Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 4 de 4 Anterior  1, 2, 3, 4

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 8:07 pm

Percebendo a perplexidade e a leve desconfiança que se reflectiam nos rostos dos cavaleiros, acrescentou:
— Meus irmãos!
Para que vocês não duvidem e possam entender melhor todos os detalhes deste drama infeliz, ouçam minha confissão.
Então, ele contou minuciosamente seu passado, a vingança imaginada, a tomada do filho, suas razões e motivos, que o induziram a matar sua ex-mulher.
— Agi de acordo com meu entendimento e dever contínuo.
Não podia colocar nosso segredo, nossas vidas e os importantes interesses da Ordem na dependência de uma mulher, que me dera indícios suficientes de sua perfídia.
Por isto, para sempre silenciei os lábios indiscretos, não supondo que meu próprio e velho companheiro me traísse.
Não posso julgar Khristofor, que está se apresentando ao Tribunal Divino, mas, sem a menor hesitação, matarei Otton, se o vir nas fileiras de nossos inimigos.
Agora, irmãos meus, vocês já sabem de tudo.
Resta-nos somente discutir quais as medidas de precaução que serão necessárias para prevenir um ataque dos moscovitas pela passagem subterrânea.
No rosto de Barenkhaupt, via-se uma expressão terrível de ódio tão feroz, que deprimiu todos os presentes.
Porém seu relatório foi deveras importante e exigia decisões rápidas.
Começou, então, uma discussão viva onde se expressavam as mais diversas opiniões.
Finalmente, resolveram construir barreiras na passagem subterrânea, que, com o tempo, torná-la-iam intransitável e, além disto, instalar no abismo um posto de guarda, que daria alarme no caso do inimigo intentar atacar de surpresa.
Decidiram construir as barreiras nesta mesma noite.
Então, Barenkhaupt comunicou que, antes, queria verificar a casa, na qual Koly tchev vivera e onde, talvez, naquele instante estivesse Otton.
Queria capturar o filho, e quem sabe, dar explicações, ou, na realidade, desejava medir-se em luta armada com o rapaz?
Porém os severos cavaleiros estavam muito preocupados com os meios de defesa do perigo que os ameaçava, para se interessarem por questões insignificantes e, por isso, nenhum deles objectou a intenção de Barenkhaupt.
Se ele queria arriscar-se penetrando na casa inimiga, isto era assunto dele; e mesmo se lhe ocorresse um estranho desejo de ver como seu filho seria julgado por traição, isto também era um assunto absolutamente pessoal.
***
Eram quase onze horas da noite, quando uma dúzia de cavaleiros e escudeiros, armados da cabeça aos pés, desceram pela passagem subterrânea.
Liderando, tendo na mão a espada desembainhada, ia Barenkhaupt, acompanhado por um dos escudeiros com um archote aceso.
Os outros seguiam aos pares, carregando todo o indispensável à construção das barreiras.
Eles já tinham alcançado o meio da passagem, quando, de repente, Barenkhaupt parou e, atrás dele, toda a fileira.
Ao longe, ouvia-se levemente um rumor de armas e ressoava ruído de passos, que se aproximavam rapidamente do destacamento.
Um impropério forte escapou dos lábios de Barenkhaupt.
Naquele minuto, odiou o filho, a tal ponto, que, com deleite, estrangulá-lo-ia com as próprias mãos.
— É tarde, irmãos! disse, à meia voz, ao cavaleiro que estava parado atrás dele.
Tentemos recuar para o acesso.
No fundo do abismo, há mais lugares para a batalha.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 8:07 pm

É necessário exterminar todos os amaldiçoados moscovitas, para que nenhum cão retorne a Ivangorod para contar o que aqui se passou.
Eu e Reingold defenderemos a passagem e cobriremos nossa retirada.
O conselho foi bom, mas de difícil execução.
As armas, as correntes, os troncos dificultavam o movimento dos cavaleiros na estreita passagem.
Os russos vinham rapidamente, e, em breve, os archotes de ambas as fileiras, com uma luz avermelhada, iluminaram a passagem subterrânea.
Chefiando os russos, vinham Koly tchev e Boris.
Quando Barenkhaupt reconheceu o filho, enfureceu-se.
— Traidor! Judas! Ingrato, filho rebelde!
Sucumbirás por minhas mãos, rugiu, lançando-se contra o filho.
— O Senhor julgará qual de nós é o traidor e Judas, replicou Otton, aparando o golpe.
Mas Koly tchev rapidamente o afastou.
— Para trás, Boris!
Por mais que um pai seja culpado, não deve o filho levantar o braço contra ele.
É meu o dever de castigar o verdugo e assassino de minha esposa!
Os adversários lançaram-se furiosamente um contra o outro, e, entre eles, começou uma batalha desesperada.
Em volta deles, transcorria uma luta ensandecida, que se convertia numa carnificina.
Os livónios não puderam em tempo recuar e, quando se esforçavam para alcançar a saída da passagem subterrânea, então, uma das travas de ferro maciça bateu na parede e obstruiu a passagem.
Não havia força que conseguisse movê-la do lugar.
A batalha de Barenkhaupt com o voievoda desenvolvia-se equilibrada.
Ambos os adversários receberam alguns ferimentos e sangravam.
Mas eis que Koly tchev, com um golpe furioso, quebrou a espada do cavaleiro e enterrou-lhe a sua no peito.
Henry gritou selvagemente e caiu.
Koly tchev lançou-se para acabar com ele, mas o agonizante, com uma força inacreditável, puxou o punhal e cravou-o até o cabo na garganta de seu adversário.
A morte dos dois principais personagens do drama mal foi notada no fragor da batalha.
Os combatentes empurravam-se na passagem estreita, arquejando, devido ao ar viciado e à fumaça dos archotes apagados.
Não havia clemência para ninguém e, rapidamente no subterrâneo, restaram somente mortos e vários feridos, inclusive Boris e Nikita, o amestrador de falcões.
A duras penas, arrastaram o corpo de Koly tchev para a saída, de onde, graças à ajuda de alguns criados, Ivan Andreievitch foi transladado para casa.
Natacha e os irmãos ficaram em desespero, quando souberam que o pai fora morto e Boris, gravemente ferido.
Tendo sido avisado por um mensageiro, o próprio velho Lody gin veio e, pegando Boris com o restante da família, levou-os a Novogorod.
Lá, graças aos cuidados abnegados da velha Irina e Natacha, o ferido começou aos poucos a melhorar, mas muito tempo passou pra que sua saúde se restabelecesse em definitivo.
A morte do adorado Ivan Andreievitch, os fins trágicos da mãe e Barenkhaupt, que apesar de tudo era seu pai, transtornaram profundamente a alma sensível de Boris e somente o amor ardente por Natacha o fez, com o tempo, esquecer os acontecimentos fatídicos, que perturbaram sua juventude.
Três anos se passaram, quando recebeu a permissão para casar-se com Natacha.
Havia-se tornado russo a tal ponto, que esquecera que, em suas veias, corria o sangue do severo Barenkhaupt.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 03, 2017 8:07 pm

Mesmo os cavaleiros livónios e, com eles, todos os alemães, haviam-se-lhe tornado inimigos.
Entretanto, não houve ocasião para guerrear com eles.
Os russos e a Ordem dos cavaleiros haviam assinado um acordo por cinquenta anos e, entre Narva e Ivangorod, estabeleceu-se a paz.
É certo que os vizinhos, quando possível, não perderam oportunidade para se provocarem com pequenas hostilidades, que não acarretaram a revogação do acordo de paz, embora, as duas margens do Narva, como antes, conservassem um ódio recíproco.
Boris, com a esposa, todos os anos visitava Ivangorod, para rezar no túmulo de seus pais.
Um velho guerreiro mutilado, que vigiava os túmulos, contou-lhes que a passagem subterrânea fora tapada em ambos os lados e que ninguém ia até lá por considerarem amaldiçoada, pois fora aberta pelo ódio e com maldições e blasfémias fora o palco de um assassinato pérfido, que, no final das contas, servira de sepultura para muitos bravos.
Os livónios arrastaram todos os seus mortos e feridos; somente o corpo de Barenkhaupt não fora encontrado em nenhum lugar.
Correra o boato de que o diabo o carregara.
Na passagem subterrânea, dizem, acontecem coisas estranhas.
De lá, vêm ruídos de armas, gritos e gemidos e o próprio abismo, denominado "sepultura", é iluminado por uma luz cor de sangue.
Alguns afirmam, inclusive, que viram como de baixo da terra surge, tendo na mão a espada desembainhada, o fantasma do cavaleiro e, como um gato, arrasta-se timidamente ao longo da muralha, seguida por uma sombra branca de cabelos loiros esvoaçantes, que, com ambas as mãos, lança-lhe chamas.
O Senhor, dizem as pessoas, entregou a alma criminosa do cavaleiro à vingança de sua vítima.
***
Quatro séculos se passaram desde o tempo em que aconteceram os factos descritos por nós.
Ivangorod e Narva permanecem, mas, entre os ex-inimigos, reinam a paz e a concórdia.
Actualmente, já faz algum tempo, paira sobre elas a Águia Imperial e, sob a segurança de suas asas poderosas, Narva prospera e desenvolve-se pacificamente.
De seu passado tempestuoso, Narva conserva apenas a muralha e a velha torre dentada, ruínas respeitáveis de um tempo remoto, para as quais a geração actual, conhecedora da dinamite, vapor e electricidade, olha com comiseração, como para um brinquedo de criança.
Ainda existe o abismo denominado "sepulcro" e também a passagem subterrânea aberta por Barenkhaupt; mas a água que se infiltra pouco a pouco, já a inundou quase pela metade.
O guia que mostra aos turistas o abismo e a galeria, não deixa de contar também a lenda do severo cavaleiro e o drama terrível que transcorreu naqueles locais.
Dizem, entretanto, que a alma criminosa de Barenkhaupt ainda não encontrou a paz.
É verdade que o cavaleiro não é mais visto, mas, nas escuras noites outonais, sob as abóbadas sombrias da passagem subterrânea, ouvem-se gemidos e sussurros...

7) Gúsli: Instrumento monocórdio na forma de violino.
8) Bogatyri: Um dos heróis da epopeia russa.

§.§.§- O-canto-da-ave
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - Na Fronteira / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 4 de 4 Anterior  1, 2, 3, 4

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum