É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Página 4 de 11 Anterior  1, 2, 3, 4, 5 ... 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:00 pm

Não quero o filho de uma ladra trabalhando comigo."
Artur entrou na escola, Álvaro seguiu para o escritório.
Estava decidido, despediria o filho de Iracema.
Mas, ao chegar, notou que ele não estava lá.
O dia foi passando.
Eram três horas da tarde quando Jarbas chegou.
Bateu à porta de Álvaro. Entrou:
— Boa tarde, doutor!
Ao vê-lo, Álvaro admirou-se.
Raivoso, disse:
— Boa tarde?
Como tem coragem de vir até aqui?
— Não sei o que se passou em sua casa, mas tenho certeza que minha mãe não fez nada.
— Não fez nada?
Quem você acha que roubou o colar?
— Não sei, mas minha mãe não roubou nada!
— Pois eu tenho certeza que foi ela.
E, a propósito, não o quero mais aqui.
Pode pegar suas coisas e ir embora agora mesmo!
Jarbas olhou desesperado.
— O senhor não pode fazer isso!
Minha mãe não roubou nada!
Álvaro gritou:
— Não posso? Claro que posso!
Antes que me pergunte, não vou mais pagar sua faculdade.
Terá que arrumar outro para pagar, eu não o farei mais.
Pode sair, não temos mais nada para conversar.
Já perdi muito tempo.
Jarbas ia dizer mais alguma coisa, mas percebeu que seria inútil.
Olhando bem nos olhos de Álvaro, disse:
— O senhor está cometendo uma injustiça muito grande.
— Já disse para ir embora!
— O senhor está cometendo um grande erro, tenho certeza que vai se arrepender.
Teve coragem de deixar minha mãe sozinha, sem se preocupar que era noite.
Ela não dormiu a noite toda, está doente de tristeza.
— Não me interessa o que aconteceu ou o que está pensando, saia, por favor!
Jarbas saiu.
Não conseguiu conter o ódio que sentia naquele momento.
Tinha certeza que jamais o perdoaria e que na primeira oportunidade se vingaria.
Álvaro, embora raivoso, voltou ao trabalho.
Artur, assim que chegou à escola, viu Rodrigo, que como sempre conversava com as mesmas pessoas.
Ele já sabia que eram clientes de Rodrigo, e como ele, deveriam estar passando pelos mesmos problemas.
Tentou evitar que ele o visse.
Conseguiu.
Entrou rapidamente na sala de aula, mas assim que a aula terminou, Rodrigo se aproximou:
— Olá, Artur, como está?
Artur, irritado, respondeu:
— Não estou nada bem!
— Por quê? O seu bagulho acabou?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:00 pm

— Não, tenho alguns ainda. O motivo é outro.
— Quer me contar?
O que aconteceu?
Alguém descobriu?
Quem foi? Sua mãe? Seu pai?
— Não é nada disso! Ninguém descobriu!
— Ainda bem, fiquei preocupado...
— Não, ninguém descobriu.
— Na hora do intervalo você não quer ir até a praça?
Pela sua cara estou percebendo que está precisando.
— Não vou! Nem hoje nem nunca mais! Parei por aqui!
Rodrigo, com a ironia de sempre, disse:
— Está bem, se é assim que quer, assim será.
Artur se afastou, queria ficar longe dele.
Voltou para a sala de aula.
No íntimo estava feliz por ter feito aquilo, sabia que precisava ficar longe dele.
No meio da segunda aula começou a sentir os sintomas conhecidos.
Ficou novamente apavorado, sabia que a tendência seria piorar e que logo mais não conseguiria se controlar.
Encontrou dificuldade em assimilar o que o professor dizia.
Assim que a aula terminou, ele saiu, era a hora do intervalo.
A maioria dos alunos se dirigiu à cantina.
Artur os acompanhou.
Passou por Mariana, mas não olhou para ela.
Sua única preocupação era a vontade que sentia.
Pensou um pouco e resolveu:
"Não tem jeito, nunca conseguirei me livrar, vou lá para fora."
Mudou a direcção que estava seguindo e saiu para fora da escola.
Foi em direcção à praça.
Ali chegando, acendeu um cigarro.
Estava na metade dele quando Rodrigo chegou.
Sentou-se ao seu lado, dizendo:
— Não conseguiu resistir?
— Não, mas estou determinado a parar, vou conseguir!
Ainda mais agora, depois do que aconteceu.
— Não quer me contar?
O que foi de tão grave?
Artur pensou:
"Talvez ele entenda e me ajude."
Contou tudo o que havia se passado.
Quando terminou, estava chorando.
Rodrigo, que até então estivera sentado ao seu lado, levantou-se e começou a rir:
— Por que está tão nervoso?
Não percebeu como foi bom isso ter acontecido?
Artur olhou para ele sem conseguir entender o que ele estava dizendo.
Ao ver a cara que Artur fazia, Rodrigo disse:
— Não percebeu que essa era a melhor coisa que poderia ter acontecido?
— Como assim?
— Com isso que aconteceu você se livrou de um enorme problema!
— Por que está dizendo isso?
— Com tudo isso, sua mãe vai esquecer do colar, e você não terá que arrumar dinheiro para recuperá-lo!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:01 pm

— Mas ela gostava muito dele!
— Seu pai tem dinheiro, comprará outro!
— E Iracema? Como estará?
Ela perdeu o emprego...
— Não se preocupe com isso, ela é lá do interior, e esse povo já está acostumado com a pobreza.
Logo ela encontrará um emprego novo.
— Não foi só o emprego que ela perdeu...
Saiu como uma ladra!
Meu pai a levou à delegacia!
— Esqueça disso!
Lembre-se apenas que está livre!
Já totalmente sob o efeito da maconha, Artur começou a rir muito:
— Você tem razão! Eu estava tão preocupado!
Agora tudo foi resolvido.
Mas, mesmo assim, vou sair dessa!
Novamente, com aquele sorriso irónico, Rodrigo disse:
— Está bem, mas agora está na hora de voltarmos para a classe, a aula já deve estar começando.
— Sabe de uma coisa?
Não tenho vontade alguma de voltar para a classe!
Queria mesmo era sair correndo por aí, andar a esmo, sem rumo!
— Também gostaria de fazer isso, mas é melhor não. Vamos entrar.
Entraram na classe no momento em que o professor chegou.
Artur tentou assimilar a aula, mas não conseguiu.
Aquela sensação boa estava com ele.
Não conseguia pensar em nada, a não ser nas nuvens coloridas que via.
As aulas terminaram.
Os alunos saíram da escola.
Artur fez o mesmo, foi para o lugar onde esperava o pai.
Naquele dia, Álvaro e Odete não conseguiram esquecer de Iracema e de tudo o que havia acontecido.
Após ter despedido Jarbas, Álvaro tentara trabalhar, mas não conseguira.
Sua cabeça doía. Embora tivesse sido rude com o rapaz, no fundo sentia pena, pois sabia que ele era esforçado.
Antes da hora de costume, saiu do escritório e foi para casa.
Odete, com muito custo, deu sua aula.
Ela também não estava bem.
Chegou em casa acompanhada por Leandro que fez o caminho todo em silêncio.
Ela estranhou ao ver o carro de Álvaro, pois ele chegava sempre depois dela.
Entrou, ele estava recostado em uma poltrona com a sala semi-escura.
Ela se aproximou e, beijando-o, disse:
— Chegou mais cedo hoje?
Não está bem? Está doente?
— Não estou doente, só um pouco nervoso.
Nervoso não, poderia dizer que estou triste.
— Sei... Também passei o dia todo assim.
É muito difícil acreditar, não?
— Sim, ela sempre pareceu ser tão nossa amiga, cuidava muito bem da casa e era carinhosa com os meninos.
Custo crer que tenha feito isso.
Mas quem poderia ter sido?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:01 pm

— Estive pensando nos anos em que esteve ao nosso lado.
Nunca imaginei que ela pudesse um dia fazer uma coisa como essa...
Como você, também estou triste.
— Os meninos, como estão?
— Artur não diz nada.
Sabe, ele está naquela fase complicada por causa da idade.
Já o Leandro só sabe dizer que ela não fez aquilo.
Ele está muito triste e nos achando uns monstros.
Veio da escola até aqui sem dizer uma palavra.
Sabe o quanto ele é falante.
Sinceramente, não sei o que fazer.
— Não havia outra solução, ela não poderia permanecer nesta casa.
Despedi o filho dela.
— Fez isso? Mas ele não tem culpa!
— Quem pode nos garantir isso?
Não quero ter contacto nenhum com aquela família.
— Artur onde está?
— Quando cheguei, a casa estava silenciosa, subi ao quarto dele, dormia profundamente.
— Ele me disse que não dormiu bem a noite passada.
— E quem dormiu?
— Acredito que nenhum de nós.
Bem, tenho que preparar o jantar.
— E mesmo! Ela não está mais aqui.
Precisamos arrumar outra pessoa.
Odete arregalou os olhos.
Disse decidida:
— Não! Não quero mais ninguém estranho aqui em casa!
— Como vai ser?
Você precisa de alguém!
— Darei um jeito, só não quero ninguém...
— Você é quem sabe.
Eu e os meninos poderemos ajudar.
Com ar de deboche, ela disse:
— Isso mesmo. Só de não deixarem suas coisas jogadas já estarão ajudando, e muito!
Ela foi para a cozinha.
Leandro estava diante do televisor.
Ele não queria conversar. Estava triste.
Após um tempo, Odete voltou para a sala:
— O jantar está pronto.
Leandro vá chamar Artur.
Ele olhou para a mãe, não conseguia esconder o ressentimento que sentia.
Em silêncio, levantou-se e foi em direcção ao quarto de Artur.
Ao entrar, estranhou, pois Artur estava deitado, com os olhos parados no tecto, como se estivesse vendo alguma coisa.
Ele se aproximou, dizendo:
— Artur! O que você tem?
Artur pareceu não ouvir.
Continuou ali parado, olhando para o tecto.
Leandro tornou a perguntar, já mais alto:
— Artur! O que você tem? Está me assustando!
Artur olhou para o irmão, respondendo:
— Estou vendo bolas coloridas, você não está?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:01 pm

Leandro olhou para o tecto.
Ficou olhando por um bom tempo, como se estivesse tentando ver algo.
Disse:
— Não estou vendo nada!
Você deve estar louco!
Artur voltou à realidade.
Olhou para o irmão e percebeu que ele estava realmente assustado.
Precisava fazer algo para remediar aquela situação.
Pegou um travesseiro e jogou sobre ele, enquanto, rindo, dizia:
— Você é mesmo um bobo!
Não estou vendo nada, só estava brincando.
Leandro, desviando-se do travesseiro, disse:
— Ainda bem, pensei que estivesse louco!
— Que quer aqui?
— O jantar está pronto, mamãe pediu que eu viesse acordá-lo.
— Eu não estava dormindo.
— Papai, quando chegou, veio até aqui e você estava dormindo.
— Ele chegou mais cedo?
— Chegou sim, parece que não está bem.
— O que ele tem?
— Está muito triste com tudo o que aconteceu com Iracema e principalmente com o filho dela.
— O que ele fez?
— Nada, mas papai o despediu do escritório.
Artur sentiu como se houvesse recebido uma flechada no coração.
Com os olhos arregalados, disse:
— Ele não podia ter feito isso!
O rapaz não tem culpa de nada!
— Por isso mesmo é que ele não está bem.
Mas disse que se a mãe roubou com certeza o filho fará o mesmo.
Artur, com as mãos, enxugou uma lágrima.
Disse:
— Ele não tem culpa de nada...
— Também acho, aliás, não consigo acreditar que Iracema tenha roubado nada.
Você acredita que ela fez isso?
Artur demorou um pouco para responder.
Ia contar a verdade, quando se lembrou das palavras de Rodrigo:
"—... eles vão interná-lo...
Com tudo o que aconteceu, livrou-se de um enorme problema... sua mãe vai esquecer do colar...
Seu pai tem dinheiro, comprará outro..."
Esses pensamentos passaram rapidamente.
Parando de chorar, respondeu:
— Não sei... Não sei...
Vamos descer? Estou com fome!
Leandro não ficou satisfeito com aquela resposta, mas sabia que nem todos pensavam como ele:
— Vamos sim. Também estou com fome.
Desceram. Ao chegar à sala, Artur viu o pai, que continuava recostado na poltrona.
Aproximou-se dizendo:
— Olá, papai... Tudo bem?
Álvaro levantou os olhos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:01 pm

Sentou-se:
— Tudo bem.
E você, como está?
Artur arregalou os olhos quando respondeu:
— Por que está perguntando isso?
Álvaro, estranhando aquela atitude, disse:
— É só um modo de falar.
Agora, com a sua reacção, estou preocupado.
O que você tem? Está nervoso? Por quê?
Artur percebeu que havia exagerado:
— Não tenho nada, só estou nervoso com tudo o que aconteceu.
— Ah, é isso?
Bem-vindo ao clube, hoje estamos todos nervosos.
É difícil acreditar, mas aconteceu.
Precisamos nos recuperar, vencer a tristeza e seguir nossas vidas.
Vamos até a cozinha ajudar sua mãe com o jantar?
— Vamos sim...
Leandro, que acompanhara toda a conversa, seguiu com eles.
Ao entrarem na cozinha, perceberam que Odete estava atrapalhada.
Deixara uma colher cair.
Artur abaixou-se para pegá-la.
Ela, um pouco sem jeito, disse:
— Terão que ter paciência, sabem que não estou acostumada com esse tipo de trabalho.
Álvaro, rindo, disse:
— Isso eu sempre soube.
Por isso disse que precisamos contratar alguém para ajudá-la.
— Já disse que não quero ninguém estranho aqui em casa.
Se me ajudarem, aos poucos conseguiremos nos ajeitar.
Por enquanto, vamos jantar?
Não sei qual é o sabor da comida, mas fiz o máximo para que ficasse boa.
— Deve estar. Vamos?
Os três levaram a comida.
Colocaram sobre a mesa, sentaram-se e jantaram em silêncio.
Após terminarem de comer, todos elogiaram a comida.
Ninguém quis comentar que o arroz estava sem sal.
Odete percebeu, mas como não disseram nada, ela também se calou.
Como faziam todas as noites, foram para a sala.
Artur ficou ali por um tempo, em seguida foi para seu quarto.
Estava começando a sentir os sintomas.
Entrou e saiu várias vezes do banheiro.
Ouviu quando sua mãe subiu acompanhada por Leandro.
Deitou-se rápido, fingiu estar dormindo.
Ao entrar no quarto, Odete, pensando que Artur estivesse dormindo, colocou o dedo sobre os lábios, pedindo que Leandro não falasse ou fizesse barulho.
Ele balançou a cabeça, dizendo que havia entendido.
Deitou-se na cama, ela o cobriu e beijou sua testa.
Cobriu Artur e beijou-o também.
Na ponta dos pés, saiu do quarto.
Artur, embora com os olhos fechados, percebeu quando ela saiu.
Esperou mais um pouco.
Ao ver que todos estavam dormindo, pegou um cigarro e saiu.
Foi para o lugar de sempre e fumou.
No dia seguinte, acordou, foi para a escola, fumou na hora do intervalo.
Tudo igual à sempre.
Aos poucos, as coisas foram voltando ao normal.
Odete fez o possível para conseguir cuidar de tudo.
O nome de Iracema deixou de ser pronunciado naquela casa”.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:02 pm

NO MUNDO DO CRIME
“Artur estava cada vez mais envolvido.
Sem a presença de Iracema ele tinha a tarde toda para fumar no quintal.
Já não lutava mais contra.
Aos poucos, começou a gostar da sensação que a maconha lhe proporcionava.
Tinha momentos de alegria e outros de depressão.
Os pais, acreditando que ele estava passando por uma idade difícil ou apaixonado, deixaram de se preocupar com suas mudanças de humor.
Dias depois, ao mexer no bolso do casaco para pegar um cigarro de maconha, Artur notou que só restavam dois.
Isso aconteceu depois do almoço.
Todos haviam saído, e ele novamente ficou apavorado:
"E agora? O que vou fazer?
Não tenho mais dinheiro!
Vou ligar para Rodrigo."
Pegou o telefone e ligou.
No outro lado da linha, Rodrigo atendeu:
Com voz ofegante, Artur disse:
— Alô, Rodrigo!
Preciso falar com você!
— O que aconteceu?
— Meus bagulhos terminaram, preciso de mais!
— Tem dinheiro?
Artur demorou um pouco para responder.
Mentiu:
— Tenho!
— Está bem, venha até aqui, iremos juntos.
— Já estou indo.
Desligou. Sabia que havia mentido, mas fora necessário:
"Se eu dissesse a verdade, ele não iria comigo.
Até chegar lá, eu penso em um modo de conseguir bagulho”.
Na rua, Artur saiu correndo em direcção à casa de Rodrigo.
Precisava ir e voltar o mais rápido possível.
Quando seus pais chegassem, ele já deveria estar em casa.
Quando chegou, Rodrigo já o estava esperando no portão.
Com aquele sorriso irónico de sempre, disse:
— Chegou logo!
Está mesmo com pressa!
— Claro que sim, preciso voltar logo. Vamos?
Juntos foram para a favela.
Jiló estava sentado em um banco em frente ao seu barraco.
Ao vê-los, sorriu:
— De novo aqui?
Vieram buscar bagulho?
Rodrigo respondeu:
— Isso mesmo.
Os de Artur terminaram e os meus também, precisamos de mais.
— Trouxeram dinheiro?
— Eu não tenho, mas Artur tem.
— Quanto você tem?
Havia chegado à hora.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:02 pm

Artur, com a cabeça baixa, disse:
— Também não tenho, mas o colar que eu lhe dei valia muito mais dos que a maconha que você me deu.
— Está querendo dizer o quê?
— Que preciso de mais maconha, e que você me deu muito pouco pelo colar.
Quero pedir que me dê mais um pouco, depois eu trarei o dinheiro...
Jiló começou a rir.
Rodrigo ficou nervoso, pois ele também não tinha mais bagulho nem dinheiro.
— Oh, cara! Você ainda não aprendeu que sem dinheiro não tem bagulho?
— Sei, mas estou precisando!
— Já disse que o bagulho não cai do céu, eu também preciso pagar para poder fornecer.
Artur já estava desesperado.
Disse quase chorando:
— Mas eu preciso!
— Se não tem dinheiro, traga alguma coisa da sua casa.
— Não posso mais fazer isso, não tem mais nada que eu possa trazer sem que a falta seja notada.
— Então não tem jeito.
Sem pagamento não tem bagulho.
Rodrigo, muito nervoso, disse:
— Artur! Você mentiu?
— Se eu dissesse a verdade você não teria vindo.
— Não teria mesmo!
Rodrigo olhou para Jiló, que também olhava ora para um, ora para outro.
Rodrigo, em tom de súplica, disse:
— Ele me enganou, mas estou precisando também...
— Tem dinheiro?
— Não, mas depois eu trago outro freguês!
— Já faz muito tempo que você não traz ninguém.
O último foi esse aí.
Já levou toda a sua percentagem.
Rodrigo, quase chorando, disse:
— Estou tentando, mas não estou conseguindo.
Logo mais trarei outro.
— Quando trouxer, lhe darei...
— Estou sem bagulho!
Como vou ficar?
— Pode sempre voltar a fazer "aquilo"...
— Não, não posso!
É muito perigoso!
— Perigoso nada!
Quantas vezes já fez e não aconteceu nada?
Artur se interessou pela conversa:
— Do que estão falando?
— Se Rodrigo quiser, ele conta.
Talvez seja uma solução para você também.
Rodrigo tentou mais uma vez:
— Não tem mesmo outro jeito?
— Não, sem dinheiro não tem bagulho.
Se eu fosse vocês, aproveitaria que estamos no começo do mês.
Hoje é um bom dia para se fazer o "trabalho".
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:02 pm

Artur se entusiasmou:
— Trabalho? Faço qualquer trabalho!
— Rodrigo, está vendo?
Ele faz qualquer tipo de trabalho.
Está na hora de ensinar.
Ele olhou para Artur.
Disse:
— Não adianta, ele não vai ter coragem, é muito medroso!
— Leve-o com você e mostre como se faz.
Depois vão para outro lugar e você o deixa fazer.
Se conseguirem, podem voltar, terão o bagulho que precisam.
Rodrigo olhou mais uma vez para Artur.
Disse:
— Vamos, vou mostrar como se faz.
Artur seguiu-o.
Rodrigo, calado, caminhava.
Tomaram um ônibus.
Embora não soubesse o que ia fazer, Artur estava animado, era o que mais queria.
Ter seu próprio dinheiro para comprar a sua maconha.
Desceram no centro de um bairro muito movimentado.
Na rua principal existia muito comércio.
As pessoas caminhavam de um lado para o outro.
Rodrigo dirigiu-se até um banco, entrou, notou que havia muitas pessoas na fila do caixa.
A fila era enorme.
Prestou atenção em tudo.
Levou Artur para um canto do banco e disse:
— Está vendo aquela senhora que está na fila?
— Qual?
— Aquela de casaco preto.
Artur olhou e logo identificou a senhora.
— Estou. Quem é ela?
— Não sei quem é ela.
Você vai lá para fora, fica esperando que ela saia do banco.
Eu sairei em seguida.
— Não estou entendendo.
— Não precisa entender, precisa só ficar esperto, e quando ela sair, veja para que lado ela vai.
Siga-a de perto.
Eu vou passar correndo, darei um empurrão para que ela caia.
Assim que isso acontecer, você corre para ajudá-la a se levantar.
— Vai roubá-la?
Nervoso, Rodrigo respondeu:
— Não vou roubar!
Vou arrumar o dinheiro que a gente precisa!
Se quiser o bagulho, tem que fazer o que eu disse.
Mas se não quiser, pode ir embora, farei sozinho!
Artur pensou um pouco, sabia que não poderia ficar sem a maconha.
Aceitou com a cabeça.
Saiu do banco e ficou ali até ver a senhora sair.
Rodrigo saiu em seguida:
— Para onde ela foi?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:02 pm

— Naquela direcção.
— Vamos atrás dela!
Já sabe o que fazer.
— Estou com medo...
— Não quer o bagulho?
— Quero!
— Então faça o que eu disse.
A senhora caminhava devagar olhando as vitrines.
Tinha sobre os ombros uma bolsa.
Artur ficou mais ou menos a um metro atrás dela.
Andava no mesmo passo que ela.
Caminharam alguns metros, quando Artur viu Rodrigo passar correndo e empurrar a senhora, que com um grito, caiu.
Ele se aproximou e abaixou-se, dizendo:
— A senhora está bem?
Ela, assustada e surpresa, disse:
— Estou meu filho, mas e minha bolsa?
Minha bolsa!
Alguém levou!
Artur, tremendo muito, ajudou-a a se levantar.
Ela gritava, as pessoas olhavam para os lados.
Artur também, mas não viu nem a sombra de Rodrigo.
Ele aproveitara enquanto ela estava caída e saíra andando disfarçadamente.
Ela, entre surpresa e assustada, chorava:
— Como vou fazer?
Vim receber a minha aposentadoria!
E agora? È todo o dinheiro que tenho para passar o mês...
As pessoas se aproximaram, tentavam consolá-la.
Ela chorava, mas aos poucos as pessoas se afastaram.
Artur ficou ali sem saber o que fazer ou dizer.
Ela disse, chorando:
— Não tenho dinheiro nem para a condução, não sei como irei para casa.
Meu filho, não teria ao menos esse dinheiro para me dar?
Artur não tinha.
Mas uma senhora que estava por perto tinha e deu a ela, que chorando, agradeceu muito e foi embora.
Ele voltou a olhar para os lados procurando por Rodrigo.
Sem saber o que fazer, ficou andando de um lado para o outro.
Após uns dez minutos, Rodrigo se aproximou falando rápido:
— Vamos sair daqui, siga-me.
Artur o seguiu, tremia e não se conformava com o que haviam feito.
Chegaram ao ponto de ônibus.
Rodrigo estava muito nervoso:
— Tanto trabalho para quase nada!
— Onde está a bolsa dela?
— Tirei o dinheiro e joguei fora!
— Não devíamos ter feito isso.
Era todo o dinheiro que ela tinha...
— Não se preocupe com isso!
Ela deve ter filhos!
— E se não tiver?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:03 pm

— Isso não é da nossa conta.
Agora precisamos ir para a favela, estou muito mal!
Preciso do bagulho.
Artur seguiu-o calado, pois ele também estava precisando, e muito.
Na favela, Jiló os recebeu com um sorriso:
— Voltaram logo. Conseguiram?
Rodrigo respondeu mostrando o dinheiro:
— Sim, está aqui!
— Só isso?
— Era tudo o que tinha na bolsa!
— Isso aqui não vai dar pra comprar muito bagulho, não!
— Sei disso.
Amanhã iremos para outro bairro, conseguiremos mais e voltaremos.
— Está bem, aqui estão alguns bagulhos.
Deu alguns cigarros para Rodrigo que, ofegante, acendeu e deu um para Artur.
Após terminarem, Rodrigo contou como havia sido.
— Está bem, mas sabem que precisarão de muito mais.
Artur não ouvia, via a imagem da mulher chorando. Ele também começou a chorar:
— Coitada da mulher...
Só tinha aquele dinheiro para passar o mês...
Rodrigo disse raivoso:
— Pare de chorar! Parece uma menina!
Chora à toa! Já disse que isso não é problema nosso!
— Como não, Rodrigo?
Nós a roubamos!
— Sabe muito bem que não havia outra solução.
Hoje você fez a parte mais fácil.
Amanhã terá que dar o empurrão.
— Eu? Não conseguirei!
— Se não conseguir, não vou mais dividir!
Artur sabia que estava totalmente dominado pela maconha.
Sabia também que teria que fazer aquilo.
Rodrigo continuou:
— Já devia ter aprendido que é difícil só na primeira vez.
Depois fica fácil.
— Está bem... Não tem outro jeito mesmo.
Agora preciso ir para casa...
No dia seguinte, logo depois do almoço, Artur foi se encontrar com Rodrigo e, juntos, foram para outro bairro.
Entraram no banco, escolheram a pessoa que seria assaltada.
Artur deu o empurrão, Rodrigo a socorreu.
Nesse dia tiveram mais sorte.
A quantia era bem maior.
Artur percebeu que realmente era muito fácil.
Como Rodrigo dissera: só foi difícil a primeira vez.
Daquele dia em diante, eles começaram a assaltar.
Faziam isso no começo do mês, tinham assim quase toda a maconha de que precisavam.
O tempo foi passando.
Artur estava tranquilo em relação ao modo como conseguiria pagar a maconha.
Em casa tudo caminhava.
Odete não quis mais uma empregada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:03 pm

Com a ajuda deles, conseguia manter a casa.
Aos sábados, a mãe de um de seus alunos ia e fazia uma faxina.
Odete pedira que fosse aos sábados, pois estaria em casa e poderia vigiá-la.
Mesmo assim, as jóias, o dinheiro e os objectos de valor foram colocados em um cofre.
Artur continuava saindo à noite para fumar no quintal.
A presença de Leandro dormindo ao seu lado o incomodava.
Um dia, pela manhã, quando sua mãe foi acordá-lo, ele pediu:
— Mamãe, já não está na hora de Leandro ir dormir no quarto dele?
Odete admirou-se:
— Por que está dizendo isso? Nunca reclamou.
— Sei, mas ele já está grande, às vezes eu quero levantar à noite e mexer no computador.
Não faço porque tenho medo de acordá-lo.
— Você acorda durante a noite?
— Nem sempre, mas de vez em quando acordo.
— Vou falar com ele.
Sei que vai ficar triste, está acostumado.
— Já está bem grandinho.
— Está bem, vou falar com ele, mas agora se levante.
Ela saiu do quarto.
Não entendia o porquê daquilo, mas estava muito atarefada, precisava deixar a casa em ordem antes do almoço.
Embora Álvaro lhe houvesse dito para deixar a escola, não quisera fazer isso.
Naquela mesma noite, sob protesto, Leandro foi dormir em seu quarto.
O dinheiro começava a chegar fácil.
Rapidamente Artur se acostumou.
As pessoas atacadas eram frágeis, não tinham como reagir, e eles assaltavam em um tempo cada vez mais curto.
Fazia dois meses que estavam assaltando e dividindo toda a maconha que conseguiam.
Em uma tarde, como fazia todos os dias, assim que todos saíram Artur foi para a casa de Rodrigo.
Tocou a campainha e Rodrigo abriu a porta.
Estranhou, ele estava diferente.
Seu rosto estava vermelho, ele ria muito e dizia que via coisas e ouvia vozes.
Falava com alguém que só ele via.
Artur, assustado, perguntou:
— O que você tem?
— Cara! Você nem imagina o que tô sentindo!
É uma maravilha!
— O que é? O que está sentindo?
— Venha aqui, vou lhe mostrar!
Artur o acompanhou até a sala.
Sobre a mesa, e espalhado, havia um corredor feito com um pó branco que Artur não conhecia.
Rodrigo disse:
— Tape o nariz e inspire este pó, assim, deste jeito.
Vai sentir algo que nunca sentiu antes.
— O que é isso?
— Não importa, faça do jeito que falei!
Garanto que não vai se arrepender!
Entusiasmado com a atitude de Rodrigo, Artur obedeceu.
Fez exactamente o que Rodrigo ensinara.
Aproximou-se, debruçou-se sobre a mesa e inspirou.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:03 pm

Após alguns minutos, começou a rir.
Não conseguia descrever a sensação que sentia.
O cigarro de maconha lhe dava prazer, mas aquilo era muito superior.
Não sentia aquela vontade de sair correndo, queria ficar ali parado, ou melhor, sentado.
As imagens que vinham a sua mente eram incríveis.
Daquele dia em diante, deixou de usar maconha.
Só queria o pó.
Quando sentia que estava em depressão, saía em busca do pó.
O tempo foi passando, Artur ficava sozinho em casa.
Continuou fazendo os assaltos, tendo assim dinheiro para comprar o pó branco.
Seu humor mudava de uma alegria imensa até uma depressão profunda, mas seus pais não notaram.
Além de estarem preocupados com seus afazeres, achavam que era tudo questão da idade.
Artur, sem a presença de Leandro em seu quarto e de Iracema em casa, não teve mais preocupação em esconder o pó no casaco.
Deixava os pacotinhos do pó dentro de uma gaveta na mesa do computador.
Sabia que ninguém entrava em seu quarto ou mexia nas suas coisas.
Nunca mais foi para a aula de natação ou de computação.
Passava toda a tarde andando com Rodrigo ou na favela junto com Jiló, planejando o próximo
assalto.
Na escola, procurou acompanhar as aulas, sem a pressão da falta do pó.
Até que conseguiu, mas suas notas baixaram.
Novamente seus pais não perceberam, porque não estavam acostumados a verificar isso.
Além do mais, sabiam que ele sempre tirava notas altas nas provas.
Naquele final de ano, Artur não foi muito bem, ficou de segunda época em quatro matérias:
Português, Ciências, Matemática e História.
Ficou preocupado:
"Como vou dizer para meus pais?
Eles vão desconfiar.
O que vou fazer?
Tenho ainda uns quinze dias para dizer.
Até lá, encontrarei uma maneira."
Desde que começara a usar aquele pó, ele não se preocupava com mais nada.
Achava que sempre encontraria uma solução fácil para seus problemas.
Por estar preocupado com as notas, a única solução que encontrou naquele momento foi esparramar o pó sobre a mesa e aspirá-lo.
Em uma das tardes em que conversava com Rodrigo e Jiló, este disse:
— Vocês agora estão usando o pó, e sabem que ele é bem mais caro.
Têm que assaltar várias vezes para conseguir o dinheiro que precisam para o mês todo.
Tenho um assunto pra tratar com vocês.
Se aceitarem, poderão trabalhar só uma vez por mês.
Os dois se interessaram por aquela conversa.
Rodrigo, curioso, perguntou:
— Que assunto?
— Tem um cara aí que precisa de um carro.
Ele paga muito bem...
Artur se assustou:
— Não! Isso é muito perigoso!
Não vou fazer!
Rodrigo continuou:
— Jiló, não sei se ele está preparado pra isso.
Ainda é muito cedo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:03 pm

— Não vou insistir, quando estiverem prontos é só falar.
Se eu fosse vocês, pensaria bem no assunto.
Acho que vale a pena. E uma boa...
Artur concordou com a cabeça.
Ele e Rodrigo saíram dali.
Artur seguia ao lado de Rodrigo.
Aquela conversa com Jiló realmente o assustara.
Disse:
— Rodrigo, o que você acha daquilo que Jiló disse?
— Que cara é essa, Artur?
Já sabe que roubar não é tão difícil.
Carro é ainda mais fácil.
A gente só precisa esperar o dono estacionar e se afastar.
— Se ele ou alguém nos vir?
— Ninguém vai ver, e se acontecer, a gente corre.
— Não sei não...
— É muito mais perigoso a gente continuar assaltando velhinho, tem sempre muita gente por perto.
Além disso, precisamos nos arriscar muitas vezes.
Nem sempre a gente consegue um bom dinheiro que dê para o mês todo.
— Nisso você tem razão...
— Sabe muito bem que não consegue mais ficar sem o pó!
— Infelizmente, é verdade.
— Infelizmente coisa nenhuma!
Bem que você gosta do pó!
Quer saber de uma coisa?
Eu vou até o barraco pra continuar o assunto com Jiló!
Se você não quiser, não precisa ir, mas já sabe, não vou dividir mais!
Vai ter que se virar!
Artur foi obrigado a concordar.
No íntimo ele gostava de usar a droga.
Ela lhe dava um prazer indescritível.
Sem dizer mais nada, Rodrigo se voltou e começou a caminhar novamente em direcção à favela.
Artur ficou vendo-o se afastar.
Em seguida, correu atrás dele.
— Está bem, vou com você.
Vai dar tudo certo.
Rodrigo sorriu, e juntos chegaram ao barraco de Jiló, que ao vê-los, disse:
— Decidiram bem depressa!
Toparam fazer o serviço?
Rodrigo foi quem respondeu:
— Estivemos conversando e decidimos fazer o trabalho.
— Assim é que se fala...
— Vamos ao que interessa.
Quantos carros a gente vai precisar roubar pra ter pó por um mês?
Jiló pensou um pouco antes de responder.
Levava os dedos aos lábios, como se estivesse fazendo uma conta.
Disse:
— Um ou no máximo dois.
— Tá vendo, Artur?
Vai ser muito mais fácil!”.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 09, 2017 8:04 pm

PRIMEIRA AJUDA DO CÉU
“Artur, como das outras vezes, sabia que precisaria da droga.
Disse:
— Está bem, vamos tentar.
Quando vai ser?
Jiló, antes de responder, disse:
— Só tem um problema...
— Que problema?
— Não pode ser durante o dia, seria muito perigoso.
O melhor é à noite, de preferência perto de alguma faculdade.
Lá só tem carro bom.
É tudo filhinho de papai.
— Não conseguirei sair à noite.
— Pode deixar, eu ligo para sua casa na hora do jantar.
Digo que estou precisando da sua ajuda, seus pais não desconfiarão de nada.
— Será que não desconfiarão mesmo?
— Claro que não.
Eles não imaginam o que você faz, confiam plenamente.
— É por isso que em alguns momentos fico triste.
Não consigo imaginar o que fariam caso descobrissem.
— Agora não é hora de pensar nisso.
Precisamos planear como faremos.
Jiló vamos conversar sobre a marca do carro e qual será a nossa parte em dinheiro.
— É assim que se fala.
Esperem, vou lá dentro pegar tudo.
Está tudo escrito em um papel.
Jiló entrou.
Artur, como já vivia a muitos dias se drogando, estava meio entorpecido, não conseguia pensar com clareza, só sentia necessidade do pó.
Jiló em seguida saiu com um papel na mão.
Entregou-o para Rodrigo e os três planearam como seria.
Artur ia concordando com tudo.
Naquela mesma noite, após o jantar, o telefone tocou.
Odete atendeu.
Artur estava sentado junto ao pai assistindo televisão.
Após atender ao telefone, Odete disse:
— Artur, é para você!
— Quem é?
— Rodrigo, disse que está precisando da sua ajuda para a prova de amanhã.
— Que chato!
— Ora, meu filho, não custa nada ajudar.
Nem todos têm a mesma facilidade que você para aprender.
Fingindo descontentamento, pegou o telefone.
— Alô.
— Oi, Artur, está tudo bem por aí?
— Está tudo bem, mas o que você quer?
— Posso falar?
— Claro!
— Precisa ser hoje, minha mãe ligou dizendo que vai precisar trabalhar até mais tarde.
Diz aí que precisa vir para cá me ensinar.
— Não posso sair à noite.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:30 pm

— Me deixe falar com sua mãe.
— Está bem.
Mamãe, ele quer falar com a senhora.
Odete pegou o telefone.
— Alô! Pode falar.
— Dona Odete, amanhã vai ter uma prova muito difícil, e eu estou tendo um pouco de dificuldade.
Será que Artur não pode vir até minha casa para me ajudar?
A senhora sabe que ele é o melhor aluno da classe!
Ela, que até então não sabia que o filho já não era mais o melhor aluno, respondeu:
— Não sei se ele pode ou quer ir.
— Por favor, peça a ele...
Odete sorriu.
Rodrigo sabia ser agradável.
— Está bem, vou tentar.
Olhou para Artur, que fingia não estar interessado.
— Artur, acredito que não custa nada, ele é seu amigo...
— Está bem, mamãe, eu vou.
Álvaro disse:
— Eu o levo.
— Não precisa, é aqui perto.
— Vá, meu filho.
Quando terminar, se for tarde, vou buscá-lo.
— Não vai precisar papai, acho que não vai demorar.
Não posso ficar muito tempo, preciso dormir.
Também tenho a mesma prova amanhã.
Artur saiu.
Na rua, começou a correr.
Precisava realmente voltar logo para não despertar suspeitas.
Quando chegou, Rodrigo já o estava esperando:
— Vamos logo.
Você demorou!
— Não demorei, vim o mais rápido possível.
Vamos!
— Espere, antes vamos entrar.
Minha mãe ainda não chegou, dá tempo de dar uma cheirada antes de sair.
Entraram. O pó estava esparramado sobre a mesa.
Cheiraram e saíram.
Andavam pela rua sem saber muito bem o que estavam fazendo.
Corriam, paravam e riam muito.
Chegaram ao local planeado.
Em frente havia uma faculdade.
Vários rapazes e moças estacionavam seus carros e entravam.
Eles ficaram observando.
Logo o movimento de pessoas parou.
As aulas começaram e todos os alunos estavam lá dentro.
Rodrigo mostrou um carro para Artur.
— È aquele ali. Vamos rápido.
Tenho aqui as ferramentas, vamos!
Aproximaram-se do carro.
Artur se impressionou com a rapidez com que Rodrigo abrira a porta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:30 pm

Ficou do lado de fora enquanto Rodrigo entrou e puxou alguns fios que havia embaixo do painel.
Cortou, estava fazendo a ligação quando ouviu uma voz:
— O que está fazendo aí?
Levantou a cabeça.
Ficou horrorizado com a cena que viu.
Um homem, tendo um revólver sobre a cabeça de Artur, que tremia muito, repetiu:
— O que está fazendo aí?
Rodrigo, também tremendo, ficou sem saber o que dizer.
O homem, com voz firme, disse:
— Saia! Não tente nada.
Sou um delegado de polícia.
O homem tirou duas algemas que tinha na cintura e colocou nos dois.
Naquele momento, Artur se lembrou do rapaz que havia visto em frente à escola e que tanto o impressionara.
Teve a resposta à pergunta que se fizera naquele dia.
Sabia o porquê de o rapaz estar naquela situação.
Com os dois algemados e com o revólver em suas costas, o delegado levou-os até um telefone que havia ali.
Ligou para um número e logo depois uma viatura com dois policiais chegou.
Empurrando os dois para dentro da viatura, disse a um policial:
— Leve estes dois para a delegacia.
Vim trazer minha filha para a aula e de longe vi estes dois em atitude suspeita.
Aproximei-me e vi que tinha razão.
Eles estavam tentando furtar este carro.
Faça o relatório.
O delegado saberá o que fazer.
Se for necessário, irei até a delegacia.
Aqui está o número do meu telefone.
— Sim, doutor, farei isso.
Os policiais colocaram os dois na parte de trás da viatura.
Eles estavam apavorados.
Devido à droga, não percebiam muito bem a situação, mas sabiam que nada estava bem.
Assim que chegaram à delegacia, foram levados até uma sala.
Um senhor com os cabelos grisalhos, com um sorriso e a voz calma, perguntou:
— O que estavam fazendo?
Artur permaneceu calado.
Rodrigo, com voz trémula, respondeu:
— Não estávamos fazendo nada!
Foi tudo um engano!
Aquele delegado se enganou, a gente só estava passando por aquela rua!
Com um sorriso o homem prosseguiu:
— Foi mesmo?
Aqui neste papel diz que um de vocês estava dentro do carro tentando fazer uma ligação directa.
— È mentira...
— Pode ser, mas por que um delegado mentiria?
O que ele ganharia com isso?
— Não sei, ele não deve ter gostado da gente...
— Vocês estão drogados?
Um olhou para o outro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:31 pm

Artur não dizia nada, não conseguia esquecer daquele dia em frente à escola, quando o rapaz fora preso.
Naquele momento, no rosto de Rodrigo via a mesma expressão de medo e desespero que vira no rosto dele.
Rodrigo respondeu:
— Não senhor!
Não estamos drogados.
O delegado deu outro sorriso.
Parecia que estava triste por aquela situação:
— Vocês já perceberam que não sou mais jovem, tenho uma longa vida aqui nesta delegacia.
Por aqui passaram vários outros jovens como vocês.
Sei que estão drogados, sei também que estavam roubando aquele carro para pagar a droga.
Quantos anos vocês têm?
Disseram a idade.
Os dois choravam.
O delegado continuou:
— Preciso saber o nome de vocês e o endereço.
Artur quase gritou:
— Por quê?
— Preciso avisar e pedir para que seus pais venham buscá-los.
Artur, desesperado, disse:
— Por favor, senhor!
Não faça isso!
Meus pais não sabem de nada.
Se souberem, morrerão!
— Eles não sabem?
— Não!
— Então, em vez de ficar chorando, deve agradecer por isto que está acontecendo.
Da maneira como estão vestidos e falam, parecem pertencer a boas famílias.
São bem-educados, por isso tenho certeza que seus pais também são esclarecidos e entenderão.
Só poderão ajudá-los quando tomarem conhecimento.
Rodrigo tentou:
— Por favor, doutor, deixe a gente ir embora.
Prometemos que nunca mais faremos isso!
Deixaremos a droga, não é, Artur?
Artur não conseguia falar, estava nervoso, assustado e com muito medo.
O delegado continuou:
— Não posso fazer isso.
Conheço o drogado, ele promete, mente, pede perdão, diz que não vai mais usar, mas assim que se vê livre, volta a se drogar.
Não consegue se livrar sozinho, precisa de ajuda.
Para o bem de vocês, preciso avisar seus pais.
Eles virão e eu conversarei com eles.
Encontraremos uma maneira de ajudá-los.
Já estiveram presos antes?
Já traficam?
Com a cabeça, disseram que não.
— Se isso for verdade, é muito bom, é sinal que estão ainda no começo e que têm chance de se libertar.
Agora preciso dos nomes e endereços.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:31 pm

Entendendo que não havia outra maneira, os dois disseram seus nomes e os endereços.
Enquanto isso, na casa de Artur, Odete, preocupada disse:
— Álvaro, já está tarde, são quase onze horas e Artur não voltou.
— Tem razão, ligue para a casa do amigo dele, diga que vou buscá-lo.
Não quero que fique andando pelas ruas à uma hora dessas, é muito perigoso.
— Não sei o número do telefone.
Ele não deixou...
— Deve estar nessa agenda perto do telefone.
Odete pegou a agenda, procurou, mas não encontrou.
Álvaro disse:
— Artur deve ter uma agenda só dele.
— É mesmo, vou até o seu quarto ver se encontro.
Ela subiu a escada em direcção ao quarto de Artur.
Entrou, sorriu ao ver a bagunça.
Pensou:
"Vou ter que falar sério com ele, precisa arrumar este quarto."
Olhou em direcção ao computador, aproximou-se.
Procurou por sobre a mesa, mas não viu a agenda.
Abriu a gaveta, também ali não estava.
Viu alguns pacotinhos de pó branco.
Pegou um deles em sua mão, olhou, mas não conhecia, não sabia o que era, pois nunca havia visto cocaína.
Colocou de volta na gaveta, saiu.
Voltou para junto de Álvaro, dizendo:
— Não achei nenhuma agenda.
— Sabe onde ele mora?
— Não, sei que é aqui perto, mas não sei onde.
— Bem, só nos resta esperar, logo mais ele vai telefonar ou chegar.
— Tem razão.
Estavam ali conversando e esperando por Artur.
O telefone tocou.
Álvaro, enquanto atendia, disse:
— Não disse que ele ia telefonar?
Odete sorriu aliviada.
Ele atendeu:
— Alô.
Do outro lado da linha, uma voz de homem disse:
— Preciso falar com o doutor Álvaro Gomes de Matos.
— Sou eu.
— O senhor precisa vir até a delegacia.
— Delegacia!?! Por quê?
Odete deu um pulo do sofá onde estava sentada.
Olhou desesperada para o marido, que ouvia o homem dizendo:
— Seu filho está aqui.
— Meu filho!?! Por quê?
Foi assaltado novamente?
— Não posso dizer nada por telefone, o delegado o está esperando aqui.
— Mas ele está bem?
Está ferido?
— Não, ele não está ferido.
Venha o mais rápido possível.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:31 pm

— Irei agora mesmo.
Qual é o endereço?
Enquanto ele anotava em um papel o endereço, Odete segurava em seu braço, desesperada, querendo saber o que estava acontecendo.
Após terminar de anotar, muito nervoso, ele se voltou para ela, dizendo:
— Preciso ir para a delegacia, Artur está lá!
— Entendi isso, mas por quê?
— Não sei, a pessoa que ligou não quis dizer por telefone, mas disse que ele está bem, não está ferido!
Vou agora!
— Vou com você!
— Não pode!
Leandro está dormindo, não pode ficar sozinho.
— Vou ficar desesperada!
— Sei disso, mas não há outra maneira.
— Assim que chegar e tomar conhecimento do que aconteceu, ligue para me contar.
— Está bem, farei isso.
Ele deu-lhe um beijo e saiu.
Ela ficou rezando, foi até o quarto de Leandro, que dormia profundamente.
Voltou para a sala e ficou junto ao telefone”.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:31 pm

SERVINDO DE INSTRUMENTO
“Álvaro chegou ao pátio da delegacia, estacionou o carro e entrou.
Encaminhou-se a um balcão, onde um homem o recebeu:
— Pois não?
— Meu nome é Álvaro Gomes de Matos, recebi um telefonema dizendo que meu filho está aqui.
Seu nome é Artur. O que aconteceu?
— Eu mesmo liguei.
Sente-se e aguarde um minuto.
O delegado falará com o senhor.
Embora nervoso, ele sabia que precisava obedecer ao regulamento.
Enquanto esperava, uma moça muito nervosa entrou e dirigiu-se ao balcão:
— Recebi um telefonema dizendo que meu filho está aqui!
O nome dele é Rodrigo.
— Ele está aqui sim, mas, por favor, sente-se e aguarde um minuto.
— O que aconteceu com ele?
Está ferido?
— Sente-se, o delegado logo mais falará com a senhora.
Ela se voltou, estava caminhando em direcção a um banco.
Álvaro se aproximou:
— Com licença, a senhora é a mãe de Rodrigo?
— Sim, mas quem é o senhor?
— Sou o pai de Artur.
— De Artur!?!
Ele também está aqui?
— Sim.
— O que aconteceu?
O senhor sabe?
— Não! Estou ansioso.
Ansioso não, desesperado para saber!
— Eu também. Trabalhei até mais tarde.
Assim que cheguei vi um bilhete escrito por Rodrigo dizendo que estava estudando na casa de Artur.
Fiquei tranquila.
Logo depois recebi o telefonema.
Não tenho a menor ideia do que aconteceu.
— Seu filho ligou para minha casa pedindo permissão para Artur ir para a sua, onde estudariam para a prova de amanhã.
Isso tudo está muito estranho.
— Está mesmo...
Conversavam tentando entender o que estava acontecendo.
O homem do balcão, com as mãos, fez um sinal chamando-os.
Aproximaram-se.
O homem disse:
— O delegado irá atendê-los, é naquela sala.
Ambos seguiram em direcção à porta que com a mão o rapaz apontara.
Assim que chegaram a frente à porta, pararam.
A cena que viram dentro da sala fez com que ficassem como que paralisados.
Artur e Rodrigo, em um canto da sala, algemados e com as cabeças baixas.
Por detrás de uma mesa, o delegado sentado, e em frente a ela duas cadeiras.
Da porta onde estava parado, Álvaro gritou:
— Artur! O que significa isto?
Glória, a mãe de Rodrigo, paralisada, não conseguiu dizer nada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:32 pm

Artur continuou de cabeça baixa, sem coragem de enfrentar o pai.
O delegado, percebendo o desespero deles, com uma expressão preocupada, fez um sinal com a mão mostrando as cadeiras, pedindo que se sentassem.
Eles pareciam estar vivendo um sonho.
Devagar, sentaram-se.
Álvaro, assustado e muito nervoso, disse:
— O que está acontecendo aqui?
Por que meu filho está algemado?
O delegado, acostumado com aquela situação, respondeu.
— Procure se acalmar, sei o que está sentindo.
Já estou aqui há muito tempo, já vi muitas cenas como esta.
— Como me acalmar?
Meu filho está aí!
Nessa situação! Porquê?
— Eles foram presos tentando furtar um carro.
Glória e Álvaro levantaram-se da cadeira ao mesmo tempo.
Falaram juntos:
— Furtar!?! Um carro!?!
Álvaro continuou:
— Não pode ser!
Aqui deve estar havendo um engano!
— Sentem-se, por favor, procurem se acalmar, temos muito para conversar.
Voltaram a se sentar.
O delegado continuou:
— Não há nenhum engano.
Foram presos em flagrante por um delegado.
Os dois olharam para Artur e Rodrigo, que continuavam de cabeça baixa.
Glória balançava a cabeça, como se não acreditasse naquilo que via e ouvia.
Álvaro, percebendo que Artur não dizia nada, temeu que o que o delegado estava dizendo fosse verdade.
Olhou para Artur e disse:
— Artur, por quê? Para quê?
Artur continuou com a cabeça baixa.
O delegado continuou:
— Artur, você quer responder?
Com a cabeça, ele disse que não.
Álvaro olhou para o delegado, que disse:
— Eles fizeram isso porque precisavam de dinheiro.
— Dinheiro!?! Não pode ser!?!
Ele tem todo o dinheiro que precisa!
Procuro atendê-lo em todas as necessidades!
— Mas não lhe dá dinheiro para comprar droga.
— Droga!?! Não pode ser!
Não pode ser!
Meu filho não usa drogas!
Glória levantou-se e correu para o lado de Rodrigo.
Começou a sacudi-lo:
— Rodrigo! Por favor, diga que ele está errado!
Diga que aqui está acontecendo um engano!
Rodrigo também não respondia e continuava de cabeça baixa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:32 pm

Ela continuou:
— Você sabe o quanto trabalho para lhe dar tudo o que precisa, além de uma boa escola!
Você sabe que desde que seu pai foi embora eu vivo só para você!
Diga que é mentira!
Diante do silêncio de Rodrigo, o delegado continuou:
— Por favor, senhora, acalme-se e sente-se.
Precisamos conversar.
Em seguida, chamou o homem do balcão:
— Pois não, doutor.
— Leve esses dois para a outra sala.
O homem pegou nos braços dos dois e os conduziu para fora.
Ambos, sem resistir e em silêncio, o acompanharam.
Assim que saíram, o delegado pediu:
— Por favor, os senhores precisam se acalmar.
Já passaram por aqui vários jovens como esses e, infelizmente, muitos outros ainda passarão.
A droga está destruindo nossos jovens.
O pior é que muito pouco ou quase nada podemos fazer para exterminar os traficantes.
Eles se multiplicam em uma escala geométrica.
Álvaro, completamente descontrolado, mas já aceitando a situação, disse quase chorando:
— Meu filho não pode estar usando drogas! Não pode!
— Consigo imaginar o que o senhor está sentindo, mas infelizmente está sim.
— Não pode ser!
Sempre conversamos muito sobre isso.
Eu e a mãe dele procuramos lhe dar tudo o que precisasse.
Somos, ou pelo menos nos sentíamos bons pais.
Ele está em uma boa escola, faz natação.
Quando disse que queria aprender computação, o colocamos em uma escola.
Não entendo por que ele fez isso...
— Ele não tem culpa de nada.
— Como não tem culpa?
Ele não tinha motivo!
— Os traficantes usam argumentos, sabem que ponto atingir.
Diria até que são melhores que os psicólogos.
— Todos deveriam morrer!
— Também penso assim, mas o senhor sabe quem ajuda os traficantes?
— Não, e nem me interessa.
— Pois deveria se interessar.
Na maioria, é jovem como o seu filho.
Glória, que acompanhava a conversa, disse:
— Não pode ser ele é ainda uma criança...
— Por isso mesmo.
As crianças são facilmente envolvidas.
A droga é cara.
Quando se viciam, como não têm dinheiro, são levados para o crime ou o tráfico.
Ainda não sei em que grau de vício seus filhos estão não sei se já cometeram outros crimes ou delitos.
— Crimes? Delitos? Não!
O senhor não está falando do meu filho!
Ele sempre foi um bom aluno, o primeiro da escola.
Nunca tive que me preocupar com suas notas.
— Há quanto tempo o senhor não olha as notas ou não vai até a escola para saber como ele está?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:32 pm

Álvaro ficou por um instante pensando.
Depois disse:
— Acho que faz um bom tempo, aliás, faz muito tempo.
Para dizer a verdade, desde que percebemos que era um bom aluno.
— Garanto para o senhor que se for hoje até a escola, terá notícias bem diferentes.
— Será?
— Sim, a droga interfere no cérebro do jovem.
Aos poucos ele não consegue mais se concentrar.
Seu único pensamento é encontrar uma maneira para consegui-la.
— Irei amanhã mesmo à escola.
— Faça isso.
Glória, enxugando as lágrimas, disse:
— Também farei isso.
Nunca me preocupei muito com as notas de Rodrigo porque ele nunca foi um bom aluno.
Sempre teve dificuldades em aprender.
Suas notas nunca foram as melhores, mas sempre conseguiu passar de ano.
Só não estou entendendo por que ele fez isso.
— Muitos são os motivos.
O traficante sabe muito bem como usá-los.
Alguns jovens são curiosos, querem fazer parte do grupo, e muitas vezes por timidez não conseguem.
Outros querem estar em evidência.
A maioria dos viciados é fruto da pobreza ou de lares desfeitos.
Álvaro, ao ouvir aquilo, disse:
— Meu filho não se enquadra em nenhum desses casos.
Ele nunca me pareceu querer fazer parte de grupo algum, tem uma vida tranquila em relação a dinheiro, eu e minha esposa nos damos muito bem.
Sempre acreditei que minha família fosse perfeita...
— E deve ser, mas alguns jovens nessa idade, não importando o sexo, sentem-se feios, desajeitados.
É quando o interesse pelo sexo oposto surge, e se eles não têm coragem de se aproximar da outra pessoa, entregam-se às drogas, que lhes dá uma falsa sensação de poder.
Com ela, eles conseguem dizer e fazer o que desejam.
Como podem ver, existe um vasto campo
para ser explorado pelos traficantes.
Glória, insistindo em secar as lágrimas, falou:
— No meu caso, Rodrigo se encaixa, sim.
Estou separada do seu pai há muito tempo.
Desde então, dediquei-me ao trabalho para mantê-lo bem.
Sou a culpada, não lhe dei a atenção devida.
A única coisa que sempre me preocupou foi dar-lhe uma boa vida.
Meu único desejo era que estudasse, se formasse e tivesse uma boa profissão.
O delegado, com voz mansa, continuou:
— A senhora fez o que achava certo.
Qual pai não quer isso para o filho?
Por isso, não deve se culpar por nada.
No momento, não importa quais foram às razões ou os motivos.
O que precisamos fazer agora é tentar tirar esses garotos do vício.
Álvaro estava transtornado.
Sentia como se estivesse vivendo um pesadelo.
Ouvia a voz do delegado, mas não conseguia acreditar, nem aceitar.
Naquele momento lembrou-se de Odete que, em casa, deveria estar ansiosa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 10, 2017 8:32 pm

Disse:
— Não sei o que a mãe dele vai sentir.
Ela, assim como eu, nunca se preocupou com isso.
— Não notaram a mudança no comportamento dele?
— Sim, e até nos preocupamos, mas após muito pensar, chegamos à conclusão de que era por causa da idade, da adolescência.
Julgamos que passaria com o tempo.
Nunca, jamais poderíamos imaginar isso.
— O senhor tem que entender e ajudar seu filho, é o que ele está precisando.
— Ajudar! Vou é dar-lhe uma boa surra!
Vou prendê-lo em casa, não irá sozinho para lugar algum!
— Isso não adiantará, e o entregará mais depressa de volta para a droga.
Hoje eles estão assustados, garanto-lhes que neste momento estão reavaliando o que a droga fez por eles e com eles.
Estão com sentimento de culpa em relação aos senhores.
Suas cabeças jovens estão pensando muito.
È o momento de ajudá-los.
— Como?
— Existem não muitas, mas boas clínicas que se dedicam ao trabalho de desintoxicação.
Algumas vezes conseguem bons resultados.
Tenho aqui vários endereços e telefones.
Poderão escolher a que quiserem.
— Clínica?
O senhor está me aconselhando a colocar Artur em uma delas?
Meu filho em uma clínica?
Não! Não pode ser!
— Por que não?
E a única chance dele se recuperar, e nem posso lhe garantir que conseguirá.
Álvaro parou por um instante.
Tudo estava muito confuso, ele não sabia bem o que pensar ou fazer.
Glória, com os olhos secos, interferiu:
— Eu estou disposta a fazer qualquer coisa para ajudar meu filho, só que não tenho dinheiro, não imagino como conseguirei pagar uma clínica como essa...
— Existem algumas que não cobram nada, a maioria delas é mantida por organizações religiosas.
— Que religião?
— Existem várias, não me lembro agora, mas isso não é importante.
O que interessa é o que eles possam fazer por seus filhos.
As clínicas geralmente ficam em lugares afastados, onde é muito difícil ter contacto com a droga.
Lá, eles viverão ao ar livre, terão boa alimentação, saúde, além de ouvir falar de Deus, o que sempre faz bem.
Glória, nervosa e ansiosa, perguntou:
— Quando o senhor acha que seria melhor eu levar Rodrigo?
— O ideal seria hoje mesmo, assim que saíssem daqui.
Hoje, a noite está sendo muito difícil para eles.
A necessidade da droga se fará mais forte.
— Como devo fazer?
— Vou lhe dar um número de telefone.
Ali no corredor tem um público, pode ligar e falar com a pessoa que atender.
Conte tudo que aconteceu, diga que seu filho está aqui e que não tem dinheiro para pagar o tratamento.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 71279
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: É PRECISO ALGO MAIS / Elisa Masselli

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 4 de 11 Anterior  1, 2, 3, 4, 5 ... 9, 10, 11  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum