É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:10 pm

Certamente todos entenderão!
Enquanto falava, empurrava Letícia para fora da casa.
Ela, assustada e querendo ajudar Miguel, deixou-se levar.
Assim que chegaram ao hotel, Marilu perguntou a um homem que estava atrás de um balcão:
— Em que quarto está um moço que chegou acompanhado por um outro?
— Aquele que chegou bêbado?
— Ele mesmo!
Está lá em cima, no quarto vinte e cinco.
Ela seguiu na frente levando Letícia pela mão.
Entraram no quarto.
Miguel estava dormindo.
Ao vê-lo daquela maneira, Letícia não resistiu.
Correu em sua direcção e abraçou-o, chorando e dizendo:
— Miguel, meu amor!
O que você está fazendo com sua vida?
Sem perceber que Marilu havia saído, ela começou a beijar o rosto de Miguel, que com muito custo conseguiu abrir os olhos.
Ao vê-la, julgou estar sonhando.
Abraçou-a, dizendo:
— Letícia, meu amor!
Você está aqui ou estarei sonhando?
Se for um sonho, não quero nunca mais acordar. Eu a amo!
Estavam assim abraçados quando Hélio chegou.
Ao ver aquela cena, não se conteve.
Tomado de ódio, tirou da cintura um revólver que carregava sempre que ia a uma das reuniões.
Letícia, ao vê-lo, levantou-se.
Tentou contar a ele o que havia acontecido, mas não teve tempo. Hélio apontou o revolver em direcção a Miguel e atirou.
Em seguida, levou-o até o próprio ouvido e atirou também.
Letícia começou a gritar sem parar.
Em poucos minutos o recepcionista entrou no quarto.
Ao ver os dois corpos ensanguentados, entenderam o que havia acontecido.
Letícia continuava gritando desesperada.
Marilu, depois que entrara com Letícia no quarto, ao ver que ela se abraçara a Miguel, saíra disfarçadamente.
Na rua, pegara o coche e, acompanhada por Rui, que já estava nele, seguira para sua casa”.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:11 pm

NA SALA DE ANDRÉ
“Todos na sala de André assistiam e relembravam aquela história na qual estiveram envolvidos.
Hélio, embora inquieto — pois julgava conhecer a história —, ficou o tempo todo querendo ir embora, mas foi impedido por André:
— Você precisa ficar até o fim.
— Mas eu não quero ficar!
Conheço a maneira como fui traído pela mulher que amava e por meu melhor amigo.
— Fique até o fim, depois poderá ir embora.
Sem alternativa, ele permaneceu ali assistindo.
Mas quando a história chegou ao ponto da traição, ele gritou raivoso, para Iracema:
— Foi você quem tramou tudo?
Letícia e Miguel nunca me traíram, então?
Marilu não conseguiu dizer nada.
André, tranquilo, foi quem respondeu:
— Como viu, não.
Você nunca foi traído.
Letícia, embora sofrendo muito, resolveu respeitar você.
E Miguel também fez o mesmo.
— Todos sabiam!
Por que não me contaram?
— Porque naquele dia, depois do assassinato de Miguel e de, seu suicídio, você saiu em desabalada carreira.
Em seguida foi perseguido por irmãos das trevas.
No primeiro instante sofreu muito, mas logo se aliou a eles e desapareceu.
Nunca conseguimos encontrá-lo.
Hélio, com as mãos na cabeça, repetia sem parar:
— Eu não sabia! Eu não sabia...
— Sei disso, mas agora já tomou conhecimento de tudo.
Esta reunião foi feita por sua causa.
Agora já poderemos apagar a tela e eu lhe contarei o resto.
— Preciso saber.
— É pra isso que estamos aqui reunidos.
O recepcionista do hotel, ao comprovar a morte dos dois, retirou Letícia do quarto e chamou a polícia.
Não a conhecia, mas por suas roupas e educação, percebeu que ela pertencia a uma família rica, e o mais importante, era ainda uma menina.
Letícia continuava chorando, não queria sair do quarto, mas ele insistiu, até que ela o acompanhou.
Antes que a polícia chegasse, ele pediu a ela que dissesse quem era e onde morava, pois não queria que ela permanecesse ali.
A princípio ela resistiu, mas depois percebeu que aquela seria a melhor solução para o momento.
Deu o endereço a ele, que chamou um coche de aluguel.
Deu o endereço ao cocheiro e pediu que a levasse para casa.
A polícia chegou e ele disse o que havia acontecido.
Omitiu a presença de Letícia e de Marilu.
Disse que Miguel estava no quarto e que em seguida Hélio chegara.
Em seguida ouvira os dois disparos.
Ele não sabia o nome verdadeiro de nenhum deles.
Vendo que não havia criminoso para ser encontrado, a polícia deu o caso por encerrado.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:11 pm

Assim que Letícia chegou em casa, foi obrigada a contar tudo o que havia sucedido, pois estava com as roupas sujas de sangue.
Seu pai ficou bravo por ela ter saído sozinha de casa, ainda mais para encontrar Miguel, alguém que ele nem sabia que existia.
Com medo que descobrissem o que havia sucedido, ele mandou que Letícia fosse para um convento.
Ela não se importou, pois com a morte de Miguel não havia mais nada na vida que a atraísse.
Tornou-se uma irmã de caridade.
Dedicou o resto de sua vida a ajudar pessoas carentes, principalmente crianças.
Trabalhou em hospitais e escolas.
Miguel, ainda embriagado, não se deu conta do que havia acontecido.
Foi levado para um hospital.
Quando voltou a si, foi informado de tudo.
Sofreu preocupado com o pai, Letícia e o próprio Hélio.
Marilu e Rui não contaram a ninguém que haviam participado e do modo como o fizeram.
Com essa atitude, atraíram espíritos das trevas, que passaram a persegui-los.
Com aquele plano todo, eles mudaram a vida de todos.
Miguel se tornaria um óptimo advogado, depois seria um político que colaboraria com a criação de leis que ajudariam a muitas pessoas.
Depois da abolição, Hélio também se tornaria político, e junto com Miguel, lutaria em favor da população.
Marilu casou-se dois anos depois com um homem da sociedade.
Ele foi um mau marido, ciumento e tirano.
Ela ficou ao lado dele, até que, com quarenta e dois anos, morreu de um ataque cardíaco.
Rui continuou lutando a favor da abolição, mas daquele dia em diante nunca mais foi o mesmo.
Sentia-se perseguido, e o remorso o levou a tornar-se um alcoólatra.
Formou-se médico, mas por beber muito, sua licença foi caçada.
Terminou seus dias em um hospital psiquiátrico.
O pai de Miguel ficou desesperado com a morte do filho.
Ficou algum tempo em casa, não conseguia trabalhar, mas com ajuda espiritual, ele reagiu.
Voltou ao trabalho e, aos poucos, embora sentisse saudade do filho, continuou sua vida anterior.
Morreu com cinquenta e quatro anos.
Nestor e Amélia se casaram, tiveram seis filhos e uma vida tranquila, pois se amavam.
E parece que se amam até hoje.
Quando disse isso, olhou para Odete e Álvaro, que permaneceram o tempo todo de mãos dadas.
Continuou:
— Mário foi o único que conseguiu se formar e ser um bom advogado.
Nunca quis ser político, mas ajudou muitas pessoas, dando assistência gratuita.
Depois de tudo o que aconteceu com a irmã e sua família, viu seu pai definhar por ver a vida da filha destruída.
Aprendeu que nada na vida tinha valor, a não ser as boas acções praticadas.
Marilu e Rui ficaram vagando por muito tempo, sempre juntos, um tentando proteger o outro dos assédios que eles próprios atraíam.
Tiveram momentos de terror e medo.
Ficaram assim, até que um dia entenderam o grande mal que haviam praticado contra seus amigos, e muito mais, contra eles próprios.
Pediram perdão e juntos foram resgatados e trazidos para cá, onde aos poucos foram se recuperando.
Hélio gritou:
— Isso jamais poderia ter acontecido!
Eles não mereciam perdão!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:11 pm

André, com sua calma de sempre, disse:
— Somos todos filhos de Deus.
Não importa a Ele o quanto vai demorar, pois sabe que um dia o encontraremos.
Nem que para isso seja preciso que nos dê várias oportunidades.
Todos os outros permaneciam calados, só Hélio continuava inquieto e nervoso.
Disse:
— Está me dizendo que apesar de tudo o que aconteceu por causa deles dois, no final ficaram bem?
— Sim, aos poucos todos foram se encontrando e conversando sobre o que havia acontecido.
Foram entendendo e se perdoando.
Miguel e Letícia permaneceram juntos, aprendendo e se preparando para uma nova encarnação.
O amor entre eles já vinha de muito tempo.
Se nada daquilo tivesse acontecido, seria a última encarnação dos dois na Terra.
Hélio olhou para Marilu e, com ódio, disse:
— Você foi à culpada da nossa desgraça!
Você foi a culpada por eu ter ficado esse tempo todo vagando, perdido!
Iracema, que fora Marilu e que praticara aquele desatino, apenas chorava.
Não tinha como pedir perdão ao homem que amara tanto e ainda amava.
André foi quem continuou falando:
— Fique calmo, Hélio.
Ela já pagou muito e ainda hoje paga.
Todos aqui se lembram o que foi decidido naquela última reunião antes da reencarnação de cada um.
— Eu não estava aqui!
— Eu já lhe disse que você, tomado pelo ódio, aproximou-se e ficou protegido por energias pesadas que impediam que fôssemos em seu auxílio.
Por esse motivo, você não estava aqui naquele dia e não pôde planear sua reencarnação.
Nela, teria a oportunidade de recomeçar uma nova etapa para a sua própria evolução.
— E o que decidiram nessa reunião?
— Vocês já estão juntos há muito tempo.
Durante muitas encarnações vêm se ajudando.
Naquela última, onde tudo aquilo aconteceu, havia sido planeado que depois dela não precisariam mais reencarnar na Terra.
Poderiam permanecer aqui no plano espiritual trabalhando e ajudando os que ainda permanecem na Terra.
Como não deu certo, e estavam todos preparados para uma nova jornada, nos reunimos para decidir o que cada um queria.
Miguel reconheceu que havia fracassado por ser inseguro e ter se deixado dominar pelo vício, pois se naquele dia não estivesse embriagado, não teria caído naquela armadilha.
Marilu também reconheceu que fracassou por ter sido uma menina rica e mimada, que quando queria algo, não media consequências para conseguir satisfazer seu desejo.
Rui reconheceu que havia fracassado por também ser um fraco e não conseguir resistir, mesmo sabendo que estava cometendo um erro, inclusive ficando calado, sem dizer para ninguém o que havia realmente acontecido.
Juntos decidiram que voltariam pobres, que teriam que lutar muito pela vida e que seriam também, um dia, vítimas da mesma injustiça que eles próprios haviam praticado.
Artur, Álvaro e Odete se entreolharam.
Foi ela quem disse:
— O colar!
Por isso ela teve que ser acusada de ter roubado o colar?
— Sim, e Rui hoje seu filho, também foi indirectamente atingido.
Perdeu o emprego e a chance de estudar.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:12 pm

Um dia, indirectamente, ele ajudou no crime, e hoje indirectamente estava sendo julgado.
Todos ficaram calados e pensando.
Álvaro foi quem interrompeu o silêncio:
— Que lei maravilhosa é essa!
André sorriu.
— Também é daquela que ninguém escapa.
A lei dos homens pode condenar ou absolver, com justiça ou não, mas a lei divina não erra nunca e dá a cada um de acordo com a sua obra, seja ela boa ou má.
— É realmente maravilhoso...
— Naquela reunião, ficou claro para todos que Miguel e você, Hélio, foram os mais prejudicados.
Nós o procuramos, mas não conseguimos encontrá-lo.
Miguel pediu uma nova chance, que lhe foi dada.
Letícia, Amélia, Nestor e Mário não precisariam mais voltar, mas se recusaram a deixar Miguel sozinho.
Queriam voltar para ajudá-lo a lutar contra o vício, que inevitavelmente apareceria em sua vida, e assim ajudá-lo a ficar livre para sempre.
Correndo todos os riscos, voltaram.
Nestor como Álvaro e Amélia como Odete.
Com eles, Miguel teria uma vida tranquila, seria criado por pais amorosos e dedicados, não tendo assim a desculpa de ser pobre e sem recursos para se viciar.
Mário quis vir como seu irmão e assim poder estar ao lado dele o tempo todo.
Hélio, curioso, perguntou:
— E Letícia?
Por que não voltou?
— Hoje a Ciência evoluiu.
Já existe o computador, e Miguel teria a oportunidade de estudar e se dedicar a ele.
Através desse equipamento descobriria um programa que ajudaria os cientistas a encontrar a cura para muitas doenças.
Essa seria a sua missão.
Letícia só apareceria em sua vida quando ele já tivesse cumprido essa tarefa.
Caso contrário, ela não voltaria mais para viver ao seu lado.
Ele, aos trinta e sete anos, deveria estar com sua missão cumprida, e então a encontraria e seriam felizes.
Hoje Artur está com dezanove anos, seria o momento de Letícia renascer.
Quando se encontrassem, ela teria dezoito anos, e nesse momento recomeçariam.
Hélio insistiu.
— Por que está falando como algo que não vai mais acontecer?
— Porque novamente Miguel, hoje no corpo de Artur, se deixou envolver pelo vício.
Para que ele não se complique mais espiritualmente, em breve o traremos de volta.
Assim sendo, Letícia não precisa renascer.
Artur, desesperado, disse:
— Por favor! Não faça isso!
Agora que me lembrei de tudo o que se passou vou largar a droga e retomar o meu caminho!
Não quero ficar longe de Letícia nunca mais!
Quero cumprir a minha missão, sim!
— Está dizendo isso porque está aqui protegido por este ambiente onde as energias são puras.
Mas amanhã, quando acordar, estará sujeito às energias que você mesmo fabricar.
Embora tenha muitos amigos ao seu lado, tanto na Terra como aqui, não podemos interferir no seu livre arbítrio.
Só você poderá decidir o que fazer.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:12 pm

— Vou decidir!
Deixarei as drogas para sempre!
— Estamos todos desejando que isso seja verdade, mas sabemos que é difícil.
Só mesmo com muita força de vontade conseguirá isso.
— Vou conseguir! Tenho certeza!
— Está bem. Terá o prazo de um mês.
Se não conseguir, retornará, não mais para cá, mas para outro lugar, distante de todos nós, inclusive de Letícia.
Letícia, que estava quieta ouvindo, disse chorando:
— Não, André!
Por favor, não me separe dele novamente!
— Sinto muito, querida, mas a lei tem que ser cumprida.
Se ele fracassar novamente, terá que recomeçar, e dessa vez sem amigos por perto.
Ela se voltou para Miguel e disse:
— Por favor, meu amor!
Não permita que tenhamos que ficar separados para sempre!
Está em suas mãos! Não permita!
Ele, também chorando, segurou em suas mãos, dizendo:
— Fique tranquila, eu vou resistir, por você.
Mesmo que me esqueça de tudo o que aconteceu aqui, tenho certeza que de seus olhos não esquecerei.
Vou resistir e retornar ao meu caminho.
André continuou falando:
— Todos aqui esperamos que realmente consiga.
Será uma alegria.
De nossa parte, faremos o possível para ajudá-lo.
Agora está na hora de retornarem.
Quando acordarem não se lembrarão de nada, apenas acreditarão que sonharam.
Hélio ficou calado.
Olhou para Letícia, que estava com a mão sobre o braço de Artur.
Com lágrimas nos olhos, disse:
— Letícia, também tive a minha parcela de culpa.
Sabia que você não me amava, mas mesmo assim, por capricho, obriguei-a a ficar comigo.
Quero pedir-lhe perdão.
Ela, com carinho, olhou para ele dizendo:
— Todos temos os nossos acertos e erros.
Estou feliz por finalmente você estar ao nosso lado novamente.
Não tenho nada para perdoar.
Hélio sorriu e disse, olhando para Artur:
— Será que algum dia poderá me perdoar por ter impedido você de cumprir sua missão e hoje estar tentando destruí-lo novamente?
Todos olharam para Miguel esperando sua resposta.
Ele pensou um pouco antes de responder.
Finalmente disse:
— Como Letícia disse, todos temos os nossos acertos e erros.
Nada tenho para perdoar.
Também não posso condená-lo por se apaixonar por ela.
Ela é maravilhosa!
Todos riram, até Hélio.
Letícia, corada, beliscou o braço de Artur.
Em seguida, Artur olhou para André, colocou a mão sobre a mesa e estendeu-a em direcção a ele.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:12 pm

Com lágrimas nos olhos, disse:
— Meu pai, o que mais sinto é tê-lo tido como pai, convivido por muito tempo e não aprendido nada com seus conselhos.
Que saudade sinto do tempo em que, juntos, trabalhávamos naquele cartório.
O quanto tentou me ensinar, e o quanto deixei de aprender.
Obrigado, papai.
André, por alguns minutos, deixou aquele ar seguro que até então mantinha.
Uma lágrima começou a descer por seu rosto.
— Obrigado, meu filho.
Só posso também agradecer por ter tido essa oportunidade.
Você, antes e depois do vício, sempre foi muito querido.
Engoliu em seco e continuou:
— Agora precisam retornar ao corpo e acordar.
Vamos agradecer a Deus por esta nova oportunidade que está nos dando.
Todos se deram as mãos, e André começou a dizer:
— Meu Pai santíssimo, bendita seja a Sua lei, que permite que numa noite como estas possam estar aqui reunidas, todos juntos, na tentativa de dar mais um passo em Sua direcção.
Bendito seja por dar sempre novas oportunidades para Seus filhos, que se deixam desviar durante o caminho.
Que Sua luz bendita nos acompanhe e ilumine para sempre.
Ajude-nos a conseguir galgar mais um degrau para que amanhã, todos juntos, companheiros de jornada, possamos subir a escada.
Obrigado, meu Pai.
Assim que ele terminou, todos se despediram e voltaram ao corpo e para seus quartos.
Letícia, com os olhos marejados, viu Artur ir embora.
A única coisa que queria naquele momento era que ele conseguisse vencer, e assim ela pudesse ir ao seu encontro”.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:17 pm

A FORÇA DA DROGA
“Na manhã seguinte, Artur abriu os olhos, mas tornou a fechá-los, pensando:
"Quero dormir novamente e continuar sonhando.
Não me lembro do que sonhei, só sei que havia muitas pessoas e uma linda moça.
Quero continuar sonhando!"
Tentou dormir novamente, mas não conseguiu.
Ao lado da cama estava Osmar, que sorriu ao vê-lo daquela maneira.
Ele fora instruído por André para ficar ao lado de Artur e observar tudo o que ele fizesse.
Deveria também mantê-lo informado.
Para Osmar aquilo era um prazer, pois já estava ao lado de Artur havia muito tempo e aprendera a gostar dele.
Sem conseguir dormir, Artur se levantou e foi para o banheiro.
Estava terminando de tomar banho quando Rosaria entrou.
Parecia nervosa.
Ao vê-la, ele se enrolou em uma toalha e disse:
— Bom dia! Parece que está nervosa.
— Estou mesmo!
Ontem à noite, quando cheguei, quis conversar com você, mas estava dormindo profundamente e não consegui acordá-lo.
Recebi um comunicado dizendo que alguns homens importantes da organização querem se encontrar, e escolheram a galeria para isso.
Disseram que por ser uma galeria de arte e pertencer a uma mulher, não despertará suspeita.
— E qual é o problema?
Acredito que tenham razão.
— Tenho medo de que algo não dê certo.
Gostaria que fosse em outro local.
— Diga então que não quer.
— Eles não aceitarão isso.
— Então aceite.
Nunca ninguém desconfiará de nada.
— Acredita mesmo?
Ele a abraçou, dizendo:
— Claro que acredito.
Você é livre de qualquer suspeita.
Pertence a mais alta sociedade deste país.
Ela começou a rir.
— Não brinque com uma coisa séria como essa!
— Não estou brincando, estou dizendo o que penso.
Agora vamos ao trabalho, estou louco de vontade de ver o meu computador.
Saíram juntos, mas cada um em seu carro.
Assim que chegou à galeria, Artur foi procurar Gilberto.
Estava ansioso para lhe contar sobre um programa de computador que revolucionaria o mundo.
Assim que entrou na sala de computadores, viu Gilberto sentado em um deles.
Disse alegremente:
— Bom dia, Gilberto!
Não sei o que aconteceu, mas estou pensando em um programa de computador que vai revolucionar o mundo.
Não sei ainda para que sirva, nem como fazê-lo, mas estou certo de que juntos poderemos criá-lo!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:17 pm

Gilberto começou a rir:
— Pelo jeito, andou sonhando!
Chega aqui e diz que quer fazer um programa de computador, mas não sabe qual é, nem como fazer!
Está drogado logo pela manhã?
Artur respondeu sério:
— Nada disso!
Não estou drogado, aliás, nunca mais usarei droga, e estou falando sério!
Sei que preciso descobrir um programa novo, e vou precisar da sua ajuda.
— Está bem, mas para isso precisamos estudar.
Sabe que tudo o que fazemos é meio na intuição.
Você ainda teve escola, mas eu não.
Tudo o que aprendi foi sozinho.
— Rosaria tem muito dinheiro.
Ela poderá nos financiar e contratar o melhor professor que existir para nos ensinar aquilo que não sabemos.
— Já que é assim, mãos à obra.
Fale com ela.
— Agora não posso, precisamos esperar uns quinze dias.
— Por quê?
— Hoje ela está nervosa, disse que daqui a quinze dias haverá aqui uma reunião de alguns chefões da organização.
Gilberto se admirou:
— Aqui?! Por quê?
— Eles dizem que por ser uma galeria e pertencer a uma mulher não despertará suspeitas.
— Nisso eles têm razão.
Está bem, vamos deixar isso de professor para depois que eles forem embora.
O dia transcorreu normalmente.
Artur não sentiu falta da droga em momento algum.
A noite, em casa, após o jantar, foi para seu quarto.
Rosaria não estava em casa, ele a havia deixado na galeria preparando a visita dos chefões.
Ele se deitou em sua cama e começou a pensar em sua vida e na sua família.
A vontade da droga surgiu.
Ele resistiu, mas não por muito tempo.
Logo estava abrindo a gaveta e pegando um pacotinho de pó, que inspirou prontamente.
Em poucos minutos estava delirando sob o efeito do pó, para desespero de Letícia, que chamada por André, a um sinal de Osmar, estava ali.
Ela começou a chorar:
— André! Você não pode fazer nada para impedir?
Ele sozinho não vai conseguir resistir...
A droga já tomou conta do seu organismo...
— Sinto muito, minha filha, mas não posso influir no livre arbítrio dele.
Ele, e somente ele poderá escolher o caminho que deseja seguir.
Eles ficaram ao lado de Artur o resto da noite.
Pela manhã, ele acordou enjoado.
Estava bravo consigo mesmo por não ter resistido.
Mais uma vez prometeu a si mesmo:
"Nunca mais vou usar!
Preciso ficar bem para poder fazer o programa!"
Durante aqueles dias, quase não se encontrou com Rosaria em casa e na galeria.
Ela chegava tarde e saía cedo.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:18 pm

Precisava cuidar de tudo para a visita, e o mais importante, precisava de segurança para proteger os visitantes.
Com a desculpa de estar sozinho e carente, Artur se drogava todas as noites.
Toda a manhã Gilberto brigava com ele, pois assim que se encontravam percebia que os olhos de Artur estavam vermelhos, o que significava que ele havia se drogado.
Finalmente, o dia da visita chegou.
Rosaria saiu apressada de casa.
Não eram ainda seis horas da manhã.
Na noite anterior havia dito a Artur:
— Amanhã às dez horas será o encontro.
Quero que esteja lá para qualquer coisa.
— Estarei, estarei...
Não se preocupe.
Pontualmente às oito horas ele chegou.
Encontrou com Gilberto, dizendo:
— Hoje é o grande dia.
Depois que tudo terminar, falarei com ela a respeito dos nossos planos.
Gilberto sorriu:
— Estou ansioso.
Se isso que está pensando der certo, ficaremos ricos!
Artur riu gostosamente.
Não eram nove horas quando o primeiro convidado chegou.
Artur e Rosaria o receberam no saguão da galeria.
Depois deles, outros foram chegando e sendo recebidos pelos dois.
Artur notou que todos estavam bem-vestidos, e que realmente não despertaria suspeita alguma, pois eram pessoas que com certeza teriam dinheiro para visitar uma galeria e comprar suas obras de arte.
Gilberto estava em um canto da galeria.
Rosaria lhe ordenara que ficasse ali, prestando atenção em tudo que acontecia.
E, se houvesse algo de estranho, ele deveria avisar imediatamente.
Quando haviam chegado dezoito homens e mulheres, Rosaria os encaminhou para a sala de reuniões que ficava no interior da galeria.
Eles entraram e a porta foi fechada.
Artur respirou aliviado.
Disse para Gilberto:
— Agora poderemos descansar por um tempo.
Essa reunião deverá demorar umas três horas.
Gilberto disse:
— Nós poderíamos aproveitar esse tempo para ir à lanchonete tomar um café.
Acordei atrasado e vim correndo para cá, não tomei café e estou com fome.
Artur olhou em volta, estava tudo calmo.
A recepcionista sorriu para ele.
Ele lhe disse:
— Vou com Gilberto até a lanchonete.
Se dona Rosaria perguntar, diga onde estou.
Ela sorriu, dizendo:
— Ela não vai perguntar, pois sabe que vocês todos os dias a esta hora vão para lá.
Os dois, sorrindo, saíram.
A lanchonete ficava do outro lado da rua, em frente ao prédio da galeria.
Na lanchonete fez seus pedidos ao garçom, o que era desnecessário, pois ele já os conhecia e sabia do que gostavam de comer e tomar.
Enquanto esperavam o café e o lanche, Artur viu sobre o balcão um jornal.
Começou a ler sem muito interesse.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:18 pm

De repente soltou um grito que assustou Gilberto e o garçom.
Os dois perguntaram juntos:
— Que foi que aconteceu?
Artur tremia muito e estava branco como a neve.
Não conseguia falar, apenas apontou com o dedo para o jornal.
Gilberto leu a manchete da primeira página:
"Filho de conceituado advogado sofre um assalto e reage".
Gilberto abriu o jornal para ler a reportagem completa que dizia:
"Leandro Gomes de Matos, dezasseis anos, filho do doutor Álvaro Gomes de Matos, conceituado advogado desta cidade, reagiu a um assalto e foi baleado.
Está em estado grave no hospital.
Testemunhas dizem que, enquanto era conduzido ao hospital, Leandro dizia:
'Não podia deixá-los levar meu ténis, meu pai pensaria que eu estava mentindo'".
Assim que terminou de ler, Gilberto perguntou a Artur:
— Por que está tão nervoso?
Isto acontece quase todos os dias!
Artur, que chorava, disse:
— Ele é meu irmão...
Gilberto, tomado de surpresa, perguntou:
— Que está dizendo?
Você é filho do doutor Álvaro?
— Sou, e o meu irmão resistiu porque um dia eu menti que havia sido assaltado e que os ladrões haviam levado meu ténis importado...
Gilberto estava nervoso com aquela situação.
Não sabia o que dizer ou fazer.
Olhou para o relógio e disse:
— Precisamos voltar para a galeria.
Artur, ainda chorando, disse:
— Não quero voltar...
Preciso ir para o hospital...
Quero ver o que aconteceu com meu irmão...
Gilberto, muito nervoso, disse:
— Hoje não!
O assalto foi ontem, o que acha que seus pais farão quando o virem?
Não se esqueça de que estão nervosos e com certeza culpando-o por tudo o que aconteceu com seu irmão.
Vamos entrar logo.
Artur pensou por um minuto e viu que ele tinha razão.
Acompanhou Gilberto de volta à galeria.
Iam atravessando a rua quando Gilberto olhou novamente para o relógio e disse, quase gritando:
— Corra! Precisamos sair daqui!
Artur não entendeu o que estava acontecendo, porém Gilberto não lhe deu tempo para pensar.
Agarrou-o pelo braço e saiu correndo.
Assim que viraram a esquina, ele parou.
Artur, ofegante, perguntou:
— O que aconteceu?
Por que me fez correr assim?
Gilberto, também ofegante, ia responder, quando viram viaturas policiais cercando o prédio onde estava a galeria.
Uma delas parou bem em frente a eles, fechando a rua de um lado.
Vários soldados desceram e, armados, ficaram parados.
Ao ver aquilo, Artur imediatamente percebeu o que estava acontecendo.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:18 pm

Disse:
— O prédio está cercado, vão prender todos?
Gilberto, com um sorriso aliviado, respondeu:
— Espero que sim.
— Até Rosaria?
— Sim, ela também.
Você não pode negar que ela, embora tenha aquele rosto angelical, é também uma criminosa.
Com seu trabalho acaba com a vida de muitos jovens e suas famílias, assim como aconteceu com você e sua família.
— Como pode dizer isso?
Trabalhava lá!
Todos confiavam em você.
Afinal, quem é você na realidade?
— Agora já posso lhe dizer.
Sou um policial, estou infiltrado lá já há muito tempo.
Sabíamos que a galeria era só uma fachada.
Com o programa que juntos desenvolvemos, consegui e entreguei ao meu superior nomes e endereços.
— Você é um policial?!
— Sim! Meu desejo era outro, mas a vida me encaminhou para a polícia.
— Por que não nos prenderam antes?
— Sabíamos que eles fazem esse tipo de reunião que estão fazendo hoje.
Não queríamos prender só um, mas também nunca imaginamos que essa reunião seria feita aqui.
Parece coisa de Deus.
No dia em que me contou, imediatamente reportei ao meu superior, e tudo foi planeado.
— Você sabia que viriam?
— Claro que sim, por isso o tirei dali.
Não queria que quando chegassem o encontrassem.
— Por que fez isso?
— Não sei.
Eu o conheci, convivemos e me tornei seu amigo.
É, talvez tenha sido isso...
— Se eu for até lá, o que acontecerá?
— Será preso junto com os outros, e eu não poderei fazer nada.
Além do mais, precisa saber como seu irmão está.
— Você disse que meus pais não me receberiam.
— Disse e acredito.
Por isso, você agora vai comigo para minha casa.
Não poderá voltar para a casa de Rosaria, pois a polícia com certeza irá até lá.
Ficará em minha casa e eu irei até o hospital e descobrirei como ele está.
Artur achou que aquela seria a melhor solução, mas no mesmo instante lembrou de João e Rubinho, que estavam em casa.
Disse:
— Preciso telefonar para a casa de Rosaria, João e Rubinho não têm nada a ver com o trabalho dela.
Eles precisam sair dali antes que a polícia chegue.
— Tem certeza que não estão envolvidos?
— Até onde eu sei, não.
— Está bem, vá até aquele telefone e ligue a cobrar.
Não tenho cartão, e você não deve ter também.
Foi o que ele fez.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:18 pm

Ligou, João atendeu.
Em poucas palavras contou tudo o que havia acontecido.
Assustado, João disse:
— Estamos indo embora agora mesmo, mas não se preocupe, Rosaria não ficará muito tempo presa, ela tem amigos influentes.
— Tem certeza disso?
— Claro que sim. Até um dia.
— Você tem dinheiro para a fuga?
— Sim, não se preocupe.
Adeus, e, meu filho, saia dessa vida!
— Sairei. Pode ter certeza disso.
Artur desligou o telefone.
Estava com os olhos marejados.
Havia se afeiçoado a João.
Gilberto perguntou:
— Tudo bem? Eles vão fugir?
— Sim, agora mesmo.
— Pois bem, vamos para minha casa.
Deu sinal a um táxi que passava. Entraram.
Ele disse o nome de uma rua ao motorista. Seguiram.
Artur percebeu que o táxi se dirigia a um bairro afastado.
Não se preocupou com isso, seu pensamento estava voltado para Leandro e seus pais.
Podia imaginar o que eles sentiam naquele momento.
Ele próprio já havia lhes dado um desgosto enorme, e nesse momento, com isso que estava acontecendo, deveriam estar desesperados.
Comentou com Gilberto.
— No jornal estava escrito que Leandro foi em estado grave para o hospital.
Será que ele morreu?
Gilberto, que seguia o tempo todo calado, com o pensamento distante, demorou um pouco para responder:
— Não sei, tomara que não.
Assim que o deixar em casa irei para lá.
— Estou ansioso, poderíamos passar antes pelo hospital.
— Agora não posso, tenho algo importante para resolver.
Depois poderemos fazer o que você quiser.
Artur percebeu que ele estava preocupado.
Não sabia do que se tratava, mas achou melhor concordar.
De qualquer maneira, não poderia mesmo aparecer diante dos pais.
Mas precisava saber notícias de Leandro, e só Gilberto poderia ajudá-lo.
O táxi continuou.
Gilberto seguia calado, Artur também não estava com vontade de conversar.
Seguia pensando:
"Muita coisa aconteceu hoje.
Descobri que meu irmão está em um hospital, e que reagiu ao assalto por minha culpa.
Sim, não posso negar, se eu não tivesse mentido a reacção dele seria outra.
Se ele morrer, nunca me perdoarei.
Descobri também que o meu melhor amigo, aliás, o único, esteve o tempo todo mentindo para mim.
Estava apenas querendo tirar informações.
Sei também que a droga me levou a isso, causando esse sofrimento para meus pais e Leandro.
E ainda quase fui preso...
Preciso largá-la para sempre.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:19 pm

Sinto que tenho que descobrir esse programa.
Mas sei também que sem ajuda não conseguirei deixar a droga...”.
Enquanto pensava, lágrimas começaram a cair por seu rosto.
Gilberto percebeu e perguntou:
— Por que está chorando?
— Estou aqui analisando a minha vida...
Ela está destruída...
Por causa da droga causei muito sofrimento para muitas pessoas.
E agora meu irmão pode estar morrendo...
— Sempre lhe disse que precisava largar, mas você parecia feliz.
A quem causou sofrimentos?
— Primeiro aos meus pais.
Sei que eles devem estar sofrendo muito por minha ausência, e agora ainda mais por tudo que está acontecendo com Leandro...
— São seus pais, e eles com certeza o perdoarão e o ajudarão, se você fizer por merecer.
Hoje talvez não, porque seu irmão está ferido, mas amanhã, quem sabe.
Artur estava desesperado, não sabia o que fazer.
Continuou dizendo:
— Estou pensando.
Porque não aceitei a ajuda do meu pai?
Desde que descobriu, ele quis que eu fosse para uma clínica, mas eu fiquei com medo.
Se tivesse ido naquela época, talvez nada disso estivesse acontecendo...
— Acredito nisso, mas sempre é tempo.
Na minha família estamos todos seguindo uma doutrina que nos ensina que tudo está sempre certo.
Que Deus é um pai amoroso e justo, e que nunca nos abandona.
-Não conheço muito sobre Deus.
Nunca segui uma religião...
— Você pode não conhecê-lo, mas Ele com certeza o conhece e nunca o deixou só.
Sua justiça é divina.
— Acredita mesmo nisso?
— Há algum tempo talvez eu não acreditasse, mas hoje acredito sim, e neste momento acredito mais ainda.
— Por quê?
Gilberto ia responder, mas o motorista do táxi perguntou:
— Onde fica sua casa?
Gilberto respondeu:
— Ali, no número quarenta e seis.
Artur não percebera, mas o táxi entrara em uma rua onde as casas eram todas iguais.
Casas modestas, de uma boa aparência.
Pensou:
"Essas casas devem ter sido construídas por uma companhia.
Até que são bonitinhas."
O táxi parou em frente a um portão.
Gilberto pagou o motorista e os dois desceram.
Artur pôde notar que o jardim era bem cuidado e que tinha rosas de várias cores plantadas.
Gilberto abriu o portão e fez com que ele entrasse.
Uma moça ouviu o barulho do táxi.
Saiu, queria ver quem havia chegado.
Ao ver Gilberto, disse, sorrindo:
— Gilberto!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 9:19 pm

Você a esta hora em casa?
O que aconteceu?
— Não aconteceu nada, só preciso resolver um assunto.
Este é um amigo meu, ele está precisando de um lugar para ficar.
Vou ver se a mãe o deixa ficar aqui por alguns dias.
Artur, esta é minha irmã, Narinha.
— Bom dia, Narinha.
— Bom dia. Meu nome na realidade é Nara, mas todos me chamam de Narinha.
— Não sei por que está preocupado.
Conhece a mãe, claro que ela vai deixar.
Sabe que ajuda todo mundo!
— Nunca se sabe nunca se sabe...
Artur calculou que ela deveria ter uns doze anos e percebeu também que era muito bonita.
Entraram em casa.
Na sala simples, embora agradável, Gilberto indicou a Artur um sofá e fez um sinal para que ele se sentasse.
Depois perguntou a Narinha:
— A mãe está em casa?
— Claro que não!
Se estivesse teria também ido lá fora para ver quem havia chegado.
— Onde ela está?
— Foi até a venda, disse que precisava comprar mistura pro almoço.
Eu quis ir, sabe como ela gosta de andar.
— Sei sim. Artur fique à vontade.
Você quer um café ou alguma coisa para beber?
Chegamos quase na hora do almoço.
Minha mãe cozinha muito bem, vai gostar.
— Obrigado, mas não estou com fome.
Queria ir logo para o hospital.
— Eu disse que irei sozinho.
— Não, eu vou junto.
Fico esperando do lado de fora!
— Está bem.
Sentado ali, Artur estava aflito para ir ao hospital.
Não entendia por que Gilberto resolvera passar antes em casa.
Mas, enfim, estava feito, teria que esperar.
Narinha estava no portão ansiosa esperando a volta da mãe.
Assim que a viu apontando no início da rua, correu para encontrá-la.
Chegou perto dela e, esbaforida, disse:
— Mãe! Meu irmão tá lá em casa!
— Qui tem isso, minina!
— Ele está com um moço bonito!
— Menina! Que moço?
— Não sei, disse que ele está precisando de ajuda e vai pedir pra senhora o deixar ficar um pouco de tempo aqui em casa.
Deixe mãe! Deixe!
— Pur que todo esse interesse?
— Ele é tão bonito!
A mãe começou a rir.
Entendia perfeitamente a idade que a filha estava vivendo.
Disse:
— Si continua falando desse jeito, não vô dexá ele fica em casa.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 8:28 pm

— Deixe mãe!
Não vou falar mais nada, mas que ele é bonito, isso é!
— Tá bom, vô conversa com seu irmão e saber qui tá contecendo.
Entraram em casa.
Assim que elas chegaram e entraram na sala, Artur se levantou e quase desmaiou.
O mesmo aconteceu com a mãe de Gilberto, e ele correu em sua direcção para ampará-la.
Narinha não estava entendendo nada.
Perguntou:
— Que foi?
Artur, com muito custo, disse:
— Iracema! Aqui é sua casa?
Ela também, tremendo muito, respondeu:
— É sim...
Olhou para o filho. Disse:
— Jarbas, que tá acontecendo?
Você sabe quem ele é?
— Sei mãe, conheço-o já faz algum tempo, mas só fiquei sabendo hoje quem era realmente.
— E mesmo assim troxe ele aqui pra dentro da nossa casa?
— Precisava fazer isso.
A senhora sabe o quanto o odiei e tentei encontrá-lo, mas hoje tudo é diferente.
As coisas mudaram e ele está precisando da nossa ajuda.
— Nossa ajuda?
Artur, chorando, disse:
— Perdão, Iracema.
Sei que não mereço, mas mesmo assim peço perdão.
— Não sei se vô consegui te perdoar, não, minino.
Por sua causa sofri muito.
Você não me defendeu e deixo que seu pai me levasse pra delegacia.
— Sei disso, mas me arrependi muito.
Sei que me conhece desde criança e sabe que antes da droga eu era outra pessoa.
Ela não respondeu.
Olhou para o filho, perguntando:
— O que acha que vô fazê?
— Não sei.
No primeiro momento, quando descobri quem era ele, minha intenção foi prendê-lo.
Mas decidi que a senhora era quem deveria dizer o que ele merecia.
— Eu?!
— Sim, pois foi à senhora quem mais sofreu com tudo o que aconteceu.
Ficou doente.
Sei que é mais de tristeza do que outra coisa qualquer.
Por isso, a senhora é quem vai decidir.
Poderemos ajudá-lo, ou posso prendê-lo, já que toda a quadrilha está presa.
Iracema olhou para Artur, depois novamente para o filho.
Perguntou:
— Pur que não prendeu ele logo?
— Convivi com ele por algum tempo, percebi que era um garoto perdido na droga, mas que era um bom garoto.
Gostei dele sinceramente.
Posso até dizer que até hoje pela manhã, antes de eu descobrir tudo, era o meu melhor amigo.
Por isso o trouxe para cá, a senhora será quem decidirá a vida dele.
O que decidir, eu farei.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 8:28 pm

Iracema ficou olhando para Artur e relembrando de quando ele era pequeno e ficava em torno dela, correndo, brincando com Leandro.
Lembrou-se de Odete e Álvaro, que sempre a trataram bem e a ajudaram para que conseguisse criar os filhos.
Sabia que também eles foram enganados.
Com lágrimas nos olhos, disse:
— Sabe, Artur, naquele tempo foi tudo muito difici.
Eu e o Jarbas perdemo o emprego e os otro era tudo piqueno, não podia trabaiá.
Eu fiquei duenti, só chorava, não me conformava de pensa que ocê feiz aquilo.
O Jarbas não continuo na faculdade pra ser adevogado, mas estudo sozinho e conseguiu entra na polícia, e hoje é um bom policiá.
As otra criança foram crescendo.
Todos começaram a trabaiá e nós conseguiu compra esta casa.
Quando eu tava bem doente, uma vizinha me levo pra uma religião.
Lá eu aprendi que tudo tá sempre certo.
Qui nóis não deve julga ninguém.
Vai sabe que mardade eu num fiz na outra incarnação, num é memo?
Artur não entendia nada do que ela dizia em relação à religião.
Gilberto já havia comentado alguma coisa, mas ele não prestara atenção.
Ainda aturdido, Artur olhou espantado para Gilberto:
— Então quer dizer que você é o Jarbas que papai demitiu no escritório?
— Sim.
— Mas por que o nome Gilberto?
— Da mesma maneira que você usava o nome Fred.
Artur sorriu.
Gilberto continuou:
— Na polícia, nos envolvemos com marginais, pessoas sem escrúpulos.
A mudança de nome, então, torna-se necessária.
Só em casa me chamam de Jarbas.
Para o mundo, como policial, sou Gilberto.
Artur baixou os olhos, emocionado.
Iracema passou a mão em seu rosto.
Em seguida voltou-se para o filho, dizendo:
— Sabe meu fio, ocê feiz bem em trazê ele aqui.
Vou perdoa ele, e ele podi fica aqui em casa o tempo que precisa.
— No fundo, eu sabia que a senhora ia dizer isso.
Mas ele não pode ficar aqui em casa.
Se ficar, vai continuar se drogando.
Artur quase gritou:
— Nunca mais!
Não quero me drogar!
Vou conseguir deixar, você vai ver!
Gilberto começou a rir e perguntou:
— Quantas vezes você já disse isso?
Sabe que sozinho não conseguirá.
Conheço uma clínica que é muito boa, tem conseguido recuperar muitos que levei.
Se quiser, sairemos daqui agora mesmo e o levarei até lá.
— Como vou pagar?
Sabe que não tenho dinheiro!
— Ela é gratuita para quem não pode pagar.
Aqueles que podem, pagam.
Você quer ir?
Artur pensou um pouco e respondeu:
— Quero sim.
Você tem razão, sozinho não vou conseguir.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 8:29 pm

Em seguida voltou-se para Iracema:
— Obrigado, Iracema.
Embora eu tenha feito aquela maldade, sempre gostei de você.
Obrigado por seu perdão.
Ela abriu os braços e ele se aconchegou a ela.
Os dois, chorando, ficaram assim por muito tempo.
Depois que se soltou, ela disse:
— Só vô ti perdoa di verdade quando dexá essa porcaria di lado e volta a sê aquele Artur de antes.
— Voltarei a ser o mesmo, sim, e também vou deixar essa porcaria de lado.
Pode ter certeza disso.
Não entendi o que disse sobre essa religião, encarnação e tudo o mais, mas gostaria de entender.
Gilberto foi quem disse:
— Na clínica vai ter muito tempo para ler e aprender.
Prometo que não o deixarei sem livros.
Iracema sorriu:
— Isso memo, meu fio, faiz isso.
— Farei mãe, farei.
Agora que está tudo resolvido, podemos ir para a clínica.
— Não posso ir agora!
Antes preciso passar pelo hospital e ver como Leandro está!
Iracema se assustou:
— No hospital qui o Leandro tá jazendo lá?
Gilberto contou tudo o que havia acontecido.
Ela disse:
— Vô junto cum ocês, perciso sabe como ele tá.
Vô vê meu minino!
— Acha mesmo que deve ir?
— Acho meu fio, e vô.
— Vai encontrar com doutor Álvaro e dona Odete.
Eles devem estar lá...
— Nun mi importo.
Perciso vê o Leandro!
— Está bem, se quer assim, vamos.
Mas, Artur, não pense que o deixarei escapar.
Ficarei com você do lado de fora.
Minha mãe vai entrar e trazer notícias.
— Não vou tentar escapar, aprendi muito.
Só quero mesmo saber notícias de Leandro, depois irei com você.
— Então vamos logo.
Iracema trocou de roupa e foram embora.
André, Letícia e agora Hélio estavam ali e acompanharam toda a conversa.
Quando os três saíram, André disse:
— Ele está tendo mais uma chance, espero que agora aproveite.
Letícia, sorrindo, disse:
— Vai aproveitar...
Tem que aproveitar!
Narinha acompanhara toda a conversa.
Quando tudo acontecera, ela era pequena, mas se lembrava da doença da mãe e sabia que fora o filho da sua patroa que havia mentido.
Durante esse tempo todo, mesmo sem conhecê-lo, sentia muita raiva dele.
Mas, ao tomar conhecimento de tudo, começou a mudar de ideia.
Acompanhou-os até o portão.
Assim que desapareceram na esquina, ela pensou:
"Ele é bonito mesmo!"
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 8:29 pm

AJUSTE DE CONTAS
“A bala perfurara o intestino de Leandro.
Assim que chegou ao hospital, foi imediatamente operado.
Álvaro e Odete, avisados por dois soldados da polícia, chegaram o mais rápido possível.
Quando chegaram, Leandro ainda estava na sala de cirurgia.
Estavam desesperados.
Quando Leandro saiu para ir à aula de Inglês, nunca poderiam imaginar que uma coisa daquela fosse acontecer.
Ficaram na sala de espera, aguardando que a cirurgia terminasse e eles pudessem finalmente falar com o médico e realmente saber o estado de Leandro.
Inevitavelmente, os dois se lembraram de Artur e da história que ele havia inventado quando trocara o ténis pela droga.
Mas nenhum dos dois tocou no assunto.
A preocupação deles no momento era Leandro, que sabiam estar gravemente ferido.
Após duas horas de espera, o médico entrou na sala.
Disse confiante:
— Terminei agora a cirurgia.
Tudo o que era possível fazer, foi feito.
Agora só vai depender do organismo dele reagir.
Mas ele é um garoto saudável, tem tudo para resistir.
Álvaro, emocionado, não conseguia falar.
Odete perguntou:
— Podemos vê-lo?
— Por enquanto, não.
Ele está anestesiado e será enviado para a UTI.
Ficará lá por quarenta e oito horas.
Depois disso, se tudo estiver bem, irá para o quarto.
Daqui a uns quinze minutos os senhores poderão vê-lo através do vidro.
Depois disso, sugiro que vão para casa e voltem amanhã.
— Não sairemos daqui!
Eu e meu marido precisamos de notícias dele!
— Se quiserem, podem ficar, mas aconselho que não.
Amanhã precisam estar bem.
Prometo que assim que ele acordar, a enfermeira ligará para dizer como ele está.
— Está bem, doutor, vamos ver o que faremos.
O médico saiu.
Ela olhou para Álvaro, que continuava calado.
Perguntou:
— O que devemos fazer?
— Não sei, mas ficarmos aqui nesta sala também não vai resolver.
O médico tem razão, vamos para casa.
Avise sua mãe e peça para ela ir até nossa casa.
Juntos faremos uma prece e pediremos ajuda aos médicos espirituais.
Aliás, eles já devem estar aqui e ajudando.
Odete admirou-se com o que ele dissera.
Sabia que ele estava lendo muito e às vezes até participava de algumas sessões espíritas, mas não imaginava que ele acreditasse tanto.
Disse:
— Está bem, querido.
Faremos isso, e amanhã bem cedo retornaremos.
Foram para casa com o coração apertado, pois não sabiam o que aconteceria com Leandro.
Assim que chegaram em casa, Odete telefonou para sua mãe e contou o que havia acontecido.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 8:29 pm

Noélia, a princípio, levou um susto, mas em seguida disse:
— Minha filha, entregue a vida nas mãos de Deus.
Ele é quem sabe de tudo, nós não sabemos de nada.
Estou indo para aí.
Meia hora depois estava lá.
Encontrou os dois abatidos e tristes.
Abraçou-os, dizendo:
— Quando voltarão ao hospital?
— Amanhã bem cedo.
— Irei também, tenho certeza que teremos boas notícias.
Álvaro, ao abraçá-la, começou a chorar:
— Dona Noélia...
Por que Deus está fazendo isso connosco?
Já perdemos Artur e agora está levando Leandro...
Ela olhou bem em seus olhos.
Respondeu:
— Não diga isso! Vocês não perderam Artur.
Ele voltará, e Leandro também ficará bom.
Só precisamos confiar na bondade e justiça de Deus.
— A senhora faria uma prece connosco?
— É claro que sim, para isso estou aqui.
Sentaram-se e juntos fizeram a prece pedindo por Leandro.
Quando estavam quase terminando, Noélia disse:
— Meu Deus, por favor, proteja Artur.
Faça com que ele volte ou ao menos nos dê notícias.
Meia hora depois ela se despediu e combinou que os encontraria pela manhã no hospital.
Naquela noite, nenhum deles conseguiu dormir.
Odete foi a primeira a se levantar.
Foi para a cozinha preparar o café.
Em seguida Álvaro chegou.
Tomaram apenas um café preto e saíram em seguida.
Assim que chegaram ao hospital, foram imediatamente para o andar onde estava a UTI.
A enfermeira lhes disse que Leandro havia passado bem à noite, mas que eles não poderiam entrar.
Entenderam, e ela deixou que eles o vissem pelo vidro.
Leandro estava dormindo.
Recebia soro e sangue.
Ficaram no vidro por muito tempo, até que a enfermeira sorriu enquanto fechava a cortina.
Eles ainda permaneceram ali por um bom tempo, depois foram para a sala de espera do andar.
Em seguida Noélia chegou.
Assim que os viu, foi encontrá-los.
Foi informada de como estava seu neto.
Os três sentaram-se e intimamente fizeram suas preces.
Já passava do meio-dia quando Noélia disse:
— Deveríamos comer alguma coisa.
Precisamos estar bem para entrar e ver Leandro.
Embora com problemas graves, eles entenderam que ela tinha razão.
Resolveram que comeriam ali mesmo no hospital, pois havia uma lanchonete.
Saíram da sala e se dirigiram ao elevador.
Assim que a porta do elevador se abriu, viram Iracema e Jarbas que estavam saindo.
O coração dos três começou a disparar.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 8:29 pm

Ficaram mudos de surpresa.
Noélia foi a primeira que conseguiu falar:
— Iracema! Que bom vê-la!
Como está?
— Tô bem, dona Noélia.
Só vim vê como tá o meu minino.
— Ele está melhorando, e agora, vendo-a aqui, tenho certeza que ele vai ficar bom e logo voltará para casa.
Odete, chorando, disse:
— Iracema! Nós a procuramos tanto, mas não a encontramos você havia se mudado.
Quando descobrimos tudo sobre Artur, entendemos a grande injustiça que cometemos.
Poderá nos perdoar?
— Dona Dete, isso num tem mais importança, não.
Já se passo muito tempo.
Aprendi que tudo tá certo nessa vida!
Só o que importa agora é o Leandro.
Ele vai fica bom, num vai?
— Vai sim! Claro que vai.
O médico disse que às três horas poderemos um de cada vez, entrar no quarto e ficar com ele alguns minutos, só que não pode ser muito tempo.
— Sei que num sô da família, mais vô fica contente só di vê ele de longe.
Odete a abraçou, chorando, disse:
— Claro que você vai entrar e falar com ele!
Garanto que ele ficará muito feliz.
Foi ele quem mais insistiu para que fossemos procurá-la, nunca acreditou na sua culpa.
Ele gosta muito de você...
Iracema também a abraçou com carinho.
— Se a senhora dexá, craro que quero vê ele.
— Vai vê-lo sim.
Iracema olhou para Álvaro, dizendo:
— Como vai, doto?
Álvaro, emocionado e envergonhado, não dissera nada até aquele momento, mas diante da pergunta de Iracema, não teve como não falar.
Respondeu:
— Desculpe, mas estou muito emocionado por encontrá-la.
Não sei o que fazer para que me perdoe, e a você, Jarbas.
Fui injusto e cruel.
Iracema olhou para o filho, que disse:
— Doutor, eu já senti muita raiva do senhor.
Com sua injustiça não permitiu que eu realizasse o meu sonho de ser um advogado assim como o senhor.
Mas, de qualquer maneira minha vida mudou.
Hoje sou um policial e me orgulho muito disso.
— Se quiser, pode voltar ao escritório e para a faculdade.
Será o mínimo que poderei fazer para me redimir.
— Obrigado, doutor, mas não precisa fazer nada disso, nem ficar com remorso.
Estamos bem, e só queremos o bem de Leandro.
— Estou desesperado, não sei o que fazer.
Já perdi Artur para a droga, e agora Leandro.
— Tenha fé que ele vai ficar bem.
Quanto a Artur, também sempre existe uma chance dele se recuperar.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 8:30 pm

— Acredita mesmo nisso?
— Sim, já lhe disse que sou policial, já vi muitos se recuperarem.
Acredite na protecção divina.
Agora que já conversamos, preciso ir embora.
Já percebi que não vou conseguir tirar minha mãe daqui antes que veja Leandro.
Será que o senhor poderia colocá-la em um táxi quando ela quiser ir embora?
— Não se preocupe, eu mesmo a levarei para casa.
Jarbas despediu-se de todos e foi embora.
Havia deixado Artur na rua.
Não sabia se o encontraria, estava preocupado.
Olhou para o lugar onde o havia deixado, mas ele não estava lá.
Decepcionado, pensou:
— Ele fugiu...
Eu sabia que isso poderia acontecer, mas precisava arriscar.
É uma pena...
Estava indo embora quando ouviu:
— Gilberto!
Voltou-se e viu Artur, que vinha correndo.
Sorriu aliviado e disse:
— Que bom que você está aí!
— Por que está dizendo isso?
— Pensei que tivesse fugido!
— Não! Só fui até o estacionamento ver se o carro do meu pai estava lá!
Viu Leandro? Como ele está?
— Está na UTI, mas parece que vai ficar bom.
Minha mãe ficou lá com seus pais e sua avó.
— Vai ficar bom mesmo?
— Vai sim, precisamos acreditar nisso.
— Cumpriu sua promessa?
Não disse aos meus pais que eu estava aqui e que estou indo para a clínica?
— Não disse nada, já que você não quer.
— Não, não quero.
Quando eles me virem novamente eu estarei curado.
Mas tenho medo de não conseguir me livrar da droga.
— Terá uma oportunidade.
A clínica para a qual o estou levando é muito boa, só dependerá de você.
Estarei sempre ao seu lado.
Mesmo não sabendo porquê, tornei-me seu amigo e quero ajudá-lo.
Agora está pronto?
Vamos para a clínica?
— Vamos. Ao menos neste momento estou disposto a me livrar disso.
Quero ser um homem livre e poder abraçar novamente meus pais e Leandro.
— Continue pensando assim e conseguirá. Vamos indo?
Artur concordou com a cabeça e juntos seguiram.
Na clínica foi informado que teria de ficar três meses sem receber visitas. Ele concordou.
Esses três meses foram muito difíceis.
Sofreu muito com a abstinência, algumas vezes até tentou fugir e ir em busca da droga.
Nessas horas sempre teve alguém a seu lado.
Os médicos, enfermeiros e viciados como ele, mas que já estavam ali havia mais tempo.
Letícia, André e Hélio também não se afastaram dele.
Jarbas não podia vê-lo, mas sempre ia lá para saber como ele estava e lhe levava livros para que lesse.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 8:30 pm

No primeiro dia depois dos três meses, Iracema e toda a sua família foi visitá-lo.
Assim que os viu, ele não coube em si de tanta felicidade.
Jarbas foi acompanhado de uma moça muito bonita.
Ficou feliz por ver que Artur estava bem.
Abraçando-o, disse:
— É, meu amigo, parece que conseguiu vencer.
— Ainda não.
Estou tentando, e para isso nunca posso me esquecer que sou um doente e por isso preciso tomar cuidado.
— Quero lhe apresentar minha esposa.
O nome dela é Marisa.
— Você se casou? Quando?
— Faz um mês, sabe como é.
Aconteceu, e nós estamos esperando um filho.
— Um filho?! Meus parabéns!
Marisa, você tirou a sorte grande.
Jarbas é o melhor homem do mundo!
Por mais que eu faça, nunca conseguirei agradecer por tudo que fez por mim.
Olhou para Iracema e abraçou-a, dizendo:
— A você também, Iracema, nunca poderei agradecer por tudo, e principalmente por ter me perdoado.
— Dexa isso pra lá, meu fio.
Tô feliz por te vê bonito como era antes.
— Estou bem mesmo, mas durante esse tempo todo não tive notícias de Leandro.
Como ele está?
— Tá bem, minino! Muito bem!
Ocê num sabe o qui cunteceu naquele dia que a gente foi lá!
— O que aconteceu?
— Na hora da visita, a sua mãe, aquela santa, dexô eu entrar pra vê o meu minino.
Ele, coitadinho, num cunseguia nem fala de tão fraquinho que tava, mais ocê num vai credita na cara que ele feiz quando me viu.
Abriu uma risada grande na cara e disse:
"— Iracema! Você está aqui?
Papai, mamãe! Conseguiram encontrá-la?"
"— Não, meu filho, ela nos encontrou, tudo para poder vêlo."
— Eu chorava tanto que num consegui dizê nada.
Só o beijei nada mais.
Dispois desse dia, eu fui no hospitá todos os dia, até que ele foi pra casa.
Teve qui toma remédio, mas eu tava lá pra isso.
— Você voltou a trabalhar lá em casa?
— Vortei sim, seus pai pediram, eu aceitei.
Meus fio nun queria, mais eu gosto muito de oceis.
Inda mais sabendo qui o Leandro tava percisando.
— Estou muito feliz por isso.
Mas você não contou pra eles que estou aqui, contou?
— Quando via eles triste, muitas veiz tive vontade di conta, mas tinha prometido pra ocê, num pudia te trai.
— Mesmo eu tendo traído você um dia?
— Esquece isso, minino, só procura si cura.
Tudo isso já passo.
— Obrigado, Iracema.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 8:30 pm

— Quem sabe o que eu fiz na outra incarnação, num é memo?
— Você não deve ter feito nada errado.
— Num sei não... Não sei não.
Ficaram ali durante todo o período de visita.
Após um ano de tratamento, durante o qual Iracema e sua família nunca deixaram de visitá-lo, Artur finalmente teve alta.
Em um sábado pela manhã Jarbas foi lá para buscá-lo.
Estava radiante, pois pelos olhos de Artur percebeu que ele estava livre das drogas.
Mas, como policial, disse:
— Parece que está bem.
Agora veremos como se comportará lá fora...
Artur sorriu:
— Sei o que está pensando, mas nunca mais chegarei perto da droga outra vez.
Nesse tempo todo em que estive aqui pude pensar muito em tudo o que aconteceu.
Vi que não só quase destruí minha vida, como também daqueles que amo.
Quase perdi meu irmão.
Perdi muito tempo da minha vida envolvido nesse mundo de sonhos e ilusão.
Mas ainda tenho chance para recuperar o tempo perdido.
Jarbas o abraçou, enquanto dizia:
— É isso aí, meu amigo, nunca é tarde para recomeçar.
Espero que não se esqueça do que está dizendo hoje.
— Não me esquecerei.
Além do mais, aprendi muito com os livros que você me trouxe.
Hoje tenho muitas respostas para minhas dúvidas.
Sei que nunca estou só, por isso quero estudar a fundo essa doutrina.
— Fico feliz por isso.
Agora vamos? Quer ir para sua casa?
— Não, ainda não.
Só voltarei para lá quando estiver realmente curado.
— Sabe muito bem que essa sua doença é incurável.
Terá que ficar longe das drogas para sempre.
Vamos para casa.
Minha mãe me disse que, se você quiser, poderá ficar lá para sempre.
— Iracema é uma mulher maravilhosa!
— É sim, e eu me orgulho muito dela.
André e Hélio estavam lá.
André sorriu e disse:
— Viu, Hélio, desde que você se afastou dele, deixou-o livre para decidir sua vida.
Hélio sorriu:
— Ainda bem que naquela noite você nos reuniu e eu pude saber de como tudo havia acontecido.
Sabendo de tudo, não só me afastei de Miguel como eu próprio encontrei o meu caminho e a minha paz.
— Foi uma tentativa que deu certo.
— E se não tivesse dado certo?
— Haveria outra, e mais outra, até chegar naquela que daria certo.
Agora vamos acompanhá-los.
Quero estar presente quando Artur encontrar Iracema novamente.
Quando chegaram à casa de Iracema, a alegria foi geral.
Um almoço estava preparado, pois Iracema tinha quase certeza que Artur iria para a casa dela.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 8:30 pm

Marisa, esposa de Jarbas, aproximou-se.
Trazia uma criança em seus braços.
Depois de abraçar Artur, disse:
— Esta é a nossa filhinha, seu nome é Renata.
Ela não é linda?
Artur, um pouco sem jeito, pegou a criança no colo.
Assim que isso aconteceu, ela abriu os olhos e todos podiam jurar que ela sorrira.
Artur ficou emocionado.
Disse:
— Ela é linda mesmo!
Esses olhos parecem que já vi antes...
Iracema, dando uma gargalhada, disse:
— Vai vê qui já viu mesmo! Quem sabe, né?
A gente nun sabe nada dessa vida!
Quem sabe ocê num conheceu ela di otra incarnação, num é mesmo?
Todos riram.
A felicidade ali era completa.
Com a convivência de todo aquele ano, a amizade entre todos crescera.
Narinha estava encantada com a figura de Artur, mas ele olhava sem parar para os olhos da criança e pensava:
— Já vi esses olhos antes!
Ela é linda!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

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