Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 01, 2017 8:34 pm

Queres sacrificar-te para salvar tua mãe?
Mas, menino insensato, esqueces que se eu a libertar, ela revelará aos russos o segredo da passagem subterrânea.
Então, ou nossos "inimigos viriam para cá, ou seríamos obrigados a obstruir o caminho, em cuja construção sacrifiquei dez anos de vida.
— Minha mãe nunca revelará este segredo, enquanto eu estiver aqui como refém! — com vivacidade, retrucou o rapaz.
Tem certeza, pai, de que o amor por mim cerrará os seus lábios e nem mesmo Koly tchev saberá algo a respeito disto.
Henry pesadamente sentou-se na poltrona e tapou os olhos com as mãos.
Aparentemente, uma luta árdua se travou em sua alma severa e vingativa.
Boris caiu de joelhos, abraçou o pai e, com a voz estremecida de aflição e lágrimas, murmurou:
— Faz uma concessão, pai!
Sê bondoso e magnânimo!
Lembra as palavras de Cristo, que propõe o perdão às ofensas! Estas palavras se referem a todos os cristãos, tanto a católicos quanto a ortodoxos.
O que significa para ti uma mulher que nunca te amou, cujo coração pertence completamente a outro?
O que trará para ti sua morte?
Tu, também já a castigaste severamente.
Em breve, já serão duas semanas que ela se martiriza naquele abismo horrível.
Perdoa, enquanto é cedo, para que nenhum remorso envenene tua vida.
Recebe-me em troca dela.
Será que, para ti, é mais agradável que eu morra lentamente nesta torre, ao invés de me ver, o amparo de tua velhice, teu herdeiro em armadura de cavaleiro, com orgulho carregando teu antigo nome?
— Tu prometes demasiadamente!
Tu não me amas e teu sacrifício em breve tornar-se-á muito pesado, respondeu Barenkhaupt com ardor.
— Não, nunca me lamentarei ou me infelicitarei por ter cumprido meu dever filial duplamente:
salvar a mãe e curar a ferida do coração do pai.
Quero ser bom filho.
Tu mesmo verás como te amarei e como, por toda minha vida, ser-te-ei grato pelo grande sacrifício que realizarás por amor a mim.
Cede, querido pai, esquece e perdoa!
Não negues ao filho seu primeiro pedido!
Barenkhaupt, meditando, baixou a cabeça sobre o peito.
A voz carinhosa, o olhar caloroso e suplicante do filho comoveram-no e a crosta de gelo, que cobria sua alma, furtivamente se derreteu.
Lágrimas ardentes, desconhecidas a seus olhos, sufocavam-no, impetuosamente; abraçou o filho, estreitando-o contra o peito.
Neste primeiro carinho brusco e rude como toda sua existência, extravasou-se de imediato o fel, o sofrimento e o ódio, acumulados pelos anos no coração irritado de Henry.
O abraço apaixonado, a respiração ofegante do pai e o tremor dos lábios roçando a fronte do filho, pela primeira vez, mostraram a Boris o quanto foi infeliz este severo vingador.
Boris, influenciado e animado por uma simpatia intensa e verdadeira pelo pai, enlaçou-se a seu pescoço, apertando a cabeça de cabelos anelados contra o ombro.
Neste instante, pai e filho permaneceram silenciosamente abraçados.
Depois, Barenkhaupt beijou-o mais uma vez na testa, levantando-se.
— O amor filial grande e puro a ti incutido por aquela mulher indigna, que furtou minha vida, ganhou a questão, disse ele.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 01, 2017 8:34 pm

Por tua felicidade, concordo em libertar a traidora.
Que ela volte para aquele que ama.
E tu tornar-te-ás meu consolo.
Inflamando-se de alegria, Otton agarrou a mão do pai e a estreitou contra seus lábios.
— Obrigado, obrigado, pai, por tua generosidade!
Só agora compreendo o quanto me amas.
Deste minuto em diante, esforçar-me-ei em ser digno de teu amor.
Quando libertarás a mãezinha?
Um sorriso irónico e triste aflorou nos lábios do cavaleiro.
— Hoje mesmo.
Vem comigo a meu quarto.
Lá discutiremos todos os detalhes.
Ainda estou fraco e sinto-me cansado.
Otton seguiu o pai.
Ele estava pálido, porém calmo e decisivamente expulsava todo o pensamento relacionado ao sofrimento iminente, a separação perpétua de todos aqueles que lhe eram caros.
Chegando a casa, Barenkhaupt deu ordens para servir o jantar, despejou vinho em uma taca, oferecendo-a a Otton.
Disse ao filho que tencionava mandar Khristofor buscar Olga ou Rosalinda como ele a denominava, para sua casa na cidade, para que ela descansasse e trocasse de roupas.
Depois, ele a levaria para a terra russa, de onde poderia facilmente alcançar Ivangorod.
— Pai, permite-me despedir-me dela? — perguntou timidamente Otton.
— Sem dúvida, minha criança!
Amanhã de manhã, apresentar-te-ei aos cavaleiros da ordem e ocupar-me-ei de teu equipamento; depois, iremos a minha casa e passarás com tua mãe todo o tempo até sua partida.
É teu o direito inalienável de despedir-te daquela por quem te sacrificarás, pois, ao fundo da alma, certamente preferirias ir com ela a ficar comigo. — Acrescentou Barenkhaupt.
Otton enrubesceu.
— Lá cresci, pai.
Lá ficaram minha irmã e irmãos amados; tu mesmo sabes que o hábito é a segunda natureza.
Porém, eu te juro, pai, que minha decisão se tornou metade mais leve, desde o momento em que te conheci melhor.
Quando me acostumar com minha nova vida, então, sem dúvida, serei tão feliz quanto o fui antes.
— Tenhamos esperanças, minha criança!
Porém, conta-me sobre teu passado, sobre a irmã e irmãos que mencionaste.
Gostaria de saber como vivias.
Otton, de bom grado, cumpriu seu desejo.
Sentindo, intuitivamente, que tudo que se referisse à felicidade conjugal da mãe e Ivan Andreievitch, seria duro para o pai, falou mais sobre o avô e Natacha.
A conversa deles foi interrompida por Khristofor, que entrou.
Não obstante sua nova condição de cavaleiro, o ex-escudeiro se dirigia a seu antigo senhor com o habitual respeito e obediência; não apenas pela força do costume, mas sobretudo porque a valentia, coragem e a energia incomum de Barenkhaupt incutiram no velho servidor um respeito profundo e uma fé cega no cavaleiro.
Khristofor ficou visivelmente satisfeito com a reconciliação entre pai e filho.
Felicitou Otton pelo retorno ao sangue paterno e comunicou que, com satisfação, durante a madrugada, desceria ao abismo e levaria Rosalinda à casa de Barenkhaupt.
Já era muito tarde, quando se foram, porém, Otton não pôde dormir.
No silêncio da noite, seu coração tremia com a ideia de sacrificar-se duramente.
Para toda vida, tornar-se-ia um prisioneiro ali, entre pessoas consideradas estranhas ou mesmo inimigas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 01, 2017 8:34 pm

Daqui para frente, ele, inclusive, seria obrigado a dividir com eles seus interesses, fé e talvez, até mesmo lutar contra aqueles que amava com toda sua alma.
Cada felicidade pessoal foi abdicada!
No entanto, não queria lamentar o sacrifício e, com coragem, expulsou os graves pensamentos.
Por fim, uma oração fervorosa devolveu-lhe a tranquilidade e ele, debilitado e cansado, deitou-se e dormiu.
De manhã, Khristofor chegou e informou ao cavaleiro que sua ordem foi cumprida, Rosalinda, no presente minuto, encontrava-se em Narva, em sua casa.
Depois, acrescentou que a prisão pesada tivera um efeito destruidor na saúde da jovem mulher, que de tão fraca, poderia chegar rapidamente à morte.
Khristofor teve que, por todo o caminho, carregá-la nos braços, pois as pernas se recusavam a servi-la.
Mal entraram em casa, Rosalinda perdeu os sentidos.
Apesar de tudo, teve sorte de voltar a si; depois que a alimentaram e deram-lhe vinho, adormeceu.
— Na verdade, não sei como a mandaremos hoje.
Rosalinda não está em condições de andar e necessita extremamente de descanso.
Além disso, precisa de roupas.
Em sua camisola rasgada, semelhante a farrapos, não pode apresentar-se na rua, acrescentou Khristofor.
— Tudo isto são bobagens!
Leva-a amanhã à noite e, hoje, esforça-te para conseguir-lhe roupas decentes.— Respondeu Barenkhaupt.
Ao saber que sua mãe saíra do terrível calabouço e, até a noite seguinte iria descansar da tortura e sofrimento, Otton acalmou-se e docilmente cumpriu todos os desejos do pai.
Ele deu as medidas, escolheu o tecido e discutiu com o costureiro o modelo do vestido para a mãe.
Durante a apresentação aos cavaleiros da Ordem, agradou a todos pela graça, modéstia, precisão, firmeza de suas opiniões e pelo empenho manifestado em estudar firmemente o alemão e todos os exercícios militares necessários a um cavaleiro.
Inclusive o capelão, que Otton escolheu para seu confessor, ficou satisfeito com sua declaração ponderada e respeitosa de que, ao acatar o nome dos Barenkhaupt, retornava á religião de seu pai.
Todos felicitaram Barenkhaupt, por ele ter encontrado o filho, que não só prometeu tornar-se um herdeiro digno, como também ser motivo de orgulho público.
À noite, Barenkhaupt com o filho foram para Narva.
Henry estava extraordinariamente suave e conciliador; elogios dirigidos ao filho enchiam o coração do cavaleiro de felicidades e orgulho.
Alegre e conversador, como não tinha sido durante muitos anos, Henry entrou no quarto, onde Olga dormia no divã.
Ela despertava somente para alimentar-se e, em seu rosto emagrecido e pálido, como cera, percebia-se um terrível esgotamento.
Mas, apesar de tudo, estava maravilhosa com os cabelos exuberantes, dourados e loiros que se destacavam de sua cabeça como uma auréola de ouro.
Otton, com amor e simpatia, olhou para a mãe.
Como ela havia mudado!
Quanto sofrera!
Agora, graças a Deus, tudo estava consumado.
Amanhã, estaria com Ivan Andreievitch e seu amor e cuidado atenuariam os traços do sofrimento de sua tortura.
Ideias de outro teor nasceram no pensamento de Barenkhaupt, quando, aparentemente frio e inflexível, olhou com hostilidade para a jovem mulher deitada a sua frente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 01, 2017 8:35 pm

Nutrindo por Olga somente ódio e desprezo, por ora, ele a considerava em seu poder e para sempre separada de seu odioso rival.
Mas, a necessidade urgente de devolvê-la ao homem que a amava com paixão, fez, de imediato, despertar nele o ciúme que transformava sua alma.
Otton não suspeitava de tal golpe funesto.
Alegre com a salvação da mãe, seguia confiantemente o pai e se, no dia seguinte, de maneira alguma pudera avistar-se com a mãe, em sua cabeça não passou que todos os obstáculos foram premeditados.
Finalmente, depois do almoço, entrou com o pai na casa em Narva e, com a permissão de Henry, correu imediatamente para o quarto, onde estava sua mãe.
Olga esperava com medo e impaciência.
Ainda não sabia que sorte a aguardava e não podia imaginar por que o marido lhe perdoara.
Um pensamento a fazia tremer:
o perdão certamente estaria condicionado a algumas exigências.
O medo crescia a cada hora e a tensão nervosa atingia seu ápice, quando, de repente, a porta do quarto com ruído se abriu e Otton impetuosamente se lançou a seus braços.
Filho e mãe não desconfiavam de que, do quarto vizinho, cuja existência desconheciam, através de um pequeno orifício em uma pintura mural, frequentemente utilizada na Idade Média, Barenkhaupt observava o encontro deles.
Queria saber sobre o que iriam conversar, mas teve suas intenções frustradas, pois não contava com uma circunstância particular de que mãe e filho iriam falar em russo, e, esta língua, ele absolutamente não entendia.
Mais ou menos, intuitivamente, os gestos e as expressões do rosto dos dois permitiam-lhe, em parte, seguir o fio da conversação.
Antes de tudo, supunha, Otton, na certa, comunicou à mãe sobre sua decisão e sobre as condições, preço pelo qual o pai dar-lhe-ia a liberdade, uma vez que o desespero da jovem mulher e sua recusa em aceitar o sacrifício filial manifestavam-se bastante claros.
Mas o rapaz aparentemente insistia em seu ponto de vista.
Ela se desfazia em prantos.
Finalmente, Olga o estreitou em seus abraços, cobrindo-o com beijos amorosos.
Com um olhar sombrio e irado, Henry acompanhava a todos os lances daquela cena comovente e Olga, cada vez mais submetia-o ao encanto de outrora.
Pálida, magra devido à sua prisão e em seu vestido de lã escura, ela, com nitidez, recordava-lhe os primeiros anos de seu casamento, quando ela administrava a casa.
Então, como no passado, ela, graciosa e meiga, sentava na poltrona de encosto alto.
Os cabelos dourados escapavam por baixo do gorro negro de veludo e as pesadas tranças acentuadamente destacavam-se sobre o tom escuro do vestido.
Henry respirava com dificuldade; o sangue subiu-lhe à cabeça, as ideias se remoíam cada vez mais tempestuosas.
A conversa repentinamente atraiu-lhe a atenção outra vez.
Agora, com certeza, o assunto era a passagem subterrânea. Otton contava algo, ao que parece, exigia a conservação de segredo.
No rosto de Olga, apareceu uma expressão de piedade e simpatia.
Depois, persignou-se, estendeu a mão para o crucifixo pendurado na parede e, com um tom solene, pronunciou algumas palavras.
“Ele a obrigou jurar que guardaria segredo,” pensou Barenkhaupt.
“Rapaz nobre e honrado! Por que tenho que martirizar seu coração e golpear o mais legítimo dos sentimentos, o amor à mãe, para ganhar também minha parte, embora pouca, do afecto filial?” — murmurou o cavaleiro.
Ele voltou-se e saiu do quarto vizinho.
Barenkhaupt, devagar, foi até a poltrona e sentou-se para reflectir.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 01, 2017 8:35 pm

Seu coração batia com força e o sangue fervia como no tempo da juventude.
O amor que considerava apagado e transformado em ódio, de novo, solenemente ressuscitou
em seu coração, contrariando a razão e a vontade.
A ideia de que a mulher adorada, pertencente a ele pela lei de Deus e dos homens, neste minuto, novamente estava sob seu Teto, esqueceu, inclusive, que tinha ingressado na Ordem.
Reviveu-lhe na memória o quadro da antiga vida em comum e todo o ocorrido no passado.
Henry conheceu Rosalinda ainda criança no castelo da mãe dele.
A menina acanhada e selvagem sempre fugia obstinadamente e, já naquele tempo, mil pequenos acontecimentos deveriam ter-lhe aberto os olhos para a hostilidade desta pequena inimiga, que nunca se acostumara e nem se misturara em seu meio.
Depois, lembrou-se do dia funesto em que decidiu seu destino.
Voltava com o avô Levental de uma incursão à região de Pskov, orgulhosos e contentes com as façanhas e a rica pilhagem de objectos valiosos.
E eis que devido à doença da mãe dele, Rosalinda foi para recebê-los à chegada.
Parecia-lhe que ainda a via: esbelta, leve como um ente celeste, em pé na escada de honra, com um longo vestido de veludo azul, enquanto seus maravilhosos cabelos dourados a envolviam como se fossem uma capa.
O olhar do avô Konrad nublou-se em lágrimas.
Perante a visão daquela escultura viva da mulher, que ele tão enlouquecidamente amara, Henry ficara absolutamente enfeitiçado.
Com o vinho oferecido por Rosalinda, bebera também o irresistível amor, que o dilacerava até agora.
Ele começou a galanteá-la, falando com recato à donzela sobre a discrição e o esforço dela de evitar uma declaração de amor.
Quando, finalmente, perguntou-lhe se estava de acordo em tornar-se sua esposa, Rosalinda respondeu "sim" de uma forma muito estranha, inclusive sem tê-lo mirado, mas dirigindo seus olhos tristes a um lugar qualquer no espaço. Tolo cego!
Como não notara, como não compreendera que o coração daquela adolescente de 16 anos somente ocultava aversão e que apenas a consciência de sua fraqueza e a impossibilidade de qualquer oposição aos "senhores" fê-la exclamar o odioso "sim".
Na ocasião, não admitia a ideia de não ser amado, pois fazia bastante sucesso entre as mulheres.
Seu porte alto e esguio e sua beleza viril, embora um tanto rude, faziam palpitar intensivamente os corações maleáveis das alemãs.
Sabia que lhe bastava apenas escolher entre as filhas dos nobres cavaleiros, e tinha certeza de que, em qualquer lugar, recebê-lo-iam com alegria.
Poderia, alguma vez, supor que uma moça desconhecida, prisioneira, que pouca glória lhe dava, seria sua esposa?
Lembrou-se, sobretudo com clareza, do dia do casamento.
Como estava feliz e, principalmente cego, atribuindo, antes de mais nada; ao acanhamento da noiva a discrição fria e a indiferença visível com as quais recebera os inúmeros presentes e as manifestações de carinho.
Branca, em seu vestido de brocados, com os olhos obstinadamente voltados para o chão, chegou à igreja.
Sua mão tremia a tal ponto, que, por pouco, não deixou cair a aliança.
Depois, na memória, surgiu uma cena, que, na ocasião, não entendera, mas que agora se explicava, graças a uma nova interpretação.
Tinha acontecido na noite daquele mesmo dia. Ansioso e apaixonado, entrou impaciente no dormitório dos nubentes e viu que a jovem mulher estava junto à janela com o rosto encostado no vidro, como um pássaro assustado, que procurava sair da gaiola.
Alegre e sem preocupações, abraçou-a pela cintura, atraindo-a para o divã.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 01, 2017 8:35 pm

— Basta, bobinha, não temas! — Disse, enquanto a beijava meigamente.
Compreende, eu te adoro
Para provar-te isto, expressa qualquer desejo e prometo cumpri-lo, seja o que for.
Rosalinda timidamente levantou para ele seus olhos tristes, repletos de lágrimas e estreitando a cabeça para junto dele, murmurou:
— Henry! Quando estivermos sozinhos, chama-me de Olga, como me chamava minha mãe.
Sentirei que estaremos mais próximos um do outro.
O outro nome, pelo qual me chamas, sempre me faz recordar acontecimentos que gostaria de esquecer.
Este pedido infantil, naquela ocasião, levara-o à indignação.
Ele, grosseiramente, empurrara Rosalinda e respondera-lhe severo.
— Não te envergonhas, no mesmo dia em que te tomas esposa do cavaleiro Barenkhaupt, em pensar em nossos inimigos e desejar de volta o nome bárbaro, para sempre suprimido por teu novo baptismo.
Ingrata! Sendo tu prisioneira de guerra, poderia fazer-te minha concubina, mas te fiz minha esposa.
E depois, desta honra e benefício que minha família te concedeu, ainda ousas chorar e lamentar tua pátria, aquela terra selvagem!
De agora em diante, fica sabendo, que te proíbo de uma vez por todas e, cuidado para que eu não mais ouça, tais pedidos tontos e delituosos:
És católica e alemã tanto quanto o é teu marido e como serão teus filhos!
É teu dever ser no íntimo como todos nós.
Rosalinda empalideceu e, como uma folha, tremia ao escutá-lo.
Depois, desatou em prantos convulsivos.
Suas lágrimas tocaram Henry e este tentava com carinhos suavizar a impressão de sua severa repreensão.
Mas, desde então, sua jovem esposa fechou-se e ele nunca mais sondou sua alma.
Eis o porquê, neste mundo ignorado, pode surgir e amadurecer um plano de traição, cuja consequência foi a perda da esposa e do filho.
Ele ficou feliz e orgulhoso quando nasceu a criança.
Agora lhe vinham à mente as longas noites de inverno, quando, estando em casa, ficava junto à lareira, a sua frente Rosalinda girava a roca e narrava ao pequeno Otton uma passagem ou acontecimento da História Sagrada, e o menino, sentado em um banco junto às pernas dela, com os olhos brilhantes, prestava atenção àquelas narrativas.
Quase o mesmo quadro ele via agora no quarto vizinho.
Rosalinda, sentada na poltrona de encosto alto e Otton, sentado em um banco junto a suas pernas, falava-lhe algo com animação.
Ah! Se ambos ficassem com ele.
Ficaria satisfeito apenas em vê-los juntos.
E como Otton ficaria contente se sua mãe permanecesse ao seu lado!
Não! Era preciso ser louco para concordar com a condição proposta pelo filho.
Nunca! Ele, inclusive, tentou matar Rosalinda, apenas para que ela não fosse parar nas mãos dos inimigos e, agora, exigem-lhe que de boa vontade a devolva para o rival, ao homem que a ama e com o qual será feliz, longe do marido traído.
Saltando da poltrona, Henry, em uma aflição febril, pôs-se a andar pelo quarto.
Um ciúme feroz o dilacerava; e, novamente, despertou-se em sua natureza tudo que havia de tirano e diabólico.
Passados alguns minutos, Barenkhaupt, como se tivesse resolvido algo, apressadamente saiu do quarto.
Olga com o filho continuaram a conversar calmamente, aproveitando os últimos minutos que passariam juntos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 01, 2017 8:35 pm

Quantas coisas para falar um ao outro!
Otton pediu à mãe para transmitir lembranças, beijos e amor eterno a todos aqueles que visse e dos quais ele se separaria para sempre.
Eles trocaram recordações, forçando sorrisos para dissimular a saudade face à separação que se aproximava.
A chegada da mulher que servia, Olga interrompeu a conversa.
— Senhor Otton! Ordenaram-lhe despedir-se de sua mãe.
E à senhora, — dirigindo-se a Olga, — preparar-se para a partida, disse respeitosamente a criada.
Tendo feito uma profunda reverência, saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.
Filho e mãe se abraçaram.
Depois de um último beijo, Otton separou-se da mãe.
— Adeus, querida mãezinha!
Sê feliz e reza por mim, como sempre rezarei por ti.
Transmite meus beijos e estreitas recordações a meu padrasto, avô e crianças.
Depois de dar um último beijo na mãe, Otton correu do quarto, pois não queria irritar o pai com um atraso excessivo.
Olga ficou só e cobriu-se com a capa preta que lhe trouxeram.
Mas Khristofor não veio e ela novamente se sentou na poltrona.
Seu coração se afligia com a ideia certa de que nunca mais veria seu filho generoso.
E, contudo, queria o mais rápido possível, sair daquela casa, pertencente a um homem cruel e severo, que lhe inspirava medo e incerteza.
Ela sentia saudades de Ivan Andreievitch, que a lamentava como morta, e, dos filhos pequenos a passar necessidades com a ausência da mãe.
Absorta em seus pensamentos, fitando o espaço encostou a cabeça no espaldar da poltrona e não notou quando a porta abriu-se e surgiu Barenkhaupt.
Durante um minuto, ele, calado, observou-a; depois, rapidamente, aproximou-se de Olga e o ruído de seus passos tirou-a de sua meditação.
Conhecendo o marido e encontrando seu olhar sombrio e devorador, Olga empalideceu mortalmente, endireitando-se com horror.
Só agora, à luz de duas velas de cera acesas, ela, com clareza, enxergou a terrível mudança ocorrida em sua aparência.
— Eu te assusto! — disse o cavaleiro, rindo secamente.
Ao contrário, deverias encantar-te com o trabalho feito por tuas mãos e alegrar-te vendo o que fizeste comigo em onze anos.
Os cabelos grisalhos, as rugas precoces e o rosto esgotado, tudo isto é obra tua.
Henry, dominado por uma fúria repentina, aproximou-se da jovem mulher, agarrando-a pelo braço.
— Responde, traidora sem coração, que te fiz para que me tiveste arruinado, despedaçado meu coração em farrapos, roubado minha felicidade, alegria, filho e juventude, - bramiu roucamente.
Tudo que existe de sagrado e caro para um homem, tudo me tiraste, sujaste e pisoteaste.
Além disto, roubaste de mim até o coração de meu menino e apagaste da memória dele meu nome.
Ele cresceu, considerando-me um inimigo, como um monstro qualquer.
— Que fiz para merecer tudo isto?
Eu te amei e respeitei, cerquei a ti e ao menino com toda minha ternura e cuidados.
Pela minha lealdade, pagaste-me condenando-me a tais suplícios, que somente no inferno se poderia passar.
E ainda ousas rezar a Deus, após teu vergonhoso perjúrio?
Não seria diante do mesmo Cristo, reverenciado tanto pelos ortodoxos e católicos, ao qual juraste ser fiel a mim por toda a vida?
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 01, 2017 8:36 pm

E o que fizeste?
Responde, criatura ímpia e desprezível!
Em qual religião está escrito que uma mulher pode ter legalmente dois maridos vivos?
Olga, aterrorizada, com o corpo todo tremendo, escutava-o.
Cada palavra dele a golpeava como um martelo.
Sim, Henry tinha razão!
Ela era terrivelmente culpada perante ele.
Cega de ódio pelo cavaleiro e de amor por Ivan Andreievitch, ela, com alegria, agarrou-se à notícia da morte de Barenkhaupt e, não buscando informações mais precisas, contraiu o segundo matrimónio.
Esquecendo toda a bondade que fizera, o amor que lhe dedicara, ela, somente com ódio via nele o inimigo de sua pátria.
Graças a ela, também, Otton esquecera que tinha pai.
Sim, as acusações de Henry eram justas e suas recriminações merecidas.
Agora, ela, absolutamente com outro sentimento, olhava para seus cabelos grisalhos e rosto extenuado.
Remorsos e piedade despertaram-se-lhe no coração.
Obedecendo a este novo ímpeto, caiu de joelhos e agarrando a mão do marido, estreitava-a contra os lábios.
— Tens razão, Henry!
Sou uma criminosa, uma ingrata para contigo, — murmurava.
As circunstâncias me arrastaram.
Perdoa, se puderes, minha fraqueza!
Não me obrigues a carregar este terrível remorso e o ónus horrível de tua maldição!
Barenkhaupt estremeceu ao sentir em suas mãos as lágrimas ardentes.
Ele inclinou-se e respondeu surdamente:
— É sincero teu arrependimento, Rosalinda?
— Como podes perguntar isto? — respondeu com recriminação.
Nos olhos escuros de Barenkhaupt, algo cintilou.
— Neste caso, demonstra-o com uma acção!
Desiste do concubinato culposo com o moscovita e permanece aqui espontaneamente!
Ouviste bem: fica voluntariamente para dedicar-te a nosso filho.
Com esta condição, tudo te perdoo.
Percebendo o horror que se reflectira no rosto desconcertado e nos olhos arregalados de Olga, ele sorriu amargamente.
— Não penses que quero manter-te para mim! — Acrescentou.
Ingressei na Ordem, já não posso mais ter esposa.
Além do mais, sou muito orgulhoso para ligar-me a uma mulher, que por mim alimente repulsa.
O que te peço, eu o faço por Otton.
Ele te ama e vendo-te perto, sentir-se-á feliz.
O menino generoso mereceria inteiramente que também te sacrificasses por ele.
A cabeça de Olga girava.
Era evidente que amava Otton com toda sua alma; mas lá, em Ivangorod, ficaram Ivan Andreievitch e três filhos não menos caros para seu coração.
A ideia de perdê-los para sempre, de perdê-los naquele instante quando ela calculava que dentro de algumas horas iria unir-se a eles, era-lhe insuportável, e, sem querer, murmurou:
— Oh! Melhor morrer a viver separada de Ivan!
Isto foi dito tão fraco, quanto a um suspiro.
Mas, apesar de tudo, Henry entendera aquelas palavras e saltara como uma serpente.
O amor que soara nas palavras e, com clareza, reflectira-se no olhar e no rosto imóvel de Olga, acendeu o ciúme e a paixão contida de Barenkhaupt.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 01, 2017 8:36 pm

Todo o sangue subiu-lhe à cabeça, a vista turvou-se e ele, tremendo de ira, gritou roucamente:
— É este teu arrependimento, libertina! — Esbracejou.
Tu és tão honrada mãe, quanto esposa casta!
Nada mais tenho para falar contigo.
Com estas palavras, voltou-se e, como furacão, saiu correndo do quarto.
Retornando a seus aposentos, caiu na poltrona e, com as mãos, apertava a cabeça que ardia.
Tudo girava a sua volta.
Ele arquejava e rasgou a gola da camisa.
Encostando a cabeça no espaldar da poltrona, Henry sentou-se imóvel, respirando com dificuldade.
O que acontecia naquele instante na alma sombria e endurecida daquele homem terrível?
Quando se endireitou, parecia calmo.
Somente em seus olhos brilhava algo de mau.
Ouvindo batidas na porta, Henry levantou-se, arrumou a camisa e ordenou duramente:
— Entra!
Era Khristofor, coberto com uma capa escura, trazendo na cabeça um gorro largo.
— Vim para levar Rosalinda.
Tudo está pronto.
O barco, eu...
Neste minuto, Khristofor deparou-se com os olhos de Barenkhaupt e imediatamente calou-se.
Ele conhecia suficientemente bem seu ex-patrão e compreendeu que algo terrível havia sido resolvido.
— Senta-te, Khristofor!
Tenho que falar contigo sobre assuntos muito importantes, disse Henry, sentando de novo na poltrona.
Inclinando-se em direcção a seu fiel companheiro, começou a sussurrar.
Horror e repulsa se manifestavam no rosto empalidecido de Khristofor.
A princípio, fez um gesto agudo de negação, depois começou a ficar visivelmente indeciso e, finalmente, com resignação sombria, baixou a cabeça.
— Compreendo tua repulsa, mas teu dever primeiro é sacrificar-te pelo bem da Ordem, que te deu as esporas de ouro, notou Barenkhaupt.
— Eu sei quais as obrigações a que minha dignidade de cavaleiro me submete e não me abstenho delas, lugubremente respondeu Khristofor.
Pegando o gorro, saiu do quarto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 01, 2017 8:36 pm

CAPÍTULO 7

Olga, coberta pela capa, ia, guiada por Khristofor, pelas ruas escuras e desertas de Narva que conduziam ao castelo.
— Meu filho falou que o senhor me levaria para Ivangorod em barco, observou a seu acompanhante, olhando com tremor involuntário para a enorme fortaleza alemã, escurecida pelas trevas da noite.
Como queira estar o mais depressa possível na terra natal! Mesmo de Ivangorod partiria imediatamente.
Só muito longe daquele lugar se sentiria fora de perigo.
— Sim, o cavaleiro, a princípio, pensava em fazer desta forma, respondeu Khristofor.
Mas, depois de pensar bem, achamos que era muito arriscado.
Os soldados russos estão por toda a parte e poderiam feri-la antes que a reconhecessem.
E, actualmente, de maneira alguma me é permitido atracar na terra inimiga.
Por isto, resolvemos conduzi-la pela passagem subterrânea.
Certamente, a senhora conhece o segredo da saída.
— Sim, Otton me falou que o poço de saída dá em nosso jardim e está fechado por uma porta levadiça coberta por grama.
Por isto, Henry pôde me raptar sem ser notado.
— Exacto! Então, do jardim a senhora sairá para uma viela e logo depois de atravessar a praça, chegará a casa.
Assim é a vontade do cavaleiro.
— Como, então, poderei explicar minha volta a Ivangorod, sem revelar o segredo da passagem subterrânea? — Perguntou Olga com preocupação.
— Isto já é assunto seu!
Claro que a senhora deverá inventar algo que pareça verdadeiro, pois espero que compreenda toda a importância deste segredo.
— Sim, compreendo, meu bom Khristofor. Jurei guardar este perigoso segredo e o senhor pode estar certo de que manterei meu juramento.
Não obtendo resposta, Olga calou-se e continuaram seu caminho em silêncio.
Sob a luz fraca do archote, aceso por Khristofor, desceram o subterrâneo, passaram o abismo e entraram, finalmente, em uma galeria estreita.
Ainda fraca e exausta pelos sofrimentos suportados, Olga perdia o fôlego e andava devagar.
Ela respirava com dificuldade e no íntimo, sentia-se pesada.
Cada passo a separava para sempre de seu filho magnânimo; e a lembrança de Barenkhaupt a perseguia como um pesadelo.
Ela não podia lembrar sem aflição do rosto desfigurado de Henry e da expressão raivosa de seu olhar.
Eles já tinham percorrido praticamente a metade da passagem, quando, de repente, Khristofor deu um passo para trás e, com a mão mantida sob a capa, puxou um punhal.
Uma lâmina surgiu no ar e cravou-se até o punho nas costas da jovem mulher.
Um grito surdo e ela caiu com o rosto na terra.
Khristofor inclinou-se sobre ela, virando-a.
Um único olhar foi suficiente para constatar que o golpe fora perfeito.
Olga estava morta.
Então, ele baixou para buscar uma picareta e uma pá e, sob a luz opaca do archote, começou a abrir uma cova na parede da galeria.
Depois, iniciou o sepultamento.
Naturalmente, o severo guerreiro vira durante sua vida muitos cadáveres, porém nunca passara por sensação tão horrível.
Os olhos da vítima estavam arregalados de tal forma que seu olhar vítreo parecia não se desgrudar de seu verdugo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 8:11 pm

Expulsando de si esta fraqueza vergonhosa, Khristofor retirou o punhal da morta, enrolou com cuidado o corpo com a capa, depositou-o na sepultura e, precipitadamente, cobriu-o com terra.
— Tu levarás contigo o segredo de nosso trabalho, pobre Rosalinda, murmurou.
Perdoa-me pela atitude infame, mas não podia sacrificar dez anos de trabalho. Como poderíamos ter certeza de que, num minuto de fraqueza, não nos entregarias aos inimigos e os malditos moscovitas não viriam e degolariam a todos nós?
Concluído o trabalho, ele se ajoelhou, rezou "Pater noster" e "Ave", persignou-se e tomou o caminho de volta.
Seu rosto estava carregado e as sobrancelhas espessas se moviam ameaçadoramente.
— E se tu, Barenkhaupt, agiste somente sob a influência de um ciúme brutal e não por recear pela segurança da Ordem? — Resmungou.
Então, significa que realizei um assassinato inútil, sua mão convulsivamente apertara o cabo do punhal ensanguentado.
***
Henry Barenkhaupt andava pelo quarto em uma aflição febril.
A convulsão desfigurava seu rosto pálido e seu olhar se inflamava de tempos em tempos; ele, nervosamente, atirou para trás sua espessa cabeleira grisalha, como se as mechas de cabelos lhe queimassem a testa molhada de suor.
Escutando, no cómodo vizinho, o ruído de passos pesados, ele, sem querer, sobressaltou-se e sentou-se à mesa, sobre a qual ardiam duas velas de cera em candelabros de prata maciça.
Khristofor entrou.
Não olhando para Barenkhaupt, aproximou-se e atirou sobre a mesa o punhal ensanguentado.
— Rosalinda está morta!
disse secamente com voz quase ameaçadora.
Que o Senhor nos julgue:
a mim, instrumento de homicídio, e àquele que colocou em minha mão a arma mortal.
Que o sangue inocente caia sobre aquele que planeou o crime, único conhecedor de sua verdadeira razão.
Khristofor, sem se despedir, virou-se e saiu.
Ficando só, Henry apoiou-se na mesa, não afastando os olhos do punhal, cuja lâmina estava coberta de gotas vermelhas.
Era o sangue de Rosalinda, a mulher que amara loucamente, amara até o crime, até a perdição da própria alma.
É verdade que sofrera muito por ela, mas também se vingara severamente.
Castigara-a, torturara-a e julgara-a segundo a maior punição que os homens conhecem no código penal: a pena de morte.
Sim, fora o juiz implacável e, de repente, uma voz interior e consciente murmurou-lhe:
seria a culpa dela tão grande quanto o seu castigo?
Seria ela a única culpada de tudo?
Poderia ele não se acusar de nada a respeito de sua relação com a executada, cujo sangue banhou a lâmina de aço daquele punhal?
E, na memória de Barenkhaupt, com uma nitidez dolorosa, ressurgiu a figura meiga de Rosalinda com seu olhar triste e pensativo e um tremor gelado percorreu o corpo do assassino.
Ele sempre fora o amo e não o amigo daquela jovem criatura tímida e solitária; ele nunca buscara sua confiança; ele a ligara a si pelos laços da lei e não do coração e, assim, ela fugira e, sem remorsos, deixara-o.
Incompreensíveis são os mistérios do coração humano.
O amor e o ódio amoldam-se numa pessoa, por assim dizer, sob um mesmo tecto.
O ódio dita as sentenças terríveis, esperando encontrar, na vingança, a calma e a reparação; mas, por estranha ironia do destino, frequentemente no sangue derramado, o ódio se afoga e a sede de vingança desaparece com a ausência do objecto, para o qual ela se orientava.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 8:11 pm

Processo semelhante ocorria agora na alma de Barenkhaupt.
Pela primeira vez, ele próprio se julgava e fazia um balanço de suas culpas.
Rosalinda, de culpada, transformara-se em vítima.
Henry parecia sentir ainda em sua mão o contacto de seus lábios, de suas lágrimas ardentes, via os olhos dela levantados para ele, com uma expressão de arrependimento e simpatia calorosa.
Aqueles olhos se apagaram e os lábios para sempre se fecharam.
Um sentimento amargo de piedade tardia, de despedida e de amor impetuoso, repentinamente, despertou-se no coração de Barenkhaupt, como se, com a morte de Olga, houvessem desaparecido, também, todas as causas de seu ódio e cólera.
Tudo estava irreparavelmente consumado, e o juiz, bem mais digno de desprezo que de condenação, pegou a arma mortal coberta de sangue e tremendo, estreitou-a em seus próprios lábios.
Com melancolia, por um momento, lembrou-se do filho.
O que fizera, cego por suas paixões desordenadas?
Desprezando a palavra empenhada, matara a mãe idolatrada por quem Otton se sacrificara.
Se ele confessar o crime, o filho o amaldiçoará e fugirá para longe.
Se esconder a verdade, não estará escamoteando do filho a confiança e a ternura?
Assustado por seus pensamentos, Henry levantou-se de um salto e pôs-se a correr pelo quarto.
Depois, lançou-se de joelhos diante do crucifixo pendurado na parede e começou a rezar ardentemente, rogando ao Senhor que se apiedasse dele, perdoando e amparando-o.
O sol surgiu, e ele ainda estava em pé, alquebrado e emagrecido, mas aparentemente calmo.
Sua vontade de ferro venceu a tempestade que se desencadeara em sua alma; ele não deveria trair-se perante Otton.
Por mais que, doravante, sua vida fosse vazia, por mais que tivesse a consciência pesada, o filho não deveria suspeitar de nada.
Henry lavou-se, penteou-se, trocou de roupa e, depois, foi à sala de refeições fazer o desjejum.
Ele queria apagar os vestígios dos acontecimentos da noite anterior.
Não sabia que o castigo apenas começava...
Otton, também, pouco dormira naquela noite.
A princípio, chorara amargamente, mas a maleabilidade da alma jovem ajudara-o a vencer a dor da separação.
Quando Olga, pela última vez, apertou-o em seus abraços, murmurou-lhe no ouvido:
— Encontrarei um meio, querido meu, de tempos em tempos, mandar notícias sobre nós.
E o rapaz agarrou-se a esta esperança e dela retirava forças para vencer a presente mágoa.
Depois, pensou no pai e seu coração jovem encheu-se de piedade por ele.
O amor de pai daquele homem rigoroso deveria ser muito grande, se, por sua causa, para conservá-lo junto a si, desistira da vingança e restituíra à mãe a liberdade.
Por isto, de toda sua alma, queria ser-lhe grato e, com ternura filial, redimir os erros da mãe, tentando suavizar o coração rígido, sombrio e exacerbado por infelicidades, do pai.
Ao acordar pela manhã, Otton vestiu a nova roupa, que lhe forneceram e, transformando-se formalmente em um jovem fidalgo alemão, foi para a sala de refeições, onde encontrou o pai.
Barenkhaupt estava melancolicamente sombrio, sentado junto à janela aberta e a Otton surpreendeu a espantosa mudança ocorrida nele desde o dia anterior:
tinha os olhos fundos e a aparência cadavérica.
— Pobre pai! — pensou Otton.
Como em ti fez efeito o sacrifício que assumiste, entregando ao feliz rival a mulher que talvez ainda te fosse cara.
Aproximando-se rapidamente do pai, beijou-lhe a mão, abraçou-lhe o pescoço beijou-lhe a mão e a face enrugada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 8:11 pm

Barenkhaupt estremeceu e uma cor febril tomou conta de seu rosto.
— Tu sofres, pai, e compreendo teu martírio, - disse Otton.
Mas, por isso mesmo, também avalio toda a grandeza de teu sacrifício magnânimo e toda a força de teu amor por mim.
Por toda a vida te serei grato, e tu... encontrarás a recompensa no reconhecimento de que realizaste uma boa acção e que perdoando, alcançaste uma nobre vitória sobre ti mesmo.
Permito-me repetir as palavras que minha mãe confiou a mim transmitir-te.
Reconhecendo-se culpada, ela, de joelhos, suplica que lhe perdoes.
Ela lamenta com amargura, que um acontecimento fatídico dê tal direcção a seu destino.
Até o fim de sua vida, ela rezará ao Senhor, para que Ele te conceda paz e que lembres dela sem raiva.
O cavaleiro escutava, baixando a cabeça.
Cada palavra do filho o cortava como uma faca e o olhar inocente e agradecido de Otton era-lhe insuportável.
Acaso, não era ele o traidor desprezível de seu menino?
Entre ele e Otton, desde então, colocou-se ameaçadoramente a figura da falecida mãe.
Vendo a aflição do pai e notando o tremor nervoso de seus lábios, Otton quis mudar de assunto, dizendo alegremente:
— Dá uma olhada para mim, pai!
Abandonei tudo que te fizesse lembrar o passado triste.
Diz, agrado-te nesta nova vestimenta?
— Acho que ela te cai extraordinariamente bem, respondeu Barenkhaupt, forçando um sorriso e olhando com orgulho e amor para o belo rapaz.
— Sabe, pai, que, a partir de hoje, não só pela roupa me torno um novo homem!
Estou a teu dispor, se quero fazer-me digno de ti e carregar com honra o nome dos Barenkhaupt.
Contendo-se, o cavaleiro discutiu com o filho as condições de sua vida futura.
Quando Otton propôs, também, ingressar na Ordem, o cavaleiro, com firmeza, refutou a ideia.
— Quero que sejas livre e penso, com o tempo, casar-te, para que nossa antiga geração não pereça, respondeu.
Depois, Henry resolveu que iriam para Haspal, onde Otton seria apresentado ao grão-mestre da ordem e depois enviado para Riga, ao palácio do bispo para aprender etiqueta e receber as esporas douradas.
Tudo se cumpriu conforme o planejado.
Moraram em Riga, Hapsal, Revel e somente para Narva, o velho Barenkhaupt parecia não ter o menor desejo de retornar.
Otton, obediente, ia a toda a parte para onde o levavam, esforçando-se para aprender todos os hábitos e, em pouco tempo, pela aparência e pelas maneiras, em nada se diferenciava de seus conterrâneos, porém muito mais sério e contido que eles.
Isto porque, no coração do pobre Otton, reinavam um vazio e desilusão terríveis, pois, embora tivesse mostrado muito esforço, a relação com o pai não fora aquela a que ansiava.
Parecia haver, entre eles, uma espécie de barreira imperceptível.
Às vezes, também reparava como nos olhos do cavaleiro irrompiam amor e orgulho paternos, mas, no geral, Barenkhaupt, a cada dia, tornava-se mais sombrio e calado.
Não compreendendo que sua presença e ternura eram o verdadeiro tormento do pai, Otton, de maneira alguma, podia aclarar para si as estranhezas do carácter paterno e sentia-se profundamente sozinho e infeliz.
Às vezes, durante a noite, uma angústia dominava Otton e nele surgia um desejo forte de ver aqueles com os quais passara a infância, de tal maneira que chorava amargamente.
O que não daria, para, naqueles minutos, sentir as mãos de sua mãe acariciando-lhe a cabeça, ouvir a voz sonora do bondoso Ivan Andreievitch e os risos cristalinos dos irmãos e irmã.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 8:12 pm

Por acaso, soube que o pai, frequentemente, à noite, trancava-se em orações e, por horas inteiras, permanecia em genuflexão, batendo no peito, clamando aos céus misericórdia.
O rapaz, alarmado, perguntava-se que pecado poderia ter cometido seu pai, para que a consciência tanto o martirizasse e lhe roubasse a tranquilidade.
Passaram-se três anos.
Otton recebeu o estatuto de cavaleiro.
Tendo-se, finalmente, aborrecido da vida nómada em vagar de cidade em cidade, ambos os Barenkhaupt retornaram a Narva e instalaram-se em sua própria casa.
Porém, com mais frequência, Otton vivia só, pois seu pai se refugiava no castelo.
Na casa vazia, o rapaz sentia ainda mais sua solidão e a vista de Ivangorod estimulava em sua alma uma impaciência mórbida.
Às vezes, atormentava-o a pergunta: por que sua mãe nunca tentara noticiar-lhe sobre sua saúde, como estava vivendo, o que fazia seu pai de criação, seu verdadeiro pai, se não por sangue, mas por coração e alma, como nunca o fora o velho soturno, encarnação da consciência suja.
Estranho e incompreensível também lhe parecia Khristofor.
Ao invés de utilizar-se de sua condição de cavaleiro e distinguir-se na guerra, vivia como um ermitão em sua casa, situada não longe da casa de Barenkhaupt.
Sua irmã, viúva, ocupava-se das tarefas domésticas; seu irmão Arend morrera de um ferimento obtido em um conflito sem importância.
Otton sempre se relacionava amistosa e respeitosamente com o ex-escudeiro, que o vira nascer, e dirigindo-lhe sorridentemente, palavras carinhosas, mas Khristofor agia como antes, permanecendo calado e lúgubre, evitando, com obstinação, o olhar sincero e límpido do jovem cavaleiro.
Khristofor também sofria por seu crime.
E se a justiça humana não o castigou, uma outra justiça severamente o atingiria...
A pena terrível e oculta começara dois meses após a morte de Olga.
Certa vez, à noite, acordara desesperado por um sentimento vago, mas pesado.
Nervosamente, revirava-se em seu leito, quando, de repente, uma rajada de vento frio e húmido soprara-lhe o rosto e ouvira ruídos de passos leves e precipitados caminhando sobre areia.
Khristofor levantara-se e sentara-se na cama, não entendendo de onde vinham os passos.
De repente, notara que, na extremidade da cama, surgira uma bola vermelha como sangue, que, aos poucos, pusera-se a crescer e, depois, desaparecera em uma nuvem de vapor brilhante e luminoso, no meio do qual, a princípio vagamente, mas depois cada vez mais nítido, configurara-se o rosto de Rosalinda Barenkhaupt.
Rosalinda, reclinada, voltara a cabeça para seu assassino: seus olhos sumiram sob as pregas de uma capa escura e suas mãos pequenas pareceram estender-se até ele.
Seu rosto mortalmente pálido reflectira uma expressão de indescritível sofrimento e pavor; e seus olhos, inspirando um terror gelado, o observava obstinadamente com um olhar imóvel, turvo e vitrificado.
Suando frio, Khristofor não tivera condições de mover-se, não podendo afastar os olhos da terrível visão.
Juntando, finalmente, toda sua coragem, fizera o sinal da cruz, procurando lembrar-se de todas as orações que conhecia, gritando:
— Desaparece, satanás!
Mas tudo fora em vão, pois a visão só se apagara e desaparecera com o amanhecer.
Desde aquele dia, todas as noites, o fantasma aparecera na cabeceira de seu assassino e este, em nenhum lugar, pudera livrar-se daquela "visita" nocturna.
Estivesse onde estivesse: em casa, com amigos, na hospedaria ou mesmo na igreja, quando queria passar a noite em orações.
Assim que batia meia-noite, surgia a bola ensanguentada e, depois de algum tempo, a dois passos dele, mostrava-se o cadáver de sua vítima, que não tirava dele seus pavorosos olhos imóveis com expressão vítrea.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 8:12 pm

Khristofor sentia que ia enlouquecer.
Fazia jejum, mandava celebrar missas e pagava promessas, mas tudo era inútil.
Finalmente, não suportando mais, reconheceu, em confissão, o crime cometido; o sacerdote fez, secretamente no quarto, as orações de exorcismo e forneceu incenso ao arrependido.
Mas também isto em nada ajudara: o fantasma de Rosalinda continuara a aparecer todas as noites diante de seu assassino, como no "memento mori" mudo, mas terrível.
O infeliz Khristofor tornara-se desconfiado e começou a fugir das pessoas, imaginando que todos notavam em sua testa a marca de Caim.
Principalmente Otton se lhe tornou insuportável; começou também a odiar Barenkhaupt e, diariamente, amaldiçoava-se por ter dado também atenção à fantasia criminosa do severo cavaleiro, que, sem dúvida, sob a influência de um ciúme brutal, utilizara sua mão para a realização do delito.
Com a consciência dilacerada por tormentos, insónia e terrível tensão nervosa, Khristofor rapidamente faleceu.
Aliás, esperava a morte como uma libertação e via a vida como um fardo insuportável.
Otton, por sua vez, era torturado pelo desejo ardente de saber algo sobre a sorte de sua mãe e das pessoas que lhe eram próximas.
Já se passara quatro anos desde sua reconciliação com o pai e, até agora, não recebera ainda nenhuma notícia.
A espera o aborrecera e, sozinho, começou a procurar meios de obter informações.
O acaso o conduziu a um mercador que tinha relações com a Rússia e que, às vezes, ia pessoalmente à Novogorod.
O mercador informou a Otton, que, há um ano atrás, seu avô Andrei Semienovitch Lody gin ainda vivia.
Soubera disto pelo filho do velho boiardo, o voievoda Piotr Andreievitch Lody gin, que comprara dele, na conta do pai, algumas peças de feltro e seda.
Sobre o restante dos membros da família, o mercador nada sabia.
Sabendo que, na primavera o mercador iria a Novogorod, Otton pediu-lhe que fosse à casa do avô, encontrando-se com ele, caso estivesse na cidade, para transmitir lembranças e entregar-lhe uma carta, o que o amável alemão prometera cumprir com prazer.
Na carta para o avô; estava inclusa uma outra para Koly tchev, na qual Boris o saudava e enviava beijos à mãe e irmãos, mas também recriminava Olga, por não ter cumprido sua promessa, esquecendo-o, enquanto ele não ficara um único dia sem rezar a Deus por todos eles.
No final da carta, pedira a Ivan Andreievitch informá-lo sobre todos aqueles que amava, principalmente sobre a mãe querida e Natacha.
***
Ivan Andreievitch rapidamente recuperou-se do ferimento obtido no ataque dos livónios; porém afligiu-o profundamente o desaparecimento incompreensível da esposa querida e do filho adoptivo, que amava como se fosse próprio.
O aparecimento inesperado dos cavaleiros dentro da fortaleza e seu sumiço misterioso despertavam na cabeça de Ivan Andreievitch a suspeita de que havia um caminho secreto utilizado pelos livónios; mas onde se encontrava tal caminho, ele não conseguia adivinhar.
Tudo se passara à noite, todos dormiam e ninguém percebera de onde surgiram os alemães.
Os guardas também nada viram; e, na escuridão nocturna e com o pânico geral, fora impossível encontrar a pista do local onde os cavaleiros se reuniram, antes de abandonar Ivangorod.
A princípio, ele aguardava alguma notícia de Olga ou Boris; mas, para Barenkhaupt, provavelmente seria melhor manter os dois no calabouço!
Depois, encontrou a possibilidade de obter informações em Narva mesmo e soube que o cavaleiro partira da cidade, mas Olga, ninguém a vira e, sobre ela, nada se sabia.
Como neste tempo, Koly tchev estava livre dos compromissos de estado, entregou Ivangorod a outro voievoda e resolveu ir para Novogorod, onde se encontrava a família.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 8:12 pm

Sua casa, que era vista como a tumba da esposa, ficara para trás, restando, porém, a intenção de, de tempos em tempos, visitar a fortaleza e rezar pelo sossego da alma de Olga.
E, assim, partiu e ora viveu em sua casa, ora em Novgorod na casa do sogro, onde, frequentemente, por horas inteiras, dedicava-se a Natacha e aos dois filhos mais moços.
Qual não foi o espanto de Koly tchev, quando, em um dia maravilhoso, em sua casa, surgiu o mercador alemão e entregou-lhe a carta com as saudações de Otton.
Por bastante tempo, fez perguntas ao mensageiro a respeito de seu enteado e tudo que conseguiu desvendar pareceu-lhe extremamente estranho e incompreensível.
Boris estava livre e, pelo visto, vivia voluntariamente com o pai, tendo, inclusive, adoptado seu antigo nome, Barenkhaupt.
Por qual razão mandava lembranças à mãe?
Consequentemente, supunha que ela retornara à Rússia; entretanto, na realidade, ninguém a vira e nenhum dos parentes tivera notícia alguma sobre ela.
A leitura da carta e as estranhas saudações de Otton para a mãe somente corroboraram a suspeita que despertaram em sua cabeça.
O que teria mesmo acontecido à infeliz Olga?
Onde ela poderia ter-se escondido?
Será que o detestável Barenkhaupt convencera o filho que enviaria a jovem mulher ao marido, mas, na verdade, mantinha-a em algum lugar secreto?
O mercador informou a Koly tchev, entre outras coisas, que o velho Barenkhaupt estava doente e o jovem cavaleiro dissera-lhe que, no caso da morte do pai, daria notícias sobre si de forma mais objectiva; mas, por hora, não poderia fazê-lo.
Koly tchev, certamente, pela mãe saberia o porque.
Ivan Andreievitch, grato pelo recebimento de notícias tão importantes, recompensou cordial e ricamente o gentil mensageiro.
Ele pediu-lhe para transmitir verbalmente ao enteado que agradecia a lembrança e que o amava tanto como antes, mas que sua mãe não estava com eles e que, desde o tempo de seu desaparecimento, não tivera sobre ela nenhuma notícia.
O velho Lody gin ficou não menos preocupado com a notícia recebida e aprovou inteiramente a ida do genro, dentro de dois ou três meses, a Ivangorod, para tentar entrar em contacto directo com Boris e, se possível, conseguir um encontro com ele a fim de aclarar o segredo, que reinava sobre o destino de Olga.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 8:12 pm

CAPÍTULO 8

Era uma tarde de setembro húmida e fria.
Caía uma chuva fina, que batia na vidraça da casa de Barenkhaupt em Narva.
No quarto de Otton, o fogo ardia na lareira, mas ele, pensativo, estava sentado na poltrona, olhando absorto como o carvão aos poucos se transformava em cinzas insignificantes.
Estava só em casa. Seu pai havia viajado a serviço da Ordem e deveria retornar dentro de uns dois dias.
Otton passava o tempo em absoluta solidão.
Amigos íntimos ele não tinha, e as reuniões barulhentas dos cavaleiros não lhe agradavam.
Hoje, como de costume, dedicava-se à leitura da sagrada escritura e biografias dos santos e profetas.
Quando o crepúsculo tornou-se intenso, Otton afastou o livro e mergulhou numa triste meditação.
Já fazia cinco anos que ele morava ali e sentia-se completamente estranho e de nenhuma forma podia destruir a barreira invisível que o separava do pai.
O velho sombrio e seco parecia mais temer que buscar o amor filial.
Em seu olhar mau, sempre se ocultava algo que esfriava e repelia Otton e este, com o passar do tempo, sentia-se indescritivelmente só e triste.
Nessa noite, o rapaz se encontrava ainda mais melancólico e desanimado que o normal. Desejando afugentar seus amargos pensamentos, acarretados pelo presente, Otton começou a recordar o passado.
Pouco a pouco, Narva e a situação sombria que o cercavam desapareceram e ele se viu em Ivangorod, na região de sua primeira juventude, onde tudo lhe era conhecido e caro.
Como se lá estivesse, via diante de si a sala, onde toda a família se reunia às tardes.
Chegava Koly tchev, sempre bondoso, carinhoso e Otton parecia ainda ouvir seu riso sonoro e alegre.
Ao lado do pai, normalmente sentava calma a mãe pequena e feliz, com seu vestido de seda largo e rico, um verdadeiro anjo, como a chamava Ivan Andreievitch.
Em volta deles, brincavam os irmãos menores e Natacha, alegre, travessa como um menino, já, então, prometia tomar-se uma moça bonita.
Quantas vezes matavam o tempo, divertindo-se, ora com os requebros e travessuras do palhaço, o anão Oomki; ora escutando algum velho tocador de gúsli7, que de passagem, cantava baladas sobre os bogatyri8.
As boas lembranças novamente despertaram nele o desejo ardente de estar entre as pessoas queridas.
As lágrimas despontaram em seus olhos e começou a sentir uma necessidade incontrolável de quebrar finalmente as correntes que o prendiam.
Se o pai morresse, estaria livre.
Mas não seria pecaminoso contar com tal solução?
Além disso, estava ligado à palavra dada ao pai.
Mesmo que Henry morresse, deveria, apesar de tudo, continuar como cavaleiro Barenkhaupt; mas avistar-se com seus verdadeiros parentes e abraçá-los, isto ninguém poderia impedi-lo.
Otton apertou a mão contra o peito e estremeceu ao tocar o grande medalhão frio que trazia ao pescoço.
Era uma figura da Santa Virgem, que o jovem cavaleiro, acima de tudo, venerava.
A Protectora Divina o fez lembrar que a oração era o melhor meio para curar todas as feridas espirituais e a fiel conselheira para as horas vagas de meditação.
Otton persignou-se com devoção, ajoelhou-se e submergiu na oração com uma fé profunda, rezando ardentemente ao Criador para lhe aliviar o coração dolorido.
Ouviram-se alguns golpes surdos na mesa de carvalho e alguém encobriu a luz ardente da vela.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 8:13 pm

O rapaz interrompeu a oração e voltou-se insatisfeito, pensando que algum dos serviçais o molestava, mas a surpresa fez com que as palavras se
perdessem nos lábios.
Apoiada à mesa, encobrindo a vela, diante dele estava sua mãe.
A capa descia pelos ombros, descobrindo o vestido de lã, que ela vestia no dia de sua partida; o véu negro que cobria sua cabeça estava levantado.
Os cabelos claros estavam em desordem, emoldurando de forma estranha o rosto pálido.
Seu olhar ardente estava fixo em Otton.
Abandonando a letargia que o envolvia, deu um salto e correu para mãe com os braços estendidos para abraçá-la.
Mas ela, por alguma razão, afastou-se leve e inesperadamente para trás e, com a mão, acenou para ele. Otton parou indeciso.
Então, Olga recuou para a porta e, com autoridade, fez-lhe um sinal para que a seguisse.
Sentindo a imposição forte da ordem, Otton seguiu a mãe, que, leve como uma sombra, deslizava a sua frente, mais parecendo que se movia pelo ar que andava pela terra.
Assim, desceram a escada, atravessaram o pátio pequeno, saindo para a rua vazia e escura.
O mau tempo e o tardio da hora já, há muito, haviam dispersado para casa os habitantes de Narva.
De repente, Olga parou e desapareceu por uma porta, que Otton, com grande surpresa, reconheceu como da casa de Khristofor.
Sua surpresa cresceu mais ainda quando verificou que a porta não estava trancada.
O que tudo isto significaria? Sua mãe viera a Narva para ocultar-se na casa do ex-escudeiro?
Mas, assim sendo, por que não o informara?
E como era estranho seu aspecto!
Ela mais parecia um fantasma que um ser vivo.
E, depois de cinco anos de separação, ela esquivou-se de seus beijos e para que ela, sem nada dizer, conduzira-o para cá?
Otton continuou caminhando como num sonho e mil pensamentos, as mais diversas suposições aglomeraram-se em sua mente perturbada.
Assim, ele atravessou o longo corredor escuro, um minúsculo cubículo, iluminado fracamente por uma lamparina e entrou no quarto, que servia de dormitório para Khristofor, e de onde provinha ruído de vozes.
O quarto comprido era mobiliado com simplicidade.
No fundo, encontrava-se uma cama sob baldaquinos, decorados com cortinas escuras de lã.
Na mesa, junto à cama, havia um crucifixo, uma taça com água benta e um círio aceso, que iluminava, com sua luz cintilar, o resto emagrecido de Khristofor.
Ele, sentado, rodeado de almofadas, apertava convulsivamente nas mãos uma pequena cruz de madeira.
Na cabeceira, estava Olga e, com o braço estendido, apontava Otton para ele.
Os olhos do moribundo a fitavam com expressão de horror.
No banco, junto à cama, estava sentado um velho monge, que, aparentemente, esforçava-se em confessar e acalmar o agonizante.
— Ei-la! Ei-la!
Oh! Rosalinda! Perdoa-me!
Deixa-me morrer em paz! — gemeu Khristofor, recostando-se nas almofadas.
Ele viu Otton e gritou surdamente.
— Oh! Nesta visão, há o dedo de Deus!
Ela trouxe à minha casa seu próprio filho, para que confesse e revele toda a verdade! — murmurou o moribundo.
Neste minuto, Otton, com horror, viu como um vapor avermelhado envolveu a figura da mãe, que, gradualmente, empalidecia e diluía-se para afinal desaparecer por completo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 8:13 pm

— O que isto significa?
De onde surgiu minha mãe?
Como ela desapareceu?
Não compreendo nada do que se está passando por aqui, — gritou Otton, pálido como a morte, aproximando-se da cama.
— Isto significa que a mão do Senhor te conduziu a meu leito de morte, para revelar-te o segredo, que desejaria carregar comigo ao túmulo, — respondeu Khristofor.
— Sim, meu filho! — confirmou o monge, levantando-se.
Prepara-te para ouvir a confissão do enorme crime, cometido por esse infeliz.
Ele já foi severamente castigado neste mundo, e, prepara-se para comparecer perante o Juiz mais rigoroso que qualquer um do tribunal terrestre.
Sê misericordioso para com ele, como o foi Nosso Senhor Jesus Cristo, que, na cruz, orou por seus carrascos!
Se, não como filho da falecida, então, como cristão, perdoa o culpado!
Fala agora, infeliz, facilita para ti a confissão, pois, de outra forma, tua alma atormentada não encontrará descanso na sepultura.
Otton, sem forças, caiu sobre o banco, do qual se levantara o monge.
— Inclina-te para perto de mim, pois me é muito difícil falar e, se possível, não me amaldiçoes, — murmurou Khristofor com a voz apagada.
Parando ligeiramente por vezes para tomar fôlego, mas não omitindo nada, contou como na noite fatídica foi, sem qualquer intenção premeditada, buscar Rosalinda para levá-la a Ivangorod.
Depois, narrou a conversa com Barenkhaupt, que lhe pintara habilmente o quadro vivo do perigo que ameaçava a muralha de fronteira da Ordem Livónia, em face de ser conhecido por aquela mulher o segredo da passagem subterrânea.
Quem poderia afiançar que Rosalinda, em qualquer ocasião, não revelaria o segredo ao homem amado?!
O cavaleiro lançara, então, naquela passagem toda a sua eloquência, para vencer a sua repulsa e agilmente usara seu ódio aos moscovitas.
Orgulhoso com o trabalho gigantesco realizado, cego pelo ódio e enganado pelo dever empenhado à Ordem, que o elevara ao estatuto de cavaleiro, Khristofor, finalmente, cedeu à sugestão criminosa de Barenkhaupt.
A seguir, descrevera os detalhes do assassinato, as dúvidas e remorsos, que surgiram imediatamente após a execução do delito.
O assassinato de Olga também trouxera pouca felicidade a Barenkhaupt.
Ele, é verdade, conservara o filho, mas a alegria de possuí-lo era envenenada pelos remorsos, que o dilaceravam.
Porém, Khristofor sabia que estava condenado, pois o próprio túmulo abrira-se, liberando sua vítima para castigá-lo.
Eis, que, já há cinco anos, o espectro ensanguentado o persegue, torturando-o até nas orações, perturbando sua paz, empurrando-o à sepultura.
E este tormento era tão terrível, que não levando em conta o pavor, que lhe inspirava o tribunal divino, perante o qual deveria apresentar-se, ansiava pela morte como uma libertação.
Otton, não proferindo nenhuma palavra, escutava pálido como a morte e tremia como se sentisse febre.
Aqueles monstros não somente abateram perfidamente uma mulher indefesa, como também, depois, enterraram-na como um cachorro, na detestável passagem subterrânea, privando-a, inclusive, de um sepultamento cristão.
Sua cabeça girava. Compaixão, desespero e ódio desencadeavam-se nele.
Por fim, não mais suportando, saltou, brandindo o punho para o moribundo.
— Estrangular-te-ei! — gritou com a voz embargada pelo furor.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 02, 2017 8:13 pm

Esmigalhar-te-ei os miolos, assassino infame, traidor, carrasco!
O monge mal conseguiu contê-lo.
— Para, meu filho!
Não esqueça as palavras do Senhor, que disse:
"A mim, a vingança!"
Deus deverá julgar o quanto há de sincero em seu relato sobre o grave crime.
Deixa à morte sua presa!
Voltando a si, Otton levantou-se e, cambaleando, encostou-se na parede, tapando o rosto com as mãos.
Depois, endireitou-se e, por algum tempo, observou o rosto abalado de Khristofor, cujo corpo todo se contraía convulsivamente.
— Que o Senhor Deus e tua vítima te perdoem, — disse com a voz surda.
Eu mesmo não estou em condições de fazê-lo; o crime cometido por ti foi demasiadamente terrível.
Mas, não te amaldiçoarei.
Otton levantou ambos os braços para cima e amaldiçoou aquele que foi o verdadeiro culpado desta iniquidade.
Voltando-se rapidamente, saiu, sem olhar para o moribundo.
Otton não fez a menor ideia de como, com dificuldade, conseguiu chegar a casa e, de imediato, trancar-se em seu quarto.
Um terrível desespero apoderou-se dele.
Agora, era-lhe bastante claro o porquê de não ter recebido nenhuma notícia da mãe:
ela partira para a morte.
Seu sacrifício revelara-se inútil.
Durante cinco anos, dera seu amor filial ao assassino infame, esforçando-se em alegrá-lo para compensar a perda da mulher amada.
Tendo entregado tudo que lhe era caro, poderia ele supor que a própria mão paterna, que beijava, estava manchada pelo sangue de sua mãe!?
Agora, compreendia a terrível situação espiritual do pai, suas orações nocturnas e a eterna aflição que o fazia correr de um lugar ao outro.
Agora, estava-lhe claro, porque aquele sempre fugia de seu carinho filial.
Neste estado angustiante de alma, Otton lançou-se à cama, apoiou a cabeça na almofada e começou a soluçar amargamente.
As lágrimas abundantes paulatinamente solucionaram sua tensão nervosa e, junto com a calma, voltou-lhe a capacidade de pensar e reflectir sobre a situação.
Por nada na vida, queria, agora, permanecer com o pai.
A única ideia que lhe ocorria, fazia-o tremer.
Sim, ele voltaria para Ivan Andreievitch, que, antes de mais nada, considerava como seu verdadeiro pai.
Otton sentia-se livre de qualquer obrigação em relação ao monstro que rudemente tripudiara sobre seus sagrados sentimentos.
Resolveu partir, o mais depressa possível, antes do retomo de Barenkhaupt.
Otton não somente almejava estar em segurança no lado russo, antes da chegada do pai, como também queria encontrar, no subterrâneo, os restos mortais da mãe, para sepultá-los com decência segundo os funerais cristãos.
Era necessário esperar raiar o dia para ir ao castelo sem chamar atenção.
O caminho para o abismo, através do subterrâneo, ele conhecia, mas a chave da porta da "sepultura" estava guardada na mesa do pai, junto à cama.
Não perdendo tempo, Otton atravessou o dormitório de Henry, abriu a mesa com um punhal e pegou a chave.
Apesar do desespero furioso, tinha em mente que todo cuidado era pouco.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 8:06 pm

Depois, pegando na escrivaninha do pai uma folha de pergaminho, escreveu o seguinte:
"O Senhor permitiu a sombra de tua vítima sair da cova e conduzir-me ao leito de morte de Khristofor, que me confessou ter executado, sob tua incitação, um crime.
É assim que tu, assassino ignóbil de mulher indefesa, mantiveste tua palavra de cavaleiro em libertá-la!
Este foi o preço com o qual me pagaste o sacrifício, roubando durante cinco anos meu amor, gratidão e respeito?
Sabendo, afinal, da verdade, considero-me livre de qualquer dever, cuja experiência nunca teve nenhum fundamento."
"Eu te renego, pois não quero ser filho de um carrasco e perjuro.
Eu te amaldiçoo e retorno ao homem nobre e magnânimo, que sempre foi, para mim, meu verdadeiro pai.
"Tu mesmo, que nunca experimentaste e compreendeste o sentimento da verdadeira afeição, vive, agora, sozinho e deleita-te com o ódio.
Que te golpeie a justiça dos Céus, como golpeou a Khristofor, teu cúmplice ignóbil".
"Otton"
Depois de assinar e lacrar a carta, Otton a depositou em lugar visível e ocupou-se dos últimos preparativos.
Saindo de casa, não levou nada consigo, excepto sua roupa antiga, a espada, o punhal e um archote escondido sob a capa.
Ninguém prestou atenção a ele, acreditando que se dirigia à casa de algum cavaleiro, amigo do pai.
Assim, o rapaz, sem obstáculos, alcançou o subterrâneo e, rapidamente, desceu a seu interior.
No porão, que serviu de refúgio ao pai e companheiros, ainda eram visíveis inúmeros vestígios da permanência deles por ali.
Mas Otton, com asco, afastou-se, pois tudo que o fazia recordar Barenkhaupt, era-lhe adverso.
Correndo, chegou à abertura e pulou para baixo.
Ali, também, eram visíveis os vestígios de sua mãe infeliz:
na parede, ainda estavam pendurados os fragmentos das correntes; restos de palha podre indicavam o lugar onde Olga se deitava, e, sobre a pedra, estava a caneca.
Dos olhos de Otton, correram lágrimas ardentes e, ainda mais desanimado, apressou-se em entrar na galeria.
Sob a luz fraca do archote, começou a descer, respirando com dificuldade devido à atmosfera pesada e húmida do subterrâneo.
Com cuidado, movia-se observando atentamente a terra e as paredes.
Em algum lugar, deveria jazer o corpo da mãe.
Mas como encontrar o lugar onde ela fora enterrada?
Khristofor, supõe-se, tentara ocultá-lo com o maior cuidado possível.
De repente, na escuridão, a alguns passos dele, surgiu algo como uma fagulha errante.
A chama azulada, diante dele, flutuava lenta pelo ar e, finalmente, parou; sua luz fosfórica iluminou um montículo quase imperceptível junto à parede.
A pouca altura do chão, como que saindo do solo, expunha-se a cabeça de Olga.
Embora estivesse vagamente delineada, poder-se-ia reconhecê-la imediatamente.
Passou-se mais um minuto, a visão desapareceu e a luz apagou-se.
Otton caiu de joelhos.
— Minha pobre mãezinha!
Morreste aqui, murmurou, tremendo de emoção, e começou a orar com fervor pela paz da alma da inocente vítima.
Depois, tirando a espada da bainha, cravou-a na terra.
Isto lhe facilitaria encontrar posteriormente a cova.
— Até logo, querida!
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 8:06 pm

Em breve, viremos buscá-la.
Minha espada servir-te-á como lápide tumular.
Juro que a banharei com o sangue de teu verdugo.
Depois de rezar mais uma vez, Otton levantou-se e, com pressa, seguiu adiante.
À medida que se acercava da saída, os pensamentos de Otton voavam para aqueles que ele amava e com os quais deveria, em breve, encontrar-se.
A cova da mãe, como uma muralha, separou-o definitivamente de tudo aquilo com o que foi obrigado a familiarizar-se e habituar-se durante cinco anos.
Quando alcançou a saída, não pôde, por algum tempo, abrir a porta levadiça, que fechava a galeria subterrânea.
Com os anos, ela fora invadida pela grama e a terra tapara todas as suas frestas.
Otton já começava a desesperar-se, quando, finalmente, a porta cedeu e, na galeria subterrânea, irrompeu uma corrente de ar fresco acompanhada de um raio de luz.
Ele respirou a plenos pulmões e arrastou-se para o Jardim.
Depois de fechar a porta, observou a sua volta.
Pelo visto, nada havia mudado e, com emoção, ficou imóvel.
No banco, perto da casa, estava sentada uma jovem, bordando alguma coisa com um fio comprido de seda.
Ela era encantadora, tão harmoniosa e suave, tinha as faces frescas e aveludadas como um pêssego, os lábios rosados e uma espessa trança escura, caindo de baixo de um amplo adorno enfeitado por pérolas.
"Deve ser Natacha,"— pensou Otton.
"Como ela mudou e ficou bonita!"
Neste instante, a moça levantou a cabeça e, vendo, a poucos passos dela, um desconhecido em trajes alemães, gritou alto e levantando-se do banco, aprontou-se para correr.
— Não temas, Natacha, sou eu! — gritou Otton correndo em direcção à jovem.
Com o som da voz conhecida, a moça parou e, reconhecendo Otton, correu para ele, envolveu-lhe o pescoço e gritou de alegria!
— Boris!
Eles se beijaram calorosamente.
— Como vieste, Bóris?
Perguntou, com curiosidade, Natacha.
Caíste, realmente, do céu em nosso jardim.
Eu te havia tomado por um cavaleiro livónio e assustei-me tanto!!!
— Por enquanto, eu, efectivamente, sou um cavaleiro livónio; bem, sobre isto explicarei depois!
Agora, diz, está o pai em casa?
Gostaria de falar com ele agora mesmo.
— O pai saiu, mas, com certeza, em breve, retornará.
Viemos para cá, precisamente, na semana passada.
Ele tem aqui alguns afazeres, e, além disto, queria visitar o tio Piotr Andreievitch, que voltou da Lituânia.
Tanto insisti que ele concordou em trazer-me consigo.
Gosto de estar aqui, onde tudo me faz recordar mamãe e a ti! Eis o pai!
Nos portões, surgiu a figura esbelta de Koly tchev.
Vendo que a filha conversava tão amistosamente com um alemão, franziu as sobrancelhas.
— Pai! Boris voltou para nós!
A princípio, tomei-o por um livónio.
Vê como ele cresceu! — Dizia, com alegria, Natacha.
Koly tchev e Boris correram simultaneamente um para o outro, encontrando-se em um grande abraço.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 8:06 pm

— Recebe-me pai! Regresso para sempre para teu tecto.
— Sempre serás o hóspede desejado em minha casa, Boris.
De toda a minha alma, alegro-me com tua chegada!
Vim para cá mesmo para avistar-me contigo, pois recebi tua carta enviada através do mercador Shwartz e, falando francamente, não entendi muita coisa do que havia nela.
— Tenho muita coisa para te contar, pai, — respondeu Otton com um tom triste.
Não considerando sua amargura, ele se sentia calmo, desde o momento em que se encontrou em Ivangorod.
O nome "Boris", como música, soava em seus ouvidos e parecia que o fazia esquecer os anos infelizes, transcorridos em Narva sob o nome de Otton Barenkhaupt.
O voievoda levou Boris a seu quarto e, lá, o rapaz contou tudo que ocorreu desde o tempo da separação:
como, por acaso, descobrira a passagem subterrânea e depois encontrara a mãe no abismo.
Ouvindo sobre o tratamento desumano ao qual fora submetida a mulher amada e mimada por ele, Ivan Andreievitch cerrou o punho com fúria.
— Por isto, ela não chegou aqui.
Teu sacrifício foi em vão, pobre filho meu, — notou, com tristeza Koly tchev, quando Boris contou-lhe como por causa da mãe, sacrificara-se.
O canalha ludibriou-te e, sem hesitar, manteve a infeliz presa em alguma masmorra.
— Ah! Antes assim fosse, então, nós libertá-la-íamos, respondeu, lastimando, Boris.
Com a voz entrecortada pela emoção, narrou os últimos acontecimentos, pelos quais se inteirou de todos os detalhes do assassinato de sua mãe.
Forte e profunda foi a dor de Ivan Andreievitch, ao saber da triste verdade; mas, pouco a pouco, sua alma começou a inflamar-se por uma sede incontrolável de vingança.
Ainda conversaram durante algum tempo e, finalmente, resolveram, a priori, que, naquela mesma noite, retirariam o corpo de Olga do subterrâneo, sepultando-o dignamente, para depois, então, ocuparem-se da vingança.
Koly tchev, custasse o que custasse, queria aprisionar Barenkhaupt, e, com este objectivo, elaborou um plano de penetrar, à noite, em Narva, capturar o cavaleiro em casa ou em seu quarto no castelo e trazê-lo a Ivangorod.
Aqui, o voievoda imaginou uma vingança terrível por todo o sofrimento que fora imposto a Olga.
Enquanto Koly tchev se ocupava com os preparativos, Boris conversava com Natacha e os irmãos.
Todos estavam indescritivelmente contentes por vê-lo de novo.
Tinham tanto que dizer, que as horas voaram como minutos, não obstante o assunto principal da conversa tivesse sido o triste fim da mãe deles.
A noite caiu, Ivan Andreievitch com Boris e um velho sacerdote desceram pelo subterrâneo em busca do corpo de Olga.
O amestrador de falcões, Nikita e o velho Andrei levaram uma maca.
A triste procissão parou junto à espada de Boris cravada no local indicado pela visão.
O voievoda e Boris pegaram as pás e eles mesmos começaram a cavar o chão.
Porém não tiveram que trabalhar muito.
Logo o corpo apareceu, encoberto por uma capa, sob a qual estava a extremidade de uma trança loira.
Eles interromperam o trabalho e, durante alguns minutos, rezaram silenciosamente.
Depois, os restos da pobre Olga foram tirados com cuidado e colocados na maca.
O voievoda, com a mão trémula, levantou um pouco a capa de lã grossa e forte, coberta com um pouco de musgo.
O corpo também, a despeito do que se esperava estava muito bem conservado.
Não obstante, o longo tempo sob a terra, o rosto estava perfeitamente reconhecível.
Depois do velho sacerdote rezar o réquiem, a cova foi tapada e todos retornaram apressadamente a Ivangorod.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 8:06 pm

O corpo de Olga, na medida do possível, foi lavado e vestido com uma roupa limpa, colocaram-na em um ataúde e transladaram-no para a igreja.
Pela manhã, na presença de toda a família e das pessoas ilustres da cidade, foi realizada a liturgia fúnebre; e, depois, a vítima inocente de Barenkhaupt foi colocada ao lado do tio de Ivan Andreievitch, e voievoda Loban-Koly tchev que tombou em batalha sob as muralhas de Ivangorod, em 1.502.
Depois de cumprir este triste dever, Ivan Andreievitch e Boris começaram a projectar a vingança e, após o descanso de algumas horas, iniciaram activamente os preparativos para a corajosa incursão nocturna.
***
Henry Barenkhaupt se dirigia a caminho de Narva, escoltado por dois escudeiros e estava mais sombrio do que nunca.
Que promessas não fez, que provações não impôs a si, durante a estadia em Haspal, tudo em vão.
O céu implacável não enviou a paz a sua alma.
Pelo contrário, ao pressentimento, que o atormentava, acrescentaram-se algumas ocasiões de alucinação, que acentuaram a gravidade de seu estado de espírito.
Ora brilhava perante seus olhos o punhal ensanguentado, e, em seus ouvidos, soava o grito agonizante de Rosalinda; ora ela mesma lhe aparecia na penumbra nocturna, imprecisa e vaporosa em algum recanto, ou assomando a cabeça entre as cortinas.
E toda vez seu olhar de vidro, terrivelmente imóvel, fixava-se em Henry, e sua mão branca e pequena borrifava-lhe o rosto com sangue.
Era preciso ter a personalidade de ferro de Barenkhaupt para suportar semelhante visão e manter-se aparentemente calmo.
Com o coração pesado, ia para casa, onde encontraria Otton.
Com a ternura, confiança e respeito constantemente manifestados, o que, para Barenkhaupt, era, sem comparação, muito mais grave do que, se proveniente do filho, houvesse a indiferença, ou mesmo o ódio.
No alvorecer daquele mesmo dia; quando os restos de Olga já jaziam no ataúde em Ivangorod, Henry aproximava-se de casa.
Não tinha ainda descido do cavalo, quando o velho mordomo e a governanta, desconcertados, correram para ele e ambos informaram que o jovem senhor desaparecera, não se sabe onde, desde a manhã anterior.
Barenkhaupt empalideceu.
Por que esta nova infelicidade?
O que poderia ter acontecido a Otton?
Não tirando nem as armas e nem a capa de viagem, dirigiu-se directo ao quarto do filho.
Lá tudo estava em ordem. Um livro aberto, sobre a mesa, mostrava que o rapaz havia lido antes de ir embora.
Em nenhum lugar, havia algo que pudesse mostrar a razão ou as circunstancias que fundamentassem seu desaparecimento.
Os graves pressentimentos mais e mais inquietavam e torturavam Barenkhaupt que se dirigiu a seu quarto, onde imediatamente lhe saltou aos olhos a carta de Otton no centro da mesa.
Com as mãos tremendo, abriu-a e, a medida que ia lendo, seu rosto pouco a pouco, empalidecia.
As letras saltavam perante seus olhos; uma nuvem cruenta encobriu seu olhar.
O pergaminho caiu-lhe das mãos, a cabeça girou e, abatido, caiu na poltrona.
Aliás tal estado depressivo não durou muito e seu pensamento de novo começou a trabalhar, despertando nele a consciência cruel daquilo que sempre confusamente temia.
Seu filho soube do crime e, com horror e desprezo o renegara.
Estava novamente sozinho e, agora, para sempre; pois, se antes os separavam as circunstâncias funestas, agora, entre eles, havia um crime verdadeiro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 8:07 pm

Devido à própria natureza excitável e inconstante, de repente, a dor de Henry transformou-se em um rancor furioso.
Será que seu filho alguma vez o amara sinceramente? pensava.
Viver com o pai era considerado um sacrifício e, na primeira ocasião ele aproveitou-se para efectivar uma separação.
Embora ele nunca se atreveria a fazê-lo se o infame Khristofor não lhe houvesse revelado o segredo existente entre eles.
Dominado pelo desejo de vingar-se, a qualquer custo, de seu antigo companheiro pela vergonha e pesar deste minuto, Henry, não reflectindo, saltou da poltrona e, agarrando o punhal e a capa, saiu correndo de casa.
Como um furacão, irrompeu no quarto de Khristofor, mas deteve-se imóvel na soleira:
Khristofor jazia no ataúde e, agora, nenhuma vingança terrestre lhe seria terrível.
O monge velho que rezava ao lado do ataúde, levantou-se com a chegada de Barenkhaupt e mirou-o com um olhar triste e severo.
— Cavaleiro Barenkhaupt, o senhor veio rezar junto ao caixão deste pobre infeliz?
Ele mereceu isto inteiramente por sua causa, — ressaltou.
Eu ouvi a confissão de Khristofor e posso confirmar que a justiça divina o puniu, por seus erros, mais severamente que a qualquer outro pecador.
O senhor deseja saber como esta justiça se manifestou?
— Se não lhe for importuno, poderia contar-me sobre isto, santo padre, pois o escutarei com o devido respeito, — respondeu friamente Barenkhaupt.
No que se refere às minhas orações, ele não as merece, uma vez que me traiu.
— Homem orgulhoso!
Saiba que o denunciaram o próprio túmulo e sua vítima, — com indignação retrucou o monge.
Depois descreveu as visões que perseguiam o falecido e contou como o fantasma de Olga conduzira Otton à cabeceira do moribundo.
Perturbado e assustado, Henry ouviu em silêncio aquele estranho relato e, com a cabeça baixa, voltou para casa.
A visita a Khristofor dispersara sua fúria e, com um grave desânimo, reflectia sobre todo o ocorrido.
Então, Rosalinda vingou-se por sua morte prematura.
Mas se ela perseguia tão implacavelmente Khristofor, que, na realidade, fora unicamente o instrumento de suas mãos, que sede de vingança deveria, então, ela sentir por ele?
Ela o separou de Otton, ela o atormenta com terríveis visões; o que ainda estaria preparando-lhe para o futuro?
Durante algumas horas, Barenkhaupt ora caía em uma apatia sombria, ora se entregava a um desespero mudo, quando, de repente, veio-lhe à mente que Otton poderia revelar o segredo da passagem subterrânea, e que, certamente, ele mesmo fugira por aquele caminho.
Esta suposição, de imediato, despertou sua energia.
Resolveu pessoalmente verificar o subterrâneo.
O desaparecimento da chave levou-o à ira.
Mas Barenkhaupt não era daquelas pessoas que se deixam abater facilmente.
Em sua cólera, esqueceu até da visão nocturna e de Khristofor.
Naquele instante, estava preparado para matar Otton, para que, junto com ele, fosse conservado o segredo de seu gigantesco trabalho.
Não perdendo tempo, Henry foi ao castelo e, na qualidade de cavaleiro, convocou todos que lá estavam, para comunicar-lhes um assunto da mais extrema importância.
Quando todos se reuniram, Barenkhaupt disse que o segredo da passagem subterrânea, com toda a certeza, já estava nas mãos dos moscovitas e que o traidor que o revelara, fora seu filho, que, no fundo do coração, sempre fora inimigo da Ordem e aproveitara a primeira ocasião para retornar a seus antigos amigos.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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