É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Página 5 de 11 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6 ... 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:33 pm

Eles lhe dirão como deve proceder.
— Não tenho cartão telefónico...
Ele tirou do bolso um cartão telefónico e, ensaiando um sorriso, disse:
— Leve este, não posso permitir que use o telefone da delegacia.
Sabe como é, contenção de despesas.
Ela, agradecendo, pegou o cartão e saiu da sala em direcção ao corredor.
Álvaro, com o semblante preocupado, disse:
— Não posso fazer isso, preciso discutir o assunto com minha esposa.
Precisamos decidir a qual clínica o levaremos.
— Eu não aconselharia isso.
Leve-o hoje para qualquer uma, depois terão tempo para escolher.
Telefone para sua esposa.
Conte a situação, ela entenderá.
— Não, não posso fazer isso, não estou conseguindo aceitar, mesmo vendo-o nessa situação.
Ela não entenderá.
Acredito ser melhor levá-lo para casa.
Lá decidiremos, e amanhã bem cedo iremos para uma clínica.
— O senhor é quem sabe.
Leve este papel, nele está endereço e telefones de várias clínicas.
Poderá ligar e escolher aquela que achar melhor, mas o ideal seria que os dois fossem internados em clínicas diferentes.
Álvaro pegou o papel e colocou-o no bolso.
Glória entrou novamente na sala, devolveu ao delegado o cartão telefónico que lhe havia emprestado.
— Conversei com um senhor, ele disse para eu levar Rodrigo hoje mesmo, estará lá me esperando.
Lá me dará os regulamentos que terei que cumprir.
O senhor sabe quais são?
— Cada clínica tem seu próprio regulamento.
Em geral, por certo tempo não permite que os internos entrem em contacto com a família ou alguém conhecido.
— Ficarei sem ver Rodrigo?
— Acredito que sim.
Ele precisa ficar sozinho, longe de tudo que lhe lembre a droga.
— Mas eu não lhe lembro a droga!
— Lembra sim, ele tem muito sentimento de culpa em relação à senhora.
Sabe o quanto fez e espera dele.
— O senhor talvez tenha razão, sempre esperei muito dele.
Sempre quis e acreditei que seria um doutor ou que teria uma boa profissão.
Álvaro ouvia e pensava:
"Eu também sempre esperei muito de Artur.
Esperei, não!
Sempre acreditei que ele seria o melhor na profissão que escolhesse."
O delegado continuou:
— Sempre esperamos muito dos filhos, sempre acreditamos e desejamos que eles sejam os melhores.
Quando isso não acontece, nossa decepção é muito grande.
— O senhor tem razão.
— Infelizmente.
Mas o senhor pretende mesmo levar seu filho para casa?
— Sim, preciso conversar com minha esposa, quero que ele esteja presente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:33 pm

— Eu levarei Rodrigo para a clínica.
— A senhora tem condução?
— Sim, tenho meu carro.
— Sendo assim, só queria lhe dar mais um conselho.
Daqui até a clínica levará mais ou menos três horas na estrada, não seria conveniente que fosse sozinha.
Não terá ninguém que possa acompanhá-la?
— Vou ligar para uma amiga, talvez ela venha.
— Faça isso, será melhor.
— Só que para isso precisarei novamente do cartão.
Ele, sorrindo, devolveu-lhe o cartão.
Ela saiu.
Voltou alguns minutos depois:
— Minha amiga está vindo para cá.
O delegado sorriu, dizendo para ambos:
— Só me resta fazer uma última coisa.
Vou pedir para trazê-los de volta.
Só peço aos senhores que me deixem falar com eles e não interfiram.
Os dois concordaram com a cabeça.
Em seguida, o delegado chamou o homem que havia lhes telefonado e os recebido e pediu que trouxesse os meninos de volta.
Ele saiu da sala e em seguida voltou, trazendo com ele os dois, que continuavam com as cabeças baixas.
O delegado, mudando completamente o tom de voz, disse com firmeza:
— Bem, rapazinhos, seus pais agora já sabem de tudo, por isso não será necessário haver mais mentiras.
Vocês são dois garotos de sorte.
Têm pais interessados, que estão dispostos a ajudá-los.
Sei que cada um deles fará a sua parte, o resto depende de vocês.
Devem e precisam colaborar.
Quero que levantem a cabeça e olhem para os meus olhos
Eles obedeceram, e vagarosamente levantaram a cabeça e olharam para o delegado, que continuou:
— Eles decidiram que farão todo o possível para ajudá-los.
Para isso, serão enviados a uma clínica, onde receberão toda a assistência que necessitam no momento.
Ao ouvir aquilo, Artur estremeceu, mas continuou ouvindo o delegado, que continuou dizendo:
— Lá terão a oportunidade de se livrar da droga e voltar a ser como eram antes.
Entenderam?
A única coisa que eles queriam naquele momento era sair dali.
Concordaram com a cabeça.
— Pois bem.
Você, Rodrigo, vai sair daqui com sua mãe e irá directo para uma clínica.
Artur, seu pai achou melhor que fossem até sua casa primeiro conversar com sua mãe, e só irá amanhã cedo.
Está bem assim?
Novamente concordaram.
— Agora é o momento de escolherem o caminho que desejam seguir.
Deus queira que escolham o melhor.
Hoje os estou deixando ir embora, mas se voltarem novamente a esta delegacia, os mandarei para uma instituição que cuida de menores.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:33 pm

Ficarão lá até que faça dezoito anos.
Eles tornaram a baixar a cabeça.
O delegado fez um sinal e os quatro saíram da sala.
Assim que saíram, ele olhou para uma foto que havia em cima de sua mesa.
Era a foto de uma jovem de mais ou menos dezassete anos.
Com os olhos molhados, pensou:
"Tomara minha filha, que eu esteja servindo de instrumento para ajudar esses dois rapazes, já que com você não consegui."
Do lado de fora da delegacia os quatro se despediram.
Artur e o pai entraram no carro.
Glória, junto com Rodrigo, voltou para dentro, precisava esperar a amiga.
Artur seguia calado e de cabeça baixa.
Podia imaginar o que seu pai estava sentindo naquele momento.
Queria dizer alguma coisa, mas não conseguiu.
Seu coração batia acelerado.
Sabia que encontraria sua mãe e que ela também ficaria triste e decepcionada. Pensava:
"Vou mudar!
Vou deixar a cocaína e não vou precisar de clínica alguma.
Tenho que fazer isso sozinho!"
Álvaro estava triste, magoado e decepcionado demais para dizer qualquer coisa.
Para ele o mundo havia caído.
Tentava descobrir onde havia errado.
Seu desespero era imenso.
Intimamente se perguntava:
— Por quê?
Por que ele fez isso?
Dirigia o carro.
Artur percebeu pela primeira vez que o rádio estava desligado.
Assim, em silêncio, chegaram a casa”.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:33 pm

SENTIMENTO DE CULPA
“Odete também estava nervosa e muito assustada, por isso, ao ouvir o barulho do carro entrando na garagem, foi correndo para lá.
Ao vê-los, disse, ansiosa:
— Ainda bem que chegaram!
Não aguentava mais de tanta preocupação!
Entraram calados, ela os seguiu.
Já lá dentro, na sala, perguntou:
— Artur! O que aconteceu?
Por que estava na delegacia?
Por que demoraram tanto?
Leandro acordou com o barulho do carro.
Olhou para o relógio, estranhou que seu pai estivesse chegando àquela hora.
Saiu do seu quarto, seguiu pelo corredor e parou no alto da escada exactamente no momento em que eles entraram.
Ao ouvir a palavra delegacia, parou.
Sentou-se no primeiro degrau da escada.
Embora não fosse visto, podia com tranquilidade ouvir o que diziam.
Ao ver o rosto de desespero de sua mulher, Álvaro disse:
— Odete, sente-se, teremos uma longa conversa.
Ela estranhou ao ouvi-lo chamá-la pelo primeiro nome.
Ele nunca fazia isso, a não ser quando estava nervoso ou tinha um assunto muito grave.
Muito nervosa, sentou-se.
Ele sentou-se ao seu lado.
Olhou para Artur, dizendo:
— Você quer que eu conte ou prefere contar?
Artur tremia muito, e continuou de cabeça baixa.
Não conseguia olhar para a mãe.
Álvaro, percebendo que ele não queria falar, seguiu:
— Nunca mais esquecerei a cena que vi ao chegar à delegacia.
— Que cena?
— Seu filho encostado no canto de uma sala e algemado.
— Algemado!?! Como!?! Por que!?!
— Por ter tentado furtar um carro.
— Furtar um carro!?!
— Isso mesmo.
— Você deve estar delirando!
Por que ele faria isso?
— Para poder comprar droga.
Ela se levantou, não queria acreditar no que estava ouvindo, mas sabia que seu marido jamais inventaria ou brincaria com um assunto como aquele.
Gritou:
— Droga? Não! Não pode ser!
Começou a chorar.
Álvaro levantou-se e a abraçou:
— Sinto muito, mas é verdade, seu filho está usando drogas!
— Que tipo de drogas?
— Não sei! Pergunte a ele!
Ela, desesperada, perguntou:
— Artur, que tipo de droga?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:34 pm

Ele, sem levantar a cabeça, disse:
— Cocaína.
— Meu Deus! Por que, Artur?
Por quê? Ele não respondeu, apenas chorava.
Leandro continuava no alto da escada.
Ao ouvir aquilo e ver o desespero dos pais, começou a chorar, mas não teve coragem para descer a escada.
Continuou ali quieto e parado.
Odete livrou-se dos braços de Álvaro e foi para junto de Artur.
Com as mãos, levantou sua cabeça, fez com que ele ficasse com os olhos diante dos dela:
— Meu filho, por quê? Por quê?
O que estava lhe faltando?
Porque não nos pediu ajuda?
Sei que o erro foi meu, deixei escapar alguma coisa, só não consigo imaginar o que seja.
Que foi meu filho? O que deixei de fazer?
Artur só chorava, não conseguia dizer nada.
Permaneceu calado.
Ela continuou:
— Sempre me julguei uma boa mãe...
Sempre achei que estava agindo certo...
Meu Deus! E agora? Como vai ser?
Abraçou Artur bem forte junto ao seu coração.
Ficou assim por um longo tempo, sem dizer nada, apenas abraçando-o e chorando.
Ele também, por sua vez, fazia o mesmo.
Por detrás dos ombros de Artur, olhou para o marido:
— O que faremos?
— Volte a se sentar.
Ela se sentou.
Ele disse:
— O delegado é um homem com muita experiência nesses casos.
Disse que a melhor solução será o internarmos em uma clínica de desintoxicação.
— Acredita mesmo que seja o melhor?
— Não sei!
Nunca imaginei que um dia isso acontecesse!
Também não sei o que é melhor!
Depois de muito tempo calado, Artur olhou para mãe e disse, chorando em tom de súplica:
— Não, mamãe... Por favor, não!
Não quero ir para clínica alguma!
Prometo que nunca mais vou usar cocaína ou outra droga qualquer.
Voltarei a estudar, a nadar e a mexer no meu computador.
Antes que Odete dissesse qualquer coisa, Álvaro o interrompeu:
— O delegado disse para não confiarmos em nada do que ele dissesse, pois para conseguir a droga eles choram, mentem, enganam e até roubam.
Assim que terminou de dizer essa última palavra, olhou em direcção à cozinha.
A imagem de Iracema surgiu em sua frente.
Lembrou-se com exactidão de tudo o que havia sucedido ali, naquela mesma sala.
Levou como uma flechada no peito.
Voltou-se para Artur:
— Artur, roubaram mesmo seu ténis?
Foi Iracema quem tirou o colar de casa?
Ele sabia que já não precisava esconder mais nada, o que temia acontecera.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:39 pm

Seus pais já sabiam de tudo.
Com a cabeça baixa, respondeu:
— Não foi Iracema quem tirou o colar, e ninguém roubou meus ténis.
Eu os troquei por maconha...
Odete soltou uma exclamação:
— Meu Deus! Como pôde Artur?
Você não sentiu pena dela?
— Desculpe mamãe...
Sinto muito...
Leandro não resistiu mais, desceu a escada correndo e gritando:
— Não disse que não tinha sido ela? Não disse?
Como teve coragem de deixar que todos pensassem que tinha sido ela?
Como teve coragem de deixar que o papai a levasse para a delegacia?
Odete abraçou o filho:
— Sempre teve razão, mas Artur precisa de nossa ajuda.
Ele está doente.
Amanhã, depois que o levarmos para a clínica, iremos juntos à favela onde ela mora e pediremos perdão.
Vamos ver se conseguimos fazer com que ela volte.
— Vai fazer isso mesmo?
— Vou sim...
— Posso ir junto?
— Claro que pode.
Álvaro permaneceu calado.
De repente, deu um soco em sua própria cabeça, dizendo:
— Como fui estúpido? E o filho dela?
Um rapaz esforçado, estudioso e trabalhador!
Que terá sido feito dele?
— Não adianta ficar assim, amanhã resolveremos isso.
Pediremos perdão, e se ele ainda quiser, poderá fazer com que volte para o escritório.
— Agora não há nada mesmo que eu possa fazer.
Você tem razão, amanhã faremos isso.
Agora você, Artur, vá para o seu quarto, prepare uma maleta com algumas roupas, deixe tudo pronto.
Amanhã terá a oportunidade de recomeçar.
Logo cedo telefonarei para todas as clínicas que o delegado me deu.
Escolherei aquela que me pareça a melhor. Pode subir.
Artur tentou abraçá-lo, mas ele não permitiu.
Sua mãe o beijou, Leandro não quis olhar para ele.
Lentamente subiu e entrou em seu quarto.
Entrou no banheiro e tomou um banho.
Não conseguia parar de chorar.
Voltou para o quarto e deitou-se de costas como sempre fazia.
Começou a relembrar tudo, desde o começo.
A festa, Mariana, tudo que havia feito por causa da droga.
O desespero de Iracema dizendo que não havia sido ela.
O rosto de seu pai quando o encontrara na delegacia, a atitude de sua mãe quando tomara conhecimento, o olhar de ódio que Leandro lhe desferira.
As imagens iam passando, e ele cada vez chorava mais.
Decidiu:
"Nunca mais usarei droga, haja o que houver.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:40 pm

Talvez eu consiga mesmo ser curado nessa clínica.
Por que não? Pode ser a solução!"
Aos poucos, foi se acalmando. Adormeceu.
Enquanto isso, na sala, Álvaro conversava com Leandro:
— Sei meu filho, que está muito triste.
Tentou nos avisar sobre Iracema, mas como vê, jamais poderia ter imaginado que seu irmão estivesse envolvido nisso.
Ele chorava muito enquanto dizia:
— Sei disso, mas eu disse que ela não tinha feito aquilo.
Odete o abraçou:
— Sabemos disso, e estamos pedindo perdão.
Já disse que amanhã iremos procurá-la, e se Deus quiser, a traremos de volta.
Esse problema não vai ser difícil de resolver.
O problema maior que temos é com Artur.
Tomara que consigamos ajudá-lo a se curar.
Agora vá para seu quarto e tente dormir.
Amanhã teremos um longo dia, com muitos problemas para resolver.
Dê um beijo em seu pai e boa noite.
Ele se aproximou do pai e beijou seu rosto:
— Boa noite, papai.
— Boa noite, meu filho.
Durma bem.
Olhou para a mãe, sorriu e subiu a escada.
Passou pelo quarto de Artur, a porta estava aberta, mas não quis entrar, estava muito magoado.
Não entendia a extensão de tudo que estava acontecendo.
Só de uma coisa tinha certeza.
Pensava:
"Jamais o perdoarei!
Ele não podia ter feito aquilo com Iracema..."
Na sala, Odete se levantou e foi em direcção à cozinha.
Preparou um chá e em seguida voltou para a sala levando em uma bandeja duas xícaras, um pequeno bule e um açucareiro.
Colocou a bandeja em cima da mesa de centro.
Vagarosamente pôs o chá dentro das xícaras, adoçou e ofereceu ao marido.
Pegou a dela e sentou-se ao lado dele.
Ele começou a beber, mas ela notou que seus olhos estavam perdidos no espaço.
Perguntou:
— Em que está pensando?
— Na minha infância, em minha mãe viúva, trabalhando como lavadeira para nos sustentar.
Na revolta que eu sentia por viver naquela pobreza.
No que eu dizia todas as noites antes de dormir.
— O que você dizia?
— Não me lembro com exactidão das palavras, mas era mais ou menos assim:
"Deus, se é que existe mesmo, faça com que eu ganhe muito dinheiro para poder ajudar minha mãe, dar todo o conforto que ela merece e aos meus irmãos também, e quando eu for grande e tiver meus filhos, não permita que eles sintam nunca falta de nada...”.
— Você conseguiu tudo isso.
Sua mãe hoje mora em uma casa que você comprou para ela.
Tem uma vida tranquila.
Quanto aos seus filhos, eles sempre tiveram tudo o que desejaram, nunca lhes faltou nada!
Você é um vencedor!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:40 pm

— Também acreditava nisso, até esta noite.
Consegui mesmo tudo o que havia desejado só que, em algum momento do caminho, eu me perdi.
Estou agora tentando descobrir que momento foi esse.
Ela, segurando sua mão, respondeu:
— Não deve se torturar...
Você sempre foi e é um bom pai e um marido maravilhoso.
Se existe algum culpado nessa história, sou eu.
Eu sim não devo ter dado a ele a atenção necessária.
Devo ter deixado escapar alguma coisa.
Talvez por ele ter sido sempre um bom menino, julguei que não havia problema algum.
— Não sei dizer qual de nós é o culpado, mas tentaremos descobrir.
Ela se levantou e deu um beijo em seu rosto, dizendo:
— Só que não vai ser agora.
Já está tarde, vamos nos deitar e tentar dormir.
Sinto que nem tudo está perdido, conseguiremos trazer nosso filho de volta.
Ele também se levantou, retribuiu o beijo e abraçou-a.
Subiram a escada.
Ao passarem pelo quarto de Artur, Odete percebeu que sua porta estava apenas encostada.
Abriu devagar, viu que ele estava deitado e com os olhos fixos no tecto.
Segurando a mão do marido, entrou. Ele a acompanhou.
Ela se dirigiu à cama de Artur, ajoelhou-se e disse:
— Artur...
Sei que também não está sendo fácil para você.
Eu e seu pai conversamos e chegamos à conclusão de que em algum momento nós falhamos.
Ele, chorando, disse:
— Não! Não falharam!
São os pais mais maravilhosos deste mundo!
— Falhamos sim.
Se assim não fosse, você teria nos contado qual era o problema...
— Por serem maravilhosos foi que não tive coragem de contar!
Não queria que soubessem nunca!
Não queria ver em seus rostos o que estou vendo agora!
Decepção e tristeza.
— Você devia ter nos contado, mas agora já passou.
Você é nosso filho e o amamos muito.
Amanhã irá para a clínica, lá eles tirarão toda a droga que está em seu corpo e você não sentirá mais falta dela.
Voltará a ser o filho que sempre foi de quem nos orgulhamos muito.
— A senhora acha mesmo que vou me curar?
— Claro que sim.
Agora não se preocupe, trate de dormir.
Álvaro não disse nada, apenas aproximou-se e o beijou.
Artur sentiu um alívio profundo. Sorriu.
Pai e mãe saíram abraçados do quarto”.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:40 pm

MOMENTO DE ESCOLHA
“Assim que seus pais saíram do quarto, Artur levantou-se e foi ao banheiro.
Novamente olhou-se no espelho.
As olheiras continuavam grandes, seus olhos estavam vermelhos e inchados.
Já não era só por causa da droga, mas também pelo muito que havia chorado.
Olhando-se no espelho, pensou:
"Eles são realmente os melhores pais do mundo.
Por que não confiei neles?
Mas, depois de tudo que passei esta noite e de ver o sofrimento em seus rostos, nunca mais usarei cocaína ou qualquer outra droga.
Irei para a clínica.
Sei que não será fácil, mas conseguirei!"
Voltou para o quarto, novamente se deitou.
Devido às emoções do dia e do muito que chorara, adormeceu em seguida.
Acordou no meio da noite.
Olhou para o relógio, faltavam vinte minutos para as três horas da manhã.
Estava suando.
Levantou-se, sentiu um leve tremor.
Voltou a se deitar após alguns segundos.
Percebeu que não conseguiria.
Desesperado, pensou:
"Estou novamente precisando da droga!
Não! Não vou usar!
Vou acordar meus pais e pedir ajuda!"
Abriu a porta.
Uma luz fraca iluminava o corredor que levava aos quartos.
Dirigiu-se ao quarto dos pais.
Ia bater na porta, mas parou com a mão quase tocando nela:
"Não! Não posso fazer isso!
Eles estão dormindo!
Não é justo acordá-los!"
Voltou para o seu quarto.
Lá dentro, entrou e saiu várias vezes do banheiro.
O tremor aumentava a cada segundo.
A vontade da droga foi se tornando insuportável.
Entrou novamente no banheiro.
Não sabia quantas vezes já havíamos feito esse percurso.
Em uma das vezes, ao sair do banheiro, olhou para a mesa do computador e para sua gaveta.
Não pensou muito.
Abriu a gaveta:
"Aqui está o que preciso."
Pegou um dos pacotinhos, esparramou o seu conteúdo em cima da capa de um livro, tapou um lado do nariz e com o outro inspirou.
O efeito foi quase imediato.
Sentiu aquele bem-estar tão seu conhecido.
Em poucos minutos já era outro.
Feliz, pensou:
“Definitivamente, eu gosto desta sensação”.
Não quero ficar sem a droga, ela só me faz bem.
Não posso ir para clínica alguma, não vai adiantar.
Mas também não posso continuar aqui em casa, meus pais não aceitarão, me levarão para lá.
Olhou para o armário, abriu a porta, tirou uma calça, uma camisa e uma jaqueta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:40 pm

Pegou os pacotinhos que estavam na gaveta, colocou-os no bolso da jaqueta e abriu a porta bem devagar.
Estava tudo em silêncio.
Seus pais e Leandro dormiam.
Na ponta dos pés, saiu do quarto e desceu a escada.
Logo estava na porta da sala.
Abriu-a e saiu.
A noite estava escura, apenas iluminada pelas luzes dos postes de electricidade.
Ele saiu caminhando sem destino.
Andou muito, não se preocupando para onde ir.
Quando se deu conta, estava em frente à casa de Rodrigo.
Ela estava toda escura.
O carro da mãe dele não estava ali.
"Ela ainda não voltou.
Para que clínica o terá levado?"
Sem saber o que fazer ou para onde ir, continuou andando.
Só de uma coisa ele tinha certeza:
"Nunca mais voltarei para casa!
Não quero ir para a clínica."
Continuou andando.
O dia estava clareando quando chegou à favela onde Jiló morava.
Enquanto entrava por uma viela, algumas pessoas passaram por ele.
Imaginou que elas estivessem se dirigindo ao trabalho.
Lembrou-se quando Iracema disse:
"— Não, dotô, na favela não tem só bandido, não!
Tem muito trabaiadô!"
Imediatamente ele se lembrou do dia em que, chorando, ela jurara ser inocente.
Lembrou-se também de seu pai empurrando-a e levando-a para a delegacia.
Uma lágrima quis se formar, mas ele a enxugou:
"Isso agora será resolvido.
Hoje mesmo meus pais deverão ir até a casa dela e esclarecer tudo."
Chegou finalmente à porta do barraco de Jiló.
Ia bater quando se lembrou da última vez em que o acordara.
Resolveu esperar até que ele acordasse.
Sentou-se no chão, encostou a cabeça na parede do barraco.
Ali sentado, lembrou-se do olhar de Leandro quando tomara conhecimento de que havia sido ele quem roubara o colar e permitira que Iracema levasse a culpa.
"Ele estava com muito ódio, acho que nunca mais me perdoará."
Ficou ali sentado e pensando, sem ver o tempo passar.
A porta do barraco se abriu, Jiló saiu.
Ao ver Artur ali sentado, admirou-se:
— Que está fazendo aqui há esta hora?
Sei que tem muita coca!
Ao ver Jiló, ele se levantou, respondendo:
— Não estou aqui por causa da coca.
Fugi de casa.
— O quê?
— E isso que disse, fugi de casa!
Jiló com as mãos esfregou os olhos.
— Acho que ainda estou dormindo.
O que você disse?
— Fugi da casa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:41 pm

— Por quê? Está louco?
— Meus pais descobriram tudo e querem me levar para uma clínica, e eu não quero ir.
Jiló ficou pensando por um tempo, depois disse:
— Conte com calma, o que aconteceu?
Artur contou tudo, como haviam sido presos, dos rostos de seu pai e da mãe de Rodrigo quando os viram na delegacia.
Após terminar, Jiló ficou pensando mais um pouco:
— E Rodrigo, onde está?
— Não sei, a mãe dele ia levá-lo directo para uma clínica.
— Foi mesmo?
— Foi.
— E agora? O que pretende fazer?
— Não sei, estou aqui para ver se você me ajuda ou me dá alguma ideia.
Não sei o que fazer!
— Pensa que eu sei?
— Preciso de ajuda!
— A rua é bem grande!
Tem bastante espaço!
— Não posso ir para a rua!
— Volte pra sua casa, então!
— Eles me internarão!
— É mano, é sua hora de escolher...
Não posso fazer nada...
Entrou no barraco e fechou a porta.
Artur ficou ali olhando, sem saber o que fazer.
Lágrimas começaram a correr de seus olhos:
"Eu devia imaginar que ele faria isso.
Nunca foi meu amigo, eu era simplesmente um freguês.
O que preciso fazer é voltar para minha casa.
Não há outro caminho”.
Estava ali ainda sentado quando um rapaz se aproximou.
Viu Artur, mas não tomou conhecimento.
Bateu na porta do barraco. Ela não se abriu.
Ele insistiu e chamou por Jiló, só aí ele atendeu.
— Careca! É você?
Entre aqui.
Afastou-se para que o rapaz pudesse entrar.
Olhou em direcção a Artur, não disse nada.
Assim que entrou atrás do rapaz, fechou a porta.
Artur ficou pensando:
"Deve ser mais um freguês que veio em busca da mercadoria."
Mas não era disso que se tratava.
Assim que entraram, o rapaz desabotoou a camisa e de dentro dela tirou um pacote grande.
Entregou-o a Jiló, que disse:
— Trouxe uma boa quantidade, mas sabe que não é o suficiente.
Minha freguesia cresce dia a dia.
— Sei disso, mas foi só isso que mandaram.
Onde está o dinheiro?
Jiló tirou uma tábua do chão.
Apareceu um buraco e de dentro dele tirou um pacote.
Abriu-o e apareceram algumas notas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:41 pm

Entregou-as ao rapaz, dizendo:
— Aqui está tudo o que consegui.
Assim que entregar esta mercadoria, terei mais dinheiro, por isso pode voltar daqui a dois dias e trazer mais.
O rapaz contou, embrulhou o dinheiro, tornou a enfiá-lo sob a camisa e saiu.
Lá fora, olhou para Artur, dizendo:
— Você também veio comprar?
Desesperado, Artur respondeu:
— Não, estou com um problema, vim pedir ajuda pro Jiló.
O rapaz começou a rir:
— Ajuda? Acreditou mesmo que aqui encontraria ajuda?
— Não tenho mais ninguém a quem recorrer.
— O que aconteceu?
Artur ia responder quando Jiló retornou e, raivoso, disse para Artur:
— Você ainda está aqui?
Já não disse que não posso ajudar?
Ao ouvir aquilo, o rapaz disse:
— Você parece que está em apuros e sem rumo.
— E isso mesmo, não sei o que fazer...
— Se quiser, pode vir comigo, talvez eu possa ajudar.
Artur levantou-se e, agradecendo, acompanhou-o.
Durante o caminho foi contando tudo o que havia lhe acontecido.
Após ouvir, o rapaz disse:
— Estou nessa vida há muito tempo, várias vezes quis sair, mas nunca consegui.
Está vendo este pacote que está aqui embaixo da minha camisa?
Artur não viu o que era, mas percebeu que o volume era bem grande.
Perguntou:
— O que é isso?
— Entreguei uma mercadoria para o Jiló, e ele pagou.
— Você é um traficante?
— Não! Sou apenas um entregador, nada mais.
Quem vende prós malacas é o Jiló.
— Malacas?!
O rapaz começou a rir:
— Pelo jeito, você não entende gíria!
Malaca é gente igual a você e eu: viciado.
— O que faz é o mesmo que traficar.
— Prefiro não pensar assim, prefiro pensar que sou só um entregador.
— Por que faz isso?
— Cheguei a um ponto que não me restou mais nada pra fazer.
Já estou acostumado.
- Não quero fazer isso
— Então, meu amigo, a melhor coisa que tem para fazer é voltar pra sua casa.
Meus pais são pobres, nunca me pagariam uma clínica, mas você disse que os seus querem levá-lo.
Talvez seja a única solução para se livrar.
Isto aqui não é vida, não.
A qualquer momento a gente morre.
Se não for a polícia, vai ser um outro traficante.
Eu não tenho mais futuro, mas você tem ainda uma chance.
Artur ficou só ouvindo.
Chegaram a uma outra favela.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:41 pm

Ele acompanhou o rapaz até um outro barraco. Entraram.
— Aqui é o meu mocó.
Artur ficou olhando.
O rapaz começou a rir:
— Esqueci que você não está acostumado com algumas palavras!
Logo aprenderá. Entre e sente-se aí.
Artur olhou a sua volta.
Nunca havia visto um lugar igual àquele.
O chão era de terra.
Não havia quase nada lá dentro, só uma cama de solteiro, que parecia não ter colchão, uma mesa, uma cadeira quebrada e um fogareiro, mais nada.
Em cima da mesa, uma panela com arroz queimado.
Muita sujeira.
O rapaz percebeu que ele estava olhando.
Disse:
— Está vendo onde eu moro?
Se continuar nessa vida, vai acabar morando assim.
Meu nome é Careca, e o seu, como é?
Artur começou a rir:
— Meu nome é Artur, mas, Careca?
Isso não é nome de gente!
— De gente não, mas de quem vive nessa vida, sim!
Se fosse você, já ia pensando em um nome de guerra pra usar quando for traficante.
— Nunca serei um traficante!
— Será sim. Se continuar nessa vida, sim!
— Por que não me diz seu nome verdadeiro?
— Porque se os "ómi" pegarem você, não vai poder me entregar.
— Os "ómi"? O que é isso?
Ele novamente começou a rir:
— Esqueci que você não conhece algumas gírias.
Estou falando da polícia.
— Mas eu nunca o entregaria!
— Isso você diz agora, mas quando estiver nas mãos deles, nem vai se lembrar disso que está dizendo.
Quer comer um pouco desse arroz?
A gente pode fritar uns "óio".
Antes que pergunte o que é isso, vou dizer. É ovo.
Artur olhou novamente para a panela.
Disse:
— Não, obrigado, não estou com fome.
— Mas eu estou.
Com uma colher, ele tirou o arroz queimado, colocou em uma panela e levou ao fogareiro para esquentar.
Enquanto esquentava, em outra panela ele fritou dois ovos.
Artur ficou olhando-o comer.
Imaginou como uma pessoa podia comer aquilo.
Lembrou-se da comida que havia em sua casa, principalmente daquela que Iracema cozinhava.
Ficou pensativo.
Quando Careca terminou de comer, disse:
— Resolveu o que vai fazer da vida?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:41 pm

Artur suspirou antes de responder:
— Acho que sim.
A melhor coisa é voltar para casa e tentar me livrar.
Só estou pensando...
— No quê?
— Você não ganha dinheiro com o seu trabalho?
— Claro que ganho, mas com o passar do tempo, a gente vai precisando de mais droga, e de mais dinheiro para pagá-la.
Todo dinheiro que ganho fica por contra da droga que uso.
Também acho que deve voltar para casa.
Esta vida não vale a pena, não.
— É isso mesmo que vou fazer. Tchau.
Careca, com um sorriso e aliviado, disse:
— Tchau, e boa sorte.
Artur seguiu pelo caminho que o levaria de volta para casa.
Enquanto caminhava pelas vielas da favela, ia prestando atenção em tudo.
As vielas eram estreitas.
Passava pelos barracos, alguns estavam com as portas abertas.
Ele pôde notar que em quase todos existia a mesma pobreza que no de Careca.
Crianças mal-vestidas brincavam.
Lembrou-se do professor de Ciências quando naquele dia dissera:
"— Tem muita pobreza neste país!
Muitas pessoas não têm para comer, muito menos para estudar!"
Artur ia olhando e pensando:
"Ele tinha razão.
Mas por que existe tanta pobreza neste mundo?"
Chegou finalmente ao fim da favela.
Já na rua, caminhou decidido em direcção a sua casa.
Caminhou muito.
Seus pensamentos estavam confusos.
Sabia que realmente aquela era a única solução para tentar retornar à vida anterior às drogas, mas no íntimo sabia que jamais voltaria a ser o mesmo de antes.
Vivera, conhecera sensações e coisas diferentes, antes nunca vividas.
Era verão. Embora ainda fosse cedo, o sol já estava quente.
Ele continuou andando. Chegou à rua em que morava.
De longe podia ver sua casa.
Viu quando o carro de seu pai se aproximou e entrou na garagem da casa..
Os dois carros de seus pais estavam na garagem:
"Papai! De onde ele estará vindo?
Ele não foi trabalhar hoje?
Se eu for até lá, o que vou dizer?
Eles não acreditarão em nada do que eu disser.
Eu já os fiz sofrer muito.
Não! Não posso entrar!
Não sei o que dizer!"
Voltou-se e, correndo, tomou o caminho contrário ao da sua casa.
Correu muito. Chegou à praça muito cansado.
Já quase sem conseguir respirar, sentou-se em um banco.
Embora soubesse que se entrasse em casa os pais o receberiam bem, pois eles o amavam, definitivamente não queria ir para a clínica.
Colocou a mão no bolso, tirou um pacotinho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:42 pm

Ali não tinha como cheirar.
Olhou para o chão, viu uma folha de jornal.
Pegou, rasgou um pedaço, enrolou como se fosse um funil, colocou o pó dentro e cuidadosamente o inspirou.
Em poucos minutos estava bem novamente:
"Não irei para clínica alguma!"
Levantou-se e continuou andando sem rumo.
Assim que Artur saiu, Careca ficou olhando a sua volta.
Percebeu a pobreza enorme em que vivia.
Lembrou-se de como havia começado naquela vida.
“Eu não tinha catorze anos ainda, meu pai havia abandonado nossa casa”.
Minha mãe ficou sozinha com quatro filhos, eu fiquei desesperado, sem saber o que fazer.
Era o mais velho dos irmãos.
Poderia ter tentado encontrar um trabalho, mas meu amigo Créo me ofereceu um emprego onde eu poderia ganhar muito mais.
O trabalho era fácil, só tinha que entregar uma mercadoria pra alguém.
Lembro-me que ele dissera:
"— O dinheiro que vai ganhar é muitas vezes mais do que vai ganhar trabalhando.
Você sabe que não tem uma profissão, nem estudo."
Logo nas primeiras entregas pude ver que ele dissera a verdade.
Ganhei muito dinheiro, tanto que nunca em minha vida eu tinha visto igual.
Fiquei encantado com tanto dinheiro e com tão pouco trabalho.
Só tinha que entregar um pacote, pegar o dinheiro e levar pro seu Romeu, nada mais.
Ia tudo bem, eu levava dinheiro pra casa.
Minha mãe nunca desconfiou do trabalho que eu fazia, ficava contente quando eu lhe dava dinheiro pra ir à feira.
Nunca perguntou onde eu conseguia.
Durante uns seis meses eu trabalhei sem problema.
Até que um dia Créo me deu o primeiro baseado.
Fiquei empolgado com a sensação que ele me deu.
Depois do primeiro, veio outro e mais outro, até que cheirei pela primeira vez a coca.
Aí sim foi que vi o que me tornava com ela.
Poderia ser o que quisesse nada me importava e nada era impossível fazer.
Logo fui notando que para ter aquele prazer precisava de dinheiro, muito dinheiro.
Hoje estou aqui, vivendo desse jeito...
Sempre coloquei a culpa na pobreza, mas e Artur?
Por tudo que me contou, é um menino rico!
Tem uma família perfeita!
Por que entrou nessa?
Não sei, não sei mesmo.
Foi em direcção a uma gaveta, tirou uma seringa, aqueceu o pó e se aplicou.
Em seguida, começou a rir muito.
Saiu para a rua”.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:42 pm

DESESPERO E PROCURA
“Naquela manhã, Odete abriu os olhos, não havia dormido bem.
Acordara e voltara a dormir várias vezes.
Seu coração estava apertado, sentia uma pressão sobre o peito que lhe causava dificuldade para respirar.
Várias vezes foi obrigada a respirar profundamente.
Percebeu que Álvaro também não conseguira dormir bem.
Olhou para ele, que estava deitado ao seu lado e naquele momento dormia profundamente.
Sorriu enquanto pensava:
"Preciso me levantar, vou preparar o café, depois os chamarei.
Hoje teremos um longo dia.
Depois de levarmos Artur para a clínica, iremos em busca de Iracema.
Na gaveta do escritório deve estar o seu endereço.
Tomara que consigamos obter seu perdão."
Ficou ali deitada por mais um tempo, pensando em tudo o que havia acontecido na noite anterior e tentando encontrar o momento em que havia se descuidado de Artur.
Em seu pensamento só havia uma certeza:
"Eu falhei como mãe!
Sou a culpada dele estar nessa situação, mas farei tudo para me redimir.
Eu o trarei de volta!"
Levantou-se, em silêncio saiu do quarto, não queria que Álvaro acordasse.
Ao passar pelo corredor viu que as portas dos quartos de Artur e Leandro estavam fechadas.
Sorriu e foi para a cozinha.
Preparou o café e a mesa para servi-lo.
"Antes de chamar Álvaro irei até o quarto de Artur.
Verei como está.
Conversarei a respeito da clínica, notei que está muito assustado."
Foi para o quarto de Artur, abriu a porta e entrou bem devagar.
Assim que olhou para a cama, levou um susto.
Olhou para a porta do banheiro.
Ela estava fechada. Sorriu.
Bateu na porta:
— Artur! Você está aí?
Bateu e chamou por duas vezes.
Não obtendo resposta, abriu a porta e entrou.
Ficou desesperada ao ver que ele não estava ali.
Foi correndo em direcção ao seu quarto:
— Álvaro, acorde!
Artur não está em casa!
Álvaro abriu os olhos e num pulo sentou-se na cama:
— Como não está em casa?
Onde ele está?
— Não sei! Fui até seu quarto e ele não está lá!
Ele se levantou, foi em direcção ao quarto de Artur, olhou tudo, até o banheiro.
— Ele não está mesmo!
Para onde terá ido?
Odete olhou para a mesa do computador, lembrou-se dos pacotinhos que havia visto e não dado atenção.
Correndo, abriu a gaveta; eles não estavam mais lá.
Começou a chorar:
— Sou mesmo uma idiota!
— Por que está dizendo isso?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:42 pm

— Ontem, quando vim procurar a agenda de telefone, vi aqui nesta gaveta alguns pacotinhos com um pó branco, devia ser a droga, mas eu não sabia!
Nunca vi droga em toda a minha vida!
Não está mais aqui! Ele levou!
Álvaro se desesperou:
— Eu deveria ter dado ouvidos ao delegado!
Ele tentou me alertar!
Disse que Artur deveria ser levado para uma clínica assim que saíssemos da delegacia, que não deveria voltar para casa!
Mas eu não quis!
Queria que você tomasse conhecimento de tudo, e que pudéssemos escolher a melhor clínica para levá-lo!
— E agora? O que faremos?
— Não sei! Não sei!
Onde ele estará?
Odete sentou-se na cama e começou a chorar com desespero.
Ao vê-la daquela maneira, Álvaro se recompôs:
— Não fique assim...
Não vai adiantar nos desesperarmos...
O melhor que temos a fazer é irmos lá para baixo e pensarmos em uma maneira de encontrá-lo.
Levantou-a pelos braços.
Assim que ela ficou de pé, deu-lhe um abraço muito forte, dizendo:
— Precisamos nos acalmar, nossa vida está se desmoronando, mas eu a amo...
E amo nossos filhos...
Sei que sou amado por vocês...
Encontraremos uma maneira para ajudar nosso filho...
E nos ajudar também...
Seus corações, que até aí batiam descompassados, aos poucos foram voltando ao ritmo normal.
Ela parou de chorar.
Afastou seu rosto do dele e disse com voz firme:
— Tem razão.
Chorar não vai resolver nada.
Que pretende fazer?
— Ligar para a delegacia e comunicar que ele desapareceu.
— E isso mesmo! Boa ideia.
Desceram abraçados.
Assim que chegaram à sala, ele pegou imediatamente o telefone, ela ficou ao seu lado.
Ele, com o telefone não mão, disse:
— Não sei o número da delegacia!
Embora nervosa, ela deu um sorriso.
Abriu uma gaveta e pegou a lista telefónica.
Ansioso, ele foi virando as páginas até encontrar o número que procurava:
— Encontrei! Está aqui!
Discou o número, uma pessoa atendeu.
Ele comunicou o desaparecimento de Artur.
A pessoa disse:
— O senhor precisa vir até a delegacia, e de preferência trazer uma foto do desaparecido.
— Está bem, irei agora mesmo.
Assim que colocou o telefone de volta no gancho, olhou para Odete.
— Preciso ir até a delegacia.
— Também irei!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:42 pm

— Não pode...
Precisa ficar com Leandro.
Fique calma, vou e volto o mais depressa possível.
Preciso levar uma foto de Artur.
Ela não discutiu, sabia que ele tinha razão, Leandro não poderia ficar sozinho em casa.
Afastou-se, foi para seu quarto e pegou uma foto de Artur que estava em um porta-retratos.
Voltou com ela na mão:
— Está aqui, é bem recente, ele está lindo...
— Irei agora mesmo.
Com a foto nas mãos, ele foi saindo.
Ela disse:
— Vai sair vestido com esse pijama?
Ele se olhou, um pouco sem graça, subiu e foi trocar de roupa.
Voltou em seguida, deu-lhe um beijo no rosto e saiu.
Assim que ele saiu, Odete novamente começou a chorar.
Seu pensamento estava atormentado:
"Eu sou a culpada... não fui uma boa mãe... se assim não fosse, ele teria confiado e me contado seus problemas... ele deve ter um problema, mas qual?"
Ficou ali chorando, andando de um lado para o outro.
Leandro acordou, levantou-se e foi para a sala.
Estava com fome, queria tomar café.
Assim que chegou, encontrou a mãe chorando.
Assustado, perguntou:
— Mamãe! O que aconteceu?
Por que está chorando?
Ela o abraçou e contou tudo.
Ele, que já estava com raiva de Artur por ter mentido em relação à Iracema, ficou mais bravo ainda:
— Ele não pode fazer isso!
Por que está fazendo essas coisas?
Mentindo, roubando, fazendo à senhora e o papai ficarem nervosos!
Estou sentindo um ódio muito grande por ele!
— Não diga isso, meu filho...
Ele está doente...
Precisa da nossa ajuda.
Venha tomar o seu café.
Ele se sentou e ela o serviu.
Após tomar o café, sentou-se ao lado dela em um sofá.
Percebeu que ela estava nervosa, abraçou-se a ela e ficou quieto, sem dizer ou fazer nada.
Ela parou de chorar, mas ficou com o olhar distante, relembrando o passado.
Desde o dia em que Artur nascera, e pensava em como eram felizes.
Após algum tempo, Leandro ligou o televisor e começou a assistir desenhos.
Ela foi para a cozinha, ficou mexendo aqui e ali.
Estava andando de um lado para o outro quando ouviu o barulho do carro de Álvaro entrando na garagem.
Correu para fora.
Leandro continuou assistindo à televisão.
Não estava preocupado, mas sim com muita raiva.
Ela chegou à garagem no momento em que Álvaro descia do carro:
— Então, Álvaro?
O que eles disseram?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:43 pm

Ele a abraçou e a conduziu de volta para dentro da casa.
Ao entrar, viu Leandro, que continuava na mesma posição.
Ao ver o pai, levantou-se e correu para ele.
O pai abriu os braços e o abraçou forte:
— Tudo bem, meu filho?
Com lágrimas, ele respondeu:
— Tudo bem..
— Isso mesmo!
Está tudo bem e ainda ficará melhor!
Tenha certeza disso!
Leandro se soltou de seus braços e voltou seus olhos para a televisão.
Álvaro fez um sinal para Odete e subiu a escada.
Ela o acompanhou.
Assim que chegaram ao quarto, ansiosa ela perguntou:
— O que eles disseram?
— Que é preciso esperar quarenta e oito horas para começar a busca.
— Quarenta e oito horas?
Mas é muito tempo!
— Também disse isso, mas me foi dito que esse é o regulamento.
— E agora? Que faremos?
Era o mesmo delegado de ontem?
— Não, era outro, mas foi também muito atencioso.
Contei tudo o que havia acontecido.
Ele se mostrou condoído.
Disse que a droga está realmente destruindo uma boa parte da juventude, e que a polícia se sente impotente para lutar contra o tráfico.
Deixei a foto de Artur.
Passadas as quarenta e oito horas ela será colocada em todos os lugares estratégicos, e principalmente em todas as delegacias.
— Nas delegacias? Por quê?
— O delegado disse que, de acordo com sua prática, Artur logo aparecerá.
Voltará para casa ou será preso novamente.
— Preso!?! Não pode ser! Por quê?
— Contei a ele sobre os pacotinhos que você viu.
Ele disse que assim que eles terminarem Artur fará qualquer coisa para conseguir mais.
Por isso, com certeza, tentará furtar novamente.
Ela chorava desesperada.
— Não! Por favor, diga que isso que está dizendo não é verdade!
— Sinto muito, meu bem, mas foi isso que o delegado disse.
Por outro lado, tomara que seja logo, pois assim o encontraremos e o levaremos para a clínica.
— Não sei se devemos fazer isso...
Ele pareceu muito assustado com essa ideia...
— Também notei, mas é o único caminho.
Precisamos esperar, é o melhor que pode ser feito no momento...
Ela se abraçou a ele e ficou chorando baixinho.
Estavam assim quando Leandro entrou no quarto.
Da porta viu os pais abraçados e sua mãe chorando.
Aquilo fez com que ele sentisse mais raiva de Artur.
Sua mãe, ao vê-lo, enxugou as lágrimas e caminhou em sua direcção:
— Leandro, está precisando de alguma coisa?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 8:43 pm

— Estou querendo saber quando iremos à casa de Iracema.
Ela olhou para Álvaro.
Ele também foi em direcção a Leandro:
— Hoje não poderemos ir.
Precisamos ficar aqui e esperar por Artur.
— Ele não vai voltar!
Iracema deve estar muito triste!
Ela não merece!
— Olhe meu filho, sei que está triste e revoltado, sei que Artur errou muito, mas ele ainda é seu irmão e nosso filho.
Hoje ficaremos aqui em casa, você irá para a escola como sempre, e amanhã é sábado.
Prometo que logo pela manhã iremos procurar Iracema, está bem assim?
Ele balançou a cabeça, dizendo que sim.
A mãe o abraçou e deu-lhe um beijo na testa.
Ele saiu do quarto.
Ela se voltou para o marido:
— Ele está muito triste, precisamos dar-lhe muita atenção.
— Sim. Além do mais, precisamos mesmo procurar Iracema e Jarbas para pedir-lhes perdão.
Ela sorriu tristemente e, abraçados, saíram do quarto.
Ao chegarem à sala, Álvaro olhou para Leandro, que continuava ali deitado no sofá e com os olhos fixos na televisão.
Não fez nenhum movimento quando viu os pais entrarem.
Odete sentia que o filho estava precisando dela, mas ela própria também estava precisando de consolo e conforto, não tinha e nem sabia mais o que dizer ou fazer.
Caminhou em direcção à cozinha.
Aquele local havia se tornado o seu refúgio.
Após alguns minutos, Álvaro entrou na cozinha:
— Odete, preciso ir até o escritório.
Tenho hoje que representar um cliente perante o juiz e agora está muito tarde para que a audiência seja desmarcada.
— Estava aqui pensando; não estou em condições de dar aula.
Ligarei para a escola e pedirei para hoje ser substituída.
Ficarei esperando por Artur, sei que ele voltará.
Pode ir para o escritório tranquilo.
— E Leandro? Não irá hoje para a escola?
— Sim, eu o levarei e voltarei em seguida.
Ele saiu da cozinha e dirigiu-se ao seu quarto para se vestir e poder sair.
Ela continuou ali, preparando algo para o almoço.
Seus pensamentos estavam confusos, não acreditava que tudo aquilo estivesse acontecendo.
Pensava:
— Desde que tudo foi descoberto Álvaro só me chama pelo meu nome.
Isso demonstra o quanto está preocupado.
Como a nossa vida pôde mudar tão de repente?
Ontem mesmo éramos uma família feliz...
A tranquilidade reinava aqui... E agora?
Como será que conseguiremos viver?
Artur, meu filho! Onde você está?
Novamente, sem que conseguisse evitar, as lágrimas começaram a cair.
Ela tentava inutilmente enxugá-las.
Ouviu o barulho do telefone chamando.
O som vinha da sala.
Ela não estava bem, não queria falar com ninguém.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:20 pm

Caminhou em direcção à sala, mas antes que dissesse qualquer coisa, Leandro atendeu ao telefone:
— Alô!
— Leandro!
Está tudo bem por aí?
— Não está não...
— Por quê? O que aconteceu?
— Artur fugiu de casa...
E a mamãe está chorando...
Odete chegou junto dele, pegou o telefone de suas mãos:
— Alô, mamãe!
— Odete! O que aconteceu?
Ela desabou, não conseguia conter as lágrimas, os soluços e nem falar.
Do outro lado da linha, sua mãe desesperada dizia:
— Por favor! Pare de chorar!
Diga-me, o que aconteceu?
Odete tentava, mas não conseguia se conter.
Nesse momento, Álvaro, depois de trocar de roupa e se preparar para sair, entrou na sala.
Ao ver aquela cena, correu em direcção a Odete e tirou o telefone de sua mão:
— Alô!
— Álvaro! O que está acontecendo aí?
— Algo muito grave, Artur saiu de casa.
— Como? Por quê?
Estou indo pra aí!
— Venha, por favor...
Odete está precisando de ajuda, eu preciso ir para o escritório.
— Está bem. Já estou indo.
Ele desligou o telefone.
Odete estava ali, sentada e tentando com as mãos enxugar as lágrimas.
Ele se aproximou, dizendo:
— Meu bem, não fique assim...
Tudo vai ficar bem...
Sua mãe está vindo para cá.
Sabe como ela é lúcida e tranquila...
Ela lhe fará companhia e assim poderei ir sossegado para o escritório.
Voltarei o mais breve possível.
Está bem assim?
Ela não conseguia falar, apenas balançou a cabeça.
Ele beijou sua testa, deu um beijo em Leandro e saiu.
Enquanto dirigia o carro para o escritório, também não ligou o rádio.
Assim como Odete, ele também pensava:
"Como nossa vida mudou tanto? Por quê?
Em que momento me descuidei de Artur?
O que deixei de fazer por ele?
Que estará ainda para acontecer?"
Chegou ao escritório.
Ao entrar, lembrou-se de Jarbas, sempre ali, solícito e demonstrando interesse em aprender.
Seu coração se apertou:
"Como consegui praticar uma injustiça como aquela?
Preciso trazê-lo de volta."
Mais ou menos após quarenta minutos de Odete ter falado com sua mãe, um táxi parou em frente à casa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:20 pm

Leandro, ao ouvir o barulho do táxi, abriu a porta e saiu correndo para fora.
Do táxi desceu Noélia, uma senhora de mais ou menos sessenta anos.
Bem vestida, com os cabelos levemente grisalhos, mas bem penteados.
Quando viu Leandro correndo em sua direcção, abriu os braços.
Ele a abraçou e começou a chorar.
Com os braços em volta dele, disse:
— Leandro... Não chore.
Tudo ficará bem.
Abraçados, começaram a andar em direcção à porta da sala.
Odete, que estava na cozinha, ouviu o barulho do táxi.
Chegou ao momento em que eles também chegavam.
Ao ver a mãe, começou a chorar.
Esta a abraçou e, em silêncio, entraram.
Lá dentro, Odete a convidou para que fosse até a cozinha, onde estava terminando de preparar o almoço.
Só para os três, Álvaro não iria almoçar.
Na cozinha, enquanto se sentava Noélia perguntou:
— O que aconteceu?
Por que Artur saiu de casa?
Odete ia recomeçar a chorar, mas Noélia, decidida, disse:
— Não chore!
Isso não vai adiantar. Conte-me tudo.
Odete conhecia sua mãe, sabia como ela sempre fora uma mulher forte e decidida.
Nunca em sua vida a vira chorar.
Sempre resolvera todos os problemas.
Enxugou as lágrimas, respirou fundo e contou com detalhes tudo o que acontecera.
Noélia ouvia em seu rosto nenhum músculo se moveu.
Seus olhos sim demonstravam preocupação e tristeza.
Enquanto contava, Odete não se conteve.
Mesmo sem soluçar, as lágrimas caíam.
Noélia ouvia, não a recriminava mais por estar chorando.
Ao contrário, ficou calada, com os olhos parados.
Quando Odete terminou, após alguns segundos ela disse:
— Como foi que ele começou isso?
— Não sei. Nunca poderíamos imaginar que estivesse agindo assim!
Foi sempre um bom menino, atencioso e calmo.
— Bem, minha filha, sei que o que vou dizer talvez não adiante, mas preciso dizer...
— Já sei! Vai dizer que eu fui à culpada!
Que não soube cuidar do meu filho!
— De onde tirou essa ideia?
— Porque eu me sinto assim!
— Pois não deveria...
Você não é a culpada de nada...
— Como não?
Eu não lhe dei confiança o bastante para que me contasse seus problemas.
— A maioria dos pais, quando têm seus filhos, procura dar a eles o melhor.
Sei que tanto você como Álvaro sempre deu para esses meninos não só educação, mas também carinho, conforto e muito amor.
— Também pensava assim, mas parece que faltou algo.
— Vocês deram a ele todas as condições para que tivesse uma vida tranquila e produtiva.
Porém, ele escolheu seu próprio caminho, e isso vocês não poderiam evitar...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:20 pm

— Como escolheu seu próprio caminho?
Ele é ainda uma criança!
— Não é mais uma criança...
Já é quase um adulto...
— Mas ainda não é!
— Como espírito, ele já é um velho...
Lá vem a senhora com essa sua religião.
— Era exactamente sobre isso que queria conversar.
— Sabe que não acredito em nada disso!
— Sei sim...
Nunca obriguei a nenhum dos meus filhos a seguir uma religião.
Sempre acreditei que cada um de vocês teria o momento certo para fazer suas escolhas.
E acho que o seu momento chegou.
— Acredita que se eu começar a seguir sua religião o meu filho voltará e tudo ficará bem?
— Não disse isso.
Não importa a religião que siga tudo será como tem que ser.
Mas tenha certeza que sempre é para um bem maior.
— Não estou entendendo.
Como pode dizer que tudo o que agora está acontecendo poderá ser para um bem maior?
— Artur está agora vivendo um momento decisivo em sua vida.
Terá a oportunidade de exercer o seu livre arbítrio.
— O que é isso?
— É a oportunidade que Deus nos dá para escolhermos nosso caminho.
— Continuo não entendendo, o que está querendo dizer?
— Como filhos de Deus, nascemos com boas e más qualidades.
Ao longo de nossa existência vamos vivendo bons e maus momentos.
Temos oportunidade de praticar boas e más coisas.
Tudo dependerá de nossas escolhas.
— Escolhas? Que escolhas?
Acredita que eu escolhi isto que me está acontecendo?
— Não, você não escolheu, mas isto tudo está acontecendo, e você terá que tomar uma atitude.
Qual será?
— Não sei! Não sei o que fazer!
— Então, se não sabe, não faça nada.
— Como não fazer nada?
Vou ver meu filho se destruir e não fazer nada?
— Você disse que não sabe o que fazer.
— A senhora sabe de alguma coisa que eu possa fazer?
— Se aceitar uma sugestão, eu diria que precisa encontrar esse Deus, entregar seu filho a Ele, pedir que o ilumine e lhe mostre o melhor caminho.
— Só isso?
— Sim, é só isso que pode fazer.
As coisas de Deus são sempre simples.
Nós é que costumamos complicar.
Noélia, enquanto dizia isso, sorria.
Odete continuou:
— A senhora é mesmo muito simplista!
Até hoje não me conformo como, dois meses após a morte de Romualdo naquele acidente, a senhora não ligava mais e nem chorava!
Nem parecia que fora o seu filho a morrer!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:21 pm

Deu-nos a todos a impressão de que não gostava dele!
Noélia ficou lívida, seus olhos demonstravam o que estava sentindo.
Ficou por um tempo calada, depois disse:
— Naquele dia, uma parte de mim também morreu, mas foi por causa daquilo que procurei encontrar um Deus que me desse as explicações que eu procurava.
Aprendi que Romualdo fora um presente que Deus me dera, mas que nunca fora meu na realidade.
Ele veio para alegrar minha vida por um tempo, mas na hora e dia certos, voltou para o seu verdadeiro lugar.
Aceitei essa explicação, por isso não sofri ao pensar nele.
Sei que ele está em algum lugar e que mais cedo ou mais tarde eu o encontrarei.
Ao ver o rosto da mãe, Odete se arrependeu do que dissera.
Sua mãe havia sido a melhor mãe que ela conhecera.
Sempre estivera ao lado dos filhos, dando conselhos, mas sempre deixando que cada um seguisse o caminho escolhido.
Muito envergonhada, disse:
— Perdão, mamãe... Não quis dizer isso...
Sei que sempre nos amou a todos, principalmente a Romualdo, ele era o caçula.
— Não se preocupe com isso.
Sempre me faz muito bem lembrar dele.
Mas estávamos falando de Artur.
— Sim, a senhora disse que eu tenho que encontrar Deus e entregar-lhe o meu filho.
— Isso mesmo.
— Onde está Deus?
Na sua religião?
— Não.
— Não? Se ele não está lá, por que a segue?
— Sou espírita por acreditar e aceitar seus ensinamentos.
Porque através deles aprendi que todos os problemas são passageiros e, finalmente, porque me faz bem, mas sei que Deus não está em religião alguma.
Todas elas são apenas denominações.
Deus está dentro de cada um de nós.
Sejamos religiosos ou não. Crentes ou ateus.
Todos sempre teremos Deus ao nosso lado, nos ajudando e conduzindo para que encontremos o caminho que nos levará até ele.
— Acredita mesmo nisso?
— Sim, por isso acho que deve procurar esse Deus primeiro dentro de você, depois em qualquer religião, na qual se sinta bem.
— Não sei... Não sei se conseguirei isso...
— Tente minha filha... Tente.
A presença de Deus em seu coração só lhe fará bem.
Agora, está na hora de almoçarmos.
Leandro vai para a escola, não vai?
Odete se levantou:
— Vai sim. Vamos arrumar a mesa?
A comida está pronta.
— Vamos sim.
Almoçaram.
Leandro colocou seu uniforme escolar.
Quando estavam saindo, Noélia disse:
— E quanto a Iracema?
O que pretende fazer?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:21 pm

— Amanhã eu, Álvaro e Leandro tentaremos encontrar sua casa.
Contaremos tudo o que aconteceu, pediremos perdão a ela e a seu filho, e também que voltem a trabalhar connosco.
Álvaro disse que dará um aumento de salário aos dois.
— Faça isso, minha filha.
Não existe nada pior que uma injustiça.
Tomara que consigam fazer isso e que eles os perdoem.
Quer que, depois de levarmos Leandro, eu volte e fique com você?
— Hoje é sexta-feira, dia em que a senhora vai a seu centro espírita.
Não acho justo perder seu compromisso por minha causa.
Depois da conversa que tivemos estou bem.
Preferia que a senhora fosse lá e pedisse por Artur.
— Está bem, farei isso.
Depois de levar Leandro poderia me deixar em casa?
— Claro que sim.
Obrigada por ter vindo.
Noélia apenas sorriu.
Sabia que a filha estava sendo sincera e que a conversa que tiveram realmente lhe fizera bem.
Após deixar Leandro na escola, Odete seguiu para a casa de sua mãe.
Estacionou o carro em frente a uma linda casa.
Noélia perguntou:
— Você não vai entrar?
Poderemos tomar um café e conversar mais um pouco.
— Não, mamãe, prefiro ir para casa.
Se Artur voltar, quero estar lá.
— Está bem, mas não se esqueça daquilo que conversamos.
— Não me esquecerei, aquela conversa me deixou mais calma.
— Isso mesmo, minha filha.
Deus é um pai amoroso e bom, não nos abandona nunca.
Dizendo isso, beijou a filha e desceu do carro.
Odete retribuiu o beijo, deu adeus com a mão. Seguiu.
Noélia ficou olhando a filha se afastar.
Sorriu enquanto pensava:
"Deus a proteja, minha filha...”.
Quando o carro desapareceu, ela entrou em casa.
Embora fosse dia e o sol brilhasse, a sala estava na penumbra.
Zulmira, sua empregada, ao sair fechara a cortina, que era azul marinho.
Sentou-se em um sofá.
Estava cansada, talvez não fisicamente, mas por tudo o que soubera.
"Meu neto! Meu adorado neto... que caminho é esse que está seguindo?
Meu Deus proteja-o... não permita que ele destrua sua vida de agora e a futura...”.
Levantou-se e encaminhou-se à cozinha.
Para chegar nela teria que passar pela sala de jantar.
Quando chegou à porta, parou.
Olhou para uma mesa grande de madeira escura, suas cadeiras eram forradas de cetim dourado.
Lembrou-se de seus filhos crescendo e sentados em volta dela.
Levantou os olhos em direcção a uma cristaleira.
Nela havia cristais caríssimos.
Muitos ela comprara em viagens que fizera ao exterior acompanhando seu marido.
Sobre a cristaleira havia um porta-retratos, onde estava a foto dela, seu marido e seus quatro filhos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 73915
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 5 de 11 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6 ... 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum