É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:21 pm

Três moças e um rapaz.
Seus olhos pararam no rosto de seu filho:
"Romualdo, meu filho querido.
Sei que hoje está bem e que vela por todos nós.
Graças a você conheci essa doutrina maravilhosa, que só me fez bem.
Se assim não fosse, eu teria enlouquecido quando você se foi.
Não sei qual foi o motivo para que Deus o levasse tão cedo, tendo ainda uma vida inteira pela frente, mas aprendi que Ele sabe tudo.
Que nada está errado nesta vida.
Não sei se pode, mas se puder, ajude Artur, ele está precisando muito."
Uma lágrima de saudade se formou em seus olhos.
A seu lado, Romualdo se fez presente.
Estava acompanhado por um outro homem, bem mais velho que ele.
Os dois sorriram e lançaram sobre ela uma quantidade imensa de luz.
Noélia foi se sentindo muito bem.
Respirou fundo, olhou para outro móvel onde guardava sua louça, que também era de porcelana finíssima.
Sobre o móvel estavam mais três porta-retratos, esses menores, onde pôde ver fotos de suas filhas com os maridos e filhos.
Odete, a mais velha, com Álvaro e os filhos.
Gilda com o marido, dois meninos e uma menina.
Claudete ao lado do marido e mais quatro crianças.
Três meninas e um menino.
Com um sorriso, pensou:
"Essa é a minha família...
Tenho consciência de que os criei com carinho e dedicação.
Amo-os muito.
Deus me presenteou com marido e filhos maravilhosos.
Não permitirá que meu neto se desvie do caminho... sei que neste momento preciso fazer muita prece, sei que isso ajudará muito, mas sei também que só ele poderá se libertar.
Ele terá de escolher.
Deus, meu Pai!
Não permita que ele faça a escolha errada".
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:21 pm

REPARANDO UMA INJUSTIÇA
“Durante aquela noite, o único que conseguiu dormir foi Leandro.
Estava tranquilo, pois sabia que procurariam Iracema e, quem sabe, talvez ela retomasse para junto deles.
Álvaro e Odete não conseguiram dormir.
A preocupação que sentiam em relação a Artur era indescritível.
Perguntavam-se o porquê de tudo aquilo estar acontecendo com eles.
Ao mesmo tempo, culpavam-se e buscavam entender qual teria sido o motivo que levara Artur a consumir drogas.
Não conseguiam também esquecer de Iracema e da injustiça que praticaram com ela.
Ainda não eram seis horas da manhã quando Odete, não suportando mais, levantou-se.
Tomou banho, vestiu a primeira roupa que encontrou e saiu do quarto.
Passou pela porta do quarto de Leandro, entrou devagar, olhou.
Ele dormia profundamente.
Ao passar pelo quarto de Artur, uma leve esperança fez com que abrisse a porta, mas ele não estava lá.
Carregando o mundo em suas costas, desceu a escada.
Saiu para o quintal.
Com a mente tomada pelo desespero, pensou:
"Artur! Onde você está?
Por que fez isso? Por que fugiu?
Nós o amamos e só queremos o seu bem!"
Lágrimas desciam por seu rosto.
Naquele instante lembrou-se de tudo que sua mãe havia lhe dito.
Levantou os olhos para o céu e disse em voz baixa:
— Meu Deus! Se tudo o que minha mãe disse for verdade...
Entrego neste momento meu filho em suas mãos...
Proteja-o, Senhor... Por favor...
Estava assim quando sentiu uma mão abraçando-a por trás.
Voltou-se.
Era Álvaro, que com a voz embargada e com lágrimas se formando em seus olhos, disse:
— Você está rezando...
Pedindo por nosso filho...
Não sei se tenho esse direito...
Há muito tempo estou afastado de Deus...
Há muito tempo a minha única preocupação tem sido ganhar cada vez mais dinheiro...
Se rezar, não sei se Ele me atenderá...
Chorando, os dois abraçaram-se.
Ficaram assim por muito tempo.
Cada um a seu modo, conversando com Deus.
Naquele momento, sem que percebessem, uma luz os envolveu.
Ela saía das mãos de um homem que sorria.
Ao seu lado estava um rapaz, que disse sorrindo:
— André, enquanto esse amor durar entre eles, sempre haverá uma esperança.
O espírito que jogava a luz respondeu:
— Sim, Romualdo, você tem razão.
Eles agora estão passando por um momento decisivo, quando terão que reafirmar o amor que sempre existiu entre eles.
Tenho fé que conseguirão...
Odete e Álvaro continuavam abraçados e chorando, mas aos poucos foram se acalmando.
Uma paz imensa tomou conta dos dois.
As lágrimas cessaram.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:21 pm

Ainda abraçados, entraram novamente na casa.
Foram acompanhados pelos dois espíritos.
O mais velho disse:
— Ficaremos ao lado deles até que tudo volte ao normal.
Romualdo, sorrindo, balançou a cabeça, dizendo que sim.
Assim que Álvaro e Odete entraram na cozinha, ela disse:
— Filho, já está acordado?
E vestido para sair?
Realmente, Leandro estava entrando pela porta que ficava do lado oposto de onde eles entravam.
Com o rosto sério, ele respondeu:
— Estou pronto para procurar Iracema.
— Mas ainda é muito cedo!
Antes precisamos tomar o nosso café.
— Quando vai ser a hora?
Odete não se conteve.
Sorriu e respondeu:
— Sei meu filho, que você está ansioso.
Vamos fazer o seguinte:
Vou preparar o café.
Assim que terminarmos de tomá-lo, iremos.
Está bem assim?
Ele apenas balançou a cabeça e saiu da cozinha.
Odete olhou para Álvaro:
— Precisamos nos apressar, ele está mesmo muito ansioso.
— Tem razão.
Eu também estou, preciso reparar a injustiça que pratiquei.
Tomara que consiga.
— Conseguirá. Claro que conseguirá!
Ele sorriu e dirigiu-se para a sala.
Odete continuou na cozinha.
Assim que terminou de preparar o café, levou-o para a sala.
Álvaro e Leandro terminavam de preparar a mesa.
Sentaram-se e tomaram o café.
Leandro ficou o tempo todo calado.
Assim que terminaram, Odete e Álvaro subiram e foram se vestir.
Após alguns minutos, regressaram.
Leandro, assim que os viu, levantou-se dizendo:
— Agora podemos ir?
Já está tarde.
Os pais não conseguiram deixar de notar que ele falava em um tom muito sério, nem parecia ser apenas uma criança.
Álvaro o abraçou:
— Está na hora, sim.
Espero que não seja tarde demais.
Leandro não disse nada, apenas dirigiu-se à porta de saída.
Os pais o seguiram.
Estavam entrando no carro quando Odete disse:
— Esperem, esqueci o endereço.
Entrou correndo na casa.
Foi até o escritório e abriu uma gaveta.
Dentro de uma pasta havia uma espécie de ficha de Iracema, com foto e endereço.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:22 pm

Pegou a pasta e saiu.
— Está aqui, podemos ir.
— Você sabe onde ela mora?
— Não, mas tenho o nome do bairro, e sabemos que ela mora em uma favela.
Teremos que procurar.
— Está bem, vamos.
Foram no carro de Álvaro, que dirigia pensando:
"Que direi a ela?
O que precisarei fazer para que me perdoe?
Nunca deveria ter sido tão injusto!”.
O bairro onde Iracema morava era bem distante.
Mais de uma hora depois, finalmente chegaram.
Perguntaram em uma padaria onde ficava a favela.
Receberam a indicação.
Seguiram o caminho indicado.
Logo perceberam que estavam saindo do centro do bairro.
Pegaram uma outra rua, quase desabitada, e seguiram por ela.
Ao longe, viram uma favela, na encosta de um morro.
Para se chegar a ela havia só uma rua, sem asfalto e esburacada.
Álvaro levou o carro até ela e entrou devagar.
Durante esse caminho, os três olhavam para cima.
Viam barracos que pareciam que despencariam a qualquer momento.
Perceberam que para chegar ao alto só havia uma rua.
Nela existia uma escadaria, seus degraus feitos provavelmente pelos moradores.
Eram de terra e seguros por algumas madeiras.
Álvaro parou em frente à rua.
Um homem vinha descendo.
Leandro, assim que o pai parou, desceu do carro e subiu correndo a escadaria.
Os pais quiseram evitar, mas era tarde.
Em poucos minutos ele falava com o homem que vinha descendo:
— O senhor sabe onde mora Iracema?
Ele olhou para o menino e em seguida para Álvaro e Odete, que também subiam à escadaria.
Assim que chegaram a seu lado, disse colocando a mão sobre o rosto, como se estivesse tentando se lembrar:
— O menino aqui está perguntando por uma Iracema, não sei não...
Mas parece que lá no alto, antes da última viela, mora uma mulher com esse nome.
Acho que ela veio do interior e tem uma porção de filhos...
Leandro falou alto:
— É ela mesma, tenho certeza!
Onde é, moço?
O homem apontou para cima, mostrou o local e em seguida se afastou.
Os três olharam para onde ele apontava.
Leandro saiu correndo na frente.
Álvaro e Odete novamente o seguiram.
Após subirem alguns degraus, Álvaro, por ser desportista não sentiu nada, mas Odete se cansou e parou:
— Álvaro, estou cansada, não sei se aguentarei subir até lá no alto.
Ele também parou e chamou Leandro, que estava bem à frente.
O menino ouviu e parou, olhando para trás.
Álvaro disse em voz alta:
— Leandro, espere um pouco, sua mãe está cansada!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:22 pm

Ele desceu as escadas correndo e foi para junto da mãe:
— A senhora está muito cansada mesmo?
— Só um pouquinho, meu filho, mas logo estarei bem.
Só preciso subir um pouco mais devagar, não consigo acompanhá-lo.
Você está indo depressa demais.
Iracema estará lá em dez minutos ou mais.
— Estou com saudades dela!
— Eu também, mas vamos subir devagar?
— Está bem.
Ela sorriu, e reiniciaram a subida, já bem mais devagar.
Enquanto subiam iam passando por barracos e vielas.
Algumas pessoas desciam e subiam à escada.
Alguns traziam crianças seguras pelas mãos.
Alguns cumprimentavam, outros não, mas eles puderam perceber que sua presença ali trazia curiosidade.
Álvaro observava tudo.
Pensava:
"Iracema tinha razão ao dizer que na favela havia muitas famílias e gente que trabalhava.
Essas pessoas que estão passando são realmente famílias...”.
Continuavam subindo.
Perceberam que os barracos eram mal construídos e que havia muita pobreza.
Álvaro subia em silêncio e pensando:
"Quanta pobreza... nunca vi igual.
Fui uma criança pobre, mas sempre morei em uma casa e em uma rua.
Nunca andei vestido como essas crianças que estou vendo aqui.
Não... eu não tinha a menor ideia do que fosse uma favela, só ouvia dizer ou via em algum noticiário na televisão...”.
Estava realmente impressionado por estar frente a frente com aquela realidade até então desconhecida por ele.
Chegaram finalmente à viela que o homem havia apontado e entraram nela.
Uma senhora ia saindo de um barraco.
Leandro perguntou:
— A senhora sabe onde Iracema mora?
Ela olhou os três de cima a baixo.
— Que quer com ela?
Leandro, ansioso, ia responder, quando Odete disse.
— Temos urgência em falar com ela.
— Acho que perderam a viagem...
— Por quê?
— Ela trabalhava muitos anos em uma casa de gente muito rica.
Eles desconfiaram que ela tinha roubado uma jóia, levaram-na até a delegacia.
Ficou muito triste, dizia que tinha quase certeza que quem tinha roubado era o filho deles, ela estava desconfiada e tentando descobrir se ele estava usando droga, mas não deu tempo.
Ela disse que gostava muito de todos naquela casa, principalmente do tal filho.
Não teve coragem de dizer do que estava desconfiando.
Álvaro ficou lívido, dos olhos de Odete lágrimas desciam livremente.
Leandro, desesperado, disse:
— Onde ela mora? Onde ela está?
— Não sei não, menino.
Ela ficou muito doente de tristeza e vergonha.
Os filhos dela resolveram se mudar daqui.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:22 pm

Venderam o barraco e foram embora.
O Jarbas, filho dela, também foi mandado embora do emprego.
Ele é um bom menino, muito estudioso, também ficou triste.
Não sei onde estão.
Ao ouvir aquilo, Leandro, que chorava, disse:
— Está vendo, papai, o que o senhor fez?
Álvaro não respondeu.
Odete, contendo-se para não chorar, disse:
— Por favor, senhora.
Era em nossa casa que ela trabalhava.
Só agora tomamos conhecimento de toda a verdade.
Ela tinha razão, meu filho está mesmo envolvido com drogas.
Estamos aqui justamente para lhe pedir perdão e para que ela volte a nossa casa.
Se a senhora souber onde ela está, por favor, diga-nos...
— Sinto muito, senhora, mas não sei, não.
Se soubesse, claro que diria, pois sei o quanto ela ficaria feliz se soubesse que tudo foi descoberto.
Perceberam, pelo seu tom de voz, que ela realmente não sabia.
Despediram-se, voltaram para a escada e reiniciaram a descida.
Estavam desolados.
Leandro tinha o semblante fechado.
Por sua cabeça só passavam pensamentos de tristeza e ódio contra Artur, que no seu entender era o responsável por tudo aquilo.
Odete relembrava a presença de Iracema sempre a seu lado, nas horas mais difíceis que havia passado.
Do amor que ela sempre demonstrara por todos eles.
Seu coração estava apertado e ela fazia um esforço enorme para não chorar.
Álvaro seguia calado.
Sentia-se o último dos homens.
Começou, sem perceber, a colocar em dúvida tudo o que tinha feito durante a vida.
"Para que estudei tanto?
Para me tornar este carrasco?
Que teve a coragem de julgar uma pessoa que durante muito tempo esteve ao nosso lado nos dando carinho e dedicação?
Sem ter-lhe dado à chance de se defender?
Logo eu! Um advogado!
Aprendi que perante a lei todos são inocentes até que sejam julgados e condenados!
De que vale ter dinheiro e tranquilidade se estou perdendo meu filho e talvez tenha destruído a família de Iracema?
Para que serviu ou serve tudo o que consegui?
Para que serviu ou serve a minha vida?
Sou um fracassado!
O melhor seria acabar com a minha vida!
De que me vale continuar vivendo?"
Leandro e Odete, assim como Álvaro, desciam calados.
Do lado esquerdo havia um barraco, uma menina negra e magra estava na janela.
Ao passarem por ela, timidamente lhes sorriu.
Álvaro se emocionou.
Sob os olhares confusos de Leandro e Odete, foi até junto dela:
— Como é o seu nome?
Ela, com os olhos brilhantes e sorrindo, respondeu:
— Meu nome é Rosinha, e o seu?
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:22 pm

— O meu é Álvaro.
Sua mãe está aí?
Antes que ela respondesse, uma senhora apareceu ao seu lado na janela:
— O senhor deseja alguma coisa?
Ele percebeu que ela estava assustada:
— Desculpe senhora, mas sua filha chamou a minha atenção.
Ela parece ser uma menina feliz.
— O senhor tem razão, ela é uma menina feliz, apesar do seu problema.
— Que problema?
— Nasceu com um defeito na perna direita, não consegue andar...
— Não tem cura?
— Tem, precisa de muitas operações, depois vai precisar usar aparelho, mas o médico disse que com esse tratamento conseguirá andar.
Tudo isso custa muito caro, faz tempo que estou tentando, mas até agora não consegui.
Mas tenho certeza que ainda vou ver minha filhinha andando.
Deus vai ajudar a gente.
Ele sabe quando é a hora certa.
E essa hora um dia vai chegar!
Ele olhou para a esposa e o filho.
Eles perceberam que, embora ele tentasse, não conseguia evitar as lágrimas.
Com elas caindo por seu rosto, disse:
— A hora chegou...
— Não entendo o que o senhor está dizendo.
Ele tirou do bolso um cartão:
— Na segunda-feira, quero que a senhora leve essa linda menina a este endereço.
É o meu escritório.
Assim que chegar, iremos até um médico meu amigo.
Ele vai examiná-la.
Assim saberemos o que fazer para que ela ande.
Quem chorava então era a mãe da menina:
— O senhor não está brincando?
Vai mesmo ajudar minha filhinha?
— Não estou brincando, mas também não estou ajudando sua filha.
Ela é quem acaba de me ajudar, de me fazer renascer.
— Eu sabia meu Deus!
Eu sabia que o Senhor não ia abandonar a gente.
Muito obrigada.
Rosinha sorria.
Tinha apenas seis anos, mas era muito esperta.
Uma luz muito branca a envolvia, a ela e a todos eles.
Essa luz saía das mãos dos mesmos seres que estavam na casa deles.
Rosinha, com os olhos brilhando, perguntou:
— O senhor vai mesmo me fazer andar?
— Eu não! Os médicos.
— Os médicos e Deus!
Não se esqueça Dele!
— Tem razão. Deve ter sido Ele mesmo.
A minha hora de conhecê-lo também chegou...
— Não chore, não...
Eu vou andar o senhor vai ver...
— Verei sim, com certeza, verei...
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:23 pm

Odete segurou o braço do marido com força.
Muito emocionada, não conseguia dizer nada.
Leandro, pela primeira vez depois de muitos dias, ensaiou um sorriso.
Despediram-se e em silêncio desceram à escadaria.
No carro, já voltando para casa, Álvaro pelo retrovisor olhou para o filho:
— Sinto muito, meu filho, mas nossa vinda foi inútil.
Não encontramos Iracema, nem sabemos onde está...
Ele sorriu:
— Não encontramos Iracema, mas encontramos Rosinha!
Valeu, sim!
— Tem razão, meu filho. Valeu mesmo!
— Sabe papai, estou pensando:
também vamos encontrar Iracema, o senhor vai ver.
— Tomara meu filho... Tomara.
Embora continuasse com os olhos no caminho e tomasse cuidado com o trânsito, não conseguia parar de pensar em tudo que havia acontecido.
No sentimento de frustração que sentira.
Na vontade que tivera de terminar com a vida e nos olhos daquela menina que aparecera do nada e lhe mostrara que nem tudo estava perdido.
Só então ele tomara conhecimento do que era realmente a pobreza.
Ele entendeu que o dinheiro que tinha conseguido com seu trabalho poderia ser usado para curar aquela criança.
Naquele momento pensou em Deus e sentiu vontade de rezar e agradecer.
Coisas que ele não fazia havia muito tempo.
Tentou se lembrar de qual fora a última vez em que havia feito isso, mas não conseguiu.
"A última vez que rezei eu era ainda uma criança.
Minha mãe nos fazia rezar sempre, mas depois que cresci e comecei a entender a vida, percebi que não adiantava rezar, o que precisava mesmo era estudar e trabalhar."
Chegaram em casa.
Odete entrou e quase correndo subiu a escada em direcção ao quarto de Artur.
Tinha esperança de que ele estivesse lá.
Porém, o quarto estava vazio.
Ela se ajoelhou:
— Meu Deus! Onde ele está?
Artur, meu filho, onde passou a noite?
Por que não volta para casa?”
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:25 pm

MOMENTO DE DESPERTAR
“Ela chorava muito, tanto que seu corpo estremecia.
Não entendia o porquê de tudo aquilo estar acontecendo em sua casa.
Eles sempre tiveram uma vida tranquila e sempre tiveram paz.
Não havia problema algum.
Sempre se julgara uma boa mãe.
Embora trabalhasse, nunca deixara de dar atenção aos filhos.
Mas ali, ajoelhada junto à cama de Artur, dizia:
— Devo ter errado em algum momento, não lhe dei a atenção que precisava, não notei que ele estava mudando...
Pensei que fosse da idade.
Meu Deus, por que tudo isso está acontecendo connosco?
E Iracema? Será que um dia poderemos encontrá-la?
Permita Deus que isso aconteça...
Precisamos pedir perdão...
Não sabia havia quanto tempo estava ali.
Não percebeu que Leandro entrara no quarto e ficara parado, olhando para ela, nem percebeu que ele, ao vê-la daquele modo, também chorava.
Ele e Artur, embora tivessem uma diferença grande de idade, sempre se deram muito bem.
Ele gostava do irmão, mas naquele momento sentia muita raiva por ver seus pais sofrerem tanto.
Ficou ali, em pé, parado, sem ter coragem de dizer nada.
A única coisa que queria naquele momento era encontrar Artur, dizer a ele o quanto todos estavam sofrendo.
Odete, ao se levantar, viu-o ali:
— Leandro! Não sabia que você estava aí!
— Faz tempo que cheguei.
Mamãe pode parar de chorar...
Ele vai voltar...
Ela, com as mãos, secou as lágrimas:
— Sei meu filho...
Sei, mas quando será isso?
Não suporto a ideia de não saber onde e como ele está!
— E nem onde Iracema está...
— Tem razão.
Em toda esta história, foi ela quem mais sofreu, foi ela quem foi julgada e condenada sem poder se defender...
— Será que algum dia vamos encontrá-la?
— Não sei meu filho... Espero que sim...
Mas, vamos descer? Precisamos almoçar.
Já passou da hora, não está com fome?
— Estou sim, vamos.
Abraçados, saíram do quarto e desceram a escada.
Estavam descendo quando ouviram a campainha do telefone.
O coração de Odete se apertou.
Álvaro também se assustou, mas levantou o telefone do gancho:
— Alô, pois não.
Do outro lado, uma voz de mulher disse:
— Dr. Álvaro!
Aqui é Glória, a mãe de Rodrigo, como o senhor está?
Ele olhou para Odete e Leandro, que chegavam junto dele.
Respondeu:
— Estou mais ou menos, e a senhora?
— Um pouco mais tranquila.
Deixei Rodrigo na clínica, espero que fique lá até se curar...
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 9:25 pm

— Isso é muito bom, também é o meu desejo...
Ele é ainda muito jovem, tem a vida toda pela frente...
— E Artur, como está?
Em que clínica o internou?
Ainda olhando para Odete, respondeu:
— Não o internei...
Ele fugiu durante a noite...
— Oh, meu Deus! E agora?
O que pretende fazer?
— Não sei, não sei, estamos desolados, só nos resta esperar que apareça.
— Também espero, sei o que estão passando.
Eu também fui tomada de surpresa.
Sei que tive a culpa de tudo, só pensei no meu trabalho, não notei nada...
Ela começou a chorar.
Ele, sem saber o que fazer, disse:
— Não deve continuar chorando.
Também nos julgamos culpados.
A senhora ao menos tomou a decisão certa.
Seguiu os conselhos do delegado, por isso hoje está mais tranquila.
Sabe onde seu filho está.
Nós, ao contrário, não temos a mínima ideia.
Posso lhe garantir que nada é pior que isso.
— Talvez tenha razão, não posso imaginar o que seja isso.
Deve ser muito triste mesmo.
Mas vamos rezar para que tudo termine bem para nossos filhos.
— É só o que podemos fazer.
— Bem, foi só para isso que liguei.
Queria saber come Artur estava...
Infelizmente a notícia que recebo não é muito boa, mas vamos confiar em Deus.
— Isso mesmo, obrigado por ter ligado. Até logo.
Desligou o telefone.
Ficou com os olhos parados.
Odete perguntou:
— Quem era?
Ele a olhou, seus olhos estavam distantes.
Respondeu:
— Era a mãe de Rodrigo, queria saber de Artur.
Sabe que ela me disse algo que está me fazendo pensar...
— O que ela disse?
— Que precisamos rezar...
— O que tem isso?
— Nunca tive o hábito de rezar...
Sempre acreditei que Deus não existia que era tudo uma lenda.
Desde quando era criança e via minha mãe sozinha, criando os filhos.
Via a pobreza em que vivíamos.
Deixei de acreditar em Deus.
Ele não pode existir.
Se existisse, não permitiria tanta pobreza e maldade.
Não permitiria que houvesse drogas no mundo!
Não permitiria que tantos jovens fossem destruídos por ela!
Eu sempre me considerei auto-suficiente, sempre achei que poderia conduzir minha vida, desde que estudasse e tivesse dinheiro.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:46 pm

Mas hoje vejo que de nada adiantou...
Tenho um diploma e dinheiro, mas estou perdendo meu filho, se é que já não o perdi...
— Não diga isso! Não o perdemos...
Vamos encontrá-lo e trazê-lo de volta.
Você é e sempre foi um bom pai.
Nunca nos deixou faltar nada...
Esteve sempre presente.
— Estou tentando me convencer disso.
Estou tentando descobrir onde errei, pois com certeza em algum momento eu errei...
— Também tenho a mesma impressão.
Também devo ter errado em algum momento, só não sei quando foi...
Ao ouvir aquilo, Leandro disse furioso:
— Papai! Mamãe! O que estão dizendo?
Sempre foram os melhores pais do mundo!
Artur é quem está errado!
Ele que não pensou na gente!
A mãe de Rodrigo disse que precisamos rezar!
Acho que ela tem razão!
Vamos rezar? Vamos?
Os dois olharam para o filho.
Em seguida se olharam.
Odete novamente secou as lágrimas, ajoelhou-se e abraçou Leandro, que a abraçou também:
— Vamos rezar mamãe... Vamos rezar...
— Vamos sim, meu filho...
Nesse instante o telefone tocou.
Álvaro atendeu.
- Alô!
— Oi, Álvaro, como está tudo por aí?
Teve notícias de Artur?
— Oi, dona Noélia...
Aqui está mais ou menos, não tivemos notícias de Artur.
— Posso falar com minha filha?
— Claro que sim.
Passou o telefone para Odete.
— Oi, mamãe.
— Como você está minha filha?
— Desesperada!
Não sei o que fazer...
— Tenha calma, no fim tudo dá sempre certo...
— Como pode dizer isso?
Nada está nem vai ficar certo!
— Claro que vai... Tudo passa...
Logo Artur vai voltar pra casa... Acredite nisso.
Deus é nosso pai e não nos abandona nunca...
O que precisa fazer agora é rezar pedindo protecção para o seu filho, e confiar em Deus...
Odete não respondeu, lágrimas caíam novamente de seus olhos.
Leandro percebeu que ela não conseguia falar.
Pegou o telefone de suas mãos.
— Oi, vovó!
A senhora ligou bem na hora em que a gente ia começar a rezar...
— É mesmo, meu filho? Faça isso!
Ensine seus pais a rezar e confiar em Deus.
— Vou fazer isso, um beijo...
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:46 pm

- Vou agora mesmo fazer isso também.
Deus vai ouvir nossas preces.
Um beijo, meu filho, e que deus o abençoe...
Desligou o telefone.
Leandro colocou-o no gancho:
— A vovó disse que é pra gente rezar.
Ela vai rezar também.
Não sei o que vão fazer, mas eu vou lá pro meu quarto rezar, pedir ajuda pro Artur.
Dizendo isso, dirigiu-se para a escada.
Odete e Álvaro ficaram olhando por um instante, depois foram atrás dele.
No quarto, Leandro se ajoelhou, dizendo:
— Meu Deus...
Não sei bem quem o senhor é...
Só sei que deve ser muito bom, dizem que fez tudo o que tem na Terra, fez até a gente...
Por isso, se fez mesmo, tem que tomar conta de tudo...
Artur está perdido e a gente não sabe onde ele está...
O senhor sabe que ele é meu irmão e que gosto muito dele.
Fiquei um pouco bravo com ele por causa de Iracema, o senhor sabe, né?
Ela não fez aquilo e agora também não sei onde ela está.
Sei que o mundo é muito grande, e tem muita gente, deve ser difícil tomar conta de tanta coisa, mas o senhor é Deus e pode tudo.
Proteja Artur, faça com que volte para casa...
Deixe que encontremos Iracema... Muito obrigado...
Mais uma coisinha... Não deixe mais minha mãe chorar...
Ela é a melhor mãe do mundo...
O meu pai também é o melhor pai do mundo...
O senhor sabe, o conhece, sabe que ele gosta de tudo certo e que quase sempre está com a cara fechada,
Mas o senhor sabe também que é preocupação...
Ele quer ganhar muito dinheiro...
Cada vez mais, por isso ele é assim, mas é o melhor pai do mundo...
Álvaro e Odete, ouvindo o que ele dizia, não conseguiram conter as lágrimas.
Em silêncio, acompanharam tudo o que ele dizia e pediam as mesmas coisas.
Álvaro abraçou-se ao filho:
— Obrigado, meu filho, por ter-me dito todas essas coisas...
— Não disse pro senhor!
Disse pra Deus...
— Sei disso, meu filho, mas mesmo assim, muito obrigado.
Ao perceber que o pai também chorava abraçado a ele, por detrás de seus ombros Leandro levantou os olhos emocionados, dizendo:
— Deus, o senhor ainda está aí?
Esqueci de dizer que não é pra deixar o meu pai chorar também. Obrigado.
Odete e Álvaro não conseguiram conter o riso.
Álvaro se afastou, dizendo:
— Está bem, meu filho.
Deus atendeu suas preces, nós não vamos mais chorar.
Não é mesmo, Odete?
Ela, com lágrimas, mas sorrindo, disse:
— Isso mesmo, meu filho, nós não vamos mais chorar.
Novamente Leandro levantou os olhos:
— Obrigado, Deus!
O senhor é mesmo poderoso!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:47 pm

Assim dizendo, saiu correndo do quarto, foi para a sala e ligou o televisor.
Os pais o seguiram.
Não entendiam por que, mas sentiam um alívio imenso.
Ele foi para o escritório e ela para a cozinha.
Parecia que estava tudo bem.
No mesmo instante em que Leandro rezava, Noélia em sua casa fazia o mesmo:
— Deus, meu pai, sei que os meus queridos estão passando por um momento muito difícil.
Sei também que tudo passa e que de alguma forma, no final, algum aprendizado restará.
Dê senhor, a eles, a serenidade para poderem passar bem por tudo isso.
Proteja a todos, e principalmente a Artur.
Derrame sua luz sobre eles.
Encaminhe-o, meu Deus, ao seu caminho original.
Que assim seja.
Após dizer essas palavras, respirou fundo.
Ela acreditava na justiça e bondade de Deus.
Sabia que ele nunca os abandonava.
Foi em direcção à sala de estar.
Sentou-se em um sofá.
A sala estava na penumbra.
Fechou os olhos, pensando:
"Ontem, lá no centro, eu e meus irmãos de fé fizemos vibrações por todos eles e principalmente por Artur.
Sei que em algum momento ele encontrará o caminho de retorno.
Espero que não demore muito.
Sabe meu Deus... fico pensando:
acredito que tudo está certo, de acordo com sua justiça, mas às vezes não entendo.
Durante todo esse tempo em que estou no centro, por muitas vezes vi chegar até nós jovens com problemas de drogas.
Alguns conseguem se libertar, e na maioria das vezes se transformam de tal maneira que chego a me surpreender.
Já percebi muitas vezes que eles têm sempre uma missão importante para cumprir.
Não só com a vida deles, mas com a humanidade.
Alguns dão palestras, dedicam-se a ajudar outros jovens, ou trabalham na periferia dando assistência aos mais necessitados.
Outros se tornam artistas, pintores, escritores, e alguns até inventam alguma coisa boa.
De alguma forma deixam suas obras como exemplo de vida.
Por que será que a droga surgiu no mundo?
Deve ter algum motivo, mas qual será?
Por que, na maioria das vezes, os jovens mais inteligentes, com um potencial enorme, se deixam envolver por ela?
Se tudo isso está acontecendo em minha família, sei que de alguma forma devo fazer parte.
Só lhe peço meu Deus, nos dê coragem para que possamos passar por tudo e, no final, sairmos vencedores, crescidos espiritualmente, e acreditando cada vez mais na sua bondade e justiça."
Embora ainda estivesse na parte da tarde, foi para seu quarto, deitou-se e adormeceu.
Álvaro entrou no escritório.
Sentou-se em uma cadeira que havia em frente à mesa.
Ficou ali olhando para vários papéis espalhados sobre ela.
Seus pensamentos estavam em Leandro e na oração que ele havia feito.
"Como uma criança como ele pôde dizer aquelas palavras?
Como uma criança como ele pôde me levar às lágrimas?
O que estará acontecendo comigo?
Talvez seja por tudo isso que estou passando.
Devo estar fraco psicologicamente.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:47 pm

Nunca esperei uma coisa dessas em minha vida."
Seus olhos se desviaram em direcção à estante, que estava repleta de livros.
Levantou-se, foi até ela, apanhou um livro grosso e voltou a se sentar.
Começou a folhear o livro.
"Este é o Código Penal.
Só o li durante as aulas, pois bem cedo resolvi que nunca me dedicaria a essa vara.
Nunca defenderia um bandido.
Meu Deus! A qualquer momento meu filho pode se transformar em um bandido!
Se isso acontecer, terei que encontrar um advogado que o defenda!
E se não encontrar?
Se todos os advogados pensassem como eu?
Como tenho estado errado esse tempo todo...”.
Ficou ali folheando aquele livro havia muito tempo esquecido por ele.
Enquanto folheava, se ia lembrando da sua infância, adolescência e, finalmente, já adulto, na Faculdade de Direito.
Lembrou-se:
"Como fiquei feliz com aquele diploma em minhas mãos... como minha mãe também estava feliz ao me abraçar, dizendo:
"— Meu filho, hoje estou me sentindo uma mulher realizada... nunca pensei que teria um filho doutor!"
"— Também estou feliz, mãe!
Mas de hoje em diante, nossa vida vai mudar!
Com este diploma todas as portas se abrirão!
Não só por causa dele, mas porque serei um bom advogado!
Bom não! O melhor de todos!"
"— Sei disso, meu filho!
Sei disso!"
"Ela ficou mais feliz ainda no dia em que, juntos, fomos procurar e comprar a nossa casa.
No dia da mudança, já instalada, ela disse:"
"— Estou muito feliz, não por você ter-me comprado uma casa, que sempre foi o meu maior desejo, mas por você ser o filho que e!
"Eu apenas a abracei.
Estava advogando havia dois anos quando conheci Odete, em um domingo na casa de um amigo.
Ela também já havia se formado.
Estava feliz por ter passado em um concurso público.
Após sermos apresentados, ela, sorrindo, disse:"
"— Não acredito que consegui passar no concurso!
Meu maior sonho sempre foi dar aula.
Você já imaginou a felicidade que sentirei quando vir uma criança aprendendo a escrever?"
“Eu não respondi, apenas sorri pela felicidade que ela sentia.
Confesso que também fiquei feliz.
Não sei explicar o que senti, mas me parecia que já a conhecia de algum lugar.
Aqueles olhos não me eram estranhos.
Mas isso era impossível, eu nunca a havia visto antes, morávamos em bairros distantes...”.
Parou de pensar nisso por um instante.
Levantou os olhos em direcção à estante de livros.
Continuou pensando:
"Quantos livros existem nessa estante... quanto estudei para chegar a ser o advogado que sou.
Mas, muito do meu sucesso com certeza devo a Odete.
Ela sempre foi a melhor companheira que um homem poderia desejar.
Nosso amor foi à primeira vista.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:47 pm

Bastou um olhar para sabermos que ficaríamos juntos para sempre.
Casamo-nos, Artur nasceu... foi um dos dias mais felizes da minha vida, só igualado ao dia do nascimento de Leandro.
Até então éramos uma família feliz... hoje estou aqui, sou advogado, talvez não o melhor, mas sou muito bom... consegui concretizar todos os meus sonhos, mas do que adianta tudo isso se estou vendo minha família desmoronar?
Se estou perdendo, ou já perdi meu filho para as drogas?
Vi agora mesmo Leandro, apenas uma criança, dando-me uma lição de amor e fé...
Meu Deus! Onde estiver, por favor, ajude-me e ajude ao meu filho!"
Lágrimas sentidas escorriam por seu rosto”.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:47 pm

O CÉU CONTINUA AJUDANDO
“Artur continuou andando o dia todo, não se alimentou, mas também não se preocupou com isso.
Quando começou a escurecer, tentou reconhecer onde estava, mas não foi possível.
Aos poucos foi notando que estava no centro da cidade.
Pessoas iam e vinham, caminhavam apressadas para tomar o ônibus.
Andou mais um pouco, o cheiro bom de comida que vinha das lanchonetes e dos restaurantes fez com que sentisse fome, mas sabia que não tinha dinheiro para comer.
Lembrou-se de Rodrigo.
"Se ele estivesse aqui, tudo seria mais fácil, com certeza encontraria uma maneira de arrumar comida.
Será que ele está mesmo na clínica?
Se estiver, será que está gostando?"
Pensou mais um pouco, até perceber que não havia maneira de arrumar comida.
Tirou mais um pacotinho do bolso, colocou o pó no papel e inspirou.
Como por encanto, a fome desapareceu.
As portas das lojas começaram a fechar, logo estava tudo deserto.
Aos poucos, ele foi notando pessoas que chegavam.
Estavam sujas e carregavam sacolas.
Foram sentando-se juntos às portas.
Ele andava de um lado para o outro da rua.
As pessoas foram se ajeitando, encostavam as costas nas portas ou simplesmente se deitavam.
Embora ele tivesse boa resistência física, pois sempre praticara desportos, estava cansado, andara o dia todo.
Também se encostou a uma porta e adormeceu.
Não sabia quanto tempo havia se passado.
De repente, acordou com alguém o empurrando.
Abriu os olhos assustado.
Três rapazes e uma moça, rindo muito, tentavam tirar seu ténis, que embora não fosse importado, era novo.
Ele tentou reagir, mas não adiantou, em pouco tempo estava sem ele e sem a jaqueta, onde estavam os pacotinhos.
Eles, rindo muito, levaram tudo.
Assustado e desolado, ainda tentou correr atrás deles, mas sabia que seria inútil.
Voltou a se sentar, já chorando muito.
Não sabia o que fazer ou para onde ir.
Lembrou-se da sua casa, do seu quarto e de todo o conforto e segurança que havia ali.
Mais uma vez sentiu o impulso de voltar.
Só ali poderia encontrar protecção.
Mas, ao mesmo tempo, lembrou-se da clínica.
"Não! Não posso voltar!
Não quero ser internado!"
Ficou ali sentado sem saber o que fazer ou para onde ir, apenas chorando.
Estava assim quando uma senhora de mais ou menos cinquenta anos se aproximou:
— Menino, que está fazendo aqui?
Esse lugar não é pra você...
Ele olhou para ela, lembrou-se de sua avó.
Chorou ainda mais.
Não conseguia se controlar.
Ela continuou falando:
— Você não pode continuar na rua, deve ter família, não parece ser um abandonado.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:48 pm

— Como sabe disso?
— Pelas roupas que está vestindo.
Criança de rua não vive vestida assim.
Vá pra sua casa, sua mãe deve estar preocupada...
— Sei disso, mas não posso voltar...
— Como não?
Garanto que ela vai ficar muito feliz se você fizer isso.
Já está tarde, é quase meia-noite.
— Não sei como chegar lá, nem sei onde estou.
Mas mesmo que soubesse, não voltaria para minha casa.
Eles querem me internar em uma clínica.
— Você está metido com droga, não é?
Ele balançou a cabeça, afirmando.
Ela continuou:
— Faz muito tempo?
Ele novamente apenas balançou a cabeça, dizendo que não.
— Se não faz muito tempo, você pode sair dessa vida.
Disse que não quer ir pra clínica, mas é o único lugar que tem pra ser ajudado.
Se seus pais podem pagar, você deve ir...
— Não! Não quero!
Vou sair da droga sozinho.
Quando voltar para casa, será sem ela!
— Não vai conseguir isso, não vai não.
Sabe por que estou aqui na rua?
— Não...
— Porque quando eu não tinha nem trinta anos, comecei a beber.
No começo foi um pouquinho, depois fui aumentado, até que chegou um ponto que eu não conseguia mais cuidar da casa e nem dos meus filhos.
Sempre deixava pro outro dia, dizia que ia parar sozinha, mas não consegui.
Um dia, larguei tudo e fugi de casa.
Não tendo para onde ir, terminei na rua.
Bebendo cada vez mais.
Não sei como está a minha família, nem sequer os meus filhos.
Vivo bêbada todos os dias.
— Mas agora a senhora não está bêbada!
— Não sei o que aconteceu hoje.
O dia inteiro não tive vontade de beber e fiquei pensando muito nos meus filhos e no meu marido, que era um homem muito bom.
Não sei o que aconteceu, não.
Acho que era pra gente ter essa conversa...
— Será que foi isso?
— Não sei, mas estou com vontade de ir até a minha casa e ver como tudo está por lá...
— Vai fazer isso mesmo?
— Não sei, se ficar alguns dias sem beber, eu volto, sim.
Você devia fazer o mesmo.
Volte pra sua casa...
Sua mãe deve mesmo estar preocupada.
Você tem pai?
Ele se lembrou dos pais e de Leandro e de como eram felizes antes de tudo aquilo.
Respondeu:
— Tenho sim, e um irmão de quem gosto muito.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:48 pm

— Então, todos devem estar muito preocupados.
Quando saiu de casa?
— Esta madrugada.
— Volte meu filho...
Só ali poderá encontrar ajuda...
Não faça como eu...
Não deixe passar tanto tempo...
— Acho que vou voltar mesmo.
Obrigado por conversar comigo.
Vou agora mesmo.
Só não sei como voltar, e não tenho mais o meu ténis...
— Onde você mora?
Ele disse.
Ela pegou um pedaço de pano muito sujo que estava em seu bolso e tirou de dentro dele alguns trocados:
— É tudo que tenho, mas vai dar pra você tomar aquele ônibus e ir pra sua casa.
Corra, porque esse pode ser o último.
Ténis eu não tenho, mas seus pais não vão se preocupar com isso.
Ficarão felizes em vê-lo.
A princípio, Artur não quis pegar, mas sabia que ela tinha razão, só seus pais poderiam ajudá-lo.
Seguindo apenas o instinto, ele a beijou no rosto e saiu correndo para o ponto do ônibus.
O motorista estava saindo, Artur deu o sinal com os braços.
O motorista olhou para ele e acelerou.
Artur, desconsolado, viu o ônibus se afastar.
— E agora? O que vou fazer?
A senhora se aproximou:
— Ele não quis parar, viu você descalço, pensou que fosse um mendigo.
Está percebendo o que significa continuar nessa vida?
— Não sei o que fazer...
— Siga por essa rua, daqui a três quadras vire à esquerda.
Siga em frente, logo reconhecerá o caminho.
Vá, meu filho, e que Deus o acompanhe.
Ele seguiu andando pela rua.
Ela ficou olhando até vê-lo desaparecer.
Pensou:
“Tomara que ele consiga sair dessa vida”...
Também vou tentar me recuperar...
Como estarão meus filhos?
Preciso voltar a ser como era antes da bebida...
Artur seguia pensando:
"Preciso chegar logo em casa, meus pais devem estar mesmo preocupados."
Após andar muito, finalmente começou a reconhecer o lugar em que estava.
"Estou ainda muito longe e meus pés estão doendo, mas conseguirei chegar.
Sei que meus pais me ajudarão...”.
Caminhou por mais algum tempo.
De repente, a vontade da droga voltou.
Ele se apavorou:
— E agora? Não tenho mais, eles levaram todos os pacotinhos.
Preciso ser forte, meus pais estão preocupados...
Embora tivesse vontade de deixar a droga, breve sentiu que não suportaria por mais tempo.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:48 pm

Começou a suar frio e a tremer.
Seu coração batia descompassado.
Sentiu fraqueza, pois durante o dia não havia comido nada.
Seu estômago doía.
Colocou a mão sobre ele.
Estava diante de uma lanchonete, que àquela hora da noite estava vazia.
Lembrou-se dos trocados que a senhora havia lhe dado.
"Preciso comer alguma coisa, não sei o que poderei comprar com este dinheiro, vamos ver..."
Entrou na lanchonete.
O garçom que servia no balcão estava lavando os copos e limpando a chapa, já estava na hora de fechar.
Ao vê-lo entrando, disse com voz brava:
— Pode ir saindo!
Não o quero aqui dentro incomodando os clientes!
— Eu só estou com fome e preciso comer alguma coisa...
— Mas não vai ser aqui!
Pode ir saindo!
— Tenho dinheiro para pagar...
— Tem é?! Quanto?
Ele abriu a mão e mostrou as moedas.
— Não é muito, mas dá para eu lhe dar um pedaço de pão com manteiga, está bem?
— Está, e muito obrigado...
Enquanto passava a manteiga no pão, foi dizendo:
— Embora esteja descalço, não parece ser um mendigo.
Que está fazendo a esta hora na rua?
— Estou indo para casa.
Mas não comi nada hoje...
— Onde está o seu sapato?
— Eu estava usando um ténis, mas alguns garotos levaram.
O garçom olhou bem para ele dizendo:
— Então foi isso que lhe aconteceu?
Bem que eu percebi que você não tinha cara de menino de rua.
Além do pão, vou lhe dar um copo de leite.
Esta cidade está ficando cada vez mais perigosa mesmo...
Colocou sobre o balcão o pão e o copo com leite.
Artur comeu rápido, estava realmente com muita fome.
Após tomar o último gole de leite, sorrindo, disse:
— Muito obrigado, agora poderei seguir o meu caminho.
— Vá com Deus...
Já mais forte Artur saiu da lanchonete.
Enquanto caminhava ia pensando:
“Hoje, já por duas vezes, ouvi falar em Deus”.
Estou estranhando, pois em minha casa pouco ou quase nada se falava sobre Ele.
Será que existe mesmo Deus?
Acho que não!
Se existisse não permitiria tanta pobreza, nem a droga que destrói a gente...”.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:49 pm

SEMPRE MAIS
“Assim pensando, continuou a andar.
Sabia que ainda estava muito longe, mas conseguiria chegar, apesar da dor nos pés, que já estava bem forte.
Assim que comeu o pão, a vontade da droga desapareceu, e ele nem se lembrava mais dela.
Mas não demorou muito para ela voltar com toda sua força.
Ele estremeceu.
Sabia que precisava resistir.
Apertou o passo para chegar mais depressa.
Andou por mais uns quinze minutos, depois parou:
"Não adianta, não posso mais resistir.
Como vou chegar em casa nesta situação?"
Entrou em desespero:
"Não posso! Não posso!
Meus pais não merecem isso!
Além do mais, não quero ir para clínica alguma!"
Parou. Ficou analisando onde estava.
Sabia em que direcção ficava sua casa.
Continuou seguindo, só que dessa vez em direcção à favela onde Careca morava.
"E isso mesmo que tenho que fazer!
Não adianta ficar lutando, não tenho mais remédio.
Careca vai me ajudar, deve ter alguma droga lá no seu barraco!"
Caminhou com passos apressados, precisava chegar o mais rápido possível.
Não estava bem, mas sabia que logo ficaria.
Assim que cheirasse o pó.
Finalmente chegou à viela que o levaria até o barraco.
O dia ainda não clareara.
Ele não tinha noção de que horas eram, mas isso não o preocupava, o que queria mesmo era poder usar a droga.
Sabia que depois disso ficaria muito bem.
Assim que chegou em frente ao barraco, bateu com força na porta.
Demorou um pouco, mas ela se abriu.
Careca, um pouco assustado, olhou colocando só a cabeça para fora.
Ao ver que era Artur, assustou-se:
— O que está fazendo aqui?
Há esta hora?
Artur falou rápido:
— Preciso de sua ajuda!
Não sei o que fazer!
Você é a única pessoa que pode me ajudar!
— Entre aqui.
Ele entrou.
O barraco cheirava mal, mas ele não se importou.
Sabia que o que precisava estava ali.
Contou a Careca tudo o que havia lhe acontecido.
Ele ouviu sem interromper.
Artur terminou de falar:
— Como vê, não posso voltar para casa, não neste estado.
Você pode me ajudar?
— Não tenho nada aqui.
Tudo fica escondido, pois se os "ómi" chegar, não vão encontrar nada.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:49 pm

— Onde está?
— Não posso dizer.
Além do mais, ela não é minha.
É tudo encomendado, preciso entregar.
— Me dê só um pouco!
— Tem dinheiro?
— Não...
— Então não pode ser.
Preciso prestar contas todos os dias.
Se não fizer isso, vou ficar em maus lençóis.
Não dá mesmo...
Artur chorava:
— Por favor! Sinto que vou enlouquecer!
— Não posso fazer nada.
Se eu pudesse, ajudaria, mas não posso...
— Você não ganha comissão?
— Ganho, mas já cheirei e me apliquei tudo.
Não tem jeito não...
É melhor você voltar pra sua casa e ir para aquela clínica...
— Não posso voltar!
Nem vou para a clínica!
— Você é quem sabe...
— Só sei que agora preciso de um pouco do pó.
— Se quiser, pode esperar aqui, vou falar com algumas pessoas.
Quem sabe pode se juntar com alguém e fazer alguns assaltos.
Sempre dá para livrar o pó.
— Não posso fazer isso!
E se for preso novamente?
Meu pai não vai me perdoar! Nunca!
— Pode levar a droga de um lugar para outro, assim como faço.
— Não sei... Tenho medo de ser preso...
Careca disse furioso:
— Assim não dá!
Não quer fazer nada e quer o pó?
Acha que vai conseguir sem fazer nada?
— Não sei o que fazer, preciso de um pouco, assim pensarei melhor.
Careca serviu um pouco de café frio que estava em uma leiteira de alumínio.
Em cima da mesa havia alguns pães duros.
Artur olhou para eles.
Careca percebeu:
— Está com fome?
Pode pegar, está duro, mas é melhor que nada.
Artur não pensou muito, estava mesmo com fome.
Pegou o pão e tomou o café.
Quando terminaram, Careca olhou fixo para ele:
— Agora preciso sair.
Não tenho pó para lhe dar, mas se quiser pode ficar por aqui.
Sei que não dormiu à noite, pode deitar nessa cama.
Saiu. Artur ficou sozinho olhando tudo.
Estava com sono, mas a vontade da cocaína era muito intensa.
Deitou-se e, aos poucos, adormeceu.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:49 pm

Sonhou com uma moça que lhe sorria e corria com os braços abertos em direcção a ele.
Ele ficou encantado com a beleza dela.
Ela não falava, mas pôde perceber que seus olhos queriam lhe dizer algo.
Mas quando ela se aproximou, ele acordou.
Ficou ali deitado.
Sabia onde estava, mas o rosto da moça não saía do seu pensamento.
"Ela era muito linda... o que será que estava querendo me dizer?"
Estava ainda deitado quando Careca retornou.
Entrou no barraco sorrindo e dizendo:
— Então, como você está?
— Estou bem, acabei de acordar.
— Pensei muito a seu respeito, não vai poder ficar aqui se não trabalhar.
Sei que vai precisar da coca, mas não tendo dinheiro vai me causar problemas.
— Não! Eu não farei isso!
Não criarei problema algum!
Não tenho para onde ir!
— Volte para sua casa ou me ajude.
Falei com o meu patrão, contei a sua história.
Ele disse que, se quiser, eu poderei lhe ensinar o trabalho.
Ele tem alguns clientes que precisam ser visitados.
Se quiser, ele o contrata.
— Quer que eu me torne um traficante?
— Já disse que não sou traficante, sou apenas um entregador.
— Não sei, não sei...
— Você precisa decidir logo.
Se não quiser o trabalho, pode ir embora agora mesmo.
Com o trabalho poderá conseguir toda a cocaína que precisar.
Sem ele, me dará muito problema, e eu não estou a fim.
Artur ficou pensando, novamente teria que decidir o que fazer.
Não queria tornar-se um traficante, mas também não queria ir para a clínica.
Pensou, pensou e finalmente disse:
— Está bem, vou aceitar o trabalho.
— Ainda bem.
Vou lhe dar um pouco de pó por conta.
Amanhã vou levá-lo a um lugar, vai falar com o meu patrão.
— E se eu for preso?
— Não vai ser preso!
Um cara boa pinta como você não desperta suspeita.
Se ainda fosse preto como eu! Mas não é!
Conversa muito bem.
Vai dar tudo certo.
— Está bem. Tomara que dê certo, não quero ir para a clínica.
Careca saiu do barraco.
De dentro de uma madeira falsa na parede tirou dois pacotinhos e retornou para dentro.
Deu um para Artur e o outro ficou para ele.
Os dois cheiraram.
Após alguns instantes, saíram para a rua.
Andaram muito, regressaram já altas horas.
Artur deitou-se no chão em um colchonete velho e sujo, mas drogado como estava, não se importou.
Já passava de uma hora da tarde quando acordaram.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:49 pm

Careca estava apressado e dizia:
— Acorde, precisamos ir a um lugar!
Artur levantou-se rápido.
Sabia que aquele seria o início de um novo caminho.
Sentia medo, mas não via outra solução.
Faria qualquer coisa, menos ir para a clínica.
Saíram. Artur estranhou, pois Careca seguia em silêncio e em direcção ao centro da cidade.
Entraram em um edifício velho e escuro.
Artur sentiu um pouco de medo.
O elevador era pequeno.
Pararam no oitavo andar.
Careca, seguido por Artur, saiu do elevador e parou em frente a uma porta.
Deu três batidas, entrou.
Um rapaz os recebeu:
— Bom dia, Careca, chegou atrasado.
— Dormi muito.
O seu Romeu tá aí?
— Está lá dentro, mas quem é esse aí?
— É o meu amigo. Ele quer trabalho.
O rapaz deu um sorriso sarcástico.
— Trabalho... É...
Depois entrou por uma porta e saiu em seguida.
— O seu Romeu pediu para vocês entrarem.
Entraram. Um homem alto e bem vestido os recebeu.
— Bom dia, Careca.
Então, vejo que trouxe o amigo de quem me falou.
Bom dia, Fred.
Artur ficou olhando para ele sem entender bem o que ele dizia.
O homem tornou a dizer:
— Fred! Estou falando com você.
Artur percebeu que o homem se dirigia a ele.
Disse confuso:
— Meu nome não é Fred...
— A partir de hoje será.
No nosso ramo de trabalho não sabemos o verdadeiro nome das pessoas.
Não é Careca?
Rindo, Careca respondeu:
— É isso mesmo, eu já falei com ele a esse respeito.
Artur lembrou-se da conversa que haviam tido.
Disse:
— Está bem, gostei do nome, é mais bonito que Careca.
— Então está bem.
Careca vai lhe ensinar o trabalho.
Só precisa ficar atento e trabalhar com cuidado.
Não tem perigo de nada.
— E se eu for preso?
— Está sob minha protecção.
Será solto logo.
— Sou menor de idade, meu pai será avisado e me levará para uma clínica...
Eu não quero ir...
— Se fizer tudo como Careca lhe ensinar, não tem perigo.
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Ave sem Ninho

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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:50 pm

Artur estava assustado, mas sabia que não havia outra solução.
Disse:
— Está bem.
— Daqui em diante, não vai mais precisar se preocupar com a droga.
Se trabalhar direito, terá toda que precisar.
Agora podem ir.
Careca, ensine o trabalho para ele.
— Está bem, senhor.
Romeu se despediu.
Os dois saíram.
Na rua, enquanto caminhava Careca disse:
— Agora vamos buscar a mercadoria.
Artur o acompanhou calado.
Pensava em como sua vida havia mudado.
Nunca pensou que existisse um lugar e um trabalho como aquele.
Em um outro lugar tão horrível como o primeiro pegaram um pacote e foram fazer a entrega em uma favela que ele ainda não conhecia.
Dali pra frente, aquilo se tornou uma rotina.
Careca deu a ele uma lista de pessoas e lugares onde deveria entregar a droga.
Ele não falava directamente com os viciados, apenas entregava os pacotes para outros iguais a Jiló.
Continuou morando com Careca.
Usava toda a droga que queria e, aos poucos, acostumou-se com o ambiente e com o trabalho.
Com uma parte do dinheiro que ganhou comprou algumas roupas e sapatos.
Mas a maior parte era consumida com a droga.
Sob o efeito dela, ele e Careca praticavam pequenos assaltos, só para verem a cara assustada das vítimas.
Depois de cada assalto riam muito.
Artur visitava favelas, mas também lugares finos.
Para esses lugares Romeu sempre pedia que ele fosse, pois o julgava bem-educado e de boa aparência.
Fazia mais de três meses que ele estava naquele trabalho.
Certa vez, foi até um edifício fino para levar a mercadoria.
Procurou o número da porta na qual deveria entrar. Encontrou.
Em uma placa presa a ela estava escrito: Galeria de Arte.
Assim que entrou na recepção, percebeu que aquele ambiente era diferente de todos os que haviam frequentado.
Identificou-se à recepcionista.
Ela fez com que esperasse alguns minutos.
Enquanto esperava, ficou observando o ambiente.
Havia muitos quadros e esculturas que chamavam a atenção.
Ele não entendia quase nada sobre arte, mas percebeu que aquelas obras eram de artistas famosos.
Estava olhando com atenção quando a recepcionista pediu que ele entrasse em uma sala.
Ele entrou.
Uma senhora de mais ou menos quarenta e cinco anos o recebeu.
Sorrindo, disse:
— Bom dia, meu jovem.
Trouxe a mercadoria?
De dentro de uma pasta executiva ele tirou um pacote e entregou a ela.
Ela passou o pacote de uma mão para outra, como se estivesse conferindo o peso.
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Ave sem Ninho

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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 7:50 pm

Séria, disse:
— Parece que está certo.
Aqui está o dinheiro.
Ele pegou o dinheiro.
Quando ia saindo, ela disse:
— Como é o seu nome?
Ele se voltou.
— Meu nome é Fred.
— Gostei muito de você.
É bonito e parece ser de boa estirpe.
Na sexta-feira haverá uma festa em minha casa, não gostaria de comparecer?
Ele levou um susto e, um pouco atrapalhado, respondeu:
— Não sei...
— Não sabe por quê?
— Não estou acostumado a ir a festas, e, além do mais, acredito não ter roupas adequadas.
A senhora me parece ser uma pessoa com boas condições financeiras, com certeza em sua festa outras pessoas iguais à senhora comparecerão.
Ela começou a rir:
— Tem razão, mas não se preocupe com isso.
Basta ir um pouco mais cedo, lá em casa tem a roupa que precisar.
Meu sobrinho morava comigo, foi embora.
Acredito que a roupa dele é do seu tamanho.
Se resolver, aqui está o endereço.
Basta telefonar, meu motorista vai buscá-lo onde estiver.
A festa vai começar às dez horas, precisa chegar um pouco mais cedo para poder se vestir.
Ele pegou o cartão que ela lhe oferecia.
Leu: Rosaria Maria Lins da Veiga.
Ele não soube o que responder.
Apenas se despediu.
Assim que chegou à favela, contou a Careca o que havia acontecido.
Ele disse:
— Ela é muito rica, mora em um apartamento de luxo.
Se gostar de você, lhe dará tudo o que precisar.
Inclusive a droga.
— Não estou entendendo, por que faria isso?
— Você é um rapaz bem-apessoado e educado.
Ela gosta de ter jovens como companhias.
— Não, eu não vou.
Estou desconfiado dessa história.
— Desconfiado do quê?
Se ela gostar de você vai lhe dar tudo o que precisar.
Poderá deixar esta vida.
— Desculpe, sei que está tentando me ajudar, só que não sei o que fazer...
— Só sabe dizer isso?
Não posso! Não sei!
Eu é que não sei o que fazer com você.
Estou indo embora!
Tomara-me tivesse essa chance!
Pense bem. Se resolver, ligue pra ela.
Saiu sem dizer mais nada.
Artur ficou pensando em tudo o que Rosaria havia dito.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

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