É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 8:37 pm

Artur continuou relembrando.
Naquele dia, sentira vontade de contar toda a verdade a seu pai, mas não tivera coragem, ficara calado.
Quando Álvaro saiu para a delegacia levando consigo Iracema, André olhou para Letícia e os jovens que ali estavam.
Disse:
— Infelizmente, naquele momento, calando-se, ele perdeu a chance de voltar.
Letícia, desesperada, disse:
— André, por favor, permita que eu continue ao lado dele.
Permita que eu tente ajudá-lo, nem que seja só para intuí-lo...
— Ele agora vai adormecer.
Quando isso acontecer, o levaremos connosco.
Assim poderemos conversar e tentar ajudar.
Letícia sorriu.
Olhou para Artur, que continuava encostado no canto da parede e relembrando.
Com os olhos marejados, olhou para André.
Este entendeu o que ela queria.
Disse:
— Está bem, pode ficar com ele.
Eu e os jovens daremos um passe para que se lembre de tudo e consiga entender o que está passando.
Já sabemos tudo o que aconteceu naquele dia.
Você estava se preparando para renascer, por isso não acompanhou todo o processo.
Permaneça ao seu lado e saberá.
Ela sorriu:
— Obrigada, André.
Sinto que encontrarei uma maneira de ajudá-lo, ao menos farei o possível.
— Está bem.
Após dizer isso, juntamente com os jovens, deu um passe em Artur.
Ele sentiu muito sono, levantou-se e foi para a cama.
Estava com os pensamentos confusos.
Letícia sabia que não podia se aproximar.
Um pouco distante, disse:
— Miguel, meu amor, estou aqui.
Sei que conseguirá vencer.
Sei que conseguiremos nos encontrar e ser felizes, desta vez para sempre.
Artur sentiu um bem-estar enorme.
Ela se aproximou, começou a jogar sobre ele muita luz branca, que o foi envolvendo.
Ele, as poucos, adormeceu.
Ela ouviu uma risada que vinha por detrás de suas costas.
Voltou-se e viu um homem que ria muito.
Ao vê-lo, ela arregalou os olhos:
— Hélio?!
Que está fazendo aqui?!
Com um tom irónico de voz, disse:
— Linda Letícia!
Está novamente tentando ajudar esse perdedor?
— Sim, estou aqui tentando ajudar não um perdedor, mas o meu amor.
Ele continuou tendo em seu rosto um ar de deboche.
Sorrindo com o canto dos lábios, disse:
— Amor... Amor... Amor...
O que é isso? Sabe que não adianta!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 8:38 pm

Isso de amor é só uma desculpa para se continuar errando.
— Por que está dizendo isso?
Por que continua com tanto ódio e rancor?
— Você me pergunta isso? Logo você?
— Sabe que sempre quis a sua felicidade.
Sabe que sempre estive ao seu lado...
E que sempre fui sua amiga...
Ele, raivoso, disse:
— Não me venha com essa conversa de santa querendo me enganar!
Sabe que não acredito em você, nem em toda essa baboseira de amor e perdão!
Estou aqui e vou ficar até que consiga fazer com que ele volte, e novamente derrotado.
— Sabe que ele tem uma missão importante!
Não pode continuar fazendo isso!
Não pode continuar prejudicando-o!
— Prejudicando? Eu?
Prejudicando?
Como pode dizer isso?
Logo você, que sabe muito bem o que ele me fez!
— Foi em outro tempo, em outra vida!
Ele agora se arrependeu, está tendo uma nova oportunidade.
Você, em vez de prejudicá-lo, deveria ajudá-lo para que vença!
Sabe que se o ajudar também será ajudado!
Também poderá voltar para a Terra!
Evoluir para a luz!
Ele, sorrindo com ar de deboche, disse:
— Que retornar? Que luz?
Ainda acredita nisso?
— Claro que sim!
Todos têm oportunidade de evoluir!
— Você é muito ingénua.
Acredita mesmo em toda essa baboseira?
Eu, por minha parte, só acredito no ódio que sinto e no meu desejo de vingança!
— Só está fazendo mal a você mesmo!
Enquanto não encontrar o perdão e o amor, continuará assim, envolto nessa nuvem negra que o impede de usufruir de toda a beleza que Deus nos dá.
— Não quero ouvir nada disso!
Você é como tantos outros, só fica sonhando com algo que não existe!
— Claro que existe!
Enquanto você está aqui tentando se vingar, está deixando de aprender, está deixando de encontrar as pessoas que o amam e sofrem por sua causa.
— A única coisa que me interessa é me vingar dele e de você!
Foram os responsáveis por eu estar assim!
— Não fomos os responsáveis!
Você não aceitou o nosso amor!
A nossa união!
— Não vou aceitar nunca!
Só vou ficar bem quando conseguir destruir os dois para sempre!
— Não diga isso...
Pense em tudo o que está perdendo...
— Só quero pensar nisso!
Não pensarei em outra coisa!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 8:38 pm

Nunca! Também não quero mais ficar aqui ouvindo você!
Vou embora!
Voltarei quando ele acordar e vocês não estiverem mais aqui!
— Não vai conseguir, ficarei ao lado dele o tempo todo.
— Pode ficar o quanto quiser!
Ele não notará a sua presença!
Ele atrai a minha energia, não a sua!
Sem se despedir, e antes que ela dissesse qualquer coisa, ele desapareceu.
Letícia olhou para Artur, que continuava dormindo.
Embora seu corpo estivesse dormindo, seu espírito, entorpecido pela droga, estava fora do corpo, mas desesperado, pois queria sair do quarto.
Porém, não conseguia, ficava andando de um lado para o outro.
Desesperado, retornou ao corpo e despertou.
Levantou-se, foi para a gaveta onde estava a droga, pegou uma seringa e se aplicou.
Com lágrimas, Letícia o acompanhou enquanto ele se aplicava a droga.
Ela dizia:
— Só você, meu amor, poderá encontrar a sua paz...
Está em suas mãos o seu destino...
Ficarei ao seu lado todo o tempo que me for permitido.
Lute meu amor... Lute...
Após terminar de aplicar-se a droga, ele ficou ali relembrando.
Letícia percebeu que sob o efeito da droga não conseguiria atingi-lo com seus pensamentos.
De longe, jogava sobre ele luzes que o envolviam.
Ele continuava pensando e, assim, Letícia ia tomando conhecimento de tudo.
Ele se lembrou do que fizera quando Álvaro levara Iracema para a delegacia, do dia em que fora preso e das palavras do delegado aconselhando-o a deixar aquela vida.
Lembrou-se do desespero de seus pais quando tomaram conhecimento, da mendiga bêbada que lhe dera dinheiro para que pudesse voltar para casa, do garçom que lhe dera um copo de leite.
Lembrou-se até de Careca, que a princípio também o aconselhara.
As imagens iam passando por seus pensamentos.
Letícia, chorando, acompanhava tudo.
Sentia-se impotente, amava Artur.
Atingira um estágio de desenvolvimento espiritual no qual poderia ficar sem reencarnar e atingir um plano mais alto.
Mas não quis, nem queria seguir sem ele.
Por isso estava ali.
Lutaria para fazer com que ele retornasse.
Sem que ela pudesse fazer qualquer coisa, ele se levantou e se encaminhou para o jardim.
Ela ficou ali parada.
Um dos rapazes da equipe entrou.
Ela disse:
— Ele está saindo para a rua!
— Não se preocupe, eu vou acompanhá-lo, agora só precisa de espaço para andar.
Andarei com ele.
— Não vai deixá-lo sozinho?
— Claro que não.
Eu o estarei protegendo de assédios indesejáveis.
Agora ele só vai sentir o efeito que a droga lhe causa.
Logo mais voltará e dormirá.
— Está bem.
Vou falar com André para ver se posso permanecer aqui.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 8:38 pm

Ela deu uma olhada em Artur, que estava abrindo o portão e saindo para a rua.
O rapaz correu para alcançá-lo.
Ela sorriu tristemente e foi em busca de André.
Entrou na sala. André conversava com Osmar, o responsável pela equipe que lá se encontrava.
Ela se aproximou e em silêncio ficou ouvindo.
André perguntou:
— Como ele está?
Letícia respondeu:
— Não está bem, aplicou-se a droga e saiu acompanhado por Inácio.
— Está em boa companhia.
— Hélio estava lá no quarto dele.
— Hélio?
Ela fez que sim com a cabeça.
Osmar disse:
— Ele está ao lado dele desde o início.
Tentamos afastá-lo, mas Miguel não permite.
Com sua energia de tristeza, medo e insegurança, o atrai.
Hélio se aproveita e o domina.
Ele tem muito ódio ainda!
André tinha uma sombra de tristeza em seus olhos.
Disse:
— Infelizmente, Hélio não conseguiu perdoar, por isso sofre e faz sofrer.
Letícia disse:
— Não podemos fazer nada quanto a isso?
— Receio que não, ao menos por enquanto.
Miguel terá que reagir e não permitir que ele se aproxime.
— Ele não fará isso, não tem condições, está totalmente dominado.
André voltou os olhos para Osmar:
— O que lhe parece?
Acredita que ele vai conseguir reagir?
— Não sei, estamos tentando, mas todos aqui sabemos o quanto isso é difícil, todos nós já passamos por isso.
— É verdade, todos da equipe também foram viciados, por isso tentam ajudar as pessoas que estão com o mesmo problema.
Estão conseguindo algum êxito?
— Sim. Graças a Deus, sempre há um ou outro que consegue se livrar do vício.
Sempre é mais fácil quando os amigos intercedem a seu favor.
Se todas as famílias e amigos soubessem como é importante a oração, tudo se tornaria um pouco mais fácil.
— Você sabe que sempre demora um pouco, mas no final, a única esperança que resta é orar.
E isso todos acabam fazendo.
— Esse é o nosso trabalho, inspirar os familiares e amigos para isso.
Mas algumas vezes, após muitos ou pequenos crimes, idas e vindas da prisão, brigas e ofensas, casas roubadas e destruídas, alguns pais, inconscientemente, desejam que seus filhos morram para que eles próprios tenham paz.
— Sim, isso acontece muitas vezes, e eles sofrem por terem esses pensamentos.
— Para isso estamos aqui.
Nossa equipe é formada pela quantidade de pessoas que estão envolvidas.
Cada um fica ao lado de uma pessoa envolvida.
Por isso estamos aqui, em cinco, pois temos cinco irmãos envolvidos.
Letícia interrompeu:
— Quer dizer que se a família fosse maior ou menor, a equipe também seria diferente?
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 8:39 pm

— Sim. Aqui temos um pai, uma mãe, um irmão e a empregada.
— Ela não faz parte da família!
André sorriu:
— Ela não faz parte da família terrena, mas da espiritual é um membro importante.
Sei que você se lembra dela.
Vi quando a reconheceu.
— Também reconheci Nestor, Amélia e Mário, que está ainda em um corpo de criança.
— Pois é, é Marilu.
— Mas ela está muito diferente!
— Sim, mas é ela mesma.
Lembra-se de como foi decidida à volta de Miguel?
Lembra-se que ela também estava naquela reunião?
— Sim, eu me lembro.
— Ela, desta vez, retornou no corpo de uma mulher pobre e tendo que criar sozinha vários filhos.
O encontro dela com Miguel estavam programados.
Eles teriam a oportunidade de se perdoar e ajudar mutuamente.
— Estou entendendo, mas parece que não deu certo.
— Sim, mas não por culpa dela.
Bem que tentou conversar com ele, alertá-lo.
Ele não quis ser ajudado, exerceu seu livre arbítrio.
Tinha esse direito.
— Agora precisamos voltar.
Não temos mais nada para fazer aqui, ao menos por enquanto.
— André, queria lhe fazer um pedido.
— Já sei, quer ficar aqui, mas sabe que não pode.
— Por quê?
— Você tem seus próprios compromissos e trabalho, não pode simplesmente abandonar tudo.
Para isso existem as equipes.
Já percebeu que eles estão fazendo tudo para ajudar a todos.
— Sei disso, mas Hélio disse que iria embora, mas que voltaria quando saíssemos.
Se eu ficar, ele não vai mais se aproximar.
— Sabe que não estava dizendo a verdade, sabe que o próprio Miguel o atrairá, e você não poderá fazer nada.
— Se eu ao menos pudesse conversar com ele!
Se ele me visse e ouvisse, poderia se lembrar de tudo!
Poderia entender que o que está fazendo não está prejudicando só a ele, mas a todos nós!
Se continuar assim, vai impedir que eu volte!
Sua missão não será cumprida e ele desencarnará antes do tempo!
Preciso conversar com ele!
Por favor, André!
Permita! Sei que pode!
André aproximou-se e abraçou-a, dizendo:
— Minha filha...
Sei que está tentando tudo, mas sabe que isso não é possível...
Ele sozinho tem que decidir o que fazer...
Se você aparecer para ele e contar tudo, ele com certeza se lembrará do amor e dos compromissos que existiam entre vocês dois.
Talvez até retorne ao caminho, mas qual seria o seu mérito?
O que ele aprenderia?
Continuaria para sempre sendo um espírito inseguro, covarde, sem condições de fazer suas escolhas.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 7:57 pm

— Desculpe, é que estou desesperada.
— Pois não devia ficar assim, já aprendeu o bastante para saber que tudo está certo de acordo com a lei maior.
Nada está errado.
Não poderei fazer com que ele a veja, mas posso fazer com que pense que sonhou.
Já sei o que faremos.
Hoje à noite, quando todos estiverem dormindo, os levaremos para a minha sala e lá poderemos recordar os compromissos assumidos.
Poderemos fazer com que Miguel se lembre da missão que tem que cumprir.
Está bem assim?
Letícia e Osmar sorriram, sabiam que seria uma boa oportunidade.
Letícia humildemente disse:
— Obrigada, André, sabia que tentaria tudo o que estivesse ao seu alcance.
— Vamos nos reunir e, depois disso, teremos que tomar uma decisão.
— Está bem. Queira Deus que consigamos ajudá-lo.
Posso lhe perguntar algo que está me incomodando?
— Claro que sim, o que é?
— Porque Deus permite que exista droga no mundo?
Porque alguns a usam e outros não?
André começou a rir.
Respondeu:
— Essa é uma pergunta que muitos fazem principalmente aqueles que estão directamente envolvidos não só com as drogas, mas com a bebida, que também prejudica muitos espíritos, fazendo com que estacionem e percam sua encarnação e, por isso, sejam obrigados a renascer novamente.
Em sua maioria, essas reencarnações são acompanhadas de muita dor e sofrimento, necessários para o aprimoramento do espírito.
— Mas por que existem os vícios?
— Se olhar agora para o alto verá o firmamento.
Daqui de onde estamos pode ver as estrelas e a lua, que hoje está na sua fase crescente.
Se fosse dia, veria um céu azul, com nuvens e o sol brilhando.
Sabe que além deste sistema existem muitos outros planetas, luas e sóis.
De qualquer planeta que estiver, verá esse mesmo firmamento, com toda a sua beleza.
Tudo isso foi criação de uma força maior.
Tudo no firmamento está em perfeita ordem e sob uma lei que comanda tudo, evitando que haja choque entre os planetas, estrelas, luas e sóis.
Espiritualmente dizendo, existem planetas mais ou menos evoluídos que este ao qual chamamos de Terra.
Também no princípio a natureza foi criada perfeita.
Há terra, água e ar, indispensáveis à sobrevivência do ser humano.
A certa altura, espíritos revoltados e que precisavam de aprendizado foram enviados para cá.
Não tinham o que vestir, onde morar ou o que comer, porém sabiam que teriam de sobreviver.
Embora estivessem nessa situação, nunca estiveram sós.
Sempre esteve sob a protecção maior, assim como os adultos que ensinam as crianças a comer, falar, andar, etc., e, sobretudo, lhes dão protecção.
Esses espíritos precisavam evoluir, e isso só seria conseguido se aprendessem a lutar contra seus medos, ódios e desejos de vingança.
Tinham a chance de recomeçar e reparar os erros passados.
Não tinham lembrança do passado, mas sabiam que precisavam sobreviver.
Por isso tiveram que aprender a caçar, lutar contra os dinossauros e todos os animais que existiam.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 7:57 pm

Moravam em cavernas, aprenderam a caçar e a beber água.
Eram espíritos embrutecidos, trouxeram com eles muito ódio e rancor.
Começaram a se juntar em pequenos grupos e fazer suas próprias leis.
Os mais fortes fisicamente tornaram-se os líderes e descobriram o poder.
Isso fez com que começassem a guerrear entre si.
Eles não conheciam nada sobre espiritualidade, mas sabiam que existia algo além, por isso adoravam os elementos da natureza, inclusive animais.
Precisavam evoluir ainda mais.
Embora tenham sido mandados para cá, deixaram atrás de si outros espíritos amigos e companheiros de jornada.
Esses, assim como você está tentando fazer agora, não se conformavam em ficar bem sabendo que seus amigos não estavam.
Por isso, veio ajudá-los.
Renasceram naquele ambiente hostil somente para auxiliar seus amigos.
Com isso foi descoberto o fogo, a roda e tudo o mais, que foi facilitando a vida para eles.
Sempre houve aqueles que inventaram isso ou aquilo.
Letícia o interrompeu:
— O que tudo isso tem a ver com as drogas e o vício?
— Já chego lá.
Eles foram evoluindo, conseguindo apetrechos para facilitar sua vida, mas sempre que ficavam doentes ou sofriam um acidente, não tinham uma anestesia e sofriam muito.
Foram descobrindo que muitas plantas lhes proporcionavam uma espécie de anestesia e que, com ela, conseguiam evitar um pouco a dor física.
A Ciência foi evoluindo, e surgiu a primeira droga que serviria como anestesia.
A essa altura eles já haviam descoberto que o dinheiro lhes dava poder.
Outras drogas foram surgindo.
Por isso, aos poucos, essa droga, que a princípio deveria ajudar, transformou-se em uma fonte de dinheiro e poder.
Para o bem da humanidade, as drogas não poderiam desaparecer.
O espírito teria que conviver e vencer todas elas.
Só quando conseguisse isso estaria em condições de se elevar.
— Está dizendo que elas não serão exterminadas?
Que continuarão destruindo vidas?
— Sim. Uma parte da Ciência continuará se dedicando à luta para encontrar cura para as doenças, e para isso as drogas são necessárias.
Outra parte se especializará em tornar as drogas cada vez mais potentes.
— Assim vai ser difícil combatê-las...
— Sim, é difícil, mas é uma batalha que cada um terá que travar.
Para isso temos o nosso livre arbítrio.
O espírito só estará pronto quando conseguir se libertar de todos os vícios.
— Mas não só os espíritos menos evoluídos aceitam o vício.
— Não, na maioria, assim como está acontecendo com Miguel, eles trazem consigo uma missão importante não só para a elevação de seu próprio espírito, mas para a humanidade.
— E se não conseguirem?
Se deixarem dominar pelo vício?
— Será ruim para eles mesmos, ou para outros, como está acontecendo agora com você e Miguel.
Por ele ter se deixado envolver pela droga não está só perdendo uma oportunidade de evoluir nesta encarnação, está fazendo com que tudo o que foi planeado por vocês dois seja adiado.
Mas outros virão para cumprir a missão que eles deixaram de cumprir.
A humanidade não pode parar de evoluir, muitas descobertas terão ainda que ser feitas.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 7:58 pm

Osmar, que ouvia tudo em silêncio, disse:
— Mas existem pessoas que não têm vício algum e, mesmo assim, praticam atrocidades.
Com a calma de sempre, novamente André respondeu:
— O vício não se limita às drogas.
Existem outros, como o ódio, a ganância, a revolta, a inveja, a vingança, o rancor e o poder.
Esses são iguais ou mais nocivos que a própria droga química.
Muitas vezes é mais difícil se livrar de um deles do que da droga.
— Então não podemos fazer nada para impedir?
— Não, tudo depende do livre arbítrio de cada espírito.
Mas, como você mesmo disse, estando ao lado deles e intuindo, um ou outro consegue se libertar e retornar ao seu caminho anteriormente planeado.
Letícia, embora tenha aceitado aquela resposta, disse inquieta:
— Tudo isso que disse tem coerência, mas muitas crianças estão sendo iniciadas nas drogas até com nove ou dez anos.
Como poderão exercer o livre arbítrio?
— Tem razão, muitas estão sendo iniciadas, mas outras tantas não.
Ou, se tentadas, reagem.
Se pensarmos pelo lado espiritual, sabemos que o espírito, apesar de estar em um corpo de criança, é muito velho.
Esse espírito que se deixa usar talvez esteja precisando passar por essa experiência e aprender a resistir.
— E aquelas que vivem em um lar pobre ou destruído, onde não encontram segurança?
— O espírito só passa pelas experiências que precisa.
Lembre-se que cada um é responsável por si.
Eu não posso viver sua experiência, assim como você não pode viver as minhas.
Ficaram em silêncio, apenas pensando e analisando tudo o que ouviram”.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 7:59 pm

DURANTE O SONO
“Inácio entrou na sala dizendo:
— Miguel deu algumas voltas pelo quarteirão e retornou, está agora deitado.
André, sorrindo, disse:
— Em breve ele e os outros estarão dormindo.
Durante o sono, faremos com que nos acompanhem.
Todos reunidos poderemos conversar sobre tudo que está se passando, e talvez possamos encontrar uma forma para ajudar Miguel e a todos.
Concordaram com a cabeça.
Letícia, mais calma, porém ainda um pouco inquieta, perguntou:
— O que pretende fazer?
— Durante o sono, como você sabe, o espírito se liberta do corpo, podendo assim visitar vários lugares.
Vamos fazer com que eles se encontrem.
Osmar perguntou:
— Acredita que ele com isso poderá mudar?
— Não sei, mas sempre será uma oportunidade rica de aprendizado.
Agora, cada um de vocês deve ir à busca dos outros.
Eu e Letícia conduziremos Miguel.
Esperaremos vocês na minha sala.
Osmar concordou, dizendo:
— Está bem, agora mesmo reunirei a equipe e faremos isso.
Até logo.
— Estaremos esperando.
Osmar saiu.
Letícia e André foram para junto de Artur, que andava de um lado para o outro do quarto.
Ele não entendia o que estava lhe acontecendo.
Durante aqueles quase quatro anos vivera bem.
Estava feliz com o trabalho que fazia, tinha dinheiro e toda a droga que precisava.
Embora estivesse sob o efeito da droga, pensava.
"Por que agora estou sentindo isso?
Por que agora estou sentindo essa tristeza?
Por que sinto que falta algo que não sei o que é?"
André, ao vê-lo daquela forma, sorriu enquanto dizia:
— Está vendo, Letícia, como Deus é maravilhoso?
— Não estou entendendo, o que quer dizer?
— Agora, Deus está lhe dando mais uma chance para que retorne ao caminho e cumpra a missão para a qual foi enviado.
— Como assim?
— Ele estava muito bem, gostava da vida que levava, mas seu espírito reagiu, sabe que não é esse o caminho.
Por isso se revolta, causando nele esses sentimentos de desconforto.
— Acredita que ele ainda poderá voltar?
— Estou estranhando essa pergunta.
— Por quê?
— Desde que você tomou conhecimento da situação dele, está dizendo que ele vai voltar que tem uma missão para cumprir, que juntos serão felizes, que quer ajudá-lo em tudo o que for possível.
Por que essa dúvida?
— Desculpe como sempre, tem razão.
Talvez eu esteja inquieta por estar envolvida na questão.
— É isso mesmo o que está acontecendo.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 8:00 pm

Quando estamos envolvidos em algo, temos dificuldades de enxergar e acompanhar.
Fique tranquila, Miguel terá todas as chances.
Letícia sorriu.
Artur estava sob o efeito da droga.
Após andar muito de um lado para o outro, resolveu se deitar, e em poucos minutos estava dormindo.
André disse:
— Precisamos esperar um pouco até que adormeça profundamente.
Em seguida o conduziremos.
Ela não respondeu, apenas fechou os olhos e começou a orar pedindo para que Artur pudesse se lembrar dela e de seus compromissos.
Osmar chegou à casa de Álvaro.
Odete, enquanto cobria Leandro, o beijava e dizia:
— Durma bem, meu filho.
Sonhe com os anjos.
Leandro olhou com ternura para ela:
— Sabe mamãe, estou pensando muito em Artur.
Já se passou tanto tempo, onde estará?
Uma sombra passou pelos olhos de Odete.
Respondeu:
— Não sei meu filho.
Desde aquele dia em que ele saiu de casa, nunca mais o vimos.
A única coisa que me conforta é saber que ele está vivo, pois seus cartões continuam chegando.
Ainda bem que ele tem essa preocupação.
Desde que comecei a frequentar o centro onde sua avó me levou e ler a respeito do assunto, sinto uma esperança enorme de que ele um dia voltará.
— Parece que papai também pensa assim.
— Ele também mudou muito, já não é o mesmo de antes.
Embora tenha sido sempre um homem bom para a família, era um pouco prepotente, sentia-se aquele que sabia de tudo e julgava ter a todos e a tudo sob controle.
Hoje aprendeu que não é bem assim, que nada está sob nosso controle.
— Gostaria muito de encontrar Artur.
Sempre penso nele e em Iracema.
Onde estará ela?
— Sabe que seu pai fez de tudo para encontrá-la, mas foi inútil.
Por tudo que aprendi, sei que um dia a encontraremos.
Precisamos confiar na bondade e justiça de Deus, Ele é quem sabe de tudo.
Agora vamos dormir, amanhã será um novo dia e temos muito para fazer.
Boa noite, meu filho.
— Boa noite, mamãe.
Ela o beijou, apagou a luz e saiu.
Foi para o seu quarto.
Álvaro já havia se despedido do filho e estava recostado na cama lendo um livro.
Assim que Odete entrou, disse:
— Ele já dormiu?
— Está pronto para isso.
— É um bom menino, espero que continue assim.
— Por que está dizendo isso?
— Não sei, mas estou pensando em Artur com muita força.
— Sempre penso nele!
— Sei disso, eu também penso nele todos os dias, mas hoje está intenso, não consigo nem me concentrar na leitura.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 8:00 pm

Seu rosto vem ao meu pensamento a todo instante.
— Leandro me disse a mesma coisa.
Confesso que também passei o dia todo pensando nele.
Meu Deus!
— O que foi?
— Será que ele está em perigo?
Álvaro sentou-se na cama e, com voz preocupada, disse:
— Que está querendo dizer?
Com os olhos marejados, ela respondeu:
— Não sei, mas tenho medo que algo muito grave esteja acontecendo.
Será que ele morreu ou vai morrer?
Álvaro levantou-se rapidamente:
— Não! Não pense assim!
Ele está bem, mandou ainda na semana passada um de seus cartões!
— Sei disso, mas não sei o porquê deste pressentimento.
Enquanto falava, ela se vestia para dormir.
Ele se aproximou, abraçou-a e, sem que ela esperasse, começou a chorar.
Ela se assustou:
— O que é isso?
Por que está chorando?
Ele não respondeu, apenas chorava.
Ela percebeu e em silêncio agradeceu a Deus por aquele desabafo, pois havia muito tempo que ele não chorava daquela maneira.
Por alguns minutos eles ficaram abraçados, ele chorando com soluços profundos, ela apenas abraçando-o.
Finalmente ele se acalmou.
Disse:
— Não sei o que aconteceu...
— Esteve durante este tempo todo se fazendo de forte, mas é um ser humano como todos nós.
— Estou me sentindo muito melhor.
Essas lágrimas me fizeram muito bem.
Por um momento vi meu filho morto, e isso me causou uma dor profunda.
E não consegui me controlar.
— Já vi essa cena muitas vezes.
Já vi meu filho morto das mais diferentes formas, e já chorei muitas vezes, assim como você está fazendo agora.
Mas sempre no final eu dizia:
"Meu Deus... que seja feita a Vossa vontade".
Acho que é isso o que tem que fazer também, verá como se sentirá bem.
Ainda abraçado a ela, ele disse:
— Que seja feita a Vossa vontade...
Odete sorriu.
Ela sabia que o marido estava aceitando a nova doutrina que ela estava seguindo, e tinha certeza de que ele a estava entendendo.
Seu marido, aquele a quem tanto amava, estava se tornando mais humano.
Em seguida deitaram-se.
Adormeceram. Osmar estava ao lado deles.
Ao vê-los dormindo, disse ao seu companheiro:
— Logo estarão prontos.
Efectivamente, logo depois estavam todos na sala de André.
Artur chegou sendo quase carregado por Letícia e André.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 8:00 pm

Sob efeito da droga, não conseguia entender o que estava acontecendo.
André sentou-se na cadeira da cabeceira da mesa.
Letícia sentou-se ao seu lado e, com carinho, fez com que Artur também se sentasse.
Em seguida, acompanhados por Osmar, chegaram Álvaro, Odete e Leandro.
Estavam meio dormindo, meio acordados, por isso também não entendiam o que estava acontecendo.
André sorriu, levou suas mãos na direcção deles e delas saíram pequenos raios de luz branca, que os envolveram.
Aos poucos foram despertando completamente.
Álvaro, ao ver André, disse:
— André! Meu amigo!
Que bom vê-lo novamente!
— Olá, Nestor.
Também estou feliz por revê-lo.
Você está muito bem.
Álvaro ia responder, quando olhou para o lado e viu Artur, que fazia um esforço enorme para ficar com os olhos abertos.
Levantou-se da cadeira em que estava sentado e o abraçou, dizendo:
— Artur, meu filho!
Por onde andou?
Artur abriu os olhos, olhou e sorriu tristemente.
Não respondeu. Odete e Leandro também se levantaram e quiseram abraçá-lo e falar com ele, mas André disse:
— Não adianta querer falar com ele agora, pois ainda não está completamente desperto.
Está ainda sob o efeito da droga.
Mas logo estará bem.
Os três, tristes, voltaram a se sentar.
Olharam para Letícia, que acompanhava a cena com lágrimas nos olhos.
Odete foi a primeira a falar:
— Letícia! Você também está aqui?
Que pergunta boba é essa que estou fazendo, claro que estaria nunca deixaria Miguel sozinho!
André a interrompeu:
— Vejo que já está se lembrando de tudo.
— Sim, estou...
Estamos juntos novamente.
Mas onde está Rui?
— Ele tem uma missão importante para ser executada amanhã.
Não sabe ainda, mas terá também que tomar uma decisão da qual dependem sua vida terrena e seu futuro espiritual.
Mesmo não sabendo dessa decisão, está ansioso, e por isso não está conseguindo dormir.
Por isso, nós também não conseguimos trazê-lo.
Mas a presença dele aqui não é muito importante.
Ele assistiu à última reunião.
Você não se lembra da última reunião que tivemos aqui?
Ela fechou os olhos como se quisesse se lembrar de algo.
Após alguns minutos, disse:
— Lembro... Foi um pouco antes de Nestor renascer.
Logo em seguida eu e os outros iríamos.
— Foi isso mesmo.
E vocês, estão se lembrando?
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 8:01 pm

Álvaro e Leandro fizeram que sim com a cabeça.
André continuou:
— Estamos aqui por que os planos daquele dia estão tomando um rumo diferente.
Miguel está se afastando deles, e precisamos tentar fazer algo para que ele retorne.
Álvaro começou a chorar:
— Sei disso, e o culpado fui eu.
Não soube educá-lo, não soube ser um bom pai.
André continuou:
— Não diga isso.
Você fez o que achou certo.
Ele, ao seu lado, teve toda a segurança para bem cumprir a sua missão.
Foi ele quem falhou novamente.
Mas isso agora não tem importância, precisamos encontrar uma solução.
Ficar lastimando o que foi ou não feito não vai adiantar.
Álvaro baixou a cabeça.
Odete disse:
— E os outros? Também virão?
— Hélio deve estar chegando.
Vamos esperar mais um pouco, enquanto isso faremos uma prece agradecendo por mais esta oportunidade.
Foi o que fizeram.
Estavam terminando a oração quando ouviram uma voz raivosa e irónica que dizia:
— Olá! Os santos estão reunidos?!
Terminaram de fazer a oração, depois André calmamente disse:
— Seja bem-vindo, Hélio.
Estávamos a sua espera...
— Para quê?
Vejo que também o perdedor está aqui!
Estão tentando salvá-lo?
— Vejo que continua inteligente, mas desta vez errou.
Não estamos tentando salvá-lo, mas sim a você...
Hélio começou a rir mais alto:
— Estão tentando me salvar?!
Eu não preciso de salvação, tudo isso é balela!
Só preciso de vingança!
E estou conseguindo!
Estou me vingando de todos!
Onde está Marilu?
— Ela chegará em seguida, mas sente-se...
— Não quero me sentar, vou embora daqui!
Com voz firme, André disse:
— Sinto muito, mas você não pode ir embora, tem que se sentar e ouvir o que temos para dizer.
— Não quero ouvir nada!
Estou feliz por ver esse covarde derrotado da maneira como está!
Letícia chorava e, em oração, pedia ajuda.
André fez um sinal ao rapaz que trouxera Hélio.
Este fez com que ele se sentasse.
Muito nervoso, olhou para todos e disse:
— Estão mesmo todos aqui!
Até você, Mário, que se dizia meu amigo!
Está também do lado deles?
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 8:01 pm

Leandro, com outro corpo e rosto, sorriu tristemente:
— Estou sim, e não era seu amigo.
Ainda sou, mas também de Miguel.
Antes que Hélio dissesse alguma coisa, entraram na sala duas jovens que conduziam Iracema, que ao ver todos reunidos e olhando para Artur, disse:
— Eu tentei! Fiz a minha parte...
André sorriu:
— Olá, Marilu!
Sabemos disso, mas é importante que hoje esteja aqui, pode se sentar...
Ela, olhando nos olhos de cada um, sentou-se.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 8:01 pm

O PASSADO
”Artur já estava completamente bem, olhava para eles e aos poucos os ia reconhecendo.
Olhou para o lado e seus olhos se encontraram com os de Letícia, que chorava.
Por uns instantes ele ficou olhando, quando de repente deu um grito:
— Letícia! É você mesma?
Letícia!
Sem perceber, os dois foram se levantando e em poucos segundos um estava abraçado ao outro, chorando.
Beijavam-se e abraçavam-se, não conseguiam dizer nada.
Apenas queriam ficar daquela maneira, sentindo todo o carinho e o amor que um sentia pelo outro.
Os demais acompanhavam aquela cena e também não disseram uma palavra, eles conheciam a história, sabiam o porquê de tantas lágrimas.
O encontro foi emocionante.
Ficaram assim por muito tempo, até que Hélio, irritado, disse:
— Até quando vai durar essa palhaçada?
Vou embora, não tenho nada para fazer aqui.
— Você não vai para lugar algum.
Estamos aqui para conversar e esclarecer alguns pontos que ficaram obscuros.
— Não preciso esclarecer nada!
Sei tudo o que aconteceu e nada está obscuro para mim!
André apenas olhou com severidade e disse:
— Sente-se.
Hélio sabia que não poderia lutar contra ele.
Embora estivesse aborrecido com o encontro de Letícia e Artur, foi obrigado a sentar-se e ficar calado.
André continuou dizendo:
— Letícia, Miguel, sentem-se.
Eles obedeceram.
— Estamos aqui para tentar fazer com que tudo volte ao seu lugar, para que assim possamos cumprir a missão que um dia planeamos.
Artur olhava ora para um, ora para outro.
Foi reconhecendo um a um.
Eles apareciam a seus olhos como amigos de outros tempos.
Estavam diferentes em seus rostos e roupas, mas ele reconheceu a cada uma.
Disse olhando para André:
— Estou feliz por estar aqui e por tê-los encontrado, mas não sei o que está acontecendo e por que estamos reunidos.
André, com sua calma conhecida, respondeu:
— Sabemos disso, estamos reunidos apenas para relembrar aquele dia em que, pela última vez, nos reunimos todos e discutimos o que foi planeado naquela ocasião.
Todos estavam aqui, menos Hélio.
Artur fechou os olhos tentando se lembrar.
André lhe disse:
— Não tente se lembrar, sua mente está um pouco entorpecida pela droga.
Olhe para aquela tela.
No fundo da sala uma grande tela apareceu.
Artur e os outros olharam para ela.
Viram um enorme prédio, que parecia ser de um hospital ou faculdade.
Dois rapazes caminhavam apressados.
O que parecia ser o mais velho, disse:
— Miguel, estamos atrasados.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 8:01 pm

O professor de Latim vai ficar uma fera.
Miguel soltou uma gargalhada:
— Não se preocupe, ele já está velho, nem vai notar quando entrarmos na sala de aula.
Sabe que ele não enxerga muito bem.
O outro riu, mas mesmo assim apressaram o passo.
Chegaram à sala de aula alguns minutos antes do professor entrar.
Assim que ele entrou, todos os alunos se levantaram.
Ele, com a mão, fez com que se sentassem.
Assim que todos se sentaram, ele iniciou a aula dizendo:
— Sei que alguns dos senhores não gostam da minha aula, mas sei também que pretendem, um dia, tornarem-se advogados, e para isso é necessário que aprendam bem o Português.
Em consequência, precisam aprender o Latim, pois foi dele que muitas palavras surgiram.
A classe permaneceu em silêncio, não se atreviam nem a respirar.
Após a aula, reuniram-se no pátio da escola.
Miguel e Hélio estavam conversando quando se aproximou outro rapaz:
— Olá! Estou entregando este convite para alguns de meus amigos.
Miguel recebeu o convite e, após lê-lo, disse:
— Vai ser a festa da sua irmã?
— Sim, Letícia vai completar quinze anos e meus pais resolveram dar uma festa para ela.
Espero que compareçam.
Miguel olhou para o outro rapaz, que também lia o convite.
Disse:
— Hélio, você vai?
Hélio levantou os olhos do convite, olhou para ele e respondeu:
— Só se você for.
Miguel respondeu com voz triste:
— Sabe que não posso comparecer a uma festa como essa...
Mário, o rapaz que havia entregado os convites, perguntou:
— Por que não pode?
Miguel olhou para Hélio, depois para Mário, e respondeu:
— Os dois sabem que só frequento esta escola por ter ganhado uma bolsa de estudos.
Meu pai não tem posses como os seus.
Sabem que assim que sair daqui preciso ir até o cartório onde trabalho.
Não tenho roupa para me apresentar em uma festa como essa...
Hélio começou a rir:
— Ora, meu amigo!
Isso não é problema, tenho muita.
Temos o mesmo corpo, poderá escolher aquela que mais lhe agradar.
Mário, com entusiasmo, disse:
— Também tenho roupas, isso não será desculpa para não ir a minha casa.
Miguel percebeu que não poderia se recusar.
Ia responder, quando ouviram alguém chamando.
Olharam em direcção à voz e sorriram.
Um rapaz se aproximou ofegante:
— Ainda bem que os encontrei!
Estava na biblioteca lendo um livro, sabem como vou mal em Literatura.
Os outros riram.
Miguel, passando a mão sobre a cabeça do outro, disse em tom de deboche:
— Sabemos que vai mal em Literatura, mas por outro lado, com as mulheres não tem problema algum.
— Tem razão!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 8:02 pm

Agora mesmo, lá na biblioteca, estive olhando para uma.
Estava em uma foto, num livro.
Todos começaram a rir, pois Nestor só falava em mulher o tempo todo.
Mas, na realidade, nunca havia namorado, assim como todos eles.
Eram jovens estudantes, estavam todos praticamente com a mesma idade, em torno dos dezanove anos.
As moças ficavam a maior parte do tempo em suas casas, sob a protecção dos pais e irmãos.
A maioria não estudava, mas algumas tinham seus professores, que lhes davam aula em casa.
Só saíam acompanhadas, e isso dificultava os encontros.
Os rapazes estavam cursando o primeiro ano de faculdade, todos queriam ser advogados e pretendiam, assim que terminassem o curso, montar junto um escritório.
Todos eram filhos de família abastada, menos Miguel, pois seu pai era apenas um funcionário de cartório.
Era ele quem transcrevia as certidões.
Usava para isso letras góticas, das quais muito se orgulhava.
Sua caligrafia era perfeita.
Trabalhando ali, conseguira que Miguel também trabalhasse, e com prazer lhe ensinara sua profissão.
Ele era muito conhecido na cidade.
Através de seus conhecimentos descobriu que a faculdade tinha certo número de bolsistas; fazia isso para não pagar muito imposto ao governo.
Descobriu o dia em que seriam feitos os testes para esses bolsistas.
Miguel, com alegria, participou desse teste e foi aceito.
Assim que começaram as aulas, ele fez amizade com Hélio e em seguida com os outros dois.
Eles sabiam de sua origem, mas não se importavam.
Tornaram-se amigos inseparáveis.
Estudavam e saíam juntos para todo lugar.
Um ajudava o outro nas matérias que tivessem dificuldade.
Estava quase terminando o ano lectivo e todos estavam bem.
Suas notas eram louváveis.
Embora participasse do grupo, Miguel nunca havia frequentado suas casas, não por falta de convites, mas por sentir-se diminuído diante deles.
Sabia que não tinha roupas para isso.
Dessa vez, parecia que não haveria escapatória, teria que ir.
Mário entregou o convite a Nestor, que, ao recebê-lo, começou a rir, enquanto dizia:
— Uma festa?
Claro que irei, assim poderei ver novamente sua irmã.
Ela é linda!
Mário, também sorrindo, disse:
— Qual delas?
— Amélia, é claro, a outra é ainda uma pirralha.
Hélio, com um ar de superioridade e rindo, disse:
— Uma pirralha, mas linda!
Mário, fingindo estar irritado, disse:
— Esperem aí!
Estão falando das minhas irmãs!
Olhem o respeito!
— Não estamos faltando com o respeito.
Quem manda você ter irmãs tão bonitas?
— Sabe Hélio, você tem razão, elas são bonitas mesmo, mas moças de respeito.
— Disso nunca duvidei.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 8:02 pm

Miguel acompanhava a conversa, mas estava tentando encontrar uma desculpa para não comparecer à festa.
Ele não se sentia bem naquele ambiente.
Gostava dos amigos, mas sabia que não pertencia ao mundo deles.
Hélio, percebendo o ar de preocupação do amigo, disse:
— Sabe Nestor, Miguel não está querendo ir à festa.
— Por quê?
— Diz que não tem roupa adequada...
— Que é isso, Miguel!
Sabe que tenho muitas roupas, poderá usar aquela que quiser!
— Eu e Mário dissemos isso a ele, mas parece que ele não está convencido.
Hélio falou furioso:
— Miguel!
Já foi convidado para muitas festas e nunca aceitou, mas desta vez não terá desculpa, terá que ir.
Miguel percebeu que não haveria desculpas mesmo.
Disse:
— Está bem, irei.
Todos riram e voltaram para a sala de aula.
Assim que as aulas terminaram, Miguel se despediu dos amigos e saiu apressado.
Precisava ir para o cartório, só trabalhava à tarde.
Tinha tempo de chegar a casa, trocar de roupa e comer alguma coisa.
Naquele dia fez o mesmo de sempre, mas não conseguia esquecer o convite.
Estava realmente preocupado.
Assim que chegou ao cartório, foi como sempre para a sala onde seu pai trabalhava.
Ao entrar, viu o pai cercado por papéis e escrevendo.
Ao vê-lo entrar, o pai disse:
— Ainda bem que chegou, tem muito para fazer, precisa carimbar estes papéis.
Miguel não respondeu, pegou os papéis e ia saindo quando o pai disse:
— Miguel, espere.
Ele parou e se voltou:
— Pois não.
— Está acontecendo alguma coisa?
Está com problemas na faculdade?
— Não, papai, está tudo bem, o senhor sabe que não tenho problemas quanto ao meu estudo.
— Então por que está com essa cara?
— Que cara?
— De preocupação.
Está preocupado com o quê?
— Como sabe que estou preocupado?
— Eu o conheço há quase vinte anos.
Sempre que chega aqui entra contando como foi à aula.
Sempre tem algo para falar sobre seus amigos, mas, hoje, entrou calado, sem dizer uma palavra...
Miguel sorriu:
— O senhor presta atenção em tudo mesmo.
— Se não prestasse atenção em tudo, não poderia exercer a minha profissão.
O que está acontecendo?
— Realmente estou com um problema.
Um dos meus amigos me convidou para a festa de aniversário de sua irmã.
— Isso é muito bom, não vejo onde está o problema.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 8:02 pm

— O problema é que não posso ir.
— Não pode ir por quê?
— Não tenho roupa adequada.
Precisaria de um fraque, camisa de seda e uma cartola.
Isso é muito caro, sabe que não temos dinheiro.
— Mas seus amigos conhecem sua situação financeira, e se o convidaram é porque não se importam com isso.
— Sei disso, até me ofereceram as roupas deles, mas eu não me sinto bem.
— Sabe meu filho, você precisa aprender que não é o hábito que faz o monge.
Eles gostam de você assim como é.
São seus amigos...
Miguel ficou pensativo.
O pai continuou:
— Sou um homem feliz, tenho a melhor família do mundo.
Você e seus irmãos me trazem toda a felicidade do mundo.
Só fico triste por não poder dar um conforto melhor para todos.
Miguel percebeu que o pai estava realmente triste.
Disse:
— O senhor é o melhor pai do mundo.
E acredito que tenha razão, vou aceitar a roupa e irei a essa festa.
— Estive pensando.
Sabe que conheço muitas pessoas.
Vou falar com o Augusto da loja de tecidos e com o Matias.
Ele é alfaiate.
Depois falarei com o Aguinaldo da chapelaria.
Você terá a sua roupa e pagarei aos poucos.
Miguel admirou-se:
— Não, papai!
O senhor não pode fazer isso!
Sabe muito bem que todo o dinheiro que ganhamos, eu e o senhor, dá apenas para mantermos a nossa casa!
— Não se preocupe com isso, sei o que estou dizendo.
Você irá a essa festa com a sua própria roupa, assim não se sentirá diminuído perante seus amigos.
Terá muito tempo para aprender o verdadeiro sentido da palavra amizade.
Agora vá cuidar do seu trabalho.
Miguel saiu da sala.
No íntimo estava feliz por ter sua própria roupa para a festa e cada vez mais gostava de seu pai.
Ele sempre fora dedicado à família, ficara feliz por seu filho estar frequentando uma faculdade tradicional e estava orgulhoso do filho que tinha.
Os dias foram se passando.
Miguel estava feliz, seu pai cumprira o que dissera, falara com as pessoas e, em poucos dias, ele já estava com o seu fraque, camisa de seda e sua bela cartola.
Poderia comparecer à festa sem se sentir humilhado.
Os amigos também ficaram felizes, principalmente Hélio, que julgava ser o melhor amigo de todos.
O dia da festa chegou.
Como havia combinado, Hélio passaria pela casa de Miguel e o levaria em seu coche.
Na hora marcada estava lá.
Sob os olhos orgulhosos de sua família, Miguel subiu no coche e foi para a festa tão esperada.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 8:02 pm

Ele nunca fora à casa de Mário, por isso ficou maravilhado com o tamanho.
Calculou que deveria ter muitos quartos, diferente da sua, que só tinha dois.
Foram recebidos por um negro, que guardou suas capas e indicou o caminho que teriam que seguir.
Ao entrar na sala, Miguel teve que respirar fundo, nunca havia visto uma sala como aquela.
Só conseguiu ver um lustre enorme que pendia do tecto.
Ele tinha muitas velas, que iluminavam a sala toda, além de outras penduradas nas paredes.
Tudo eram luxo e riqueza.
Estava admirando quando ouviu a voz de Mário.
— Miguel! Ainda bem que veio!
Pensei que desistiria na última hora!
— Confesso que quase fiz isso, mas acredito que me arrependeria, isto aqui é muito bonito.
— Está mais bonito porque todos os meus amigos estão aqui.
Venha, vou lhe apresentar meus pais.
Estava indo em direcção aos pais de Mário, que recebiam os convidados, quando, ofegante, Nestor chegou.
— Pensei que chegaria atrasado, sabe como é, fiquei conversando com uma moça.
Os três riram.
Sabiam que ele estava mais uma vez contando lorota.
Mário os conduziu até seus pais, que os receberam com alegria e um sorriso nos lábios.
Assim que Miguel foi apresentado, os quatro se dirigiram a um canto do salão e ficaram conversando.
Uma moça aproximou-se.
Ao vê-la, Mário disse para Miguel:
— Essa que está se aproximando é minha irmã Amélia.
Miguel olhou para ela e ficou abismado com tanta beleza.
Com cabelos castanho-claros presos na nuca, olhos cor-de-mel, trajando um vestido azul, realmente era linda.
Nestor, ao vê-la se aproximando, disse:
— Eis aí a mulher da minha vida.
Mário, fingindo estar bravo, disse:
— Cuidado, Nestor!
Ela é minha irmã!
— Sei disso, estou dizendo a verdade, não é linda mesmo?
— Nem tanto, é apenas bonita.
— Você diz isso porque é sua irmã, mas eu vou me casar com ela.
Não houve tempo para que Mário respondesse.
Amélia se aproximou.
Mário a recebeu.
— Amélia, estes são meus amigos:
Nestor e Hélio, que você já conhece, e este é Miguel.
É a primeira vez que ele vem aqui.
Ela, sorrindo, estendeu a mão aos três, que delicadamente a beijaram.
Miguel ficou encantado com a beleza da moça.
Conversaram amenidades por um tempo, depois ela se afastou, sob os olhares embevecidos de Nestor.
Os três olhavam-se entre si, rindo dele, que com os olhos a acompanhava até desaparecer no meio dos convidados.
Assim que ela desapareceu, ele disse:
— Realmente, essa será a mulher da minha vida.
Os três riram e saíram andando.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:16 pm

Uma música suave era tocada por um violonista.
Miguel caminhava entre as pessoas, cada vez mais se admirava com o que via.
De repente a música parou e o pai de Mário disse:
— Peço a atenção de todos a aniversariante vai descer por aquela escada.
Todos se voltaram para o alto e para a escadaria, que era forrada com um tapete vermelho.
Em poucos instantes, uma moça começou a descer por ela.
Miguel ficou estático, seu coração começou a disparar.
Ele nunca em sua vida havia visto beleza igual àquela.
Loura, com os cabelos cacheados, e sobre eles um pequeno casquete de flores azuis no mesmo tom de seu vestido — um pouco mais claro que o de Amélia -, que combinavam com seus olhos, que também eram azuis.
Ela foi descendo suavemente e sorrindo.
Atrás dela, outras moças também desceram.
Tinham os vestidos iguais ao de Amélia.
Ao pé da escada, o pai dela, orgulhoso, recebeu a filha.
Atrás dele, rapazes, entre eles Mário, Hélio e Nestor, seguravam em suas mãos pequenas velas acesas.
Receberam as outras moças e as conduziram ao centro da sala.
Todos fizeram uma roda em volta de Letícia, que foi apagando todas as velas.
Uma valsa se fez ouvir e todos saíram dançando animados.
Miguel estava extasiado com tudo o que via, muito mais com a beleza de Letícia.
A valsa terminou.
Ele que havia poucos instantes, junto com os outros, brincara por causa da maneira como Nestor olhava para Amélia, estava da mesma maneira.
Não conseguia desviar os olhos de Letícia.
Seu coração parecia que ia explodir.
Alguns minutos após a valsa ter terminado, Mário, acompanhado por Letícia, aproximou-se dele, dizendo:
— Miguel, esta é a aniversariante.
Não está linda?
Miguel, a princípio, não conseguiu responder, a emoção que sentia fez com que ficasse calado.
Em seguida, sem tirar os olhos dos dela, respondeu:
— Ela é linda, sim.
Muito prazer, senhorita.
Ela apenas sorriu e lhe estendeu a mão.
Ele fechou os olhos antes de beijá-la.
Em seguida, sorrindo, ela se afastou.
Miguel, assim como Nestor havia feito, seguira-a, até que desapareceu no meio dos convidados.
Mário seguiu atrás dela e não notou como Miguel havia ficado.
Estava assim pensando, quando foi interrompido por uma voz.
— Você conheceu Letícia?
Era Hélio quem perguntava.
Miguel só conseguiu dizer:
— Sim, ela é muito bonita.
— Também acho.
Sabe que nossos pais estão conversando a respeito do nosso casamento?
Sabe como é, unir os nomes e as fortunas das famílias.
Confesso que essa ideia me agrada.
Miguel respirou fundo.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:17 pm

Aquelas palavras o trouxeram de volta à realidade.
Apenas disse:
— Você é um homem de sorte, ela realmente é linda.
— Não contei a nenhum dos nossos amigos, sei que se contar serei alvo de brincadeiras, assim como Nestor.
Mas vou confiar em você.
Estou perdidamente apaixonado por ela e farei qualquer coisa para tê-la como esposa.
Novamente Miguel demorou a responder.
Finalmente disse:
— Formam um belo par, acredito que serão felizes.
— Também acho.
Estavam ali quando uma moça, acompanhada de um rapaz, se aproximou.
Enquanto estendia a mão para Hélio, dizia:
— Olá, Hélio! Como está?
— Olá, Marilu!
Estou muito bem, e você?
— Estou adorando a festa, está tudo perfeito!
Quem é o seu amigo?
— Desculpe, este é Miguel, nosso colega de faculdade e também um amigo muito querido.
Miguel, sorrindo, beijou a mão que ela estendia e disse:
— Muito prazer, senhorita.
— Hélio já conhece, mas o senhor ainda não.
Este é o meu irmão Rui.
Miguel cumprimentou Rui, e ficaram conversando por alguns minutos.
Depois que se afastou, Hélio disse:
— Eles são primos de Mário.
Seus pais possuem uma grande fortuna, moram aqui na cidade.
Ele estuda Medicina e ela não sei o que faz, mas, como as outras, deve bordar e tocar piano.
São agradáveis, embora os achem um pouco pedantes.
Principalmente Marilu.
— Não notei isso.
— Porque falou com ela por pouco tempo.
Terá oportunidade de vê-la outras vezes, e assim notará.
Os pares rodopiavam no centro da sala.
Nestor e Amélia ficaram o tempo todo dançando.
Miguel sorriu ao vê-los.
Percebeu que entre eles começava a acontecer algo.
Estava assim observando quando viu Letícia, que caminhava em sua direcção.
Mais uma vez seu coração começou a bater descompassado.
Sentiu até certa dificuldade para respirar.
Ela se aproximou e, sorrindo, disse:
— Me desculpe não ter lhe dado muita atenção no início da festa, mas é que estava um pouco nervosa e tendo que cumprimentar muitas pessoas.
O senhor é amigo do meu irmão, não é?
Ele, um pouco nervoso, respondeu:
— Sim, estudamos juntos, meu nome é Miguel.
— O meu como já deve saber, é Letícia.
O senhor não dança?
— Confesso que não sei dançar...
— Não se preocupe, eu o ensinarei.
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Ave sem Ninho

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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:17 pm

— Não sei se será razoável...
— Claro que será. Venha!
Sem que ele pudesse fazer um gesto, ela o levou até o centro da sala e começaram a dançar.
Para espanto deles, ele logo aprendeu os passos da valsa, e em poucos minutos rodopiavam ao som da música.
Dançaram muitas vezes seguidas, o que chamou a atenção de Hélio e Marilu.
Ela se aproximou de Hélio, dizendo com sarcasmo:
— Parece que seu amigo encantou minha prima.
— Estão apenas dançando.
— Da maneira como estão fazendo, nem parece que só estão dançando...
— Que maneira?
— Não percebeu que de quando em vez os olhos se cruzam?
— Não percebi nada.
Além do mais, nossos pais já estão providenciando nosso casamento.
— Não sei não...
Assim dizendo, e com um sorriso no canto da boca, ela se afastou, deixando Hélio preocupado e prestando mais atenção em Miguel e Letícia, que continuavam dançando.
Olhou para os outros pares que dançavam, olhou para Letícia e Miguel e percebeu que Marilu estava com a razão.
A atitude deles era realmente estranha.
De tempos em tempos se olhavam com um olhar apaixonado.
Preocupado, pensou:
"Será que Marilu está certa?
Estarão mesmo interessados um no outro?
Letícia, hoje, como sempre, me tratou bem, mas não lembro de ter me dado um sorriso como esse que está dando a Miguel.
Dançou algumas vezes comigo, mas já faz um bom tempo que só dança com ele."
Realmente Marilu tinha razão.
Entre Miguel e Letícia algo estava surgindo.
Ambos sentiam-se as pessoas mais felizes do mundo.
Miguel, embora a segurasse com suavidade, apertava sua cintura e sua mão com carinho.
Ela correspondia, apertando a mão dele.
Em dado momento, ela disse:
— Nas férias de fim de ano eu e minha família iremos para o Rio de Janeiro, temos uma casa na montanha.
Você não gostaria de passar alguns dias lá?
Aquela pergunta fez com que ele voltasse à realidade.
Como poderia passar dias sem trabalhar no cartório?
Com que roupa se apresentaria todos os dias diante de seus anfitriões?
Sem saber o que responder, apenas disse:
— Vou pensar, e lhe darei uma resposta.
A música parou.
Os músicos precisavam descansar por alguns minutos.
Amélia se aproximou.
— Letícia, venha comigo, precisamos conversar.
A contragosto, ela a acompanhou.
Foram para o quarto de Amélia, onde Marilu as esperava.
Assim que entraram, Marilu disse curiosa:
— Então, Letícia!
Está gostando do amigo de Mário?
Letícia pensou um pouco, e em seguida respondeu:
— Ele é agradável e um belo rapaz, confesso que estou interessada.
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Ave sem Ninho

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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:17 pm

Amélia a interrompeu:
— Você não pode fazer isso!
Sabe que papai está conversando com os pais de Hélio a respeito do seu casamento.
Sabe também como ele é intransigente quando decide algo, ainda mais se envolve dinheiro.
— Não posso me casar com Hélio.
Gosto dele como amigo, e não quero passar o resto da minha vida a seu lado.
— Espero que mude de ideia.
Papai não vai aceitar uma desobediência, sabe disso!
— Não sei o que farei, mas com Hélio não me casarei.
Marilu disse com olhar maroto:
— Ainda bem, pois eu estou apaixonada por ele, e me casarei com muito prazer.
Letícia riu, levantou-se e dirigiu-se novamente para a sala.
As duas a seguiram.
Na sala, procurou por Miguel, mas não o encontrou.
Chamou Mário e perguntou:
— Onde está Miguel?
— Ele se despediu faz alguns minutos e saiu com Hélio.
Por que pergunta?
— Por nada, só para saber.
Afastou-se, e Mário a seguiu com os olhos.
Estava preocupado com a atitude dela.
Não queria nem imaginar se o que estava pensando fosse verdade.
Como todos em sua família, sabia que Letícia já estava prometida para Hélio.
Assim que os músicos pararam para descansar e Letícia acompanhara a irmã, Hélio se aproximou de Miguel, dizendo:
— Parece que está gostando da festa.
— Estou sim, e muito, mas acredito que já está na hora de eu ir embora.
— Por quê? O que aconteceu?
— Nada, só estou cansado...
Um garçom passou por eles carregando uma bandeja com champanhe.
Hélio, pegando uma taça de champanhe, ofereceu-a a Miguel.
Percebendo que ele estava nervoso, disse:
— Aconteceu alguma coisa que o aborreceu?
Tomando o champanhe, Miguel respondeu:
— Não aconteceu nada, mas este não é o meu mundo.
Preciso ir embora e retornar àquilo que sempre fui um pobre.
Hélio percebeu a amargura que o amigo sentia.
Disse:
— Não sei qual é o motivo dessa revolta, mas acredito que não deve sentir isso, somos todos seus amigos e gostamos de você da forma que é.
Nunca nos preocupamos com sua classe social.
— Sei disso, e agradeço a todos, mas quero ir embora.
Vou alugar um coche.
— De maneira alguma, eu o trouxe e vou levá-lo de volta.
Antes que Miguel dissesse algo, Hélio segurou em seu braço e o conduziu para fora.
Já no coche, disse:
— Você dançou muito com Letícia, o que acha dela?
— Uma linda moça, e agradável também.
— Ela disse algo que o magoou?
— Por que faz essa pergunta?
— Porque vocês pareciam tão felizes dançando.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:17 pm

De repente você quis ir embora!
— Não, ela é adorável, só fiquei cansado, nada, além disso.
— Ainda bem que gostou dela.
Sabe que pretendemos nos casar, e ficarei feliz se você comparecer ao casamento.
Com a voz embargada, Miguel disse:
— Irei... Claro que irei...
O coche parou em frente à casa de Miguel.
Rapidamente ele desceu, dizendo:
— Obrigado por tudo, foi uma linda noite.
Hélio apenas sorriu e ordenou ao cocheiro que seguisse.
Miguel entrou em casa.
Não era ainda meia-noite.
Seu pai estava sentado na sala lendo um livro.
Assim que viu o filho entrando, perguntou:
— Como foi à festa?
Divertiu-se?
Miguel, sentando-se a seu lado, respondeu:
— A festa foi maravilhosa, nunca imaginei que pudesse existir um lugar como aquele!
— Por que diz isso?
— A casa é luxuosa, e as pessoas que estavam lá ricas e muito bem-vestidas.
— Você também está bem-vestido!
Miguel começou a rir:
— Sei disso!
O senhor me proporcionou esta roupa, não fiquei devendo nada a ninguém.
Mas como o senhor mesmo disse a roupa não faz o monge.
— Por que está dizendo isso?
— Embora eu estivesse vestido como eles, não pertenço àquele mundo.
Nunca poderei pertencer.
— Encontrou alguma moça que o agradou?
Ele olhou assustado para o pai.
Perguntou:
— De onde tirou essa ideia?
— Até agora nunca se importou com quem era sempre estudou para ser um bom advogado e, assim, conseguir uma vida mais confortável.
De repente vem com essa conversa de diferença social...
Deve ter encontrado uma moça de nível social diferente.
— O senhor talvez tenha razão.
Meus amigos pertencem a uma classe social diferente, mas nunca fizeram qualquer coisa para que eu me lembrasse disso, a não ser agora com essa festa.
Conheci uma moça, sim, ela é linda, mas pertence a uma das famílias mais ricas desta cidade.
Nunca poderei almejar o seu amor.
— Por que não?
Para o verdadeiro amor não existe diferença alguma.
As pessoas se amam, simplesmente.
— Não é tão fácil assim.
Existem entre eles certos códigos e acertos.
Os pais dela e de Hélio, que também pertence a uma família rica, estão agora tratando da possibilidade de casamento dos dois, para que as fortunas das famílias se unam.
Como vê, não é tão fácil assim.
— Os jovens se amam?
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