Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 26, 2017 8:21 pm

Sentindo uma vertigem, ele caiu para trás perdendo os sentidos.
— Já é tarde e o senhor ainda dorme.
Está na hora de começarmos o trabalho, — disse Khristofor, sacudindo Henry, que jazia imóvel em seu cobertor.
Sentindo o toque, Barenkhaupt endireitou-se e passou a mão pelos olhos.
— Será mesmo tão tarde?
— Na torre bateram agora, seis horas.
— Tens razão! Serve-me o vinho e ao trabalho!
Enquanto serviam o vinho, Henry olhou incredulamente para o canto, onde jazia o monte de ossos iluminados pela luz rubra dos archotes.
Teria sido um sonho?
Ou, tão somente, fruto de sua imaginação abalada pelos nervos excitados?
Ou, realmente, as almas atormentadas dos executados apareceram para pedir orações.
Pena que se assustara com os fantasmas e desmaiara.
Assim pensando, resolveu, daquele momento em diante, permanecer calmo, ter sangue frio e não dar vazão aos nervos.
Com energia e precaução, Henry e os companheiros decidiram, antes de tudo, assegurar para si um local mais confortável que o fundo do abismo em que estavam, onde o ar era poluído.
Com esse objectivo, antes de descerem definitivamente para lá, estudaram, com cuidado, um local para a permanência.
Para a execução do plano audacioso imaginado por Khristofor e aprovado por Henry, que consistia em cavar uma passagem subterrânea sob Narva e penetrar na fortaleza inimiga, era preciso estar convicto da exactidão da direcção e profundidade da passagem, considerando, de um modo geral, a viabilidade técnica da realização dos numerosos detalhes que se apresentavam.
Durante estas pesquisas preliminares, Barenkhaupt descobriu que um dos subterrâneos do castelo, praticamente, alcançava o fundo do abismo.
Neste subterrâneo, outrora ocorrera um drama terrível e sangrento entre dois cavaleiros da Ordem, por causa de uma mulher, que eles raptaram e disputaram entre si.
Tinha-se em conta que eles estivessem enfeitiçados, pois desde que os dois cavaleiros lá morreram e sob a influência deste exemplo nefasto, aconteceram muitos suicídios e os suicidas, cada vez mais, escolhiam exactamente o subterrâneo fatídico para a execução de seus intentos.
Sabendo disso, embora no subterrâneo houvesse uma quantidade enorme de objectos diversos e antigas armas de guerra, o grão-mestre da Ordem mandou emparedar sua entrada, não tocando em nada.
Henry resolveu utilizar esse mesmo subterrâneo, para lá instalar-se com seus companheiros, acreditando que naquele lugar, ninguém os incomodaria e qualquer ruído suspeito seria atribuído aos fantasmas.
Seu primeiro trabalho era abrir na muralha uma passagem pela qual pudessem penetrar no local escolhido.
Graças á assiduidade e energia, o trabalho avançou com rapidez e, depois de três semanas, atingiram o subterrâneo, ficando surpresos com o que lá encontraram.
Acontece, que os cavaleiros criminosos, armazenaram lá para a mulher amada, muitas coisas que proporcionaram uma comodidade inesperada para a vida de nossos enclausurados.
Além disso, o subterrâneo tinha uma vantagem preciosa:
sua pequena janela redonda se abria sobre Narva e dava acesso ao ar fresco.
No canto mais afastado da janela, com auxílio de madeiras de velhas máquinas de guerra, panos rústicos de sacos e outros trapos encontrados, improvisaram algo parecido com um quarto pequeno, que, até certo ponto, os abrigava do frio.
Um tripé grande de ferro com um braseiro, que deveria servir de fogão, duas cadeiras, uma cama de ferro, uma lâmpada pendurada e um grande tapete grosso, transmitiam à cova uma parca ideia de conforto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 26, 2017 8:21 pm

Depois de arrumarem a moradia, começaram a escavação do caminho subterrâneo.
Sem considerar o horror da situação e as visões que o perseguiram e atormentaram na sinistra noite, Henry, readquirindo as forças e a calma necessárias, sentia-se consolado pelo trabalho e a esperança de saciar sua sede de vingança.
Ocasionalmente, reparou que, enquanto o fogo ardia, não havia ruídos ou fantasmas, o que lhe permitiu adoptar medidas adequadas para afastar este transtorno.
Todos os dias, ao meio-dia, uma grande canastra fechada era baixada por uma corda e fornecia aos enclausurados sua alimentação diária.
Esse minuto era sempre uma festa para eles.
A canastra era vista como uma enviada superior da pátria abençoada, onde no céu azul brilhava o sol, que, às vezes, deixava um raio perdido penetrar naquela escuridão sepulcral da prisão voluntária.
A canastra também servia de comunicação entre eles e o amigo fornecedor de mantimentos, o irmão mais novo de Khristofor.
Quando Barenkhaupt queria receber algo, colocava na canastra um recado e logo no dia seguinte, seu pedido era atendido.
Por um desses recados, foram-lhe enviados um grande crucifixo, uma lâmpada e uma reserva de óleo.
Na mesma tarde, o crucifixo foi colocado em um nicho esculpido especialmente para ele e a lâmpada ardendo a noite inteira, pela primeira vez, iluminou com sua luz fraca o subterrâneo, onde ressoavam os gemidos e gritos de agonia.
Desde esse momento, as noites permaneceram tranquilas e Henry e os companheiros, agora sem qualquer obstáculo, puderam continuar sua tarefa pesada e fatigante.
O caminho subterrâneo avançava lentamente, mas os trabalhadores já ouviam, sobre suas cabeças, as águas agitadas do Narva.
Absortos pela dedicação, não percebiam o tempo passar, quando um acontecimento triste os obrigou a interromper o trabalho e abateu com pesar o cavaleiro e Khristofor.
A vida anormal na cova, privada de luz e ar puro, o cansaço inevitável devido ao trabalho penoso em condições difíceis, quase impossíveis, tudo isso, abalou terrivelmente a saúde de Arnulf, cuja constituição física era, por natureza, mais fraca que a de Henry e Khristofor.
Enquanto tinha ainda forças para suportar, cuidadosamente, ocultava sua debilidade, mas por fim, enfraqueceu de tal forma, que já não tinha condições nem para levantar a picareta.
Sua cabeça rodou e suando frio tomado por uma comoção nervosa, desmaiou.
Barenkhaupt e Khristofor assustaram-se muito, carregaram o doente para o quarto no subterrâneo e o colocaram na cama de Henry.
Agasalharam Arnulf com a coberta, despejaram-lhe vinho na boca e esfregaram, fortemente, sua mãos e pés.
Mas, só depois de muito tempo é que conseguiram fazê-lo voltar a si.
Estava claro que seu fim se aproximava.
— O Senhor não me permitiu terminar nosso trabalho e vingar a morte daqueles que me foram caros, — murmurou o moribundo.
Eu queria alcançar o crucifixo, meu bom amo.
Tu és o mesmo que um sacerdote.
Ouve minha confissão e absolve meus pecados perante a cruz do Senhor.
Com a ajuda de Khristofor, Henry carregou o moribundo até o crucifixo, junto do qual Arnulf, como os primeiros cristãos, confessou em voz alta todos os seus pecados; Barenkhaupt, profundamente emocionado, o absolveu.
Esgotado pelo esforço e emoção, Arnulf caiu em sonolência e apatia.
De repente, Henry, que não abandonara o moribundo, ouviu seu murmúrio:
— Oh! Como gostaria de mais uma vez ver o céu, o sol, respirar o ar puro e admirar a relva.
— Caso queiras, fiel companheiro, tocarei a sineta.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 26, 2017 8:21 pm

Amarrar-te-emos ao cadafalso, para que não caias, e desta forma, o teu desejo será atendido.
Talvez, lá em cima, ainda consigas te restabelecer, disse Barenkhaupt, com lágrimas nos olhos.
Uma expressão de alegria aflorou ao rosto pálido do moribundo.
— Agradeço-te, meu bom senhor!
Obrigado por entenderes o desejo, que não me atrevi expressar.
Já não mais me restabelecerei.
Sinto a proximidade da morte mas meu corpo não será privado de um enterro cristão e descansará na terra abençoada de minha pátria.
Sobre minha sepultura, brilhará o sol e cantarão os pássaros.
Henry inclinou-se e beijou a fronte do moribundo.
— Estejas vivo ou morto, subirás para o mundo de Deus, meu amigo fiel!
Obrigado pelo teu serviço!
O som forte de aviso da sineta do abismo, como era denominado aquele lugar, alarmou todo o castelo.
O vigia, que morava num quarto ao lado do acesso para o "sepulcro", terrivelmente abalado, dirigiu-se ao cavaleiro, comandante da fortaleza e comunicou que os enterrados-vivos no abismo, praticamente esquecidos, depois de quase quatro anos, apresentavam finalmente, um sinal.
Os cavaleiros, o capelão do castelo e inclusive alguns cidadãos se reuniram precipitadamente.
Chegou também Arend, irmão de Khristofor, que não cabia em si de alegria com a ideia de que, novamente, veria os três intrépidos trabalhadores.
Somente ele conhecia o verdadeiro objectivo da permanência deles no "sepulcro", mas, tendo jurado total fidelidade, nunca, nem com indícios, revelou o segredo que lhe fora confiado.
Todos se juntaram perto da porta e, com ansiedade, olhavam curiosos para a corrente, que lentamente se enrolava no sarilho.
Finalmente, balançando-se em silêncio, surgiu o cadafalso de madeira e, ao invés de três, nele, deitado, atado ao tablado, estava somente um.
Mas quem seria aquele velho extenuado, com cabelos grisalhos, rosto enrugado e vestido em farrapos?
Ninguém reconheceu Arnulf, mas, na primeira olhada, ficou claro para todos, que se tratava de um moribundo.
Desataram-no com cuidado e carregaram-no para o pátio, procurando fazê-lo voltar a si, antes de levá-lo ao quarto.
Arnulf via esmaecidamente os rostos assustados e surpresos dos cavaleiros que o cercavam.
Porém, quando o colocaram no banco do pátio, à sombra de um carvalho frondoso, uma alegria indescritível iluminou-lhe o rosto e os olhos apagados reviveram.
De novo, via a relva, o céu, o ar diáfano e a luz do sol!
Notando seu esforço para levantar-se, o capelão o amparou oferecendo-lhe um crucifixo.
No momento preciso em que Arnulf, com fé e veneração, beijou a cruz, sua alma partiu.
Arnulf morreu, frustrando a curiosidade geral.
Até aquela ocasião, ninguém sabia nada sobre os efeitos da permanência dos corajosos homens no "sepulcro"; porém ficou claro para todos, os resultados consequentes daquela provação a que se impuseram voluntariamente.
Depois que transportaram o corpo do morto para a capela do castelo, todos se dispersaram silenciosamente.
O sepultamento realizou-se no dia seguinte.
Não querendo perdê-lo, estavam presentes muitos cavaleiros e uma grande quantidade de cidadãos.
A cerimónia distinguiu-se por tamanha solenidade, que mesmo o falecido jamais sonhara em vida.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 26, 2017 8:21 pm

Não obstante a grave impressão causada por este acontecimento, em pouco tempo, começaram a esquecê-lo.
Como Barenkhaupt e Khristofor não deram nenhum sinal, com o passar do tempo, também deixaram de pensar neles.
Não os esqueceu contudo, o fiel Arend, fornecedor diário da canastra com provisões e vigia cuidadoso do sino, orientado a dar o alarme quando soasse.
Durante estes anos, a vida de Olga transcorrera feliz e em paz. Do voievoda, deu à luz dois filhos.
Marido e mulher amavam com paixão os meninos, embora não os privilegiassem perante os mais velhos.
Boris, ou na verdade Otton Barenkhaupt, era agora um rapaz de 17 anos, muito parecido com o pai.
Os mesmos cabelos negros de Henry, o mesmo nariz afilado e a mesma coragem e amor às aventuras, porém a educação recebida deu a seu carácter outra nuance.
De sua infância, Otton guardara somente uma vaga lembrança da figura do pai, que restara gravada em sua memória.
Reportava-se àquele instante em que ele quase matara sua mãe quando a atacara com um golpe de punhal.
O rosto desfigurado e ensanguentado de Barenkhaupt, sua luta furiosa com Ivan Andreievitch e todo o quadro sombrio da briga, juntamente com a casa em chamas, deixaram na criança uma impressão indelével; em seu coração infantil, tinha o pai como culpado de tudo o que se passava e guardava dele uma lembrança detestável.
Por isso, adorava o avô e o padrasto, cuja bondade e condescendência para com ele eram ilimitadas.
Tornou-se um russo ortodoxo de corpo e alma.
Odiava os alemães com tal sinceridade, que para aqueles que sabiam de sua ascendência, era quase cómico ver tão puro patriotismo russo naquele filho do cavaleiro livónio.
Natacha tornou-se uma moça encantadora e relacionava-se muito bem com os irmãos.
Olga morava ora com o pai, ora em Ivangorod, mas preferia viver em Novogorod, preferência, também compartilhada pelos filhos.
Para eles era muito agradável correr e brincar nos grandes jardins do velho voievoda, que nunca os repreendia pelo barulho, vozerio e risos; ao contrário, florescia de felicidade, quando era cercado pelos netos.
Olga nutria por Ivangorod preconceitos devido a sua proximidade a Narva, que lhe despertavam sobre o primeiro casamento lembranças duras, que sufocavam seu coração com recordações angustiosas.
Não que ela temesse algo, pois para ela, Barenkhaupt estava morto, caso contrário, tinha certeza de que há muito já teria aparecido para se vingar; a razão dessa ojeriza era um sonho ocorrido na primeira noite que, como futura esposa de Koly tchev, dormira em Ivangorod:
De algum lugar da terra, ela viu Henry surgir, agarrá-la e levá-la a um abismo sombrio.
Em vão tentava escapar do horror insano.
A mão de ferro de Barenkhaupt a jogou na terra húmida e fria.
Depois sentindo uma dor aguda no flanco, gritou estridentemente e acordou, banhada em suor.
Este sonho, que Ivan Andreievitch achou cómico, causou nela uma impressão tão forte que Ivangorod se lhe tornou repulsiva.
Frequentemente, rogava ao marido para se mudarem.
Largaria ele o serviço em definitivo e partiriam para a região de Moscou.
Ivan Andreievitch, por muito tempo, permaneceu surdo aos pedidos da esposa.
Ele amava o serviço e a fortaleza que governava, mas quando um antigo ferimento começou a molestá-lo, lhe veio a ideia de pedir ao Grão-Senhor uma licença para descanso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Fev 26, 2017 8:21 pm

Como tudo estava calmo e os cavaleiros livónios também tinham-se aquietado, ele poderia confiar a província a outro boiardo e viajar a Moscou para repousar e por em ordem seus negócios.
A princípio, durante sua ausência, queria enviar a família para Novogorod.
mas desistiu da ideia, devido a impossibilidade de viagem de uma das crianças, que mal tinha-se recuperado de uma doença perigosa.
Nenhum perigo ameaçava a família.
Em Ivangorod, haviam muitos soldados, a fortaleza era fortemente guardada e também os arredores eram vigiados por uma significativa tropa de guerreiros.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 8:14 pm

CAPÍTULO 4

Durante alguns dias, após o episódio com Arnulf, o trabalho no sepulcro transcorreu devagar.
A tristeza e o desânimo dominaram Henry e Khristofor.
Eles sentiam a ausência do companheiro fiel e a realização do trabalho idealizado tornou-se mais penosa.
Não obstante sua natureza intrépida, Barenkhaupt e seu escudeiro foram atingidos pela fraqueza espiritual.
Mais sombrios e silenciosos, pegaram a pá e a picareta e o trabalho, embora lentamente, prosseguiu.
Finalmente chegou o trecho em que a passagem subterrânea alcançou a margem oposta do rio Narva.
Pelo plano traçado pelos cavaleiros, o túnel começava a subir.
Agora, o trabalho exigia uma enorme cautela, porque eles se achavam no interior da fortaleza inimiga e corriam o risco de sair em algum ponto indesejável e serem descobertos.
Então, todos os esforços e sofrimentos de vários anos cairiam por terra.
Assim, trabalhavam principalmente durante a noite, movimentando-se como toupeiras e fazendo um grande esforço para não serem ouvidos.
Enfim, numa noite, a pá de Barenkhaupt encontrou o vazio.
O cavaleiro, com cuidado, escavou uma abertura através da qual podia passar a cabeça.
Com prazer respirou o ar fresco e perfumado e, depois, tentou orientar-se na escuridão.
Logo se apercebeu de que a sorte lhe era favorável, pois a abertura dera num muro bastante alto, onde, em volta, cresciam árvores e arbustos espessos.
Ao que tudo indicava, encontrava-se em algum jardim.
Henry, com impaciência, alargou a abertura, saiu descalço e, arrastando-se, atravessou a moita.
Não foi muito longe, mas conseguiu ver, que o jardim não era muito grande, estava junto de uma casa e, bastante próximo, havia um portão largo, trancado com um simples ferrolho.
Como um gato, deslizou até o portão e viu que ele dava para uma ruela vazia perto da muralha da fortaleza.
Um sorriso de satisfação brotou em seu rosto.
Daqui, era possível penetrar no próprio coração da fortaleza e voltar, sem que o inimigo suspeitasse.
Retornando ao subterrâneo, Barenkhaupt pediu a Khristofor alguns conselhos; então, resolveram alargar a abertura e construir uma porta levadiça, camuflada com grama.
Depois de duas noites, o trabalho ficou pronto.
Barenkhaupt, deixando Khristofor de guarda na saída, foi até o jardim para tentar descobrir a quem pertencia aquela casa.
A noite estava escura e sem lua e Barenkhaupt, descalço, como uma sombra, penetrou nela encontrando um balcão de madeira que tinha dois bancos laterais.
A porta do balcão não estava trancada e Henry projectou-se num grande cómodo iluminado por uma lâmpada, cuja mesa estava servida.
Dali, duas portas conduziam a outros cómodos e ele hesitou em qual delas escolher para conseguir informações e não ser apanhado.
A primeira porta dava para um corredor que, supostamente, conduziria ao quarto dos criados:
a outra, dava para um quarto ricamente decorado onde, pelo chão, espalhavam-se brinquedos.
Devido o silêncio, profundo e alentador, e as luzes das lâmpadas acesas dos ícones, Henry pode, facilmente, continuar suas pesquisas.
Depois de levantar uma cortina pesada, inesperadamente, se encontrou num dormitório.
Em sua frente, em um canto, estavam pendurados alguns ícones grandes, com molduras douradas, decoradas com pedras preciosas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 8:14 pm

A luz suave das lâmpadas penduradas na frente das imagens iluminavam os escritos bizantinos dos santos, cujos olhos imóveis pareciam observar severamente o audacioso invasor.
Ele se inclinou para ver melhor a adormecida, e de repente, cambaleando, recuou, mal contendo um grito de surpresa.
Naquele minuto, parou como um ébrio, apoiando-se contra o umbral da porta.
Era Rosalinda que dormia: a traidora que o condenara a tais suplícios. O próprio anjo da guarda o guiara e conduzira directo ao objectivo: a casa do raptor de sua felicidade!
Retendo a respiração, Henry se dirigiu a uma toalha bordada, pendurada na parede, e, depois, retornou à cama, segurando com uma das mãos a toalha e, com a outra, um pequeno punhal que sacou do cinturão.
Veio-lhe um pensamento, talvez "ele" estivesse aqui, mas, devido à escuridão, Henry não o tivesse notado e sua mão tremia face ao desejo insensato de vazar os olhos do feliz rival.
Mas não! Rosalinda estava só.
E como estava bela! Os anos passados não lhe deixaram nenhum vestígio.
Apenas agora era uma mulher em todo o florescimento de sua beleza e não a criança delicada e submissa que fora sua esposa, observava naquele instante Barenkhaupt.
Um ódio profundo e uma paixão desesperada tomaram sua alma e a raiva rapidamente matou o resto do amor.
Tapando agilmente a boca da adormecida com a toalha e com a outra extremidade cobrindo seus olhos, ele a agarrou nos braços, levando-a para fora do quarto, apesar da resistência enérgica e desesperada de Olga, que despertara bruscamente.
Mas o que podia fazer face às mãos de ferro que a seguravam?
Depois de cinco minutos, Barenkhaupt desapareceu com sua vítima para a passagem subterrânea, onde Khristofor, logo em seguida, fechou a porta levadiça.
— Vê quem eu trouxe!
A própria traidora.
Com um único golpe, acertei o inimigo directo no coração!
Olga desmaiou e estava imóvel nas mãos de seu raptor.
Chegando ao "sepulcro", Henry colocou sobre a terra sua presa e tirou a toalha que a envolvia.
Ele a olhava com alegria profunda.
— Finalmente, chegou à parte por muito tempo desejada da vingança!
Agora estás em minhas mãos, traidora desprezível, dar-te-ei suplícios tais que repararão tudo aquilo que suportei!
Depois, voltando-se para Khristofor, ordenou:
— Arma-te, Khristofor, ajuda-me, ainda hoje à noite retornaremos ao mundo dos vivos, porque nosso trabalho está perfeito.
Antes, temos que fazer a bela amada do voievoda recobrar os sentidos e instalá-la aqui com o mesmo conforto de que usufruímos, finalizou sorrindo.
Henry vestiu sua armadura enferrujada e aproximando-se do nicho onde estava o crucifixo e ardia a lâmpada, fixou-a na parede com um malhadeiro.
Depois, pegando uma caneca com água, borrifou o rosto de Olga.
Esta estremeceu e abriu os olhos.
Estupefacta e muda, olhava para ele.
Quem seria aquele homem, vestido com uma armadura enferrujada, de barba descuidada e cabelos grisalhos, cujas melenas se lhe escapavam pelo capacete?
Seu rosto pálido e extenuado era iluminado por um par fumegante de olhos selvagens e maus, que a fitavam.
Neste meio tempo, apesar da mudança horrível na aparência de Henry, Olga o reconheceu.
— Henry? Estás vivo! — gritou ela com horror.
— Ah! Reconheceste-me, minha maravilhosa e fiel esposa? Não esqueceste meu nome nos braços de teu amante? — disse Barenkhaupt, soltando uma gargalhada feroz.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 8:15 pm

— Perdoa-me, Henry!
Pensava que estavas morto e retornei à casa paterna.
— murmurou Olga com a voz desanimada, sobressaltada sob o olhar duro, repleto de ódio do marido.
— Pensavas que morri?
E nem perdeste, claro, tempo para ter certeza disto, imprestável!
Rompendo com todas as leis de Deus e dos homens, ousaste, com marido vivo, casar-te com outro, abjurando teu dever e tua fé. — respondeu com desprezo Henry.
— Mas chegou a hora da vingança.— continuou ele.
Agora, pagar-me-ás por todo o ciúme e sofrimentos infernais, pelos quais passei!
Agora, este é teu tecto conjugal, pois esta cova fétida, durante longos anos, serviu-me como moradia.
Com minhas próprias mãos, cavei um caminho até ti e, de agora em diante, morarás no fundo deste abismo, enquanto não sucumbires, enquanto não murchar tua beleza, que deleitava teu amante, enquanto não embranquecerem teus cabelos, como embranquecerem os meus, enquanto tua pele acetinada não se cobrir de rugas e as lágrimas ofuscarem os olhos infiéis que roubaram minha alma!
Enlouquecida de terror, Olga se lançou de joelhos, estendendo-lhe a mão.
— Clemência! — suplicou.
— Clemência?
Ainda tens coragem de pedir clemencia!?
Por piedade, poderia matar-te, porque a morte seria uma libertação, mas não te concederei esta graça.
Penarás aqui, a alguns passos de teu amante, que jamais suspeitará em que lugar te encontras!
Vigia, como um cão acorrentado, este lugar terrível, onde muito sofri devido ao frio, às trevas e às privações do corpo e da alma!
Agarrando a corrente presa à parede, Henry envolveu a cintura de Olga e, com golpes de martelo, prendeu firmemente os anéis.
Depois de colocar sobre uma pedra grande um pedaço de pão e uma caneca com água, depositou óleo na lâmpada.
— Reza ao Cristo para que te livre de teu pecado. — disse com desprezo, dirigindo-se a Olga emudecida de pavor.
Para que não te sintas sozinha, eis companheiros para ti.
Lá, à esquerda, um monte de ossos, e aqui — ele pegou um crânio e o colocou no nicho sob o crucifixo — "para lembrar os costumes" dissertará para ti sobre o perecimento da felicidade humana.
Afastando-se de Olga, Henry puxou a corda do sino.
De longe, ouvia-se o tilintar tristonho, que tirou Olga de seu torpor.
Horrorizada com a ideia de ficar só naquele terrível subterrâneo, repleto de esqueletos, ela se pôs a soluçar.
— Piedade, Henry! — exclamou.
Não me deixes!
A vida aqui é pior do que qualquer tortura.
Tenho pavor de estar entre estes esqueletos!
Encostando-se na parede e cruzando os braços, Barenkhaupt, com satisfação selvagem, ouvia as súplicas dela!
O amor, sob a influência do ciúme e ódio, fê-lo severo e inflexível.
— A piedade que tenho por ti é a mesma que tiveste por mim.
Abandonar-te-ei, como me abandonaste.
Se a solidão te assusta, então, trarei para ti o cadáver de teu amante; tem paciência, é só questão de alguns dias.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 8:15 pm

Vou buscar teu adorado e nada mais vos separará, nem mesmo os vermes que irão devorar teu corpo, com os quais tu poderás disputá-lo o quanto quiseres.
Um forte rangido de corrente interrompeu suas palavras.
Passaram-se alguns minutos e surgiu a plataforma que parou no fundo do abismo.
O cavaleiro, acompanhado por Khristofor, subiu nela.
— Até breve, Rosalinda!
Medita bem e não temas morrer de fome.
Khristofor diariamente te trará alimento.
Mas Olga não ouviu.
Um desmaio profundo e benéfico afrouxou em seu pensamento todo o horror do destino que a aguardava.
O aviso do sino do "sepulcro" desta vez soou mais forte.
Embora já fosse noite:
os cavaleiros acordaram e, aos poucos, reuniram-se no abismo.
A plataforma de madeira foi baixada com rapidez e todos os presentes, aflitos e impacientes, aguardavam sua subida de volta.
Quem ela trará consigo?
Novamente um cadáver, que não revela os segredos dos mártires que padecem voluntariamente sob a terra?
Mas, não! A luz avermelhada dos archotes iluminou duas figuras masculinas, paradas na plataforma.
Barenkhaupt se aproximou dos cavaleiros e estendeu-lhes a mão.
— Salve, irmãos! — disse-lhes com sua voz profunda.
Todos, com interesse e surpresa, olharam a terrível transformação que ocorreu em sua aparência.
O homem forte, jovem e bonito com olhar ardente e cabelos negros como as asas de um corvo, converteu-se em um velho grisalho com rugas e rosto cor de terra.
Henry percebeu a impressão acarretada nos presentes e um sorriso satisfeito, embora amargo, surgiu em seu rosto.
— Irmãos! Gostaria de ir ao templo, do qual há muito tempo, fui privado, e lá rezar a Deus e agradecer-lhe o amparo recebido durante minha pesada provação, disse após as primeiras saudações.
No corredor, veio correndo a seu encontro o capelão, que o levou ao sacerdote para abençoá-lo.
Henry caiu de joelhos perante o altar e, orando fervorosamente, agradeceu ao Altíssimo por seu amparo e ajuda na realização completa da vingança.
Duro e vingativo, não se deu conta de que tal oração poderia não ser agradável a Deus.
Mas seu objectivo foi alcançado: a mulher que nunca cessou de amar.
Estava agora em seu poder, e, além do mais, fora aberto o caminho, pelo qual poderia agarrar o seu rival e severamente vingar-se dele e de seus conterrâneos por todos os sofrimentos passados.
A todos estes sucessos brilhantes, acrescentou a ajuda de Deus, esquecendo o ditado:
"A mim a vingança, e darei os fundamentos..."
Depois de cumprido o dever religioso, Henry passou pelos cavaleiros que o acompanhavam e foi a seu quarto, que se conservara inviolável.
Pelo caminho, Henry soube que o grão mestre da Ordem, ocasionalmente, encontrava-se de novo em Narva, por isto, pediu para ficar só, a fim de descansar e colocar os pensamentos em ordem.
Mandou servir Khristofor e ele mesmo jantou por tudo o que não tinha jantado durante os dez últimos anos; depois foi dormir, ordenando um tempo pré-determinado para despertá-lo.
Ele se levantou recomposto e contente, lavou-se, barbeou-se, cortou os cabelos e vestiu uma roupa nova.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 8:15 pm

Transformando-se de tal forma, Henry novamente adquiriu a aparência de um nobre cavaleiro; um sentimento solene encheu sua alma e, inclusive, suavizou, em parte, os traços das privações, do trabalho e da vida insuportável no subterrâneo.
O grão-mestre recebeu amavelmente o cavaleiro, e felicitando-o pelo término da dura empreitada, pelo que Henry agradeceu, confessando a verdadeira razão de sua permanência no "sepulcro", comunicando sobre o término bem sucedido da passagem subterrânea que ligava Narva a Ivangorod, submetendo ao poder da Ordem a fortaleza inimiga.
Solicitou também ao grão-mestre permissão para Khristofor melhorar o acesso ao subterrâneo, para que fosse possível ir para lá directo do castelo e, inclusive, pediu para que o velho pudesse viver junto à entrada e deixar sob sua custódia o trabalho, ao qual dedicou dez anos de sua vida.
O grão-mestre ficou surpreso e admirado com a narração.
Atendeu aos pedidos de Henry e, imediatamente, convocou os cavaleiros, bispo e burgomestre de Narva para uma reunião secreta, cuja pauta era o trabalho colossal, realizado com sucesso pelo cavaleiro Barenkhaupt e seu valente companheiro.
Depois, com brados solenes dos presentes, o grão-mestre comunicou que elevava o digno Khristofor a cavaleiro e que, nesta mesma noite, festejar-se-ia com um banquete, o retorno à ordem dos fiéis e respeitosos irmãos.
A noite, na grande sala do castelo, junto a uma mesa fartamente servida, reuniu-se a corporação alegre e animada.
Henry ocupou o lugar de honra ao lado do grão-mestre.
No pescoço, usava uma corrente grossa, presenteada pelo burgomestre.
No outro final da mesa, entre os cavaleiros, irradiando felicidade, sentava solenemente Khristofor.
Durante a sobremesa, tomando um vinho de boa safra, Barenkhaupt, a pedido geral, descreveu detalhadamente sua vida e trabalho no "sepulcro".
Contando isto, provocou uma verdadeira tempestade de admiração, e que, em parte, recompensou ambos os heróis por seu sofrimento e esforço.
Sobre um detalhe, Barenkhaupt falou:
precisamente sobre aquele de que Olga se encontrava no "sepulcro".
Naquele instante, ninguém poderia atrapalhar sua vingança.
Uma vez que o conselho havia decidido, por enquanto, não empreender nada contra Ivangorod e sim aguardar um acontecimento propício para vingar-se da petulância russa, Henry sentiu-se perfeitamente tranquilo de que ninguém veria a jovem mulher e ninguém se emocionaria por suas súplicas e desespero.
Retornando do banquete, Henry deitou-se, mas a agitação provocadas por todas as inquietudes, não o deixou dormir e seus pensamentos de novo se voltaram para a ex-esposa.
Quantas lembranças dos tempos felizes ressurgiram em sua memória e ele, com dura satisfação, desenhou para si o quadro do actual sofrimento dela.
Mas a imaginação vingativa do cavaleiro, apesar de bastante engenhosa, estava longe do verdadeiro horror e desespero que Olga experimentara ao voltar a si.
Quando ela viu que se encontrava no fundo de um abismo fétido cercada por ossos humanos, um terror alucinante apoderou-se dela.
Soltando gritos dilacerantes, debatia-se desesperadamente, procurando libertar-se das correntes que a prendiam na parede, mas todo seu esforço foi em vão.
Suas forças fracas logo se esgotaram e ela caiu sobre a terra húmida.
Seu olhar assustado vagou pelos restos humanos que jaziam a sua volta, iluminados pela luz fraca e lúgubre das lâmpadas.
Os crânios sem cabelos, com olhos vazios, como máscaras, olhavam para ela e uma mão com longos dedos descarnados, sobressaindo do monte de ossos, parecia arrastar-se em sua direcção.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 8:15 pm

Com um suspiro rouco, Olga fechou os olhos e seu pensamento, com uma saudade desesperada, voltou-se ao marido e filhos.
O que pensaria, o que sentiria Ivan Andreievitch, quando hoje ou amanhã, voltando de Moscou, soubesse que ela misteriosamente, sem deixar sinal, desaparecera no meio da noite.
Nunca lhe chegaria à cabeça, que graças a uma esperteza incompreensível, simplesmente diabólica, aparecera o demónio, que julgavam morto e trouxera-a para cá para sucumbir de morte horripilante, a dois passos do homem amado.
De repente, Olga lembrou-se da promessa de Barenkhaupt de trazer-lhe o cadáver do marido.
Se ele puder penetrar no castelo, como penetrou em seus aposentos, então o esposo estaria realmente ameaçado de morte.
O que seria das crianças, infelizes órfãos?
Como agiria com elas este homem vingativo, sem coração, que, sem dúvida, odeia-as tão cruelmente como a seus pais?
Olga cruzou as mãos e, levantando os olhos para o crucifixo, começou a rezar e uma oração fervorosa saiu de sua alma agoniada.
Ela pediu ao Pai do Céu, não por ela, mas pelos seres amados, a quem confiava para que defendesse com Sua misericórdia.
Este arrebatamento apaixonado para o céu exauriu a força de Olga.
Os membros dela se congelaram, em contacto com a terra fria; a blusa fina de linho, sua única veste, há muito já se molhara com a umidade.
Sacudida pelo tremor, caiu em devaneio e, depois, efectivamente, perdeu os sentidos.
Na casa do voievoda, reinava a confusão.
Pela manhã, a fiel Irina, como de costume, foi aos aposentos de sua boiar da para despertá-la e ajudá-la a vestir-se e pode-se imaginar seu espanto, quando viu que o leito estava vazio.
Primeiro, Irina correu para o quarto das crianças, pensando que Olga despertara sozinha, mas lá também ninguém a vira.
Ao abrirem as cortinas, verificou-se que uma das almofadas estava no chão, a coberta caía desordenadamente e a caneca com leite, que Olga, ao despertar, tinha por hábito beber, estava entornada.
Além disto, num dos sapatos de couro vermelho, havia vestígios de manchas de areia.
Ao saberem que a mãe deles desaparecera, as crianças começaram a chorar e gritar intensamente.
Somente o mais velho, Boris, com 17 anos, decidiu ser indispensável empreender rapidamente a busca.
Ivan Andreievitch ainda não estava, então o menino correu ao boiardo, instalado na província de Koly tchev, e avisou-o do desaparecimento da mãe.
O boiardo, um guerreiro velho e experiente, imediatamente foi ao local dos acontecimentos: observando tudo, fez um interrogatório.
Mas a busca rigorosa revelou somente que os vestígios, como os do sapato, apresentavam-se também no tapete, cama, chão e no cómodo adjacente.
Verificou-se também que a toalha desaparecera.
Era evidente que arrancaram da cama, durante a noite, a jovem boiar da em camisola, pois todas as roupas, assim como as jóias na mesinha ao lado, estavam intactas.
Isto demonstrava que o raptor insolente não tinha como objectivo a pilhagem; a toalha havia sido levada, certamente, para amarrá-la.
Todos se perdiam em indagações.
Qual seria a intenção do raptor?
Como conseguira penetrar não só na fortaleza, mas inclusive na casa do próprio voievoda?
Ninguém viu e ouviu nada.
Todos os portões estavam trancados; os guardas ocupavam seus postos e nenhum deles percebeu o menor barulho suspeito.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 8:16 pm

Na manhã seguinte, após este dia funesto, Boris, terrivelmente desconcertado, sentou-se no banco à sombra das árvores e chorou amargamente.
O rapaz adorava a mãe e seu desaparecimento incompreensível e misterioso o levou ao desespero.
A atenção de Boris, sem querer, foi atraída pelo rosnado queixoso de seu cão de caça, que estava sentado a sua frente e mirava-o com seus olhos inteligentes, balançando a cauda impaciente; em sua boca, segurava um dos sapatos de Olga.
— Valente! Choras também pela mãezinha, que tanto te amava, mimava e acariciava! — murmurou Boris, passando a mão carinhosamente sobre a cabeça sedosa do cachorro.
O cão deu um salto e puxou Boris pelas vestes; depois, correndo de novo, retornava com uma inquietação visível.
Um pensamento repentino passou pela cabeça de Boris.
Talvez o cachorro desse com o rastro dos raptores ou, pelo menos, mostrasse a direcção pela qual fugiram, o que também já seria uma preciosa indicação.
Ele pegou o sapato e esfregou-o no focinho do animal.
— Procure, Valente!
Procura! — gritou.
O cão, com ganidos de alegria, correu à frente, parando, de tempos em tempos, para certificar-se de que Boris o seguia.
Atravessou o jardim, não saindo debaixo das sombras das árvores, e, depois, sem cessar de farejar a terra, desapareceu nos arbustos, junto à muralha.
Com o coração palpitante, Boris seguia e, com espanto, viu que, pelos arbustos, havia uma vereda aberta pela qual se podia passar sem ruído, não acarretando nenhuma inconveniência.
De repente, Boris estremeceu.
Na relva, estava o lenço branco de seda com franjas, que sua mãe usava normalmente quando estava resfriada.
Ainda, ontem à noite, ela o tinha, quando despediu-se dele.
Evidentemente, ele caiu, quando a carregavam por aqui.
Assim, graças ao cão, deu com a pista dos raptores.
Será que, com suas patas, o animal, arrastando-se poderia atravessar a muralha?
O cão parou e começou a cavar freneticamente a terra.
Boris examinava com atenção a região.
A grama parecia pisada e, depois de alguns minutos de buscas, o rapaz encontrou a porta levadiça, construída por Barenkhaupt, e, sem dificuldades, levantou-a, perante ele, descendo bruscamente, estendia-se um corredor escuro e estreito, pelo qual o cão correu sem a menor hesitação.
Não pensando nem por um minuto sobre o perigo, a que poderia sujeitar-se, Boris seguiu o cachorro.
Agora, só tinha uma intenção:
encontrar, de qualquer maneira, sua querida mãezinha.
A escuridão no corredor era tão grande que ele temia cair em algum buraco.
Então, Boris retrocedeu pegando um archote.
O cão corria sempre para frente, farejando o chão.
Desta forma, atravessaram a passagem subterrânea, subiram por uma abrupta elevação, e só não caíram em jazigos ou sepulturas, graças à luminosidade fraca, mas eficiente das lâmpadas fixadas na parede.
O cão, com um ganido alegre, correu para a coisa branca caída no chão, que se mexia e gemia fracamente.
— Mãezinha! Minha querida!
Jogaram-te nesta cova! — gritou Boris, reconhecendo a voz de Olga e correndo precipitadamente para ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 8:16 pm

Ele abraçou a mãe, cobrindo-a de beijos; esta estreitava-se ao filho, desfazendo-se em prantos.
Tocando a corrente gelada, ele se apavorou, vendo a mãe presa à parede, tremendo de frio, deitada na terra nua com os cabelos desgrenhados e a camisola estraçalhada e suja.
— O que significa isto, mãezinha? — com cólera, gritou Boris.
— Foi teu pai, o cavaleiro Barenkhaupt, quem fez isto!
Ele me capturou e atirou-me aqui. — Respondeu Olga baixinho.
Ele não está morto, como pensávamos, e agora vinga-se de mim, pela minha pretensa traição, condenando-me a uma morte lenta e horrível.
— Bruxo maldito, cruel como uma fera sanguinária!
Que direito tem ele sobre ti, depois de, perante meus olhos, tentar matar-te? — Murmurou Boris, procurando arrebentar a corrente.
Oh! Lembro-me bem de seu rosto abominável e ensanguentado, quando ele te golpeou.
É assim que o vejo agora; apesar de Andrei ter-me levado consigo, não posso lembrar-me dele sem tremor.
Mas fica calma, querida, libertar-te-ei!
Se não o puder fazer sozinho, trarei ajuda.
— Salva-me, minha criança!
Mais rápido, mais rápido! — Repetia Olga, tentando ajudar o filho.
Mas o elo sólido da corrente, fixado pela mão de ferro do cavaleiro, não cedia às forças deles.
Ambos estavam de tal modo ocupados, que não ouviram ruídos de passos e nem viram, que, na abertura da parede, surgiram dois homens.
Somente quando a luz avermelhada do archote iluminou o abismo, Boris virou-se rapidamente e Olga soltou um grito surdo.
Na abertura da parede, apareceram ainda mais dois, que pararam surpresos.
Eram Barenkhaupt, dois cavaleiros, antigos companheiros dele, que desejavam ver a passagem subterrânea e Khristofor, que trazia pão, água, um tapete de palha e uma capa grossa, pois Barenkhaupt não queria que, de imediato, a morte carregasse para sempre sua vítima.
Ele queria que ela penasse o maior tempo possível.
Descendo ao abismo, Henry contava a seus amigos sobre a traição da esposa e sua vingança.
Os cavaleiros amigos, claro, aprovaram sua atitude.
A traidora, que abjurou o marido e a santa fé católica, merecia sem dúvida, cada suplício.
Vendo um homem inclinado sobre sua vítima e ouvindo a língua russa, Henry deu um salto para frente e agarrou Boris pela gola.
— Ah! Cão moscovita!
Descobriste a passagem secreta!
Isto te custará a cabeça, esbravejou, tirando do cinto o punhal.
— Louco!
Não mates teu próprio filho! — gritou Olga.
Estupefacto, Barenkhaupt abaixou a mão e ficou gelado.
Seu olhar assustado vagueou pela figura do jovem alto e esbelto, iluminada pela luz do archote.
Sim, ela não mentira: aquele era realmente seu filho!
As mesmas características da família Barenkhaupt, o rosto de traços enérgicos, o nariz aquilino e os cabelos negros como as asas do corvo.
Somente a forma dos olhos, a cor e a expressão sonhadora faziam lembrar a mãe; porém, neste minuto, o rapaz exaltou-se e seu olhar corajoso e com ódio rapidamente se voltou para o pai.
— Então, por qual motivo hesitas em matar-me, maldito assassino?
Sabes, enquanto viver, defenderei minha mãe! — gritou Boris.
O cavaleiro nada respondeu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 8:16 pm

Talvez nem mesmo tivesse ouvido as palavras de Boris.
Nele assomou um caos completo de recordações, uma alegria insana e uma amargura indizível.
Em sua memória, passaram as cenas dos primeiros tempos depois do casamento, o nascimento do filho, do qual tanto se orgulhou e pelo qual tantos anos chorou.
O amor filial conduziu o menino ao calabouço.
Por isto, o filho agora estava com ele, que não mais ficaria sozinho na velhice e a antiga família Barenkhaupt não se extinguiria nele.
Arrebatado pela cólera e ódio, perdendo a paciência face ao silêncio de Barenkhaupt, Boris repetiu suas palavras e a ameaça de defender a mãe até a última gota de sangue.
Na primeira vez, falou em russo, mas, agora, temendo não ser compreendido, repetiu a fala em um alemão horrível, pois, apesar de tudo, lembrava-se desta língua e, às vezes, falava neste idioma com Irina e sua mãe.
Além disto, seu avô e também Koly tchev, por brincadeira, levavam-no como tradutor nas negociações com comerciantes e representantes alemães.
— Sim, este é teu filho, Barenkhaupt.
Apenas ele tem por ti pouco respeito.
O que pretendes fazer com ele? — rindo, perguntou um dos cavaleiros.
Henry endireitou-se e passou a mão pelo rosto.
— Ele frequentou uma boa escola, onde desaprendeu a amar e respeitar o pai! — retrucou amargamente.
Indagas, irmão, o que farei com ele?
Primeiramente, anunciá-lo-ei como meu prisioneiro e peço-te mandar trancá-lo na torre dos presos políticos.
Ele conhece o segredo da passagem subterrânea e oque mais deseja é revelá-lo.
Para seu próprio bem, ele tem que ser submetido a este incómodo.
Seu destino posterior dependerá somente dele.
— Por favor, leva Otton e tranca-o na torre.
Eu, antes de tudo, devo examinar a passagem subterrânea e tomar as medidas preventivas indispensáveis.
Boris voltou-se rapidamente e quis correr, mas não conseguiu dar três passos, pois foi agarrado e preso, não obstante sua desesperada reacção.
Ele não tinha uma arma e, num minuto, foi dominado.
Quando o rapaz foi conduzido, Henry voltou-se para Olga.
— Com qual direito, mulher desprezível e sem coração, tiraste-me o filho e transformaste-o em um inimigo? — disse com um tom cheio de indignação.
Por isto, também me pagarás!
Depois, dando as costas, desceu pela passagem subterrânea.
Ela estava intacta; concluída a verificação, fechou cuidadosamente a porta elevadiça, abandonada inteiramente aberta por Boris.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Fev 27, 2017 8:16 pm

CAPÍTULO 5

Os cavaleiros levaram Boris à torre, trancando-o em uma cela, montada com muito maior conforto que uma prisão comum.
Tinham pena do rapaz, ofuscado por uma infeliz coincidência.
Era o filho único do corajoso e infeliz Barenkhaupt, que realizara para a Ordem um serviço tão importante.
Boris, porém, não reconheceu como também não notou a atitude benévola que o privilegiava.
Com desespero, caiu na cadeira e derramou lágrimas amargas.
Como uma visão obsessiva, perseguia-o a figura da mãe querida, terna, mimada pelo marido e por todos que a cercavam e, agora, lançada, sozinha e sem roupas, naquela cova nojenta, presa à parede como uma ladra.
A plena certeza de sua impotência para libertá-la, ou mesmo, informar Ivan Andreievitch sobre o local de sua prisão, fizera com que perdesse a razão.
Como um tigre enjaulado, vagava pelo quarto, batendo a cabeça na parede e sacudindo a grossa grade de ferro fundido da janela gótica de seu cárcere.
Finalmente, suas forças exauriram e, inseguro, sentou-se na cadeira, começando a reflectir.
Pouco a pouco, retornaram-lhe a sensatez e sangue frio.
Compreendeu que gritos e lágrimas, armas comuns às mulheres e crianças, não lhe trariam nenhum proveito, e se quisesse libertar a mãe, então, agora, mais do que nunca, teria que ser necessariamente calmo, além de enérgico e esperto.
Alimentado por tais pensamentos Boris cuidadosamente examinou sua prisão.
Era um cómodo redondo bastante grande, no qual havia uma cama com colunas, decorada com cortinas violetas de lã, algumas cadeiras de carvalho com altos encostos entalhados e uma mesa.
A janela dava para os lados de Ivangorod e, daquela altura, era visível parte do interior da fortaleza russa.
Seu coração se afligia por aqueles que lá viviam, entre os quais alguns que considerava como parentes.
Novamente as lágrimas rolaram-lhe pelas faces, mas, virilmente, reprimiu-as indo deitar-se ao ouvir, atrás da porta, alguns passos.
Entrou o escudeiro e colocou sobre a mesa um jantar farto e uma jarra de vinho.
Boris não tocou em nada.
Estava muito confuso para sentir fome e do vinho, mesmo não sabendo a causa, desconfiava.
Por isto, continuou a sonhar, imaginando planos de fuga, cada um mais audacioso que o outro.
Surgiu-lhe, inclusive, o pensamento de que "Valente”, como fizera com ele, mostraria o caminho para Ivan Andreievitch, que logo deveria voltar de Moscou.
Mas, o que teria acontecido ao cão?
Isto, ele não sabia, a ideia de que o inteligente e fiel animal tivesse sido apanhado e morto encheu-lhe o coração de amarguras.
Inquietava-o, também, seu próprio destino.
O que lhe estaria preparando o futuro?
Seria obrigado, quem sabe, a lutar contra os russos?
Mas não! Ele preferia antes se deixar esquartejar a concordar em levantar a mão contra seus próximos, contra seus verdadeiros conterrâneos.
Ele sempre odiara esta fortaleza estranha como se pressentisse que, algum dia tornar-se-ia cativo dela e que, nesta situação, não poderia defender as pessoas queridas e parentes contra os cavaleiros livónios, que, no fundo da alma, detestavam seu avô, padrasto e todos os russos.
O relato de Irina sobre o rapto da avó, sobre a perfídia, a cobiça e crueldade dos cavaleiros da Ordem, há muito tempo lhe acarretara repugnância e desprezo por eles.
E. agora, estava em poder destes facínoras, entre os quais um dizendo-se seu pai.
Isto era intolerável.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 8:16 pm

O ranger da fechadura chamou a atenção de Boris.
Seria seu pai que viria vê-lo?
Apesar de toda sua indignação contra Barenkhaupt, este encontro o assustava e desagradava.
Entrou, não o pai, mas um outro cavaleiro tipicamente teutónico, alto e magro, com um rosto impassível, severo e arrogante.
— Levanta-te Otton Barenkhaupt!
Tenho que conversar contigo, disse calmamente, sentando-se à mesa, na qual o escudeiro colocara uma vela acesa.
O rapaz levantou-se e, com um olhar inimigo, fitou o cavaleiro.
— Meu nome é Boris Koly tchev!
— Tu és filho do cavaleiro Barenkhaupt e, pela lei de todos os países, somente os bastardos não tem o direito de levar o nome do pai.
Por acaso, pretendes este estatuto?
— Não! — Gritou Boris, inflamando-se.
— Neste caso, dirigir-me-ei a ti, pelo único nome ao qual tens direito.
Vamos ao assunto.
Ordenaram-me indagar-te de que forma descobriste a passagem subterrânea, cuja existência, nem mesmo os cidadãos conhecem.
Se sincero, pois, do contrário, saberemos obrigar-te a falar a verdade.
Além disto, lembra-te de que a mentira é a desonra de todo homem que se respeita.
Boris empalideceu.
Orgulhoso e nobre por natureza, desprezava a mentira, não obstante compreender que, no presente momento, não poderia dizer a verdade sem prejudicar a mãe e a si e perder, talvez, a última oportunidade de salvamento, ou seja, de que "Valente" mostrasse para alguém o segredo do caminho subterrâneo.
Tentando dar à sua história um tom de veracidade, Boris respondeu:
— O acaso ajudou-me a descobri-lo.
Desde a noite que desapareceu minha mãe, toda nossa casa se encontrava em uma agitação terrível, por isto, somente hoje, minha irmã Natacha notou que seu gatinho de estimação se havia perdido.
Ela pediu-me para procurá-lo, mas minha cabeça estava totalmente ocupada por outras coisas.
Descobri no jardim um canto solitário, deitei-me na grama e... — neste minuto, ele parou e... começou a chorar.
Derramar lágrimas pela mãe não é vergonha para um homem, com despeito, acrescentou, depois de notar um sorriso jocoso, quase perceptível no rosto do cavaleiro.
— Continua, meu filho!
Tuas lágrimas já se foram e não tens que ruborizar-te por elas, disse aquele.
Depois de um minuto de silêncio, Boris continuou:
— De repente, ouvi um miado perto de mim, lembrei-me do gatinho de Natacha e comecei a procurá-lo.
Era realmente ele.
Brincava com um pano branco, esforçando-se para rasgá-lo.
Aproximei-me e, com espanto, vi que era a extremidade do lenço de mamãe, que parecia sair da terra.
Tentando puxar o lenço, deparei com uma porta levadiça coberta por grama e, atrás dela, vi o caminho subterrâneo, de cuja existência nem eu, nem meu padrasto suspeitávamos, pois, do contrário, ele teria ordenado entulhá-la.
Corri ao galpão em busca de um archote, acendi e voltei à abertura.
Por uma simples curiosidade, desci e, de repente, avistei minha mãe, que, claro, de forma alguma esperava encontrar naquela cova infecta.
Jamais acreditaria que um homem poderia vingar-se tão vergonhosa e indignamente de uma mulher.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 8:16 pm

Eis o lenço de mamãe como prova de que falei a verdade.
Provavelmente, ele caiu, quando o malvado o arrastou para o subterrâneo! — terminou Boris, tirando do bolso o lenço de seda.
— Como me fazes rir, Otton Barenkhaupt, falando assim de teu pai!
Ele tem o direito incontestável de castigar e mesmo matar a esposa infiel, que cometeu o crime de conviver com um inimigo e atreveu-se a desobedecer a todas as leis de Deus e dos homens, casando-se com outro, apesar de ter marido vivo.
Tua mãe mereceu o castigo: há onze anos, muito sangue correu em Narva por sua culpa.
Sua felicidade foi não ter conseguido informar a ninguém sobre essa descoberta, pois, do contrário, serias julgado como traidor.
— De que forma poderia ser considerado traidor, pois sou russo e meu dever, na medida de minhas forças, é ajudar meus parentes.
— Nisto, querido menino, enganas-te!
O filho do cavaleiro Barenkhaupt não é nem pode ser russo.
Aliás, este é um assunto para teu pai:
fazer-te voltar à razão e entender que tua fidelidade aos inimigos é uma forma de traição.
Por enquanto, até breve!
O cavaleiro levantou-se, acenou, baixando a cabeça e saiu do quarto.
Boris ficou só.
Estava mortalmente deprimido.
Ele se sentia como um rato que caíra em uma armadilha e prevendo que o esperava uma luta pesada, resolvera que preferia morrer a trair sua fé e família.
Aqui entre os alemães, sentia-se estranho.
Revoltava-o profundamente a acusação imputada a sua mãe.
Denominavam-na amante do marido legal!
A mãe acreditava na morte de Barenkhaupt, que nunca dera o menor sinal de vida e também, no final das contas, o retorno à religião antiga era o equivalente ao divórcio.
E sua preferência por Ivan1 Andreievitch era absolutamente natural, pois era bonito, bom, justo com todas as pessoas, amava seus parentes, era condescendente com os subalternos e caridoso com os pobres, que nunca ficaram sem sua ajuda.
Comparando imparcialmente sua beleza suave e agradável com a figura rude do pai e seu olhar feroz, no fundo da alma, aprovava a escolha da mãe.
Boris já não era criança e compreendia que a mulher bonita e sedutora incutira no cavaleiro um amor forte, e que, atrás do ódio de Henry, ocultavam-se um ciúme selvagem e um amor próprio ofendido.
E poderia sua mãe amar alguém que, para ela, já levantara a mão?
Seu coração se angustiava tristemente imaginando o perigo terrível que representava para Ivangorod a passagem subterrânea entre as duas fortalezas e de cuja existência seu padrasto nem desconfiava.
Mas dela os cavaleiros nunca se serviriam, pois iriam ao ataque ao invés de invadir de surpresa a fortaleza russa bem em seu coração. Tudo isto era segredo.
Esgotado extremamente pelas inquietações angustiantes, Boris se deitou e rapidamente dormiu.
O dia seguinte arrastou-se e pareceu a Boris terrivelmente demorado.
Ele o passou junto à janela, observando Ivangorod, onde tudo parecia estar calmo.
Começou a anoitecer, o escudeiro que o servia entrou calado, acendendo a vela.
Boris sobriamente sentou-se à mesa, passou a mão pela cabeça e pensou na situação funesta da mãe infeliz naquele calabouço abominável.
De repente, atrás da porta, ouviram-se passos e a voz de alguém falando, mas Boris não entendia as palavras.
A porta abriu-se e, na soleira, surgiu a figura alta do cavaleiro Barenkhaupt.
O dia transcorreu muito pesado também para Henry.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 8:16 pm

Ele se sentia enfermo da alma e do corpo.
Nele apareceram, com nova intensidade, as dores sentidas nos dois últimos anos de sua permanência sob a terra.
Mas Henry não era daquelas pessoas que facilmente se deixavam abater por sofrimentos físicos.
Torturava-o a ideia de que seu filho único se tornara um estranho, ou, até mesmo, um inimigo.
O cavaleiro que interrogara Boris transmitiu a Henry que o rapaz dissera que era russo e queria permanecer assim.
Apesar de seu carácter feroz, orgulhoso e severo, Henry sentia o vazio profundo de sua vida, preenchida somente por uma vingança que lhe sacrificara os melhores anos de existência, juventude, força e saúde.
A única lembrança terna e luminosa era a recordação do garoto pequeno, rechonchudo que carregara nos braços e que, ao balançar-lhe o berço, surpreendera seu primeiro sorriso.
Este futuro representante de sua antiga família Henry amava com toda a intensidade de que era capaz.
Este filho, que ele supunha morto, agora o reencontrara por milagre, mas este mesmo filho o rejeitava e, talvez o odiasse.
— Filhinho, a culpa não é tua, claro, — reflectiu.
Seria ele culpado se lhe sujaram o nome e a lembrança do pai, matando-lhe o amor filial?
Não, não é ele o culpado; mas, culpados, sim, são aqueles estrangeiros que alteraram sua carne e sangue para torná-lo inimigo; culpada é também aquela que não só renunciara ao marido, como também ensinara o filho a odiar o pai.
Oh! Como ele os odiara!
Qual vingança planejar para castigá-los?
A consciência lhe era pesada, mas finalmente, resolvera ir ao encontro do filho para tentar devolver-lhe a razão e retomá-lo ao dever filial.
Com a entrada do pai, Boris levantou-se, medindo-o com um olhar sombrio e inimigo.
O que queria dele este homem, que ele não considerava pai, cuja presença fazia silenciar seu coração?
Talvez o carrasco cruel e assassino de uma mulher indefesa imagine obrigá-lo a renunciar àqueles que ele ama como se fossem seu próprio sangue, sua própria família?
Que experimente!
E Barenkhaupt olhou para Boris também sombriamente e seu coração se angustiava no peito.
Sim, este era verdadeiramente seu filho!
Pela postura, com as sobrancelhas carregadas, o olhar colérico e hostil, a expressão orgulhosa e teimosa no rosto: o rapaz era seu retrato vivo.
Ele era assim, quando jovem.
E este filho, depois de onze anos de separação, não dera um passo em sua direcção, não lhe estendera a mão e não o chamara de pai, este nome terno, que tão agradavelmente soaria nos ouvidos do cavaleiro e talvez abrandasse seu coração.
Reinava um silêncio penoso.
O cavaleiro respirava pesadamente.
Era como se o ar não lhe bastasse e as pernas estivessem presas ao solo.
Barenkhaupt, com dificuldade, lentamente, deu alguns passos para frente e caiu na cadeira.
— Será que tu, Otton, tornas-te tão estranho a ponto de não encontrares palavras para teu pai e teres o coração surdo a meu apelo? — disse Henry com a voz apagada.
Ou, talvez, não me reconheça?
Eras ainda pequeno quando te tiraram de mim, na época em que me despojaram de tudo.
Teria morrido de nostalgia se não me tivesse sustentado.
Agora, não és mais criança, Otton, podes imaginar o que senti, quando dos escombros de minha casa arrastaram um cadáver destroçado de uma criança, que todos reconheceram como o teu, podes imaginar o que sofri, derramando lágrimas sobre os restos mutilados daquele menino alegre, com cabelos encaracolados, faces rosadas, que apenas há alguns dias atrás, havia beijado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 8:17 pm

Então, renunciei ao mundo e vesti o hábito monacal.
Não se passara muito tempo e chegara-me a notícia de que a traidora estava viva e, pela segunda vez, casara-se.
Tu és quase um homem e compreenderás meu sentimento, quando soube que quase perante meus olhos, além das muralhas de Ivangorod, minha esposa encontrara a felicidade nos braços de um outro.
Tivesse ela te deixado comigo, talvez eu a esquecesse e perdoasse.
O filho substituiria a esposa, mas, de mim, tiraram tudo...
Eu te considerava morto e a felicidade insolente que escarnecia sobre minha amargura, não pude suportar e resolvi encontrar um caminho que me levasse a meus inimigos.
A passagem subterrânea, através da qual o Senhor te conduziu a mim, abri com minhas próprias mãos e com a ajuda de dois servos fiéis.
Por minha própria vontade, desci com eles ao abismo, denominado "sepulcro", e lá vivi dez anos, sem luz e ar puro, trabalhando como um condenado.
Os cabelos grisalhos, as rugas precoces e o rosto depauperado, tudo isto é consequência desta vida horrível.
Por isto, durante estes anos, meu coração se endureceu.
Não tenho piedade e nem perdão para a mulher que me levou a este sofrimento.
Não existe castigo suficiente para isto e se a traidora separada de seu amante, apodrecer no mesmo lugar onde entrei jovem, padeci dez anos e de lá saí velho, então será apenas justiça.
Na voz de Barenkhaupt, soava tal ódio implacável e seu olhar era tão pavoroso, que Boris, sem querer, retrocedeu.
Aos poucos, a frieza inimiga em seu coração jovem e bondoso se transformava em piedade e interesse profundo pelo pai.
Nas palavras daquele homem, havia muito de verdade, e, além disto, de uma forma ou de outra, era seu pai.
Ele, não considerando quão cruel e desumana era sua vingança, atravessara uma penosa provação; a aparência esgotada e doentia e as costas encurvadas mostravam quão caro lhe custara aquele lugar.
Que inferno suportara para que pudesse conservar as forças para levar até o fim seu plano absurdo.
Sob a influência destes novos sentimentos, Boris, perturbado, aproximou-se rapidamente do pai e estendeu-lhe as mãos suplicantes.
— Pai! — disse com voz comovida.
Não faças de mim um juiz entre ti e minha mãe, que respeito e adoro.
Não amaldiçoes uma pessoa bondosa e generosa, que sempre me cercou de amor e meigas atenções.
É verdade, que esqueci que és meu pai pelo sangue e, por isto, sinto muito, e também por não ter ficado contigo; abrandaria teu coração e seria a alegria de tua solidão.
Mas tudo isto não te dá o direito de ser o verdugo da mulher que amavas e que não te traiu, pois casou com outro somente porque te supunha morto.
Henry rebentou-se num riso irónico.
— Penso que a própria ideia sobre a minha morte era-lhe agradável.
Os mortos não são perigosos!
Ainda tolero que tua mãe não chorasse por mim, mas que não conservasse em tua memória nenhuma lembrança sobre o pai, que amava ternamente e não te obrigava a rezar por ele e nem ensinou a venerar sua memória.
Para isto, não há nome.
— Dizes que sou o verdugo de tua mãe, sim, e quero ser seu carrasco, como ela o foi para mim em toda minha vida.
Ela é uma serpente, que aqueci em meu peito e idolatrei, como o génio bom de meu lar e pagou meu amor com indiferença, traição e ódio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 8:17 pm

— Basta de falar sobre ela.
Oxalá, encontre o castigo merecido.
Tu também, meu filho, volta a teu dever, ocupa novamente teu próprio lugar e esquece o sonho doentio dos anos passados, que estiveste no meio de pessoas estranhas.
Em meus braços, sob o manto de nossa santa igreja, tu renascerás para uma nova vida.
Boris empalideceu e voltou para trás.
— Pai! Tu exiges de mim o impossível.
Em situação alguma, esquecerei e olharei como se fossem estranhas as pessoas que me são caras e próximas, entre as quais cresci e amo com toda minha alma.
Aqui, sinto-me estranho, pois, pelo coração e fé, sou russo e russo permanecerei!
Tu podes manter-me aqui como prisioneiro, dirigir-te a mim como traidor, condenar-me à morte, mas não podes impor que abjure a santa Rússia e a fé ortodoxa.
Henry suspirou e sua cabeça pendeu pesadamente sobre o peito.
Depois, dando um salto, horrorizou-se.
— Senhor! — gritou.
Por que me permitiste viver até esta hora horrível, quando meu filho único me renuncia!
Oh, mulher amaldiçoada!
Haveria no mundo um castigo suficientemente severo para me vingar de ti por todo o sofrimento que passo por tua culpa!
Novamente entre pai e filho reinou o silêncio, interrompido somente pela respiração regular deles.
Finalmente, Henry endireitou-se.
Agora, tinha uma aparência altiva e impassível e só seus olhos, profundamente caídos, transmitiam uma crueldade implacável.
— Tu não queres meu amor?
Então, ouve minha resolução, filho perdido, traidor do sangue que corre em tuas veias, traidor de teu Deus e tua pátria!
Pois bem!
Não posso obrigar-te a amar o que odeias, não posso ensinar-te a levar com dignidade o nome de teus ancestrais, porém não admitirei que o arrastes à lama, servindo nossos inimigos.
Esta torre será tua prisão e teu túmulo.
Daqui, não sairás até morreres.
Admira Ivangorod, que amas tanto, permanece fiel aos moscovitas e espera que eles venham libertar-te.
Talvez, antes traga para ti a cabeça de teu benfeitor, amante de tua digna mãe, para que de bom grado possas admirar os traços do rosto de teu segundo pai, que preferiste a mim.
Não olhando para Boris, abatido por aquelas palavras e imóvel, apoiando-se no espaldar da poltrona, Barenkhaupt saiu do quarto batendo a porta atrás de si.
Boris, sem forças, caiu na cadeira e abaixou a cabeça.
Desesperava-lhe a ideia de passar toda a vida naquela prisão.
Não se sujeitava à menor dúvida de que o pai nunca perdoaria ao filho, que o renegara e declarara-se russo e ortodoxo.
Toda a noite, Boris vagou pelo calabouço, ora fervendo de ódio, ora caindo numa grande apatia.
Três dias se passaram.
Boris enlouquecia de saudade.
A figura da mãe o seguia e se a esperança, inseparável companheira da juventude, não o amparasse, ele, sem dúvida, teria atentado contra a própria vida.
Todavia por sua cabeça não passava ceder e submeter-se à vontade do pai; neste ponto, era demasiadamente Barenkhaupt.
Na quarta noite após o encontro com o pai, Boris estava deitado, imóvel na cama e não dormia.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 8:17 pm

O velho relógio do castelo há muito já tinha batido meia-noite; de repente, no silêncio da noite, chegou-lhe o som de um sino de uma igreja distante.
Provavelmente, vinha de Ivangorod.
Ele saltou num relance, correu para a janela e, não considerando sua situação de prisioneiro, chutou toda a vidraça.
Ele não se enganara; o tinido lastimoso do sino vinha de Ivangorod, de onde se ouviam gritos e, aparentemente, reinava uma grande confusão.
De repente, um grande clarão de fogo com uma luz sinistra iluminou as pessoas que corriam desordenadamente.
Boris imaginou que os cavaleiros, utilizando a passagem subterrânea, penetraram na fortaleza e espancaram a todos que apanharam de surpresa.
Um sentimento desesperado apertou seu coração.
Entre as vítimas, sem dúvida, cairiam primeiro Koly tchev e seus filhos, a quem seu cruel pai mataria por vingança.
Mas ele não podia avisar seus amigos, sentia-se um espectador impotente da destruição das casas conhecidas e da matança traiçoeira de todas as pessoas fiéis e simpáticas a seu pai adoptivo.
Agarrando-se às barras da grade da janela, observava, com um olhar ímpio, o mar de fogo e fumaça, que se elevava em nuvens para o céu e escutava os gritos e ruídos da batalha, que nitidamente chegavam até ele.
Em sua aflição, não pensava em seu verdadeiro pai, também exposto ao perigo.
Todos os seus pensamentos estavam concentrados em Ivan Andreievitch, em Natacha, sua querida irmã, pela qual sentia surgir um amor inconsciente e nas outras crianças.
Por eles, palpitava seu coração; somente o perigo que os ameaçava o fazia tremer.
De repente, com uma alegria selvagem, percebeu o som de um clarim, a princípio, distante e depois, cada vez mais próximo.
Graças a Deus! Chegava o reforço.
Os regimentos russos, instalados nas fronteiras, ouviram o alarme e apressavam-se a socorrer Ivangorod.
Pouco a pouco, o barulho cessou, o fogo começou a extinguir-se e tudo novamente mergulhou em silêncio.
Depois do encontro com o filho, Barenkhaupt voltou para casa, fora de si de ódio.
Parecia-lhe que somente rios de sangue inimigo poderiam apagar o sofrimento torturador de sua alma.
Logo no dia seguinte, Henry propôs aos cavaleiros fazer uma incursão na fortaleza inimiga.
Era preciso de imediato, usar seu trabalho gigantesco, pois quem poderia confiar em que algum acontecimento imprevisível outra vez não mostraria a qualquer um o segredo da passagem subterrânea como mostrara a seu filho Otton.
Embora a proposta de Barenkhaupt fosse recebida com unanimidade, teve que aguardar ainda por dois dias, até que retomassem a Narva os cavaleiros com um forte destacamento militar.
Para matar o tempo ou pelo menos aplacar a dor surda que dilacerava seu coração, Henry se ocupava com alguns reparos em sua casa.
Convém dizer que, antes de seu ingresso na Ordem, Henry, para substituir sua casa destruída pelo fogo, cujo lugar se lhe tornara repugnante, comprara outra de um rico cidadão, que falecera com toda sua família.
Durante aqueles anos que Henry passara no "sepulcro". sua nova aquisição ficara abandonada.
Nela apenas vivia sozinho Arend, irmão de Khristofor.
Agora, Barenkhaupt, interessando-se pela casa, começou a decorá-la.
Henry, inconscientemente, obedecia a uma voz interior, que lhe sussurrava a possibilidade de Otton ainda criar juízo e, desta forma, seria necessária ao jovem Barenkhaupt uma moradia decente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 8:18 pm

Finalmente, chegou a noite para a qual estava determinado o ataque a Ivangorod. Um pequeno regimento, formado por pessoas escolhidas, desceu pela passagem subterrânea, sobre a qual corriam as águas ruidosas do Narva.
Olga, com horror mudo, via os homens armados da cabeça aos pés, que corriam ao lado de sua cama de palha e, brandindo terrivelmente as armas, desapareciam pela passagem subterrânea.
Eles lançavam-lhe olhares desdenhosos e cruéis.
Nem um soldado, nem um austero cavaleiro livónio olharam para a infeliz mulher com simpatia.
Mas Olga não notou isto.
Sua cabeça estava ocupada com um único pensamento:
o perigo que ameaçava seu marido e filhos.
Eles, dormindo, seriam surpreendidos por um homem severo e impiedoso, que lhe prometera maldosamente trazer o cadáver de Ivan.
Ela, com dificuldade, ajoelhou-se e, estendendo as mãos ao crucifixo, começou a rezar fervorosamente.
Extenuada pelo fervor da reza, Olga, de novo, caiu sobre sua cama de palha esperando com medo o retorno dos guerreiros.
O tempo lhe pareceu uma verdadeira eternidade.
Eis que ruídos surdos de passos se ouviram e da abertura estreita precipitadamente começaram a surgir guerreiros, que passavam pela brecha usada como acesso à cova.
Uns, visivelmente feridos, moviam-se com dificuldade, outros arrastavam despojos, jóias diversas e louças caras.
Passou Barenkhaupt; ele também estava ferido.
Sua armadura estava coberta de sangue e um outro cavaleiro o sustentava.
Ninguém prestou atenção em Olga e não notaram como seu rosto se iluminou de alegria e esperança.
Henry não lhe trouxe o cadáver do marido; então o voievoda estava vivo.
— Talvez, pensava, ele ainda não voltara de Moscou e o acaso o livrara do terrível perigo.
Entretanto Koly tchev retornara a Ivangorod no dia seguinte após o desaparecimento de Boris.
A notícia do acontecido foi para ele um golpe inesperado.
Porém, quando o penoso sentimento inicial passou, o boiardo reflectiu e com a opinião precisa, que lhe era inerente, discutiu a situação dos factos.
Somente Olga e Boris foram as vítimas do rapto misterioso e isto circunstancialmente acarretava ao caso uma configuração de múltiplos significados.
Só Barenkhaupt, se estivesse vivo, poderia apresentar seus direitos sobre eles.
Mas por que silenciara por tanto tempo e nunca se mostrara em lugar algum?
Tudo isto era um mistério.
Entretanto, somente ele poderia ter realizado este sequestro.
E, se ele está vivo, então é necessário estar preparado para qualquer eventualidade, pois aquele homem severo e cruel, que tentara matar sua esposa, apenas para não vê-la nas mãos do inimigo, não limitaria sua vingança a um simples rapto.
Chegando a esta conclusão, Ivan Andreievitch imediatamente tomou as medidas cabíveis.
Antes de tudo, mandou, sob forte guarda, as crianças e Irina à casa do avô, para quem descrevera detalhadamente todo o acontecido.
Depois desta primeira medida preventiva, o boiardo fizera buscas intensivas para descobrir de que forma foram raptados de sua casa sua mulher e enteado, de tal maneira que ninguém nada vira e não ficara nem um rastro deles e nem
de seu raptor.
Com relação a isto, todas as buscas foram infrutíferas e o voievoda entrara em desespero.
Entretanto, o ataque não se repetira e tudo se acalmara.
Pelo visto, a velhacaria sanguinária o apaziguara.
Quatro ou cinco dias se passaram após o retorno de Ivan Andreievitch.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 8:18 pm

Era noite e tudo dormia na fortaleza e na casa do voievoda.
Somente algumas vozes ecoavam dos guardas, de tempo em tempo, quebrando o silêncio da noite.
Somente Koly tchev, não dormia.
Sombrio e preocupado, andava pelo quarto, pensando com tristeza nos entes queridos, que foram raptados traiçoeiramente de sua casa.
O voievoda não pressentiu que, neste exacto minuto, da passagem subterrânea saiu um regimento alemão, que penetrou cuidadosamente pelo jardim e, através de uma viela deserta, alcançou a praça.
De lá, os livónios se separaram em grupos por toda a cidade, para iniciarem a matança simultânea.
Gritos, exclamações selvagens e golpes fortes do lado de fora repentinamente chamaram a atenção de Koly tchev.
Ele, com surpresa, ouvia os ruídos que chegavam, queria agarrar a espada e lançar-se às ruas, quando, no quarto, irromperam Andrei e o falcoeiro Nikita.
— Livónios em Ivangorod!
Eles estão matando e saqueando a cidade! — gritaram os dois.
Ivan Andreievitch vestiu rapidamente a armadura e armou-se, pois, de repente, ressoaram golpes de machado na porta externa.
Pessoas semi-vestidas e voievodas correram com armas na mão para defenderem a entrada.
Naquele instante, a porta da frente despedaçou-se e, na casa, irrompeu uma tropa de livónios com archotes acesos.
Chefiando a tropa, com a viseira levantada, encontrava-se Barenkhaupt.
Vendo que o voievoda estava vestido e armado, Henry parou, momentaneamente surpreso, mas depois lançou-se contra ele com a espada em punho, gritando:
— Finalmente, encontramo-nos face a face, raptor de minha honra e felicidade!
Tu, por muito tempo, escapaste de minha vingança.
— Tu é que és um salteador, como toda tua digna parentela, retrucou Koly tchev, dando no cavaleiro um golpe furioso no peito.
Começou uma batalha desesperada e enfurecida.
Ambos com ira distribuíam golpes entre si.
O sangue fluía nos dois.
Com o ardor da batalha, saltaram para a rua e lá encarniçadamente cegos, almejavam golpear um ao outro.
Em volta deles, ocorria uma batalha sangrenta.
Todos os russos que conseguiram agarrar as armas, defendiam-se obstinadamente.
Infelizmente, grande parte dos habitantes foi surpreendida dormindo e muita gente simples tombou.
Os gritos e gemidos dos feridos e moribundos, o estalido do fogo, o sinal de alarme, tudo isto ainda mais exacerbava o horroroso quadro nocturno.
Enfraquecido pela perda de sangue e ensurdecido pelos golpes na cabeça, Barenkhaupt começou a cambalear e seu adversário, claro, utilizaria este momento para matá-lo, se ele mesmo também não se sentisse estonteado.
Depois de passados alguns minutos, os servos do voievoda conseguiram levar seu amo para casa e os cavaleiros livónios carregaram Barenkhaupt.
Uma hora se passou, o clarim deu o sinal, todos os livónios fugiram para o lugar combinado e desapareceram como que tragados pela terra.
Ninguém pôde compreender onde se metera o inimigo.
Quando os regimentos russos, locados nas cercanias, chegaram, não mais havia nenhum salteador.
E, se os cadáveres, feridos, a casa incendiada e saqueada não testemunhasse expressivamente a incursão dos livónios, então, poder-se-ia dizer que tudo não passara de um sonho.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 8:18 pm

CAPÍTULO 6

O dia seguinte, após o ataque a Ivangorod, Boris passou inquieto e febril.
O desconhecimento do ocorrido o levou ao desespero e arrancar alguma coisa do escudeiro taciturno, que o servia, era impossível, pois parecia não ouvir e não respondia a nenhuma pergunta dirigida a ele.
Mais do que tudo, afligia-o a situação da mãe.
Com a chegada das trevas e o silêncio da noite, a excitação do rapaz atingia seu apogeu.
Com horror, pintava para si o quadro do sofrimento dela.
Imaginou que ela não suportaria por muito tempo tal existência.
Cada dia que ela passasse naquela cova húmida e fétida, custar-lhe-ia um ano de vida.
E ele era impotente para fazer qualquer coisa que a libertasse!
O ferro resistente da grade do calabouço o fez compreender que não adiantava sacudi-la mais rápido, pois as paredes de pedra daquela torre não se abalariam atingindo o coração de quem o destino deles dependia.
Da terra, não havia nenhuma possibilidade de vir algum socorro; restava somente apelar aos céus e suas forças invisíveis, mas todo-poderosas.
Boris ajoelhou-se, tapando com as mãos o rosto molhado de lágrimas.
De repente, apareceu-lhe a igreja de Ivangorod, onde, todas as manhãs, rezava com a mãe ou Irina perante a imagem milagrosa da Santa Virgem.
Neste momento, o semblante maravilhoso e suave da Mãe de Deus desenhou-se com uma clareza incomum.
Uma nuvem clara, como uma auréola, circundou a imagem e os olhos grandes, claros e profundos olhavam para o jovem com uma expressão de infinita misericórdia.
— Mãe de todos os aflitos e protectora divina de todos os sofredores!
Ensina e mostra-me o caminho da salvação!
Salva a vítima inocente, que pena no "sepulcro", cuja alma, neste minuto, com angústia, clama por ti! murmurou Boris, enquanto de seus olhos rolavam lágrimas fervorosas.
Tu és a única, a todo-poderosa Mãe de Deus, nossa esperança, refúgio e defesa!
Não nos negues tua clemência!
À medida que orava, a esperança e a calma cresciam em sua alma e um sentimento de felicidade apoderou-se dele.
As paredes da torre como que desapareceram e, sobre sua cabeça, surgiu uma cúpula de igreja decorada com estrelas.
A luz suave das lâmpadas acesas diante dos ícones, fazia-os cintilar; um aroma leve de incenso espalhava-se pelo ar.
Tudo inspirava a calma celestial sempre reinante em um templo sagrado e a influência benéfica, que cada um sente ao entrar nele.
De repente, uma porta majestosa abriu-se silenciosamente e nela surgiu um monge alto com uma longa barba branca.
Nas mãos, trazia um cálice.
Aproximando-se de Boris, o monge deu-lhe de beber algo estranho e amargo, dizendo:
— A fé sem sacrifício é morta!
Quanto mais pesado for o martírio, que pelo amor filial padeces, maior será a recompensa que sentirás em teu coração!
A visão esmaeceu-se e desapareceu.
Boris, de novo, viu-se no calabouço, mas sua alma foi inundada por uma luz suave.
Agora, diante dele, estendeu-se claramente o caminho pelo qual deveria seguir.
Este caminho era difícil e espinhoso, mas podia levá-lo à salvação.
— Santa Mãe de Deus!
Cumprirei o que me inspiraste.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Fev 28, 2017 8:18 pm

Recebe meu sacrifício e salva minha mãe! — exclamou ele, com devoção.
Agora, seus olhos brilhavam decididamente e, em seu belo rosto, havia a marca do entusiasmo.
A paz, que ainda não experimentara desde o tempo de sua prisão, inundou sua alma.
Ele deitou-se e dormiu imediata e calmamente.
Na manhã seguinte, quando o escudeiro chegou, Boris solicitou-lhe um pedaço de pergaminho e uma pena, e aquele, sem dizer uma palavra, atendeu-lhe o pedido.
Com grande dificuldade, misturando letras alemãs com russas, Boris escreveu o seguinte:
"Pensei em tudo, pai, e quero conversar contigo.
Venha ver-me".
Boris entregou o bilhete ao escudeiro e ordenou-lhe entregá-lo ao cavaleiro Barenkhaupt.
O dia transcorreu numa espera febril, mas ninguém apareceu.
Somente à noite, ao acender as velas, o escudeiro disse:
— O cavaleiro Barenkhaupt está ferido e não pode ainda levantar-se da cama.
Passaram-se alguns dias, mas o pai não vinha.
Boris vivia em uma expectativa constante e febril; de manhã à noite, ficava junto à porta na esperança de ouvir o ressoar dos passos de Barenkhaupt.
Atormentava-lhe o medo de que o pai morresse antes de libertar a mãe.
No final das contas, esta constante tensão nervosa tornou-se nociva e reflectiu-se na saúde do rapaz.
Finalmente, uma noite, pelo corredor, ouviram-se passos pesados, a porta abriu-se e, no quarto, entrou Barenkhaupt.
O cavaleiro estava pálido e seu aspecto parecia ainda mais abalado do que na primeira vez.
Visivelmente fraco e cansado, foi até a poltrona, com esforço, sentou-se e, com um olhar sombrio e curioso, mirou o rosto abalado do filho, que, em pé diante dele, estava pálido como a morte.
Após alguns minutos de silêncio mortal, o cavaleiro perguntou:
— O que queres de mim?
Vim por teu chamado.
Mas cautela, Otton, não escarneças de mim:
não mais terei qualquer indulgência para o traidor, inimigo de meu povo, filho ímpio, que me renegou.
Boris deu um passo em direcção ao pai.
— Deus sabe que nunca tive a intenção insolente de escarnecer-te!
Eu, não gratuitamente, chamei-te para dizer o que concluí de tuas próprias palavras.
Durante nossa última conversa tu me disseste:
"Se tua mãe o tivesse deixado comigo, eu lhe perdoaria e esqueceria.
O bebé substituiria a esposa e meu coração agoniado prender-se-ia a ti".
Henry estremeceu e, sombriamente, olhou perplexo para o rosto pálido, mas decidido do filho.
— Sim, eu disse isto.
Mas ela não te deixou comigo.
Explica, por que me fazes lembrar minhas palavras?
— Porque, eu mesmo quero entregar-me a ti e aqui ficar, não como prisioneiro, mas como filho obediente, que te cercará de amor, ternura e cuidados, que te farão esquecer todo o sofrimento passado; filho que será um portador honrado de teu nome.
Em troca, pedirei somente uma coisa:
liberta minha mãe e permite-lhe voltar ao marido e filhos.
Substitui a esposa pelo filho, como tu o farias antes, se eu ficar contigo!
Barenkhaupt não tirou os olhos do rosto animado e enrubescido de Boris, cuja voz suplicante e convincente tocou seu coração.
— Otton! — disse alegremente Henry, levantando-se com rapidez da poltrona.
Será que ouvi bem?
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