É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:18 pm

— Ela eu não sei, mas Hélio com certeza a ama, e muito.
— Para que um casamento seja perfeito é necessário que haja amor entre as duas partes.
— Também pensava assim, mas diante do que está acontecendo com eles, acredito que amor seja o que menos importa.
Mesmo que não houvesse esse acordo entre seus pais e que a minha condição social não existisse, nunca poderia haver nada entre nós.
— Por quê?
— Hélio é o meu melhor amigo.
Eu jamais faria algo que o desagradasse.
— E deixaria de lado sua própria felicidade?
Miguel ficou olhando para o infinito enquanto respondia.
— Sim. Não voltarei mais àquela casa, nunca mais a verei.
Não é o meu mundo.
— Você é quem sabe, mas volto a lhe dizer que a pessoa não deve ser medida pelo que tem, mas sim pelo que é.
— Pode ser em teoria, mas na prática é diferente.
Ontem foi assim, hoje é, e amanhã com certeza será também.
Existem dois mundos: o dos ricos e o dos pobres.
— Você está muito deprimido.
Nunca pensei que uma festa poderia deixá-lo dessa maneira!
Esforcei-me tanto para que participasse dela...
— Não diga isso! Estou feliz por ter ido.
O senhor foi maravilhoso, sei que se esforçou muito.
Foi bom, porque tive certeza de que aquele é um outro mundo.
Sei que jamais pertencerei a ele.
Mas isso não me preocupa, sou feliz por ter um pai como o senhor.
Agora vamos dormir?
Amanhã é domingo, mas mesmo assim quero levantar cedo, preciso estudar.
Como trabalho durante a semana, não me sobra muito tempo.
— Sei disso, mas o que ganho não é o suficiente para o nosso sustento...
— Não estou reclamando, só preciso estudar.
— Está bem, vá dormir.
Estou terminando de ler este livro, irei em seguida.
Miguel foi para o seu quarto.
Vestiu o pijama, deitou-se e tentou dormir.
Tentou, mas não conseguiu.
O rosto e o sorriso de Letícia não saíam de sua mente.
Virou de um lado para o outro até que resolveu se levantar e ir à sala pegar uma bebida.
Não estava acostumado a beber, mas naquele momento pensou que seria uma solução.
Dentro de um móvel havia algumas garrafas de vinho e copos.
As garrafas estavam ali só como enfeite, pois nem ele nem seu pai bebiam.
Pegou uma garrafa, tirou a rolha, colocou em um dos copos e aos poucos foi bebendo.
A imagem de Letícia ficava cada vez mais forte, e ele bebia mais.
Sem perceber, bebeu a garrafa toda.
Cambaleando, foi para o seu quarto, e dessa vez adormeceu.
Hélio, assim que deixou Miguel em casa, ordenou ao cocheiro que o levasse de volta à festa.
Assim que entrou, viu Letícia, que desfilava entre os convidados.
Mas percebeu que ela já não estava tão feliz como no início da festa.
Dirigiu-se até ela e tocou em seu braço, enquanto dizia:
— Letícia, poderia me conceder esta dança?
Ela, sorrindo, abriu os braços, e começaram a dançar.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:18 pm

Durante a dança ela perguntou:
— Onde você estava?
Procurei-o e não o encontrei.
— Sentiu minha falta?
— Sim, sua e de Miguel também.
— Saí exactamente com ele, quis ir para casa e eu o acompanhei.
— Por que ele quis ir embora?
— Não sei, pensei que você soubesse.
— Por que diz isso?
— Dançaram muitas vezes seguidas, acreditei que houvesse acontecido algo desagradável entre vocês.
Ela fez uma expressão de espanto.
— Não aconteceu nada!
Eu não notei nada de errado.
— Sobre o que conversaram?
— Sobre muitas coisas. Ele é muito agradável.
Convidei-o para que nas férias fosse connosco para o Rio de Janeiro.
Disse que todos iriam, até você.
Hélio entendeu o que havia acontecido.
Novamente a insegurança de Miguel.
Ele conhecia sua origem, sabia o que sentia em relação a sua condição social.
Entendeu, mas não disse nada a esse respeito, apenas comentou:
— Ele é um pouco estranho, mas é meu amigo.
Parece que você se interessou por ele.
— Sim, é falante e educado.
É uma pena ele ter se comportado dessa maneira.
Mas não faltará ocasião para nos encontrarmos novamente.
Quero conhecê-lo melhor.
— Por quê? Acredito que não seja correto.
— O que há de mal nisso?
— Sabe muito bem que nossos pais estão conversando a respeito do nosso casamento.
— Sei disso, mas não quero me casar com você.
Quero-o para sempre como um amigo, mas não como esposo.
Sonho encontrar o meu verdadeiro amor e com ele passar o resto da minha vida.
E decididamente não é você.
Quero, sim, sua amizade e poder contar com ela também para o resto da minha vida.
— Quando nos casarmos, farei tudo para que comece a me amar.
Eu a amo por nós dois. Não acredita nisso?
Letícia ia responder, mas a música parou.
Amélia aproximou-se, dizendo:
— Letícia, está na hora de cortar o bolo, venha!
Letícia em pensamento agradeceu a sua irmã por ter interrompido aquela conversa, que estava se tornando desagradável.
Sorrindo, disse:
— Vamos sim, estou com muita vontade de comer bolo.
Olhou para Hélio, dizendo:
— Venha! Este é o momento mais esperado de qualquer aniversário!
Foram para o lado da mesa.
O bolo foi cortado em meio a muita alegria.
Depois disso, os convidados foram se despedindo.
Marilu também fez o mesmo.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:18 pm

Quando chegou perto de Hélio, disse:
— Não se esqueça, quero que me visite.
Ele, sem muito entusiasmo, disse:
— Irei sim, irei.
Ela percebeu que ele não iria, mas pensou.
"Você ainda será meu."
Todos os convidados se retiraram.
Letícia, cansada, despediu-se dos pais e foi para o seu quarto.
Deitada em sua cama, pensava em Miguel:
"Ele é tão bonito... por que me senti tão feliz em seus braços?
Como eu queria que a música não terminasse para poder ficar ali com ele me enlaçando.
Preciso encontrar uma maneira para que ele volte aqui em casa."
Assim pensando, adormeceu.
Marilu, acompanhada dos pais e do irmão, também chegou a casa e em seu quarto pensava na festa e em tudo o que havia acontecido naquela noite:
"Hélio quase nem me olhou!
Só tem olhos para Letícia.
Sei que seus pais estão planeando o casamento, mas não permitirei.
Ele será meu marido! Só meu!"
Hélio também chegou a casa e estava em seu quarto pensando:
"Sei que ela não me ama, mas isso não importa.
Nossos pais decidirão nosso futuro.
Quando ela for minha esposa, farei com que me ame, sei que seremos felizes...”.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:18 pm

INSEGURANÇA
“Na manhã seguinte, ao acordar, Miguel não sabia a hora, mas sentiu que já era tarde.
Pegou o relógio de bolso que estava em seu criado-mudo e se assustou, pois já passava das dez horas.
Levantou-se, mas foi obrigado a deitar-se novamente, pois sua cabeça doía terrivelmente.
Logo entendeu que aquilo estava acontecendo por ter bebido muito na noite anterior.
Após alguns minutos, e com muito esforço, conseguiu se levantar.
Saiu do quarto e foi em direcção à sala.
Seu pai estava sentado em uma cadeira.
Estava com o cotovelo sobre uma mesa e nas mãos segurava um livro, que parecia ler.
Parecia, mas na realidade não conseguia, pois assim que se levantara, vira sobre a mesa uma garrafa de vinho vazia e um copo.
Percebera quando Miguel se levantara durante a noite.
Não quisera ir até a sala e perguntar por que ele não estava dormindo.
Após a conversa que tiveram, sabia que ele estava com problemas.
Esperaria o momento certo para perguntar, ou que ele próprio resolvesse lhe contar o que realmente acontecera na festa.
Assim que viu o filho entrar, disse:
— Bom dia, meu filho.
Não dormiu bem?
— Bom dia papai, não dormi mesmo, mas como sabe?
— Estava ainda acordado quando você se levantou, e hoje pela manhã encontrei esta garrafa e este copo.
Por que bebeu tanto?
Um pouco envergonhado, Miguel respondeu:
— Desculpe papai, mas não conseguia dormir.
Levantei-me e comecei a beber, não percebi o quanto até ver a garrafa vazia.
— Isso é muito mal...
— Por que diz isso?
— Se bebeu sem perceber, é preciso ficar longe da bebida, ela é muito perigosa...
— Que é isso, papai?
Está pensando que vou me tornar um alcoólatra?
— Se não percebeu o quanto estava bebendo, é um sério candidato ao alcoolismo...
— Nem pense nisso!
Estava preocupado, não conseguia dormir!
Foi só isso que aconteceu!
Além do mais, hoje é domingo, e eu não precisava levantar cedo nem ir para a faculdade!
— Quero acreditar que seja só isso mesmo.
Deve aceitar que eu esteja preocupado, nunca antes o vi bebendo.
— E não verá nunca mais, pode ficar tranquilo.
— Espero que tenha sido a primeira e última vez.
Não gostaria de ter um filho viciado!
Agora vou até o mercado comprar frutas e verduras e um frango para o almoço.
O café está pronto.
— Está bem, papai, vou tomar café e depois preciso estudar.
Sem dizer nada, o pai saiu.
Miguel percebeu a revolta, o sofrimento e a decepção que ele estava sentindo.
Sabia que seu pai não merecia, e naquele momento jurou que aquela cena nunca mais aconteceria.
Foi para a cozinha.
Sua cabeça continuava doendo, mas não quis comentar com seu pai, pois sabia que ele ficaria preocupado, e isso ele não queria.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:19 pm

Sabia o quanto o pai o amava e o quanto esperava dele.
Tomou café e voltou a seu quarto.
Pegou um livro de Latim e começou a ler.
Começou, mas não conseguiu prosseguir.
A imagem de Letícia surgiu em seu pensamento.
Seu rosto, cabelos, olhos e principalmente seu sorriso.
Tentou afastar o pensamento, mas não conseguiu.
Levantou-se e saiu para a rua.
O dia estava lindo, não havia nuvens escuras e o sol brilhava com intensidade.
Olhou para os dois lados da rua, seguiu à esquerda.
Caminhou alguns quarteirões.
Enquanto caminhava, ia se lembrando da festa, e da casa de Letícia.
"A casa é imensa, já na sala pode-se ver o tamanho da fortuna de seus pais.
Não consigo esquecê-la, mas isso não pode continuar.
Ela é filha de uma das mais importantes famílias desta cidade!
Eu sou apenas o filho de um escrivão de cartório!
Ela está muito distante.
Além de ser muito rica, é a prometida de Hélio.
Que vou fazer?
Preciso esquecê-la."
Tentou se interessar pela paisagem, mas não adiantou.
Parou em frente a um bar onde costumava tomar lanche junto com seus amigos.
Por isso o garçom o conhecia.
Assim que entrou, ele o recebeu com um sorriso:
— Olá, Miguel, o que está fazendo aqui?
Hoje é domingo!
— Olá, Jeremias!
Acordei e fiquei com vontade de andar.
Quando me dei conta, estava aqui.
Estou precisando espairecer.
Dê-me um copo de vinho.
O garçom admirou-se:
— Vinho?! Nunca o vi beber!
— Mas hoje estou precisando esquecer.
Sei que só o vinho poderá me ajudar...
— Tem certeza disso?
Miguel disse, irritado:
— Você vai ou não me vender o vinho?
Sem responder, o garçom encheu o copo.
Miguel bebeu quase de uma vez.
Assim que terminou, bebeu outro e mais outro.
Quando percebeu que não estava bem, disse ao garçom:
— Jeremias, agora vou embora.
Meu pai está me esperando para o almoço.
O garçom apenas acenou com a mão.
Cambaleando, Miguel foi para casa.
Assim que entrou, seu pai percebeu que ele estava bêbado.
Não conseguia acreditar nem entender o que estava acontecendo com seu filho.
Miguel quase caiu, e foi apoiado por seu pai, que disse:
— Venha, meu filho, vamos para o seu quarto.
O que está acontecendo?
— Ela é linda, papai! Linda!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:19 pm

— Agora você vai dormir.
Quando acordar, conversaremos.
Venha.
Ajudou Miguel a se deitar.
Bastante preocupado, ficou olhando e pensando:
"Meu Deus... o que está acontecendo com meu filho?
O que posso fazer para ajudá-lo?
Foi sempre um bom filho e responsável, nunca me deu trabalho algum?
Que posso fazer?"
Deixou Miguel dormindo e voltou para a sala.
Seu coração estava apertado.
Miguel era seu filho único.
Sempre fora um bom menino, carinhoso, estudioso, e sempre dizia que um dia seria um advogado e teria muito dinheiro.
Muitas vezes ele havia dito ao filho:
"— Meu filho, o dinheiro é importante, mas não deve ser o principal motivo que deve levá-lo a ser um advogado.
Essa profissão é uma das maiores conquistas da humanidade, e com ela poderá ajudar a muitas pessoas.
Você terá em suas mãos a defesa de inocentes."
Quando ele dizia isso, Miguel ria e respondia:
"— De criminosos também!"
O pai respondia:
"— Sim, mas eles também merecem defesa."
"— Papai, às vezes penso que o senhor não é deste mundo!
Fica sempre procurando algo de bom em todas as pessoas."
"— Porque todas as pessoas têm sempre algo de bom.
A vida pode levá-las a fazer maldade, mas no íntimo sempre existe o bem."
"— O senhor pode continuar pensando assim, mas eu só vou atender a quem possa me pagar.
Para isso estou estudando."
Ele estava ali pensando em tudo o que havia conversado com o filho, mas naquele momento, aquele filho que sempre fora seguro e sabia o que queria da vida estava embriagado e perdendo suas referências.
Seus olhos ficaram marejados, uma lágrima quis se formar, mas ele logo a afastou, pensando:
"Assim que ele acordar conversaremos.
Precisa me contar o que está realmente acontecendo.
Quem será essa moça?
Letícia também naquela manhã acordou, mas diferente de Miguel, estava feliz pela festa que tivera e, principalmente, por tê-lo conhecido.
Estava abrindo os olhos quando Amélia entrou dizendo:
— Bom dia, minha irmã!
Como está esta manhã?
Letícia, com os olhos brilhantes, sentou-se na cama.
Pegou um travesseiro, colocou sobre os joelhos e seus cotovelos sobre ele.
Respondeu:
— Estou muito feliz, a festa foi linda!
— Foi mesmo!
Você estava linda!
— Também achei.
E você, como está?
— Feliz muito feliz!
— Por causa de Nestor?
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:19 pm

Amélia corou ao responder:
— Você notou algo?
Letícia riu:
— Claro que sim!
Todos perceberam vocês ficaram o tempo todo juntos, dançaram quase a noite toda.
E o brilho dos olhos?
Mesmo que quisessem esconder, ele não deixaria.
Pareciam quatro faróis.
— Você também dançou muito com aquele rapaz amigo de Mário!
Dessa vez foram os olhos de Letícia que brilharam ao dizer.
— Foi mesmo! Ele não é lindo?
— Para ser sincera, não notei.
Mas a que família ele pertence?
— Não sei! Não perguntei, mas se estuda na faculdade do largo São Francisco deve pertencer a uma família ilustre.
— Deve mesmo.
Mesmo assim, você sabe que não pode ficar tão empolgada.
— Por que não?
— Papai já deixou claro que você vai se casar com Hélio.
Uma sombra passou pelos olhos de Letícia.
— Não vou me casar com ele! Não o amo...
— Sabe que para nós, mulheres, isso de amor não importa.
Não somos donas de nossas vidas.
Pertencemos a nossos pais.
Eles decidem o nosso destino.
Letícia disse irritada:
— Isso não está certo!
Não posso viver o resto da minha vida com alguém a quem não amo!
— Sinto muito, irmãzinha, mas tem que ser assim.
Agora se levante Marilu chegará em breve.
Vai passar o dia connosco.
— Ela é alegre e uma amiga sincera.
— È sim, gosto muito dela.
Agora vou sair, preciso cumprimentar nossos pais.
Eles já devem estar na mesa do café.
Você não vem?
— Irei em seguida. Vou me preparar.
Amélia saiu.
Letícia continuou na cama pensando em Miguel.
"Ele é lindo! A que família pertencerá?
Tomara que a uma família com recursos, assim papai não se oporá ao nosso amor.
Sim, porque eu o estou amando!"
Levantou-se, vestiu-se e em poucos minutos estava sentada à mesa do café.
Seus pais e irmãos comentaram sobre a festa.
Estavam felizes, pois tudo havia dado certo.
Letícia os ouvia falando, mas não prestava atenção.
Seu pensamento estava todo voltado para Miguel.
Ele realmente a impressionara muito.
Meia hora antes do almoço, Marilu chegou.
Ela também era uma linda moça.
Um pouco mais velha que Letícia, tinha os cabelos negros e caídos sobre os ombros em cachos delicados.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:19 pm

Dentes perfeitos, olhos castanhos escuros.
Ao chegar, Amélia e Letícia a levaram para o jardim, queriam comentar sobre a festa.
Já no jardim, Amélia perguntou:
— Que achou da festa?
— Gostei muito.
Você parece que gostou mais do que eu!
— Por que está dizendo isso?
— Ficou quase a noite toda nos braços de Nestor.
Corada, Amélia perguntou:
— Também notou?
Marilu riu, enquanto respondia:
— Eu e todas as pessoas que estavam na festa.
As três riram.
Marilu olhou para Letícia, dizendo:
— Você também dançou muito com aquele rapaz amigo de Mário.
Quem é ele? A que família pertence?
Letícia, com o rosto de Miguel no pensamento, suspirou antes de responder:
— Não sei quem ele é, e nem a que família pertence, mas gostei muito dele.
Marilu segurou suas mãos enquanto dizia com voz pausada, mas firme:
— Não pode dizer isso, sabe que está quase prometida a Hélio...
Novamente irritada, Letícia respondeu:
— Não vou me casar com ele! Não vou!
Marilu pensou:
"Não vai mesmo! Não permitirei!"
Disse:
— Sabe que não poderá decidir isso.
— Sei que devo obediência aos meus pais, mas isso não é nada justo!
— Também acho que não é justo, mas é assim e nunca mudará...
— Tem que mudar! Precisa mudar!
Foram chamadas para o almoço.
Miguel acordou.
Lembrou-se do que havia acontecido.
Envergonhado, continuou na cama, não sabia o que diria ao pai.
Sabia que ele esperava que acordasse para pedir explicações.
"Não sei o que dizer!
Não posso lhe dizer que estou envergonhado da minha situação social!
Não posso dizer que estou apaixonado por uma moça como Letícia!
Ele não entenderá!"
Seu pai entrou no quarto.
Ao vê-lo acordado, disse:
— Finalmente acordou!
Já vim aqui muitas vezes, você dormia profundamente.
Como está?
— Estou bem, e quero lhe pedir mais uma vez que me desculpe.
Prometo que isso não se repetirá...
— Você já disse isso, e foi hoje pela manhã.
Estou preocupado.
Se continuar assim, não conseguirá seguir e terminar a faculdade, não será aquele advogado que sempre sonhou ser.
— Sei disso, mas estou com um problema e preciso encontrar uma solução.
— Acredita que ela está na bebida?
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:20 pm

— Claro que não, mas com ela consigo esquecer...
— Esquecer não! Dormir!
Assim que acorda tudo volta novamente.
Não quer me contar do que se trata?
Quis contar, mas pensou:
"Ele ficará triste se souber o que estou pensando.
Não posso dizer que estou envergonhado de minha condição social.
Ele poderá pensar que estou envergonhado dele, e isso não é verdade.
Eu o adoro, só preferia ter nascido em outra casa, em uma família com posses.
Se isso tivesse acontecido, agora não estaria com problema algum.
Poderia falar com o pai de Letícia, casar-me com ela e ser feliz.
Poderia? E Hélio?"
Pensou isso, mas respondeu:
— Não se preocupe papai, o problema é meu e vou resolvê-lo.
Só quero que saiba que eu gosto muito do senhor e que não farei nada que lhe cause tristeza.
Nunca mais tocarei em um copo de bebida.
Serei aquele advogado sonhado por nós dois!
— Está bem, meu filho, quero e preciso acreditar nisso.
Ficaria triste se fosse o contrário.
Venha, vamos comer alguma coisa.
— Não estou com fome.
— Sei disso, mas precisa se alimentar.
Juntos e abraçados, foram em direcção à cozinha.
As jovens almoçaram, passaram o resto da tarde conversando sobre a festa e os rapazes.
Amélia falava sobre Nestor, Letícia sobre Miguel.
A única que não falava sobre rapaz algum era Marilu.
Em dado momento, Letícia perguntou:
— Marilu, você não se interessou por rapaz algum?
Ela calmamente respondeu:
— Não, não me interessei.
Como sabem me casaria com Hélio, se pudesse.
Elas riram e continuaram conversando.
Estava quase anoitecendo quando um coche chegou.
Vinha buscar Marilu, que se despediu de todos com abraços e beijos e foi para casa.
Enquanto o coche seguia, ela, acompanhada por sua mucama, pensava.
"Preciso encontrar uma maneira de fazer com que Letícia se encontre com Miguel.
Preciso fortalecer esse início de romance, só assim Hélio vai esquecê-la e poderei conquistá-lo.
Mas como farei? Quem será ele?
A que família pertencerá?"
Assim pensando, chegou em casa.
Seu irmão estava na biblioteca lendo.
Ela perguntou por ele, foi até lá.
Entrou, beijou o irmão, dizendo:
— Preciso falar com você.
Rui, desviando os olhos do livro que lia, perguntou:
— Sobre o quê?
— Sobre Miguel, que estava na festa.
Ele é amigo de Mário e dos rapazes.
— Não o conheço muito bem.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 9:20 pm

Sei que estuda na faculdade de Direito e que é amigo deles, mas como sabe, estudo em outra faculdade.
Vejo-os de vez em quando, mas minhas amizades são outras.
— Sei disso, mas preciso saber quem ele é.
E a que família pertence.
— Por que o interesse?
Está gostando dele?
Ela começou a rir:
— Não! Eu não, mas uma minha amiga está, e pediu que eu descobrisse tudo sobre ele.
— Está bem, farei algumas perguntas.
Assim que souber algo, conto-lhe tudo.
Está bem assim?
— Está óptimo, mas não demore, tenho urgência.
— Amanhã mesmo investigarei.
Assim que voltar da faculdade devo ter uma resposta.
Agora saia, deixe-me estudar.
Ela deu um beijo em sua testa e saiu”.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:10 pm

A DESCOBERTA
“No dia seguinte, Marilu esperou ansiosa a chegada do irmão da faculdade.
Sabia que ele lhe traria uma resposta.
Sempre fora assim entre os dois.
Ele era seis anos mais velho que ela.
Enquanto esperava, pensava:
"Ele sempre fez tudo o que lhe pedi.
Sempre me tratou como se eu fosse uma criança.
Por isso sei que me trará uma resposta.
Hoje mesmo saberei quem é Miguel.
Depois disso, terei que encontrar uma maneira para que se encontre com Letícia.
Preciso que haja um romance entre eles, assim Hélio se decepcionará e me dará atenção."
De facto, isso aconteceu.
Assim que ela viu o coche parando em frente a sua casa, correu para encontrar Rui, que a recebeu com um sorriso:
— Sei que está ansiosa.
Pode ficar calma, tenho todas as informações que quer.
Mas, antes, preciso saber para quê.
Enquanto entravam, ela, com a mão no braço dele, respondia:
— Sabe que gosto de Hélio, mas ele está cego de amor por Letícia.
Ela, por sua vez, não gosta dele.
Conheceu Miguel e está interessada nele.
Ele começou a rir:
— Está pretendendo ser o cupido?
— Não, o que quero é Hélio.
— Mas o que lhe garante que se ela ficar com Miguel ele a notará como mulher?
Sabe muito bem que ele só gosta de você como amiga!
— Sei disso, mas pode mudar.
Depois que se decepcionar com Letícia, ficará triste e carente, e aí eu entro na história.
— Sinto muito, mas acredito que isso não vai ser fácil...
— Por quê?
— Miguel não pertence a nossa classe social.
— Que está dizendo?
— Isso mesmo, não é de boa família.
Não tem fortuna, nem posses.
Ele e seu pai trabalham no cartório.
Seu pai é escrivão e ele faz pequenos trabalhos.
— Não posso acreditar no que está dizendo!
Deve estar brincando!
Ele estuda na melhor faculdade do país!
— Não estou brincando, irmãzinha, tudo o que lhe contei é a mais absoluta verdade.
Ele conseguiu uma bolsa de estudos.
Como vê um romance entre os dois é impossível.
Os pais da Letícia nunca o aceitarão.
Ela ficou pensando.
Estava preocupada, pois aquilo nunca havia passado por sua cabeça.
Disse:
— Isso muda tudo, vou ter que encontrar uma outra maneira.
— Sei que encontrará.
Conheço-a o bastante para dizer isso.
Ela sorriu e foi para o seu quarto.
Precisava pensar.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:10 pm

Queria o amor de Hélio e o conseguiria.
Durante o resto do dia ficou pensando a esse respeito.
À noite já havia tomado uma decisão.
"Contarei tudo a Letícia, mas preciso convencê-la de que a diferença de nível social não deve interferir no amor deles.
Saberei como falar, a induzirei para que vá procurá-lo no cartório."
Tinha tudo planeado, só precisava encontrar uma maneira de colocar o plano em acção.
Como fazer para levar Letícia até o cartório?
Se lhe contasse antes, talvez ela não quisesse mais saber de Miguel.
Teria que ser uma surpresa.
Pensou muito durante aquela noite.
Na manhã seguinte, ao acordar, já tinha uma solução.
Logo depois da manhã foi até sua mãe e disse-lhe:
— Mamãe, Letícia pediu que eu fosse até a casa dela para almoçar.
À tarde, eu, ela e Amélia iremos ao centro da cidade, elas precisam fazer compras.
Posso ir?
— Se levar sua mucama junto, não terá problema, mas precisamos falar com seu pai.
— Deixe que eu fale.
Ele nunca me negou um pedido.
A mãe sorriu:
— Desde que você era pequena, foi sempre assim.
Conseguiu sempre o que quis.
Marilu sorriu:
— É isso mesmo, foi sempre assim.
Sou muito feliz pela família maravilhosa que tenho.
Obrigada, mamãe.
Sob o olhar amoroso de sua mãe, ela se retirou e voltou para o seu quarto.
Precisava ensaiar bem as palavras e o que dizer.
Letícia não saía muito de casa, e quando isso acontecia estava sempre acompanhada por um dos irmãos.
Marilu sabia que precisava convencer Amélia para que fosse junto.
Depois do almoço, com o consentimento do pai e acompanhada da mucama, ela foi à casa de Letícia.
Tinha tudo planeado, nada daria errado.
O coche parou em frente à casa de Letícia.
Logo um dos escravos foi abrir a portão.
Ela entrou altiva e rapidamente, não tinha muito tempo.
Assim que a viu entrar, Letícia, que estava bordando, levantou-se alegre:
— Marilu! Que bom que veio!
— Vim porque preciso de sua ajuda.
— Minha ajuda?! Para quê?
— Papai quer dar um presente para mamãe, no mês que vem será o aniversário de casamento deles.
Ele quer lhe dar uma jóia, pediu que eu escolhesse.
Não gostaria de fazer isso sozinha, tenho medo de não escolher bem, por isso preciso que você e Amélia venham junto comigo.
— Hoje?!
— Sim, precisa ser hoje.
Na semana que vem papai vai viajar e quer que a jóia já esteja comprada.
— Amélia deve estar em seu quarto lendo.
Vamos até lá?
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:10 pm

Entraram no quarto.
De facto, Amélia estava recostada na cama lendo.
Ao vê-las, admirou-se.
Marilu contou seu problema, e ela se prontificou a ajudar.
Foram juntas conversar com a mãe e pedir permissão.
A mãe foi até o escritório para falar com seu marido.
Após alguns minutos, voltou com a permissão.
As três saíram no coche de Marilu acompanhadas por sua mucama.
No centro da cidade, entraram em algumas lojas.
Em dado momento, Marilu, sob os olhos admirados das duas, entrou no cartório.
Elas a acompanharam.
Assim que entraram, Letícia ficou parada, branca como cera.
Seu coração quase parou.
Marilu segurou-a para que não caísse.
No meio do salão estava Miguel, carregando uma caixa com muitos documentos.
Amélia também o viu, e como Letícia, ficou sem saber o que fazer.
Como que atraído pelo olhar delas, ele se voltou e as viu.
Assim como elas, ficou petrificado.
A caixa quase caiu de suas mãos, não sabia o que dizer ou fazer.
A única que tinha o controle era Marilu, que fez um sinal com as mãos para que ele se aproximasse.
Ele, cambaleando, obedeceu.
Assim que se aproximou, Marilu, fingindo surpresa, disse:
— Miguel! Boa tarde!
Não sabia que você trabalhava aqui!
Ele, gaguejando e sem coragem de olhar para Letícia, respondeu:
— Boa tarde, trabalho aqui sim, ajudo meu pai.
Mas o que fazem aqui?
— Estávamos passeando.
Letícia, você se lembra de Miguel?
Ele estava em sua festa!
Ela, trémula e com voz baixa, respondeu:
— Lembro sim, como vai, Miguel?
— Estou bem.
Letícia conseguiu superar o susto.
Amélia, assim como ela, estava intrigada.
Jamais poderia imaginar que aquele rapaz elegante e educado não pertencesse à mesma classe social que elas.
Estavam sem saber como continuar a conversa quando Marilu disse:
— Miguel, falta muito tempo para terminar o expediente?
Ele olhou para o relógio que estava na parede, e ainda com a voz trémula, respondeu:
— Quarenta minutos. Por quê?
— Poderemos esperá-lo para irmos juntos até a confeitaria tomar um chá.
Que acham da minha ideia?
As moças concordaram, mas ele ficou em dúvida, pois teria que pagar a conta e não tinha dinheiro para isso.
Mas, mesmo assim, disse:
— Está bem.
Assim que terminar o expediente eu as encontrarei na confeitaria.
Disse aquilo, mas não sabia como faria.
Assim que elas saíram, ele foi para a sala onde seu pai trabalhava.
Em poucos minutos contou o acontecido e disse que precisava de dinheiro.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:11 pm

Seu pai respondeu:
— Sabe que não temos dinheiro para essas extravagâncias, mas como parece ser importante para você, ei-lo.
Ele agradeceu ao pai ainda confuso e saiu da sala.
Não sabia o que dizer.
Mas, enfim, as cartas estavam jogadas.
Impressionara-se com Letícia, mas sabia que ela pertencia a outro mundo.
Tinha medo que ela o rechaçasse, mas já chegara a hora.
Não teria como evitar o encontro.
Assim que o expediente terminou, ele se despediu do pai e foi para a confeitaria.
As moças já estavam sentadas esperando.
Letícia, desde que saíra do cartório, não dissera uma palavra.
Desde a noite da festa não conseguira esquecê-lo.
Sabia que seria difícil convencer seu pai a não obrigá-la a se casar com Hélio, mas também sabia que ele nunca permitiria que se casasse com Miguel.
Amélia também pensava a mesma coisa.
Marilu era a única que estava controlada e feliz, pois seu plano estava dando certo.
Bastava só convencer os dois de que a diferença social não deveria interferir no amor deles.
Miguel chegou, cumprimentou-as e sentou-se em uma cadeira, que propositadamente Marilu deixara vaga ao lado de Letícia.
Ficaram alguns minutos calados.
Marilu iniciou a conversa:
— Então, Miguel!
Foi uma surpresa encontrarmos você trabalhando no cartório!
Ele, ainda desconcertado, disse:
— Também fiquei surpreso ao vê-las.
Preciso que me desculpem.
Nada disse, mas de maneira alguma quis passar por aquilo que não era.
Mário e os outros me conhecem e sabem da minha origem.
Marilu continuou:
— Assim como para eles isso não deve ter importância, para nós também não tem, não é, meninas?
Elas apenas balançaram a cabeça.
Ficaram ali tomando chá e conversando amenidades.
Marilu, com um sinal, fez com que Amélia a acompanhasse até o banheiro, deixando Miguel e Letícia a sós.
Ela, intrigada, perguntou:
— Por que saiu da festa sem se despedir?
— Peço que me desculpe, mas senti que estava gostando de você e sabia que seria impossível.
Achei melhor me afastar.
— Por que não me disse o que estava sentindo?
— Pensei que só eu estivesse sentindo aquilo.
Como vê, sou de origem pobre, e sei que está prometida para Hélio, que é meu amigo.
— Nada disso importa.
Não ligo para o dinheiro ou a origem.
E quanto a Hélio, ele sabe que não o amo e que não quero me casar com ele.
— Do modo como fala parece que tudo é fácil.
— E é! Se gostar realmente de alguém, nada disso será empecilho!
— Você é ainda uma criança, não sabe o que está dizendo.
— Você não é muito mais velho que eu!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:11 pm

Sei muito bem o que estou dizendo.
Também me interessei por você e fiquei muito triste quando foi embora.
— Acredita mesmo que poderá haver algo entre nós?
— Tenho certeza disso!
— Poderemos nos ver?
— Isso será um pouco difícil, sabe que não posso sair sozinha de casa, mas darei um jeito.
Se realmente quiser me ver, arrumarei uma forma.
— Claro que quero vê-la!
— Então vamos marcar.
Na próxima semana, neste mesmo dia da semana, aqui neste lugar.
Está bem assim?
— Claro que está.
Tem certeza que poderá vir?
— Se não vier, foi porque não consegui, mas estarei com você em meus pensamentos.
Ele ia dizer algo quando Marilu e Amélia se aproximaram.
Esta última disse:
— Letícia, está na hora de irmos embora.
Se pretender sair outras vezes é melhor não nos atrasarmos.
— Tem razão.
Miguel foi um prazer encontrá-lo.
Não se esqueça do que combinamos.
Ele se levantou e, sorrindo, disse:
— O prazer foi todo meu.
Espero vê-las novamente.
Acompanhou-as até o coche, que em seguida, sob o seu olhar, se afastou.
No caminho de volta, Letícia contou o que havia conversado com ele enquanto elas estavam no banheiro e pediu ajuda para continuar se encontrando com ele.
Elas disseram que ajudariam.
Miguel também chegou feliz em casa e contou ao pai o acontecido.
Após ouvi-lo, o pai disse:
— Sei que está feliz meu filho.
Isso me alegra muito, e espero que tudo dê certo.
— Dará papai! Dará!
Jantaram e foram para os seus quartos.
Daquele dia em diante começaram a se encontrar uma vez por semana.
O amor entre os dois foi crescendo cada vez mais.
Letícia saía sempre acompanhada por Amélia e Marilu, que não cabia em si de felicidade, pois sabia que Hélio, não tendo mais Letícia, seria dela.
Embora nunca mais Miguel tornasse a beber como das primeiras vezes, continuava bebendo.
Um pouco menos, mas continuava.
Fazia quase um ano que se encontravam uma vez por semana.
Resolveram que não contariam a ninguém além de Amélia e Marilu, que juraram absoluto segredo.
Miguel, quando conversava com Hélio, não comentava nada.
Amava Letícia e faria o possível para continuar com ela.
Aproximava-se novamente o aniversário dela.
Letícia combinou com ele que nesse dia o apresentaria oficialmente a seus pais.
Quando ela lhe disse isso, ele se assustou e perguntou:
— Tem certeza que será uma boa hora?
Não acha que é ainda muito cedo?
Falta muito tempo para eu me formar.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:11 pm

— A hora é essa.
Farei dezasseis anos, sabe que nessa idade as moças costumam firmar compromissos de noivado.
Temo que meu pai queira fazer isso entre mim e Hélio.
Preciso me antecipar.
— Você é quem sabe.
Farei tudo para vê-la feliz.
Naquela tarde chegou feliz em casa.
A noite, na hora do jantar, contaria tudo o que estava acontecendo.
Conversou com Amélia e convidou Marilu para o jantar.
— Preciso da presença das duas.
Sei que me ajudarão!
Elas riram, Marilu disse:
— Não se preocupe, dará tudo certo, sabemos o quanto se amam.
Enquanto jantavam, Letícia ia pensando nas palavras que diria.
Precisava tomar cuidado, pois seu pai, embora amasse os filhos, era rígido em suas decisões e exigia total obediência.
Assim que terminaram de jantar, quando ela ia começar a falar, o pai a interrompeu dizendo:
— Letícia, preciso fazer um comunicado a todos, e principalmente a você.
Conversei longamente com o pai de Hélio e decidimos que na festa de seu aniversário será uma óptima ocasião para anunciarmos seu noivado com Hélio.
Ela sentiu como se houvessem jogado um balde de água fria sobre ela.
Olhou para Amélia e Marilu, que assim como ela, estavam abismadas com o que acabaram de ouvir.
Tomou coragem e disse, chorando:
— Não quero me casar com Hélio!
Eu não o amo!
O pai a olhou secamente.
— Sempre soube que estávamos tratando disso.
Não aceito desobediência, fará como estou dizendo.
Antes que ela ou alguém dissesse alguma coisa, ele se levantou e saiu da sala de jantar.
Letícia chorava inconsolável.
Marilu também estava nervosa, pois sentia que seus planos não haviam adiantado para nada.
Se aquele casamento acontecesse, perderia Hélio para sempre.
A mãe de Letícia disse:
— Sei minha filha, o que está sentindo, pois passei por isso também.
Quando me casei não amava seu pai, foi também um acerto entre o pai dele e o meu.
Mas hoje não me arrependo, aprendi a gostar dele, e ele me deu vocês três.
Você também aprenderá a gostar de Hélio, ele me parece um bom rapaz.
— Não gostarei dele nunca!
Sei que é um bom rapaz e um bom amigo também, mas não o quero como marido!
— Sinto muito, minha filha, sabe que terá de ser assim.
Seu pai já deu a palavra ao pai de Hélio e não mudará de opinião.
— Não posso me casar com ele! Não posso!
Saiu da mesa e da sala em disparada.
Foi para o seu quarto, e Amélia e Marilu a seguiram.
Já no quarto, jogou-se chorando sobre a cama.
Amélia não sabia o que dizer.
Sabia que a mãe tinha dito a verdade, seu pai não mudaria de ideia, mas sabia também o quanto Letícia e Miguel se amavam.
Marilu estava desesperada, sentia que seu amor lhe fugia pelos dedos.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:11 pm

Mas naquele momento não soube o que dizer.
Apenas tentou fazer com que Letícia parasse de chorar.
— Letícia, não fique assim, haveremos de encontrar uma solução.
Você não se casará com Hélio.
Posso até jurar, se for preciso.
Fique calma, pensarei em alguma coisa.
— Sei que não haverá solução, meu pai já decidiu.
Deu um pulo da cama quase gritando:
— Hoje é sexta-feira!
Não terei como contar a Miguel o que está acontecendo!
— É, minha irmã, isso é verdade.
Ele terá de saber pela boca de Hélio, que com certeza contará a todos na segunda-feira durante a aula.
— Que farei? Que farei?
Marilu fez com que ela voltasse para a cama enquanto dizia:
— Por enquanto não pode fazer nada, mas encontrarei uma solução.
Agora fique calma.
Com a presença das famílias de Hélio e de Marilu, o almoço transcorreu normalmente, a não ser por Letícia, que embora estivesse bem-vestida, estava pálida e com os olhos inchados de tanto chorar.
Assim que o almoço terminou, todos foram conduzidos à sala onde seria servido o licor ou o café.
Quando todos se acomodaram, o pai de Hélio disse:
— Como todos sabem, estou aqui para pedir oficialmente a mão de Letícia para o meu filho Hélio.
O pai de Letícia, sorrindo e feliz, disse:
— É com prazer que aceito o pedido.
O casamento se dará dentro de um ano.
Todos se levantaram para cumprimentar os noivos.
Letícia, sem muito entusiasmo, recebeu os cumprimentos, enquanto Hélio não cabia em si de tanta felicidade.
Finalmente estava realizando o sonho de sua vida.
Hélio tinha três irmãs e dois irmãos.
Os rapazes foram para a sala de jogos.
As moças ficaram conversando entre si sobre os vestidos que usariam no casamento.
A mãe de Letícia, junto com as senhoras, discutia os quitutes que seriam servidos.
Marilu olhava a tudo desesperada.
Não havia ainda encontrado uma solução.
Mais ou menos uma hora depois, Letícia se aproximou de Hélio e o convidou a ir ao jardim.
Queria conversar com ele.
Prazerosamente ele aceitou.
Assim que chegaram ao jardim, ela se sentou em um banco e pediu a ele que se sentasse também.
Quando ele se sentou, ela disse:
— Hélio, você é o único que pode impedir essa loucura!
— Por que está dizendo isso?
— Não posso me casar com você!
Não o amo!
Você pode dizer a seu pai que não me quer como esposa!
— Sabe muito bem que não posso fazer isso.
Assim como o seu pai, o meu também decidiu.
Sabe que eles têm total domínio sobre nossas vidas.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:12 pm

— Sei disso, mas com o homem é sempre diferente!
Se conversar com ele, talvez lhe dê atenção!
— Poderia até tentar, mas não quero.
— Por que não?
— Porque eu a amo, e muito, e estou feliz por tê-la como esposa.
— Eu não o amo!
Sabe muito bem que não seremos felizes!
— Mas eu a amo o suficiente por nós dois.
Sei que com a convivência farei com que aprenda a me amar.
— Isso não acontecerá nunca!
Gosto de você apenas como amigo, nada além disso. .
— Pagarei para ver.
Garanto que em menos de um ano de casados estará totalmente apaixonada.
— Isso é loucura!
Está em suas mãos nos livrar de uma vida inteira de sofrimentos!
— Você, como uma boa moça romântica, está sofrendo sem motivo.
Verá como seremos felizes.
Assim dizendo, pegou em sua mão, a fez levantar e a conduziu de volta para dentro da casa.
Letícia seguiu-o sem discutir.
Sabia que seu destino estava nas mãos dele.
Anoitecia quando os convidados começaram se despedir.
No quarto de Letícia, as três moças conversavam.
Letícia, inconsolável, chorava e dizia:
— Que farei? Miguel não pode ficar sabendo através de outra pessoa.
Preciso falar com ele, mas como?
Meus pais não me deixarão sair a esta hora da noite.
Além do mais, não sei onde ele mora!
Marilu foi até uma cómoda, abriu uma gaveta e de dentro tirou um álbum que continha papéis de carta perfumados.
Ela sabia que estavam ali, pois fora ela mesma quem trouxera de presente para Letícia de uma das vezes em que fora à Europa.
Entregou o álbum a Letícia:
— Escreva uma carta contando tudo.
Meu irmão sabe onde ele mora.
Pedirei ao meu cocheiro que vá até a casa dele e lhe entregue a carta.
— Fará isso?
Seu pai concordará com que o cocheiro se ausente?
— Não se preocupe, pedirei a Rui que me ajude.
Direi que a carta é de extrema importância e que Miguel precisa recebê-la ainda hoje.
Meu pai não se importará e deixará que use a carruagem.
Letícia tirou de dentro do álbum uma folha e escreveu.
"Querido Miguel”:
Infelizmente, nossos planos não poderão ser concretizados.
Meu pai comunicou hoje o meu noivado com Hélio e o casamento para daqui a um ano.
Não preciso lhe dizer o quanto estou desolada, mas não há nada que eu possa fazer.
Embora continue amando-o — e sei que esse amor será para toda a eternidade —, não poderei mais encontrá-lo.
Sou agora uma mulher comprometida e não posso trair meu noivo.
Mas nada poderá me impedir de pensar em você e amá-lo.
Com carinho, e já com saudades, Letícia.
Assim que terminou de escrever, beijou o papel, colocou-o em um envelope e entregou-o a Marilu”.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:12 pm

MARILU PLANEIA
“Marilu, assim que chegou em casa, desceu do coche acompanhada dos pais e de Rui.
Seguiu com ele em direcção ao interior da casa.
Disse:
— Vamos para o meu quarto, preciso conversar com você.
Ele não se admirou, pois sabia que quando a irmã falava assim queria dizer que estava tentando fazer algo não muito certo, e que precisava de sua ajuda.
Entraram no quarto de Marilu.
Ela, aflita, disse:
— Preciso que me ajude!
— O que é desta vez?
Ela contou tudo o que havia acontecido, desde o dia em que ele descobrira quem era Miguel.
Disse que precisava fazer com que Miguel descobrisse sobre o casamento pela própria Letícia, pois assim restaria uma esperança e ela teria tempo de pensar em uma maneira para afastar Hélio de Letícia.
Rui ouviu tudo em silêncio.
Quando ela terminou, disse espantado:
— Letícia com Miguel?
Mas ele é um dos melhores amigos de Hélio!
— Sei disso, mas ela não quer se casar, está sendo obrigada pelo pai.
— Hélio sabe sobre Miguel?
— Não! E nem pode saber!
Só preciso que entregue esta carta para ele.
Deixe o resto por minha conta.
— E como farei isso?
— Sabe muito bem que, como homem, pode usar o coche quando quiser.
Eu não poderei sair à noite.
Só quero que leve esta carta para Miguel!
— Não estou entendendo.
Quer tanto ficar com Hélio, mas entregando essa carta fará com que o amor de Letícia e Miguel termine.
Assim Hélio poderá ficar com ela sem problema algum...
Ela gritou:
— Nunca! Ele se casará comigo!
Só preciso ter um tempo para planear.
A princípio parecerá que tudo está acabado, mas assim que Miguel deixar Letícia, encontrarei uma maneira para que fiquem juntos.
Dará tudo certo!
Eu ficarei com Hélio e ela com Miguel!
Agora faça o que lhe pedi.
— Está bem, irmãzinha.
Vou agora mesmo pedir a carruagem a papai.
Com um sorriso, saiu do quarto.
Miguel estava estudando e sozinho em casa.
Seu pai ganhara dois convites para assistir a uma peça de teatro.
Convidara-o, mas ele não aceitara, pois realmente precisava estudar.
Estava distraído com a leitura quando ouviu alguém batendo palmas em seu portão.
Não esperava ninguém, ainda menos àquela hora.
Saiu para ver do que se tratava.
Ficou mais admirado ainda quando viu Rui.
Não o conhecia muito bem.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:12 pm

Encontrara-o algumas vezes quando saíra em companhia de Mário, Nestor e Hélio, mas como estudavam em faculdades diferentes, quase nunca se viam.
Ao vê-lo, disse:
— Rui! Que está fazendo aqui?
— Boa noite, Miguel.
Estou aqui cumprindo uma missão.
— Boa noite! Quer entrar?
— Não, obrigado, só vim mesmo para lhe entregar esta carta.
— Carta?! De quem é?
— Não sei, mas assim que ler saberá.
Entregou a carta.
Miguel segurou-a em suas mãos.
Ao pegá-la, sentiu o perfume.
Sorrindo, disse:
— Parece ser de mulher.
Quem lhe deu essa incumbência?
— Não posso dizer, mas assim que a ler entenderá.
Bem, missão cumprida. Até mais.
Com a carta nas mãos, Miguel correspondeu com um sorriso.
Disse:
— Embora não saiba o conteúdo da carta, agradeço-lhe pelo trabalho. Até mais.
O coche foi embora e Miguel voltou para dentro da casa.
Antes de abrir a carta, cheirou-a.
O perfume era suave e um tanto adocicado.
Curioso, mas com cuidado, ele abriu o envelope.
Começou a ler.
Seu rosto foi se modificando.
Quando terminou de ler, lágrimas caíam.
Ficou com a carta em sua mão, parado, sem saber o que fazer.
Desesperado, pensou:
"Sempre soube que isso aconteceria, mas sempre tive uma esperança... que farei da minha vida?
Como viverei sem ela?"
Olhou para a cristaleira.
Lá estava a solução para os seus problemas.
Pegou uma garrafa de vinho e começou a beber.
Seu pai, ao chegar, encontrou-o com a cabeça sobre a mesa e com a carta amassada na mão.
Com cuidado, tirou a carta e leu.
Pôde logo perceber por que seu filho estava daquela maneira.
Ajudou-o a se levantar, conduziu-o para o quarto e o deitou.
Miguel, ao perceber a presença do pai, começou a chorar:
— Papai... Eu a perdi para sempre!
Ela vai se casar com Hélio!
Não sei como viverei sem ela!
— Eu sei meu filho, mas agora precisa dormir.
Quando acordar conversaremos.
— Não quero dormir! Quero morrer!
O pai não respondeu, apenas deitou-o.
Em seguida saiu do quarto.
Embora não chorasse, seu rosto estava crispado, demonstrando o grande sofrimento que sentia ao ver o filho daquela maneira.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:13 pm

Sabia que seu filho havia se tornado um alcoólatra e que qualquer motivo era suficiente para que bebesse.
Desesperado, pensou:
"Meu filho!
Que posso fazer para ajudá-lo?
Não sei, não sei apenas rezar e pedir a Deus que o ajude...”.
Miguel só acordou na manhã seguinte e na hora de ir para a faculdade.
Assim que abriu os olhos lembrou-se de tudo o que havia se passado.
Sabia que seu pai deveria estar na sala lendo, como fazia todas as manhãs.
Sentiu que seu corpo exalava odor de bebida.
Sua cabeça doía, mas nada daquilo o incomodava.
A única coisa que lhe importava era Letícia, que estava perdida para sempre.
Lágrimas começaram a se formar em seus olhos.
Levantou-se e foi ter com o pai.
Estranhou, ao entrar na sala, não encontrá-lo lendo, como sempre fazia.
Foi em direcção à cozinha.
Seu pai estava sentado tomando um café.
Ao ver o filho entrar, disse:
— Bom dia.
Vejo que acordou, mas parece que não está bem.
— Bom dia, papai.
Sinto muito por mais uma vez ter me excedido na bebida.
O senhor leu a carta de Letícia?
— Li, e entendi.
E agora, o que pretende fazer?
Continuar se embriagando?
— Não sei... Não sei.
— Com essa carta, ela demonstrou ser uma moça honesta e sensata.
Sabe que será obrigada a obedecer ao pai, e que também honrará o marido e seu casamento.
Você agora só tem dois caminhos a seguir.
Aceita a situação, continua estudando para ser um bom advogado e conquistar tudo o que sonhou, ou se entrega à bebida e se torna um alcoólatra.
Você é meu filho muito querido.
Não sei o que fazer para ajudá-lo, mas seja o que for que escolher, estarei a seu lado.
Pense bem, sua vida está em suas mãos.
Não comprarei mais bebida alguma.
Se quiser beber terá que ser fora de casa.
Só posso lhe dizer que a bebida não é solução para nada.
Levantou-se da cadeira em que estava sentado e saiu da cozinha, dizendo:
— Estou indo para o cartório, preciso chegar mais cedo, tenho muito trabalho.
Até mais tarde.
Fiz um chá de losna para que tome, sei que não deve estar bem do estômago.
Saiu. Miguel sabia que ele estava mentindo e que não iria para o cartório àquela hora.
Sentiu que seu pai não queria conversar com ele, e sabia qual era o motivo.
Estava magoado e triste por tê-lo encontrado embriagado.
Realmente aquilo era verdade.
Seu pai saiu de casa pensando, e foi caminhando sem destino.
"É ainda muito cedo para ir ao cartório, mas não sei o que dizer a ele.
Entendo seu sofrimento, mas não sei como ajudá-lo.
Só ele poderá decidir sua vida...”.
Miguel tomou o chá, preparou-se e saiu em direcção à faculdade.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:13 pm

Imaginava o que encontraria lá.
E realmente encontrou.
Hélio estava feliz e contando para os colegas de seu noivado e futuro casamento.
Foi cumprimentado por todos e também por Miguel, que fez o máximo possível para não demonstrar o seu sofrimento.
Letícia, por sua vez, também sofria muito.
Sozinha em seu quarto, chorava enquanto pensava:
"Sei que não terei como evitar esse casamento, tenho que obedecer ao meu pai.
Preciso esquecer Miguel, mas sei que nunca conseguirei e o amarei para sempre, até a eternidade.
Mas, mesmo contra minha vontade, deverei honrar meu marido."
Desde então, seus olhos nunca mais brilharam como antes, e quase sempre estavam vermelhos e inchados de chorar.
O tempo foi passando.
Miguel não conseguia ficar longe da bebida, todos os fins de semana passava embriagado, para desespero de seu pai.
Suas notas decaíram, com muito custo conseguiu mantê-las no limite para ser aprovado.
Já havia algum tempo corriam rumores de que a abolição da escravatura seria proclamada.
Os estudantes estavam alvoroçados.
Alguns tinham mesmo o sentimento de lutar pelos negros.
Outros apenas acompanhavam os colegas, pois eram ricos, possuíam escravos e gostavam de ser atendidos por eles.
Miguel nunca quisera participar dessa luta, pois em certa ocasião, quando comentara com o pai, este lhe dissera:
— Cuidado, meu filho.
Essa luta é contra o Império, portanto, contra os poderosos.
— Mas papai, quase todos os meus colegas da faculdade estão envolvidos nela!
— Não se esqueça que eles pertencem a famílias ricas e também poderosas.
Se forem presos, seus pais terão dinheiro para contratar bons advogados, e logo serão libertados.
Mas connosco é diferente.
Se você for preso, não terei como ajudá-lo.
Embora fosse simpatizante da causa e desejasse mesmo que os escravos fossem libertados, sabia também que o pai tinha razão no que dizia.
Por isso, até então não havia participado.
Mas desde que recebera a carta de Letícia e nunca mais a vira, só desejava morrer.
Não havia mais motivo para continuar vivendo.
Seus sonhos estavam desfeitos para sempre.
Mário, Nestor e Hélio participavam activamente.
Ele começou a acompanhá-los às reuniões.
Não lhe importava mais o que pudesse lhe acontecer.
Sempre que os estudantes iam a essas reuniões, alguns deles levavam consigo armas, para se proteger caso houvesse um ataque da guarda Imperial.
O tempo foi passando.
A data do casamento estava se aproximando.
As duas famílias se uniram e compraram uma bela casa, onde Letícia e Hélio viveriam.
Letícia não esquecia Miguel, mas estava conformada, sabia que aquele amor era impossível.
Marilu, por sua vez, não se conformava, não aceitava a ideia de ver Hélio casado com outra que não fosse ela.
Durante todo o tempo tentou convencer Letícia:
— Você não pode aceitar isso sem lutar!
Vocês se amam!
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Ave sem Ninho

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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:13 pm

Com lágrimas Letícia respondia:
— Sei que o amo, mas não posso desobedecer meu pai, nem trair Hélio.
Ele sabe que não o amo, mas mesmo assim insiste nesse casamento.
Marilu, irritada, disse:
— Nunca pensei que você fosse tão fraca!
Pensei que gostasse de Miguel sinceramente!
— Eu gosto, e muito, mas sei que não adianta.
Não posso desobedecer meu pai!
Se fosse ao seu caso, o que faria?
Marilu ficou pensando antes de responder:
— Não sei. Assim como você, fui criada para obedecer, mas não acho isso justo!
Só por sermos mulheres não somos diferentes!
Temos os nossos sentimentos, assim como os homens!
Dia virá em que seremos iguais!
Poderemos nós mesmas decidir nossa vida!
— Acredita mesmo nisso?
— Não sei, mas gostaria muito que fosse assim.
Letícia também queria que fosse assim, mas no momento não era.
Sabia que devia obediência a seu pai, e que, após o casamento, essa obediência seria transferida para Hélio.
Marilu estava desesperada.
Pensou muito em uma maneira de separar Hélio de Letícia para sempre.
Para isso precisaria da ajuda de Rui, seu irmão.
— Rui, preciso que me ajude.
— No quê?
— O casamento de Hélio com Letícia está se aproximando.
Preciso impedir!
Contou a ele seu plano:
— Quero que você convide Miguel para um encontro e o leve até um hotel barato.
Farei com que Letícia também vá.
Quando os dois estiverem lá conversando, você terá que encontrar uma forma de que Hélio descubra e vá encontrá-los.
— Isso é loucura!
Não sabe o que pode acontecer!
— Não vai acontecer nada!
Hélio só vai tomar conhecimento do amor que existe entre os dois.
Sentindo-se traído, abandonará Letícia, e assim eu terei chance com ele!
— Como farei para convencer Miguel a ir a esse hotel?
— Você mesmo me disse que ele está gostando de beber.
Basta só lhe oferecer uma bebida.
Assim que estiver embriagado, leve-o até lá.
— Não sei se vai dar certo.
— Claro que vai.
O importante é que Hélio e Letícia nunca descubram que estamos envolvidos nisso.
— Como farei?
— Após deixar Miguel dormindo no hotel, contrate um rapaz ou menino para levar uma mensagem a Hélio.
Nessa mensagem, diga que nesse hotel haverá um encontro de estudantes.
Eu falarei com Letícia e a convencerei a ir até lá.
— Acredita que vai dar certo mesmo?
— Vai! Hélio não suportará ser traído e a abandonará!
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Ave sem Ninho

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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:13 pm

— Está bem, vou fazer como você quer.
Quando será isso?
— Planejarei tudo direito para que nada saia errado.
Assim que estiver tudo certo, comunico.
— Ficarei aguardando.
Agora preciso estudar.
Rui saiu e ela ficou imaginando a melhor forma de colocar seu plano em acção.
Era a última cartada, por isso nada poderia dar errado.
Durante alguns dias ficou pensando, até que finalmente, com tudo meticulosamente planeado, foi novamente falar com Rui.
— Está tudo pronto.
Você deve fazer do modo como vou lhe dizer.
Amanhã à tarde, na hora em que Miguel costuma sair do cartório, disfarçadamente você deve encontrá-lo, como se fosse por acaso.
Convide-o para tomar alguma coisa e conversar.
Dê uma bebida a ele, depois outra.
Assim que estiver embriagado, leve-o a esse hotel.
Quando ele estiver deitado e dormindo, saia imediatamente.
Fique em uma esquina perto do hotel.
Assim que vir Letícia entrando, mande alguém dizer a Hélio para ir até lá para um encontro com outros estudantes.
— E se ele não for?
— Ele irá.
O resto ficará por minha conta.
Ele ouviu com atenção.
Disse:
— Tem certeza que tudo dará certo?
— Claro que sim.
Agora não se preocupe com isso.
Faça da maneira que lhe disse.
Na tarde seguinte, conforme o planeado Rui estava andando pela rua do cartório quando viu Miguel saindo.
Aproximou-se dele, dizendo:
— Miguel, que bom encontrá-lo! Como vai?
Miguel, também surpreso, respondeu:
— Rui! É uma surpresa, o que está fazendo por aqui?
— Estou vendo se encontro uma cartola.
Mas vamos conversar?
— Claro que sim.
Só preciso avisar meu pai, senão ele ficará preocupado.
Voltou para dentro do cartório e disse ao pai:
— Estou saindo com um amigo, mas não me demorarei.
O pai, um pouco preocupado, perguntou:
— Algum amigo da faculdade?
— Não, ele faz faculdade de Medicina.
É amigo de Hélio e dos outros.
— Você não está indo para uma daquelas reuniões, está?
— Não, papai, não se preocupe, logo mais estarei em casa.
O pai sorriu e ele saiu.
Rui estava nervoso esperando-o.
Seguiram em direcção ao bar que Miguel costumava frequentar.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 8:14 pm

Miguel não queria beber, mas diante da insistência de Rui, não teve como evitar.
Beberam o primeiro copo, depois outros.
Logo estava completamente embriagado.
Rui, levantando-se, disse:
— Parece que não está bem, vou levá-lo para casa.
Miguel ainda tentou argumentar, mas percebeu que naquela situação em que estava não conseguiria chegar em casa.
Deixou-se levar.
De acordo com o combinado, Rui levou Miguel até o hotel.
Assim que chegaram, Miguel percebeu que não estava em seu quarto, mas não conseguiu argumentar.
Com a ajuda de Rui, deitou-se e adormeceu.
Assim que Rui viu Miguel dormindo, rapidamente saiu dali.
Encontrou um rapaz com o qual já havia combinado, deu a ele o envelope e o endereço de Hélio, dizendo:
— Vá a este endereço, lá pergunte por Hélio e entregue este envelope em mãos.
— E se ele não estiver em casa?
— Ele estará já me certifiquei disso.
Mas não diga quem lhe pediu que fizesse isso.
O rapaz sorriu e saiu apressado.
Dentro do envelope, havia um pequeno papel, onde estava escrito:
"Hélio:
Você precisa vir até esse endereço.
Estamos esperando você para uma reunião de emergência”.
Só isso.
Não havia assinatura, mas Hélio sabia tratar-se da reunião que os estudantes costumavam fazer para tratar de alguma estratégia a respeito da abolição.
Assim que leu, disse:
— Estou indo agora mesmo.
Foi o que fez.
Pegou o coche e pediu ao cocheiro que o levasse até o endereço.
Enquanto isso, Marilu estava escondida em seu coche, em uma rua perto dali.
Rui foi encontrá-la para dizer que tudo estava certo.
Assim que tomou conhecimento que Miguel estava dormindo no hotel, pediu ao cocheiro que a levasse até a casa de Letícia.
Assim que o coche parou em frente à casa de Letícia, ela desceu apressada.
Letícia admirou-se por ela estar ali àquela hora.
Marilu se aproximou, dizendo com a voz aflita:
— Você precisa vir comigo agora!
Miguel está em péssimas condições!
Ela, assustada, perguntou:
— Que condições?
— Está bêbado em um hotel de quinta categoria!
— Como sabe disso?
— Rui me contou e disse que Miguel está armado e que se você não for até lá vai se suicidar!
— Não posso sair agora!
Amélia saiu com mamãe!
Estou sozinha em casa!
— Não podemos perder tempo!
Quando tudo estiver resolvido, você volta, e se necessário, conta o acontecido.
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