Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:34 am

Após ouvir a mãe, ela saiu à procura de seu tio para falar sobre prestar serviço em sua empresa.
Quando William se levantou e foi para a copa, Maria Cândida e Danielle faziam o desjejum.
Ele estremeceu ao ver a moça.
Era a primeira vez que a encarava, em casa, desde o ocorrido em Long Island.
- Bom dia, Will.
Como se sente? - interessou-se a senhora.
- Bem melhor. Obrigado.
- Que bom! Vejo que sua voz melhorou bastante.
- É verdade. Estou só um pouco rouco.
Na minha vida inteira, nunca tinha contraído uma gripe antes.
Não sabia como era.
- É mesmo?! - admirou-se a senhora.
- É sim.
Olhando para Danielle, ele quis saber:
- E você, como está?
- Bem. Obrigada.
O rapaz puxou uma cadeira, pediu licença e acomodou-se à mesa, enquanto Maria Cândida se levantava, dizendo:
- Vou pedir que aqueçam o leite. Este está frio.
Ele agradeceu.
Servia-se com suco ao perguntar:
- Sua febre passou?
- Passou sim. Nossa!
Fiquei tão mal, nos últimos três dias, que não consegui me levantar.
- Eu também não consegui.
- Só hoje vou visitar o Raul.
- Vou com você.
Danielle o fitou por alguns segundos, mas não disse nada.
Seus olhos se nublaram e ela abaixou a cabeça para ele não a ver chorar.
William se comoveu, lembrando-se de tudo.
Observou-a por um bom tempo, imaginando de quanta força e energia ela precisaria despender diante de tanto sofrimento.
Após o café da manhã, Danielle, em uma das sacadas, olhava a bela vista do rio Hudson, a ponte e um barco que passava ao longe.
Deixou seus pensamentos vagarem, pois sabia que a situação e as dificuldades não estavam mais em seu controle.
William se aproximou, vagarosamente, e tão silencioso que ela só o percebeu quando ele falou:
- Dani!
Vendo-a sobressaltar levemente, pediu:
- Desculpe-me.
Não vi que estava distraída.
Ela ofereceu meio sorriso e disse:
- Não foi nada. Tudo bem.
Sente-se - solicitou, indicando-lhe uma confortável cadeira, quase ao lado do sofá onde estava.
- Obrigado - agradeceu, aceitando o convite.
Depois comentou:
- Desde que saiu do hospital não conversamos...
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:34 am

- É verdade. Tenho muito que lhe agradecer por tudo.
Espero que me desculpe pelo susto.
- Não tem de me agradecer, Dani.
Nem por que me pedir desculpas.
Sou eu que peço para que me perdoe por...
Por qualquer coisa. Eu não estava preparado e...
- Ninguém estava preparado, Will.
Num minuto eu estava bem... No outro...
Poucos segundos e desabafou:
- Sinto-me culpada pela minha filhinha...
Lágrimas correram em sua face.
Ela as secou e prosseguiu:
- Se eu tivesse dado mais atenção à hipertensão, se tivesse sentido algo um dia antes e ido para o hospital...
Fiquei preocupada com outra coisa e achei que estava tudo bem com ela.
O médico dizia para tomar cuidado, mas nunca avisou, declaradamente, o que poderia acontecer.
Eu não sabia o que fazer e...
- A culpa não foi sua. Foi uma fatalidade.
- Às vezes me pergunto se não senti algo antes e não dei importância.
O que eu poderia ter feito para não acontecer o que aconteceu com ela?
Fiz muitas caminhadas, não sei se isso a prejudicou.
Ninguém me disse nada
Em seguida, falou entristecida:
- Sei que você está em choque pelo susto, por tudo...
A dona Maria Cândida me contou sobre você.
Estou constrangida.
Não sei o que pensar nem o que lhe dizer.
- Fui pego de surpresa.
Nunca gostei de situações aflitivas.
Não gosto de ver sangue nem pessoas com dor.
Tenho pavor até de injecção.
E não tenho vergonha de assumir isso.
Creio que, o que precisei enfrentar ao seu lado, foi para o meu crescimento, de alguma forma.
Alguns minutos de silêncio e ela desabafou:
- Sabe, Will...
Ainda estou confusa.
Não acredito que perdi minha filha... - chorou.
Eu a fico procurando...
Pensando como ela estaria comigo agora...
Não queria viver isso.
Gostaria de ir para minha casa.
Quero minha mãe. Ainda não encarei o Raul...
Lágrimas copiosas corriam por sua face ao perguntar:
- Como vou olhar para o meu marido, no estado em que está, e dizer que perdi nossa filhinha?...
Vendo-a em pranto, William se levantou de onde estava, sentou-se ao seu lado e colocou o braço em seus ombros, puxando-a para um abraço fraterno.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:35 am

Logo depois, disse:
- Calma, Dani. Tudo vai dar certo.
O Raul já sabe o que aconteceu.
É lógico que ficou triste. Todos ficamos.
Ele a ama e é um homem muito compreensivo.
Jamais irá culpá-la.
- Às vezes me vejo sem forças.
Acho que não vou aguentar mais... - falava com voz entrecortada.
É tão difícil para mim...
Se ao menos eu tivesse a minha filhinha, aqui, comigo... - chorou.
Eu quero a minha filhinha!...
William recostou-a em seu ombro e a beijou no alto da cabeça, afagando-lhe o braço sem saber o que dizer.
Inesperadamente, um vulto atraiu sua atenção e ele olhou para trás a fim de ver quem era.
Rígida, Desirée o fuzilava com os olhos enquanto seu rosto se contraia de raiva.
- O que estão fazendo?!! - exigiu num grito.
O marido afastou-se lentamente de Danielle, que não entendeu nada.
Ficou em pé, olhou-a firme e rebateu no mesmo tom:
- Não começa!
- Está pensando que eu sou idiota?!! - gritou.
- Fale baixo!!! - esbravejou com a voz grave e rouca.
- Ou melhor, não fale!
Não quero conversar com você!
- O que está acontecendo aqui?! - perguntou Maria Elvira, atraída pelos gritos.
- É esse canalha, tia!!! Esse cafajeste!!!
Peguei o Will, no flagra, abraçando essa safada aí!!!
O marido reagiu.
Aproximando-se de Desirée, agarrou seu pulso com força e a puxou para o quarto.
Chegando lá, empurrou-a.
Após fechar a porta, exigiu:
- Não vou permitir que me trate mais assim!!!
- Eu...
- Cale a boca!!!
Não vou admitir que tente falar para a Danielle o que disse a mim!!!
Além de estúpida, você está sendo cruel, desumana!!!
- Vocês estavam abraçados!!!
- E daí?!! Não sabe o que aconteceu!!!
Você é doente, Desiré!
Ciúme demais é doença e necessita de tratamento!!!
- Ela está dando uma de coitada e você!...
- A Dani perdeu a filha e o marido está muito doente!
Você tem ideia da dor que ela está vivendo?!
Sabe o que ela passou?! Lógico que não!
Nunca vi uma criatura mais insensível do que você!
Se pensa em fazer com ela o que faz comigo, está muito enganada, porque eu não vou deixar!
- Está defendendo a Danielle?!!
- Estou!!!
Eu gostaria que você tivesse uma gota, sequer, da sensibilidade, do carisma, do bom senso daquela mulher!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:35 am

Mais branda, Desirée disse chorosa:
- Não fale assim comigo!... Vou mudar!
- O que quer que eu diga?!
Como quer que eu acredite em você?!
Acreditar que vai mudar?!
Olhe o que acabou de fazer!
Além de ridícula foi desumana!
Dizendo isso, vendo-a chorar, o marido virou as costas e Desirée debruçou-se na cama e chorou muito.
* * *
Bem mais tarde, Maria Cândida e Danielle estavam prontas para irem ao hospital quando William chegou à sala.
- E aí? Vamos?! - propôs ele.
- Eu estava falando com a Dani que talvez os médicos não permitam a visita de vocês.
Estão se recuperando.
- Sim. Tudo pode acontecer.
Porém devemos tentar - opinou ele.
- Will - disse Danielle, muito sincera -, eu entendi que a Desirée brigou com você por...
- Espera - solicitou com bondade.
A dona Maria Cândida pode confirmar que eu e a Desirée estamos passando por dificuldades que nada têm a ver com você.
O assunto é mais sério do que imagina.
Amanhã mesmo vou para um hotel e decidir minha vida, sem a Desirée.
- Will, pense bem - aconselhou a senhora, preocupada.
- Já pensei. Não dá mais.
Quando o silêncio reinou, ele pediu:
- Vamos?!
Elas concordaram e todos se foram.
* * *
No hospital, conversaram com o médico responsável que decidiu liberar as visitas requeridas pelo próprio paciente, pois o estado de Raul não era nada bom.
Quando o viu, a esposa não suportou e começou a chorar em silêncio.
William permaneceu ao lado e também se emocionou muito.
Tentou disfarçar, mas, em alguns momentos, não conseguiu.
- Oh, meu bem!... - dizia ela chorando, e acariciando-lhe o rosto pálido.
O que aconteceu com você?... - beijando-o, recostou seu rosto ao dele.
- Não fique assim - sussurrou.
Não quero te ver sofrendo.
- Olhando para o amigo, agradeceu:
- Queria vê-lo para dizer muito obrigado.
- Não precisa me agradecer, Raul.
Tentei fazer o melhor que estava ao meu alcance.
- Você salvou a Dani e...
- Eu só estava lá.
Foi Deus quem decidiu.
Raul sentia-se cansado, com dificuldades para respirar e falar.
Algumas vezes fechava os olhos, mas depois tornava a abri-los e tentava ficar atento.
- Amor... O nené... - a esposa chorou, sem conseguir falar.
- Eu sei. Lamento... - lágrimas correram pelos cantos de seus olhos.
- Amor... Você vai ficar bom. Nós vamos tê-la de novo e...
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:35 am

- Dani... Preciso pedir uma coisa... - murmurou.
Quero ir embora...
Não permita que me dêem mais remédios para prolongar tudo isso. Estou cansado.
- Não, Raul! Não diga isso! - implorou desesperada.
- Quero descansar, meu amor...
Não adianta mais tantos remédios...
Só permita que me dêem medicações para eu não sentir tanta dor...
- Raul, não fale assim!... - tornava aflita.
Vendo-a em desespero, praticamente se atirando sobre o marido, William, que não detinha as lágrimas diante da cena, segurou Danielle, que perdia o controle.
- Raul, eu te amo!
Não faça isso comigo!...
- Eu também te amo, Dani... Muito...
Olhando para William, pediu num murmúrio:
- Cuide dela para mim... Leve-a daqui.
Não estou bem... - fechou os olhos enquanto seu rosto se contraia em expressão dolorosa.
- Não, Raul!!!
Não!!! - gritou a esposa, tocando seu rosto com ambas as mãos.
William segurou firme em seus braços.
Apoiando as costas de Danielle em seu peito, afastando-a, pois ela se jogava sobre o marido, tentando sacudi-lo.
Raul começou a exibir falta de ar e logo seu corpo se contorcia aflito, como se não conseguisse respirar.
- O que está acontecendo?!!
Raul!!! - insistia Danielle.
Enfermeiros e o médico se aproximaram às pressas e alguém, entre eles, solicitou:
- Tire-a daqui!
Precisamos entubá-lo!
- Eu quero ficar com o meu marido!
Ele precisa de mim!
Não!!!
William a levou para fora.
Danielle gritava inconformada.
Ele precisou apoiá-la em si e praticamente arrastá-la pelo corredor.
Desesperada, descontrolou-se.
Virou-se, fechou os punhos e bateu forte em seu peito, enquanto o amigo procurava envolvê-la.
Em certo momento, percebendo que nada adiantaria, parou.
Teve uma forte crise de choro e o agarrou, recostando-se em William, que a abraçou forte e chorou junto sem que ela visse.
Com generosidade, o amigo a conduziu para a sala onde Maria Cândida e Óscar cercaram-na com carinho, tentando acalmá-la.
O rapaz recolheu-se em um canto e, comovido até a alma, observava-os a distância.
Naquela noite, Raul faleceu.
Apesar dos cuidados maternais de Maria Cândida e do carinho recebido de dona Filomena e Maria Elvira, Danielle parecia desorientada e sem controle.
Chorou muito.
Sua febre voltou e teve complicações respiratórias, pois não estava totalmente recuperada do princípio de pneumonia.
Maria Cândida telefonou para o Brasil avisando a família.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:26 am

- Foi no princípio da noite, Belinda - contou em tom triste, chorando.
A Dani e o William tinham acabado de visitá-lo.
O Raul estava fraco por causa da quimioterapia.
Sua imunidade estava baixa.
A infecção foi muito intensa porque seus pulmões encontravam-se comprometidos pela doença.
Quando eu e a Nanei os deixamos lá na casa da praia, ele disse que não se sentia bem.
Pensou ser pela doença. Mas não era.
Era gripe e pneumonia.
Ele não sabia, por isso não nos avisou.
Raul era resignado.
Raramente se queixava de dor.
- E minha filha? - perguntou em pranto.
- A Dani está sofrendo muito, mas vai ficar bem.
Estamos cuidando dela.
- Eu vou para aí!
Minha documentação vai ficar pronta amanhã...
- Não, Belinda.
O meu marido está cuidando de tudo para o corpo do Raul ser levado para o Brasil.
A Dani também vai retornar e eu vou com ela.
Maria Cândida ignorava que o médico desaprovaria a viagem de Danielle de volta ao Brasil, pois preveniu que pessoas com complicações respiratórias, como a dela, não deveriam viajar de avião.
Sendo assim, o corpo de Raul seguiu para o Brasil, mas Danielle precisou permanecer em Nova Iorque.
Muito fraca e extremamente abatida, ela ficou no apartamento de Maria Elvira.
Apesar de todos os cuidados recebidos, não se alimentava direito.
Não conversava. Só chorava muito.
Belinda, no dia seguinte, queria ver a filha.
Não se contentava em só ouvi-la por telefone.
Contudo, depois que sua amiga disse que ela estava se recuperando e, em poucos dias, retornariam ao Brasil, ela decidiu aguardar.
A única pessoa que não se importava com Danielle, era Desirée.
Procurando pelo marido, viu-o no quarto, arrumando a mala.
- O que vai fazer com isso?! - quis saber nervosa.
- Amanhã vou para o hotel - respondeu com simplicidade.
- É um dos hotéis da nossa rede e eu só não vou agora porque a suíte que quero está ocupada.
Faço questão dela por ter de ficar até o fim do ano.
Não vou ficar mudando de quarto.
- Will, pense bem.
Dê-me uma chance, querido!
Amanhã cedo eu vou à empresa do tio Matt.
Tudo vai mudar, eu prometo!
- Então, mude primeiro.
Depois, talvez, conversaremos.
Aproximando-se dele, Desirée o envolveu com carícias e tentou beijar-lhe os lábios, murmurando:
- Eu amo você.
William a afastou de si e pediu:
- Não se humilhe.
Não faça nada que venha a se arrepender.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:27 am

Agora... Por favor...
Deixe-me sozinho. Necessito descansar.
Desirée teve de represar toda a sua raiva, toda a sua fúria para não gritar nem brigar com ele.
Afinal, precisava parecer mudada, compreensiva e gentil.
Com grande travo de amargura e misto de ódio, aceitou e se retirou representando ser humilde.
* * *
Na manhã seguinte, William acordou num sobressalto.
Marcou com o director de uma grande empresa e estava muito atrasado.
Levantando-se às pressas, arrumou-se rápido, pegou sua mala e foi até a sala onde encontrou com Maria Cândida, que o chamou:
- Will?! Aonde vai?!
- Perdi a hora! Agendei uma reunião hoje cedo.
Eu tinha a intenção de, antes, passar no hotel para deixar minhas coisas.
Não sei o que aconteceu. Não escutei o relógio.
Nem sei se ele tocou.
Acho que foram os remédios.
Nunca perdi a hora.
- Tome café antes de sair.
- É que estou com pressa.
Consultando o relógio, comentou:
- Talvez dê tempo de eu chegar nessa entrevista se...
- Só uma xícara de café! - insistiu a senhora.
- Eu queria conversar um pouquinho com você.
- Se é assim e se for bem rápido...
Pensou um pouco e decidiu:
- Acho que vou deixar as minhas malas aqui.
Tomo café e vou directo para o World Trade Center.
Depois volto e vou para o hotel.
- A Desirée foi para lá agora cedo.
Tinha um horário agendado com um director da empresa do Matt e o escritório fica lá.
Foram juntos para a mesa, onde o café da manhã estava posto.
O rapaz nem se sentou e sorriu ao olhar as coisas.
- O que foi? - perguntou ela, sorrindo.
- Só estou achando graça. Reparando.
O jeito da senhora e da dona Maria Elvira de servirem o café da manhã é bem brasileiro.
- Ah! Esse hábito é difícil de mudar - riu com gosto.
Não gostamos de bacon com ovos mexidos logo cedo.
É muito pesado. Nada como frutas, bolo, frios...
- Eu gosto desse jeito.
Realmente é mais leve.
Servindo-se com uma xícara de café, indagou, mesmo imaginando sobre o que se tratava.
- O que a senhora quer conversar comigo?
- É sobre a Desirée.
Sei que não devo me envolver, mas...
A separação é uma coisa bem difícil.
- Imagino. Também não queria isso.
- E se você desse um tempo?
Esperasse um pouco?
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:27 am

Quem sabe... Ela está procurando mudar.
Foi até atrás de emprego - riu.
E olha que a Desirée nunca trabalhou.
Ele consultou o relógio novamente e disse:
- Se a senhora não me levar a mal...
Poderíamos conversar sobre isso mais tarde, quando eu vier buscar minhas malas?
Tenho uma entrevista de emprego em quarenta e cinco minutos.
- Emprego, Will?!
Nesse instante, Maria Elvira chegou às pressas e falou:
- Gente! A Danielle não está nada bem!
- Como não está bem?! - surpreendeu-se a irmã.
Acabei de vê-la agora!
- Então veja você mesma - exibiu o termómetro.
Ela está com mais de 40° de febre!
Eles foram até o quarto onde a moça, deitada, tremia.
Não se importava com mais nada.
- Dani?! Pelo amor de Deus, filha!
O que é isso?!
Falei para sua mãe que estava bem e que amanhã ou depois iria voltar! - exclamou Maria Cândida.
- Precisamos levá-la ao médico - disse a irmã.
- Só que o motorista não está.
Ele foi levar a mamãe até o outro lado de Manhattan.
O Matt e o Óscar saíram cedo.
Talvez devêssemos chamar uma ambulância.
William olhou o relógio, mais uma vez, e sentiu-se insatisfeito.
Porém, sem se manifestar contrariado, decidiu:
- Não. Eu a levo ao hospital.
Só vou dar um telefonema.
Ao tentar levantá-la, ela não reagia.
Não conseguia ficar em pé.
Estava muito febril e extremamente fraca.
William a pegou nos braços e a levou até o carro.
De lá foram para o hospital, onde foi medicada e logo a febre cedeu.
Algum tempo depois, Danielle foi liberada e retornaram para casa.
Assim que entraram no apartamento, quase às nove horas da manhã, uma empregada, nervosa, avisou-os:
- Um avião bateu no World Trade Center!
Se olharmos pela janela da sala do piano...
Está difícil, por causa da fumaça, mas dá para ver!!!
Com excepção de Danielle, todos correram e não acreditaram no que viam.
Naquele momento, um segundo avião, outro Boeing 767, afundou-se na outra torre.
- Meu Deus!!! - gritou Maria Cândida, horrorizada com a cena.
William correu para a sala e ligou a televisão, dizendo:
- Quando estávamos chegando aqui perto, ouvi várias sirenes e percebi grande movimentação na cidade, mas não imaginava uma coisa dessas!
Todos os canais noticiavam a tragédia sobre os dois aviões que colidiram com as Torres Gémeas.
Só não sabiam, ainda, que se tratava de um grande atentado terrorista, naquele 11 de setembro.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:27 am

O rapaz deixou-se cair sentado no sofá ao lado de Danielle, que estava um pouco tonta.
Ele não acreditava no que assistia.
Perplexo, olhou para ela e murmurou, parecendo assombrado:
- Eu deveria estar lá... na torre sul, WTC 2, no 76° andar.
Se não fosse por você...
Maria Cândida entrou em desespero ao se lembrar da filha.
Correndo, pegou o telefone e ligou para o celular de Desirée, que atendeu:
- Fiquei sabendo, agora pouco, que outro avião atingiu essa torre também.
Acho que foram alguns andares acima.
Talvez uns vinte.
Aqui está tudo bem! Não se preocupe!
Um pessoal que desceu, subiu de novo, pois disseram que não corremos perigo.
Mas agora que outro avião bateu aqui, não sei como vai ser.
Estão tentando conter o pânico.
- Saia daí agora, Desirée! - exigiu a mãe.
- Estou bem! Não se preocupe! Já disse!
Acho que o piloto ficou cego com a fumaça que tem na outra torre, por isso bateu nessa.
- Desça daí, agora!!! - gritou a mãe.
- Está bem. Vou desligar.
Maria Elvira tomou o telefone da mão da irmã e ligou para o marido, porém ele estava longe dali, do outro lado da ilha de Manhattan.
Nem sabia do ocorrido.
Os minutos foram passando e eles acompanhavam, apreensivos e angustiados, os acontecimentos.
Até que assistiram à segunda torre a ser atingida, a WTC 2, vir a baixo inesperadamente.
- Não!!! - gritou Maria Cândida em desespero.
Imediatamente ela pegou o telefone e ligou para a filha.
Ao mesmo tempo, querendo ter certeza, perguntou nervosa:
- Em qual das torres fica a empresa do Matt?!
- Não sei!!! É...
Acho que é a WTC 2, que é a torre sul...
- respondeu a irmã chorando.
- Ai, meu Deus! A Desirée não atende!!!
- Talvez ela tenha descido!
Talvez esteja sem sinal! - argumentou William, também preocupado.
Tentaram telefonar várias vezes, e nada.
A cada minuto, a aflição crescia.
O desespero aumentou quando a outra torre foi abaixo.
Maria Elvira levou a irmã para o quarto.
Nesse momento, Óscar chegou e ficou com a esposa.
Quando a tarde morria, Maria Cândida estava na fronteira do desespero.
Ninguém conseguia falar com Desirée pelo celular.
Ela não telefonava. Não tinham qualquer notícia.
Todos viviam uma angústia infindável.
Não lhes restava outra escolha além de esperar.
Uma sombra muito escura cobria Nova Iorque e todo os Estados Unidos.
O país se fechou em doloroso luto e terror.
Várias famílias, em todo o mundo, viveram o drama de Maria Cândida e Óscar, experimentando um sofrimento inenarrável.
Seus corações permaneceram esmagados, principalmente, nos dias que se seguiram sem notícias e provaram a dúvida e a esperança da filha ser encontrada com vida.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:27 am

No Brasil, Belinda e o marido queriam ir buscar Danielle, mas as fronteiras americanas estavam fechadas.
Tensa, a América do Norte parou e se trancou.
A dor de Maria Cândida e do marido não terminava, assim como para outras milhares de famílias.
Quase uma semana depois, no resgate ininterrupto, o corpo de Desirée foi encontrado e identificado.
Diante de tudo, muito sofrimento.
William pouco falava.
Permaneceu todo o tempo trancado no quarto e não se alimentava direito.
Ficar abraçada à Danielle, era a única coisa que acalmava Maria Cândida.
Em longas conversas com Belinda, por telefone, Maria Cândida pedia à amiga que deixasse sua filha ir com ela para a França.
Porém a outra não admitia de forma alguma e, se tivesse um meio, iria para lá buscá-la.
Mas não podia. As fronteiras americanas estavam fechadas.
E ela exigia que sua filha retornasse ao Brasil.
Mais firme, Óscar assumiu o controle da situação e garantiu à Belinda que a filha retornaria o quanto antes.
O que de facto aconteceu.
O senhor decidiu ir para a Europa e pediu a William que levasse Danielle até São Paulo.
Não queria que ela viajasse sozinha.
Ele e sua esposa não estavam bem o suficiente para irem até o Brasil.
Não era o momento de ficarem na casa de amigos.
Assim foi feito e o rapaz concordou.
Belinda e o marido foram buscar a filha no aeroporto e agradeceram a William, recebendo-o muito bem.
Na luxuosa mansão do casal, foi reservado um quarto com excelentes acomodações ao rapaz.
- Não se preocupem comigo.
Não vou ficar por muitos dias.
Pretendo ir embora amanhã ou depois.
- De forma alguma, William - afirmava a senhora.
Você precisa descansar e ocupar sua mente com coisas boas.
Sei o quanto tudo está sendo difícil.
Fique algumas semanas connosco.
Somos muito gratos por tudo o que fez por nossa filha e pelo Raul também.
Vendo-o indeciso, tentou convencê-lo:
- Por favor, fique connosco.
Deixe-nos tentar retribuir com um pouco de atenção.
Ele estava abatido e fraco, além de muito abalado emocionalmente.
Não tinha ânimo para conversar.
Mas, muito educado, agradeceu:
- Obrigado pela consideração.
Quero que saiba que a Danielle também salvou minha vida.
Eu deveria estar na segunda torre atingida, a que caiu primeiro.
No 76° andar onde entrou o avião.
Em todo caso... Vamos ver.
Não posso prometer que ficarei muitos dias.
Contudo, devo confessar que estou relutante em voltar para casa.
Perceberam que o rapaz estava muito chocado.
Só conversava quando alguém puxava algum assunto e falava só o necessário.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:28 am

O tempo que podia permanecia sozinho e preferia o grande jardim da casa onde havia uma mesa de ferro branca rodeada de cadeiras da mesma cor.
Nos dois primeiros dias, permaneceu ali por horas.
A distância, Belinda acreditou que o viu chorar.
Danielle, também achava-se muito desanimada, estava nitidamente deprimida.
Não saía do quarto.
Não queria se alimentar, não conversava e chorava muito.
- Dani, filha!...
Precisa reagir! Não pode ficar assim.
Ela não respondia e a mãe, comovida, pedia com jeitinho:
- Levante dessa cama. Saia um pouquinho...
Olha, por que não vai lá fora conversar com o William?
Ele está muito tempo sozinho.
O seu pai está no trabalho e eu não tenho mais assunto.
- Não quero... - murmurou.
- Ele disse que vai embora depois de amanhã.
Já reservou a passagem.
Vendo-a sem atitude e para fazer com que reagisse, acusou-a:
- Você está sendo tão ingrata, filha.
É assim que agradece a tudo o que ele fez?
Lembre que ele também teve uma perda muito grande e ainda, depois de tudo, veio até aqui só para lhe trazer! Pense nisso.
Belinda conseguiu tocar o coração da filha que se forçou a levantar.
Trocou-se foi até o jardim onde William estava.
Aproximando-se, disse em tom triste:
- Minha mãe falou que já reservou a passagem.
- Sim. É verdade.
Embarco depois de amanhã.
- Desculpe-me por não ser tão atenciosa com você.
É que...
William a encarou e observou seu rosto pálido e muito abatido.
Em seus olhos, podia-se ver uma sombra de angústia e um sofrimento sem fim.
- Na vida acontecem coisas estranhas. Estou tão confuso.
Não sei o que fazer da minha vida agora.
Eu ia me separar dela... Estava decidido.
- Você a amava?
- Amei muito. Houve um tempo em que eu fazia tudo por ela.
Tudo para vê-la feliz.
Mas... Acabou. Agora ela se foi e...
Não sei o que estou sentindo.
Às vezes vem um arrependimento pelas minhas palavras na nossa última conversa...
Embora fosse o que eu sentisse de verdade, foram palavras duras.
Eu estava cansado.
Havia feito de tudo por ela, para ela, por nós dois...
- Eu também tentei fazer de tudo pelo Raul - lágrimas correram.
- Você não tentou.
Você fez. E fez o principal.
Foi tranquila, companheira, compreensiva...
Até o emprego largou para cuidar do seu marido.
- Eu o amo tanto...
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:28 am

Um soluço embargou sua voz.
- Deixei o emprego porque nossas famílias podiam nos sustentar.
- Mesmo assim.
Chego a duvidar que, se fosse comigo, a Desirée fizesse o mesmo.
- Não diga isso, Will.
- Desculpe-me.
- O que vai fazer agora?
- Não sei. Primeiro vou retornar a Europa.
Não sei se continuo trabalhando na Companhia Aérea.
O mundo está abalado por causa dos atentados de 11 de setembro e...
Um novo emprego agora... Não sei...
E você, o que vai fazer?
- O Raul deixou um vazio enorme.
Nem nossa filhinha eu tenho para dizer que fiquei com um pedacinho dele - chorou.
- O único remédio que temos agora, para o que nos aflige, é o tempo - desfechou sentido.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:28 am

10 - Recomeçando a vida

William retornou para a Europa conforme planeado.
Danielle ficou na casa de seus pais.
Ela não quis ir para o apartamento onde morou com o marido.
Não saía de casa.
Só permanecia em seu quarto.
Não conversava e era fácil vê-la chorar.
Havia dias em que nadava, por horas, na piscina.
Depois caía na cama e dormia.
Belinda e o marido não sabiam mais o que fazer para ajudá-la.
Além disso, a mãe estava zangada com Nanei que teimava em ficar na Europa.
O mundo encontrava-se bastante tenso após os atentados terroristas nos Estados Unidos.
O senhor Osvaldo também ficou muito insatisfeito com isso.
Porém, como iria até a Europa em outubro, prometeu ir até Paris se entender com Nanei.
Belinda não viajou com o marido.
Decidiu ficar com a filha, que parecia precisar muito dela.
Em oito de outubro, um avião da companhia Escandinava SAS, com 104 passageiros, chocou-se com um pequeno avião particular na pista do aeroporto de Linate, em Milão, Itália.
Cento e dezoito pessoas morreram nesse acidente.
O senhor Osvaldo foi uma das vítimas.
A tragédia na vida de Belinda e da filha não poderia ser maior.
Ao tomar conhecimento do ocorrido, Nanei retornou ao Brasil, junto com Edwin e seu irmão Guilherme, que estava em Berlim.
Apesar de toda sua dor, Maria Cândida, acompanhada da filha Olívia, veio para o Brasil para ser solidária com Belinda.
Óscar não pôde vir e telefonou.
Assim como William, que ligou para Belinda e para Danielle, dando-lhes os pêsames e querendo saber como se sentiam.
Ele ligou outras vezes e conversaram por horas.
Depois de algum tempo, não se falaram mais.
Antes do Natal daquele ano terrível, Maria Cândida e a filha voltaram para a Europa, bem como Guilherme, que precisava retornar ao serviço e aos estudos.
Com o passar do tempo, Danielle se refazia aos poucos.
Porém Belinda parecia mais imersa na densa tristeza.
Nanei e Edwin anunciaram o noivado para o final do ano e tinham intenção de se casarem logo.
Ele vinha visitá-la a cada dois meses e, às vezes, trazia a irmã consigo.
Maria Cândida fez questão de oferecer uma grande festa para comemorar o noivado do filho.
Belinda e Danielle teriam de ir até Paris, onde Guilherme também estaria.
Apenas Kléber, a esposa e os filhos não poderiam comparecer.
Apesar de já ter decorrido mais de um ano da morte do marido, Belinda demonstrava-se muito tristonha.
Com Danielle também não era diferente.
Ela se fechava.
Ninguém a via sair, visitar amigos ou ter qualquer actividade.
No último ano, saiu de casa apenas para acompanhar a mãe ao médico e nada mais.
Danielle não sabia o que fazer nem para onde ir a fim de fugir da angústia que experimentava.
Não tinha ideia de como recomeçar a vida.
Agora era obrigada a estar em Paris para a comemoração do noivado de sua irmã.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:28 am

A festa magnífica, para Nanei e Edwin, foi dada em um Châteu, próximo da capital francesa, alugado para a refinada cerimónia.
Havia convidados ilustres e importantes.
As mulheres estavam inegavelmente elegantes.
Lindas, em seus trajes longos.
Enquanto os homens, bem requintados em seus smokings, sustentavam suas taças.
Sem dúvida alguma, não pouparam nada na recepção.
Tudo corria maravilhosamente bem.
Alguns jantavam, outros bebiam.
Havia os que dançavam e brincavam respeitosamente.
Até a imprensa cobriu o evento.
Danielle, extremamente magra, por toda tensão que viveu no ano anterior, aparentava bem séria, como se carregasse nos ombros um fardo bastante pesado.
Muito embora fosse uma das mulheres mais lindas da festa.
Parecia deslizar em distinto vestido verde esmeralda, longo, colante ao corpo, sem alças, que deixava o colo e os ombros à mostra e detalhava seu corpo escultural.
Somente uma suave e transparente echarpe laçava-lhe, com simplicidade, a frente do pescoço com as pontas jogadas, soltas, para trás das costas.
Seus cabelos, loiro-escuros e presos, reluziam as gotas minúsculas de brilho dando-lhe um charme especial.
Usava um par de brincos de brilhantes que formavam uma flor e combinavam com seu delicado anel.
Flashes brilhavam em sua direcção.
A princípio os fotógrafos não sabiam quem era aquela encantadora e misteriosa mulher e ficaram admirados com sua beleza e elegância.
Danielle havia se perdido dos demais e saiu à procura de sua mãe.
Precisou cobrir levemente os olhos com a mão para não se cegar com os relampejos insistentes das luzes das câmaras.
- Posso socorrê-la? - perguntou uma voz forte e gentil que, praticamente, falou-lhe ao ouvido.
- Will! - Danielle sorriu pela primeira vez em muito tempo.
Seu rosto tornou-se iluminado e ela ficou ainda mais linda.
O rapaz a beijou no rosto com carinho e a imprensa não perdeu a oportunidade de registrar esse facto.
Como muitos outros.
Pegando em sua delicada mão, William enlaçou-a em seu braço e a tirou daquele salão.
Levando-a para outra parte do Châteu, parou frente a ela e admirou-a de cima a baixo.
Enquanto segurava uma de suas mãos, elogiou-a:
- Você está simplesmente linda!
Deslumbrante!
- Obrigada - sorriu novamente.
Nossa, Will! Quanto tempo!
- É mesmo. E...
Nesse tempo todo, nós nos falamos por quatro vezes, porque eu liguei - sorriu com um tom enfático e de brincadeira na voz.
Depois...
- Depois?...
- Esperei que me telefonasse.
Fiquei sem graça de continuar ligando.
- Foi um período bem difícil.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:29 am

Ainda está sendo...
Daqueles que a gente nunca se sente bem.
- Entendo. Sei bem o que é isso.
Por isso queria conversar.
Achei que era a única pessoa capaz de me entender.
E... O que tem feito? - perguntou, colocando sua mão em seu braço novamente e, muito cavalheiro, conduziu-a para lenta caminhada, em um belo jardim, fora do Châteu.
- Nada.
- Nada?! - ele surpreendeu-se.
- Não. Não tenho feito nada.
À medida que o tempo foi passando, a vida foi ficando mais difícil sem o Raul.
Após um instante, perguntou:
- E você? O que tem feito?
Estamos em Paris há uma semana e nem ouvi falar de você! - sorriu por brincar.
- Foi porque não perguntou!
Todos sabem sobre mim!
Principalmente a imprensa, que vem me perseguindo muito - retribuiu o sorriso.
E logo explicou:
- Ainda trabalho na empresa do senhor Óscar.
Estava a serviço em Nova Iorque.
Voltei ontem, por causa do noivado do Edwin.
Eu sabia que iria encontrá-la.
Breve pausa e indagou:
- Conte-me, como está dona Belinda?
Não a encontrei ainda.
- Está superando tudo o que aconteceu.
- Ela veio, não é?!
- Sim. Claro!
Nós nos perdemos no salão principal da festa.
Estava procurando-a quando você me encontrou.
O meu irmão, o Guilherme, também está aí.
Quero apresentá-lo.
Quando esteve no Brasil... - parou por um momento, ficou reflexiva e suspirou fundo ao se lembrar o que o levou ao seu país.
Ele entendeu o motivo da pausa e não disse nada.
Depois, ela prosseguiu:
- Você não o conheceu.
- Já o conheço - sorriu.
- De onde?!
- Há cerca de dois meses, eu fui a Milão, a trabalho, e a Olívia estava lá com o Guilherme.
Eles sempre estão juntos.
Ela me apresentou-o.
- A Olívia?!
William deu uma risada engraçada reconhecendo a gafe.
Não tinha como corrigir. Era tarde.
- Ah, não... Acho que falei demais.
- O Guilherme trabalha em Berlim.
Às vezes, está em Heidelberg.
O que estaria fazendo em Milão?!... - riu de modo malicioso.
... e com a Olívia?!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:29 am

William a conduziu por uma passarela que chegava até um coreto encantador, que ficava exactamente no meio de um lago.
Lá ele explicou:
- A Europa é pequena demais.
Podemos tomar café da manhã na Itália, almoçar na Suíça, jantar na França e dormir na Alemanha, se preferir.
- Não brinque! - sorriu.
- É verdade. Não estou brincando - riu.
Só exagerando um pouco.
- Eu sei. Não estou falando disso.
Estou falando do Guilherme.
Que negócio é esse do meu irmão sempre estar junto da Olívia?!
- Era final de semana.
E... Ah! Não complique, Dani!
Se você não sabia é porque não era para saber.
Em seguida, perguntou para mudar de assunto:
- Vai ficar para o Natal?
- Não sei. Dona Maria Cândida nos convidou, mas minha mãe não está nada animada e, para falar a verdade, nem eu.
- Faz um ano e dois meses que seu pai se foi.
- É... Ele faleceu quase um mês depois do Raul e da...
- E da Desirée.
- Às vezes, eu não acredito.
Seus olhos ficaram marejados e ela se apoiou no guarda-corpo1 do coreto, olhando para o alto a fim de disfarçar a emoção.
William foi esperto.
Para não vê-la triste, ocupou seu pensamento com o convite:
- Fiquem para o Natal.
Paris é linda nessa época.
Já esteve aqui no Natal?
- Não.
- Sei... Você gostou mesmo foi do Canadá.
Até morou lá por seis anos!
Ela sorriu levemente e continuou observando o céu, depois o lago.
Ele ficou ao seu lado tentando acompanhar o seu olhar e adivinhar seus pensamentos.
Reparou como a amiga estava diferente.
Menos tensa do que quando a conheceu, contudo
séria demais.
Carregava uma suave e indefinida tristeza no olhar.
Acreditou que devesse se ocupar, procurar dar um sentido a sua vida.
Afinal, era jovem, bonita, tinha estudo.
Poderia voltar a viver.
- Não pensa em voltar a trabalhar, Dani?
- Penso sim.
Quero fazer uma reciclagem na minha área e ver o que consigo.
Estou começando a fazer planos para o próximo ano.
Preciso me sentir útil.
- Na área de Web Designer, falando três idiomas, como você, terá muitas oportunidades e em grandes empresas.
Sabe disso, não?
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:29 am

- Estou tão desactualizada, Will!
- Esse é o menor problema.
Você é inteligente.
E o principal já tem.
Não tenho muito contacto com companhias brasileiras, no entanto conheço muitas organizações e talvez possa ajudar. Interessa?
- Claro. Por que não?!
- Mesmo se não for no Brasil?
Ela ficou surpresa.
Não sabia o que responder.
Sorriu enquanto ele aguardava, com expectativa.
Por fim, disse:
- Eu gostaria. Quero tentar.
- Óptimo! Porém...
Voltando ao assunto do Natal... - riu.
Fique até depois do ano-novo!
- Tudo depende da dona Belinda.
Não gostaria de contrariar minha mãe.
- E quando conseguir um emprego?
Como vai ser?
- Aí será diferente.
Terá de entender que preciso reconstruir minha vida.
Ficaram em absoluto silêncio.
Observando-a, por alguns minutos, reparou que por de trás da tristeza apresentava a mesma educação e generosidade.
A mesma meiguice na fala mansa.
- Will, vamos voltar.
Acho que está na hora de anunciarem o noivado.
A Nanei me mata se eu perder! - sorriu.
Ele aceitou e imediatamente lhe fez uma mesura, oferecendo o braço para que ela o enlaçasse.
Em seguida, conduziu-a novamente, com os mesmos passos compassados, para o interior do Châteu onde a festa acontecia.
Era a primeira vez que Maria Cândida e o marido apareciam em uma recepção e também ofereciam uma festa, desde a morte de Desirée.
A mãe estava apreensiva ao lado da filha Olívia que lhe perguntou:
- Mãe, não acha que exagerou um pouco nesta festa?
- De forma alguma!
- É... Pensando bem o Edwin merece!
- Não, não, não, Olívia!
É a Nanei quem merece!
Esta festa é para anunciar para todas as ex do Edwin, e também as que estavam concorrendo à vaga de ex, que ele ficou noivo.
Uma recepção deste porte anuncia o quanto seu irmão está feliz com a moça que escolheu e conquistou.
Que nenhuma outra apareça mais!
- Mãe!
- É isso mesmo! Adoro a Nanei!
Ela é das minhas!
Não merece ser importunada por ninguém.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:30 am

Passado um tempo, comentou, sorrindo, ao olhar para a futura nora:
- Que interessante!
O seu irmão fez como o seu pai: precisou ir até o Brasil para conhecer a esposa.
Quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar?! - riu.
- A Nanei está linda!
- Sim. Está mesmo.
Seus olhos são bem expressivos e apareceram melhor sem os óculos e após a cirurgia.
E depois que emagreceu um pouco, ficou mais bonita. Agora vamos!
- Onde?! - quis saber Olívia.
- Ajudar a Nanei a trocar o segundo vestido.
Quero que ela fique ainda mais linda na hora do noivado!
A festa foi incrivelmente maravilhosa.
Digna de um conto de fadas.
Edwin e Nanei estavam imensamente felizes e anunciaram o casamento para depois de três meses.
Nos dias que se seguiram, Belinda concordou que Nanei ficasse morando com Maria Cândida para cuidar dos preparativos do casamento.
Afinal, a filha continuaria morando na Europa, em Londres, após se casar.
Depois de muita insistência da amiga, ela aceitou passar o Natal e o ano novo em Paris.
O que deixou Danielle bem satisfeita.
* * *
Nos primeiros dias do mês de janeiro, Belinda planejava retornar para o Brasil, mas William, que frequentava muito a casa de Maria Cândida, procurou por Danielle com uma novidade.
- Eu falei com o senhor Óscar antes de vir conversar com você.
Ela aguardou séria e ele informou:
- Há uma vaga na Companhia, na área de computação, para alguém com conhecimento e prática em Web Designer.
O que você acha?
- É um convite?
- Lógico!
- Eu não sei.
Você me pegou de surpresa.
Estou desactualizada.
- Esse é o menor problema.
Se quiser, terá um período de adaptação.
- Mas terei de morar aqui em Paris.
- Sim, terá - sorriu.
- E minha mãe?
- Ela também pode morar aqui, Dani. Ou...
- Eu não sei.
Ela não aceitaria se mudar para cá.
- Danielle, pense bem.
Você é jovem e tem de continuar a viver.
Pelo que me contou, não fez nada por você mesma nos últimos dezasseis meses.
Acredito que não deva continuar assim.
Sua mãe também.
Ela ficou reclusa, em casa, esse tempo todo.
Precisam dar um rumo a suas vidas!
- Não é fácil, Will.
- Eu sei. Sei exactamente o que é isso.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:30 am

Mas é preciso. Em algum momento terá de recomeçar.
Que seja agora. Aproveite a chance.
- Preciso falar com ela.
Se não se importar...
- Eu aguardo uma resposta. Vá lá.
Danielle ficou preocupada.
Aquela oportunidade lhe interessou muito, mas Belinda não ficou satisfeita com o convite.
- Eu posso cuidar dela!
Vou tratar a Dani como minha filha! - afirmou Maria Cândida contente com a ideia.
Aliás, ninguém a viu tão animada, nos últimos meses, como naquele momento.
- Vou ficar sozinha, Maria Cândida.
- Fique aqui, Belinda. Lugar não falta.
Moravam em uma enorme mansão do estilo renascentista.
Com doze suítes só na parte de cima.
- Fique, por você e por sua filha!
Olha como essa menina está magra, abatida.
Ela já sofreu muito! Perdeu a filhinha, o marido, o pai...
A Danielle precisa voltar a viver.
- Eu sei. É por isso que vou respeitar a vontade da Dani.
Se ela quiser o emprego e morar aqui.
Não vou me opor. Mas não vou ficar.
Minha filha precisa reconstruir sua vida, e eu quero voltar para minha casa.
Maria Cândida não se conformou com a ideia e insistiu muito com a amiga.
Porém não adiantou.
Danielle aceitou o convite com a condição de arrumar um apartamento perto do centro de Paris para morar sozinha.
Não gostaria de ficar dependente dos cuidados da amiga de sua mãe.
Belinda retornou ao Brasil e, com o passar dos dias, seu filho Kléber, a esposa e os netos, aceitaram morar com ela na mansão.
Em pouco tempo, Danielle se instalou em um lugar, como queria.
Adaptou-se bem ao trabalho e se familiarizava aos poucos com os costumes e a Cidade Luz.
Olívia adorava sua amizade e a ajudava em muitas coisas.
Sempre estavam juntas.
No apartamento alugado por Danielle, tudo era novo e havia muitas caixas ainda para abrir.
Ela e Olívia riam de alguma coisa em meio às almofadas sobre o chão coberto por um denso tapete.
- Pensei que eu soubesse falar francês bem - ria Danielle de algo muito engraçado que não ousava repetir.
- Não foi problema com o idioma.
Foi a forma como se expressou! - ria Olívia.
Isso acontece.
Alguns segundos e lembrou:
- Sabe, é preciso que conheça bem a capital para se virar melhor.
Paris é fabulosa!
- Sabe que nunca visitei um museu em Paris.
- Não acredito!
- Pode crer.
Enquanto meus pais iam a um, eu adorava andar às margens do Sena.
- Vai amar os museus daqui.
Tenho certeza.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 18, 2017 9:30 am

Mas não deixe de conhecer e explorar as diferentes quartiers, os bairros.
Não é à toa que os parisienses chamam esta cidade de Cidade das cem vilas.
Cada uma tem um encanto, um mistério, um gosto, uma história e muitos locais magníficos e curiosos.
- Vim aqui várias vezes, mas há muito tempo.
Não me interessava por essas coisas.
Agora vejo a cidade com outros olhos.
Quero vasculhar tudo aqui.
A campainha tocou e Danielle disse, levantando-se:
- Eu atendo. Deve ser o Will com alguma coisa para nós comermos. Tomara!
Ao abrir a porta larga e alta, viu o amigo com o rosto oculto pelos pacotes que segurava, brincando de se esconder atrás deles.
- Que bom que chegou!
Estávamos morrendo de fome! - disse enquanto o ajudava.
William trazia, alçada em seu braço, uma sacola plástica bem grande com uma caixa embrulhada.
Na mesinha baixa da grande sala de estar, Danielle colocava as compras, quando ele se aproximou, tirou o embrulho da sacola e ofereceu-lhe.
- É para você! Um novo amigo para morar aqui!
- Amigo?!
Curiosa, começou a abria a caixa e exclamou:
- Um ursinho! Ai, que lindo!
- Gostou?!
- Adorei, Will! Obrigada! - agradeceu ficando na ponta dos pés descalços para lhe dar um beijo no rosto.
Em seguida, abraçou o ursinho contra o peito e admirou:
- Que fofo! Amei!
Vou lhe dar um nome!
Segurando-o e expressando um largo sorriso, enquanto o olhava, falou:
- Raul! Vou chamá-lo de Raul.
- Aaaah, não! - exclamaram Olívia e William ao mesmo tempo.
Depois se entreolharam surpresos.
- Não?! Por quê?!
- Desculpe-me.
Não queria me meter - disse Olívia com fala delicada e mansa.
O nome não é legal.
- É o nome do meu marido - retrucou a outra com jeito simples.
- Do seu ex-marido - tornou a amiga com modos gentis e educados.
Por isso mesmo.
É um nome especial para aquela pessoa que amou.
- O que me diz, Will?
- Concordo com a Olívia.
Para não vê-la triste, sugeriu:
- Não tenha pressa.
Durma com ele esta noite e amanhã cedo pensará em um lindo nome.
- Não tenho onde dormir! - riu gostoso.
Não vieram montar a cama!
- Pobre menina rica! - exclamou Olívia que encontrava em tudo motivo para rir e brincar.
- Entregaram o colchão? - quis saber o outro.
- Sim. Entregaram.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:51 pm

- Então está resolvido:
durma no colchão, no chão!
Em seguida, comentou:
- Eu trouxe vinho.
- Óptimo! - tornou Olívia, levantando-se e procurando taças para servir a bebida.
- Eu estava comentando com a Olívia que nunca fui a um museu em Paris. Acredita?!
- Vai adorar.
Lembre-se de comprar o passe para ir ao museu.
Assim não vai pegar fila - avisou o amigo.
- Onde?! - interessou-se Danielle.
- Na Rue dês Pymmides, 25, no Escritório de Turismo de Paris ou, então, pela internet.
É fácil. Em alguns museus, a entrada é gratuita para menores de dezoito anos.
Em outros, oferecem desconto para os que têm entre dezoito e vinte e cinco anos.
- Obrigada! - riu.
Não me encaixo em nenhuma das ofertas.
E você, Olívia?
- Eu o quê?!
Do que estão falando mesmo?
Da bolsa de valores? - perguntou, caindo na gargalhada.
- Por que as mulheres têm problemas com a idade? - perguntou o rapaz em tom irónico.
- Não temos problemas com a idade, por isso não conversamos sobre ela. - retrucou Olívia.
- Eu tenho trinta e cinco.
Quantos anos você tem? - tornou ele, insistindo no assunto, para vê-la irritada.
Sabia que a amiga não gostava daquele tipo de conversa.
- Não seja indiscreto e deselegante, sir William Phillies!
Não vou lhe dizer!
Sirva o vinho! - exigiu Olívia fazendo de contas que estava zangada.
- Vou perguntar para sua mãe! - revidou com jeito travesso.
- Eu vou fazer vinte e nove - revelou Danielle.
- Que horror!!! Uma mulher anunciando a idade!!! - exagerou a amiga.
Se é capaz de dizer sua idade, é capaz de fazer qualquer coisa na vida!
- Você deve ter a idade do meu irmão, o Kléber.
Ou é um ano mais velha que ele?
- Por favor, Danielle!
Dá para mudar de assunto?! - Realmente aquela conversa incomodava Olívia, que agora estava séria.
- Experimente esse queijo Pont 1'évêque.
O sabor é simplesmente divino! - ofereceu William.
- Uaaauh! Que delícia! - tornou Olívia, provavelmente, para mudar de assunto.
Adoro queijos! Onde comprou?
- Esse, não comprei agora, trouxe do meu apartamento.
Acho que o comprei perto do Restaurant Bonfinger, na rue de la Bastille.
Sabe... Você dá a volta e dá de cara com o mercado no boulevard Richard Lenoir.
Acho que foi lá.
- Sei onde fica.
- O que vocês vão fazer amanhã? - quis saber Danielle.
- Vamos até a Place du Ter te?
Você vai adorar os restaurantes de lá! - propôs William, animado.
O La Mere Catherine é um restaurante incrivelmente original.
Lá cunharam a palavra bistrô, sabe por quê?
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:52 pm

- Não - afirmou Danielle.
Conheço bistrô como significado de restaurante aconchegante.
- Mas o significado original não é esse.
Logo após as Guerras Napoleónicas, os soldados russos iam até esse restaurante e, após pedir a comida, gritavam:
Bistrotl Bistrotl - arremedou.
E, bistrot, em russo, significa Depressa! Depressa!
Então começaram a chamar esse tipo de restaurante de Bistrô.
Danielle riu da forma como o amigo falava e comentou, com jeito engraçado, sobre o mal entendido:
- Quando perguntei o que iam fazer amanhã, quis saber se poderiam me ajudar com a mudança!
Olívia gargalhou e comentou:
- Hoje ela não está sabendo perguntar nada!
Você não imagina o que a Dani fez o pobrezinho do senhoril da zeladoria entender quando perguntou se os homens dela chegaram com a mudança aqui no prédio.
- Pare, Olívia! Não vai contar!
- "Os seus homens vão mudar para cá?!" - disse a outra engrossando a voz para imitar o senhor.
"Sim! Devem ser vários!
Eu nem sei quantos virão!" - tornou arremedando a amiga.
"Mas quantos homens vão mudar?!" - novamente imitou o senhor.
"Eu não sei...
Mas qualquer homem, com caixas, que o senhor vir por aqui, mande para o 6º andar!" - gargalhou com gosto, jogando-se sobre as almofadas.
Na hora foi muito engraçado!
Você precisava ver a cara do senhorzinho!
- Foi por isso que o senhor, lá em baixo, ficou me olhando de modo estranho, com olhos arregalados quando eu o cumprimentei.
O pior foi que, por vê-lo surpreso, eu avisei:
vou para o 6º andar.
Minha amiga está morando aqui.
Agora entendi o que o homem está pensando.
- Foi o senhorzinho que entendeu errado! - exclamou Danielle pretendendo se defender.
Eu não perguntei se os meus homens tinham chegado com a mudança.
Perguntei se os homens tinham chegado com a minha mudança!
Não adiantava tentar se explicar.
Os amigos riam, sem lhe dar atenção.
Queriam rir e se divertir com a história.
Foram interrompidos pelo celular de William que tocou.
Ele se levantou e foi atender em uma sala ao lado.
Enquanto isso, mais séria, a amiga comentou:
- Nossa, Olívia!
Fazia tempo que não ria assim!
- Você sabe que outro dia, em Milão, estávamos em um restaurante e eu me enrolei com o italiano...
Menina, se não fosse o Guilherme...
- O que aconteceu?
- Nem ouso contar! - riu.
- E você e o Guilherme? - interessou-se Danielle.
- Ah... O que tem? - perguntou com jeito dengoso.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:52 pm

- Como estão?
Vocês não assumem um romance, não falam nada e não se largam!
- A gente se curte bastante.
Eu estou sempre viajando.
Você sabe. Nos vemos quando dá. - sorriu, fazendo charme.
- Bem... Mudando de assunto, quando você vai às compras no Carrousel?
- Carrousel?!... - tornou Danielle.
- É. O shopping subterrâneo que fica na entrada do Louvre.
Vai encontrar coisinhas muito legais para rechear este apartamento!
Quando for lá, quero ir junto.
- Podemos combinar, mas só depois que eu colocar tudo em ordem.
Vendo-a se servir com mais vinho, Olívia comentou:
- Vai devagar. Come alguma coisa.
Sabe... Uma vez fui ao Lê Fumoir, que fica entre o Louvre e a Igreja Saint Germain, o lugar é uma delícia para drinque ou jantar.
Fiquei no bar e pedi um sing song, bebida à base de vodca.
Adorei! Não sei o quanto bebi.
Quando levantei...
Ainda bem que eu estava com umas amigas no happy hour.
Elas precisaram me levar para casa.
Fiquei terrivelmente embriagada.
Que vexame! - riu. - Nunca mais!
- Foi tão ruim assim?
- Horrível! Nunca tinha ficado daquele jeito. Aprendi.
Não importa onde eu esteja nem com quem.
Fico esperta quando tem bebida alcoólica no meio do assunto.
- Nunca me embriaguei.
Não costumo beber. É raro.
Quando bebo, no máximo, tomo uma taça de vinho e já me sinto muito zonza.
Falo demais - riu.
Mudando de assunto, a outra comentou:
- Minha mãe está muito triste por você não querer ficar lá em casa.
Desde quando foi morar lá, ela ganhou vida.
- Eu precisava assumir minha vida.
Recomeçar... Todos vocês têm me ajudado muito.
Não sei como agradecer.
- Sei disso e lhe dou o maior apoio.
Gostamos muito de você!
Parece que a conheço há anos!
É como se fosse minha irmã. Sabe...
Nunca me dei muito bem com a Desirée.
Aliás, parece que ninguém se dava muito bem com ela.
Éramos muito diferentes.
- Eu a conheci pouco.
- Minha mãe se sente muito culpada pelo que aconteceu.
Ela e o Will se culpam muito.
Eles ficaram muito mal pelo remorso que sentiram.
- Ficaram mal?!
- Você nem sabe. O Will está se recuperando agora.
Mesmo assim...
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:52 pm

Desde que tudo aconteceu, nunca o vi desse jeito, como está hoje:
alegre, brincando e conversando.
Ele ficou muito pra baixo.
Após levá-la ao Brasil, quando voltou, quis deixar a empresa.
Trancou-se, no outro apartamento em que morava, por mais de dois meses.
Pensei que ele nunca fosse se recuperar.
Ia visitá-lo e o Will quase não conversava, não fazia a barba, não se arrumava.
O pouco que conversamos ele falou que ligou para você, poucas vezes, para saber como estava após a morte do seu pai.
Depois disse que não ligou mais, pois não retornava às ligações dele.
De tanto eu e meu pai insistirmos, o Will voltou à empresa.
Só depois que o meu tio morreu e meu pai o nomeou vice-presidente, ele se animou um pouco.
Mesmo assim... Agora é que o vejo mais normal.
Minha mãe ainda tem as crises depressivas, mas está melhorando.
Principalmente depois que você veio para cá.
- Por que se sentiram culpados? - insistiu Danielle.
- Dias antes de 11 de setembro, o Will, não suportando mais o génio da minha irmã, disse que iria se separar.
Ela era muito ciumenta e não se ocupava com nada.
Desirée era terrível com ele.
Extremamente exigente.
Ele ia se divorciar mesmo.
- Sério?!
Ele comentou comigo, mas não acreditei.
- Foi isso o que nos afirmou.
Então, lá em Nova Iorque, minha mãe aconselhou a Desirée a se ocupar, trabalhar, investir em si mesma para reconquistar o marido.
Daí, ela falou com o tio Matt e naquela manhã foi para o escritório dele em uma das Torres Gémeas, a fim de arrumar uma ocupação.
E tudo aconteceu.
- Eu estava muito atordoada na época.
Lembro que vi uma cena horrível de ciúme da Desirée comigo.
Nossa!... Fiquei tão mal por isso!
Eu já estava péssima.
Soube, então, por sua tia, que ela reagia daquele jeito porque ele disse que iria se separar.
Mas eu não sabia que ela tinha ido ao World Trade Center porque sua mãe aconselhou e o Will reclamou.
- Os dois ficaram péssimos por isso.
Após segundos, comentou:
- Referindo-se a você, minha mãe sempre diz que Deus lhe tirou uma filha, mas devolveu outra.
Acho isso tão bonito!
- Filha, mesmo, será a Nanei - expressou-se, sorrindo.
- Daqui a quinze dias o casamento será oficializado!
- Quando sua mãe vem pra cá?
- Acho que na próxima semana - alegrou-se.
- Desculpe-me pela demora, meninas! - exclamou William, aproximando-se.
De quem estavam falando mal?
Sim, pois quando duas mulheres conversam muito, falam mal de alguém - brincou.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:53 pm

- Falávamos da sua secretária! - riu Olívia, disfarçando.
- O que tem a Charlaine? - tornou ele.
- Nossa, Will!
Você deveria proibi-la de usar tanto perfume!
É doce demais e tão forte!
- É mesmo! Nossa! - disse Danielle, concordando.
Põe forte e doce nisso!
- Também acho - opinou ele.
Sabe, quando ela usa o meu telefone, é horrível.
Fica impregnado.
Semana passada eu dei uma reclamadinha.
Pelo menos, até agora, ela não usou mais o aparelho.
Porém ainda toma banho de perfume.
- Repararam que até o elevador fica com o cheiro do perfume quando ela sai? - perguntou Danielle.
- Outro dia, peguei o elevador e estava com o cheiro da Charlaine.
Quando desci, não deu outra!
Lá estava ela no mesmo andar! - tornou Olívia.
- Já percebi isso.
Não gosto de aroma tão forte assim.
- Você gosta mesmo é do meu perfume, sir William Phillies! - riu a amiga, brincando.
- Não, Olívia.
O seu não faz o meu género.
Prefiro o da Dani.
É bem suave, agradável.
Olívia disfarçou para que o amigo não a visse segurar o riso, enquanto Danielle sentiu-se corar.
Ao perceber o que tinha dito, William atacou:
- É bem provável que o Guilherme goste do seu perfume, Olívia!
Mas... Mudando de assunto...
Demorei ao telefone?
- Demorou mesmo - reclamou Olívia.
- Você nem imagina quem era! - brincou com ar de suspense.
- O Guilherme?! - interessou-se ela ansiosa.
- Guilherme!!! - William e Danielle gritaram juntos, gargalhando.
- Olha só!
A Olívia está se entregando! - ainda rindo, zombou a amiga.
- Parem com isso!
Diga logo quem era - falou séria.
- O seu pai - tornou ele.
- Ah... Não!...
- Por quê?! - quis saber Danielle que não entendeu.
- Quando o meu pai liga é:
serviço, serviço e mais serviço!
- Na mosca! Você acertou.
Logo após o casamento do Edwin, vou para Nova Iorque!
- Sério?! - perguntou Danielle mais séria.
- Seríssimo.
Danielle não pareceu satisfeita.
Incomodou-se com a notícia, porém não disse nada.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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