É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 05, 2017 7:54 pm

Não sentia nada, todo aquele mal-estar terminara.
Olhando no espelho, sorriu enquanto pensava:
"Hoje estou bem, assustei-me à toa.
Devo mesmo ter comido algo que me fez mal.
Fiquei preocupado sem razão.
Imaginei muitas coisas.
Fiquei com medo de estar viciado, mas como Rodrigo disse que só vou me viciar se quiser.
Nunca mais vou fumar. Tudo passou."
Tomou banho, desceu.
Sua mãe havia ido ao supermercado.
Seu pai, junto com Leandro, sorriu ao vê-lo entrar na sala.
Leandro disse:
— Estamos esperando você para irmos ao clube.
— Não posso ir.
— Por quê?
—Vou até a casa de uma amiga da escola.
Leandro, com olhar maroto, disse:
— Papai, não disse que ele tinha arrumado uma namorada?
Álvaro olhou paca Artur, que respondeu irritado:
— Não é nada disso!
E só uma amiga! Nós vamos estudar!
Álvaro disse:
— E só isso mesmo que deve fazer.
Sabe que não quero que namore, ainda é muito cedo.
Tem que estudar.
— Sei disso, não se preocupe, não estou namorando.
E só uma amiga.
— Está bem.
Não quer mesmo ir ao clube?
— Não.
— Então, até logo.
Vamos, Leandro. Vamos aproveitar o sol.
Quando estavam saindo, Artur disse:
— Esperem só um pouco, só irei à casa de Mariana à tarde, tenho tempo para ir com vocês até o clube.
Álvaro sorriu:
— Está bem, mas apresse-se.
Artur subiu correndo para o quarto, pegou sua roupa de banho e desceu.
Os três saíram alegres em direcção ao clube.
Lá, enquanto Álvaro jogava ténis, Artur e Leandro, alegres, nadavam.
Artur estava feliz, sentia que tudo estava bem, voltara a ser como antes.
Leandro também estava feliz.
Disse:
— Artur, hoje você está bem, voltou a ser o meu irmão de antes.
Artur sorriu:
— Nunca deixei de ser seu irmão.
Também não sei por que está dizendo isso.
Era quase meio-dia quando Odete chegou.
Foi em direcção à piscina.
Viu seus filhos nadando e brincando.
Sabia que Álvaro estava na quadra de ténis.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 05, 2017 7:54 pm

Ficou olhando um pouco, depois chamou os dois:
— Artur! Leandro!
Eles olharam para ela e, juntos, saíram da piscina.
Assim que chegaram perto, ela disse:
— Esta na hora do almoço, vamos até a quadra esperar o pai de vocês terminar de jogar.
Sob protestos, os dois a acompanharam.
Álvaro terminou de jogar.
Despediu-se dos amigos e foi para junto da família:
— Perdi a partida, mas não faz mal, ao menos fiz exercício físico.
Todos riram, pois sabiam que ele ficava muito bravo quando perdia no ténis.
Almoçaram. Artur comeu muito bem.
Após o almoço voltaram para casa, Artur estava ansioso, à hora de ir para a casa de Mariana estava chegando.
Vestiu-se, colocou seu ténis.
Olhou-se varias vezes no espelho.
Queria mostrar boa aparência.
Havia pensado muitas vezes no que diria a ela.
"Vou pedir para namorá-la.
Ela vai aceitar, só tenho que deixar bem claro que preciso estudar.
Mas poderemos nos ver na escola ou na sua casa.
Depois a convidarei para que venha até aqui."
Após julgar que estava pronto, deu uma última olhada no espelho e desceu.
Na sala de televisão, seus pais conversavam; olhou para eles, dizendo.
— Papai, mamãe, estou saindo.
Voltarei antes do jantar.
Odete aproximou-se e beijou o rosto do filho.
— Está bem, divirta-se.
Artur saiu. Mariana morava a quatro quadras de sua casa.
Decidido, caminhou.
Parou em frente ao portão da casa dela.
Passou a mão pelo cabelo, respirou fundo.
Ia apertar o botão da campainha, mas estremeceu.
"Não posso fazer isso.
Não sei o que dizer.
Não vou ter assunto.
Vou parecer um bobo.
Não, não posso entrar."
Afastou-se dali quase correndo.
Chegou à praça que existia lá perto.
Sentou-se em um banco.
Tremia muito, estava nervoso.
"Por que essa insegurança voltou?
Sei que ela gosta da minha companhia.
Não, ela gosta daquele Artur alegre e falante.
Que conversa sobre todos os assuntos.
Não deste que está aqui.
Não saberei falar com ela... a não ser que fume um daqueles cigarros... isso mesmo.
Preciso de um cigarro... vou ate a casa de Rodrigo, ele deve ter um."
Saiu correndo.
Assim que chegou, tocou repetidas vezes a campainha, mas ninguém atendeu.
Estava nervoso.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 05, 2017 7:55 pm

Trémulo, tocou, tocou, mas nada.
Teve que aceitar, Rodrigo não estava em casa.
Saiu dali.
"Não posso voltar para casa.
Todos vão querer saber por que voltei cedo.
Vou tentar novamente.
Vou até a casa de Mariana."
Fez isso, mas, como da primeira vez, não conseguiu apertar a campainha.
"Não posso... não posso."
Ficou andando o resto da tarde.
Estava novamente triste e com aquele ardor no estômago.
Às seis horas da tarde voltou para casa.
Ali tudo continuava como sempre.
Entrou, cumprimentou a todas, foi para o seu quarto.
Quando estava subindo a escada, ouviu a voz de Leandro:
— Então, Artur, namorou muito?
Nervoso, ele respondeu:
— Já disse que não estou namorando!
Pare de falar assim!
Álvaro disse:
— Espere ai, mocinho, seu irmão está apenas brincando, não precisa ser malcriado.
— Desculpe papai; desculpe Leandro.
Só não quero que digam que estou fazendo algo que na realidade não estou.
Terminou de subir a escada, entrou no quarto.
Era o único lugar onde se sentia bem.
Mais tarde desceu para o jantar. Continuava nervoso e tremendo.
Conversou um pouco, voltou para o quarto.
Estava novamente com aquela tristeza da qual não sabia o motivo.
Não conseguia ficar parado, andava de um lado para o outro.
Deitava, levantava, ia ao banheiro.
Isso durou a noite toda.
Dormia, acordava, levantava e deitava novamente.
Já eram onze horas da manha.
Artur dormia profundamente quando Leandro entrou.
Aproximou-se da cama e suavemente chamou:
— Artur, acorde...
Artur abriu os olhos.
Ao ver Leandro ficou furioso.
Sentou-se na cama e disse, gritando:
— O que você quer?
Será que não posso dormir?
Assustado, Leandro respondeu:
— Mamãe pediu que eu viesse chamar você. Já é tarde...
Artur olhou para o relógio.
Ao ver a hora, percebeu que realmente era tarde.
Olhou para Leandro, notou que ele estava assustado:
— Desculpe, Está bem, pode descer, já vou me levantar.
Leandro saiu do quarto quase correndo.
Artur permaneceu sentado na cama, sentiu que o tremor e a ansiedade continuavam.
Percebeu que precisava de um remédio, sabia que só Rodrigo poderia ajudá-lo, ou pelo menos dizer por que estava sentido aquilo.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 05, 2017 7:55 pm

Pegou o telefone, discou.
O telefone chamou varias vezes, até que alguém atendeu:
— Alô, quem é?
— Oi, Rodrigo, sou eu, Artur.
Preciso de sua ajuda!
Não estou me sentindo bem...
— O que está sentindo?
— Estou nervoso, com aquela sensação estranha...
— Venha até aqui, vou lhe dar o remédio.
— Irei, mas, por favor, não saia de casa...
— Não vou sair, hoje é domingo, minha mãe está em casa.
— Está bem, logo mais estarei aí.
Desligou o telefone, foi até o banheiro, olhou-se no espelho.
Estava com olheiras profundas:
"Vou, sim!
Não estou aguentando mais!"
Aliviado, pois sabia que logo ficaria bem, ensaiou um sorriso e desceu.
Após o almoço, disse:
— Papai, mamãe, vou até a casa de Rodrigo.
Vamos ter uma prova, e ele está com um pouco de dificuldade.
Ligou pedindo para que eu vá até sua casa.
Odete admirou-se:
— Mas, meu filho, hoje é domingo!
—Sei mamãe, mas a nossa prova é amanhã!
— Ora, Odete, deixe o menino ir.
Isso é um sinal de que ele não está doente!
— Está bem, meu filho, mas não volte muito tarde.
Artur, aliviado, beijou o pai e a mãe e saiu.
A ansiedade era intensa, seu corpo continuava tremendo.
Chegou ao portão da casa de Rodrigo, que ficava duas ruas atrás da sua.
Rodrigo morava em um sobrado junto com a mãe.
O nível de vida dele era bem diferente do de Artur.
Sua mãe separara-se de seu pai já havia algum tempo.
Ela trabalhava muito para poder manter a casa e seu filho em uma boa escola.
Por trabalhar muito, quase nunca estava em casa.
Rodrigo vivia praticamente sozinho.
Artur tocou a campainha.
A mãe de Rodrigo abriu:
— Olá, Artur, como vai?
— Olá, dona Glória, estou muito bem.
Vim aqui falar com Rodrigo.
— Que bom, pode entrar.
Ele está em seu quarto, vou chamá-lo.
Artur entrou, sentou-se em um sofá enquanto dona Glória subia uma escada que levava ao andar superior.
Ele ficou olhando tudo a sua volta.
Aquela sala era bem diferente da sua, embora estivesse bem mobiliada.
Era pequena e apertada.
Os móveis também não eram da mesma qualidade dos seus.
Enquanto Artur observava, Rodrigo chegou com a mãe:
— Olá, Artur, pensei que fosse demorar!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 05, 2017 7:55 pm

— Preciso tirar algumas dúvidas de Português.
Dona Glória admirou-se:
— Você acha que Rodrigo vai tirar essas dúvidas?
Ele está indo tão mal na escola!
— Estou indo mal, mas em Português sou bom, não é, Artur?
Artur não estava acostumado a mentir.
Aliás, nunca mentira, por isso não estava muito à vontade quando respondeu:
— E isso mesmo!
Em Português ele é muito bom...
Rodrigo sorriu maroto:
— Venha, Artur, vamos para o meu quarto.
Artur, um pouco sem graça, seguiu Rodrigo.
Já no quarto, disse nervoso:
— Rodrigo, não estou me sentindo bem!
Estou com uma sensação estranha!
Estou ansioso e também tremendo muito...
Sabe me dizer o que é?
— Isso não é nada!
Vou lhe dar aquele remédio, vai ver como ficará bom...
— Não há outra maneira?
Estou ficando com medo!
Não estou mais aguentando, precisei mentir para os meus pais, não gosto disso!
— Não se preocupe, vai ficar bem.
Também, uma mentirinha não faz mal algum!
— Onde está o remédio?
— Não podemos usar aqui, minha mãe está em casa, precisamos sair. Vamos?
— Claro que vamos, preciso me livrar deste mal-estar!
Desceram.
A mãe de Rodrigo estava na sala assistindo televisão.
Ele se aproximou, dizendo:
— Mãe, eu e Artur vamos dar umas voltas por aí!
Sem tirar os olhos do televisor, disse:
— Não vão estudar?
— Primeiro vamos à casa de um amigo pegar um livro.
— Esta bem, meu filho, mas não demore.
Não se esqueça que estou aqui sozinha...
— Não me esquecerei, sabe que adoro ficar em sua companhia.
Saíram para a rua.
Artur estava sentindo-se cada vez pior:
— Rodrigo, dê-me o remédio, não estou me sentindo bem...
Ele não respondeu, apenas sorriu.
Chegaram a uma praça.
Rodrigo disse:
— Vamos nos sentar aqui.
— Sentar! Não quero sentar!
Preciso do remédio!
Rodrigo falou devagar:
— Fique tranquilo, aqui está o seu remédio.
Vai ver como ficará bem...
Artur pegou em suas mãos o cigarro que Rodrigo lhe oferecia.
Pensou um pouco.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:06 pm

Devolvendo o cigano, disse:
— Não! Não quero!
Tem que haver outro remédio!
Estou achando que esse mal-estar que estou sentindo é por causa dos cigarros que fumei!
Não quero!
— Você é quem sabe...
O único remédio que conheço é este...
— Você me garantiu que eu não me viciaria!
— Não está viciado.
Isso acontece com todos nas primeiras vezes, mas logo vai passar e não sentirá mais isso...
— Tem certeza do que está me dizendo?
— Claro que tenho...
Fume este que estou lhe dando e verá como vai ficar bem...
Artur ainda pensou em não aceitar, mas estava mesmo sentindo-se muito mal.
Pegou o cigarro que Rodrigo lhe oferecia:
— Vou tentar, preciso fazer qualquer coisa para ficar bem.
Tenho que estudar, vamos realmente ter provas esta semana!
Rodrigo acendeu o cigarro, deu uma tragada e entregou para Artur, que também fumou do modo como ele havia lhe ensinado.
Após ter dado três tragadas, percebeu que aquele mal-estar estava passando.
— Rodrigo! A ansiedade e o mal-estar estão passando!
— Não disse que ia ficar bem?
E assim mesmo...
Continuou fumando.
A cada tragada parecia que sua cabeça flutuava e sentia ser outra pessoa, diferente daquela que havia chegado à casa de Rodrigo.
Não estava mais nervoso, sentia que estava flutuando.
Rapidamente começou a rir e querer sair correndo.
Rodrigo ficou olhando para ele sem dizer uma palavra, apenas observando.
Logo Artur estava muito bem.
Ficou mais um tempo por ali, olhando as árvores e vendo os pássaros, que para ele possuíam cores deslumbrantes.
Começou a escurecer, lembrou-se que precisava voltar para casa.
Rindo muito, falou:
— Preciso voltar para casa, meus pais não gostam que eu fique na rua durante a noite.
— Vamos voltar agora você está bem.
Não diga nunca que não o ajudei.
Foi até a casa de Mariana?
— Fui, mas não consegui tocar a campainha.
— Agora acredita que conseguiria?
Rindo muito, respondeu:
— Acredito que sim!
Estou muito bem.
— Porque não vai ate lá?
— Agora não posso, preciso voltar para casa.
— Amanhã vai conseguir.
— Acho que sim.
Você é mesmo um amigão!
— Pode ter certeza que sou...
Despediram-se, e Artur voltou para casa.
Sentia que estava tudo bem, todo aquele mal-estar havia passado e ele estava até muito feliz.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:06 pm

Entrou em casa.
Seu pai lia um jornal, sua mãe preparava o jantar e Leandro jogava vídeo game.
Foi até a cozinha:
— Mamãe, estou com muita fome, o que temos para comer?
— Sabe que não gosto de anunciar a comida antes da hora, mas vai gostar muito do que estou preparando.
Volte para a sala, logo mais estará pronto!
Em seu quarto, ligou o computador e começou a mexer, precisava fazer um trabalho que seu professor de computação havia pedido. Pensava:
"Sei que vou trabalhar toda a minha vida com computadores.
Vou aprender cada vez mais.
Quero dominar tudo muito bem.
O que mais desejo é aprender a fazer programas".
Ficou ali por um bom tempo, até que Leandro entrou sem bater.
— Artur, mamãe está chamando, o jantar está pronto!
Ele olhou para o irmão, levantou-se e mexeu nos cabelos dele da maneira que sabia que o deixava irritado.
Leandro pegou uma almofada que estava em cima de um sofá, atirou nele e, rindo, saiu correndo.
Artur, rindo também, correu atrás dele.
Chegaram correndo na sala.
Odete também sorriu ao ver os dois brincando, mas fingindo estar brava, disse:
— Vocês dois, querem parar com essa briga!
Vamos jantar!
— Não estamos brigando, só que Artur mexeu nos meus cabelos, e eu não gosto!
— Ele me jogou uma almofada!
— Está bem, mas agora chega!
Todos se sentaram. Artur sentia muita fome.
Ele mesmo estranhou, pois não era de comer muito.
Sua mãe também percebeu que estava comendo mais do que o normal, mas lembrando do que havia acontecido no outro dia, não disse nada.
Assim que terminaram de jantar, ele voltou para o seu quarto.
Estava na metade do trabalho, precisava terminar.
Voltou a mexer no computador, mas logo começou a sentir muito sono.
Estranhou, porque não era de dormir cedo.
Tentou continuar estudando, mas não conseguiu, o sono foi mais forte.
Desligou o computador, deitou-se e dormiu imediatamente.
Antes de deitar, Odete passou pelo quarto dele.
Vinha acompanhada por Leandro.
Os dois admiraram-se por ele já estar dormindo. Leandro se deitou, ela os cobriu e saiu.
No meio da noite Artur acordou:
"Não, meu Deus! Não pode ser!
Aquela sensação está voltando!"
Levantou-se. Com a mão sobre o estômago, foi até o banheiro.
Olhou-se no espelho.
Percebeu que ainda estava com grandes olheiras.
Sua boca estava seca e o tremor voltava com mais intensidade:
"E agora, o que vou fazer?"
Resolveu tomar um banho para ver se melhorava.
Ligou o chuveiro, entrou e ficou ali parado, apenas sentindo a água cair por seu corpo.
Ficou ali por quase meia hora.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:07 pm

Saiu do chuveiro, estava um pouco aliviado, mas percebeu que o tremor estava intenso.
Foi para a cama, deitou-se e ficou o resto da noite virando de um lado para o outro.
Odete, como fazia todos os dias pela manhã, abriu a porta.
Estranhou ao ver Artur acordado olhando para o tecto.
— O que aconteceu? Já está acordado?
Esta sentindo alguma coisa?
Está com alguma dor?
Ele sentiu vontade de contar o que estava acontecendo, mas não teve coragem.
Sua mãe não entenderia e contaria para o seu pai, e isso ele não queria:
— Não estou sentindo nada, acordei porque ontem dormi cedo.
— Ainda bem. Levante-se, seu pai já está no banho.
Já que acordou cedo, podem tomar café com ele.
— Vou fazer isso!
Só assim ele não vai brigar comigo por eu sair sem me alimentar.
Ela saiu do quarto.
Artur sentia aquela sensação ruim.
Novamente foi para o chuveiro e tomou um banho rápido.
Antes de sair, olhou para o espelho.
Seu rosto continuava com muitas espinhas, mas aquilo não o preocupava mais.
Havia conversado com Mariana e percebera que ela não se preocupava com elas.
Sabia que as espinhas logo mais dariam lugar a uma bela barba.
Apesar do mal-estar, sorriu e foi se vestir:
Quando chegou à sala de refeições seu pai já ali se encontrava junto com sua mãe, e ambos tomavam café.
Iracema os servia. Ele se sentou.
Iracema, sorrindo, falou:
— Inda bem que o minino hoje vai toma café!
— Vou, sim, mas não estou com muita vontade!
Álvaro também estava feliz por ver seu filho ali.
Ficava sempre muito preocupado, pois ele quase todos os dias saía sem se alimentar.
— Ainda bem que hoje vai alimentado para a escola.
Coma uma fruta.
Está numa idade em que precisa de boa alimentação.
Fica só comendo aquelas bobagens da cantina...
Artur não respondeu, apenas comeu.
O que queria era mesmo ir logo para a escola, precisava falar urgente com Rodrigo.
Enquanto comia, ia pensando:
"Já sei que este mal-estar e o tremor só passarão com outro cigarro, mas Rodrigo garantiu que vai passar.
Espero que sim, não quero me viciar...”.
Terminaram de tomar o café.
Deram um beijo em Odete e os dois saíram.
No carro, Artur não prestava muita atenção nas notícias que o radio ia dando.
Só queria chegar logo à escola.
Álvaro comentava alguma notícia, ele respondia por monossílabos.
Parecia que a escola estava muito distante, parecia que o trânsito estava parado.
"Não estou aguentando tanta ansiedade.
Tomara que Rodrigo já esteja lá, e que tenha um cigarro daqueles.
Sinto que, sem ele, não conseguirei assistir às aulas...”.
Álvaro percebeu que ele estava muito calado:
— O que está acontecendo com você?
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:07 pm

Artur assustou-se com aquela pergunta:
— Por que esta fazendo essa pergunta?
— Estou percebendo que você está um pouco distante, nem parece o mesmo de todos os dias.
Sempre me atrapalha com perguntas quando estou ouvindo uma notícia! Está doente?
— Não, não estou doente, só que não dormi muito bem esta noite e agora estou com sono!
— Não dormiu por quê?
— Não sei, estava sentindo muito calor e acordei muitas vezes...
—Eu não senti calor, ao contrário, senti até um pouco de frio.
— Não sei o que me aconteceu.
Finalmente chegaram em frente à escola.
Artur desceu apressado, esqueceu-se de dar o beijo que todos os dias dava no pai.
Atravessou a rua correndo.
Álvaro, intrigado, olhou o filho se afastando:
"Esse menino não está bem, ele está muito estranho.
Será que está apaixonado!”
Sorriu, acelerou o carro e saiu pensando:
"Embora não queira admitir, meu filho já está um homem, não posso me admirar de ele estar apaixonado.
Na idade dele eu já namorava."
Artur entrou quase correndo na escola.
Olhou para o lado em que Rodrigo sempre ficava conversando com alguns amigos, sempre os mesmos.
Naquela manhã também, como sempre, estava ali. Artur se aproximou:
— Rodrigo, preciso falar com você.
Rodrigo sorriu, afastou-se dos outros levando com ele Artur:
— O que está acontecendo?
Parece que está muito nervoso.
— Aquele mal-estar voltou e está intenso.
Você precisa me ajudar, senão não vou conseguir assistir às aulas.
— Está bem, não precisa ficar nervoso!
Ainda é cedo, teremos tempo de sair.
Vamos sair da escola, e enquanto andamos pelo quarteirão, você dá uma puxada no bagulho.
Vai ver como ficará bem.
Saíram da escola, e mais uma vez ninguém percebeu.
Assim que chegaram à rua, Rodrigo deu a ele um cigarro.
Artur pegou aquele cigarro e, nervoso, acendeu-o.
Deu uma tragada depois da outra, quase sem intervalo.
Aos poucos foi se sentindo melhor.
Logo estava muito bem.
Sentia que poderia assistir às aulas sem problema algum.
Enquanto Artur fumava, Rodrigo, em silêncio, observava.
Voltaram para a escola, Artur notou que estava com muita energia, mas que suas mãos estavam tremendo.
Durante as aulas, percebeu que não conseguia, como antes, acompanhar as explicações dos professores.
Sentia certa dificuldade de assimilação.
Queria sair dali, olhava a todo instante para o relógio.
Durante um dos intervalos, não se deu conta que Mariana se aproximara.
— Artur, por que não foi até minha casa?
Fiquei esperando você.
Ele se voltou ao ouvir a voz dela, mas sua presença o incomodava, queria mesmo era sair dali.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:07 pm

Respondeu seco:
— Não pude ir, tive que sair com meus pais.
Ela, nervosa, afastou-se.
Finalmente a campainha tocou, dando por encerrada as aulas.
Artur saiu correndo, não suportava ficar ali sentado.
Queria correr sentir o ar fresco.
Já na rua, respirou fundo.
Olhou para o caminho pelo qual seu pai costumava chegar.
Não conseguia ficar com o corpo parado.
Ficou andando de um lado para o outro, até que finalmente seu pai chegou.
Entrou rapidamente no carro.
Novamente se esqueceu de beijar o pai.
Ele notou, mas não disse nada.
Acreditava que o filho estivesse apaixonado.
Apenas sorriu, acelerou o carro e foram embora.
Durante o caminho tentou conversar com Artur, mas ele estava distante.
Como todos os dias, ligou o rádio e ficou ouvindo as notícias.
Artur permanecia calado, parecia muito distante dali.
Realmente, ele estava não só distante como também muito preocupado:
"O que será que está acontecendo comigo?
Por que estou sentindo meu corpo tão estranho?
Será que me viciei? Não pode ser!
Fumei só alguns cigarros!
E pouco pra me viciar.
Hoje à tarde tenho aula de natação, vou nadar muito para tirar de mim toda essa droga."
Chegaram em casa.
Iracema já estava com a comida pronta para ser servida.
Artur foi para o seu quarto, trocou de roupa, lavou as mãos e voltou para a sala de refeições. Sentou-se.
Em silêncio, começou a comer.
Iracema estava em pé ao lado da mesa, terminando de servir.
Álvaro olhou para ela, dizendo:
— Iracema, estou muito contente com o trabalho do seu filho.
Ele é mesmo muito inteligente, aprende tudo rápido.
Aquele menino vai longe.
Disse a ele que, se continuar assim, pagarei sua faculdade com mais prazer.
— Muito obrigada, dotô.
Ele é mermo um bom minino!
É muito bom filho e irmão também.
O dotô não vai se arrepender de ajudá ele.
O dotô vai vê!
— Tenho certeza disso.
Ele é muito esforçado mesmo.
Artur ouvia o que diziam, mas não conseguia acompanhar a conversa.
Estava muito preocupado consigo mesmo:
"E se eu estiver mesmo viciado?
Como vai ser?
Meu pai espera muito de mim, nunca poderei chegar para ele e contar o que está acontecendo.
O que vou fazer?"
— Artur, por que está tão calado?
Ele ouviu o seu nome, mas não entendeu o que mais sua mãe perguntara:
— Não entendi mamãe!
O que perguntou?
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:08 pm

— O que está acontecendo com você?
Parece que está muito distraído.
Está acontecendo alguma coisa na escola?
Ele olhou para a mãe e para o pai, sentiu vontade de contar.
Estava apenas começando, eles poderiam ajudá-lo. Pensou um pouco e, nervoso, respondeu:
— Não estou sentindo nada!
Estou bem!
Por que a senhora e o papai ficam fazendo essas perguntas?
A mãe estranhou sua reacção:
— Estamos preocupados.
Você está diferente!
Deve estar acontecendo alguma coisa.
Precisamos saber o que é para poder ajudá-lo.
— Não está acontecendo nada!
Já disse que só estou com alguns problemas em Português.
Nada, além disso.
— Sabe que sou professora e seu pai advogado.
Não acredita que possamos ajudar?
— Claro que podem, mas não acho justo, já gastam tanto com a minha educação...
O mínimo que posso fazer é aprender.
— Não tem que ser assim.
Gastamos, sim, com a sua educação, mas nunca nos arrependemos disso.
Você, além de ser um bom filho, é também um bom aluno.
Só precisa nos dizer qual é a sua dúvida.
— Desculpe mamãe, é que estou muito nervoso.
Não estou acostumado a não entender as aulas.
Vou agora para o meu quarto tentar entender.
Se não conseguir, vou pedir sua ajuda.
— Faça isso, mas se não conseguir, estamos aqui eu e seu pai.
Nós o amamos muito.
Artur terminou de almoçar e foi para o seu quarto.
Assim que se viu sozinho, entregou-se ao desespero:
"O que está acontecendo comigo?
Por que toda essa irritação sem motivo?
Ainda bem que não estou sentindo aquele mal-estar.
Parece que passou mesmo! Tomara."
Sentiu muita vontade de dormir, mas não podia, precisava ir à natação.
Deitou-se só para descansar, mas, sem perceber, adormeceu.
Odete, antes de sair para a escola, foi até o quarto de Artur para ver como estava.
Estranhou ao ver que ele estava dormindo.
Sorriu, fechou a porta e saiu. Foi falar com Iracema:
— Artur está dormindo, não se esqueça de acordá-lo para que possa ir à aula de natação.
— Pódi fica sussegada, eu acordo ele, sim.
Odete foi embora. Iracema voltou para seus afazeres.
Artur, que já dormia por mais de uma hora, acordou sentindo aquele vazio aquele mal-estar, sintomas que já conhecia.
Sabia que em breve ficaria pior.
Levantou-se e, apavorado, foi para o banheiro.
Olhou-se no espelho.
As espinhas já não o incomodavam mais.
Percebeu que seus olhos estavam vermelhos.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:08 pm

Voltou para o quarto, olhou o relógio.
"Está na hora de ir para a natação, mas como poderei nadar com este mal-estar?
Vou me apressar, e antes de ir para a aula vou procurar Rodrigo.
Ele vai me dar outro cigarro e tudo ficará bem."
Fez exactamente isso.
Vestiu-se, colocou o ténis, pegou a mochila e saiu rapidamente.
Quando passava pela sala, Iracema disse:
— Pur que tá cum tanta pressa?
Não vai toma um lanche antes de saí?
— Não, estou atrasado, hoje preciso chegar mais cedo para a aula de natação!
— Tá bem, mas isso não tá certo não.
Ele não a ouviu, foi correndo em direcção à casa de Rodrigo.
Enquanto corria, ia pensando:
"Preciso me apressar, senão vou perder a aula.
Mas se for até lá sem fumar, não conseguirei nadar."
Chegou finalmente em frente à casa de Rodrigo.
Encostou-se ao portão e tocou a campainha.
Rodrigo surgiu na janela:
— Olá, Artur!
Quer falar comigo?
— Não estou bem, preciso de sua ajuda!
— Pode entrar não se preocupe, minha mãe está trabalhando.
Artur entrou apressado:
— Você precisa me arrumar outro cigarro daqueles.
Preciso ir à aula de natação, mas não conseguirei nadar com isto que estou sentindo!
— Está bem, mas só tem um problema, eu não tenho mais bagulho.
Dei vários pra você, mas agora terminaram todos os que eu tinha, precisamos buscar mais.
— Então vamos rápido, não posso perder a aula!
— Você tem dinheiro aí?
— Dinheiro? Não.
Não tenho. Por quê?
— Porque o bagulho custa dinheiro.
Eu lhe dei os meus, mas agora vai ter que comprar para nós dois.
— Dinheiro!?! Não tenho!
Como vamos fazer?
— Não sei, também estou precisando, também estou sentindo o mesmo que você!
— Você me garantiu que eu não ia me viciar, mas acredito já estar viciado.
Não quero isso!
— É fácil.
Basta voltar para sua casa e esquecer do bagulho.
— Não posso voltar para casa!
Preciso ir para a aula!
— Então, meu amigo, não tem jeito, precisamos pegar mais bagulho.
— Como!?! Não temos dinheiro!
— Eu não tenho mesmo, mas você tem.
— Eu? Não tenho dinheiro.
— Dinheiro não, mas tem um belo par de ténis nos pés.
Ele vale muito, dá pra comprar uma boa quantidade de bagulho.
— Que está dizendo? Meu ténis!?!
Não posso! Que vou dizer para o meu pai?
— Seu ténis, sim!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:08 pm

Vale muito dinheiro!
É importado.
— Sei que vale muito dinheiro, mas o que vou dizer para o meu pai?
— Diga que foi assaltado e que levaram seu ténis.
Ele vai ficar contente por você estar vivo não vai ligar para o ténis e até comprará outro.
Hoje em dia é normal o ténis importado ser roubado.
Ele não vai desconfiar de nada.
Artur estava tremendo, não sabia se era por aquela situação ou pelo mal-estar que sentia:
— Não posso fazer isso.
Não saberei mentir. Nunca menti!
— Você é quem sabe.
Não tenho dinheiro e nem bagulho.
Volte para sua casa ou vá para a aula.
Sem dinheiro, não posso fazer nada...
Artur começou a chorar.
Sabia que estava perdido, pois a cada segundo sentia que precisava muito da droga.
Pensou por algum tempo e disse:
— Está bem, como vamos fazer?
— Iremos até um lugar que conheço.
Lá diremos que não temos dinheiro, mas que você tem o ténis.
Conseguiremos uma boa quantidade, que vai dar para nós dois consumirmos por um bom tempo.
Artur, nervoso, concordou.
Saíram”.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:08 pm

HUMILHAÇÕES E MENTIRAS
“Artur seguia Rodrigo como um robô.
Entraram em uma favela.
Enquanto caminhavam pelas vielas, Rodrigo andava e cumprimentava várias pessoas.
Pararam em frente a um barraco.
Lá dentro estava outro rapaz de mais ou menos dezanove anos, que ao ver Rodrigo, disse:
— Rodrigo! Você por aqui novamente?
Veio buscar mais erva?
Quem é esse?
Rodrigo, piscando um olho sem que Artur visse, respondeu:
— Vim buscar mais erva, sim.
Este aqui é Artur, ele também quer um pouco.
— Você tem dinheiro?
— Não, mas Artur tem esse ténis, que é importado e vale muito.
O rapaz olhou primeiro para Artur, depois para o ténis que estava em seus pés.
— O ténis é bonito mesmo!
Vale uma boa quantidade de erva.
Você vai querer mesmo trocar!
Artur também olhou para o seu ténis.
Aquele vazio aquela vontade cada vez mais forte...
Sentiu que não poderia ficar sem a droga.
Impotente, disse:
— Preciso fazer a troca, mas como vou andar sem ténis?
Rodrigo respondeu:
— O Jiló aqui empresta um dos dele, mas quando chegar perto de sua casa, você joga fora e entra em essa descalço, assim poderá contar uma boa história para os seus pais.
Eles acreditarão, não se preocupe.
Já vimos muitas vezes isso acontecer.
Não é, Jiló?
Artur se abaixou, tirou os ténis e entregou-os a Jiló, que em troca lhe deu outro par velho e sujo.
Ele o calçou, sentindo um mal-estar profundo.
Mas sabia que aquela era a única solução.
Em seguida, Jiló deu aos dois uma boa quantidade de um tipo de grama seca, que Artur até então não havia visto, pois Rodrigo sempre lhe dera os cigarros já prontos.
Ali mesmo Rodrigo preparou e acendeu um cigarro e deu outro para Artur, que tremendo muito, fumou.
Aos poucos, ele foi se sentindo melhor.
Seu coração batia forte, mas ele sabia que daquele dia em diante estaria nas mãos daqueles dois.
Sentiu um frio passar por sua espinha, quis sair dali rapidamente.
Saiu correndo.
Rodrigo o seguia de longe.
Já fora da favela, Artur chorava muito enquanto pensava:
"O que vou fazer da minha vida?
Como vou mentir para os meus pais?”
Rodrigo se aproximou:
— Não fique assim, tudo vai dar certo.
— Nunca menti para os meus pais!
Não sei se vou conseguir!
— Vai sim. Tem sempre uma primeira vez.
Esta vai ser a mais difícil, as outras serão fáceis.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:09 pm

— Nunca mais vou mentir!
Será só esta vez. Nunca mais!
Vou me livrar de tudo isso.
Vou pedir ajuda para os meus pais.
Eles me ajudarão!
— Está bem.
Eles ajudarão, provavelmente o internarão em uma clínica.
Mas enquanto isso não acontece, vamos dividir o bagulho.
Metade para mim e a outra metade para você.
Vou preparar, mas é bom aprender como se faz.
Artur ficou olhando Rodrigo preparar os cigarros.
Ele tirou do bolso alguns pedaços de papel de seda.
Disse que eram tirados dos maços de cigarro que eram jogados fora depois de usados.
Preparou toda a parte de Artur.
Em seguida entregou a ele.
— Não posso levar isso para casa.
Não tenho onde guardar.
— Se eu fosse você, arrumaria um lugar, porque talvez sinta necessidade durante a noite.
— Não vou sentir.
Vou me livrar dessa loucura.
Não posso levar para casa.
Não quero ser internado em clínica alguma!
— Você é quem sabe.
Mas, mesmo assim, vou guardar aí na sua mochila.
Rodrigo abriu a mochila de Artur e colocou os cigarros.
Artur saiu dali correndo, precisava chegar a tempo para a aula.
Rodrigo o acompanhou até a saída da favela.
Artur estava muito nervoso, queria sair dali o mais rápido possível.
Já na rua, sem se despedir, saiu correndo.
Assim que desapareceu, Rodrigo voltou novamente para o barraco de Jiló, que o estava esperando:
Rodrigo disse-lhe:
— Jiló, como você viu esse agora já é nosso freguês.
Cumpri a minha parte, trouxe mais um.
Espero que não me deixe mais sem o bagulho.
Jiló, sorrindo, respondeu:
— Trabalhou direitinho, por um bom tempo vai ter todo o bagulho que precisar.
Mas é bom ir procurando outro freguês.
Artur chegou apressado ao clube, e só então se lembrou que estava com um ténis muito sujo e rasgado. Pensou:
"Não posso entrar com este ténis.
O que direi ao professor e aos meus colegas?
Preciso ir para casa, mas como chegar lá sem o meu ténis?"
Sabia que não havia outra maneira, precisava ir para casa.
Dirigiu-se para lá.
Quando faltava uma quadra para chegar, tirou o ténis velho dos pés e começou a correr.
Entrou em casa esbaforido e cansado.
Iracema assustou-se por vê-lo entrar daquela maneira e àquela hora, pois deveria estar na aula de natação:
— Qui te aconteceu, minino?
— Fui assaltado por três rapazes, eles levaram o meu ténis!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:09 pm

— Deus do céu!
Fizeram mais arguma mardade com ocê?
— Não! Só levaram o ténis!
— Inda bem!
Vai tomá um banho e fica carmo, vou telefoná pró seu pai!
— Não faça isso! Já estou bem.
Só vai fazer com que fique assustado.
À noite falarei com ele.
Vou para o meu quarto...
— Tem razão, o meió é que agora ocê tá bem.
Vai díscansá...
Artur foi rápido para o seu quarto, precisava ficar sozinho.
Precisava pensar no que faria dali para frente.
Sabia que estava se viciando, mas não encontrava um caminho para se afastar.
Já no quarto, tirou a mochila das costas.
Só então se lembrou que Rodrigo havia colocado nela os cigarros restantes.
Abriu, tirou-os e segurou-os nas mãos.
Aquilo para ele era o início de uma longa caminhada.
"Meus pais falaram tanto a respeito de drogas!
Como fui me deixar envolver?
Preciso encontrar um lugar para esconder, mas onde?"
Olhou para o alto de seu armário, lembrou-se que ali estava guardado havia muito tempo o casaco que seu pai lhe comprara quando foram para os Estados Unidos.
Subiu em uma cadeira, abriu o armário e pegou o casaco.
Ele estava dobrado do lado do avesso, pois desde que voltaram da viagem nunca mais fora usado:
"Nunca consegui usá-lo aqui.
O nosso frio não permite.
Vou esconder dentro do bolso.
Ninguém mexe nele mesmo...”.
Guardou todos os cigarros ali.
Deitou-se na cama e ficou lembrando da viagem que fizeram.
"Meu pai quis nos fazer uma surpresa, levou-nos até a Disneylândia.
Foi uma viagem maravilhosa.
Ficamos ali por quinze dias, depois fomos para Nova York.
Ao chegarmos, sentimos muito frio.
Não conhecíamos a neve, sempre ouvimos falar que era muito fria, mas nunca poderíamos imaginar o quanto.
Foi aí que meus pais resolveram comprar casacos para todos."
Sem perceber, adormeceu.
Acordou com sua mãe dizendo:
— Artur, acorde!
Cheguei agora do trabalho e Iracema me contou o que aconteceu!
Como foi? Você está bem?
Não machucaram você?
Ele, com muito custo, abriu os olhos.
Ao ver a mãe, começou a chorar.
Queria contar tudo o que havia acontecido e pedir ajuda, mas não conseguia.
Sentia vergonha da sua actual situação.
Eles esperavam tanto dele, como poderia dizer que era um viciado?
— Estou bem, mamãe, não me machucaram, só levaram o meu ténis...
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:09 pm

— Não chore meu filho.
Não se preocupe com o ténis.
Compraremos outro!
O importante é que esteja bem...
— Estou bem, só um pouco assustado...
— Entendo. Seu pai já deve estar chegando, não falaremos nada antes do jantar.
Após o jantar contaremos juntos.
Ele vai ficar muito nervoso, mas comprará outro ténis.
— Está bem, mas não quero outro ténis.
Vou agora terminar o meu trabalho de História que preciso entregar amanhã.
— Tudo bem, vou para o meu quarto, se precisar de alguma coisa, basta me chamar.
Odete saiu do quarto.
Artur começou a chorar de forma violenta.
"Como consegui mentir tão friamente?
Não posso continuar assim, quando meu pai chegar vou criar coragem e contar tudo o que está acontecendo.
Sei que ele vai me entender e ajudar.
Vou dizer que menti a respeito do ténis."
Ficou ali deitado, tinha realmente que terminar o trabalho de História para levar no dia seguinte, mas não sentia vontade de se levantar da cama.
Adormeceu novamente.
Leandro entrou no quarto, Artur dormia:
— Artur, acorde!
Papai já chegou, o jantar está pronto!
Artur abriu os olhos, olhou para o irmão.
Não sabia se era dia ou noite.
Sua cabeça e olhos pesavam muito.
Sentou-se na cama ainda um pouco sonolento.
Sentiu novamente aquele vazio, já sabia que logo mais se transformaria em ansiedade e naquela vontade imensa da droga.
Seu irmão olhava para ele admirado:
— Você está doente?
A mamãe me contou sobre o assalto!
Machucaram você?
— Não estou doente, não! Não!
Eles não me machucaram.
Pode descer que irei em seguida.
Leandro, mais tranquilo por ver o irmão bem, saiu do quarto.
Artur levantou-se e foi para o banheiro.
Olhou-se no espelho, percebeu que estava com os olhos vermelhos e com olheiras profundas.
Ficou apavorado, com medo que seus pais notassem a diferença.
Nem por um instante se lembrou das espinhas que tanto o incomodavam.
O vazio aumentava.
Olhou para suas mãos, elas tremiam.
Tomou um banho, tentou se acalmar, sabia que a conversa com o pai seria difícil.
"Ele não vai acreditar em assalto... seria melhor que eu contasse a verdade... ele ficará bravo, mas me ajudará."
Saiu do banheiro.
Voltou para o quarto, penteou os cabelos e foi ao encontro de seu pai.
Álvaro e Odete estavam sentados em um sofá conversando.
Artur se aproximou, beijou o pai como fazia todos os dias.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:09 pm

Olhou para sua mãe, não disse nada, apenas sentou-se e ficou assistindo televisão.
Iracema entrou na sala avisando que o jantar estava servido.
Dirigiram-se para a sala de jantar.
Começaram a comer.
Artur permanecia calado, comendo com a cabeça baixa.
Não tinha coragem de olhar nos olhos dos pais.
Enquanto comia, pensava:
“Vou contar tudo, não posso continuar assim, sinto que estou precisando cada vez mais da droga."
Odete conversava com o marido, mas, preocupada, prestava atenção em Artur.
"Ele está triste e assustado, preciso fazer algo para tirá-lo desse estado."
Artur tentava comer, mas não conseguia.
Já sentia que a vontade da droga estava voltando mais forte.
Queria sair dali e voltar para o seu quarto.
Só ali se sentia bem.
Finalmente todos terminaram de comer.
Como em todas as noites, foram para a sala de televisão.
Artur os acompanhou.
Sabia que a hora de encarar os pais estava chegando.
Assim que todos se sentaram, Odete disse:
— Álvaro, aconteceu algo muito desagradável com Artur...
Contou a ele o que havia sucedido.
Álvaro, à medida que ouvia, ficava vermelho de ódio.
Artur permanecia de cabeça baixa.
Não tinha coragem de olhar para ele.
Odete contou tudo, inclusive sobre o ténis.
Quando terminou de falar, Álvaro, muito vermelho e tremendo, olhou para Artur:
— Meu filho, você está bem?
Artur olhou para o pai, sabia que aquele era o momento de contar toda a verdade.
Mas não teve coragem, não podia causar a ele toda aquela tristeza.
Respondeu:
— Estou bem, só um pouco assustado...
— Pois eu não estou assustado!
Estou com muita raiva!
Que cidade é esta, onde não podemos mais andar com tranquilidade?
Até quando vamos ficar à mercê desses marginais?
Você, ainda o outro dia, ficou com pena daquele que foi preso perto da sua escola!
O que acha que esses que o roubaram e assustaram merecem?
Ser presos, sim!
Ficar atrás das grades por muito tempo!
Se não for assim, logo mais não poderemos ir nem até um parque em uma tarde de domingo!
Não sei o que vai ser das pessoas honestas nas mãos desses bandidos!
Não se preocupe, vou comprar outro ténis para você.
Artur ouvia o pai.
Sabia que deveria contar tudo naquele momento, mas percebeu que o pai estava muito nervoso.
Tentou:
— Papai... Eu... Eu...
— O quê? Quer me dizer alguma coisa?
— Eu? Não quero outro ténis.
Será melhor eu andar com um nacional mesmo, assim não haverá mais perigo de ser assaltado...
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:10 pm

— Olhe Odete! A que pontos chegamos!
Nosso filho está abrindo mão do que gosta por causa desses marginais!
— Você tem razão, mas também acredito ser melhor que ele ande com um ténis comum.
Desta vez não aconteceu algo mais grave, mas nada pode nos garantir que de uma próxima vez não aconteça...
Artur ouvia os pais conversando.
Sentia vontade de contar a verdade, mas não teve coragem.
Pediu licença, saiu da sala e foi para o seu quarto.
Deitou-se na cama e novamente começou a chorar.
A vontade da droga já era intensa.
Sabia que para que ela passasse teria que fumar outro daqueles cigarros:
"Mas como vou fazer?
Não me deixarão sair à noite, como vou fazer?
Sinto que não vou conseguir dormir e esperar até amanhã."
Olhou para o alto do armário, sabia que ali estava o seu alívio, mas como fazer?
Levantou-se, foi até o armário e pegou o casaco onde havia escondido a maconha.
Tirou um dos cigarros que Rodrigo havia preparado.
Guardou embaixo do travesseiro.
Tentou dormir, não conseguiu.
Virou e revirou na cama.
Percebeu quando seus pais foram para o quarto.
Leandro entrou devagar, ele fingiu estar dormindo.
Não queria conversar.
Pensava em um modo de fumar o cigarro, Leandro se deitou.
Logo mais, Artur percebeu que ele estava dormindo.
Levantou-se e em silêncio saiu do quarto, levando em sua mão o cigarro.
Desceu a escada, viu-se na grande sala.
Devagar abriu a porta que dava para o quintal.
Passou pelo quarto de Iracema, estava com a porta fechada e a luz apagada.
Sem fazer qualquer ruído, saiu.
Foi para bem longe da casa.
Acendeu o cigarro e começou a fumar.
Naquele momento, sentiu-se muito bem.
Não lhe importava a mentira que havia dito ou o que o pai dissera.
Só lhe interessava o bem-estar que sentia.
Após terminar o cigarro, ficou ali fora por mais um tempo.
Via luzes coloridas que o encantavam.
Voltou para dentro da casa e em silêncio voltou para o seu quarto.
Deitou-se na cama, mas não conseguiu dormir.
Estava muito agitado e com vontade de sair correndo.
Sentia que as paredes do quarto se apertavam, ele se encolhia na cama, sentindo então muito medo.
Após muito tempo, sem perceber, adormeceu.
— Artur, acorde, acorde, já está na hora, seu pai já está tomando banho, não vá se atrasar.
Diferente dos outros dias, ele teve muito mais dificuldades para abrir os olhos.
Com muito custo, respondeu:
— Já vou me levantar, não vou me atrasar...
Odete saiu do quarto.
Ele se virou na cama e voltou a dormir.
Vendo que ele não descia, ela voltou para o quarto:
— Artur, você voltou a dormir?
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 06, 2017 8:10 pm

Acorde, meu filho! Vai perder a hora!
Novamente ele ouvia aquela voz vindo de muito longe.
Aos poucos foi percebendo que era a mãe que o estava acordando.
Abriu os olhos, sentou-se na cama:
— Já vou mamãe, vou mesmo!
Levantou-se e correndo foi ao banheiro.
Abriu o chuveiro e entrou de uma vez.
A água quente ia caindo, ele ia despertando:
"Meu Deus, o que está acontecendo comigo?
Não consegui acordar, não preparei o trabalho de História que teria que entregar hoje."
Tomou o banho, vestiu-se e rapidamente desceu.
Seu pai já havia terminando de tomar o café e estava se levantando para ir embora. Disse:
— Mais uma vez vai ter que sair sem tomar café.
Isso não é bom.
Artur não respondeu, deu um beijo em sua mãe e saiu correndo atrás do pai, que se dirigia para o carro.
Entrou e, em silêncio, seguiram.
Seu pai ligou o rádio, as notícias começaram.
Após algum tempo, Álvaro disse:
— Está vendo? Só notícias ruins.
Será que não acontece mais nada de bom neste país?
Artur não respondeu, estava novamente sentindo o vazio.
Pensava:
"Até quando isso vai durar!
Está ficando pior!
O espaço de tempo está cada vez menor!"
Álvaro percebeu que seu filho não o havia escutado.
Continuou:
— Artur, estou preocupado com você!
O que está acontecendo?
O que o está preocupando?
Novamente Artur sentiu que seria o momento de contar tudo e pedir ajuda.
Ia falar, quando seu pai deu uma freada brusca.
Nervoso, disse:
— Veja que irresponsável esse motorista!
Você viu como ele me cortou?
Artur apenas balançou a cabeça.
Seu pai estava nervoso, pensou que não seria uma boa hora para falar com ele.
No trânsito, sua atenção não poderia ser desviada.
Calou-se, pensando:
"Não vai adiantar eu falar com ele. Não agora.
Mas, também, o que poderia fazer?
Talvez me internar! Não! Eu não quero isso!
Vou ter que encontrar uma maneira de me livrar.
Tem que haver uma maneira."
Chegaram finalmente em frente à escola.
Artur desceu dessa vez lembrou-se de dar o beijo costumeiro.
Adorava os pais e o irmão.
Nunca daria a eles um motivo para sofrerem.
Escava saindo do carro quando seu pai lhe disse:
— Como quase todos os dias, não teve tempo para tomar café.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 07, 2017 7:58 pm

Pegue este dinheiro, compre um lanche na cantina.
Artur pegou o dinheiro.
Percebeu que estava com fome.
Entrou na sala de aula.
Viu Mariana, mas não teve vontade de falar com ela.
No íntimo a culpava por estar naquela situação.
Ela se aproximou:
— Artur! Como vai?
Por que não me procurou mais?
Ele apenas sorriu:
— Estou tendo alguns problemas, mas logo estarei bem e voltarei a ser como antes.
— Posso ajudar de alguma maneira?
— Não! Não pode! Ninguém pode!
— Você esta me assustando!
Por que está tão nervoso?
O que está acontecendo?
Sabe que gosto muito de você! Sou sua amiga!
Nunca mais vou conseguir esquecer aquela noite, aquele beijo.
Confie em mim.
— Também nunca mais vou me esquecer daquela noite, mas infelizmente por outros motivos.
— Não estou entendendo!
Que outros motivos?
— Não é nada, não!
São coisas minhas, mas está na hora de entrarmos na sala de aula. Vamos?
Entraram na sala de aula.
Ele estava preocupado, o professor de História perguntaria pelo trabalho que ele não havia feito.
Teria que inventar uma desculpa.
O professor entrou Artur não se sentia bem.
Não estava ainda sentindo falta da maconha, mas conhecia seu corpo, sabia que não era o mesmo.
Teve dificuldade para se concentrar.
Quase no final da aula, o professor pediu o trabalho de História.
Levá-los-ia para casa e lá os corrigiria.
Artur percebeu que seus colegas se levantavam e entregavam o trabalho.
Ele permaneceu sentado.
Após receber todos os trabalhos, o professor olhou para ele:
— Artur, você não entregou o trabalho?
Aquele era o momento temido.
Artur precisava arrumar uma desculpa.
Mas qual? Pensou rápido:
— Desculpe professor.
Acordei atrasado, esqueci de pegar, mas na próxima aula eu trago.
— Esta bem.
Sei que você o fez, sempre foi um óptimo aluno.
Não se esqueça de trazer.
— Trarei sim, está pronto.
O professor sorriu, Artur respirou aliviado.
Daquela havia escapado. Por dentro sorria.
Estava orgulhoso da mentira que inventara feliz por descobrir que mentir não era tão difícil como pensava.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 07, 2017 7:59 pm

Terminou a aula de História, ele não conseguiu se concentrar.
O vazio do estômago estava voltando.
"Talvez seja fome, vou até a cantina tomar um lanche."
Saiu da sala de aula acompanhando os colegas.
Percebeu que eles saíam conversando entre si, mas ele não estava com vontade de conversar.
Queria chegar logo à cantina e comer alguma coisa.
O vazio e o tremor estavam aumentando.
Não queria aceitar que estava novamente precisando da droga.
Ele havia deixado todos os cigarros escondidos em casa.
Na cantina, entrou na fila para pedir seu lanche.
A vontade já era imensa.
Estava preocupado, sem saber o que fazer:
— Bom dia, Artur. Está tudo bem?
Olhou para trás, era Rodrigo.
Sentiu uma mescla de ódio e necessidade:
— Não está nada bem!
Saiu da fila, pegou no braço de Rodrigo e levou-o para um canto:
— Você tem algum bagulho aí?
— Tenho sim, por quê?
— Estou precisando agora, neste momento!
Se não fumar, não vou conseguir assistir à próxima aula!
— Podemos fazer um acordo...
— Que acordo?
— Que estava fazendo na fila da cantina?
— Vou comprar um lanche!
— Estou com fome e não tenho dinheiro.
Você paga o meu lanche e eu lhe dou o que está precisando...
— Pagar o seu lanche?
Não tenho dinheiro para pagar os dois!
— Eu não posso lhe dar o bagulho.
Tenho outros que me pagarão.
— Você não pode fazer isso comigo!
Só tenho esse dinheiro!
Dê-me agora e amanhã trago um dos meus e lhe dou!
— Amanhã será outro dia...
Estou com fome agora...
Resolva depressa, vamos ter que voltar para a sala de aula.
Artur percebeu que não havia como evitar.
Sentiu que não conseguiria assistir às outras aulas se não fumasse o maldito bagulho.
— Está bem, eu lhe dou o dinheiro, mas como vamos fazer?
Dentro da escola não vai poder ser, preciso agora!
— Vamos até aquela pracinha lá na frente da escola.
Já sabe que lá não vai ter problema algum.
Artur sabia que não havia problema, pois ninguém prestava atenção, disse.
— Está bem, vamos?
— Antes, dê-me o dinheiro, e enquanto eu compro o meu lanche, vá lá pra fora e me espere na pracinha.
Não podemos sair juntos.
Artur percebeu que não havia outra forma.
Deu o dinheiro e dirigiu-se ao portão da escola.
Não sabia na realidade se o portão ficava aberto todos os dias.
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Ave sem Ninho

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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 07, 2017 7:59 pm

Passou pela sala da directoria e a dos professores.
As pessoas estavam lá dentro conversando entre si e não perceberam que ele estava saindo.
O mesmo aconteceu na recepção.
Logo se viu diante do portão.
Não havia ninguém. Abriu e saiu.
Foi em direcção à praça.
Sentou-se em um banco, ficou ansioso olhando para o portão.
Sorriu aliviado quando viu Rodrigo saindo por ele.
Rodrigo chegou, sentou-se ao seu lado.
Tirou do bolso um cigano e entregou-o para Artur, que o pegou com sofreguidão.
Tremia muito enquanto o acendia, Rodrigo, ao seu lado, comia tranquilamente o lanche que havia comprado com o dinheiro de Artur.
À medida que ia tragando do bagulho, Artur percebeu que um bem-estar tremendo ia tomando conta de seu corpo.
Começou a sentir-se bem novamente.
Sentia que era o dono do mundo e que poderia fazer o que quisesse.
Sentiu que poderia voltar para a sala de aula e assistir à próxima aula com tranquilidade.
Poderia até falar com Mariana.
Estava bem demais para se preocupar com sua situação naquele momento, nada mais o incomodava.
Terminou de fumar.
Olhou para Rodrigo:
— Agora podemos voltar para a sala de aula, estou muito bem:
— Vamos, então.
O meu lanche também estava muito bom.
Voltaram para a classe.
Artur conseguiu assistir à aula, mas não via a hora que terminasse.
Sentia-se preso.
Queria sair, correr e quem sabe, até voar.
Assim que as aulas terminaram, ele saiu, e como de costume, ficou esperando o pai chegar.
Estava muito agitado.
Não conseguia ficar parado, esperando.
Começou a andar de um lado para o outro.
Ficou irritado porque o pai estava demorando.
Na realidade, não sabia ao certo se o pai estava demorando ou não.
Havia perdido o sentido de tempo e horário.
Álvaro parou o carro:
— Entre, Artur.
Ele entrou em silêncio e sentou-se ao lado do pai.
Este acelerou e saiu.
Artur ficou calado.
Não tinha vontade de falar, nem de ficar dentro do carro.
Na realidade, o que queria mesmo era sair correndo.
Entrou em casa correndo.
Sua mãe estava junto com Iracema terminando de colocar a mesa para o almoço.
Ele passou por elas sem dizer nada e em disparada subiu a escada, indo para o banheiro.
Odete estranhou a atitude do filho.
Álvaro entrou em seguida.
Ela, preocupada, perguntou:
— Aconteceu alguma coisa com Artur?
— Que eu saiba não, por quê?
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Ave sem Ninho

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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 07, 2017 7:59 pm

— Ele entrou calado, subiu correndo!
— Deve ter ido ao banheiro.
Não sei, não, mas estou achando que ele está um pouco diferente.
Veio o caminho todo da escola até aqui sem dizer uma palavra sequer.
— Será que está doente?
— Pergunte a ele.
— Farei isso, mas agora vamos almoçar.
Sentaram-se para iniciar o almoço.
Artur, no banheiro, abriu a torneira, molhou o rosto com água fria.
Estava agitado, sabia que precisava almoçar com os outros, só que estava muito agitado, queria sair para a rua, correr, fazer qualquer coisa, só não podia ficar preso dentro de casa.
Suava frio.
Estava novamente sentindo aquela sensação.
Sabia que em breve não estaria mais suportando.
Por alguns segundos ficou olhando para seu rosto reflectido no espelho; pensou:
"Que fiz com minha vida?
Quando vou ter paz novamente?"
Começou a chorar.
De seu peito saiam soluços profundos.
Mas durou pouco tempo, logo voltou ao normal.
Em um momento de lucidez, pensou:
"Estou me desesperando à toa.
Não estou viciado! Vou ter força de vontade!
Quando a vontade voltar, vou suportar!
Não deve demorar muito.
Não posso negar que esses cigarros me fazem muito bem.
Com eles me sinto mais seguro, mais livre.
É isso mesmo! Por que estou tão nervoso?
Graças ao cigarro consegui falar com Mariana.
Com ele vejo luzes maravilhosas, sinto-me livre!
Não vou mais me preocupar.
Vou almoçar, não estou com fome, mas vou comer algo para não levantar suspeita.
Meu pai não pode nem sonhar com o que está acontecendo comigo."
Enxugou o rosto.
Olhou novamente para o espelho, deu um sorriso e saiu.
Quando chegou à sala, seus pais e Leandro já estavam almoçando.
Sentou-se, começou a colocar comida em seu prato.
Quando pegou feijão com uma concha, sua mão tremeu e deixou cair o feijão sobre a mesa.
Ficou irritado:
— Que porcaria! Olhem só o que fiz!
Bateu a concha com força na mesa e saiu correndo.
Os pais ficaram atónitos vendo-o se afastar.
Odete disse:
— Álvaro, esse menino não está bem!
Vou lá falar com ele!
— Ele está é muito mal-educado!
Você não vai, não!
Vamos terminar o nosso almoço.
Depois iremos os dois juntos.
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 07, 2017 7:59 pm

— Deve ser a idade.
Sabe como é, está naquela idade em que não é mais um menino, e nem é ainda um adulto.
— Pode ser, mas isso não lhe dá o direito de agir dessa maneira.
Por enquanto vamos esquecer esse assunto e continuar o nosso almoço.
Ele disse essas palavras, mas como a esposa, sabia que não conseguiria mais continuar almoçando.
Os dois fingiam que comiam, mas foi impossível.
Leandro, não percebendo a gravidade do momento, continuou comendo normalmente.
Iracema, que estava ao lado deles quando tudo aconteceu, saiu da sala em silêncio.
Ela gostava muito daquela família.
Já estava com eles havia muito tempo.
Gostava muito mais de Artur, sempre o achara um menino muito bom.
Além do mais, sempre a tratara com carinho.
Na cozinha, ela juntou as mãos, dizendo em voz baixa:
— Meu pai du céu. Protege esse minino...
Ele não tá bem não...
Não é o mesmo minino di antes...
Não deixa que nada de ruim aconteça com ele.
Álvaro e Odete terminaram de comer.
Ela levantou-se e começou a subir a escada que a levaria para o quarto de Artur.
Sentia que precisava descobrir o que estava acontecendo com o filho.
Como Iracema, sabia que alguma coisa não estava bem.
Só precisava descobrir o que era.
Álvaro continuou sentado acompanhando com os olhos a esposa.
"Deixarei que ela fale com ele primeiro.
Daqui a pouco vou subir e saber o que esta acontecendo."
Odete entrou devagar no quarto.
Artur estava andando de um lado para o outro.
Ela percebeu que ele estava agitado.
Nunca o tinha visto daquela maneira.
Aproximou-se:
— Meu filho, o que está acontecendo com você?
Por que está tão nervoso?
Ao ver a mãe, ele ficou mais nervoso ainda:
— Como pergunta o que está acontecendo?
A senhora não viu o que fiz?
— O que fez que eu não vi!
— Derramei o feijão sobre a mesa!
— Foi só um acidente!
Quantas vezes você ou qualquer um de nós já fez isso?
Meu filho, você está tendo algum problema na escola?
Está precisando de umas aulas extras?
Ele olhou nos olhos da mãe.
Mais uma vez sentiu que havia chegado o momento de contar tudo o que estava passando.
Sabia que ela era compreensiva, sempre fora.
Ela encontraria uma maneira de ajudá-lo.
Abraçou-se a ela, ia começar a falar quando ouviu:
— Menino! Você vai ter que dar uma boa explicação por aquilo que fez.
E não é por ter deixado o feijão cair, mas por sua atitude depois.
Não sei se tem algum problema, não deve ter, pois faço tudo para que não tenha.
Tem uma boa casa, boa cama e todo o alimento que precisa!
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Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

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