LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:22 am

Morávamos em um bairro pobre, mas nossa casa era própria.
Só o facto de não pagarmos aluguel nos tranquilizava muito, porque o maior gasto que tínhamos era com o Carlinhos, portador da síndrome de Down.
Mas a síndrome não era problema, tudo complicava porque ele sofria de bronquite e, de tempos em tempos, surgiam crises terríveis.
Gastávamos com remédios, inalações, médicos e até internações.
Eu nunca mencionei ou manifestei meu desagrado, porem, na realidade, não suportava ter um irmão naquelas condições mentais de idiotia.
Eu tinha vergonha.
O quanto podia, o escondia de minhas conhecidas ou colegas de escola.
Quando Carlinhos exigia cuidados médicos, eu já ficava preocupada:
"o que deixaremos de comprar para cuidar d saúde dele?"
Sendo que sabíamos que não ia adiantar.
Logo em seguida eu me censurava e buscava corrigir o pensamento degenerativo que me corroía.
Preocupava-me em arranjar um namorado que não tivesse preconceito ou medo de que se mais tarde viéssemos nos casar, temeria ter filhos portadores da mesma síndrome.
Todos os favores que minha mãe me pedia, eu os fazia mas com o coração contrariado.
Percebia que minha irmã, Daniela, realizava tudo de forma muito natural.
Eu observava, inúmeras vezes, que, quando ela brincava com nosso irmão Carlinhos, buscava ensiná-lo, trazê-lo o mais próximo possível de nós, da nossa educação, mostrando-lhe boas maneiras.
A senhora entende?
Gertrudes meneou a cabeça positivamente.
Denise não observou que conforme ela contava à confidente seus pesares ela recebia as imagens mentais da cena ocorrida.
Denise continuou:
— Foi Daniela quem ensinou Carlinhos a se alimentar com talheres, isto é, ele usava uma colher, porque antes queria comer directamente no prato.
Não é fácil ensinar uma criança assim.
Ela não aprende com a rapidez das outras, quando aprende.
Foi Daniela quem também ensinou, a muito custo, o Carlinhos a usar o banheiro.
Cada vez que ele realizava algo que ela ensinava, fazia um bolo, colocava uma velinha e cantávamos parabéns.
Quando os acertos de Carlinhos se repetiam com frequência, para não ter muito trabalho, Daniela inovava, comprava um simples pão-doce e, com a velinha acesa, cantávamos "parabéns" a qualquer hora do dia.
Às vezes eu achava aquilo ridículo, mas nunca comentei nada.
Calava-me sempre com um simples sorriso forçado.
Nunca maltratei meu irmão, mas também nunca o tolerei.
Não gostava quando ele mexia nas minhas coisas e as destruía.
Meu pai era um homem sábio e, às vezes, calado.
Desde que me conheci por gente, meu pai nos ensinou a orar.
Fazíamos o culto do Evangelho no Lar semanalmente e todas as noites, reuníamo-nos todos, por uns dez minutos, para uma prece de agradecimento a Deus por mais um dia na Terra e por tudo o que tivemos.
Em meus pensamentos eu perguntava:
"O que temos para agradecer?
Somos pobres, temos um parente doente e não há nada para nos orgulharmos".
Mas, aos poucos, frequentando assiduamente a Casa Espírita, comecei a ganhar entendimento e passei a compreender nossa situação.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:22 am

Contudo, cara Gertrudes, confesso que compreendi, mas não aceitei.
Sempre quis saber o que eu teria provocado para sofrer daquela forma com minha revolta interior.
Minha mãe me compreendia.
Ela sempre foi calma.
Às vezes, quando sentia que eu não estava satisfeita, ela conversava comigo e terminava por me acalmar sensivelmente.
Aprendi, no Espiritismo, que "não experimentamos aquilo que não precisamos sofrer".
Procurei mudar minha maneira de pensar e forcei-me a agir diferente, buscando gostar do que fazia de maneira correta.
Ao me deitar, observava o que havia feito naquele dia de correto, de cristão e de elevado.
Quando encontrava a mudança da minha atitude e percebia que havia melhorado, um sentimento de felicidade e paz nutria-me de certa forma.
Eu ficava contente.
Sentia algo como se fosse um abraço de alguém querido, como um prémio.
Depois de algum tempo, comparei-me ao Carlinhos.
Eu me forçava a fazer o que era correto para observar e sentir aquela paz, aquela felicidade que me abraçava.
Eu não era diferente do Carlinhos.
De certa forma, eu estava cantando parabéns para mim mesma, só que de outra maneira.
Mas isso me fez verificar que eu tinha capacidade de fazer. Eu era capaz.
Observando meu pai e minha irmã, verifiquei que essas atitudes nobres eram praticadas por eles natural e espontaneamente.
Eu era tão excepcional quanto o Carlinhos.
Eu estava lutando para acertar.
A Doutrina Espírita mostrou-me que esse é o objectivo da reencarnação:
o domínio de si mesmo, lutando contra os empecilhos criados por nós para podermos acertar, corrigir e depois praticar o bem de forma condicionalmente espontânea e animadora.
Verifiquei que tinha muito o que aprender com meu irmão que, antes, na minha opinião, jamais conseguiria ensinar ninguém.
Aproximei-me mais do Carlinhos.
Certa vez, flagrei-me sentada no chão da sala, ajudando-o a encontrar peças de seu brinquedo de montar.
Eu já era adolescente.
Carlinhos não acertava e começou a se irritar.
Treinando ser tolerante e paciente, não vigiei e deixei me envolver pela irritação.
Joguei com força uma das peças no chão e gritei:
"Bobo! Será que você não vai entender nunca?
Vai ser sempre bobo?"
Quando olhei, Daniela, que veio ver o que estava acontecendo, parou próxima à porta e ficou nos olhando.
Levantei-me irritada e quando fui passar por ela, segurou-me, abraçou-me e disse:
"Não, Denise, ele não será sempre bobo.
Acreditamos em um Deus justo.
E aquele que for justo, jamais condenará alguém a penas perpétuas.
Você sabe disso".
Comecei a chorar e quis empurrar minha irmã, que me segurou com carinho e ainda completou:
— "Esse choro é pela vontade de acertar.
É pela vontade de amar.
Vá para perto do Carlinhos e demonstre que você também erra, mesmo sem querer, mas que você também se arrepende e corrige".
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:23 am

Como podia?
Daniela era mais nova do que eu...
Ela me levou para perto do Carlinhos, que estava chorando e rolando no chão em cima das peças do seu brinquedo.
Ajoelhamos juntas.
Eu larguei a Dani e o abracei.
A princípio, ele se debateu rejeitando-me, mas logo se acalmou.
Quando restaram somente os soluços, Carlinhos olhou para mim, com o rosto todo melado e mostrou o que Daniela chamava de lindo sorriso.
Ele não falava muito bem, sempre usava frases prontas, mas disse-me fitando com carinho:
"A-mo-vo".
Que seria o mesmo que amo você.
Foi Daniela quem o ensinou a dizer isso.
Logo depois, limpou o rostinho melado na minha blusa nova.
Eu, pela primeira vez, não me importei e nunca mais perdi a paciência com ele.
Passei a verificar que, quando tinha oportunidade, Carlinhos parava e me observava.
Ele ficava sério, mas logo depois sorria se entretendo com alguma outra coisa.
Isso mexia comigo. Não sei explicar porquê.
Após dar um longo suspiro, Denise se calou.
Gertrudes, amável ouvinte, observou:
—Veja o quanto você aproveitou.
Pelo que me conta agora, você evoluiu muito.
—Não. Poderia ter aproveitado mais.
Quando meu pai desencarnou, um desespero tomou conta de mim.
Como chorei!
Ninguém esperava pela minha atitude.
Nem eu. Atirei-me até em cima do caixão..
Foi em uma manhã de outono.
Meu pai sempre era o primeiro a se levantar.
Naquele dia, ao chegar à cozinha, encontrei somente minha mãe preparando o leite do Carlinhos, que já estava em pé.
Perguntei onde estava meu pai, não o tinha visto.
Eu e a Daniela dormíamos na sala, o Carlinhos no quarto, numa cama ao lado da deles.
Nossa casa não era grande.
Minha mãe respondeu:
"E a primeira vez que levanto antes do seu pai.
Ele deve estar extremamente cansado, tem trabalhado muito.
Vamos deixá-lo dormir".
Um sentimento de perda me envolveu.
Tive medo. Não disse nada, mas fui até o quarto deles.
Meu pai estava deitado com as costas no colchão e uma das mãos sobre o estômago.
Cheguei perto e não o vi respirando.
Toquei em sua mão e estava gelada, daí gritei por ele e comecei a sacudi-lo.
Meu ai era bem mais velho do que minha mãe, cerca de uns vinte anos.
Embora minha mãe também não seja nova.
Os médicos disseram que houve uma embolia pulmonar.
Acharam curioso o facto dele não ter exibido nenhuma crise que minha mãe não observasse e o corpo estar em posição tranquila.
Compreendo agora que os médicos procuram uma causa física para a morte do corpo, pois sabemos que a verdadeira causa da partida já está escrita.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:23 am

Meu pai deve ter sido desligado da matéria corpórea antes de sofrer o ataque de embolia e foi recebido com honras na espiritualidade.
— Foi bem assim! -— manifestou-se Gertrudes, inesperadamente.
—A senhora o conhece? -— perguntou Denise surpresa.
—Sim. Durval é um nobre e abnegado servidor.
—Como está meu pai?
Por que não veio me ver?
Onde posso encontrá-lo? -— inquietou-se Denise.
—Calma. Seu pai está em missão na crosta, provavelmente próximo de seus amados, procurando auxiliá-los.
Ele a visitou sim.
Mas você se encontrava em profundo sono espiritual, no qual se encontra a maioria dos recém-chegados.
Por isso não registrou a sua presença.
— Ele está bem?
— Nem imagina o quanto! -— respondeu Gertrudes, animada. —
Durval é o benfeitor no anonimato.
Abraçou o último reencarne para socorrer e impulsionar os queridos e bem-amados de seu coração, amparando-os sempre.
Ele ergueu estruturados grupos de estudos doutrinários que norteiam criaturas já prontas para as verdadeiras elucidações que as exaltarão na escala evolutiva.
—É verdade. Meu pai sempre se dedicou a escolas doutrinárias na Casa Espírita, mas...
—Mas -— completou Gertrudes, diante da pausa -— você nunca observou ou valorizou o trabalho que ele realizou não foi?
—Acreditei que ele era um simples tarefeiro do Centro Espírita, como ele mesmo dizia.
—Não importa qual seja a tarefa, se é de dirigir algum trabalho, varrer o chão ou regar um simples vaso de flor.
Se o tarefeiro a realiza com amor abnegado e sem queixas, ele não é um simples tarefeiro.
Ele é um tarefeiro de Jesus.
É um missionário valoroso, no qual nossos irmãos maiores podem confiar.
É através desse simples tarefeiro que chegam ao círculo dos encarnados todos os exemplos e bênçãos cios espíritos superiores.
E por quem eles podem exibir o amor, a bondade e a justiça.
E o irmão que surge para iluminar o caminho.
—A senhora sabe muito a respeito dele.
— Denise sentiu algo muito familiar em Gertrudes, por isso perguntou:
—Foi sua parente quando encarnada?
De olhos marejados, Gertrudes respondeu com doce inflexão de voz:
— Fui mãe de Durval.
Denise ficou surpresa.
Ela não sabia o que dizer.
— Eu não a conheci -— comentou Denise emocionada.
—Soube, por meu pai, que a senhora desencarnou quando ele ainda era pequeno.
— Durval tinha dez anos.
Com a devida permissão, sempre me informei sobre ele.
Como estou feliz de vê-lo hoje num patamar ainda mais alto!
—Sempre acreditei que, quando se desencarna, toma-se conhecimento de tudo.
Achei que deveria reconhecê-la.
—Não, minha querida, cada espírito recorda aquilo que pode de acordo com seu grau de consciência.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:23 am

—Quando poderei ver meu pai?
—Assim que ele retornar.
—Demora?
—Não sei lhe dizer.
Contudo o imprescindível é que se harmonize em prece e tenha paciência.
—Uma tristeza me invade.
Escuto choro e sei que é da minha mãe.
Quando deito, pois ainda tenho necessidade de dormir, acordo com os ombros e o colo molhados, como se fossem lágrimas. O que pode ser isso?
—Sua mãe continua inconformada com a sua ausência.
Temos de compreender que a saudade de uma mãe não pode ser apagada, mas muito choro e lamentação trazem desespero e tristeza.
O que você está recebendo é o que ela lhe passa.
Se sua mãe chora copiosamente e se entristece, você receberá lágrimas e saudade.
—Fico abalada e quero chorar também.
—Procure não entrar na vibração de choro e dor.
—Eu escuto minha mãe chorando e não tenho como impedir isso.
—Faça uma prece rogando forças para sua progenitora, para que ela se recomponha e lembre-se de pedir também por você.
Inesperadamente, Denise sorriu e exclamou:
— A senhora é minha avó!
Gertrudes a abraçou com carinho, envolvendo-a em doce ternura.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:24 am

10 - ASSUMINDO O ROMANCE

_ Senhor Rafael -— chamou Daniela, um pouco sem jeito, por haver outras pessoas na recepção.
—Sim! -— respondeu Rafael, sorrindo cinicamente para Daniela, que corou de imediato.
—O senhor Paulo pediu que o avisasse para vê-lo logo que o senhor chegasse -— continuou Daniela, embaraçada, pois Rafael estava à sua frente, de modo que os demais não podiam vê-lo jogar beijos.
—Obrigado -— agradeceu ele, repetindo o gracejo.
Daniela sentiu-se perdida, mas disfarçou bem.
Já no escritório do senhor Paulo...
—O senhor queria me ver, pai?
—Não! -— respondeu ele, asperamente.
Não pedi para ver meu filho, pedi para ver o senhor Rafael, engenheiro que presta serviço a esta construtora.
Rafael, desmanchando o largo sorriso, não se sentiu bem com a rude recepção e nada comentou.
—Por que recebi esse relatório contrário aos projectos?
—Porque não concordo, senhor Paulo.
Se eu fosse o responsável por essa obra, jamais assinaria esse projecto.
—Não brinque! Tenho milhões de dólares nessa jogada!
—Não podemos considerar o risco de morte de centenas de pessoas como um jogo de sorte ou azar, levando em conta a responsabilidade que nos cabe.
Eu não estou brincando, muito menos jogando -— considerou o rapaz de modo firme, por não concordar com determinadas normas de economia.
O senhor Paulo respirou nitidamente nervoso.
—O que está faltando? -— perguntou o presidente, irritado.
—Já encaminhei meu parecer através de relatório formal à administração, que pela burocracia existente nesta empresa, está adiando o conhecimento da directoria -— respondeu Rafael um tanto irónico.
—Por que não me disse?! -— gritou o senhor Paulo, nervoso.
—Porque o engenheiro Rafael observou as falhas, informou ao responsável todas as irregularidades.
Este, por sua vez, não tomou conhecimento nem considerou o parecer.
Por essa razão, foi encaminhado por vias normais o apontamento de todas as irregularidades, a começar pela documentação.
O engenheiro Rafael usou o processo normal, porque não é aceite o parecer do seu filho.
—Não me desafie, Rafael.
Investi milhões! Não posso atrasar essa entrega por nada.
É um shopping center!- — observou o homem, gritando e quase alucinado.
—Não estamos atrasados! -— respondeu Rafael também aos gritos, surpreendendo-se em seguida pela atitude não comum. Abaixou o volume da voz e completou:
— Estamos dentro do cronograma.
Acalme-se, no mínimo sinal de risco, o senhor será avisado.
—Onde está seu relatório sobre as irregularidades do projecto?
—Creio que está empacado na mesa do Rodolfo.
Não imagina o custo que é para tirarmos uma única assinatura dele.
Segundo as secretárias, a maioria dos atrasos é pela falta de tempo do Rodolfo em assinar documentos e até entender o que lhe é solicitado.
—Como sabe disso?
—Eu as ouvi comentando.
— Rafael sentiu-se gelar e nem acreditou haver encontrado uma resposta tão rápida que seu pai não desconfiasse.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:24 am

—O Rodolfo está fazendo alguma coisa errada.
Ele quer me passar a perna.
Eu sinto. -— desabafou o senhor Paulo.
—Será que não é falta de interesse dele?
—Não. Eu sei que não é.
O Rodolfo tem outros projectos.
O senhor Paulo inclinou-se rapidamente, apertou o interfone e chamou pela secretária Sueli.
Duas fracas pancadas na porta anunciaram a entrada de Daniela, que justificou:
—Com licença?
—Entre.
—A dona Sueli estava com febre e subiu até a enfermaria para ser medicada.
Posso ajudá-lo?
—Eu quero que todos os projectos e relatórios, ou tudo o que necessitar da aprovação do Rodolfo, passe antes por mim de hoje em diante e lembre-se de anotar o tempo que essa documentação fica com ele para qualquer despacho.
Quero retorno desse controle.
— Sim senhor -— respondeu a moça, timidamente.
— Vou controlar essa raposa.
Não se esqueça de avisar a dona Sueli.
— Sim senhor. Mais alguma coisa?
Nesse instante, o senhor Paulo flagrou Rafael deslumbrado com a presença de Daniela.
Voltando-se para ele, perguntou inquieto:
—Mais alguma coisa, Rafael?!
—Ah?!... -— respondeu perdido no diálogo.
—Está dormindo?!
—Não! Não estou dormindo -— respondeu ele, convicto.
— Só não estou entendendo o porquê de tamanha agressividade.
—Parece que estou falando com as paredes! -— gritou o senhor Paulo, espalmando a mão sobre a mesa com força.
E, voltando-se para Daniela, perguntou:
— E você? Você me ouviu?!
Calmamente a moça respondeu:
— Sim senhor, eu ouvi.
Mais alguma coisa?
—Espere aí, senhor Paulo -— interrompeu Rafael, sutilmente.
— O que está havendo para tratar as pessoas dessa forma?
Nunca o vi com tão pouca educação para com qualquer funcionário.
Posso ajudar?
—Por que percebeu minha pouca educação e importou-se somente agora com o tratamento que dispenso aos funcionários?
Por que me chama a atenção na frente dessa funcionária, Rafael?
Por que se incomoda com o tratamento pessoal somente desta funcionária? —
perguntou o senhor Paulo, sorrindo ironicamente.
— Nunca o vi gritando ou interrogando asperamente qualquer outra funcionária desta empresa.
Mas aonde o senhor quer chegar?
Daniela começou a ficar nitidamente nervosa e perguntou:
—Senhor Paulo, é só isso? Posso ir?
—Não, filha. Sente-se -— intimidou o presidente com ironia.
—Como?! -— indagou ela ainda confusa.
—Sente-se, por favor -— insistiu ele, indicando a cadeira posta à frente da sua mesa.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:24 am

Rafael percebeu que seu pai havia descoberto tudo e por essa razão estava furioso.
Ele não gostava de tomar conhecimento dos factos por outros intermédios.
Daniela sentou-se.
Ela empalideceu e apresentava nítido tremor nas mãos.
Até seu queixo tremia.
— Acalme-se, Daniela -— pediu Rafael, levantando-se de onde estava e ficando em pé atrás da cadeira em que ela se sentou.
Colocando suavemente ambas as mãos nos ombros da moça, com carinho, ele procurava lhe passar segurança.
Olhando firme para seu pai, completou:
— Não fique me testando, pai.
Se tem algo para dizer ou perguntar, diga.
Eu não temo e não tenho nada para esconder.
O senhor Paulo ficou estático. Incrédulo.
—Que petulância! -— exclamou ele, ainda irritado.
—Não é petulância, pai -— respondeu Rafael, buscando ternura na voz para envolver seu pai e fazê-lo compreender.
Não lhe disse nada antes por não vê-lo preparado para entender.
—Não me disse nada porque teve vergonha -— acrescentou o pai, procurando ofender Daniela.
—Não, pai. Jamais teria vergonha da Daniela.
Ela é educada, bem comportada, até demais, eu diria.
E inteligente, esforçada.
Tem uma aparência excelente e... por que não dizer, bonita!
Sim, ela é muito bonita!
Daniela colocou sua mão sobre a mão de Rafael, que repousava em seu ombro, e ameaçou se levantar, quando Rafael pediu:
— Por favor, fique.
O senhor Paulo estava perplexo.
Nunca pensou ver Rafael enfrentá-lo.
Seu filho sempre fora pacífico.
Nunca quis que sua opinião prevalecesse, contentando-se com tudo.
Sentado em sua cadeira confortável, ele a girou dando as costas para Rafael e Daniela e pediu com um tom de voz mais baixo, porém sem demonstrar compreensão.
—Saiam, por favor.
Preciso ficar só.
—Pai -— ponderou Rafael, comovido —- sempre desejei que conversássemos de forma natural, sem medo, espontânea...
Sentindo-se ofendido, ele atalhou Rafael antes que terminasse:
—Acredita que falhei nas minhas obrigações como pai?
—Não sei. Isso é o senhor quem terá de concluir.
Mas se acredita que tudo o que o senhor realizou, como pai, foi ou é uma obrigação, como o senhor mesmo acabou de dizer, creio que não deve ter dispensado, para mim e para meus irmãos, o seu amor e o seu afecto verdadeiro, porque esses sentimentos nunca acompanham a obrigação.
Esses sentimentos são naturais, espontâneos.
O senhor Paulo, embora permanecesse sentado, ergueu o corpo como se fosse investir sobre Rafael.
Ele ostentava expressões agressivas, mas logo ao deparar com o semblante suave e tranquilo de seu filho, que também demonstrava firmeza em seu desabafo, ele se desarmou.
Desviando o olhar contrariado, tomou a relaxar sem mencionar uma única palavra.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:24 am

Daniela, mesmo nervosa, colocou-se em prece, o que auxiliou imensamente o envolvimento que o senhor Paulo estava recebendo.
Os fluidos vertidos por Daniela, através da prece, eram aproveitados pelos espíritos amigos ali presentes para aliviar a irritação, produzir harmonia e compreensão naquele senhor contrariado.
Rafael prosseguiu ainda mais generoso.
O envolvimento pelo espírito Lucas o fez agir brandamente para se fazer entender.
— Pai, eu só queria poder conversar com o senhor.
Gostaria que me conhecesse, soubesse o que penso, soubesse minha opinião.
Sabe, seria importante, hoje, eu poder comentar que joguei bola com o senhor.
Isso seria melhor do que dizer que aprendi futebol na escola de um técnico de selecção.
Eu queria que o senhor tivesse feito um... simples curativo no meu joelho, mesmo que errado, e não que uma enfermeira ou pajem fosse acudir-me com todos os cuidados profissionais.
Sabe, pai, seria bom se tivéssemos ido pescar, um dia.
Mesmo não gostando muito de ficar parado, eu ficaria, só para tê-lo ao lado.
—Chega! -— interrompeu o pai alterado.
— Não é hora nem lugar para esse tipo de comentário.
—Então me diga:
quando será a hora ou o local, pai? -— objectou Rafael, ainda tranquilo.
— O senhor quis me questionar pela minha protecção a uma funcionária desta empresa, acusando-nos indirectamente de um romance.
O senhor reparou que, até agora, não teve coragem de perguntar directamente se estamos envolvidos?
Se estamos namorando?
Por que não lhe contei antes?
Dispensou-nos sua agressão, mas não conseguiu coragem de perguntar.
Por quê? O que o incomoda, pai?
—Não acredito! -— salientou o senhor Paulo, melindrado.
—No que o senhor não acredita, pai?
Que eu amo a Daniela e que estamos namorando?
Então pode passar a acreditar, pois é isso mesmo que está acontecendo.
O senhor Paulo não conseguia harmonizar seus pensamentos nem sabia como reagir.
Ele sempre fora um mega-investidor, dominante de todas as situações e, repentinamente, descobre que não era tão perfeito assim como pensava.
Faltou-lhe a coragem de se assumir como pai, pois sempre pagou para os outros trabalharem por sua responsabilidade.
Demonstrando nervosismo, o senhor Paulo sentiu-se sufocar.
Afrouxou a gravata e o colarinho.
Olhou para o canto da saleta de estar, onde havia uma pequena geladeira, desejando Pegar água.
Adivinhando-lhe os pensamentos, Daniela levantou-se e, solícita, apanhou um copo com água e, mesmo trémula, ofereceu a ele.
Rafael não o deixava de olhar.
Fitando Daniela, o senhor Paulo aceitou a água, bebendo-a em grandes goles.
—O senhor quer mais? -— ofereceu gentilmente Daniela.
—Por favor.
Servindo-o novamente, Daniela perguntou:
— O senhor está bem?
Sem demonstrar nenhum propósito ou expressão, ele respondeu logo que bebeu a água:
— Ninguém nunca perguntou se eu estava bem -— rindo, ironicamente, logo em seguida.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:25 am

Virando-se para Rafael, pediu com modos mais gentis:
— Preciso ficar só.
Voltando-se para Daniela, observou:
— Não esqueça as minhas recomendações.
Insistindo, Rafael indagou:
— Tem certeza de que não quer mais conversar comigo, pai?
— Conversaremos outra hora.
Aqui é local de trabalho.
— Mais alguma coisa, senhor Paulo? -— perguntou Daniela.
— Não. Isso é só.
Verificando que não adiantaria insistir, Rafael suspirou lamentando e acompanhou Daniela, que saía do gabinete.
Já em sua sala, Daniela confessou seus sentimentos.
— Rafael, não consigo parar de tremer.
Nunca me senti assim tão nervosa.
Abraçando-a com ternura, ele a confortou:
— Calma. Já vai passar.
Nesse momento, ele pouco se importou com quem pudesse vê-los.
Caio, que chegava, estranhou a cena, que lhe pareceu muito romântica e declarada para aquele local.
Aproximando-se, ele perguntou:
— Tudo bem com vocês?
Enquanto Daniela se recompunha, Rafael esclareceu:
—Discuti com o pai há pouco por causa da Daniela.
Ele começou a fazer insinuações.
Você sabe como ele é.
—Como ele soube?
—Não sei. Talvez tenha desconfiado.
O pai é estranho.
Ele deveria chegar e perguntar tudo o que quer saber.
Manifestar sua opinião, mas não, agride com inquirições rudes, fala muito sem dizer nada.
O pai nunca conseguiu se expressar connosco.
—E você o que disse?
—Sabe que nem sei.
Mas se havia alguma dúvida quanto a mim e a Dani, não há mais.
Creio ter deixado isso bem claro.
Porém... você sabe como é... o pai não diz o que pensa nem o que sente sobre nós.
Ele sabe sim avaliar o profissional ou o técnico que somos, sabe medir nossa capacidade e vive nos testando.
—Deveríamos ter contado tudo a ele.
Seria mais honesto - acreditou Daniela, ainda abalada.
—Não se culpe -— consolou Caio.
— Meu pai não é honesto com ninguém.
Nunca revela seus sentimentos.
Pelo que conheço dele, tenho a certeza de que primeiro ele procurou uma briga ou discussão um tanto acalorada, para depois insinuar seu parecer que nunca podemos concluir se ele está contra ou a favor.
— Voltando-se para Rafael, indagou:
— Estou certo?
—Certíssimo!
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:25 am

Afagando os cabelos de Daniela, prosseguiu:
— Viu?! Não fui grosseiro com meu pai.
O Caio o conhece tanto quanto eu.
Não pense que o ofendi, aliás, deveria ter reivindicado seus deveres de pai há tempos.
—Fiquei em uma situação delicada.
Não sabia o que fazer -— queixou-se Daniela.
—Você não poderia fazer nada, Dani.
Não se preocupe. Tudo acabará bem -— reforçou Caio, optimista.
—O que vocês acham que ele vai fazer? - perguntou ela, preocupada.
Rafael e Caio responderam juntos, como um coro, gargalhando delirantemente em seguida:
—Contar para mamãe!
—Não brinquem! -— reclamou ela.
—Não estou brincando, meu bem -— retomou Rafael, sorrindo.
— É verdade. Ele vai pedir a opinião da nossa mãe, pois se ele cuida das finanças, ela cuida do social.
Com toda a certeza, minha mãe será contra.
Ficará falando na minha orelha por uma semana.
Tentará mudar minha opinião.
Virá falar com você.
Terá crises nervosas, enxaquecas, fará chantagem... — virando-se para o irmão, perguntou:
— O que mais, Caio?
Acho que esqueci algo.
—Fará um escândalo!
Pedirá a demissão de Daniela e, com a maior cara-de-pau, há de oferecer até algum dinheiro - completou, rindo e até zombando das atitudes típicas de sua mãe.
— Isso! Isso mesmo! -— afirmou Rafael.
— Só que... minha mãe nunca mudará minha opinião.
— Abraçando-a com ternura, ele concluiu:
— Eu a amo, Dani. Não sou criança e sei o que quero.
Caio, diante do clima romântico, sorriu e os deixou a sós.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:25 am

11 - DROGAS: PASSAPORTE PARA O INFERNO

—Não posso acreditar!
Rafael envolvido com uma serviçal da nossa empresa?! -— gritava dona Augusta ao tomar ciência dos factos através do marido.
— Um calmante... Adelaaaide... a minha pressão... um calmante, pelo amor de Deus! -— gritava, escandalosamente, a mulher em crise de histerismo.
A empregada chegou rapidamente à porta do escritório, ouviu o recado e voltou correndo para pegar o remédio.
— Não seja histérica, Augusta! —- queixou-se o senhor Paulo. —
Chiliques em nada irão ajudar.
Dona Augusta pareceu não ouvi-lo e gritou ainda mais estridente:
— Adelaaaaaide!!!
Adelaide apareceu com um vidro de comprimidos e um copo com água.
Depois de tomar o remédio, sentou-se na poltrona largamente e reclamou:
—Que desgosto! Nunca pude imaginar que, um dia, teria tanto desgosto com um dos meus filhos!
—Não faça drama, Augusta.
Não é uma serviçal, é uma secretária.
Competente, diga-se de passagem.
—É uma empregada, Paulo.
—Eu não sou empregado daqueles que contratam meus préstimos? -— perguntou o senhor Paulo, um pouco mais brando.
—É diferente!
Enquanto eles continuavam com a conversa, Adelaide contava na cozinha o que acabara de ouvir.
— Dona Augusta está furiosa -— dizia aos colegas.
— Já vou pegar o remédio de enxaqueca porque daqui a pouco ela gritará:
"Adelaaaide!. Vou morrer!
Ah, meu Deus! Minha enxaqueca!"
Nesse instante Rafael entrou na cozinha e a moça recompôs-se rapidamente.
—Quem está com enxaqueca? -— perguntou Rafael sorridente e desconfiado, pois já sabia das sátiras que faziam com sua mãe.
—Ninguém, filho, ninguém -— respondeu Maria ligeiramente, mudando de assunto e sinalizando para que Adelaide saísse da cozinha.
Quer um leitinho? Um lanche?
—Você poderia me preparar uma vitamina de frutas, Maria? —
Apertando as rechonchudas bochechas dela, acrescentou brincando:
— Daquelas que só você sabe fazer.
— Num brinca, Rafael.
Se a dona Augusta nos pega...hum!
Rafael sorriu e pouco se importou.
— Já levo pro senhor.
— Estarei no meu quarto.
Ah! A propósito, não sou seu senhor.
Não sou senhor de nada, tá?
Sorrindo ele beliscou novamente a bochecha de Maria, que reclamou:
— Esse menino não tem jeito!
Pouco depois, após ouvir pancadas suaves à porta seu quarto, Rafael pediu:
—Entra...
—Sou eu. Trouxe a sua vitamina.
— Obrigado.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:25 am

— Depois de breve pausa, ele perguntou:
— Maria, há quanto tempo você trabalha aqui?
—Quando eu vim pra cá, o senhor tinha uns... dois anos.
—Falta muito para você se aposentar?
—Já sou aposentada.
É que não posso parar de trabalhar, preciso muito.
Além do que, não tenho casa própria e não tenho onde morar, se eu sair daqui.
—Maria, você sabe que nunca a tive como uma empregada.
Considero-a como uma parente, por isso gostaria de sua sinceridade.
É comum, em famílias menos privilegiadas financeiramente, os pais se preocuparem com os filhos?
—Mas o seu pai se preocupa com você.
Ele sempre pergunta se está em casa, quando vai voltar...
—Essas preocupações são hábitos ou sentimento de posse.
A isso poderíamos dar o nome de monitorar.
Monitorar é controlar.
—Seu pai sempre quer saber se você está bem.
Ele é um homem muito ocupado, por isso não se dedica mais.
—Que curioso, Maria.
— Observou Rafael, sorrindo e murmurando:
— Eu perguntei sobre a preocupação entre pais e filhos de classes menos privilegiadas.
Eu não disse nada sobre meu pai ou o que recebo dele.
Maria, Maria... Você está me enrolando.
—Eu gosto muito de você, menino.
Não sei por que me pergunta isso.
Sabe, você está se preocupando à toa.
_ Não acho que seja uma preocupação à toa.
Fico pensando se meus pais não são culpados pela distância que nos separam, da falta de afinidade que temos e dos problemas que meu irmão...
Rafael se deteve e ficou com o olhar perdido.
A empregada, apesar de considerá-lo muito, preferiu não se comprometer.
Aproximando-se de Rafael, que estava sentado em uma namoradeira, bebendo sua vitamina, Maria afagou-lhe os cabelos, confortando-o.
— Filho, você é um moço bonito e tem de tudo na vida.
Em vez de ficar procurando coisas para se preocupar ou se entristecer, agradeça a Deus tudo o que tem e faça o melhor para a sua vida hoje.
Por que você não sai pra namorar um pouco?
Não está com saudade da sua garota?
Espremendo os olhos com o semblante astuto, Rafael questionou, vagarosamente, sorrindo:
— Como é que você sabe que estou namorando? Virou bruxa?
Maria gargalhou gostosamente e respondeu:
—Como se eu não o conhecesse!
—Não entendi -— retomou Rafael, em dúvida.
— De uns tempos pra cá, você recebe telefonema de uma moça que tem muita educação e voz muito bonita, preocupa-se com o horário de sair, arruma-se todo e fica até escolhendo roupa.
Maria!... passa essa... não!... melhor essa aqui!... - gargalhando novamente, continuou:
— Resolveu até trabalhar!
— Maria, Maria! Tá achando que eu era preguiçoso?
— Não, não. Mas sei que só o amor faz a gente se cuidar tanto assim.
Rafael sorriu amável, pegou-lhe a mão e beijou.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:26 am

— Minha Maria, você foi capaz de perceber isso?
—Como não?! Só não vê quem é cego.
—Então meus pais são.
—Não diga isso, menino! -— atalhou Maria, docemente.
— Respeite seus pais.
Nunca diga nada contra eles, é pecado.
Eles lhes deram a vida, criaram você e se preocupam com o seu futuro.
— Eles se preocupam somente com STATUS.
Repentinamente a porta do quarto se abriu e dona Augusta adentrou ao recinto excessivamente inflamada.
— Seu pai me contou tudo, Rafael! -— gritou a mãe, desesperada.
— Com licença! -— pediu Maria, retirando-se rapidamente.
Após sua saída, dona Augusta questionou:
— Você estava segurando a mão da empregada?!
—E daí? Qual o problema?! -— respondeu Rafael, tranquilamente.
—Eu não acredito! -— ressaltou dona Augusta, dando tapas em seu próprio rosto e dizendo:
— Acho que estou sonhando! Meu Deus!
— Qual é o problema, mãe?
E ali ficou ouvindo sua mãe tecer todos os tipos de preconceitos, orgulho e vaidade possíveis e até inimagináveis para tentar induzi-lo a mudar de ideia quanto ao seu namoro com uma moça mais pobre.
Rafael passou a receber impressões de alguns companheiros espirituais de sua mãe.
Eram espíritos zombeteiros que a faziam dramatizar a situação de tal maneira que dona Augusta não percebia o ridículo espectáculo que estava representando.
A mulher perdeu completamente a noção do bom-senso.
Os espíritos se dobravam em delirantes gargalhadas e zombarias.
Rafael começou a irritar-se, esfregou o rosto e passou as mãos pelos cabelos, suspirando profunda e nervosamente, porém continuou em silêncio e recordou-se de fazer uma prece.
A princípio ele não conseguia concatenar palavras, no entanto lembrou-se da oração Pai-Nosso, que Jesus nos ensinou.
Sua mãe não parou de falar, mas ele sentiu mais harmonia e teceu outra prece com suas próprias palavras, rogando forças para não se descontrolar naquela situação.
Naquele instante, seu pai adentrou no quarto.
Vendo-o, dona Augusta dramatizou:
—Paulo! Seu filho não diz nada!
—O que você me diz, Rafael? -— inquiriu-lhe o pai.
—Quanto ao quê, pai? -— perguntou, demonstrando tranquilidade.
—Não brinque! -— tornou-lhe o pai.
—O senhor não me fez nenhuma pergunta.
O que o senhor quer que eu diga e sobre o quê?
—Esse... namoro com essa moça.
Diga alguma coisa!
—Isso, Paulo! Isso mesmo.
Inspirando profundamente, Rafael levantou-se da namoradeira, andou vagarosamente alguns passos, perdendo o olhar sem fixá-lo.
Parou, voltou-se para seus pais e elucidou brandamente.
— Dizer somente que eu gosto da Daniela, seria desnecessário.
Dizer que essa encenação toda da minha mãe, acoplada a esses preconceitos deprimentes que acabei de ouvir, é imbecilidade humana, seria inútil.
Vejo-os tão aterrados nessa concepção ridícula de riqueza que não tenho palavras que expressem minha decepção.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 11:26 am

—Rafael! -— gritou dona Augusta.
—Mãe, eu escuto muito bem, por favor, não grite.
—Fale direito com sua mãe, Rafael!
—Tenho vinte e seis anos!
Quando foi que ela falou direito comigo?
Não estou mais na fase de dar-lhes satisfações.
—Você vive sob meu tecto, não se esqueça — advertiu-lhe o pai.
—Eu mais pareço um estranho nessa casa.
Vocês nunca sabem o que está acontecendo comigo.
Quando foi a última vez que vocês entraram nesse quarto?
Não lembram? Eu sim.
Foi quando eu sofri aquela tentativa de assalto.
Isso foi há um ano, mais ou menos, lembram-se?
Quando foi a última vez que vocês entraram no quarto do Jorge? Será que o Jorge lembra?
O Jorge é um adolescente irritado, nervoso, rebelde, vive brigando, apanhando e batendo, vocês sabem disso?
Preocupo-me muito com meus irmãos, pena não ter mais tempo para eles.
Vejo o Jorge, principalmente, afundando-se com dúvidas e preconceitos.
Está nos hostilizando, é agressivo e cada dia parece estar pior.
Ele não tem estrutura e não confia em mais ninguém.
De uns tempos para cá, até comigo ele mal conversa.
A obrigação de procurar saber o que está acontecendo é de vocês, pais!
Mas as cotações das acções são mais importantes e as colunas sociais merecem prioridade.
Enquanto isso vejo o Jorge se destruindo.
Temo por seu futuro. Ele evita falar de si.
—Não foi por esse assunto que nós viemos aqui -— cortou-lhe o pai.
—Pai, vocês estão querendo dar opiniões sobre o meu futuro, sobre o que é melhor para mim, sem antes conhecer-me, sem conhecer as minhas ideias e concepções.
—Você é nosso filho, Rafael! -— choramingou dona Augusta. —
Como nós não o conhecemos?
—Mãe, vocês me reconhecem, mas não me conhecem.
Não conhecem o Caio nem o Jorge.
Sabe por que afirmo isso?
Porque faz, aproximadamente, um ano que namoro a Daniela e vocês não perceberam nada, coisa que até os empregados dessa casa notaram e vocês perguntaram o que está acontecendo comigo.
O que vocês sabem sobre mim?
Dona Augusta sentou-se soluçando em choro copioso, enquanto o senhor Paulo fixou seus olhos em Rafael sem dizer nada.
— Eu me sinto muito bem perto da Daniela.
É uma moça de família, educada, sensível, responsável.. dona-de-casa, viu mãe?! -— reclinou-se ele para sua mãe com certa ironia.
— Vamos dizer... também bonita, não é, pai?
Dona Augusta soltou um grito choroso e, mesmo com a voz embargada, falou:
—Despeça essa aproveitadora da nossa empresa imediatamente, Paulo!
—Pois bem —- tornou Rafael, ainda tranquilo.
-Já que é assim, estou saindo desta casa.
Dizendo isso, Rafael apanhou as chaves de seu carro e, quando ia saindo, seu pai o segurou pelo braço enquanto sua mãe gritava em prantos.
Olhando-o nos olhos, o senhor Paulo disse:
— Vamos lá embaixo, quero conversar com você.
Aqui é impossível.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 10:58 am

Quando iam descendo as escadas, ouviram o grito:
— Adelaaaide!.
Já no escritório...
— Não sei o que faço, Rafael. Sua mãe pressiona-me.
Por outro lado, confesso que se já não conhecesse essa moça há algum tempo, não iria dar oportunidade alguma para ela expor seus atributos.
E não tenho nada que a desabone.
Muito pelo contrário. Só que não sei o que fazer.
—Pai, o senhor não precisa fazer nada.
Compreenda que se há algo para ser feito, seria acabar com essa hipocrisia, esse preconceito inútil, essa discriminação patética que sustentam hoje, a começar pela mãe.
É ridícula essa encenação, essa dramaturgia hipócrita.
Se ela tivesse uma ocupação útil, não haveria tempo para tanta futilidade.
O senhor já parou para pensar como seríamos sem esse luxo todo, sem essa casa, sem a empresa?
O que nos diferencia das outras classes sociais se não tivéssemos tudo isso?
—Sim, já pensei em tudo isso.
Só que se eu pensar muito, com certeza, ficarei na miséria alimentado por pensamentos de revolta.
Rafael sabia que seu pai era muito materialista, seria difícil fazê-lo reflectir sobre a vida sem a matéria.
— Pois bem, pai, o que o senhor gostaria de me dizer?
—Não saia desta casa.
—Será que consigo suportar as crises nervosas da mãe?
—Casei-me com ela há mais de trinta anos e estou vivo - respondeu-lhe o pai, gargalhando.
Rafael sorriu e acrescentou:
—Eu gosto muito da Daniela.
O senhor mesmo sabe que ela é uma boa moça.
Seu comportamento é diferente de tudo o que nós já conhecemos em nosso meio.
Não vou terminar meu namoro por caprichos da minha mãe.
—Até aonde quer chegar com essa moça?
—Pretendo me casar com ela.
Com o semblante franzido, o pai perguntou:
—Já está pensando assim?!
—Por que não, pai?!
Tenho tudo para ser feliz com ela.
Somente a felicidade me importa.
— Você é quem sabe, Rafael.
Só não diga...
Atalhando-o, Rafael solicitou amável:
— Por favor, pai.
Não fale nada que possa me ferir.
É muito difícil eu esquecer as agressões que me fazem.
Depois de breve pausa, perguntou:
— O senhor vai demiti-la?
— Não.
— Eu agradeço. Daniela precisa desse emprego.
Se a demitisse, hoje, eu teria que acelerar minha decisão.
— Iria se casar?!
— Sim, pai. Pode apostar.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 10:59 am

Nesse instante, ouve-se um grito:
— Eu sabia! -— gritou dona Augusta, desesperada.
Você está enfeitiçado!
— Afoita, correu para dentro do escritório exibindo: —
Veja! Veja, Paulo!
Olhe só este livro! É de macumba!
Rafael dobrou-se em gargalhada delirante, ao ver nas mãos de sua mãe O Livro dos Espíritos sendo agitado.
—Eu não falei?! Ele está enfeitiçado!
Este livro nem é dele, olha só o nome dessa Daniela escrito aqui.
—Não seja ridícula, Augusta -— vociferou o senhor Paulo, farto dos escândalos de sua esposa.
Rafael simplesmente pegou o livro das mãos de sua mãe e, rindo, observou:
— Mãe, seria tão bom se a senhora se desse ao trabalho de ler esse livro!
Virando-se, sem mais nada a observar, Rafael os deixou.
Antes de entrar em seu quarto, ainda no corredor, Rafael foi chamado por Caio.
—Rafa, tem um tempo? -— pediu Caio, parado à porta de seu quarto.
—Eu ia guardar esse livro, depois iria à casa da Dani por quê?
Caio estava agitado.
Percebendo-o inseguro, Rafael aproximou-se e perguntou:
— Está tudo bem?
Entrando em seu quarto, Caio esfregava as mãos suadas e o rosto.
— O que está acontecendo?
— Estou sendo pressionado.
Não sei mais o que fazer.
— Como?! Tudo se acalmou.
Não nos procuraram mais, até havia esquecido toda aquela confusão.
Será que não seria melhor você procurar um tratamento e...
Atalhando-o com veemência, Caio perguntou abruptamente:
—Acha que estou ficando maluco?!
—Não é isso. Lembra-se do seu medo há quase um ano?
Então? Não ocorreu nada.
Depois que o tal Biló me surrou ou mandou alguém fazer o serviço, ele se deu por satisfeito.
—Claro!
—Por que, claro?! -— desconfiou Rafael.
—Porque venho pagando desde aquela época para deixarem vocês em paz.
—Como assim?!
—Pagando! Dou uma mesada para essa turma sossegar, Rafa.
—Você ficou louco?!
—Não! Foi o único meio que eu encontrei para não lhe dar mais problemas.
Eles ficaram quietos, só que a cada dia estão pedindo mais e mais.
A grana já está alta.
Não sei onde mais achar dinheiro que os contente.
Rafael sentiu um torpor em sua cabeça.
Não acreditou que Caio fosse capaz de agir assim.
—Em caso de chantagem, só pagamos com garantia total.
Ou, então, seremos extorquidos pelo resto da vida. E agora, cara?!
—Não sei, Rafa -— respondeu Caio, lamentando.
—Espera. Vamos retomar essa história do princípio.
O que você fez que lhe dá tanto medo?
Que filmagens ou fotos são essas?
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 10:59 am

Caio estava estonteado, mesmo assim tomou fôlego e Pediu:
— Rafa, sente-se aqui.
Puxando uma cadeira para perto de sua cama, Caio indicou-a para Rafael.
Olhando-o firme, começou a contar:
— Antes, bem antes de começar a trabalhar na empresa, eu tinha uma dívida com os fornecedores de drogas.
Não havia meio de conseguir pagá-la.
Parou por um momento procurando coragem para relatar.
Suspirou fundo e disse:
— Eu me prostituí.
—Você o quê?!! -— perguntou, incrédulo, não querendo admitir o que ouvira.
—Chega de mentira! Sou homossexual! -— desabafou Caio, rapidamente, quase gritando.
Rafael sentiu-se esfriar.
Sua audição e visão pareceram sumir.
Ele abaixou a cabeça devido ao mal-estar.
A palidez estampada em seu rosto e lábios expressaram nitidamente seu estado, quando ele reclamou:
— Estou passando mal..
Caio agitou-o. Abaixou-lhe a cabeça entre os joelho massageando lhe a nuca enquanto o chamava:
— Rafael! Rafael!
Seu irmão parecia não querer reagir e a custo foi tomando consciência novamente.
— Deite-se aqui -— sugeriu Caio, indicando sua cama. Rafael recusou.
Mesmo estonteado, murmurou:
— Eu não acredito...
Caio manteve-se em silêncio e aguardou.
Rafael, retomando o controle sobre si, esfregava o rosto sentindo-se muito perturbado.
Respirando fundo, buscou encarar seu irmão, procurando não julgá-lo.
— Caio, como?!...
Não sei o que dizer. Estou em choque.
Caio, buscando coragem, relatou:
—Conforme lhe contei, iniciei-me no uso de entorpecentes bem cedo.
A mesada que recebia não era o suficiente para suprir minhas necessidades, até porque havia também que pagar o cala-boca.
—Como assim? -— perguntou Rafael.
—Quando você se inicia nas drogas, sempre acredita que poderá deixá-las de lado a qualquer hora.
Acredita que a partir de amanhã não irá usá-las nunca mais.
Eis aí o primeiro grande engano.
Depois acredita que seus amigos são fiéis e sempre haverá sigilo.
Mas, quando se tem família e se deseja esconder de todos, haverá sempre aquele que se prestará à chantagem directa ou indirectamente.
—Como assim, chantagem indirecta? -— perguntou Rafael, desalentado.
—Colegas, até do mesmo nível social que enfrentam dificuldades para pagar pelas drogas que necessitam usar, começam insinuar que precisam de dinheiro para adquiri-las ou então vão contar tudo para todo o mundo.
Chegam ao ponto de não terem nada a perder.
Daí que, além de manter seu vício, você precisa auxiliar parte dos custos do vício dos outros ou, talvez, até o custo todo.
Esse método não deixa de ser uma forma de chantagem.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 10:59 am

Mas sempre acreditamos que podemos parar de usar drogas a qualquer hora.
Contudo há o dia em que acordamos e percebemos, nitidamente, que não conseguimos viver mais sem nos drogarmos.
Bem... voltando um pouco mais no tempo...
Lembro-me de que algumas vezes eu sempre me achei diferente, com atracções diferentes...
—Por favor... -— disse Rafael, balançando a cabeça negativamente, querendo não admitir o facto.
Com o semblante desfigurado, ele parecia ainda passar mal.
—Desculpe-me, mas tenho que contar.
Como poderei explicar tudo se você não me ouvir?! -— implorou Caio, com o olhar embaçado e a voz embargada.
Sentindo piedade com misto de revolta, decidiu ouvi-lo.
Tentando não interrompê-lo mais, pediu:
— Continua...
— Pois bem. Outro dia a Daniela perguntou o que me levou a fazer uso de drogas, pois todos temos um motivo que nos leva a fazer algo.
Eis o motivo, eu acho.
Quando eu usava qualquer entorpecente, eu esquecia o então não me importava em ser diferente.
Muitas vezes tive vontade de contar para o pai.
Conversar com ele sobre o que eu sentia.
— Talvez eu não goste de ouvir, Caio.
Mas, o que você sentia de diferente? -— perguntou Rafael.
— Percebi que, enquanto muitos meninos da minha idade falavam sobre um determinado desporto, eu gostava de examinar, olhar e até admirar o desportista.
Enquanto muito admiravam uma menina, eu admirava suas roupas, seu comportamento ou delicadeza.
Eu sempre admirei a gentileza e o bom gosto das mulheres.
Gostava de ficar perto delas, pelo clima que reinava e também pela conversa.
—Qual o problema nisso, Caio?
Demonstrar educação e delicadeza,
no sentido de gentileza, claro, mesmo sendo um homem, não é nada demais.
Você acha que para ser homem é necessário ser bruto, gritar, fazer com que todos tenham medo de você?
Sou homem e nunca fui rude, não necessito engrossar a voz, além do normal, e gritar para ser obedecido.
Gosto de ser gentil, educado, de ver coisas bonitas.
Tenho bom gosto.
Eu penso assim:
se eu tiver uma filha, irei brincar de casinha ou boneca com ela, se ela gostar.
Poderei brincar de pega ou de roda, também.
Tanto quanto que se for um menino, jogarei bola, irei levá-la para um jogo de vólei, sei lá...
—Não é sobre isso que falo, Rafael -— justificou-se.
— É diferente... -— mesmo se sentindo envergonhado, ele tentou explicar.
— Todo garoto vive representando e encenando dentro da sua psicosfera.
Ele acredita que é um jogador de basquete, porque tem, como ídolo, um determinado desportista que é um jogador de basquete, por exemplo.
Por isso ele fala e age como esse esportista.
No meu caso, eu sempre imaginava encenar personagens femininos.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 10:59 am

Eu queria que o pai fosse meu amigo para eu conversar com ele sobre esse meu trauma.
Queria mudar, só que...
Ficava revoltado de pensar assim, mas nunca tive coragem para tocar no assunto e quando estava só e necessitava fugir dessas perturbações, drogava-me.
Como contei a princípio, muitas vezes tive dificuldade para pagar ao fornecedor ou a conta de um colega que também não conseguia manter-se em dia.
Certa vez, fui convidado para passar uma tarde com um senhor que... gostava de jovens.
O que eu ganharia, saldaria as dívidas...
—Caio!!! — cortou-lhe Rafael, incrédulo.
—Não tenho como dizer diferente! Entenda, por favor.
— Depois de breve pausa, prosseguiu:
— Tive medo sim, mas...
Rafael levantou-se nervoso, exaltando descontentamento.
Andou pelo quarto esfregando o rosto com as mãos, humedecidas de suor provocado por sua aflição.
Caio pareceu não se importar mais e prosseguiu:
—Aceitei o convite.
—Eu não acredito!!!... — exclamou, indignado.
— Não posso crer nisso.
—Acredite, Rafael.
Posso afirmar convicto:
as drogas são o passaporte para o inferno.
Quando você as usa, torna-se cúmplice do demónio, pois você é capaz de tudo.
Rafael fixou seus olhos, estatelados, em Caio, que prosseguiu melancólico:
— Não foi somente uma vez. Tornou-se comum.
Foram aqueles passeios ou viagens nos finais de semana, que eu nunca o levava comigo, lembra-se?
O irmão pendeu a cabeça positivamente e Caio continuou:
— Tornei-me um garoto de programa.
Algumas vezes íamos em três ou quatro rapazes, conforme o freguês.
Rafael sentou-se e sustentou a cabeça nas mãos, tendo os cotovelos apoiados no joelho.
De cabeça abaixada e incrédulo, continuou ouvindo.
— Infelizmente, eu não recusei.
Não só porque pagavam minhas dívidas...
— Por favor, Caio... -— murmurou Rafael, infeliz.
Poupe-me disso.
—Pois bem. Certa vez, eu e outros dois rapazes fomos para Angra dos Reis.
Era para ficarmos um fim de semana inteiro.
O anfitrião era um empresário muito bem-sucedido e bem famoso.
Um dos dois rapazes que foi comigo era o Ricardo, lembra-se dele?
—Filho do Alcântara?!
Aquele que morreu num acidente de carro na Itália?
—Esse mesmo. O convite foi feito, como sempre, pelo nosso fornecedor...
—O Ricardo também usava drogas?! -— interrompeu Rafael, bruscamente.
—Usava e também era homossexual.
Éramos companheiros nisso.
O convite era feito pelo fornecedor que mandava telefonarmos para seu amigo, outro traficante, que nos indicava: dia, hora e local.
Esse segundo traficante nunca viu a nossa cara.
Ele recebia dinheiro do freguês pelos rapazes que arrumava, depois que os rapazes iam ao encontro.
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Ave sem Ninho

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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 10:59 am

Nosso fornecedor, mesmo, não tinha muita ligação com o que fazíamos.
Ele só nos passava o convite e o telefone para contacto, sabendo que depois do encontro iria receber a grana da droga que comprávamos.
Por isso era interessante para ele fazer esse contacto.
Bem... fomos para Angra e lá houve uma... festa, vamos chamar assim.
Na manhã seguinte, já não havia nenhum convidado, com excepção do Ricardo, um outro cara que eu não sabia nem quem era.
Só sei que o chamavam de Róbi.
Acordei ainda tonto e olhei pela larga janela de vidros quando vi o anfitrião boiando na piscina.
Talvez ele estivesse bêbado e tivesse tropeçado.
Não sei dizer. Fiquei apavorado.
Acordei o Ricardo e fomos chamar o tal de Róbi, que estava completamente drogado.
Achei até que havia morrido também, pois o cara nem parecia respirar.
—Como você sabia que o homem da piscina estava morto?
Tentou tirá-lo de lá?
—Depois que você observa alguém boiar de bruços por mais de cinco minutos, não terá dúvida que está morto, terá?
Rafael não disse nada e Caio continuou:
— Eu e o Ricardo pegamos nossas coisas e fomos embora de lá. O tal Róbi ficou desmaiado.
Não sei dizer exactamente o que aconteceu, mas a polícia prendeu o Róbi, acusado de latrocínio, que é matar para poder roubar.
Isso lhe valeu muitos anos de prisão.
Quanto a mim e ao Ricardo, nunca nos descobriram.
— Como? O fornecedor nunca os denunciou?
— Era um fornecedor novo.
Ele não sabia quem eu e o Ricardo éramos ou onde morávamos.
Não tinha contacto directo connosco e, desde que recebesse o dinheiro no acto da entrega das drogas que pedíamos, não nos fazia perguntas.
Não teria como nos encontrar.
Nós sumimos.
Os jornais registaram a morte do empresário como latrocínio.
Creio que a família deve ter pago, e muito bem, para não divulgarem nada sobre os costumes do falecido e o facto de que em uma de suas festas de gostos pessoais, teria se drogado, embriagado e, acidentalmente, morrido afogado na piscina.
O pior foi que, nessa festa, uma garota...
—Havia garota também?!
—Sim. Há meninas que gostam de tudo, desde que haja luxo, dinheiro e dinheiro.
Como eu ia dizendo, havia uma garota que tirou algumas fotos e fez, inclusive, uma filmagem.
—E você deixou?! -— indagou Rafael, aterrado de indignação.
—Estávamos drogados, embriagados.
Como poderíamos raciocinar?!
Tudo foi um factor surpresa.
Ríamos e deixávamos tudo rolar.
Conforme lhe disse, esses outros convidados foram embora antes do dia amanhecer e a garota levou consigo as fotos e a filmagem.
Com a morte do empresário e a prisão do Róbi, as únicas coisas que nos acusariam seriam as fotos e a filmagem.
Só que, vindo isso à tona, todos, os outros estariam envolvidos também, com excepção de quem estava atrás da máquina fotográfica e da fumadora.
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Ave sem Ninho

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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 11:00 am

A família do empresário não se interessou pelas investigações.
Já que havia um suspeito, queriam condená-lo para abafar de uma vez o caso e não deixar que descobrissem a vida promíscua do falecido.
—Será que não foi um dos outros que matou o empresário? -— perguntou Rafael.
—Por que fariam isso se pagava bem? Lembro-me vagamente de que, quando todos foram embora, eu o vi estirado na cadeira ao lado da piscina com um copo de uísque na mão completamente embriagado.
Acredito que foi acidente mesmo.
Os jornais disseram que havia levado uma pancada na cabeça antes de ter sido atirado na água, mas pergunto, bateram nele com o quê?
Ele bateu com a cabeça na borda da piscina quando escorregou e caiu!
—Pode ser — concordou Rafael, ainda exaltado, porém se contendo.
—Bem... uma vez que o caso foi abafado, só restava não me expor.
Com medo, o Ricardo pediu para o pai deixá-lo morar na Itália, na casa dos avós, iria estudar lá e tudo mais.
Alguns anos depois, houve o acidente e ele morreu.
Há um tempo soube que o Róbi, o rapaz que foi preso pela morte do empresário, morreu na prisão vítima de infecções agravadas pelo vírus da Aids, que o deixou sem imunidade.
Soube também que o tal traficante com quem entrávamos em contacto por telefone para aceitarmos os convites para os programas, era irmão do Róbi.
Esse traficante tinha o apelido de Carioca.
As filmagens e as fotos que a garota fez foram parar nas mãos desse traficante.
Eu nunca vi esse sujeito.
O contacto era feito por telefone.
Ele recebia do cliente pelos rapazes que arrumava, e os rapazes recebiam directamente do cliente no dia do compromisso.
Rafael pendeu a cabeça negativamente. Estava decepcionado.
— De posse dessas filmagens e fotos, o Carioca sabia como eu era, mas não sabia como me encontrar.
Até você encontrar o Biló.
Rafael ergueu a cabeça mais atencioso e Caio prosseguiu, explicando:
— Somos muito parecidos fisionomicamente.
A princípio o Biló achou que você pudesse ser eu, até porque ele só viu a filmagem e as fotos e isso faz anos que ocorreu.
—Espera! Onde o Biló entra nessa história?
—O Biló e o Carioca são irmãos, consequentemente, eles são irmãos do Róbi, o cara que eu abandonei desmaiado, lá na casa, em Angra, com o empresário morto.
Por esse motivo, Róbi foi preso e considerado culpado.
—Esses caras sabem seu nome, Caio?
—Só o primeiro.
Eu deduzo que após o Biló conhecer você, deve ter pressionado a Lola ou a Cláudia para saber algo mais.
Elas devem ter dito que tem um irmão chamado Caio ou outras informações.
—Por que não compra essas provas?
Já que eles não entregaram para a polícia...
—Esse caras não querem dinheiro, Rafael.
São gente da pesada.
Eles não querem dinheiro, querem vingança.
Sentem-se ofendidos.
Afinal, abandonei o irmão deles lá e ele foi preso.
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Ave sem Ninho

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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 11:00 am

—Essa filmagem só mostra a festa?
— Vejo que você não entende nada desse submundo horrível -— afirmou Caio, ironicamente amargo.
— Não é uma festa como imagina.
É o encontro de pessoas afins em drogas, sexo, bebida, prostituição, homossexualismo e tudo o que de pior puder imaginar.
Se essa fita ou fotos vierem a público, estarei arruinado.
Estaremos arruinados.
Haverá envolvimento com a polícia, com a justiça, sem contar os danos morais.
Além do que as imagens são da festa e eu me recordo, mesmo vagamente, que vi o homem depois de todos saírem.
— Já ouvi o pai dizer que "tudo tem seu preço".
Esses caras têm de ter um.
— Mas eles têm -— respondeu Caio, amargurado.
—Quanto?! -— indagou Rafael, interessado.
—O melhor seria perguntar: quem?
—Quem?!
—Eles querem meu irmão.
Querem me fazer passar pela dor de perder um irmão para eu sentir o que sentiram.
Querem que eu o entregue e ameaçam a Daniela também.
Disseram que ela é o juro pelo tempo que passou.
Rafael empalideceu irritado.
—Isso é loucura, Caio!
Não está acontecendo!
—Não creia que as tragédias só acontecem na família dos outros.
Rafael ficou atordoado.
Não sabia o que fazer nem o que falar, então arriscou:
—Por isso que não levou em frente o seu noivado com a Bruna?
—Foi por isso sim. Você não imagina como é difícil para mim.
Não imagina. É algo muito forte.
Chego a ficar revoltado com isso.
Não posso me enganar ou enganar outra pessoa. Você entende?
—Eu nunca percebi ou desconfiei... Você..
Por que não me contou? -— perguntou Rafael, com melancólica inflexão na voz.
—Não tenho necessidade de me expressar com gestos alterados, por isso ninguém desconfiou.
Nunca tive coragem de contar pra ninguém.
O Ricardo morreu com esse segredo.
Além do que, depois do ocorrido em Angra dos Reis, não me envolvi mais com esse tipo de gente ou qualquer relacionamento desse nível.
Eu quis esquecer.
Não tive razão ou coragem de contar a ninguém e sofro muito com isso, principal-
ente agora que compliquei a sua vida, e você não tem nada c0m isso.
Você disse que não teve mais relacionamento desse nível.
Houve ou... há outro? -— perguntou Rafael com certa timidez, mas de forma bem directa.
—Não. Nunca tive ou me relacionei com mais ninguém.
Tenho vergonha de tudo isso. Tenho muita vergonha.
—Eu não sei o que dizer, Caio.
Você não imagina como estou me sentindo...
—Não diga nada, Rafa.
Não vou lhe exigir compreensão, mas...
Interrompendo-o, Rafael disse:
— Você é meu irmão. Não esperava, jamais, ouvir isso.
Nunca pude pensar que...
Mas conte comigo, cara. Quero ajudá-lo.
Rafael o abraçou fortemente, demonstrando a seu irmão seu afecto e sua compreensão.
Outra reacção poderia piorar o estado emocional de Caio, que já se encontrava imensamente abalado.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 11:00 am

12 -LIÇÕES DE AMOR

— ...é isso Dani.
Não poderia ser nada pior -— desabafava Rafael, relatando-lhe tudo o que ouviu do irmão.
— O que você me diz?
Daniela ficou em silêncio e pensativa.
—Por favor, diga alguma coisa! -— pediu.
Para ele, a opinião dela seria muito importante naquele momento de angústia.
—Você está assustado porque só teve, até hoje, o preconceito, o desrespeito e a falta de misericórdia para com todo aquele que experimenta o sexo transviado.
Nunca pensou que isso poderia ocorrer com um irmão seu ou até com você mesmo.
— Comigo não! -— exaltou-se Rafael.
— Qual o problema?
Por acaso acredita ser a criatura perfeita da natureza?
Com raríssimas excepções, a maioria de nós traz dolorosas heranças do passado, dívidas e problemas a resgatar e solucionar, principalmente com relação à sexualidade.
Não temos essa única reencarnação.
Se acreditar nisso, estará acreditando em um Deus injusto.
Então, quem de nós garante a paz e a virtude plena nas existências passadas?
Quem de nós pode, hoje, garantir a perfeição moral no futuro?
Sabe, Rafael, muitas pessoas só criticam e achincalham descaridosamente aqueles que, aos nossos olhos, enganam-se nos sentimentos.
Devemos lembrar sempre que são irmãos nossos que reclamam socorro em vez de censura.
Devemos lembrar que Deus não nos quer melhor, não nos ama mais do que ama a eles.
Somos irmãos perante Deus!
Se menosprezarmos, desdenharmos, estendermos escárnio, recomendarmos punições a todos os que hoje passam por aflitivas tentações e provações em matéria de sexo, imaginando-nos donos da verdade e da virtude, estaremos, talvez, candidatando-nos a futuras quedas de sentimento com credores de outras eras.
Sem dúvida, seremos chamados à responsabilidade do que agravamos com palavras e pensamentos também, provando o sabor de tudo o que fizemos outros degustarem.
—Você é a favor do homossexualismo, Daniela? - perguntou Rafael inquieto.
—Não sou contra nem a favor.
Sou favorável sim à misericórdia.
Não podemos julgar.
O próprio Espiritismo nos ensina que, quando muitos de nós rumamos ao que julgamos erro, é ali que caminhamos para corrigir o passado, por essa razão devemos ser perseverantes.
Devemos ter bondade e compreensão para com todos os que se encontram em desvarios afectivos porque, com toda a certeza, rogaríamos por bondade e compreensão se estivéssemos no lugar do outro.
Não podemos medir os nossos sentimentos, a nossa capacidade de resistência, a nossa reacção no lugar de uma outra pessoa em momento de crise com a consciência que temos hoje.
Não sabemos o que fizemos ontem ou o que o amanhã nos reserva.
Jesus nos disse para atirarmos a primeira pedra, caso nunca tivéssemos errado em pensamentos ou palavras, atitude ou acção e nem mesmo Ele, com toda a sua altitude moral, condenou, porém disse:
"Vá e não erre mais".
Rafael a olhava de forma indefinida e, ante o silêncio dela, perguntou:
— O que faço, Daniela?
—Aguarde, silencie e ore.
Peça forças para você amparar, orientar e socorrer seu irmão quando for preciso.
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Re: LIÇÕES QUE A VIDA OFERECE - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 11:00 am

Não somos colocados diante de factos difíceis assim por mero acaso do destino.
Se lhe pediram socorro, mesmo parecendo ser um desafio difícil, procure auxiliar tranquilamente, trazer soluções e tenha compreensão.
Às vezes é só isso o que devemos fazer: ouvir e compreender.
No entanto nos alteramos, não aceitamos e acabamos por perder a oportunidade e até prejudicamos a nossa condição evolutiva por omissão ou desespero.
Procure ficar tranquilo e aguarde.
—Sempre fui tranquilo.
Mas, de repente, tudo parece tão difícil.
Estou confuso.
Se eu pudesse voltar o tempo para corrigir...
—Não perca mais tempo pensando no impossível.
Use o tempo em busca de soluções para o que tem a resolver hoje.
—E quando não vemos solução, Dani?
- Ore.
—Às vezes não sei onde você encontra tanta força.
— Em Jesus.
Estude O Evangelho Segundo o Espiritismo e receberá forças para alicerçar-se diante das turbulências.
Nele você encontrará respostas compreensivas e aceitáveis para suas dúvidas, além de conforto para seu coração.
—Algum espírito a envolveu para que falasse desta forma?
Você parece tão inspirada.
—Não sei responder. Envolvidos ou não, o importante é nos vigiarmos, pois mesmo sendo inspiração do plano espiritual, caberá a nós toda a responsabilidade do que exteriorizamos pelas palavras ou acções.
Daniela e Rafael não puderam ver, mas o espírito Durval, que foi, quando encarnado, pai de Daniela, estava envolvendo-a naquele momento, procurando levar-lhes a compreensão e o ensinamento de que nunca devemos julgar a quem quer que seja, em matéria de sexo principalmente, guardando constante e firme respeito a todos que acreditamos sofrer os desvarios afectivos.
Temos de nos compadecer, assim como desejamos que compreendam e se compadeçam de nós por toda a experiência afectiva desregrada que já tivemos, temos ou poderemos ter um dia.
O espírito Durval, emocionado, voltou-se para Lucas, mentor de Rafael, e ressaltou:
—Grande percepção a do querido Rafael.
—Realmente — concordou Lucas.
— Ele vem se educando extraordinariamente bem, buscando sempre os livros da codificação para esclarecer-se, confortar-se e alicerçar-se.
É muito dócil, o que facilita bastante inspirá-lo para o melhor caminho, mesmo diante de dificuldades e aflições.
Se bem que, de posse do livre-arbítrio, a criatura tem condições de mudar e alterar tudo o que lhe foi reservado, apesar de todo o conhecimento que tenha sobre o mundo espiritual.
—Certamente, Lucas -— aprovou Durval.
— Observemos Antónia:
foi minha esposa enquanto estive encarnado, levei-a para receber toda a informação doutrinária que se encontrava à disposição.
Minhas conversas sempre se voltaram para a doutrina de forma a elucidar os factos da vida, o que trazia muito esclarecimento a ela.
No entanto, veja só, com o desencarne de Denise, descontrolou-se e entrou em triste desequilíbrio.
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