Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:06 am

Ponte das lembranças
Eliana Machado Coelho

Pelo espírito Schellida

Índice

1 - Uma grande amizade
2 - O tempo como testemunha
3 - Uma paixão inesperada
4 - A vida é escrita por nós
5 - Em Nova Iorque
6 - Cuidado com os pensamentos
7 - Ganhando forças com a prece
8 - Raul entende sua doença
9 - A dor em 11 de setembro
10 - Recomeçando a vida
11 - Um novo lar
12 - Belinda contra o romance da filha
13 - Lembranças do passado
14 - O tempo encontra soluções
15 - O dinheiro não compra a paz
16 - Nova interferência de Desirée
17 - O auxílio de Raul
18 - A chegada de Meg
19 - Orientações sábias de Belinda
20 - A vida se encarrega de tudo
21 - A chegada de Tifanie
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Ave sem Ninho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:07 am

1 - Uma grande amizade

Naquela manhã ensolarada, podia-se ouvir o canto dos pássaros nas árvores altaneiras, que se elevavam como gracioso sobre céu, frente à luxuosa residência dos Linhares.
Atraída por um barulho, Belinda, curiosa, aproximou-se das largas janelas coloniais do andar superior e observou os jardins, sem nada diferente que lhe chamasse a atenção.
Depois, pegando a caixa de papelão decorado, que havia deixado sobre o console, diante do espelho, voltou a se sentar na cadeira antiga de assento e encosto almofadados.
Abrindo-a, retirou um álbum de fotografias e começou a contemplá-las.
Sem perceber, seu rosto se abria em agradável sorriso ao manusear as preciosas recordações.
Roçando o passado, tocando nas lembranças, reavivando sua história...
Ficou muito tempo olhando uma fotografia especial, enquanto os seus olhos enchiam de lágrimas pela saudade.
Muitos anos haviam se passado desde aquela foto amarelecida junto a sua melhor amiga no Liceu.
Vestiam uma saia pregueada azul marinho, que descia bem abaixo dos joelhos.
Camisa e meias brancas, sapatos pretos, blusa de lã escura e um laço de fita larga prendendo os cabelos escuros e levemente cacheados.
A foto era de 1945! Um ano maravilhoso para elas e muito importante para o mundo.
A Segunda Guerra Mundial havia terminado.
Os soviéticos libertaram o campo de concentração de Auschwitz - Polónia - onde os prisioneiros serviram como cobaias humanas para as macabras experiências do nazista Joseph Mengele.
O horror do Holocausto era revelado ao mundo.
Adolf Hitler e sua amante, Eva Braun, cometem suicídio.
Os russos tomam Berlim.
O Terceiro Reich termina com a rendição alemã.
A ONU foi criada.
Tóquio foi bombardeada por aviões norte-americanos e morrem mais de cem mil pessoas, deixando um rastro de profunda destruição.
Além disso, o Japão sofre a retaliação americana por ter atacado a base de Pearl Harbor, no Havaí, e mais de cento e oitenta mil pessoas morrem pelo ataque aéreo norte-americano com as bombas atómicas em Hiroxima e em Nagasaki.
O mundo vivia uma incrível tensão.
Apesar de saber o que ocorria, elas não davam importância.
Não tinham noção, pois estavam com doze anos.
Por onde andaria Maria Cândida?
Há quantos anos não se viam?!
Quarenta e poucos, talvez... Ou mais...
Tanto tempo passou e tão depressa!
Belinda levantou-se e colocou as fotografias de lado.
Caminhou pela saleta de estar e abaixou-se diante de uma cómoda de verniz escuro, modelo Luís XV, com puxadores metálicos escuros, semelhantes a pequenas aldravas.
Ao abri-la, sorriu.
Estava lá o que procurava!
Era uma caixa de madeira decorada com desenho de flores pirografados.
Abriu-a enquanto se levantava.
Colocando-a sobre o móvel, encontrou, entre os vários envelopes, cujas bordas estavam cuidadosamente rasgadas, a última carta que Maria Cândida lhe escreveu.
A data da correspondência era de 1956, ano em que a França concedeu independência ao Marrocos e à Tunísia, e a amiga morava em Paris.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:07 am

Junto à carta, duas fotografias que Belinda esqueceu ali.
Em uma, Maria Cândida estava ao lado do marido em alguma festividade de destaque na capital francesa.
Ele, com um alinhado smoking e segurando uma taça, provavelmente de champanhe, pelo formato.
Ela, com um vestido de seda preto, longo, ombros à mostra e ajustado ao seu belo corpo.
Luvas pretas que cobriam até o antebraço, um belo par de brincos combinando com o lindo colar.
Jóias caras! Cabelos presos feito um coque.
Refinada e, como sempre, absolutamente feliz.
Gargalhava ao inclinar levemente o corpo para trás, recostando-se no marido.
Riam de algo que, provavelmente, alguém havia dito.
Na outra, a amiga aparecia sozinha, esquiando em Courchevel.
Uma pena essa segunda foto ter sido tirada um pouco longe.
Contudo, sabia-se que era Maria Cândida e, no fundo, uma paisagem divinamente exuberante:
montanhas cobertas por neve eterna, destacada em impressionante céu azul.
Lembrou-se de que se viram e se abraçaram pela última vez no cais do porto de Santos, em São Paulo, pouco antes da amiga, recém-casada, subir a prancha de embarque do navio, ao lado do marido.
Recordava-se como se fosse ontem!
Tinham dezanove anos e esbanjavam felicidade com um misto de tristeza.
Pela primeira vez o oceano deixaria uma longe da outra, por tanto tempo.
As mães, grandes amigas, conheciam-se desde que nasceram.
Aliás, Maria Cândida era, exactamente, um dia mais velha que Belinda.
A primeira nasceu no dia quinze e a segunda no dia dezasseis de janeiro.
Sempre comemoravam juntas as passagens dos aniversários.
Remexendo um pouco mais entre os envelopes, encontrou o convite de casamento.
O papel, bem amarelado, tinha os ornamentos dourados já sem brilho.
Ali se certificou da data.
Maria Cândida se casou em 1952.
Esse foi o ano em que viu a amiga pela última vez.
Era como se ainda pudesse vê-la trajando um costume azul bem clarinho, bolsa pequena e sapatos pretos, segurando, com uma das mãos, um belo e amplo chapéu, enquanto seus cabelos pretos e longos cascateavam pelas costas.
No convés, Maria Cândida e o esposo começaram a acenar desde quando o apito tocou e o navio se afastou do porto até não poderem mais reconhecer os familiares e os amigos que ficaram no cais.
Fazia exactamente quarenta e nove anos que não se viam!
Era muito tempo!
Trocaram muitas cartas e se falaram nove ou dez vezes, por telefone, em quatro anos.
Mas, depois que o filho de Maria Cândida nasceu, na Escócia, em 1955, ela passou a se comunicar cada vez menos.
Sabia que o garotinho se chamava George.
Recebeu o nome do avô paterno, pois Óscar, seu marido, fez questão disso.
Em 1957, Belinda se mudou com os pais.
Escreveu para a amiga novamente, porém não obteve resposta.
Mandou também uma correspondência para dona Filomena, mãe de Maria Cândida, para o endereço que tinha, no interior de São Paulo.
Entretanto a carta voltou.
Soube, depois, que a senhora havia se mudado para o Rio de Janeiro.
Uma doce saudade apertou seu peito.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:07 am

Será que veria a amiga novamente?
Gostaria muito de saber como ela estava, de compartilhar sua vida, como fez no passado.
Maria Cândida tropeçou e se levantou.
Foi espantoso como as coisas aconteceram tão depressa.
Depois de tudo, não lhe restou nenhuma amizade a não ser a dela, apesar da implicância de sua mãe que não a queria junto da amiga.
Belinda riu alto.
Como o mundo havia mudado!
Nos dias atuais, ninguém se importaria com o que aconteceu.
- Ai! Que saudade!... - declarou em voz alta e sorriu apertando a carta e as fotografias contra o peito.
- Falando sozinha, mamãe?!
- Que susto, Nanei!!!
Você ainda vai me matar do coração, filha!!!
Ela riu, não dando importância à reclamação.
Aproximando-se, beijou-a no rosto e perguntou:
- O que a senhora está fazendo?
- Remexendo no passado! - sorriu Belinda.
- Quando o passado é bom, fica gostoso remexê-lo.
Quando não, fica complicado.
- Veja... - pediu a mãe, entregando-lhe a foto nas mãos.
Esta é mais uma foto da minha amiga.
Eu havia me esquecido dela junto com a carta que me mandou.
- Nossa! Ela sempre aparece bonita!
Elegante!... E quem é esse?
- O Óscar, marido dela.
- Bonitão! É bem mais velho do que ela, não é?
- Acho que ele é uns dez anos mais velho.
Não tenho certeza.
Após segundos, comentou:
- Não nos vemos há quarenta e nove anos!
Depois que ela se casou e foi morar na Europa, nós nos correspondemos por alguns anos.
Ela viajava muito. Trocamos fotos...
A última carta que me escreveu foi há quarenta e cinco anos.
- Ela não sabe que a senhora se casou?
- Não. Escrevi para ela depois desta última carta - disse balançando o envelope na mão - em 1956, mas ela não respondeu.
Em 1957, os seus avós decidiram mudar de residência.
Escrevi novamente e nada.
Depois, mandei uma carta para a dona Filomena, mas a correspondência voltou, pois ela se mudou para o Rio, conforme nos contou uma amiga de sua avó alguns anos depois.
- E por telefone? Tentou?
- Telefone não era algo tão comum e prático como hoje.
Precisávamos de uma telefonista para fazer uma ligação e esperar por ela, principalmente interurbano internacional.
Você nem imagina o que era isso! - riu.
Depois que nos mudamos, o número do telefone também mudou.
Com o tempo, não tentei mais.
- Seria muito legal a senhora poder entrar em contacto com ela, não seria?!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:07 am

Os olhos de Belinda brilharam ao responder:
- Seria maravilhoso!
- O que a senhora sabe sobre ela, mamãe?
Belinda não entendeu muito bem o propósito da filha e começou a contar:
- Como eu já disse, milhares de vezes, ela é um dia mais velha do que eu.
Sua avó Matilde era amicíssima da dona Filomena, desde que eram jovens.
Depois de casadas, ficaram grávidas ao mesmo tempo e nascemos quase no mesmo dia.
Éramos vizinhas e, por nossas famílias pertencerem à alta sociedade, ficávamos sempre juntas enquanto nossas mães e suas amigas se reuniam para chás, eventos sociais e até mesmo festas.
Fazíamos aula de piano juntas.
Belinda gargalhou.
- Deixávamos o professor maluco!
Ele era um homem de meia idade que fazia de tudo para não exibir os seus trejeitos afeminados, algo absurdamente terrível naquela época.
- Hoje ainda existe muita gente preconceituosa quanto ao homossexualismo.
- Ah, filha! É muito diferente!
Não sei se hoje as pessoas se acostumaram, se os homossexuais são mais corajosos e vivem sem inibição ou se a ciência teve grande importância ao esclarecer que uma pessoa nasce homossexual.
Talvez tudo isso junto. Não sei.
Contudo posso afirmar que hoje em dia tudo é mais fácil.
Nós éramos muito bobas! - riu.
- Achávamos engraçado e brincávamos com essa situação.
Tentávamos não deixá-lo ver, porém o professor percebia e ficava louco connosco.
- Ele não contava para os seus pais?
- Contar o quê?! Iria dizer que ríamos de seu jeito afeminado?
De seus gritinhos? Hoje, entendo que foi errado fazer aquilo.
Mas... Éramos crianças, não entendíamos.
Breve pausa em que pareceu ver o passado em sua mente e prosseguiu:
- Sempre estudamos juntas! Isso foi maravilhoso! - sorriu.
Ficávamos de castigo juntas!
Fomos suspensas juntas!
Fomos reprovadas juntas!
- Nunca nos contou que levaram suspensão!
E deixou o Kléber de castigo quando ele foi suspenso na escola! - reclamou Nanei, referindo-se ao irmão.
- O seu irmão foi um capeta na escola! - riu Belinda.
- Aliás... Os seus irmãos!
O Guilherme é terrível até hoje!
Parece que não pensa!
Quando eles eram pequenos, não houve uma semana, sequer, que eu ou o seu pai não éramos chamados à escola por eles terem aprontado alguma.
- O que vocês duas fizeram para serem suspensas? - quis saber curiosa.
A mulher gargalhou gostoso.
Procurou a cadeira na saleta de estar e sentou-se.
Nanei fez o mesmo, ficando diante dela.
- A Maria Cândida furtou dois charutos do próprio avô e levou para a escola.
Não sabia o que fazer com eles.
Nós duas não tínhamos ideia do que era fumar, muito menos de fumar um charuto.
Porém, sabíamos que, se o fizéssemos, ficaríamos impregnadas com o cheiro e nossos pais perceberiam.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:08 am

Então a minha amiga teve uma brilhante ideia.
Naquele dia, na escola, teríamos aula de natação.
Se fumássemos os charutos e fôssemos para a piscina, depois tomaríamos banho e, certamente, não ficaríamos com odor algum.
- E foi isso o que fizeram? - perguntou animada.
- Foi. A nossa sala de aula era só de meninas.
Sabíamos que a outra sala, só de meninos, estaria vazia, pois eles estariam na piscina.
Estávamos além do meio de uma aula de aritmética e...
- O que é isso?!
- Matemática - explicou a mãe.
Então eu pedi a professora para ir ao banheiro e a Maria Cândida pediu para sair, depois de mim, dizendo que uma outra professora havia dito para procurá-la antes do término daquela aula.
A professora consentiu.
Fomos para a sala dos meninos, que estava vazia.
Nós nos colocamos perto das janelas, acendemos os dois charutos e começamos a fumar.
O gosto era horrível!!! - riu de si mesma.
Mas, era proibido.
E toda proibição é sempre uma aventura.
Nós fumamos e fumamos...
Aquela coisa horrorosa adormeceu nossas bocas e começamos a ficar tontas e enjoadas, por isso não percebemos que a sala de aula estava esfumaçada e a fumaça saindo pelas janelas.
De repente ouvimos a sineta, que era o alarme de incêndio.
Quando nos levantamos, ficamos mais tontas e caímos.
Aconteceu que uma professora chegou à sala e nos viu caídas e com os charutos ainda acesos.
Belinda riu e parou de contar.
Mas Nanei, rindo junto, insistiu:
- E depois?
- Apesar de estarmos muito mal, mal mesmo, fomos levadas à directoria.
Nossos estômagos embrulhavam e chegamos a vomitar.
Nossos pais foram chamados e fomos suspensas, além de ficarmos de castigo.
- Quantos anos vocês tinham?
- Quatorze! Por causa disso, minha mãe quis que eu me afastasse da Maria Cândida.
Mas isso era algo impossível.
- Vocês duas eram bem levadas!
- A Maria Cândida era pior do que eu!
O que a irmã tinha de bem comportada, ela tinha de peralta!
Nesse mesmo ano, em que levamos essa suspensão escolar, ela arrumou um namoradinho.
Era um rapazinho de dezassete anos, filho de amigos de seus pais.
Começaram a namorar escondido quando os pais se visitavam, e isso era frequente.
No ano seguinte, Maria Cândida ficou grávida.
Foi uma tragédia!
Uma vergonha para os seus pais e um escândalo na nossa sociedade.
Quando ficou sabendo, minha mãe não deixou que nos víssemos.
Minha amiga deixou de ir à escola e ninguém mais a viu.
Quase um ano depois, fiquei sabendo, por ela, que as famílias pensaram em casar os dois.
Porém a mãe do rapaz queria que ela fizesse um aborto, pois os dois eram muito jovens.
A dona Filomena foi absolutamente contra o aborto, por princípios morais e religiosos.
- E a criança nasceu?
- Nasceu! Era uma linda menininha!
Maria Cândida tinha só quinze anos!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:08 am

Seu pai ficou desgostoso.
Naquela época, isso era um absurdo.
A vergonha foi tão grande que eles se mudaram para Campinas.
Mas, no ano seguinte, voltaram para a capital por causa dos negócios da família.
O escândalo havia perdido força e o assunto, abafado.
Dona Filomena criava a netinha como se fosse sua filha e ninguém mais falava no caso.
Não voltamos a morar tão perto.
Nossas mães retomaram a amizade, porém não como antes.
Contudo, nós duas voltamos a nos ver com frequência.
Eu esqueci o assunto e Maria Cândida parecia não se dar conta de que era mãe.
- Voltaram a estudar juntas na mesma escola?
- Não. Mas era difícil ter um dia em que não nos víamos ou não nos telefonávamos.
Éramos inseparáveis.
- A vovó não foi preconceituosa pelo facto dela ser mãe solteira?
- No começo foi! Nossa!!! Como foi!!!
Depois viu que não conseguiria nos separar.
Quando fizemos dezassete anos, em janeiro, nosso pedido, como presente de aniversário, foi uma viagem a San Carlos de Bariloche, na Argentina, no inverno.
Queríamos ver a neve e esquiar, sozinhas, naquele ano.
- E foram?
- Fomos! - sorriu.
Manuseou o álbum de fotografias e mostrou:
- Olhe aqui! Inverno de 1950, Bariloche, Argentina.
- Lá é lindo. A beleza se compara aos Alpes.
Nem parece que estamos na América do Sul! - riu Nanei.
- Foi um presente maravilhoso e férias espectaculares!
No fim desse ano, os pais de Maria Cândida decidiram fazer um cruzeiro.
Não iriam passar o ano-novo aqui.
Foi nesse cruzeiro que ela conheceu o Óscar, que passava férias no Brasil.
Eles se apaixonaram e começaram um romance.
- Ele sabia que ela tinha uma filha?
- Minha amiga sempre foi extrovertida, despojada, espirituosa, de personalidade forte, no bom sentido, e não escondeu nada dele.
No final de janeiro, quando ele retornou à Europa, estavam compromissados, apesar de dona Filomena não botar fé no romance.
Ele era britânico, filho de uma escocesa e pai inglês.
Foi surpreendente quando o Óscar retornou, três meses depois, trazendo consigo os pais para que conhecessem a Maria Cândida.
- A família dele deveria ser bem de vida!
- E como! Eram donos ou sócios majoritários, não sei direito, de uma grande companhia aérea, que não sei o nome, pois o nome mudou depois e...
Bem... Após apresentar a Maria Cândida aos pais, o Óscar decidiu que ficariam noivos.
Foi de surpresa!
Um verdadeiro susto para a dona Filomena e o senhor Armando.
Brindaram com um fino champanhe e o Óscar lhe deu um legítimo e esplêndido anel de brilhante, trinta quilates, para firmarem o noivado.
Como se não bastasse, um par de brincos de igual valor, combinando.
- Uaaauhhhh!!!...
Provavelmente uma fortuna!
- Com certeza!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:08 am

A Maria Cândida ficou cerca de três dias sem dormir, olhando para o anel em sua mão e observando-se com os brincos no espelho!!! - riu gostoso.
- E a família do Óscar, não se incomodou pelo facto dela ter uma filha?
- Se isso aconteceu, não se manifestaram nem foi um empecilho.
Eu os conheci.
Eram pessoas extremamente elegantes e pareciam pertencer à realeza.
Bem discretos e educados.
Não conversamos muito.
Fiquei um tanto inibida para exibir o meu inglês - riu de si.
Falei um pouco mais com o Óscar.
Apesar de seu português não ser tão bom, nós nos entendemos bem.
- Nossa, mamãe! Famílias tão ricas e uma ocasião tão importante, não quiseram oferecer uma festa ou receber amigos para celebrarem o noivado?
- Não. Desde que voltaram a morar na capital, por causa do constrangimento de ter uma filha que era mãe solteira, dona Filomena mostrava-se muito retraída.
Não se reuniram mais nas altas rodas da sociedade.
A única pessoa com quem ainda passava uma tarde para um chá era com sua avó.
- E depois do noivado? - tornou Nanei.
- O Óscar e a família retornaram para a Europa.
Ele voltou ao Brasil depois e levou todos para passarem o Natal na França e o ano-novo na Inglaterra, pois tinham negócios em Londres também.
Parece que era uma grande rede de hotéis luxuosíssimos.
Depois ele veio a São Paulo por mais três ou quatro vezes e, por fim, casou-se com Maria Cândida e foram de vez para a Europa.
Soube que tiveram um filho três anos depois.
Nós nos correspondemos até o George nascer. Depois...
- O Óscar deve ter se apaixonado imensamente por ela.
Isso é uma coisa ímpar.
Não acontece duas vezes!
O cara atravessou o oceano para encontrar o seu amor aqui!
Que ironia do destino!
- Por quê?!
- Penso que isso só acontece em contos de fadas, em filmes, em romances...
Raras vezes na vida dos outros.
Nunca na nossa.
Nanei sorriu de modo enigmático e mudou de assunto:
- A saudade nunca acaba quando gostamos mesmo de alguém.
Todos os anos, desde que me conheço por gente, no mês do seu aniversário, eu a vejo revirando este cómodo e olhando fotos.
- É impossível esquecer uma amizade tão sincera e verdadeira.
Principalmente na data do nosso aniversário.
Desde que éramos bem pequenas, escolhíamos juntas o presente que desejávamos ganhar de nossos pais - sorriu com nostalgia.
- Mamãe, e a irmã da Maria Cândida?
Não teve notícias dela?
- Oh!... Pouco conversávamos! - riu.
Era uma menina chata! Azeda feito limão!
Vivia de cara amarrada!
Você acredita que, ao retornarem para São Paulo, a Maria Elvira, a irmã da Maria Cândida, pediu aos pais para ir estudar em um colégio na Suíça?
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:08 am

- Por quê?!
- Vergonha de ter uma irmã que era mãe solteira!
A Maria Cândida me contou que, quando moravam em Campinas, a irmã dizia a todos que Danielle era sua irmã e não sua sobrinha.
- Danielle?!!! - perguntou Nanei, surpresa.
- Sim, Danielle! Esse foi o nome que minha amiga deu à filha.
E eu o achei tão lindo que dei o mesmo nome a sua irmã.
- Por que não fui eu que recebi esse nome?
- Porque foi o seu pai quem escolheu o nome do primeiro filho e da primeira filha.
Eu já disse isso! - sorriu.
- É que eu não gosto do meu nome! - protestou.
Poderia haver uma lei que nos permitisse mudar de nome!
- Deixe de ser tola, Nanei!
- Mas... E depois?
A tal Maria Elvira foi para a Suíça?
- Ah... Sim. Foi.
Ela morria de vergonha da irmã, da sobrinha, da família.
- Nossa! Era tão absurdo assim uma mãe solteira na família?
- Você nem imagina!
Creio que a Maria Elvira tinha medo de ser rejeitada pelos rapazes de família por acreditarem ela ser igual à irmã.
- Que besteira! Conta uma coisa:
a Maria Cândida levou a filha para a Europa?
- Não. A dona Filomena não deixou.
Ela e o marido morriam por aquela neta.
Nanei tinha algo espirituoso, no olhar, ao perguntar à mãe:
- A senhora sabe onde a Maria Elvira foi estudar na Suíça?
- Deixe-me ver...
Ah... - Belinda levantou-se e pegou novamente a caixa de madeira repleta de correspondências e comentou:
- Em uma dessas cartas a Maria Cândida contou que foi visitar a irmã em...
Não lembro o nome do colégio ou do lugar, mas está escrito... Tenho certeza.
Recordo-me muito de ela ter mencionado sobre a irmã estar bem... - riu com gosto - bem mesmo.
Bem azeda como sempre!
Revirando envelopes, alegrou-se:
- Veja!
É nesta carta aqui!
Nanei pegou a carta, olhou o envelope e perguntou:
- Esse é o nome de casada da Maria Cândida?
- Sim, é! Os dois últimos sobrenomes são do marido.
Ficou bem comprido, não acha?
- É verdade - concordou a filha.
Ah! Aqui está o nome do colégio! - encontrou ao ler o conteúdo da carta.
Bem animada, disse:
- Sei que isso aqui é uma relíquia para a senhora, mas pode deixar um minutinho comigo?
- O que vai fazer?!
- Nada que destrua as suas recordações! - riu, ao se levantar com os papéis nas mãos.
Belinda deu um longo suspiro e sorriu, pondo-se em pé atrás da filha.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:09 am

Em seguida, indagou:
- O seu pai está lá em baixo?
- Quando eu subi, ele disse que iria até o escritório e voltaria logo.
- Seu pai... Esse homem nunca vai aposentar!
- Ah, mamãe!... Ia me esquecendo...
O Kléber telefonou.
Chegaram ontem de viagem.
Pediu para avisá-la que ele, a Vanessa e aqueles dois capetinhas dos seus netos, virão almoçar.
- Não fale assim dos meus anjinhos! - exclamou a mãe sorrindo, dando-lhe um tapinha de repreensão.
Estou com tanta saudade do Vinícius e do Rodrigo!
- Bem...
Deixe-me correr e trancar o meu quarto e o escritório antes que esses anjinhos, como a senhora diz, cheguem a esse paraíso!
- Nanei!... Quero ver quando tiver os seus filhos!!!
- Não terei filhos! Nem vou me casar!
Conto de fadas só existiu para a Maria Cândida!
Esse ano faço trinta e um e, se não me casei até agora, não vou me casar mais.
Estou conformada!
- Não brinque! - riu.
É praga de mãe!
Você vai casar e ter três filhos muito, mas muito peraltas para pagar sua língua!
Ao caminharem juntas pelo corredor, antes de chegarem às escadas, Belinda perguntou:
- Sua irmã ligou?
- Hoje não.
Ontem conversamos e ela contou que o Raul está em choque ainda.
- E quem não está?
Um rapaz jovem, bonito, bondoso...
Tão pouco tempo de casados e ele com uma doença dessas.
- Hoje em dia existem tratamentos óptimos, mamãe.
Não se preocupe.
- Não sei não, Nanei.
Sinto uma coisa... Coitada da Danielle.
Tão alegre, cheia de vida e com tantos planos!
Nenhum dos dois merecia isso.
- É... Justo agora que eles pensavam em arrumar um nené.
- Vou ligar para a Danielle e convidá-los para o almoço.
Com o seu irmão aqui, talvez se distraiam.
- Não creio que virão.
Ela me disse que, por causa da quimioterapia, o Raul não se sentia bem.
- Ainda não melhorou?! - admirou-se Belinda.
- Não. Parece que não quer nem sair de casa.
- Ele não quer receber visitas.
Não quer sair de casa...
Deus! O que vai ser desse moço?!
- O Raul vai ficar bem, mamãe.
Tudo é muito recente. Vamos rezar.
- É o que nos resta.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:09 am

Em seguida, decidiu:
- Vou dar umas ordens para as empregadas prepararem um belo almoço.
Depois, ligar para sua irmã e convencê-los a virem aqui.
O que você vai fazer? Vai sair?
- Não! Vou dar umas voltinhas pelo planeta! - riu.
- Ah! Sei!... Essa maldita internet!
A filha riu gostoso e retrucou:
- A senhora ainda vai me agradecer muito por eu gostar de internet!
Vai me agradecer de joelhos e beijar as minhas mãos!
- Vai esperando, Nanei! Vai esperando!
Nanei foi para o escritório e colocou-se, de imediato, frente ao computador.
Entendeu que sua mãe esqueceu ou ignorava a poderosa ferramenta tecnológica, capaz de ajudá-la a encontrar sua melhor amiga.
Por mais que lhe custasse, decidiu achar Maria Cândida e reuni-las novamente.
Ficaria feliz e muito satisfeita em ver de perto uma grande amizade, pois, para ela, o mundo parecia perder essa bênção de amor.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:09 am

2 - O TEMPO COMO TESTEMUNHA

Nos últimos dias, Nanei estava uma pilha de nervos.
Havia discutido com o pai a respeito de não ir trabalhar em seu grande e conceituado escritório de advocacia.
Ele não advogava mais, pois era um renomado professor universitário e jurista.
Ela formou-se em direito, mas não tinha a menor aptidão para a profissão.
- Eu não quero ir para o escritório com o senhor, papai! - dizia categórica.
Não pode decidir o que é bom para mim!
- Você não passa de uma menina mimada!!! - vociferou o senhor Osvaldo, impaciente.
Está desperdiçando tempo e sua vida!
Passa horas, dias reclusa nesta casa!
Mal vai ao clube ou sai com as amigas!
Já tem quase trinta e um anos!
Não tem namorado!
- Oh!!! Obrigada por me lembrar! - retrucou brava.
- Por que se pune assim?!
- Quem está se punindo, papai?!
Eu levo a vida que gosto!
- Então faça alguma coisa!
Tente outra faculdade!
- Eu bem que quis fazer outra faculdade, mas o senhor não me deixou.
Disse que não pagaria um curso daquele!
Esqueceu?!
- O que você queria era um curso de artesanato ou coisa parecida!
Deveria ser proibido chamarem esse tipo de curso, de superior!
Isso nunca poderia existir em uma faculdade!
- É faculdade de Artes, papai!
E é algo muito legal!
- Legal! Legal!
Coisa legal não põe dinheiro no banco!
- Então vai ter de me aguentar aqui em casa, como estou, porque eu não vou para aquela empresa!
Calmamente Belinda entrou no escritório e pediu com jeitinho:
- Eih! Eih! EihL. Parem vocês dois!
Virando-se para a filha, falou:
- Telefone para você, Nanei.
Sem dizer nada, a moça os deixou e o senhor Osvaldo, contrariado, reclamou:
- Ela foi muito mimada!
- Você precisa ter paciência.
A Nanei vai encontrar o que procura.
- E o que ela procura? - perguntou zangado.
- Como vou saber? - riu engraçado.
Ela ainda não encontrou!
Aproximando-se do marido, afagou-lhe os ombros e o massageou com carinho, dizendo:
- Calma, Osvaldo.
A Nanei é uma boa filha, só que ainda não sabe o que quer.
- Ela vive socada nesta casa e pendurada no computador.
O que será dessa menina quando morrermos?!
- Eu não pretendo morrer agora - sorriu.
Não me convide para isso!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:09 am

E quanto a ela viver socada aqui dentro de casa...
Ainda bem! Sabemos onde está!
- Isso não é suficiente.
Ela precisa ser mais produtiva.
O casal continuou conversando, enquanto Danielle acabava de chegar.
Estava sem o marido.
Não encontrando a mãe pela casa, perguntou a uma das empregadas que lhe respondeu:
- Dona Belinda está no escritório com o senhor Osvaldo.
- Por apreciar fofoca, sussurrando, a mulher contou:
- Eles estavam discutindo feio com a sua irmã.
A Nanei subiu correndo!
Está lá no quarto agora.
Danielle a conhecia bem.
Sabia que gostava de aumentar as coisas.
Diante do relato, sorriu e pediu:
- Quando minha mãe sair do escritório, avise que estou lá em cima, por favor.
- Pode deixar! - prontificou-se a outra.
Poucas batidas à porta e entrou no quarto antes de ouvir a irmã permitir.
Nanei, animada ao telefone, terminava uma conversa.
A outra sentou em sua cama e aguardou.
Não demorou e, após se cumprimentarem, Danielle perguntou:
- Com quem estava falando? Está tão alegre!
- Com a Vai, minha amiga.
Quero fazer uma surpresa para a mamãe! - contou.
Sabe, quero fazê-la encontrar com aquela amiga, a Maria Cândida.
- A mamãe sempre fala dela.
Mas essa amiga não mora na Europa?
Talvez na França?
- Isso mesmo!
- Não será fácil!
Acho que o papai já tentou isso.
- Ora, Dani!
O papai tentou em mil novecentos e bolinha!
Quando o fez, não se esforçou muito, ou não se empenhou como poderia.
Ele nunca se importa, realmente, com os nossos sentimentos.
Hoje temos a internet e muita tecnologia!
Esqueceu?!
- Mesmo assim... - disse, deitando-se em sua cama.
- Não seja pessimista, Dani!
Tive progresso!
Consegui localizar a irmã da amiga da mamãe!
Ela mora nos Estados Unidos.
- Como fez isso?!
- Entrei em contacto com o colégio onde ela estudou na Suíça.
Eles mantêm uma impecável actualização de dados para aquelas reuniões anuais de antigos alunos e propagandas, é lógico.
Expliquei o caso.
Precisei fornecer todos os meus dados e, por fim, confirmaram que têm meios de contactá-la.
Vão mandar um e-mail falando sobre mim e minhas intenções de fazer a mamãe se encontrar com a Maria Cândida.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:10 am

- Se a Maria Cândida estiver viva.
- Ai, Danielle! Que horror!!!
Você nunca foi assim!!! - protestou Nanei.
Realmente Danielle não era pessimista.
Nunca foi. Estava abalada, ferida e decepcionada com a vida, com seus planos jogados por terra.
Sem que esperasse, a irmã se sentou, abraçou-a com força e começou a chorar.
- Calma... Não fique assim - pediu comovida.
Aguardando-a se recompor, Nanei comentou:
- Sei que você está sofrendo.
Eu nem sei o que dizer, pois nos pediu para não tocarmos tanto no assunto.
- Não estou aguentando mais, Nan!
- O Raul está lá em baixo ou você veio sozinha?
- Ele quis ficar em casa.
Suspirou fundo, passou as mãos pelo rosto pálido e ajeitou os cabelos para trás.
- Está sendo muito difícil, minha irmã.
Às vezes acredito que não vou suportar.
O comportamento do Raul, nos últimos dias, está complicando ainda mais a situação.
Preciso de alguém que lhe dê uma injecção de ânimo, porque eu não consigo.
Hoje o convidei para vir aqui e...
Na verdade, implorei, mas não quis.
A minha cunhada ficou com ele.
Eu precisava sair um pouco, precisava respirar.
Tem momentos que fica quieto, parado... Não sei como agir.
Tento de tudo para animá-lo, porém não consigo.
Há horas em que não acredito no que está acontecendo.
Parece tão irreal! Vem uma angústia, um medo infindável!
Depois do desabafo, Danielle permaneceu em silêncio.
Era a primeira vez, desde quando descobriram a doença do marido, que falava daquela forma.
Antes era uma moça tranquila e despretensiosa, embora fosse firme quando tinha propósitos e ideais.
Maravilhava-se ao cumprir suas metas e objectivos.
Sua vida sempre foi bem planejada.
- Tudo é muito recente, Dani.
Vocês... Ou melhor, todos nós, levamos um susto com esse diagnóstico.
Ele é jovem e foi tão inesperado.
Acho que até deveriam procurar outros médicos.
- O que me assusta é saber que estamos somente no começo do tratamento.
A estrada será longa e solitária.
É um tratamento que consome todos em volta do doente.
O câncer é terrível...
Um soluço embargou sua voz.
- Eu pensei que teria mais força, mas estou desse jeito...
- Eu acho que você e o Raul se isolaram muito desde que descobriram.
Ele não está indo à empresa, está?
- Não... Não tem o menor ânimo.
Também penso que ele deveria ir a firma.
Isso iria distraí-lo, certamente. Mas não quer.
Agora, que começou a quimioterapia, está pior, emocionalmente falando.
E foi só a primeira.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 11, 2017 10:10 am

- Esse tipo de doença, ou mesmo o excesso de química do tratamento, pode provocar depressão.
- Eu amo meu marido, Nanei! - falou quase em desespero, com lágrimas correndo pelo rosto.
Adoro o Raul! Não suporto vê-lo assim, sofrendo.
- Sabe... - disse a irmã com jeitinho, secando-lhe o rosto com as mãos para não se demonstrar emocionada.
Você não deveria ter parado de trabalhar.
Eu sei que quer ficar ao lado dele, cuidando, ajudando e acompanhando tudo.
Porém essa dedicação acirrada, excessiva pode ser prejudicial a você e fazer com que o Raul deixe de reagir.
Um pouco mais recomposta, Danielle abaixou o olhar para suas mãos, tensamente entrelaçadas, e disse em um sussurro:
- Não consigo me concentrar em mais nada.
Eu adoro o Raul! Quero ficar com ele!
Olhando para a irmã, trazia uma expressão de medo ao dizer:
- Ninguém tem ideia do que estou vivendo.
Não consigo dormir...
Não posso ficar triste perto dele...
Suaves batidas à porta e Belinda adentrou ao quarto.
Ela não precisou de explicações para entender o que acontecia.
Sentando-se na cama ao lado de Danielle, abraçou-a e beijou-lhe no alto da cabeça com carinho.
A filha agarrou-se a ela.
Escondeu o rosto em seu peito e chorou abafado.
Passados poucos instantes, a filha se recompôs e a mãe perguntou, parecendo animada:
- O Raul não quis vir?
- Não.
Belinda não sabia ao certo se deveria falar sobre a doença do genro ou não.
Acreditava que o desabafo faria bem à Danielle, mas a filha havia pedido à família para não falarem tanto naquele assunto, pois os desgastava.
Entendeu que ela estava ali para se refugiar da tristeza e se recompor um pouco.
Relanceando-lhe os olhos de cima a baixo, notou o quanto a moça se achava abatida, pálida e até mais magra desde a última vez que a viu.
Danielle tinha vinte e sete anos.
Alta, elegante e muito bem educada.
Era uma moça bonita.
Pele alva, cabelos loiro-escuro, lisos e compridos até pouco abaixo dos ombros.
Olhos castanho-claros, que expressavam, junto com seu sorriso simpático, generosidade.
Pensando um pouco, a mãe decidiu:
- Venha! Vamos sair um pouco!
- Eu não quero sair - resmungou.
- Daremos uma volta, nem se for pelo jardim!
Você precisa estar bem para dar força ao Raul.
Caminhar, refazer-se.
Fará bem a você e, consequentemente, a ele também, pois vai vê-la bem.
A contragosto, ela aceitou e a mãe sentiu-se vitoriosa.
Sorrindo para a filha, conduziu-a.
* * *
Cerca de dez dias haviam passado e Nanei, insistente, propunha à mãe:
- Vamos até Ubatuba passar o fim de semana e o feriado!
Aquela casa está sozinha e abandonada!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:04 am

- Não é um bom momento, filha.
Não quero ir para lá agora.
Quero ficar com sua irmã.
Você viu como a Danielle está?!
- Vamos levá-la connosco, mamãe!
Será óptimo para a Dani!
- Ela não vai sem o Raul.
Você sabe que não.
- Quem sabe ele aceita ir também?!
Eu vou conversar com ele.
O Raul sempre foi um cara legal, consciente...
- Viu como ele está nos últimos dias?!
- Puxa! Sei que não é por menos, porém ele precisa pensar um pouco na esposa!
A Danielle não pode se sacrificar, se enterrar em vida por causa dele!
Desculpe-me falar assim, mas quem está doente é o Raul e não ela!
- Não fale assim, Nanei - repreendeu a mãe, zangada.
- Se o Raul fosse meu filho e seu irmão, gostaríamos muito que a esposa fosse dedicada, no mínimo, diante de uma situação como essa.
- Mamãe, a senhora não percebeu que a Dani está mais abatida do que ele?
Até a irmã do Raul reparou isso.
Ela não pára, não dorme, não descansa!...
E se ela ficar doente?! Como vai ser?!
Quem vai cuidar do Raul?!
O pai dele é daquele jeito:
só se preocupa com a empresa da família. Ele não tem mãe.
O irmão não está nem aí! É como o pai.
A irmã tem três filhos pequenos e cuida da sogra, viúva, que está em uma cama porque caiu e quebrou a bacia.
Breve pausa e Nanei censurou:
- Mamãe, a Dani está se acabando!
Sua filha largou um óptimo emprego, que adorava, arrumado depois de tanto esforço e estudo até no exterior.
Ela está servindo de enfermeira!
O pai do Raul só colabora financeiramente e bem mal, diga-se de passagem.
Não sei se a senhora sabe, o papai está ajudando a pagar o tratamento do Raul.
- Seu pai me contou - respondeu sobriamente preocupada, caminhando poucos passos pelo quarto.
Já pensei em tudo isso que está me falando, Nanei.
Havia um queixume em seu tom de voz e uma expressão aflita em seu rosto ao perguntar:
- Mas, o que eu posso fazer?
- Faça a Danielle viver para ela também!
Vamos passar um final de semana na praia, com ou sem o Raul!
- Vou falar com ela - decidiu Belinda.
- Eu vou falar com ele - determinou-se Nanei.
* * *
Naquela tarde, Nanei foi até o apartamento da irmã, decidida a conversar com o cunhado e fazê-lo entender o que acontecia.
- Raul, você não pode continuar desse jeito! - dizia calmamente, porém com energia.
Se gosta da Danielle, precisa reagir e enfrentar a situação.
- Eu falei para a Dani não deixar o emprego.
Não era isso o que eu queria.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:04 am

- Agora está feito!
Ela abandonou tudo para dar mais atenção a você.
No entanto, não está retribuindo.
Fica trancado em casa, não quer conversar, não visita a família...
Desse jeito, está se entregando à doença.
Está deixando que o problema o consuma!
Pesquisas mostram que pessoas acometidas por doenças graves têm mais qualidade de vida e se curam quando saem, passeiam, trabalham, divertem-se e até praticam Karatê, Judo, Yoga...
Você abandonou a vida, Raul!
Dessa forma, está se abandonando!
- Não é fácil, Nanei!
Quando eu pensei que estava estabilizado e ia começar a viver bem, ao lado de quem amo, acontece uma coisa dessa! - começou a chorar.
Sinto um medo horrível!
Fico apavorado ao pensar que vou morrer...
Vou sofrer muito antes de morrer!...
- Quem disse isso?!
- É o que vemos acontecer.
Essa doença é triste, terrível, dolorosa.
Não posso me iludir.
- Você não está se iludindo quando pensa positivamente!
Porém se prejudica quando se entrega desse jeito.
Deixando de lutar, de viver você não se dá uma chance e se condena.
Com essa atitude, está torturando todos a sua volta, principalmente sua esposa.
Pense nisso!
Ela está triste, deprimida, preocupada não só com sua doença, mas também, e principalmente, com seu comportamento diante do problema.
A Dani faz de tudo para animá-lo, para vê-lo saudável emocionalmente, pois sabe o quanto essa atitude é importante.
E como você retribui a todo esse apoio e estímulo que ela lhe dá?!
Se enfiando em casa e não querendo ver ninguém!
Você está acabando com a Dani!
Acabando consigo mesmo!
Raul estava pálido, abatido.
Com os olhos marejados, mirava-a em uma visão nublada.
Leve suspiro e perguntou:
- O que acha que devo fazer, Nanei?
- Deve procurar viver normalmente tudo o que puder.
Saia, visite amigos e familiares.
Volte para a empresa do seu pai e assuma o seu serviço.
- Não gosto que as pessoas fiquem perguntando se estou bem, o que estou sentindo...
Algumas chegam a ter o desejo mórbido de querer saber como é que se sente quando se está com uma doença fatal...
- Só pessoas pobres de espírito vasculham os sentimentos dolorosos dos outros.
Quando estiver diante de gente assim, seja firme ao dizer que não quer falar sobre o assunto.
Peça para não lhe perguntar mais nada sobre isso.
- Não posso falar desse jeito!
- Por que não?!
Se elas se julgam com o direito de serem indiscretas e inoportunas, coloque-as no devido lugar.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:04 am

Você tem direito à privacidade!
- Não aguento mais os outros virem falar de doença comigo.
Todos os que se aproximam sempre têm um caso triste, sofrido e trágico para contar.
- Concordo totalmente com você.
Muita gente não selecciona o que fala quando visita alguém, principalmente, quando a visita é para alguém doente.
São pessoas mesquinhas, pobres e desagradáveis.
Só falam de tragédias, de moléstias, sintomas, dores, doenças...
A falta de bom senso é horrível!
As pessoas são incómodas, fazendo visitas longas.
Esperam ser servidas com café, almoço, jantar ou algum tipo de banquete. É um transtorno!
Não reconhecem que o doente e os familiares estão cansados, sobrecarregados...
Se elas estimassem mesmo a pessoa enferma, fariam uma visita de, no máximo, quinze minutos.
Isso é tempo pra caramba!
Como se não bastasse, além de se esquecerem de irem embora, essas visitas ficam fazendo perguntas indiscretas, falam alto, comentam assuntos negativos sobre todo e qualquer tipo de tragédia e desastre. Isso é aversivo!
- Então você entende por que estou me afastando de todos?
- Entendo, mas não aprovo, Raul.
Você tem todo o direito de dar um basta a determinado assunto.
Educadamente, diga que não quer conversar a respeito.
Vendo-o pensativo, Nanei declarou:
- Bem... Eu não vim aqui somente para conversarmos a respeito do seu comportamento.
- Não?... - sorriu entristecido.
- Não. Vim aqui para irmos a Ubatuba no próximo final de semana.
Tem o feriado prolongado...
Podemos passar uma semana lá.
Ao vê-lo reflexivo, ela entendeu que o cunhado procurava uma desculpa para não ir, por isso acrescentou:
- A Danielle está precisando de uma viagem.
Isso fará bem a ela e a você.
Nanei, apesar de delicada, era uma moça obstinada e inteligente.
Amava a irmã e era muito apegada à família.
Prestativa, gostava sempre de ajudar.
Raul olhou-a bem dentro de seus belos olhos verdes e, após um momento, concordou emocionado:
- Você tem razão.
Se não for por mim, vou pela Danielle.
O rosto de Nanei se abriu em um lindo sorriso e, aproximando-se dele, envolveu-o com carinho.
Danielle, que acabava de chegar com algumas compras, presenciou a cena e sorriu, dizendo:
- Que bom vê-los alegre! Isso se deve a quê?!
- O Raul concordou em ir connosco à praia.
Talvez fiquemos uma semana lá! - anunciou Nanei com alegria.
- Nós vamos mesmo, amor?! Jura?!!! - indagou a esposa com extrema felicidade.
- Vamos sim! Se você quiser, lógico!
- É claro que eu quero! - afirmou, abraçando-o e beijando-o com ternura.
Os olhos de Nanei brilharam de forma incrível.
Ela estava ansiosa e entusiasmada.
Tinha tudo planeado e juntaria o útil ao agradável.
Sabia que dificilmente sua mãe a acompanharia sozinha em uma viagem à praia por tantos dias.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:05 am

Mas, se a irmã fosse para fazer-lhe companhia, a mãe aceitaria ir sem contestar.
Todos percebiam que Raul precisava se distrair e Danielle de se recompor, pois a luta de ambos estava sendo difícil.
* * *
A casa, que tinha uma parte sustentada por pilastras gigantescas na encosta, era simplesmente esplêndida.
Os empregados já haviam organizado tudo para a chegada de Belinda, das filhas e do genro, que ficariam ali por cerca de dez dias.
Como se esperava, o senhor Osvaldo, o filho Kléber, a esposa e os filhos passariam somente o final de semana e retornariam por causa de assuntos profissionais.
No início da semana, após o feriado, Belinda procurava por Nanei, que não largava o telefone.
- Quem era?
- Uma amiga - a filha sorriu explicando.
- Onde está sua irmã?
- Ela e o Raul foram fazer uma caminhada pela praia.
Acho que essa viagem está fazendo muito bem para os dois.
- Certamente. Sua irmã está até corada.
Ao ver a filha se levantar, perguntou curiosa:
- Aonde você vai?
- Falar com a empregada e pedir para ela preparar um chá especial para hoje à tarde.
- Por quê? Não íamos até a cidade?
- Vamos deixar para amanhã?
Será melhor! - respondeu Nanei, saindo da sala, e sem esperar pela opinião de sua mãe.
Pelo facto da filha ser um tanto irreverente, Belinda não se importou e foi para o terraço, onde havia uma vista espectacular do mar.
* * *
No início da tarde, Nanei achava-se inquieta.
Após o almoço, Danielle e o marido foram repousar e Belinda se encontrava em uma das salas amplas com paredes de vidro, lendo uma revista.
Fazia calor demais para sair e dar uma volta.
O melhor a fazer era ficar em casa.
A senhora jogou a revista de lado, largou-se no sofá, esticando as pernas e pensava na vida.
Trazia grande preocupação pela filha Danielle e pelo genro doente.
Também se inquietava por Nanei.
Achou que ela deveria estar casada, em sua opinião.
Nessa fase da vida, aos sessenta e oito anos, desejaria ter os filhos encaminhados, como ela dizia.
Todos com família, um bom emprego, muita estabilidade...
Mas nem tudo se consegue controlar.
Guilherme, seu filho mais velho, aos trinta e seis anos, ainda era solteiro.
Dedicou-se muito aos estudos.
Não perdeu a oportunidade de estudar e trabalhar em Berlim.
Havia seis meses que não via o filho e sentia muita saudade.
Deixando os pensamentos vagarem, imaginou que Guilherme, por brincadeira do destino, poderia conhecer uma moça na Europa e, talvez, essa moça fosse filha de sua melhor amiga.
Quem sabe Maria Cândida tivesse outros filhos e da idade próxima dos seus?
Daí, quando conhecesse os pais da moça, a surpresa!
Seria filha de sua amiga!
Belinda riu.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:05 am

Realmente aquilo seria uma grande brincadeira do destino.
Algo quase impossível de acontecer.
Mesmo assim poderia sonhar.
Que mal faria?
Era bom sonhar, pois a saudade da melhor amiga seria mais doce e não tão amarga.
- Mamãe!!! Tem uma senhora aqui dizendo que a casa foi vendida e que pertence a ela!!! - gritou Nanei eufórica ao entrar na sala.
Belinda sentou-se rápido.
Assustada, levou a mão ao peito e perguntou:
- Que história é essa?!!
Ao ver, na sala, a filha acompanhada de duas outras pessoas, Belinda se levantou às pressas e séria.
Logo observou o rosto de Nanei, desmanchando-se num riso ao anunciar:
- Veja quem está aqui!!!
Lágrimas brotaram nos olhos das mulheres que se reconheceram imediatamente.
Trémulas, aproximaram-se vagarosamente, tocando-se nos ombros.
Em seguida, as mãos percorreram os braços e os rostos até, em meio a gritinhos emocionados, abraçaram-se firmes, balançando-se de um lado para outro.
As lágrimas e os risinhos eram abundantes e elas se apalpavam, quase se beliscando, como se não acreditassem naquele momento.
Emocionada, Nanei virou-se para o rapaz, filho de Maria Cândida, que a acompanhava, e sugeriu:
- Não acha que seria melhor deixá-las sozinhas?
Sem qualquer vergonha das lágrimas que secava no rosto, ele concordou, falando em um português com forte sotaque:
- Claro! Será melhor!
E brincou:
- Vamos ficar de olho para não terem um enfarte.
Virando as costas, deixaram-nas sozinhas.
Mais refeitas da grande emoção, ficaram horas conversando.
Tinham muito que falar.
- Por que não respondeu às minhas cartas?!
A última vez que me escreveu foi em 1956!
Tentei encontrar sua mãe, mas ela tinha mudado.
- Aconteceu tanta coisa, Belinda! - disse sob forte emoção.
- Eu lhe escrevi, mas as correspondências retornaram.
Maria Cândida explicou que no final de 1956, seu filho George, com menos de um ano na época, precisou sofrer uma cirurgia.
Necessitaram ir para Londres.
O caso foi sério, pois ele teve complicações pós-operatórias.
Passou meses internado, e ela permaneceu ao seu lado dia e noite.
A amiga falou que ficou desesperada pelo facto dos médicos, praticamente, desistirem do caso.
Disseram até que foi um milagre George sobreviver.
Contou que residiu na Inglaterra no ano seguinte e, somente em 1958, retornou à França e retomou a vida, apesar de ainda muito abalada com o ocorrido.
Encontrou, ainda fechada, duas correspondências de Belinda, mas nenhuma avisando sobre o novo endereço.
Escreveu-lhe, no entanto as cartas voltaram, informando a mudança.
Tentou telefonar, mas o número havia sido trocado também.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:05 am

Depois, mudou-se novamente para outro bairro de Paris.
Belinda explicou-lhe que os pais mudaram e, na antiga residência, os empregados dos novos proprietários sempre informavam que não haviam recebido qualquer carta.
Maria Cândida também relatou que seus pais foram para o Rio de Janeiro, para junto de sua avó que, na época, estava bem doente.
E sua mãe, dona Filomena, aos oitenta e sete anos, ainda morava lá.
- Eu me casei em 1963!
Aos trinta anos! - disse Belinda.
Até pensei que iria ficar para titia.
Era o segundo casamento do meu marido.
Ele era viúvo e não tinha filhos.
Hoje temos quatro.
O Guilherme, com trinta e seis anos, está fazendo Pós-graduação na Alemanha e também trabalha lá.
O Kléber, com trinta e quatro, trabalha com o pai, é casado e me deu dois lindos netos: o Vinícius e o Rodrigo.
A Nanei, com trinta anos, é solteira e a...
Com olhos brilhantes, fez suspense antes de dizer:
- Danielle!
A amiga ficou séria e sem acção, mas Belinda não notou e concluiu:
- Sempre adorei o nome que você deu a sua filha.
Aos quarenta e um anos, quando percebi que seria minha última filha, não resisti e coloquei o nome de Danielle!
Os olhos de Maria Cândida se encheram de lágrimas quando disse timidamente:
- É um lindo nome.
Foi uma homenagem maravilhosa... - afirmou, secando o rosto com as mãos.
E a sua Danielle?!
Está morando com a avó?! Já se casou?!
Com a voz embargada, semblante sério que tentava esboçar um sorriso forçado, Maria Cândida falou:
- A minha Danielle faleceu.
Foi em 1963.
Ela tinha quinze anos...
Foi em um acidente de carro.
Belinda sentiu-se gelar.
Não acreditava no que estava ouvindo.
- Meu Deus!... Como eu podia imaginar?!...
Eu me lembro dela... Eu...
Não sei o que dizer.
- Nem eu... Até hoje a dor ainda é grande.
O meu pai, que faleceu há dois anos, nunca se perdoou.
Era ele quem estava dirigindo.
- O senhor Armando faleceu?!
- Há dois anos.
O meu pai nunca se conformou.
Segundo testemunhas, ele dirigia com excesso de velocidade.
Sabia que estava errado.
Precisou de tratamento psiquiátrico.
Viveu à base de terapia e remédio.
Eu não podia dizer nada.
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Ave sem Ninho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:05 am

Fiquei revoltada, é lógico, mas falar o quê?!
Ele já se punia o suficiente.
Criou a Danielle como filha.
Eu sempre quis levá-la para a Europa para morar comigo, porém ela não se decidia e eles não deixavam, você sabe.
Vendo a amiga triste e perplexa, contou para animarem a conversa:
- Bem... Depois do George, que está com quarenta e seis anos, eu tive ainda o Edwin, que vai fazer quarenta, a Olívia, que fará trinta e cinco o mês que vem e a Desirée, minha caçula, com vinte e nove.
O George está casado e tem um filho, o meu príncipe! - sorriu.
O nome dele é Henry!
É a coisa mais linda deste mundo!
De tantos filhos e eu só tenho um neto! - riu.
O Edwin e a Olívia não querem saber de casar! Imagine!
A Desirée está casada há dois anos e ainda não tem filhos.
Tem um marido maravilhoso!
Que homem! Só que ela não o valoriza.
Está me dando mais trabalho do que quando era solteira.
Ela é extremamente ciumenta!
É terrível! Tem hora que me dá vontade de ficar com o William, meu genro, em casa e mandá-la embora para morar sozinha naquele apartamento - riu.
Tem uma vida maravilhosa e não sabe aproveitar nem valoriza.
Tem muito que aprender.
Aproveitando a oportunidade, Belinda contou:
- A minha Danielle está casada há um ano e também não tem filhos.
Estamos passando por uma situação bem turbulenta agora.
O Raul, marido dela, está bem doente, mas vai ficar bom.
Sem demora, ela animou-se:
- Mas, me conta!
Como aconteceu este nosso encontro?! - exclamou, tacteando o braço da amiga como se ainda não acreditasse.
Como veio parar aqui?!
- Foi coisa do Edwin e de sua filha!
Ah! Foi! - riu.
Nós viemos ao Brasil para levar minha mãe connosco para Paris.
A irmã e a sobrinha estavam morando com ela desde que meu pai faleceu.
Há dois meses, minha tia também faleceu e minha prima avisou que queria ir morar com o filho na Bahia.
Então chegou à hora da mamãe vir morar comigo.
Só que ela é muito teimosa, você sabe! - riu.
Recusa-se a deixar aquele casarão!
Quer viver sozinha, somente com os empregados.
Eu já deveria tê-la levado antes, mas fiquei com dó e fui adiando.
No meio desse processo todo, de eu vir para cá hoje ou amanhã, repentinamente, o Edwin decidiu:
"Vamos para lá na próxima semana!"
Larguei tudo e vim.
Na viagem, o meu filho veio com uma conversa muito estranha.
Disse que estava interessado em comprar uma casa no litoral brasileiro.
Achei absurdo. Porém, o Edwin contou que olhou uma pela internet e estava bem interessado.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:06 am

Hoje cedo, sem mais nem menos, avisou que iria ver uma casa e viajamos horas para chegar aqui.
Ao ver a Nanei, ela ficou brava, dizendo que a casa não estava à venda, mas deixou a porta aberta e meu filho, zangado, foi entrando.
Eu fiquei muito nervosa e queria ir embora.
Então... Viemos parar no meio da sua sala! - riu gostoso.
- Isso só pode ser coisa da Nanei mesmo!
Ela é endiabrada!
Não sei a quem essa menina puxou!
Rindo emocionadas, ainda se abraçavam, vez e outra, para acreditarem no que estava acontecendo.
As duas amigas passaram a tarde conversando e se actualizando, sem se importarem com os filhos.
Sentiam-se como duas meninas.
Era como se os anos não houvessem passado.
Somente o tempo testemunhava aquela amizade.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:06 am

3 - Uma paixão inesperada

Enquanto as mães conversavam, Nanei levou Edwin para caminhar aos arredores da luxuosa propriedade.
O lugar era incrível.
Apesar do sol se embrenhar atrás de nuvens fofas, estava muito quente.
Retornando, próximo da residência, frente ao mar, Edwin olhou o telhado de sapê do quiosque, em seguida, para os bancos que circundavam a mesinha e decidiu se sentar.
Educadamente, indicou para Nanei fazê-lo primeiro.
Suspirou profundamente.
Ao olhar para o mar, ele comentou, em português, com forte sotaque:
- É uma paisagem extraordinária!
Devo confessar que nunca vi lugar tão fabuloso!
- Já conhecia as praias brasileiras? - interessou-se ela.
- Conhecia sim.
Já estive três vezes no Rio de Janeiro e duas em Pernambuco.
As praias brasileiras são espectaculares!
Em minha opinião, são as mais lindas do mundo!
Veja que areia branca e fina!...
E a distância, a largura da faixa de areia até o mar!...
Tudo impressiona! Vocês têm uma casa maravilhosa!
- Obrigada - sorriu.
- Temos uma casa nesse estilo em Côte Vermeille, Costa Avermelhada.
Fica na costa do Mediterrâneo, entre Perpignan e a fronteira com a Espanha.
Faz tempo que não vou até lá.
É um lugar muito bonito.
Mas, para ser sincero, aqui é muito mais.
O clima, a temperatura são tão convidativos para um mergulho...
- Quer aproveitar para um mergulho?
- Ora... Não! Não!... - sorriu, envergonhado, ao recusar.
Em seu íntimo, desejar aceitar o convite.
- Vamos! Agora, no final da tarde, é o melhor horário para um banho de mar.
A água está quentinha! Quer experimentar?
Pode usar uma roupa de banho do meu cunhado, se não se importar.
- Para ser sincero... - riu.
Eu vim preparado para vir à praia e tomar banho de mar.
Trouxe roupa. Está na mala, no carro.
Mas... Só vou se me fizer companhia!
Nanei ficou encabulada, sentiu o rosto corar.
A primeira coisa em que pensou foi em estragar o seu cabelo, que era bem cacheado, longo e só ficava liso, como estava, depois de muito tempo fazendo escova com um secador.
Como iria arrumá-lo rapidamente depois?
Afinal, tinham convidados e não seria elegante se afastar por muito tempo para secá-los.
Além disso, o rapaz era europeu, assim pensava.
Deveria ter ouvido falar muito sobre os belos corpos das mulheres brasileiras.
Corpos dourados pelo sol, elegantes, magros, altos...
Ela não tinha um corpo escultural.
Suas formas eram lindamente femininas, bem arredondadas, mas estava, como alguns diziam, acima do peso.
A praia e o mar seriam ingratos com ela.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:06 am

Exibiriam seus cachos e sua pele muito branca, além de suas dobrinhas.
Tudo o que desejava esconder, e conseguia disfarçar.
Nanei era muito bonita, apesar de não ter quem a fizesse acreditar nisso.
Seus olhos verdes e grandes eram chamativos e expressivos no seu rosto redondo, rosado e lindamente feminino.
As sobrancelhas, bem delineadas, tinham uma combinação perfeita com seus cílios longos e curvados, com sua boca bem feita de lábios bem carnudos.
Ao vê-la pensativa e relutante, Edwin pegou-a pela mão e a puxou em direcção a casa, dizendo:
- Agora me animei!
Vamos nos trocar e dar um mergulho!
- Mas eu...
- Ora, Nanei! Seja uma boa anfitriã!
Sem alternativa e apesar de todo o constrangimento, ela aceitou.
Usava um bonito maiô que, a princípio, escondeu sob uma saída de banho e foi para a praia.
Demorou muito para tirar a saída, mas, por fim, entrou no mar e ficaram muito tempo, na água, brincando e conversando como se fossem grandes amigos.
Como se já se conhecessem há muito tempo.
O sol dormia no horizonte quando os dois, cansados, saíram do mar e se deitaram na praia, assistindo ao espectáculo do firmamento:
o astro beijando a água.
Após alguns minutos, Nanei passou a se preocupar com seus cabelos, que começavam a secar e enrolar.
Pensava em como pedir para irem embora por causa disso.
O rapaz conversava animado e não parecia querer entrar.
Ao seu lado, Edwin falava sobre o belo pôr-do-sol.
Repentinamente, olhou-a e disse:
- Nossa! Seus cabelos estão ficando tão bonitos!
- Pelo amor de Deus!
Pare com isso! - protestou, parecendo zangada.
Ajeitou os cachos com as mãos, torceu-os e tentou prendê-los.
- Não! Não! Não faça isso! - pediu, ajeitando-lhe os cachos e dando-lhe um tapinha na mão enquanto sorria.
Está bonito desse jeito!
Deixe-os ao natural!
Eu não sabia que seus cabelos eram tão bonitos!
Antes estavam tão... comuns!
- Ah! Não!...
Meus cabelos são horríveis!
- Não são! Deixe de ser boba!
- Não pense que vai me convencer!
Eu reconheço minha falta de atractivos.
- Não diga isso, Nanei!
Você é linda! Linda em tudo!
Adorei o seu nome:
Nanei! - pronunciou, vagarosamente, com uma voz cálida, romântica.
Estou encantado com seus cabelos, seu corpo... seus olhos!
- Ah! - deu um gritinho.
Você é o maior mentiroso que já conheci!
Meu nome é horrível!
Meu corpo é feio e meus cabelos detestáveis!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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