
A propósito, você ouviu alguém falar com você agora?
—Sim. Era a mesma voz de sempre e disse algo sobre ir embora.
—Então vamos.
—Não estou com vontade.
Veja, está tudo tão calmo aqui.
O que poderia haver de errado?
Nós só estamos conversando.
Daniela ficou sem jeito de insistir para que fossem embora, até porque ela também estava gostando da companhia, da conversa e do lugar.
Mais de uma hora passada...
— Vamos. Já está tarde -— pediu ela, Rafael concordou.
Alegres, eles saíram do shopping center.
Pegaram o carro no estacionamento e seguiram para a casa de Daniela.
Rafael não percebeu que estava sendo seguido, pois a conversa entre eles estava muito animada.
Subitamente, num cruzamento, o carro de Rafael foi fechado por outro automóvel, sendo que ele não teve como sair, pois um outro veículo o prendeu por trás, impedindo qualquer manobra.
Descendo de um dos carros, Biló e outros dois rapazes foram na sua direcção.
Um dos rapazes do carro da frente desceu segurando um pedaço de cano de ferro com o qual passou a desferir vários golpes no capo do carro de Rafael, que rapidamente desceu também.
— Ei! Pare! -— gritou.
Biló aproximou-se e disse:
— Fique frio! É só comigo.
Esse cara é meu.
Biló e Rafael passaram, repentinamente, a trocar socos e pontapés.
Pelos treinos de desporto, incluindo artes marciais, Rafael demonstrou destreza na luta.
Os comparsas de Biló obedeceram e não interferiram na briga, que em poucos minutos deixou Biló caído no chão.
Enfraquecido pela surra, ele não conseguia se levantar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:43 am

Quando os outros tentaram se aproximar de Rafael para agredi-lo, Daniela desceu do carro com o celular na mão e gritou:
—Já chamei a polícia!
Tem uma viatura a caminho.
Amedrontados, os companheiros de Biló o carregaram para um dos automóveis e fugiram.
Rafael entrou em seu carro e abraçou Daniela, que apesar da coragem, chorava nervosa.
— Boa ideia ter ligado para a polícia, Dani.
— Eu não liguei.
— Não?!
— É que eu não sei como usar isso.
Rafael sorriu e ela observou:
— Você está sangrando!...
—Ah! Ele ficou pior! -— completou Rafael, animado por ter derrubado Biló pela segunda vez.
—Rafael, e o seu carro? Veja como ele ficou!
—O seguro cobre.
Amanhã eu vejo como fica isso. Está tudo bem.
Rafael demonstrou-se aparentemente tranquilo, porém estava muito preocupado, pois agora sabia que Biló não o deixaria em paz por ter apanhado dele pela segunda vez.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:43 am

5 - CONVERSANDO COM AS VOZES DO ALÉM

Depois de deixar Daniela em frente à sua residência, Rafael voltou para sua casa.
Lá pôde ouvir o espírito Lucas de forma muito nítida.
— Se nos educarmos na receptividade do que é transmitido pelo plano espiritual, observaremos que os avisos têm significado.
Mas é nossa obrigação adquirir todo conhecimento sobre as impressões que nos chegam para não nos deixarmos enganar.
Já deitado em sua cama, mais relaxado, porém com certo receio, Rafael perguntou:
— Qual o seu nome, se é que espírito tem nome?
— Lucas. Pode me chamar de Lucas.
Ouvindo nitidamente, Rafael repetiu:
— Lucas...
— Depois de pequena pausa:
— Sabe, Lucas, se você não for fruto da minha imaginação, bem-vindo!
Apesar de certo medo, estou gostando da ideia de conversar com os mortos.
Lucas sorriu e observou:
— A morte não existe para o espírito.
Se levarmos em consideração o processo pelo qual o corpo passa, depois que todos os seus órgãos deixam de funcionar, aprenderemos que nem a matéria corpórea morre, ela se transforma, dando oportunidade até para outras vidas.
— O que é estar vivo? -— perguntou Rafael.
—É viver o hoje com a responsabilidade do amor fraterno e da caridade desinteressada.
Viver é acreditar no Pai Celeste e na Sua Omnipotência em todos os sentidos, seguindo os ensinamentos do Mestre Jesus, procurando sempre amá-lo com verdadeira dedicação e respeito.
—Puxa, Lucas, você sabe falar bonito - ironizou Rafael, tentando brincar.
—Você já ouviu dizer que "a boca sempre está cheia do que temos no coração"?
Rafael sorriu achando graça na explicação e comentou:
— Baseado no que você falou, fiquei imaginando como está o coração daquele que fala palavrões.
Lucas sorriu, verificando que Rafael entendera a moral da frase.
Nesse instante, Caio bateu à porta e foi entrando.
Apreensivo e inquieto perguntou:
— O que aconteceu com seu carro?!
Rafael contou-lhe todo o ocorrido e, com preocupação, pediu a sugestão de seu irmão:
— O que vou falar para o pai?
— Diga que foi numa briga de trânsito.
Isso é comum. Depois accione o seguro.
— Não fiz ocorrência.
— Isso é o que menos importa.
Fique calmo. Amanhã eu o ajudo.
Rafael calou-se e Caio percebeu-o intranquilo.
—O que foi, Rafa?
—Estou preocupado em arrumar um emprego para a Daniela na construtora.
Você acha que o pai concordará?
—Se a mãe não souber, creio que não haverá problemas, você sabe...
Mas quem pode ajudá-lo é a Sueli!
—Sueli?!
—É. A secretária da directoria.
—É mesmo! Como não pensei nisso?!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:43 am

A propósito, Caio, como estão os negócios lá na construtora?
Dificuldades financeiras ou coisa assim?
—Tá brincando!
O pai faz cada meganegócio, que até Deus duvida!
Ele dá nó até em pingo d'água!
Às vezes eu acho que estamos no limite e que não vai dar certo, é aí que me engano.
—Acho que está na hora de eu me infiltrar nos negócios da família.
Termino minha faculdade este ano...
O que você acha?
—Seja bem-vindo!
Mas não se anime em assumir poderes.
O pai monopoliza tudo.
A direcção total, bem como a presidência é dele.
—Não quero dirigir ou presidir nada, Caio.
Eu não saberia. Quero trabalhar.
Sentir o dinheiro do meu trabalho. Ser mais livre...
—Veja bem, Rafael.
Eu trabalho, recebo meu salário e vivo custeado pelo pai ainda.
Se quisermos liberdade, teremos que sair desta casa e até da empresa, o que, sinceramente, ainda não tive coragem de fazer.
—Se o pai o custeia, como você mesmo diz, o que você faz com seu dinheiro?
O semblante de Caio mudou.
Ele pareceu desfigurar-se.
Rafael observou claramente a mudança.
— Eu... bem... guardo um pouco e o resto torro... — gaguejou.
Para disfarçar, ele levantou-se e ironizou:
—Ei, Rafa! Você está ficando muito indiscreto!
—Temos tudo o que queremos nesta casa.
Fico imaginando o que você faz com o que ganha na construtora.
—Amanhã falarei com a Sueli a respeito da Daniela. Interessa? —
interrompeu Caio, dando outro rumo à conversa.
—Claro! -— animou-se Rafael, esquecendo-se do assunto anterior.
— Vou pagar um curso de informática para a Daniela, mas só você está sabendo, tá?
—Fica frio.
Dizendo isso, Caio saiu.
Rafael ficou reflectindo como poderia dizer a seu pai sobre Daniela.
Dias depois Rafael, bem-disposto, procurou por seu irmão em seu quarto.
—Como é, Caio, falou com a Sueli?
—Ah! Já ia me esquecendo.
A própria Sueli me disse que precisa de uma secretária.
—Que folga! Uma secretária precisando de uma secretária! -— admirou-se Rafael..
—Não julgue. O trabalho da Sueli é excessivo.
Ela cuida de tudo ali.
Sabe informar, a qualquer momento, como estão todos os negócios, acompanha as reuniões e muito mais.
Ela precisa de alguém para os trabalhos de secretariado mais simples como agendar compromissos, atender telefones, serviços assim.
Qual é a experiência que a Daniela tem nessa área?
—Nessa área, acredito que nenhuma.
Mas, cá pra nós, para atender telefone não precisa de experiência.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:43 am

—Rafael, para uma pessoa atender um telefonema, trabalhando bem, ela precisa de educação, tacto, bom-senso, agilidade de pensamento e palavras corretas.
Não é tão simples como você está pensando.
Precisamos também ver a aparência da Daniela.
—Ah! Ela é muito bonita.
Eu já falei.
—Não me refiro ao facto de ser feia ou bonita.
Precisamos ver com que tipo de roupa ela se apresenta.
É incompatível ela ir trabalhar de min blusa, cabelo molhado ou saia curta, mascando chiclete.
Sabe, quando contratamos alguém, a primeira coisa a ser observada é a aparência pessoal, o asseio.
Queremos saber se o candidato fuma ou não, se ao sorrir, ele vai apresentar dentes bonitos.
Notamos a educação, se fala gíria, se fica muito à vontade quando se apresenta, demonstrando excesso de confiança no sentido mais vulgar.
Tudo isso não é dito, mas o entrevistador observa e vai eliminando o candidato através de pontos negativos que este vai apresentando sem perceber.
—A Daniela tem dentes perfeitos e não fuma.
Seu linguarar não é rebuscado.
Não usa gíria e é muito educada, recatada até demais, eu diria.
Somente me preocupo com suas roupas.
Ela não se veste escandalosamente, mostrando os seios, as coxas ou a barriga, mas não a vejo com roupas novas ou de qualidade -— descreveu Rafael em detalhes.
—Se for somente isso, não haverá problema.
Pegaremos a Sueli, num sábado qualquer, pois ela é muito prestativa, e levaremos a Daniela para um banho de loja, isto é, se ela preencher os requisitos e as exigências da Sueli.
No que diz respeito ao trabalho, a Sueli é chata.
— Maravilha! -— empolgou-se Rafael.
— Fico lhe de vendo essa.
— Se eu for contar tudo o que você me deve...
Vendo Caio se arrumar, Rafael, curioso, indagou:
— Vai sair?
— Vou.
— Aonde você vai?
— Por quê? -— perguntou Caio, sem demonstrar sentimentos.
— Perguntei por perguntar.
Caio ficou em silêncio.
— Caio —- reflectiu Rafael, puxando algum assunto - sinto você diferente nos últimos tempos.
Ele continuou calado e Rafael prosseguiu:
— Desde quando terminou seu noivado com a Bruna, você ficou estranho, e isso já faz tempo.
Nunca mais namorou ninguém, pelo menos que nós saibamos, não.
Você era diferente.
O que é que está rolando?
—Nada.
—Qual é, Caio!
Você sempre se abriu comigo.
—Só não sinto vontade de falar, Rafael.
Não tenho nada para dizer.
—Sabe, desde quando começou a trabalhar na construtora, você mudou muito.
Isso é estranho. Nós sempre nos abrimos um com o outro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:44 am

Actualmente, só eu falo, e você só escuta.
Caio respirou fundo.
Seus olhos embaçaram.
Seu semblante mudou, mostrando clara inquietação e desejo de desabafo.
Ele fitou o irmão de modo indefinido.
Rafael o olhou mais seriamente.
Não conseguiu entender, mas captou um grito de socorro vindo do olhar de seu irmão.
Eram muito unidos desde pequenos, principalmente pela pouca diferença de idade entre eles, pela personalidade calma que ambos demonstravam e pelos pais deixarem todos os cuidados que se devem dispensar a um filho por conta dos empregados.
Isso os fazia sentir imensa falta de companhia familiar.
Pensavam ter somente um ao outro.
— O que foi, Caio?
Ele engoliu seco.
Um soluço quase o fez chorar.
Virando o rosto rapidamente para que seu irmão não percebesse, saiu em busca de uma camisa.
Rafael sentindo um aperto em seu peito, levantou-se da cama, onde se sentara, chegou perto de seu irmão e com a mão em seu ombro, puxou-o para encará-lo.
Caio ofegava quase descontrolado.
Suspirando fundo, abraçou Rafael buscando a coragem que lhe faltara para confessar seu drama.
Afastou-se em seguida e, olhando para o irmão que aguardava seu relato, pediu:
— Eu preciso muito da sua ajuda.
Não me pressione... eu vou contar...
Jorge, irmão mais novo de ambos, interrompeu-os.
Abrindo a porta do quarto esbaforido, já entrou esbracejando:
— Vocês têm que dar um jeito no Jaime...
E depois de xingar, prosseguiu:
— Ele continua me desafiando só porque é grandão!
Eu falei para ele que tenho dois irmãos maiores que ele e que vão quebrar a cara dele...
Caio dissimulou enquanto Rafael, mesmo tenso, passou a ouvir as queixas de Jorge, desviando a atenção do garoto sobre o que estava acontecendo naquele momento.
Caio acabou de se arrumar rapidamente e saiu deixando seus irmãos em seu quarto.
Após acalmar Jorge, Rafael, ansioso, preparou-se para ir ver Daniela e contar-lhe as novidades sobre o possível emprego na construtora.
Ao descer as escadas, presenciou sua mãe recepcionando Cláudia junto com a mãe, dona Dolores.
— Ah, não! -— lamentou, sentindo-se incomodado com as visitas insistentes e inoportunas de Cláudia.
Olhando Rafael descer as escadas, sem ouvir sua queixa, dona Dolores reclamou:
— Que rapaz sumido esse seu filho, não é, Augusta?!
Desde que soubemos do romance, ele simplesmente desapareceu.
— O Rafael anda preocupado em trabalhar com o pai.
Está pensando no futuro da Cláudia, logicamente.
Por isso não tem tempo, não é? -— respondeu dona Augusta sorridente.
Nesse momento, o espírito Lucas aproximou-se de Rafael inspirando-o:
—A calma é importante em todos os momentos, principalmente, quando precisamos esclarecer a verdade.
—Boa-tarde!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:44 am

— Antes que alguém respondesse, ele explicou calma e educadamente:
— Gostaria de esclarecer que eu e a Cláudia não temos absolutamente nada.
Se saímos juntos, foi somente duas ou três vezes e por acaso.
Eu não gosto da Cláudia e não vejo como poderíamos nos dar bem.
Não estamos namorando e quero deixar tudo isso bem claro.
— Rafael! -— exclamou Cláudia indignada.
— É melhor você dizer a verdade - insistiu ele convicto.
— Nós nunca tivemos nenhum compromisso e nem teremos.
As mães, dona Augusta e dona Dolores, ficaram paralisadas e boquiabertas, enquanto Rafael dizia serenamente:
— Vou sair e não tenho hora para voltar.
—O que pensa fazer, Rafael?! -— inquiriu dona Augusta com veemência.
—Estou dizendo a verdade, mãe.
Nada mais -— defendeu-se ele tranquilo.
—Você me enganou! -— gritou Cláudia.
Usou-me o tempo todo!
—Você está maluca?! -— perguntou Rafael, sensato.
— Chega de hipocrisia. Histerismo não vai adiantar nada.
Sou vacinado contra isso.
— Você me paga! -— jurou Cláudia, vingativa.
— Não lhe devo nada.
A minha consciência está tranquila.
Dando de ombros, Rafael saiu sem preocupações.
Bem mais aliviado, por ter esclarecido a verdade, ele pegou o carro e foi para a casa de Daniela.
Recebido por dona Antónia, ele ficou um pouco sem jeito pela ausência da moça.
—Como vai, dona Antónia, tudo bem?
Entristecida, a mulher respondeu:
—Vou levando, filho.
Entra, a Dani já vem.
Depois de aceitar o convite, ele perguntou:
—Ela foi longe? Posso ir buscá-la.
—Não. Ela foi até a farmácia buscar um remédio pro Carlinhos.
É aqui pertinho. Ela volta já.
—O Carlinhos está doente?
Daniela chegou e pôde ouvir a pergunta de Rafael.
Alegre pela preocupação de seu amigo, ela completou docemente:
—Que bom ver alguém perguntando se "o Carlinhos está doente?!"
Geralmente as pessoas vêem o Carlinhos como alguém que sempre apresenta uma doença.
Chegam a dizer que "tenho um irmão doente" ou que minha mãe "tem um filho doente".
—Oi, Dani! -— cumprimentou Rafael, dando-lhe um beijo no rosto e feliz por vê-la ali.
—Oi, Rafael! -— retribuiu Daniela.
— Eu não vejo o Carlinhos como alguém doente —- ressaltou. —
Desculpe-me, não entendo nada sobre a síndrome de Down, mas sei que é um conjunto de características do retardamento mental, que ocorreu porque há um número de cromossomos a mais do que o normal. Eu acho.
— Exactamente —- respondeu Daniela gentil.
— As pessoas parecem ter medo de dizer que alguém é mongolóide ou foi afectado pela síndrome de Down.
Eu entendo totalmente, não estou recriminando -— tornou ela amável.
-Até porque o preconceito vem, muitas vezes, da própria família que parece não querer admitir ter um parente afectado pelo mongoloidismo e começa dizendo que tem um parente doente quando poderiam falar até:
"tenho um parente especial", o que não deixa de ser. Mas, doente!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:44 am

Pobrezinhos... não podemos tratá-los assim.
Sabe, Rafael, a pessoa afectada pela síndrome de Down, é um espírito munido de imensa coragem, pois se propôs a rever o que fez outro experimentar numa encarnação do passado por meio de alguma lesão.
Ou então pode até ser que, vivendo com privilégio de ter possuído uma mente sadia, muito inteligente e habilidosa, não respeitou a integridade alheia, aproveitando da pouca capacidade de intelecto e raciocínio de algum indivíduo provocando-lhe prejuízos ou até por coacção fazendo com que passasse por inibições, torturas e privacidades, direccionando-lhe a vida sem dar-lhe oportunidade de acção.
Por essa razão, agora vêm limitados e inibidos de farto raciocínio lógico e, acima de tudo, dependentes.
O mais importante disso somos nós que, providos de "razão" ou "inteligência", temos por obrigação prestar-lhes todo o auxílio de que dispomos ao alcance, porque se o temos entre nós significa, de alguma forma, haver uma ligação muito grande.
Pode ser que nós o auxiliamos ou incentivamos ao erro ou até, por nos ser uma criatura muito querida, prometemos amparo e amor.
— Dani -— interrompeu dona Antónia —- não diga isso para o moço.
Você nem sabe se ele acredita em reencarnação.
Daniela sorriu e falou:
—Desculpe-me, Rafael.
Só tentei explicar o que eu entendo, no que acredito.
Não deveria impor o que penso como se fosse absoluto.
Nem sei qual a sua crença.
—Por favor, não diga isso.
Sempre fiquei pensando por que uns nascem com deficiências e outros perfeitos, por que uns ricos outros pobres, e nunca consegui entender.
Essa foi a primeira vez que encontro uma resposta satisfatória às minhas perguntas mais secretas, sabia?
Gostaria de ter outras respostas para outros enigmas da vida.
—A vida não possui enigmas.
A compreensão das Leis Naturais e a fé raciocinada nos faz entender o objectivo da existência e a justiça de Deus.
O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo poderão ajudá-lo muito se você se propuser a estudá-los -— concluiu Daniela sabiamente.
—Por que você diz estudá-los?
Não basta lê-los?
—A leitura nos faz entender temporariamente.
Seria como uma simples aceitação.
A simples leitura não nos embute a verdade.
O estudo nos faz compreender a causa e o efeito de tudo.
Não é só aceitação ou fé cega, o estudo nos faz raciocinar.
—Aceita um café, Rafael? -— perguntou dona Antónia.
— Aceito sim, dona Antónia, se não for incómodo.
—Incómodo nenhum, filho -— respondeu a anfitriã amável, mesmo entristecida pelos últimos acontecimentos; saindo em seguida em direcção à cozinha.
—Sente-se aqui, Dani -— propôs Rafael.
— Tenho óptimas notícias.
Os olhos dela brilharam, caracterizando sentimentos de expectativas agradáveis.
—O que é? -— perguntou curiosa.
—A secretária da directoria quer vê-la e entrevistá-la para um possível contrato.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Fev 24, 2017 10:44 am

—Para o cargo de?...
— Auxiliar de escritório.
Bem... seria como se você ocupasse a função de secretária dela.
Você atenderia os telefonemas, agendaria alguns compromissos, tarefas desse tipo.
Foi assim: eu falei para o Caio sobre arrumar-lhe um trabalho.
Ele pediu para a Sueli, a secretária, para verificar a possibilidade, e ela informou que há duas outras vagas para auxiliares de escritório em outro departamento, mas que ela própria estava precisando de uma ajudante.
Estabeleceu algumas exigências, como discrição, educação, calma, etc.
Você se encaixa perfeitamente.
— Isso é você quem está afirmando.
Inclinando meigamente sua afeição, Rafael confessou:
— Admito que estou encantado com você, mas tenho certeza do meu bom gosto.
Daniela, enrubescida, não sabia o que dizer e ele continuou:
— Posso marcar a entrevista?
A moça suspirou, incrédula, e respondeu:
— Pode. Seja o que Deus quiser.
— Dani, gostaria que você não me levasse a mal.
Posso fazer um comentário, ou melhor, uma sugestão?
— Claro, pode falar — pediu ela, atenciosa.
— Sabe... você deverá trabalhar junto com a Sueli e... bem... ela trabalha com a presidência, com a directoria da empresa, recepciona vários empresários para reuniões e...
— Pare com rodeios, Rafael. Diga logo.
—As roupas dos funcionários que trabalham na recepção costumam ser executivas, entende?
—Entendo sim -— respondeu Daniela pensativa, pois, momentos antes da chegada de Rafael, ela e sua mãe tiveram que juntar as últimas moedas que havia na casa para comprar o remédio de seu irmão.
Agora teria de investir em roupas, se quisesse um emprego melhor.
Delicado e carinhoso, Rafael propôs:
—Eu não entendo muito de moda feminina, mas a Sueli entende e, é claro, se você preencher os requisitos para o cargo, ela se propõe a ajudá-la, num sábado qualquer, a escolher algumas roupas, sapatos, bolsa e... sei lá mais o quê.
—É que... -— tentou argumentar Daniela, que foi interrompida imediatamente por Rafael.
— Eu quero presentear-lhe com isso...
— Não. Já devemos muito a você.
Não posso aceitar mais nada.
Por outro lado, não tenho dinheiro para comprar nada e...
—Você tem de aceitar, Dani.
—Não posso. Por que deveria?
— É falta de educação recusar um presente do Dia dos Namorados.
Semana que vem é Dia dos Namorados.
Quer namorar comigo?
Daniela, incrédula, paralisou.
Desfazendo em seguida o semblante sério, abriu um largo sorriso.
Eles se abraçaram com carinho e ela escondeu o rosto para que Rafael não visse seus olhos chorosos.
No plano espiritual, Fabiana e Lucas sorriam satisfeitos.
— O amor é lindo! -— comentou Lucas.
—Eu diria que o reencontro é maravilhoso -— completou Fabiana com nítida satisfação.
—É muito emocionante o reencontro daqueles que se amam.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 25, 2017 10:14 am

É divino assistir a isso acontecer.
Depois da entrevista e dos testes, Daniela conseguiu o emprego.
Combinaram então que Sueli, Caio, Daniela e Rafael guardariam sigilo quanto àquele namoro e que, logicamente, eles manteriam, dentro da empresa, total discrição.
Rafael a cada dia descobria mais virtudes em Daniela, encantando-se com isso.
Ele passou a ler livros espíritas.
Procurou conhecer e instruir-se na doutrina para, principalmente, educar e harmonizar sua mediunidade.
Tudo isso com o apoio e a orientação de Daniela.
Ela, por sua vez, sentia-se cada dia mais apaixonada pelo rapaz, mas mantinha sempre uma postura recatada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 25, 2017 10:14 am

6 - CONFIDÊNCIAS AFLITIVAS

Trabalhando junto à secretária da directoria, Daniela passou a ver Rafael com frequência.
Ele agora não deixava a empresa, procurando inteirar-se de tudo o que ocorria.
Actuava junto ao seu pai, aos engenheiros e arquitectos acompanhando os mínimos detalhes de cada projecto.
O senhor Paulo, pai de Rafael e sócio majoritário da empresa por reter a maior parte das acções, era soberano e exigente.
Mal aceitava a opinião de Caio, seu outro filho, que trabalhava junto a ele já há algum tempo.
O senhor Paulo ficou silenciosamente feliz e satisfeito ao ver o interesse do filho pelos negócios da empresa.
Conversando com seu pai, Rafael opinava sobre alguns projectos:
—Pai, por que não compra as acções do Rodolfo e fica de uma vez com a construtora?
—O Rodolfo é uma pedra em meu sapato.
Foi o único que não consegui tirar do caminho.
—Sabe, pai, não gosto da hipócrita amizade que cultivamos junto a ele, à dona Dolores e à Cláudia.
— Negócios, filho! Negócios!
Você aprenderá que necessitamos de todos, até dos inimigos para subirmos na vida.
Nesse instante, o senhor Paulo reclinou a confortável cadeira para trás e caiu em delirante gargalhada.
Voltando novamente aos assuntos sobre seus negócios, observou a falta de uma pasta contendo documentação e solicitou, por interfone, à secretária que a trouxesse.
Depois de bater à porta suavemente, Daniela entrou solícita e educada.
—Com licença? - disse ela.
Doutor Paulo, é esta a pasta que o senhor pediu?
—Olhando rapidamente o conteúdo que a pasta continha, o director seriamente perguntou:
—Onde está a dona Sueli?
—Ela necessitou retirar-se um pouco, voltará logo.
—Como ela resolve sair sem me avisar? Onde ela foi?
—À toalete, senhor.
Desculpe por eu mesma vir trazer a pasta.
É que o senhor disse ter urgência, por isso acreditei ser melhor não esperar o retorno da dona Sueli.
—Sim, é esta a documentação.
E só isso.
Obrigado e... como é seu nome mesmo?
—Daniela.
—Daniela?!
—Sim senhor.
—Um nome bonito.
Obrigado, Daniela. É só.
Daniela ia saindo, quando o senhor Paulo voltou-se para Rafael e percebeu que ele se encontrava com os olhos brilhantes e perdidos, observando a bela moça.
—Educada essa moça, não acha? -— perguntou o pai, ironicamente, ao notar a expressão fisionómica do rapaz.
— Encantadora... -— respondeu, impensadamente, por tomar-se de satisfação e prazer de ter Daniela próxima.
O pai de Rafael reparou o interesse do filho.
Achou graça, mas não entrou em detalhes, chamando a atenção dele ao trabalho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 25, 2017 10:15 am

— São esses os projectos da construção do novo shopping.
O que você achou? Não podemos decepcionar os clientes.
Valerá milhões!...
Enquanto isso, na sala em frente, onde estava Daniela, chega Caio muito nervoso.
—Dani, onde está o Rafael?!
—Lá dentro... -— respondeu, indicando a sala da directoria.
Quando Caio ia em direcção à porta, ela alertou-o rapidamente:
— ...com seu pai.
Caio se deteve.
Retornou e andou em círculo pela sala.
Depois de sentar-se no confortável sofá, abaixou a cabeça preocupado, passando as mãos pelos cabelos demonstrando nervosismo.
Daniela, percebendo-o agitado, levantou-se, pegou um copo com água e foi a sua direcção, oferecendo-o a Caio.
—Obrigado, Dani -— agradeceu ele, aceitando.
—Posso ajudá-lo, Caio? -— perguntou ela, solícita.
—Acho que ninguém pode ajudar-me, Daniela.
A moça voltou para sua mesa e, após sentar-se, fez uma prece.
Benfeitores espirituais, nesse momento, aproximaram-se de Caio e aplicaram-lhe fluidos salutares que o acalmaram sensivelmente.
Depois de alguns minutos, Caio ergueu a cabeça, olhou para Daniela e agradeceu:
— Muito obrigado pela água.
Foi nesse instante que Sueli, a secretária, chegou.
—Olá, Caio, tudo bem?
—Tudo.
— Depois de breve pausa, tornou:
— Sueli, o Rodolfo está na sala dele?
—Não. Hoje ele precisou ir embora mais cedo.
—A sala está vazia? -— insistiu.
—Sim, está. Por quê?
Sem responder à pergunta da secretária, Caio intimou:
— Empreste-me a Daniela por alguns minutos.
Não aguardando um parecer, ele pegou-a pelo pulso e a puxou, conduzindo-a até a sala do senhor Rodolfo.
Daniela surpreendeu-se sem entender o que estava acontecendo, mas o acompanhou.
Caio fechou a porta.
Fez com que ela se sentasse em uma cadeira em frente à mesa, sentando-se, em seguida, sobre a beirada, ficando de frente para a moça.
Olhando fixo para ela, afirmou nitidamente apreensivo:
—Estou em uma tremenda enrascada.
Estou sendo extorquido e não vejo saída.
Ninguém pode me ajudar.
Nem você, mas preciso de alguém que me ouça.
Pelo amor de Deus!
—Calma, Caio.
Fale o que quiser, eu posso ouvi-lo, fique tranquilo.
—O Rafael sempre diz se acalmar e se confortar a seu lado.
Conta que sempre ouve coisas boas, bonitas e até diz que você compreende e o orienta sobre as vozes dos espíritos que ele vem ouvindo.
—Ele é médium, o que ouve é normal dentro de seu grau de sensibilidade mediúnica, mas precisa educar-se e adquirir muito conhecimento sobre a Doutrina Espírita, ou poderá ter sérios problemas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 25, 2017 10:15 am

—Perdoe-me, Dani.
Eu não entendo nada sobre isso, mas penso que se o Rafael está se sentindo feliz a seu lado, se isso lhe compraz, ele é que procure aproveitar o máximo desse bem-estar que é muito raro hoje em dia.
O meu problema é outro -— ofegante, Caio hesitava em continuar.
—O que está acontecendo?
Se eu puder ajudá-lo... — propôs, amável.
Caio sentou-se em uma cadeira em frente à Daniela.
Pegou suas mãos, olhou em seus olhos e procurou coragem, que lhe faltou.
Por esse motivo, abaixou a cabeça envergonhado, pois as lágrimas passaram-lhe a correr copiosamente pela face.
— O que foi? -— indagou ela, afável, passando-lhe a mão pelos cabelos, tentando confortá-lo.
Caio parecia estar em pânico.
Enxugando as lágrimas com as mãos, começou a falar desenfreadamente:
— Eu sou viciado.
Droguei-me pela primeira vez quando tinha quase treze anos.
Sabe, foi em uma festinha onde vários amigos incentivaram-me a fazer uma iniciação nas drogas para eu provar que era homem.
Eles diziam que o doping não nos deixaria "falhar" com as garotas.
Eles falavam que o efeito do entorpecente nos estimularia de uma forma maravilhosa, que nos sentiríamos nas nuvens.
Todos afirmavam, categóricos, que jamais iríamos nos viciar, pois poderíamos deixar de usar drogas quando quiséssemos.
Foi então, Dani, que, por não ter opinião própria e deixar-me incentivar por tudo o que os meus colegas diziam, cheirei pó de cocaína pela primeira vez.
Passado o mal-estar de principiante, em poucos segundos, tudo ficou diferente.
Eu ria sem motivo, ficava alegre e até dançava ao som barulhento das músicas.
Pulei e brinquei feito um louco.
Tudo o que meus colegas faziam era engraçado, tudo o que eu resolvia exibir, era o máximo para meus amigos.
Eu nunca havia sido o máximo da turma, entende?
Mais tarde, com aquela euforia um pouco abafada, porque o efeito da droga já estava passando, comecei a me sentir muito mal.
Não parecia ser somente um desequilíbrio orgânico, apesar de o meu estômago embrulhar.
Uma tristeza, sem origem ou razão, começou a me incomodar.
Prometi a mim mesmo que nunca mais faria uso daquilo.
Algum tempo depois, em outras festas ou encontros com minha turma, não cumpri minha promessa, drogando-me novamente.
Sabe, Dani, dinheiro para conseguir as drogas nunca foi muito problema.
Quando a mesada não dava, era muito fácil subtrair alguma jóia da minha mãe para pagar o fornecedor.
Minha mãe nunca desconfiava e, quando o fazia, logicamente a culpa ficava sobre alguma empregada que tínhamos.
Comecei a usar tudo o que aparecia como entorpecente.
Muitas vezes, por falta de condições quaisquer para comprar cocaína, fumei maconha.
Dizem que não, mas essa droga também provoca euforia e sintomas semelhantes às outras, além de viciar.
Eu necessitava de qualquer coisa para me acalmar.
Você não imagina como é difícil, Dani.
Somente quando eu estava no colégio, admiti que era um dependente de drogas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Fev 25, 2017 10:15 am

Quando eu, por qualquer motivo, tinha que ficar sem elas, sentia-me um louco.
Desesperado mesmo.
Como você já observou, minha personalidade sempre foi pacífica, bem como meu comportamento.
Mas o desespero interior é algo que não dá para descrever e as pessoas não podem notar.
Eu sempre tinha que me drogar para ser normal ou parecer normal.
Nessa época, a muito custo, comecei a fraccionar as drogas que usava e procurei manter, de certa forma, a mesma dosagem, o que não é nada fácil.
Tinha que tomar o maior cuidado para não aumentar muito a quantidade de consumo.
Parecia impossível, meu corpo exigia mais e mais.
Nesse instante, Caio chorou novamente.
Daniela procurando confortá-lo, acariciou-lhe os cabelos e o rosto, perguntando:
—Por que você usava drogas?
Sempre há um motivo que nos leva a fazer alguma coisa!
Você sabe dizer o que o impulsionou a isso?
Ou, talvez, pudesse pensar em uma saída, como contar para o seu pai.
Ele poderia pagar uma clínica que o ajudasse.
—Não se iluda, Daniela, meu pai nunca nos deu tanta atenção quanto aparenta.
Fomos criados com pajens, governantas e mordomos.
Nem amamentar minha mãe quis, sabe por quê?
Para não deformar os seios.
Eu me lembro muito bem que, quando ela estava grávida do Jorge, meu irmão caçula, ela não quis que a gestação chegasse até o final para não engordar tanto e chegar ao ponto de estragar o seu corpo.
Por essa razão, pagou para que fosse feita uma cesariana aos sete meses de gestação.
Pode ser um crime, mas há profissionais, que se dizem médicos, propondo-se a fazer isso diante do dinheiro.
Meu irmão teve muitas complicações e teve de ficar numa incubadora por mais de quarenta e cinco dias.
Ah! Daniela -— relatava Caio com ironia - foi montada uma UTI na minha casa para manter meu irmão bem confortado e enfermeiras diuturnamente para cuidar dele.
Dinheiro, realmente, nunca foi problema, foi a solução para tudo.
É exactamente assim que meus pais pensam, Dani.
Eles acreditam que podem comprar tudo e todos para nos satisfazerem.
Até o amor e o carinho eram pagos para as pajens nos tratarem melhor.
Talvez por falta desse amor paterno e materno, eu e o Rafael nos apegamos muito um ao outro.
Mas nem a ele eu tive coragem de dizer que uso drogas.
Quando eu estava na faculdade, a situação começou a ficar difícil.
Fiz enorme dívida com um fornecedor e não havia meio de pagá-lo e...
Nesse instante Caio silenciou.
Passou as mãos pelos cabelos, respirou fundo e largou-se para trás, reclinando a cadeira.
—E?... -— perguntou Daniela, querendo o prosseguimento do relato, sem ressaltar ansiedade.
—Não tenho coragem de lhe contar as encrencas em que me envolvi por causa das drogas.
Não consigo, desculpe-me.
—Já está tudo resolvido, Caio?
—Sim. Quer dizer... a dívida, sim.
Na metade do meu curso superior, decidi trabalhar para sustentar meu vício.
Morando com meus pais, sem ter grandes gastos, o que eu ganhava gastaria onde quisesse sem dar satisfação a ninguém.
Com os olhos perdidos na direcção da janela, Caio parecia estar mais calmo.
—Hoje você quer se livrar das drogas e se desespera por acreditar que não vai conseguir, é isso?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70079
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 2 de 11 Anterior  1, 2, 3, ... 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum