Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:53 pm

A amiga se levantou, colocou a taça sobre a mesinha e falou:
- Gente... A conversa foi boa!...
O vinho delicioso!...
O queijo maravilhoso!...
Só que tenho de ir.
- Nem comemos o resto das coisas que eu trouxe.
- Obrigado, Will! Estou satisfeita!
Preciso levantar cedo - tornou Olívia.
- Acho que ela vai para Milão.
E acho que sei com quem!
- Sua boba!
Quando vou para Milão, gosto de ficar por lá, pelo menos, dois dias.
Vou para Saint-Louis-1'es-Bitche. Ele está lá!
- Uhhhh! - brincou a outra.
- Vamos.
Posso lhe dar uma carona - propôs William.
- Não. O meu carro está lá embaixo.
Fique tranquilo.
Obrigada.
- Gente, eu preciso comprar um carro - lembrou Danielle.
- Primeiro precisa arrumar a carteira de habilitação para dirigir aqui - disse o amigo.
Enquanto isso, aconselho que compre uma bicicleta - riu.
Olívia os beijou, despediu-se e se foi.
- Bem... ela não quis os pães maravilhosos que eu trouxe.
Olha só - ele disse, de joelhos, junto à mesinha, abrindo os pacotes.
- Que pão é esse?! - estranhou a outra.
- Baguetes com azeitonas.
É uma delícia!
Olhando para a cara engraçada que Danielle fez, ele afirmou:
- Eu gosto.
E esse aqui... é um pão de centeio com canela, uvas passas...
Aqui tem brioches perfumados com água de flor de laranjeira.
E ainda tem croissant.
- Você gosta mesmo de pão, hein!
- Trouxe Calissons d'Aix!
Esses docinhos são recheados com pasta de amêndoas.
Parecem marzipã.
Olhando a taça dela e perguntou:
- Quer mais vinho?
- Aceito!
Enquanto o via colocar o vinho, comentou:
- Eu não deveria beber tanto.
Acabei de dizer para a Olívia que não estou acostumada.
- Fiume seccu 2005 Tinto do Domaine d'Alzipratu... - dizia, rodeando a garrafa na mão.
- Ai! Pare de complicar! - reclamou, rindo.
É só dizer que o vinho é bom.
- Ele cai bem com queijos e carne de vitela.
Trouxe outra garrafa.
Está ali. - apontou sorrindo.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:53 pm

Alguns minutos de silêncio e Danielle o chamou:
- Will.
- Fala - disse diante da pausa.
- Está sendo difícil para você? - quis saber com jeitinho.
Ele estava de joelhos.
Após servi-la com um pedaço de pão, sentou-se no chão a sua frente, suspirou fundo e afirmou bem sério:
- Está. Depois de tudo...
Você não imagina como foi voltar para casa...
Voltar para Nova Iorque...
- Voltou para Nova Iorque logo em seguida?
- Não. Foi antes do noivado da sua irmã.
Fui a serviço como sempre.
- Ficou no apartamento da dona Maria Elvira?
- Não. Isso seria muito para mim.
Breve pausa e contou:
- Estávamos prestes a nos divorciar, você sabe.
Como fui eu quem pediu a separação, acusando-a de inútil, me senti péssimo.
Por minha causa ela saiu, naquela manhã, à procura de algo para se ocupar.
- Sabe... São nesses últimos dias que estou me sentindo um pouco melhor.
- Eu também.
Tem dia que ainda fico muito para baixo e...
- Posso ser indiscreta?
- Pergunte.
Porém isso me dá o direito de fazer o mesmo - sorriu para quebrar a seriedade.
- Você teve outra ou se interessou por alguém?
- Não.
Olhou-a nos olhos e afirmou com convicção:
- Até hoje, não.
- Eu nunca pensei em outro.
Parece que minha vida nunca mais será a mesma.
Amo tanto o Raul.
Sinto tanta falta dele...
Da nossa filhinha que... - sua voz embargou.
Desculpe-me, Will.
Não quero chateá-lo com esse assunto tão desgastante.
- Pode falar.
Às vezes, eu também necessito desabafar um pouco.
Quero falar e falar a respeito...
Porém me reprimo.
Sei o que é essa necessidade de desabafar.
Vendo-a em silêncio, com olhar baixo, comentou:
- O seu caso é bem diferente.
Você e o Raul se amavam muito.
Ele estava bem doente e você fez tudo o que podia.
Ficou com ele até o final.
- Não há um momento em que não me lembro dele - falou sentida.
- Você nunca pensou em tirar essa aliança?
- Não.
Lágrimas correram em sua face alva.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:53 pm

Ela secou com a mão e tentou disfarçar.
- Foi tudo o que me restou dele.
De todo o resto eu me desfiz, para ver se a dor passava.
Eu queria, pelo menos, ter comigo nossa filha...
William sentou-se perto e a puxou para junto de si.
Acariciando-lhe o braço, revelou amargurado:
- Sinto uma angústia e um remorso imenso por não pensar assim como você.
Sinto falta dela e a queria viva.
Mas não comigo. Ao mesmo tempo...
Reclamei tanto por ela ser exigente e acabei exigindo que se ocupasse e por isso ela morreu.
Eu me odeio pelo que fiz.
É um sentimento de culpa tão grande.
Você não imagina.
Danielle se afastou do abraço e secou o rosto com as mãos.
Suspirou fundo e pediu lhe estendendo a taça:
- Quero mais vinho!
- Dani, cuidado!
Você não está acostumada a beber - falou e sorriu.
- É só hoje.
Vamos brindar ao meu novo lar. Vai!
Diante da insistência, William a serviu.
Fizeram um brinde ao novo apartamento.
Depois conversaram muito e comeram pão, queijo e outras coisas que ele trouxe.
Até beberam a segunda garrafa de vinho.

1 Guarda-corpo: protecção à meia-altura, em grade, balaustrada, etc., que resguarda a parte inferior do balcão, varanda, sacada ou vão, ou que acompanha os degraus da escada, encimado por corrimão.)
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:54 pm

11 - Um novo lar

Assim que desencarnou, Desirée, diferente de Raul, entrou em um estado de perturbação muito grande.
Ao despertar, na espiritualidade, não entendia o que lhe tinha acontecido.
Às vezes, sentia-se extremamente cansada, esvaída de forças e caia em uma espécie de sono.
Em outros momentos, ficava mais alerta, mas não tinha ideia do que fazer.
Lembrou-se de sua mãe e se atraiu para junto dela.
Só então descobriu que havia desencarnado.
Desirée chorou, gritou, berrou, porém nada revertia sua condição.
Ela não elevava os pensamentos a Deus, conforme sempre lhe ensinou a mãe.
Apenas sabia exigir seu direito de viver bem, de estar encarnada, o que não podia.
À medida que conseguiu entender o seu estado, começou a culpar sua mãe e William por ter desencarnado.
Acreditava que, se não fosse por insistência dos dois, não teria morrido.
Revoltou-se incrivelmente.
Acusando-os, brigando e xingando como se eles pudessem ouvi-la.
Permaneceu bastante tempo perto de Maria Cândida, que se deprimiu demais, chegando a ficar de cama.
Depois junto de William, que também se entristecia e se culpava por tudo, imaginando o sofrimento dela.
Desirée não era diferente da época em que se achava encarnada.
Aliás, parecia bem pior.
Ao compreender que seu ex-marido era muito sensível e se comovia quando ela estava próxima, passou a acompanhá-lo mais, deixando sua mãe que, após isso, recuperou-se rápido do estado deprimido.
Desde a festa de noivado de Edwin, o espírito Desirée estava demasiadamente revoltado e odioso.
Não se conformava em ver a amizade entre William e Danielle.
Tudo se agravou assim que seu pai, por indicação de seu ex-marido, concordou em contratar a moça para trabalhar na empresa e morar em Paris.
Detestou quando seus irmãos, Edwin e Olívia, deram-se bem com Danielle, passando a tratá-la igual a alguém da família, uma irmã.
Nos últimos dois meses e meio, todos pareciam esquecer de Desirée e dar mais atenção à nova hóspede, que irradiava generosidade e, muitas vezes, fazia rir os que a observavam por suas pequenas e curiosas gafes culturais ou subtil dificuldade com o idioma.
Nesse tempo, começou a se aproximar da moça.
Não a suportando ver próxima de William, procurava um meio de prejudicá-la.
Quanto a Raul, este havia sido envolvido por amorosos irmãos espirituais, que o acompanhavam, no dia de seu desencarne.
No momento em que Danielle foi retirada do quarto, seu desligamento do corpo físico se iniciou.
Quando anunciado seu óbito, o espírito Raul já estava a caminho de uma colónia espiritual.
Passou cerca de dois meses se recompondo.
Depois, desperto, viu-se livre das angústias dolorosas vividas nos últimos meses com a doença que experimentou. Sentia saudade da ex-esposa.
Muitas vezes recebia seus pensamentos e ficava triste por saber que ela sofria com sua ausência.
Mas era orientado para orar, recompor-se e não perder o controle, ou isso lhe seria muito prejudicial, podendo atraí-lo para a crosta terrestre.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:54 pm

Nos últimos meses, após Danielle recomeçar a vida e a se ocupar com funções mais úteis, Raul passou a experimentar imenso alívio e agradável sensação por receber energias saudáveis de seus pensamentos e orações.
* * *
As cortinas não tinham sido colocadas no novo apartamento, por isso o sol invadia-o através da grande vidraça da sala.
Devido à forte claridade em seu rosto, Danielle despertou.
Remexeu-se um pouco e sentiu a cabeça pesada, doendo muito.
Experimentando algo quente em suas costas, virou-se e viu as costas de William, que dormia profundamente ao seu lado.
- Ai... Meu Deus!
Minha cabeça!... - resmungou baixinho, sentando-se no chão, pois era ali que haviam dormido.
William acordou, virou-se, olhou para ela e sorriu ao cumprimentá-la:
- Bom dia.
- Bom dia... O que aconteceu para eu ficar assim? O que eu fiz?...
O que nós fizemos?... - murmurou, segurando a cabeça com as duas mãos.
- Nós?! Nós não fizemos nada.
Você bebeu a segunda garrafa de vinho, praticamente, sozinha.
Além do que havia bebido antes.
Que deve ter sido meia garrafa.
Para quem não está acostumada... - riu.
Conversamos muito, falamos sobre muitas coisas.
Com jeito maroto, sorriu e comentou:
- Acho que eu sei de toda a sua vida.
- Will... Não brinca...
- Não estou brincando.
Eu disse para você não beber.
Tirei a garrafa da sua mão, mas brigou comigo. Lembra?
- Não. Não me lembro de nada.
Não devia ter me deixado fazer isso.
Não confio mais em você - falava baixo, como se a própria voz a incomodasse muito.
Ela engatinhou até a parede onde se apoiou para se levantar.
Em pé, cambaleou para ir até a cozinha.
William se ergueu rápido para auxiliá-la.
Sentiu um grande arrependimento por vê-la daquele jeito e aconselhou:
- Tome um banho que isso passa.
Tem algum analgésico?
- Na minha bolsa...
Ele a deixou quieta e de cabeça baixa, segurando-se em um balcão que dividia os ambientes.
Foi até a cozinha, pegou a bolsa e a entregou à amiga.
Ela remexeu e não conseguiu achar.
- Posso? - pediu. Danielle concordou.
William encontrou o remédio, pegou um copo com água e lhe ofereceu, dizendo:
- Toma. Daqui a pouco vai se sentir melhor.
Vendo-a sentada em uma banqueta, após engolir o comprimido, decidiu:
- Vou preparar seu banho. Não saia daí.
Ao retornar, ela estava novamente deitada no chão sobre o tapete da sala.
William afagou-lhe as costas, afastou os cabelos de seu rosto e a chamou:
- Dani, seu banho está pronto.
- Que banho? - sussurrou sem tentar abrir os olhos.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:54 pm

- A banheira já está cheia.
- Eu quero a minha mãe...
Que horrível... Nunca, nunca senti isso...
Ele a ajudou a se sentar e depois se levantar.
Levou-a até o grande banheiro da suíte e pediu:
- Tome um banho. Vai se sentir melhor.
Deixei a água um pouquinho fria. Isso vai lhe ajudar.
A moça se sentou na borda da banheira e segurou a cabeça com as mãos.
- Dani! É sério! Vai logo!
Quanto mais demorar, pior.
Vou fazer um café. Fazer, não.
Não tem nada aqui.
Vou até lá em baixo comprar um café para nós, tá?!
- Will... Estou tão mal... - murmurou.
- Quer que eu a ajude?
- Não! - respondeu rápido e de um jeito engraçado.
- Então está esperta, hein!
Vejo que não está tão mal assim! - riu.
Vou sair e volto logo. Cuidado para não cair.
Mesmo preocupado, ele foi comprar o desjejum, enquanto Danielle mergulhou na banheira.
Mais de uma hora depois, o rapaz estava inquieto com a demora e decidiu chamá-la à porta do banheiro.
- Dani? Tudo bem aí?
- Preciso da sua ajuda.
- Posso entrar?
- Não!
- Como quer que eu a ajude?
- Procurando toalhas de banho ou um roupão.
Deve encontrar em uma das caixas.
- Está brincando?! Em qual caixa?!
- Ah, Will. Você entendeu o problema.
Por isso preciso de ajuda.
Após longo tempo, ele abriu a porta do banheiro e colocou o que encontrou sobre a bancada da pia e se retirou.
Não demorou muito e Danielle saiu vestida com o roupão.
Trazia os cabelos enrolados e presos com uma toalha no alto da cabeça.
- Nunca mais quero beber na minha vida!
- Melhorou?
- Estou melhorando.
- Desculpe-me por tê-la deixado beber tanto - disse sinceramente arrependido.
- Você não deve se desculpar.
Já sou bem grandinha.
Eu deveria saber me controlar.
- Eu trouxe café e crepe.
- Só café. Obrigada - agradeceu, sentando-se ao seu lado na banqueta frente ao balcão.
Eu tinha tantos planos para hoje.
- Vamos dar uma volta depois?
- Tenho muitas coisas para pôr no lugar.
Minha cabeça ainda dói.
- Indisposta não conseguirá fazer nada.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:54 pm

O ar fresco, uma caminhada vai lhe fazer bem.
Vamos. Deixo o meu carro aí embaixo e vamos andar.
Danielle o fitou desanimada, mesmo assim, acenou positivamente com a cabeça, aceitando o convite.
* * *
Uma hora depois, enquanto eles andavam vagarosamente às margens do rio Sena, ela comentou:
- Sempre adorei caminhar por aqui.
Quando vínhamos a Paris, nunca ia a museus por gostar de caminhar às margens do rio. É tão gostoso.
- A cidade de Paris foi fundada a partir daquela ilha no rio Sena. - apontou. - Sabia?
- Não.
- Arqueólogos descobriram que membros de uma tribo Gauleusa, os celtas, foram os primeiros a ocuparem a île de la Cité - Ilha de Cité - no meio do rio Sena.
Eles eram chamados de parisii - os parísios - que mais tarde dariam nome a cidade.
Os celtas eram construtores de barcos e óptimos navegadores.
Durante o Império Romano, Paris foi dominada e seus conquistadores a rebaptizaram de Lutécia, cujo significado é: nascida das águas.
Isso foi por volta de cinquenta e dois anos antes de Cristo.
- Nossa! - admirou-se ela.
- Depois a cidade se desenvolveu fora da ilha de Cité, às margens do Sena.
Com as invasões bárbaras do século III, da Era Cristã, a população recolheu-se novamente para a ilha.
- E depois? - quis saber diante da pausa.
Vendo seu interesse, William sorriu e continuou:
- No início do século IV o nome Paris, oriundo de parisii, foi adoptado.
Duzentos anos depois, os francos sálios apropriaram-se da cidade e Clóvis a fez capital do reino.
Por volta de 1180, no reinado de Filipe Augusto, Paris chegou ao auge de seu crescimento e teve grandes melhorias.
No século XIV, a Guerra dos Cem Anos, a peste negra e os excessos de protestos do povo acabaram com a população e com o desenvolvimento da cidade.
Paris ficou acabada.
Por volta de 1530, durante o Renascimento, Francisco I adoptou Paris como capital do reino.
O que fez com que a cidade crescesse novamente.
Mas as crises económicas e as guerras, por causa da religião, deixaram Paris abalada e insegura.
Por isso Luís XIV mudou a corte para Versalhes.
Na Revolução Francesa, a cidade tornou a ficar forte e no século XIX, com a Era Industrial e a iluminação eléctrica nocturna, não teve para mais ninguém.
Porém, no século XX, Paris suportou as duas Guerras Mundiais e a ocupação alemã sem grandes danos.
Agora Paris é, simplesmente, Paris!
- Uaaauh! Tenho um guia turístico!
Que memória, hein!
Você é muito bom com datas!
- Tenho de ser.
Trabalho com números. Esqueceu?
Ela sorriu, depois perguntou:
- Esses celtas, eram quem?
- Era um povo, uma civilização calcasiana que se espalhou pela Europa, principalmente na Grã-Bretanha, França, Espanha, Irlanda e parte da Itália, Áustria, Alemanha, Grécia até o Egipto, e alguns outros lugares.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:55 pm

Eles possuíam sua própria língua e dialecto, cultura, seita, costumes, confecções de armas e fabricavam um tipo de espada muito afiada, pois também confeccionavam armas de ferro.
Tinham amuletos, adornos, arte decorativa, cerâmica e usavam geometria.
Na religião, tinham dogmas, ritos, celebravam as forças da natureza, faziam magia e adivinhações.
Há registos deles com mais de 2.000 anos antes de Cristo.
Esse povo desapareceu ou se misturou.
Só se encontram registros escritos sobre a cultura celta com os gregos e os latinos, pois os antigos celtas não conheciam nem desenvolveram a escrita.
Foi na Irlanda, muito tempo depois, que alguns utilizaram o alfabeto latino e apareceu a primeira língua céltica com expressão escrita, o gaélico.
- Puxa! O que você é?
Um historiador?! Um arqueólogo?!
- Não. Adoro museus! - riu.
Em seguida, explicou:
- Sabe, acho linda a história desta cidade.
Quando algo ruim acontece em minha vida, eu me lembro da história de Paris.
Esta cidade se ergueu e foi destruída várias vezes.
Teve conquistadores, governantes, pestes, guerras...
No entanto, sobreviveu a tudo e é maravilhosamente a Paris que vemos hoje.
Quando algo me acontece e fico destruído de alguma forma, penso que é para eu me reerguer melhor, para eu me iluminar como a Cidade Luz.
- Você disse uma coisa tão bonita! Tão profunda!
Algo ruim é para se reerguer e se iluminar.
Nunca tinha pensado assim.
- E a dor de cabeça, passou?
- Passou. Estou envergonhada.
Nunca bebi desse jeito.
A Olívia me contou, ontem mesmo, que havia bebido tanto, em certa ocasião, que ficou esperta com a bebida.
Não abusa mais. Parecia que aquilo era um conselho, um recado e eu não o ouvi.
Breve pausa.
Pararam um pouco e Danielle tirou os óculos escuros, olhou as águas do rio que tremeluziam pela luz radiante do sol.
Olhando para o amigo, perguntou devagar, com jeitinho tímido, por causa de uma subtil lembrança:
- Eu fiz ou disse algo de que possa me arrepender?
William sorriu com generosidade e respondeu:
- Só falamos demais sobre muitas coisas.
Desabafamos muito.
- E... Como foi que decidiu...
Como resolveu dormir lá?
- tornou constrangida.
- Você me pediu para ficar. Não se lembra?
- Não. Eu pedi mesmo?
- A verdade é que não me pediu, implorou para que eu ficasse - tornou bem sério.
- Ai, meu Deus!... Que vexame!
- Foi engraçado. Mas...
Não se lembra mesmo?
- Não.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:55 pm

- Tem certeza? Não se lembra de nada? - ele insistiu, olhando-a firme.
- Não. Eu deveria?
O amigo nada disse, e ela argumentou:
- Você está pensando horrores de mim.
Nunca senti tanta vergonha.
- Não estou pensando nada. Pare com isso.
Sorriu, puxando-a pela mão para que continuassem caminhando.
- Fiquei preocupado e arrependido por tê-la deixado beber mais, quando percebi que já tinha bebido o suficiente.
E que estávamos conversando...
Relembramos tanta coisa do passado...
Você até me convenceu a visitar a minha mãe antes de eu ir a Nova Iorque de novo.
- Sua mãe?! Nós falamos da sua mãe?!
- Lógico! - sorriu engraçado.
- Eu nem sabia que você tinha mãe! Ai, que vergonha!
- exclamou, inconformada consigo mesma.
- Tenho mãe, como já lhe disse.
Ela mora em Londres junto com minha irmã.
- Você tem irmã também?! - assustou-se por não se lembrar de absolutamente nada.
William gargalhou gostoso e respondeu em meio ao riso:
- Tenho. Tenho uma irmã e um irmão.
Ele e a esposa, com dois filhos, são donos de um hotel.
Longe da minha mãe, vivem muito bem.
- Por que diz isso?
Ela é tão terrível assim?
- É. Posso lhe garantir - falou mais sério.
Minha irmã não desgruda da minha mãe.
A Vitória, minha irmã, era casada e se divorciou porque nossa mãe se intrometeu, imensamente, em sua vida.
Eu e o Phillip, meu irmão, a alertamos, mas não adiantou.
O casamento do meu irmão só deu certo depois que eles se mudaram trinta quilómetros para longe de minha mãe.
- Nossa! Em sua vida ela não se mete?
- Tentou. Vivi um período terrível.
Quando não era minha mãe, era a Desirée. Fiquei quase louco.
Desabafei tanto sobre os meus problemas com a Olívia.
Minha salvação era a dona Maria Cândida.
Ela me aconselhava, tratava-me como filho, orientava a Desirée...
Havia temporadas que o serviço exigia que eu viajasse muito.
Esse era o período que tinha sossego.
Eu contei tudo isso, ontem, para você - riu.
- Lembro que me falou sobre um apartamento em Londres.
Ah! Disso me recordo! - alegrou-se.
Só não sei o que fez com ele. Se é que me contou.
- Contei - riu.
Tínhamos um apartamento em Londres e outro aqui em Paris.
Quando a Desirée morreu, eu me desfiz dos dois e comprei outro aqui.
Não quis mais outro em Londres.
Não queria ficar onde moramos juntos.
O meu apartamento é aqui perto. Vamos lá?
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 19, 2017 12:55 pm

- Vamos. Estou morta de sede.
Ao chegarem, Danielle admirou o requinte, o espaço e a organização, além da admirável vista para o rio.
- Tome - disse ele, oferecendo-lhe um copo com água.
Ela aceitou e agradeceu. Em seguida, perguntou:
- Nós dois falamos muito sobre o que aconteceu em 2001, não foi?
Disso eu me lembro... Um pouco.
- Foi extremamente marcante para nós dois, creio.
- Você passou por muita tensão, mesmo assim salvou minha vida.
- E você a minha.
Eu estaria nas Torres Gémeas se não tivesse de levá-la ao médico.
Ao retomar essa conversa, William não se sentiu bem e, na primeira oportunidade, pediu:
- Você me daria licença, por um instante?
Quero tomar um banho.
Depois podemos sair e almoçar naquele restaurante de que lhe falei.
- Onde fica?
- Na Place du Tertre.
Onde tem os artistas de rua, exposições de quadros e é repleta de turistas.
- Ah! Sei! Puxa vida!
Estou aqui há quase três meses e ainda me perco.
- É assim mesmo. Deixe-me tomar um banho.
Após alguns minutos, o celular de William começou a tocar.
Sem saber o que fazer, Danielle gritou para ele, próxima à porta do banheiro da suíte.
- Will, o seu celular está tocando!
- Atende, por favor!
Ao atender, ouviu:
- Dani?! Desculpe.
Acho que liguei errado.
- Olívia?! - chamou antes que a outra desligasse.
- Sou eu. Estava ligando para o William, mas...
- É o celular dele.
É que ele dormiu lá em casa, saímos para caminhar e viemos para o apartamento dele e...
- Desculpe tê-los interrompido.
Riu e desligou.
Danielle ficou concatenando as ideias e tomou um susto quando percebeu o que havia contado.
Imediatamente, retornou a ligação para a outra.
Assim que foi atendida, esclareceu:
- Olívia, não é nada disso que você está pensando!
- Dani, eu não disse nada - gargalhou em seguida.
- Mas está pensando que...
- Não se explique.
Você não é boa quando tenta se justificar.
Chama todos para almoçar quando, na verdade, quer que a ajudemos com a mudança...
Diz que não sabe quantos homens vão morar com você...
- Pare com isso! Que coisa!
- Estou brincando, boba!
Liguei para o Will porque amanhã faremos a primeira reunião para a possível negociação de fusão das companhias aéreas.
Tudo será muito sigiloso.
Ele sabe.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:05 am

Só estou reforçando para que não esqueça que amanhã o meu pai não vai.
Ele é quem irá representá-lo.
Deverá estar lá com pontualidade britânica! - brincou.
- Eu peço para ele ligar para você.
- Não precisa. Estou em Saint-Louis.
Chego amanhã cedo, tá?
Com deliciosa vingança, Danielle revidou:
- Mande um beijo para o meu irmão - riu.
Diga que estou com saudade.
Não vou alongar a conversa para não incomodá-los.
Olívia simplesmente desligou sem se despedir.
William chegou e a amiga deu-lhe o recado.
Logo que lhe contou o ocorrido, o rapaz falou:
- Amanhã ela não vai me dar sossego!
Já estou vendo - riu.
Ao virar-se novamente para Danielle, seu sorriso se fechou.
Ele ficou paralisado, perplexo. Olhava-a firme.
- Will, o que foi? - perguntou em tom brando.
Ele sacudiu a cabeça e esfregou o rosto.
Sentiu um arrepio percorrer-lhe todo o corpo.
Procurou o sofá.
Sentou-se, curvou-se e apoiou a cabeça nas mãos.
Preocupada, ela acomodou-se ao seu lado, colocou-lhe a mão nas costas e perguntou:
- O que está sentindo?
O rapaz ergueu o tronco e a encarou.
Sem demora, contou em tom grave:
- Não sei o que está acontecendo comigo. Estou preocupado.
- O que foi?
- Estou vendo coisas - murmurou ao confessar.
- O que você viu? - tornou ela preocupada.
- Eu... Eu olhei para você e...
Eu vi a Desirée.
- Meu Deus! - exclamou, levantando-se rápido.
- Desculpe-me. Não deveria ter lhe contado.
É que foi tão real. Fiquei impressionado.
Estou arrepiado até agora.
- Eu também - disse, olhando-o com espanto.
- A dona Maria Cândida sempre veio com aquelas conversas sobre espíritos e...
- Você acredita? - ela quis saber.
- Nunca dei importância.
Mas não desacredito.
- A Desirée veio, alguma vez aqui, neste apartamento?
- Não. Nunca. Comprei-o há um ano.
- Olha... Não dê importância a isso.
Conversamos muito, ontem à noite, sobre ela, sobre o que aconteceu e você ficou impressionado.
- Deve ser isso.
Sorriu forçadamente e se levantou, convidando:
- Vamos?!
- Vamos sim - animou-se.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:06 am

Dali, foram almoçar.
Bem no final da tarde, enquanto caminhavam novamente, William comentou:
- A exuberante île St-Louis - Ilha de Saint-Louis - a outra ilha do Sena.
Vamos sentar aqui? - perguntou diante do cais repleto de árvores e da velha ponte Marie.
Danielle não pensou duas vezes para aceitar o convite e se acomodou no chão.
E ele contou:
- A Ile St-Louis atrai muitos turistas por seu encanto, suas mansões históricas.
É conhecida como Ilha Romântica.
Os casais se encontram e se sentam às margens para conversar.
Vendo-a em silêncio, quis saber:
- Está tão quieta. Estou falando muito?
- Não. Adoro ouvir você falar - expressou-se com sorriso e jeito delicado.
Fiquei um pouco quieta porque estou cansada.
Andei muito hoje.
- Desculpe-me.
É que estou acostumado a fazer este percurso a pé.
- Eu estava pensando no que aconteceu lá no seu apartamento.
Sobre a visão que teve.
- Ficou preocupada?
- Gostaria de saber se você me viu e viu junto à imagem dela ou se pensou que eu fosse ela?
- Foi algo estranho. Não dá para explicar.
Parece que o rosto dela estava sobre o seu.
Tenho sonhado muito com ela nos últimos tempos.
Só não me lembro o quê.
- Raramente sonho com o Raul.
Se há um céu, um paraíso, ele deve estar lá.
William, sentado ao seu lado, olhou-a de modo indefinido, como se sua mente estivesse vazia.
E Danielle perguntou:
- O que foi?
- Nada.
- Will, por que também foi contra eu dar o nome de Raul ao ursinho?
- Para você não sofrer mais.
Ao vê-la pensativa, mudou o assunto, animando-se:
- Dani, quer ir comigo até Nova Iorque?!
- Assim?! De repente?!
- É - sorriu empolgado.
- E o meu trabalho?
- Você acha que eu não posso dar um jeito? - riu.
- O que o senhor Óscar não vai pensar?
- Em um curso.
Podemos ver a possibilidade de você fazer um curso de aperfeiçoamento em Web Designer enquanto estiver lá.
- Não acha que...
- Quê?... - tornou ele animado.
- Vão pensar coisas a nosso respeito.
E nós somos só grandes amigos. Não quero prejudicá-lo.
Sei o quanto o senhor Óscar confia em você.
Ele lhe deu o cargo de vice-presidente na empresa dele.
É um cargo de confiança, que não deu ao George.
Você o substitui em tudo, Will.
Vejo-o mandar e desmandar na companhia aérea e o homem não fala nada.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:06 am

- Não estou entendendo...
Aonde quer chegar?
- Você está sendo ingénuo.
Hoje mesmo a Olívia brincou, insinuando que atrapalhava o nosso romance ou coisa assim.
Se viajarmos juntos, vão acreditar que temos algum caso.
- Eu a respeito muito, Danielle.
Deve saber disso - falou sério.
- Eu sei. Somos grandes amigos, mas os outros não vão acreditar que há só amizade entre nós.
- Só amizade... - murmurou.
Danielle não entendeu seu olhar, seu jeito, sua frase incompleta.
- Temos alguns dias pela frente.
Viajo após o casamento do Edwin.
Podemos pensar até lá.
Apenas quero saber: você iria comigo?
- Eu gostaria muito - sorriu de modo gentil.
- Então deixa comigo! - expressou-se alegre.
Danielle começou a comentar algo sobre o serviço, com o qual estava muito empolgada, quando, de repente...
- O meu sapato!!!
O rapaz começou a rir.
- Você não é a primeira nem será a última a voltar descalça para casa.
Algum tempo e pediu:
- Vamos, se não se importa.
- Vou caminhar descalça até em casa?
- Se quiser, podemos passar antes no meu apartamento.
Só não sei se posso lhe ajudar.
- Você tem um par de chinelos? - sorriu de modo travesso.
- Tenho. Ficarão bem grandes.
Vai dar certo. Vamos! - sorriu, puxando-a pela mão.
Após passarem onde ele residia, foram para o apartamento dela.
- Estou exausta! - enfatizou.
- Só que hoje não tem vinho.
- Não brinque.
Não quero ver vinho por muito tempo.
Olhando em volta, reclamou:
- Não fiz nada! Não arrumei o apartamento.
Nem sei que roupa vou vestir amanhã.
- Eu posso lhe dar uma carona para a empresa, se for bem cedo.
Tenho uma reunião importante com os accionistas antes da outra reunião de fusão.
- Não, obrigada.
Pode deixar. Vou de metrô.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Então está certo.
Agora eu preciso ir.
Aproximando-se, beijou-a no rosto e brincou:
- Comporte-se. Não abra a porta para estranhos.
- Pode deixar.
Ele sorriu e se foi.
Após William sair, Danielle sentiu um aperto no peito.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:06 am

Não queria ficar sozinha.
Era tão bom ter companhia.
Não sabia mais o que era ficar tão só.
O silêncio a deixou triste e nervosa.
Principalmente quando o espírito Desirée a envolveu em seu campo vibratório, dizendo-lhe coisas, fazendo-lhe acusações que a deixavam com uma sensação muito ruim.
Danielle sentou-se no chão, agarrou o ursinho que havia ganhado de presente e começou a chorar sem motivo.
A princípio pensou que fosse saudade de Raul, de sua mãe ou de Maria Cândida, entretanto sentiu algo muito mais forte.
A campainha tocou e, sem ver quem era, ela abriu a porta depressa.
- Dani, o que foi?! - perguntou William preocupado.
Danielle se abraçou a ele que entrou e fechou a porta atrás de si.
Afagando-lhe as costas, o amigo tornou a perguntar enquanto ela o apertava com força:
- O que aconteceu?
Por que está assim? - não houve resposta.
O rapaz a fez sentar nas almofadas, acomodando-se junto dela.
Eu esqueci as chaves do meu carro.
Voltei para pegar.
Vendo-a mais calma, tirou-lhe os cabelos do rosto e acariciou-lhe a cabeça com carinho.
- O que foi?
- Eu não sei... - respondeu envergonhada, escondendo o rosto e afastando-se do abraço.
- Antes de sairmos ou durante o passeio, eu falei algo que não deveria?
- Não. Nada disso.
Quando foi embora, eu fiquei com medo.
Senti uma coisa tão ruim. Uma saudade, uma dor...
Ficou calado e sentado algum tempo ao seu lado, e ela não disse mais nada.
Depois se levantou, pegou um copo com água e lhe serviu.
Em seguida, perguntou:
- Quer ficar lá em casa?
- Não - respondeu mais recomposta.
- Olha, eu sei o que é isso. Você sofreu muito.
Não só com a morte dele, mas também de sua filha, de seu pai...
Falamos muito sobre isso ontem à noite, talvez não se lembre...
Acho que também a doença dele a maltratou excessivamente.
Isso acontece com quem acompanha o doente bem de perto, como foi o seu caso.
Por amá-lo, você não o deixou por um minuto.
Depois que tudo passou, ficou deprimida e sempre protegida, sempre com alguém por perto.
De repente, retomou a vida e no começo teve o apoio da dona Maria Cândida, da avó, do senhor Óscar...
Agora, nesse instante, ficou sozinha e se sentiu desprotegida.
Eu também fiquei assim quando me mudei.
- Eu me senti insegura.
- Vamos lá para minha casa.
Depois que colocar seu apartamento em ordem, vai ser diferente.
Tenho certeza.
Ela nada dizia e ele se explicou:
- Eu não fico aqui porque amanhã devo sair cedo.
Tenho de me barbear, arrumar-me, fazer algumas ligações antes...
- Vou ficar bem. Pode ir, Will.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:07 am

- Tem certeza?
- Tenho.
- Qualquer coisa, liga.
- Ligo sim. Fique tranquilo.
- Então eu vou.
Assim que chegar a minha casa, ligo.
- Está certo - respondeu, levantando-se e sorrindo constrangida.
William segurou seu rosto fez-lhe um carinho.
Beijou sua testa. Despediu-se e se foi.
Novamente aquela impressão estranha, inexplicável e forte vontade de chorar.
Após algum tempo, William telefonou e Danielle mentiu, dizendo estar bem e que a sensação ruim havia passado.
Forçando-se a tomar uma atitude, ela entrou em um banho muito longo.
Mesmo depois, não ficou bem.
Ocupou o tempo abrindo caixas e arrumando suas roupas no armário, ainda assim sentia uma angústia infindável.
Mais tarde, telefonou para Maria Cândida.
A conversa lhe fez bem. Melhorou um pouco.
Na espiritualidade, Desirée encontrava-se furiosa.
- Sua vadia!!! Safada!!!
Pensa que vai ficar com o meu marido?!!
Está enganada!!! Ele não vai querer você!!!
Não vai ficar no meu lugar por muito tempo!!!
Sei que roubou a atenção de todos!
Que está sendo boazinha!
Até trabalha na empresa do meu pai!
Até ele caiu na sua conversa! Desgraçada!!!
Bem que não gostei de você quando a vi pela primeira vez!
Só fiquei ao seu lado para saber o que queria com o meu marido!!!
Mas não vai ficar com ele!!!
Prefiro que ele morra a ficar ao seu lado!!!
Danielle voltou a passar mal. Tinha algo errado.
Achou que estava com fome e começou a procurar algo para se alimentar.
Encontrou as baguetes que William trouxe na noite anterior.
Mordeu um pedaço de pão, mas não gostou.
Havia perdido o sabor de antes.
Comeu só aquela mordida.
O telefone tocou e foi atender.
- Will! Que bom que ligou!
- Depois daquela hora que nos falamos, liguei de novo, só que estava ocupado. Você está bem?
- Creio que tem razão.
Não estou mais habituada a ficar sozinha. Deve ser isso.
- Vem pra cá. Dorme aqui.
- Não. Devo me acostumar à nova vida.
Conversaram bastante, mas a moça não cedeu.
Estava muito disposta a recomeçar.
O espírito Desirée, ao entender que William se achava, a cada momento, mais interessado em Danielle, decidiu atacá-lo.
Após desligar, ele se deitou e tentou dormir.
Não conseguia.
Quando pegava no sono, sobressaltava-se com algo e despertava assustado.
A noite inteira teve o sono entrecortado por sonhos estranhos e sustos inexplicáveis.
Acordou sentindo-se mal, porém precisava ficar bem atento em tudo o que ia fazer.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:07 am

12 - [b]Belinda contra o romance da filha

William e Olívia almoçavam juntos e conversavam a respeito da reunião.
- Você acha que o seu desinteresse foi o melhor a fazer?
- ela perguntou.
- Confie em mim. As ações vão baixar.
Estou acompanhando rigorosamente o mercado.
Eles vão nos procurar correndo e aceitarão a minha oferta.
Quando isso acontecer, sou bem capaz de diminuir minha oferta - sorriu.
- Você é corajoso, Will!
Não tenho essa ousadia!
Temos a concorrência no nosso encalço e sabe o quanto o meu pai quer essa fusão.
- Deixe comigo! Não sou de perder negócio algum - disse confiante.
Breves instantes e falou em tom menos empolgante:
- Quero conversar com você, Olívia.
É a respeito de um assunto delicado e não sei por onde começar.
Ela o olhou por algum tempo e, esperta, deduziu, facilitando-lhe o assunto:
- É sobre a Dani?
- É. Como sabe?!
- Está escrito na sua cara! - sorriu.
Fique à vontade, Will.
Somos amigos há muito tempo.
- Eu sei. Mesmo assim...
Não é fácil - retribuiu o sorriso.
- Vocês estão se gostando? É isso?
- Não exactamente.
Sou eu que estou gostando dela.
Não sei o que fazer.
Ela me considera um grande amigo.
- Acredito que a Dani também goste de você, mas não sabe disso.
- Ela me vê como um amigo. Entende?
- É um bom começo! - tornou Olívia, incentivando.
Ela já gosta de você, confia...
Vocês se conhecem bem...
Quer coisa melhor para se começar um romance?
- Estou preocupado com os seus pais. O que vão pensar?
- Não acredito no que estou ouvindo! - enfatizou.
Você é um homem livre, Will! É independente!
Eles não podem dizer nada. A Desirée está morta.
- Estou muito ligado a sua família.
Talvez ainda me vejam como genro. Trabalho na companhia e...
- Quer saber o que eu acho?
E sem esperar por uma resposta, considerou:
- Você ganhou vida depois que a Dani veio para cá.
Pelo que entendi, aconteceu o mesmo com ela.
A vida não tem sido muito bondosa com vocês dois, até agora.
Acredito que devam buscar a felicidade.
- Gosto muito de sua mãe.
Não quero perder a amizade, a consideração, o respeito que ela tem por mim.
- Minha mãe o ama, Will, e ama a Dani.
Duvido que ela ou meu pai se oponham.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:07 am

Após um momento, sugeriu:
- Por que não fala com minha mãe?
- Falar com sua mãe sobre a Dani?! - surpreendeu-se.
- Sim. Diga que está gostando dela.
Pergunte se, por acaso acontecer de vocês dois ficarem juntos, ela se magoaria.
- E a Dani?
- Invista na Dani depois.
Se é que já não está fazendo isso...
- Não... Não estou fazendo nada.
A amiga sorriu de um jeito maroto e afirmou:
- Vai em frente! Vou lhe dar a maior força.
- Quero levá-la para Nova Iorque comigo.
- Óptimo! Adorei a ideia!
Conversaram muito e William sentiu-se estimulado com o que a amiga disse.
* * *
Naquela noite ele procurou por Maria Cândida que estava bem ocupada com os últimos preparativos para o casamento do filho.
- Ah, Will! Quanto trabalho! - reclamou a senhora, sorrindo.
- Imagino.
Fazia alguns minutos que o rapaz a rodeava.
Não tinha coragem para dizer o que queria.
Desconfiada, a senhora deixou o que fazia e o chamou para uma saleta.
Colocou uma música clássica tranquila e pediu para o mordomo servir-lhes chá.
- Gosta da música? - perguntou ela.
- Sim. Gosto.
- Você parece nervoso, Will - disse em tom afável.
- Estou um pouco apreensivo.
Sentando-se frente a ela, em pequena e delicada mesa redonda, olhou-a firme e comentou:
- Não sei como lhe dizer que...
Subitamente, contou:
- Estou gostando muito da Danielle.
A senhora, que tomava vagarosamente a xícara de chá, permaneceu da mesma forma: inabalável.
Percebendo seu nervosismo, durante os segundos de silêncio decorridos, falou com incrível brandura:
- Isso não é novidade para mim, filho.
Qual é o problema?
Por que está desse jeito?
- É que... Fui casado com sua filha e...
Mesmo depois que ela se foi, continuei ligado a vocês.
- Danielle é minha filha também.
Não sei se já entendeu isso.
Falar dela é como falar de Desirée ou de Olívia.
- Sim, eu sei, mas...
- Eu já sabia que vocês iriam ficar juntos e, para ser sincera, estou feliz - sorriu.
Quando ela foi embora daqui, eu sabia que isso iria acontecer.
William ficou confuso, totalmente sem jeito.
Não esperava aquilo.
O seu casamento com Desirée já havia terminado antes de ela ir.
Agora esse capítulo da sua vida está encerrado, filho.
Abandone o passado.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:08 am

Tudo aquilo é parte de um outro tempo que não voltará mais.
Quero ver você muito feliz.
Quero ver a minha Dani feliz também.
Como eu quero!
Preciso ficar ao lado dessa menina e fazer por ela o que não fiz.
Breve pausa e o viu esfregar o rosto e alinhar os lisos e teimosos cabelos negros.
Em seguida, perguntou:
- Ela também está preocupada connosco como você?
Foi ela quem pediu para que viesse aqui?
- Não. De forma alguma!
A Dani não sabe - sorriu.
- Não sabe que você veio aqui?
- Não sabe de nada.
Ela me considera um amigo.
- Will, deixe-me ver se entendi... - expressou-se meio confusa.
Você veio me contar que gosta dela, mas ainda não falou com a Dani sobre isso?!
- Exactamente. Tenho medo de me aproximar mais e, ao mesmo tempo, sinto-me no dever de dar uma satisfação à senhora e ao senhor Óscar.
- Eu não acredito! - pareceu assombrada e sorriu levemente.
Após um instante, aconselhou:
- Filho, esqueça de mim e do Óscar. Ele também sabe.
- Sabe o quê?!
- Quem não viu uma paixão estampada no seu rosto, Will, está cego!
Já conversei com o Óscar sobre vocês dois.
Eu sabia que iam ficar juntos.
Maria Cândida se deteve.
Quase contou que entendeu isso antes de Raul falecer.
- Bem... Acho que deveria ter se aproximado mais dela e tirado a impressão de ser apenas um amigo.
Poderia ter falado a respeito do que sente.
Sorriu ao dizer:
- Você está demorando muito.
- A Dani ainda fala demais no Raul.
- Porque não houve outro para preencher o vazio que ela sente.
Levantando-se, falou:
- Venha comigo.
Maria Cândida segurou a mão de William e enlaçou em seu braço, conduzindo-o vagarosamente escada acima em direcção à luxuosa suíte.
Ao entrarem, foi até um móvel e pegou um porta jóias.
Indo até sua cama, espalmou-a e pediu:
- Sente-se aqui.
Quando o viu acomodado, contou:
- Faz um mês, eu pedi ao Óscar para tirar isso aqui do cofre.
Queria dar para a Danielle, mas não sabia como fazê-lo.
Às vezes tenho medo de assustá-la e afastá-la de mim. Veja.
De dentro da caixa, tirou um bracelete de safira, cravado com brilhantes.
- Este foi o presente que demos a minha filha Danielle quando fez quinze anos.
Menos de um ano depois, ela desencarnou.
Eu gostaria que você devolvesse a ela.
- É lindo! - admirou, rodeando a jóia nas mãos.
Incrivelmente belo! Mas... Por que eu?
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:08 am

- Quero que volte para ela, e você... - sorriu.
Você poderia fazer isso para mim.
- Eu não sei... Sinceramente não sei como.
O que vou dizer?
Que é um presente meu?
- Diga que pediram para você lhe entregar.
Pode contar que fui eu.
- Para ser sincero, não quero fazer isso - confessou, devolvendo-lhe a jóia.
Desculpe-me. Porém...
Posso trazê-la aqui para que a senhora o entregue.
- Combinado.
Estendendo-lhe os braços, disse sorrindo:
- Dê-me um abraço, filho!
Envolvendo-o, afirmou:
- Amo você, Will.
Agora, mais do que nunca. Faça a Dani muito feliz!
Na espiritualidade, Desirée ficou transtornada, inconformada com o que via.
- Vocês me pagam!!!
A Olívia vai se ver comigo e a senhora não perde por esperar!!!
Eu tanto quis essa jóia e nunca me deu!!!
Odeio vocês!!! Odeio!!! Odeio!!!
Assim que saiu dali, William sentiu o coração mais leve.
Estava feliz e satisfeito, embora ainda apreensivo por Danielle não saber de suas intenções.
Antes de ir para seu apartamento, decidiu procurá-la.
- Que bom! Já entregaram os sofás!
- E a cama também! Venha ver! - ela contou alegre.
- É muito bonita. Você tem bom gosto.
Ele sorriu ao olhar sobre a cama arrumada, o ursinho que ele havia lhe dado.
Pegou o bichinho e o abraçou.
Depois, sentou-se e se balançando como se experimentasse o colchão, perguntou:
- Então... Está preparada para ir para Nova Iorque?
- Não sei, Will.
Como falei, fico preocupada com o que vão pensar.
- Pedi para minha assistente verificar algum curso de aperfeiçoamento rápido que possa fazer.
Tem um sim. De três semanas.
Só que vai ter início uma semana após chegarmos e término previsto para uma semana após a data que devo retornar.
- Quer dizer que, quando você estiver voltando, eu precisarei ficar por lá mais uma semana? - indagou nada satisfeita.
- Exactamente.
- E eu vou ficar sozinha?
- Posso ficar...
Se quiser - expressou-se sorrindo, observando-a.
Danielle acomodou-se ao seu lado e quis saber:
- Por que está fazendo isso?
- Para vê-la mais activa.
Você mesma disse que estava desactualizada.
Vai ser muito bom, não só o curso, mas também a viagem, a sua interacção com o mundo.
Às vezes, acho que é muito fechada.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:08 am

Recostando a cabeça em seu ombro, ela sorriu afirmando com jeito dengoso:
- Você parece com os meus irmãos.
Sempre se preocupando comigo.
Além de um grande amigo, tenho mais um irmão.
- Pode me ver como amigo, mas não como irmão.
Por favor - disse sério.
- Por quê?
- Eu não vou tratá-la nem considerá-la, nunca, como minha irmã. Não pense tão bem de mim.
- Por quê?! - perguntou sem entender.
William sorriu de um jeito enigmático.
Colocou o ursinho sobre a cama quando se levantou.
Estendendo-lhe a mão, puxou-a para que se levantasse e, levando-a para a sala, respondeu:
- Porque a considero de uma outra forma.
- Pensei que gostasse de mim.
- E gosto. Muito.
Quero o seu bem e tudo o que for bom para você.
Porém... - sorriu, falando de um jeito meigo:
- Os seus irmãos não gostariam de saber quais as minhas intenções com você.
Rápido, antes que ela concatenasse as ideias, decidiu:
- Boa noite. Preciso ir.
Beijou-lhe a testa e pegou as chaves, não dando tempo para que Danielle se pronunciasse.
Após vê-lo sair, ela organizou os pensamentos e se preocupou.
"Será que o Will está gostando mesmo de mim?" - pensava.
- "O que quis dizer com isso?
Não pode ser... Ele é meu amigo...
É alguém que me ajuda em tudo e...".
As palavras do rapaz ficaram ecoando em sua mente e, não suportando, depois de algum tempo, telefonou para Olívia.
- É muito tarde?! Você estava dormindo?!
- Não, Dani. Pode falar.
Danielle contou-lhe o que havia acontecido e quis saber:
- O que você acha?
- Eu não acho. Tenho certeza!
- Do quê?
- Deve-se permitir ser feliz novamente, Dani.
Por que não?!
O William é um homem muito bom, até onde eu o conheço.
Além de muito bonito, charmoso, elegante, bem-sucedido, diga-se de passagem... - riu com gosto.
- Não brinque, Olívia!
- Não estou brincando.
Mais séria, afirmou:
- Acho que vocês dois se gostam e se merecem.
Formam um casal tão bonito de se ver! - falou com jeitinho amoroso.
- Eu amo o Raul!
- O seu coração é tão pequeno, que só cabe uma pessoa?
- Olívia! Não sei o que fazer.
E se ele estiver gostando de mim?
- E se você estiver gostando dele?
- Não sei se estou.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:09 am

- Tem hora, na vida, que não devemos fazer nada, Dani.
Deixe as coisas acontecerem.
- É muito cedo.
- Pensei que você fosse uma mulher mais moderna e mais madura.
- Tenho medo...
- Do quê, Dani? De ser feliz?
De viver bem ao lado de um homem tão bom? Acorde!
- O que os seus pais vão pensar?
E os seus irmãos?
- Vocês são livres e desimpedidos.
Se ele tivesse se divorciado e a Desirée estivesse por aqui...
Talvez meus pais não se sentissem tão à vontade.
Mas não é o caso.
- Ele quer que eu vá para Nova Iorque com ele.
- Eu sei.
- Como sabe?
- É... - gaguejou.
Pensou rápido e se justificou:
- Eu o vi pedindo para a assistente informações a respeito de um curso.
Logo deduzi que fosse para você.
- Olívia, eu adoro sua mãe.
Gosto dela tanto quanto da minha.
Não sei explicar. Por isso não quero magoá-la.
- Não irá magoá-la. Seja feliz!
- Eu não sei se gosto dele.
O Will é meu amigo. E o Raul?
- Menina! Pelo amor de Deus!
Você me assusta! - esbracejou.
- Deixe o Raul descansar! Ele se foi!
Talvez esteja se preparando para reencarnar de novo, como diz minha mãe!
Você é jovem, bonita...
Precisa viver, Danielle! Permita-se!
Deixe as coisas acontecerem naturalmente.
Se descobrir que não gosta dele, tudo bem, parte para outro!
- Sinto uma coisa indefinida.
- Isso passa. Tenho certeza.
É medo de coisa nova.
Danielle escutou uma voz conhecida ao fundo da ligação e perguntou:
- Olívia, você está em casa?
- Não. Por quê?
- É o meu irmão que está aí?
- Seja mais discreta, Dani!
- O Guilherme não está em Berlim?
- Não. Está resolvendo algumas negociações por aqui.
Deixe de ser curiosa.
- Desculpe.
Amanhã conversamos - riu.
- Até amanhã.
Mesmo depois de desligar, Danielle sentia-se insegura.
Algo a incomodava.
Na espiritualidade, Desirée se revoltava com o rumo dos acontecimentos.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:09 am

* * *
A festa de casamento de Nanei e Edwin foi ainda mais deslumbrante do que a de noivado.
Os convidados, finamente trajados, exibiam luxo nas roupas de alta-costura e nas jóias.
Danielle nunca pareceu mais linda.
Estava séria e provocante em um vestido azul-marinho de tecido cintilante colado ao corpo exuberante.
Longo, abria-se com leveza do chão até perto da coxa.
Os cabelos presos, com leve cacheado atrás, davam-lhe um tom sóbrio, clássico e refinado.
- Você está absolutamente extraordinária!
Maravilhosamente linda! - elogiou William, cochichando-lhe ao ouvido, quando foi cumprimentá-la, fazendo-a sorrir com delicadeza.
- Está chamando a atenção de todos os convidados e paparazzis por causa da sua beleza!
Cuidado, hein! - observou com um toque de ciúme proposital, na voz cálida e afável.
- Também está muito elegante e bonito!
Todas as mulheres disponíveis, nesta festa, não tiram os olhos de você!
Pensa que não percebi?! - rebateu sorrindo, como se falasse de outro assunto para os outros não perceberem o que dizia.
Durante toda a festa, um estava ao lado do outro.
O tempo todo.
Dançaram muito.
Até pareciam haver ensaiado para isso.
Danielle e William formavam um casal perfeito.
Todos admiraram a harmonia exibida naturalmente.
Pareciam conversar com o olhar, sempre brilhando, com um toque de paixão.
Quando teve oportunidade, discretamente, William a conduziu para longe do salão principal do castelo, alugado para a refinada comemoração.
Caminharam tranquilamente pelo gramado sob árvores majestosas de copas largas que tinham uma iluminação especial.
Chegando a um banco, frente a um lago, ele perguntou:
- Vamos nos sentar?
Ela aceitou e William acomodou-se ao seu lado.
Eu gostaria de repetir algo que já disse.
- O quê? - quis saber, curiosa.
- Que você está deslumbrantemente linda! - sorriu.
- Você me deixa sem graça... - respondeu delicada, com jeito recatado.
Algum tempo depois, perguntou:
- Importa-se em ficarmos aqui um pouco?
- Não. De forma alguma.
- Não está gostando da festa?
- Não é isso - riu.
É que os meus pés estão me matando!
Ele riu junto e não disse nada.
Danielle era elegante, mas também muito simples, sincera demais e, às vezes, muito ingénua.
Ele adorava isso. Fazia-o rir ao ser alegremente agradável.
Após longos minutos de maravilhoso silêncio ao seu lado, William comentou:
- Eu preciso lhe falar uma coisa.
- Diga.
Levantando-se, ficou a sua frente e pediu:
- Dê-me a sua mão! - Ela sorriu e estendeu-lhe a mão esquerda instintivamente.
Feche os olhos.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:09 am

Tornou a pedir e Danielle obedeceu.
William tirou do bolso um lindo e delicado anel e colocou no mesmo dedo onde tinha a aliança.
- Gosta?!
Abriu os olhos e levemente a boca.
Depois admirou:
- É lindo!!! Will! Ficou louco?!
É o que estou pensando?!
- O que está pensando? - sorriu intrigado.
- É um anel de diamante?!
- É. É um solitário. Gostou?!
- Adorei!!! - dizia estendendo a mão em vários ângulos e distância a sua frente.
Nossa!!!... Eu...
- Fico feliz que tenha gostado.
Ela se levantou, abraçou-o com carinho e beijou-lhe o rosto demoradamente.
- Obrigada. Não mereço isso!
- É para se lembrar de mim.
- Nunca vou esquecê-lo, Will! - disse, afagando-lhe o rosto.
William pegou sua mão com ternura e a beijou.
Danielle sentiu o coração bater forte.
Em seguida, ele a fitou de modo indefinido e se declarou:
- Danielle, eu a amo muito.
Não posso e não quero mais ficar ao seu lado somente como amigo.
Quero você - murmurou com voz suave.
Segurando-a contra si, curvou-se levemente e beijou-lhe os lábios com amor.
E ela correspondeu.
Ficaram ali por mais algum tempo, conversando e trocando carinho.
Antes de voltarem para a festa, ela perguntou:
- Quer que eu tire a aliança?
- Não.
- Não?! - tornou surpresa.
- Não. Não vou lhe exigir nada. Siga o seu coração.
Dizendo isso, tomou-a novamente para si e a beijou com amor.
No final da festa, não quiseram ir para a casa de Maria Cândida, apesar de Belinda, Guilherme, Kléber e a família, terem ido para lá.
O motorista levou-os para a cidade e William insistiu para que ficassem em seu apartamento.
Ela concordou.
Nas primeiras horas da manhã, Danielle acordou com o toque de seu celular.
Atendendo-o, surpreendeu-se:
- Mamãe?!
- Onde você está, Danielle?! - questionou parecendo exigir.
- Eu... - Para não acordar William, saiu da suíte, fechou a porta e foi para a sala.
O que a senhora quer?
A Nanei já foi viajar? - perguntou com a intenção de distraí-la.
- Liguei para o seu apartamento e ninguém atendeu!
Onde você está?! - inquiriu zangada.
- O motorista me trouxe junto com o Will e... - dizia querendo pensar em algo.
- Está no apartamento dele?
- Estou... - murmurou. Não conseguiu negar.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:09 am

Tentava se defender:
- Era de madrugada e decidimos ficar aqui, pois estávamos conversando e...
Mamãe, não aconteceu nada - reagiu.
- Eu só dormi aqui.
Mais nada. Era tarde...
- Não me faça passar vergonha, Danielle!
O William era marido da filha da Maria Cândida, minha melhor amiga!
Ele é o braço direito do Óscar e muito ligado à família!
O que vão pensar de você?!
- Não vão pensar nada, mamãe.
Somos livres e... Eu e o Will...
- Você já leu os jornais?! - indagou interrompendo-a.
- Jornais?!... Não.
- Então, depois conversamos! - falou rudemente e desligou.
Belinda não se despediu.
Ao desligar, Danielle se virou e viu William parado, olhando-a.
- O que foi? - perguntou ele, com tranquilidade.
- Minha mãe... Ela ligou para o meu apartamento e...
Estava uma fera por eu ter dormido aqui.
- Não houve nada entre nós.
Sorriu de modo maroto ao brincar:
- Aliás, não houve porque você não quis.
Se ao menos levasse bronca por um motivo concreto, seria melhor.
- William, não brinca! - pediu séria e preocupada.
Ele se aproximou, beijou-lhe os lábios e disse:
- Não se preocupe. Isso ia acontecer.
Ela não estava preparada.
Vai se acostumar com a ideia.
- Ela perguntou se eu li os jornais - contou ainda sem entender.
- Por quê?!
Um instante e preocupou-se:
- Aaaah! Não!
William deu um telefonema e providenciou os jornais.
Não demorou e leu surpreendido:
- "William Phillies, vice-presidente da grande Companhia Aérea, um dos homens disponíveis mais cobiçados da Europa, de caso com uma mulher casada, irmã da noiva..."
- leu a notícia em um dos jornais com várias fotos suas com Danielle.
- Meu Deus! Will!
- Droga! Diabo de imprensa! - irritou-se.
Em seguida, leu em outro:
- "Danielle Linhares, irmã da noiva, não fez questão de tirar a aliança para ocultar seu estado civil.
Ela é brasileira e veio a Paris para o casamento de sua irmã com o herdeiro da grande Companhia Aérea.
William Phillies, vice-presidente da mesma companhia e Danielle Linhares ficaram juntos e não esconderam o romance.
Dançar e beijar não foi o suficiente.
No final da festa, ele a levou para o seu apartamento e..."
Que inferno! Droga! - enervou-se.
- Continue lendo! - pediu aflita.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 20, 2017 10:10 am

- Para quê? Para ficarmos mais nervosos?!
Danielle pegou os jornais de suas mãos e começou a olhar as fotos.
- Veja! Foi quando saímos do carro!
Essa é em frente ao prédio!
Ainda perguntam:
"será que o marido dela está sabendo?"
Quase não falaram sobre o casamento. Nós fomos os alvos!
- A Europa é assim mesmo - reclamou.
Aqui não se tem vida privada.
Foi isso o que matou Lady Diana, em um acidente de carro, aqui mesmo em Paris.
- Aqui diz que sou casada!
Que vim para Paris!
Não falam a verdade! - exclamou inconformada.
- Não falam mesmo.
Viram a aliança em sua mão e deduziram qualquer coisa.
Montaram uma história para vender jornais, porque eu estou envolvido.
Como se não bastasse essa tensão por causa da invasão do Iraque, já venderam jornais com o meu nome e...
- Não estou entendendo.
Como assim? - interrompeu-o.
- O mundo vive muita tensão desde 11 de setembro.
Os Estados Unidos deram início a uma guerra contra o terrorismo, bombardeando e invadindo o Afeganistão.
De repente, do Afeganistão, o presidente Bush vira-se contra o Iraque dizendo que Iraque, Irã e Coreia do Norte constituem o "eixo do mal".
Mesmo com a permissão do Iraque para a volta dos inspectores de armas de destruição em massa da ONU, os Estados Unidos pediram apoio para o ataque ao Iraque, levando a questão à ONU.
O primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair, apoia o ataque ao Iraque.
A Inglaterra fez convocação de reservistas e já enviou cerca de cinco mil homens para lutarem no Iraque, dando apoio aos americanos.
Sou britânico. E não fui convocado, por enquanto.
Disseram que isso aconteceu por minha fortuna, por eu ser rico.
Como se eu tivesse comprado alguém do exército britânico para eu não ir.
- Isso aconteceu? Pagou por isso?
- Não! É lógico que não!
Ainda corro o risco de ser chamado.
Sou reservista. Tenho isso para me preocupar.
Agora querem atrapalhar os negócios.
- Por que atrapalhar os negócios?
Não estou entendendo.
- Essa história de eu não ter sido convocado porque paguei a alguém por isso, perdeu força, ficou abafada.
Ninguém deu importância.
Talvez, por vingança, os paparazzis querem mexer com o meu nome novamente e atrapalhar as negociações que estou fazendo.
O caso da fusão, ou melhor, a compra da outra companhia aérea, vazou.
Porém ninguém tem certeza de nada. Foram só boatos.
Como sabem que todos, no mundo dos negócios, aqui, são muito conservadores, um escândalo desses pode me comprometer.
Esse tipo de imprensa sensacionalista quer mexer comigo de novo.
Sou um prato cheio. Entendeu? - Explicou calmo.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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