Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 24, 2017 10:21 am

Deu o maior trabalho para colocá-lo lá.
Ele não subia pelas escadas nem pelos elevadores.
Tiveram de içá-lo pela sacada da sala de estar.
- O que vai fazer com aquele equipamento de ginástica?
- Levá-lo para o outro apartamento. Tem lugar.
- Esse apartamento novo tem vista para o Sena?
- Não. Podemos ver só uma parte da catedral de Notre Dame.
A vista é bonita, mas não dá para o Sena.
Sinto muito.
Você faz questão?
- Não. Só perguntei por perguntar.
Sorrindo amável, o marido falou com jeitinho:
- São três da tarde...
Quer ir conhecê-lo?
Podemos dar uma olhada nesse apartamento, caminharmos às margens do Sena, como você gosta, e depois vamos àquele bistrô onde jantamos quando fomos ao teatro pela última vez. Você adorou.
- Vamos, sim! - animou-se.
- Eu quero. Vou me arrumar!
Danielle aceitou o convite.
Alegre e bem disposta olhava o novo apartamento.
William ficou satisfeito vendo a esposa apreciar o imóvel.
Era só isso o que estava esperando.
Então, imediatamente, fez um cheque para reservá-lo a fim de ninguém mais visitá-lo.
Até cuidarem de toda negociação.
Não entendia como tudo em sua vida, financeiramente falando, era incrivelmente próspero.
Tudo o que queria, comprava.
William ignorava sempre ter sido honesto, em vidas passadas, e continuava sendo.
Além disso, o que lhe foi tirado, quando condenado no período da Inquisição, retornou ao seu poder.
Bastava, então, saber como utilizar, administrar bem tudo o que tinha.
Contente, virou-se para a esposa e falou:
- O resto é com você, senhora Phillies!
Essa casa precisa de mobília e decoração! - disse sorrindo e abraçando-a contra si.
- Não vamos esperar a venda do outro?
- Não - afirmou, embalando-a de um lado para outro em seus braços.
Quero mudar para cá o quanto antes.
Quero de volta a minha privacidade e, principalmente, você - disse de modo amoroso.
- Eu também...
Quero você - beijou-o.
Saindo dali, caminharam conforme ele propôs.
Jantaram em um lugar alegre e aconchegante.
Quando faziam o caminho de volta, Danielle quis ir até o apartamento onde ainda moravam e William concordou.
Ao entrar, ela passou as vistas por todo o ambiente e o achou triste, diferente de quando o viu pela primeira vez.
Mas não disse nada.
- Nada melhor do que a própria casa! - exclamou William, jogando-se no sofá e fechando os olhos como se não acreditasse estar ali.
- Nossa! Parece que faz tanto tempo.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 24, 2017 10:21 am

Olhando para o marido, admirou o seu jeito amoroso, gentil, paciente.
William tinha as melhores qualidades.
Algo muito próprio de uma alma evoluída.
Além disso, era inteligente, ponderado, muito bonito, nobre, distinto e tão atraente que, às vezes, sentia uma ponta de ciúme picá-la um pouco sem qualquer razão.
Embora casados há pouco tempo, foi fácil perceber que ele continuaria, assim, com a mesma personalidade.
Danielle acreditou ter muita sorte na vida.
Apesar de haver sido casada também pouco tempo com Raul, ele foi um marido generoso, amoroso.
Às vezes tinham algumas divergências, mas nada sério.
Era um bom homem.
Se fosse comparar, William era ainda melhor, menos possessivo.
Raul era um pouco ciumento, principalmente com suas roupas, quando se arrumava bem com um modelo que lhe esculpisse o corpo.
William não. Adorava vê-la sempre bem vestida e bonita.
Sempre achava ser para ele.
Quantas vezes, pegava em sua mão e a fazia rodar em volta de si mesma para contemplá-la melhor.
Sabia que não poderia comparar.
Cada um tinha uma personalidade.
Raul só era um pouco diferente.
E ela o amou. Amou muito.
Pensava, agora, onde estaria.
William abriu os olhos, sentindo que ela o observava há muito tempo.
Sorriu ao vê-la com suave sorriso congelado no rosto alvo e perguntou com graça:
- O que está fazendo aí, parada, sorrindo e olhando para mim?!
- Nada - surpreendeu-se e riu.
O marido estendeu-lhe a mão e a puxou sobre si.
- Vem cá! - Abraçando-a, quis saber com jeito amoroso.
- Por onde andavam os seus pensamentos?
- Pensava em você.
Estava admirando seu jeito, o homem maravilhoso que é... - sorriu e ocultou as comparações mais secretas que fez.
- Quer voltar a morar aqui até o outro apartamento ficar pronto?
- Quero.
Beijou-lhe os lábios e lembrou:
- Fica mais perto para eu trabalhar e cuidar da decoração.
- Podemos contratar a mesma empresa que cuidou deste aqui.
Você disse que gostou do estilo.
- Pode ser. Gostei muito.
Ele a ajeitou para que se acomodasse ao seu lado.
Pegou-lhe a mão, beijou-a com carinho e perguntou:
- Quer ficar aqui hoje?
- Quero... - sussurrou rindo.
- Então...
Liga para a dona Maria Cândida e avisa que ficaremos aqui.
Após telefonar decidiu contar:
- Will?
- Fala.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 24, 2017 10:21 am

- Eu vi uma coisa muito estranha quando estava no hospital.
- O que viu?
- Vi a morte nos pés da minha cama.
- Como assim?! Que morte?!
- Era como uma mulher.
Muito alta e curvada sobre os pés da minha cama.
Ela era feia, horrorosa.
Vestia-se toda de preto e usava um capuz.
Era uma roupa muito comprida e esfarrapada.
Horrível!
O marido ficou em silêncio e ela perguntou:
- Você já teve visões de um espírito assim?
- Desse jeito, não.
Não gosto de ver coisas que não posso tocar e que os outros não vêem.
Já aconteceu de eu ver espíritos, mas não desse jeito.
- Eu gritei. Veio uma enfermeira e eu falei para ela.
Mostrei onde estava, mas não acreditou em mim.
Disse que era delírio, porque eu estava com febre.
- Não se preocupe.
Pode ter sido a febre mesmo.
- Tenho medo disso.
Não quero mais ver nada.
- Não vai ver - sorriu generoso, abraçando-a com carinho.
Contra a vontade de Maria Cândida e de seu marido, Danielle e William retornaram para onde moravam e à vida normal.
O marido cuidou da aquisição do outro imóvel e ela da decoração.
Os dias foram passando e Danielle aparentava estar bem melhor.
Voltou a ser como antes, tranquila, ponderada, alegre e calma.
Tudo parecia perfeito.
Tinham problemas corriqueiros, claro, mas os resolviam com paciência.
- Ainda bem que não vendemos este aqui!
Já adiaram pela segunda vez a entrega do outro!
Quando não é uma coisa, é outra! - ela ria e reclamava ao marido.
- É assim mesmo.
Já ouvi dizer que o momento mais estressante na vida de uma pessoa é quando ela se muda.
- Deve ser verdade mesmo.
Mudei-me para a casa da dona Maria Cândida, quando mudei de país.
Depois mudei para aquele apartamento que aluguei.
Em seguida, para cá e, agora, cuido da mudança para outro.
É por isso que estou stressada! - riu.
- Vem aqui que eu acabo com seu stress! - riu o marido, puxando-a de costas e massageando-lhe os ombros com as mãos.
- Ai, Raul! Está apertando muito!
Pare com isso! - retribuiu, brincando descontraidamente.
O marido sentiu-se gelar.
Era como acordar para um novo pesadelo.
Parando com o que fazia, virou-a para si, deixando-a em pé a sua frente.
Ficou sério e falou com tranquilidade:
- Dani, eu sou o William.
Ela abaixou a cabeça e levou a mão no rosto sem saber o que dizer.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 24, 2017 10:22 am

Segurando em seu queixo, forçando para que o encarasse, ele falou:
- Já faz mais de dois anos que o Raul se foi.
Eu o conheci bem pouco, porém o suficiente para saber que era um homem bom, íntegro e que a amava muito.
Não perguntei, nunca, como vocês viveram, como eram na intimidade ou fora dela, para comparar com a nossa vida hoje.
- Will, eu...
- Deixe-me terminar, por favor.
A esposa silenciou e ele prosseguiu, falando devagar:
- Eu sei que você amou muito o Raul.
Ainda o ama, mas de outra forma.
É certo que, se ele não tivesse morrido, nós não estaríamos juntos, eu acho.
Acredito que o amor que sente por ele é diferente do que sente por mim.
Eu não quero comparar nem medir a intensidade desse sentimento.
Apesar de você ter dito que me ama somente duas vezes até hoje.
Porém eu acredito que me ama, porque senti que foi muito sincero quando disse.
Se bem que é bom ouvir isso de vez em quando, sabe.
Breve pausa, olhando-a firme, prosseguiu no mesmo tom:
- O pouco tempo que conheci o Raul foi o que bastou para eu respeitá-lo muito e respeitar, até hoje, seus sentimentos por ele.
Mas não é justo que eu continue ouvindo você trocar o meu nome e me chamar de Raul.
Acredito que é falta de controle seu.
Falta de se vigiar, pois até na cama já errou o meu nome e não foi só uma vez.
Estou no limite, Dani.
Não aguento mais.
Alguns segundos e, mesmo vendo-a triste e preocupada, continuou:
- O tempo que ficamos na casa da dona Maria Cândida você não me chamou de Raul.
O pior foi que, quando começou acontecer com frequência, aqui, todos esses efeitos físicos de terra na banheira, roupas no chão, vidros se partindo e outros, começaram juntos.
- Você acha que é o Raul?
- Sinceramente, não.
Os estudos, que acompanhei, lá na sociedade espírita e o pouco que aprendi com a dona Maria Cândida, junto com o que o meu coração diz, fazem-me acreditar que não seja o Raul.
Porém aprendi e entendi, muito bem, que a pessoa ou o médium é quem determina o que quer fazer, quando, onde e se quer, porque tem o livre-arbítrio.
Eu chego a pensar que você, assim como eu, só que você em maior grau, sofre certa influência espiritual e acaba não controlando o que fala, principalmente.
Por isso seria bom vigiar mais.
Não estou me sentindo nada bem com isso.
- Desculpe-me, Will.
Por favor - pediu, sinceramente humilde.
- Lógico que sim, mas não faça novamente.
- Não vou fazer.
Aquela chamada de atenção foi importante para Danielle, que não estava vigilante.
O espírito Desirée começava a usá-la como instrumento, novamente, manipulando-a, através da mediunidade mal-educada e, por causa de sua falta de persistência, continuaria aproveitando todas as oportunidades para prejudicá-la.
Provavelmente a bondade, a tolerância e a paciência do marido, deixavam Danielle muito à vontade.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 24, 2017 10:22 am

* * *
Mais tarde a esposa saía do banho e ouvia o marido rindo e falando ao telefone.
William gargalhava e fazia alguns comentários, depois ria novamente.
Ao vê-lo desligar, a mulher perguntou:
- O que aconteceu de tão engraçado em Amsterdão?
Ainda achando graça, ele contou:
- Ah! Foi a Charlaine!
- Sua assistente?
- É. Liguei para pedir que arrume uma pasta com relatórios e documentos necessários para a reunião de amanhã, bem cedo.
Então ela me contou que o hotel em Amsterdão fez uma confusão com as reservas para a hospedagem do Edwin e dois directores, colocando-os no mesmo quarto e onde já haviam hóspedes - riu.
Deu uma confusão. O Edwin ficou bravo e com razão.
Isso já aconteceu antes e foi nesse mesmo hotel.
Precisei dividir o quarto por uma noite.
- Da outra vez foi com você?
- Foi! Era a Charlaine quem estava junto.
Havia um show na cidade e estava tudo lotado - contou com simplicidade.
- Não havia mais lugar naquele hotel e, por ser somente aquela noite, achei melhor dividir o quarto com ela.
O pior não foi isso.
A Desirée telefonou para o hotel, pediu para falar no meu quarto e foi a Charlaine quem atendeu.
Expliquei o que tinha acontecido, mas não adiantou.
Quando voltei, deu uma briga que você não imagina.
Quase tive de demitir a secretária.
Foi o senhor Óscar que não deixou.
A outra ficou uma fera!
- A outra, de quem está falando, era a Desirée?
- Sim. Era.
- Se ela ficou uma fera, foi com toda razão! - expressou-se de modo irritado, saindo da sala e deixando-o sozinho.
O marido foi atrás e quis saber:
- Por que está falando assim?
- Eu não gosto muito da Charlaine, mas não sabia que ela era tão safada a ponto de dormir com você e continuar na empresa com a maior cara-de-pau! - exclamou enérgica.
- Calma, Dani! Você não sabe o que aconteceu.
- Nem preciso. Já sei o suficiente!
Vocês dormiram juntos!
- Não é nada disso o que você está afirmando! - defendeu-se firme.
Nós chegamos quase de madrugada.
Estávamos cansados e houve problemas com as reservas.
Isso é comum. Só que eu não iria sair, aquela hora, para procurar vaga em outro hotel!
- Dormisse no saguão!!! - gritou.
Mas não dormisse com a sua secretária!!!
Riu com ironia e declarou:
- Eu sou uma idiota! Sou a última a saber!
Imagino o quanto aquela sem-vergonha está rindo da minha cara por já ter dormido com o meu marido!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 24, 2017 10:22 am

- Não foi isso o que aconteceu!!!
Se tivéssemos dormido juntos, como você afirma, não estaria ouvindo essa história de mim!!!
O que pensa que eu sou?! - rebateu no mesmo tom.
Caminhou firme frente a ele e com o dedo em riste, esbravejou:
- Aos poucos estou conhecendo você melhor!
Vejo-o de risinhos e beijinhos com executivas, diplomatas, sei lá mais quem!
Você pensa que me engana?!
William ficou perplexo, paralisado.
Com voz pausada e parecendo calmo, falou brandamente:
- É melhor pararmos por aqui.
Ao se virar, Danielle o puxou pela camisa, que rasgou, e começou agredi-lo com os punhos fechados batendo em seu peito.
Segurando-a pelos pulsos, William a levou até a cama do casal e a empurrou, jogando-a de costas.
Em pé a sua frente, falou veemente:
- Pare com isso, Danielle!
Está indo longe demais!
- Não me trate como se você fosse a vítima!
Não posso acreditar que só dividiu o quarto com uma mulher jovem, bonita e sensual, como ela!
É mentira sua!!! Por que não diz a verdade?!!!
Por que não diz que dormiu com ela?!!!
Em tom baixo e firme, arrematou:
- Dormi ao seu lado, no seu apartamento, e não aconteceu nada!
Depois, você dormiu, aqui, junto comigo, ao meu lado, na minha cama, e não aconteceu nada!
Sabe por quê?!
Porque eu a respeitei nas duas ocasiões.
Sendo que, da primeira vez, eu não tinha motivo para fazê-lo.
- Como assim?! Por que não teria motivo para me respeitar?!
- Da primeira vez, quando dormi na sua casa, você havia bebido o suficiente para não saber o que estava fazendo e não se lembrar de nada depois.
Você bem que insistiu, e muito, dizendo que me queria.
Foi muito provocante. Foi sedutora.
Investiu sobre mim. Insistiu demais.
Eu quase não resisti, fique sabendo!
Vendo-a paralisada e em choque, ainda falou:
- Gostou de ouvir a verdade?!
Está satisfeita agora?!
Será que, sabendo disso, vai confiar um pouco mais em mim e acreditar no que estou contando?!
- Isso não aconteceu... - murmurou, sentando-se na cama.
- Aconteceu sim, Dani!
Por isso eu perguntei tanto, naquele dia, se não se lembrava de nada mesmo - afirmou mais brando, porém firme.
Eu tive toda a oportunidade de me aproveitar daquela situação, mas eu não quis.
Você havia bebido muito e bebeu porque eu levei aqueles malditos vinhos.
Contou toda sua vida.
Falou muito do Raul.
Depois decidiu que me queria para esquecê-lo.
Queria dormir comigo.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 24, 2017 10:22 am

Tirou parte da sua roupa e parte da minha também.
Investiu sobre mim. Foi por pouco que algo mais não aconteceu.
Foi difícil me conter, principalmente, porque eu já gostava muito de você.
- E depois? - perguntou constrangida.
Diante do silêncio do marido, insistiu:
- Tenho o direito de saber o que aconteceu.
Conta. Preciso saber.
- Você... Nós nos abraçamos e nos beijamos muito, como eu sempre quis e...
Ficamos muito tempo assim.
Apesar de você ser provocante e dizer que me queria, só trocamos carinho.
Não fui em frente, porque eu não quis. Foi só isso.
Você ficou sonolenta nos meus braços e coloquei sua roupa.
Fiz com que bebesse bastante água e a deixei dormir.
- Por que não me contou?
- Por amor, Dani.
Por querer conquistá-la.
Se eu contasse tudo, provavelmente, não iria querer mais me ver.
Na segunda vez que dormimos juntos, aqui, respeitei a sua vontade.
Você estava insegura e não me quis.
Tive certeza de que fez aquilo, no seu apartamento, por causa do vinho.
Uma lágrima correu em sua face pálida.
Ela abaixou a cabeça e pediu:
- Desculpe-me, Will. Fiquei com ciúme.
Não pensei direito e...
- Ciúme?! Ciúme é uma coisa.
Falta de controle emocional, reacção doentia é outra, e bem diferente.
Eu adoro você, Dani.
Quando a vejo linda, sexy, eu simplesmente adoro!
Vejo o seu jeito alegre, risonho, carismático, extrovertido e adoro!
Observo quanto os outros homens a cobiçam, olham, desejam.
Tenho ciúme, sim.
E é aí que eu a quero mais!
É aí que me sinto orgulhoso porque você é minha e eu confio em você e em mim.
Os outros podem olhar.
Quero que morram de inveja!
Eu sou mais eu!
Não sou nenhum pouco inseguro.
Ciúme doentio, como a crise que teve agora, mostra sua insegurança, falta de amor próprio e desrespeito para comigo.
Não confiou em mim, quando teve todas as razões para isso.
Se um dia eu pensar em sair com outra mulher, tenha certeza de que me separo de você antes.
Vendo-a pensativa, ele saiu do quarto sem falar mais nada.
Na espiritualidade, Desirée se comprazia com o abalo a Danielle.
Envolvendo a esposa de William e usando da sua mediunidade, ela a induzia a chamá-lo de Raul e ter fortes manifestações de ciúme.
Em vez de se concentrar no que era preciso, em se controlar e questionar a razão de determinados comportamentos e atitudes, Danielle ficava ocupando sua mente com assuntos sobre as experiências de outra vida, agindo e pensando como se fosse, actualmente, filha de Maria Cândida.
Isso servia de distracção e Desirée aproveitava-se de tudo o que podia.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 24, 2017 10:23 am

Sem serem percebidos, os espíritos Filomena, Armando e outros amigos estavam presentes na residência do casal.
Evandro, que instruía o grupo explicou:
- O acontecido nas Torres Gémeas, em 11 de setembro, provocou um resgate colectivo de espíritos impostos, ali, por atracção magnética.
Houve muita dor e muita aflição naquele sítio.
As energias dolorosas, tristes e densas podem durar meses ou anos para muitos.
Uma grande percentagem das almas, ali vitimadas, eram criaturas com muitos débitos de ordem geral, principalmente, na falta de caridade e excesso de vaidade.
Muitos foram e ainda são cegos na perversidade completa e muito desequilíbrio tenebroso nos pensamentos desgovernados pela arrogância, principalmente.
Outros ainda eram monstros habitando um corpo humano.
Poucos cumpriram seus destinos equilibrados e harmoniosos, aproveitando para retornar à pátria espiritual após saldar o débito com a própria consciência.
O lugar onde a tragédia aconteceu, e em larga escala em torno dele, tem, no campo espiritual, uma zona castigada de natureza doentia e hostil.
O mais triste é pensar que o povo e o governo, que não deixam de ser espíritos em nível de evolução, ainda deficiente, atraíram tamanha dor e isso é um prenúncio de algo que, no futuro, pode afectar toda a humanidade.
- Desde o momento da catástrofe, houve uma terrível movimentação de sombras espessas que não cessam de cascatear em meio ao espaço sem luz, formadas dos edifícios que vieram abaixo - comentou outro companheiro.
É um triste quadro de se ver até hoje.
O resgate espiritual às vítimas ainda é bem difícil, devido ao nível de entendimento e a ausência de Deus em cada coração.
Os norte-americanos sofreram as catástrofes que idealizaram em suas mentes, algumas delas exibidas em filmes.
Vejam como o pensamento tem força.
Precisamos tomar cuidado com o que imaginamos.
Mesmo quando acreditamos que é uma brincadeira, uma diversão, como fazem em suas indústrias cinematográficas.
O que pensamos fazemos existir, de alguma forma, no plano espiritual ou neste mesmo.
- Eu consigo ver a dor e o desespero vivido por minha neta - contou Filomena.
É tão triste.
- Não se deixe envolver - alertou Evandro.
O estado infernal na alma vive e desaparece com a evolução de cada um.
No entanto, pode atrair a mente daquele que não se precaver.
Desirée não desencarnou de imediato, como podemos ver.
Sua vaidade, seu orgulho, sua prepotência e descaso com os outros não a deixaram ouvir o conselho da mãe que pediu para que saísse de lá.
Em vez disso, sua consciência a atraiu a um banheiro onde ficou, frente a um espelho, cuidando da aparência para, só depois, tentar sair.
Quando o fez, era tarde.
Ficou presa, praticamente esmagada da cintura para baixo.
Muita dor foi o que sentiu e viu muito sangue pela claridade de uma fresta.
Teve horas para pensar, ser humilde e orar.
Mas não fez. Desperdiçou esse tempo gritando e xingando o marido, culpando-o por estar ali.
Desencarnada, sofreu muito.
Depois encontrou novamente a família e, quando William quis refazer sua vida, revoltou-se.
Aprendeu e se empenhou em tudo o que era errado.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 24, 2017 10:23 am

Atraiu energias funestas da própria catástrofe onde desencarnou e, junto com mentes que se unem para o mesmo fim, conseguiu espalhar essas sombras por este lar.
Aprendeu rápido a usar a mediunidade dos dois, principalmente de Danielle, desestruturada emocionalmente por tantos acontecimentos tristes em sua vida, devemos levar
isso em consideração.
Sem piedade, Desirée ataca a mulher de William como pode.
Só não o fez mais porque Danielle foi protegida por vibrações e energias recebidas de grupos espirituais que buscam socorrer e impedir irmãos de serem abortados por suas mães.
Se não fosse por eles, acredito que Danielle não resistiria aos ataques que vinha sofrendo.
- Além disso, ela se fortaleceu com a ajuda e a orientação que recebeu no grupo espírita.
Mas deixou de frequentá-lo e abandonou tudo - explicou outro.
- Realmente. Quando tudo melhora, ninguém se lembra de Deus - tornou Evandro.
Agora se expõe a um novo ataque.
Apesar de ter percebido e intuído a aproximação de um abalo, William não se força para decidir o que fazer.
- Quando mudarem, tudo vai melhorar? - perguntou Filomena.
- A princípio, sim.
O ambiente é novo, as energias serão novas.
No entanto, se não se protegerem, se não protegerem o lar, acredito que, em pouco tempo, essas energias trevosas e densas também serão plasmadas nas paredes e em tudo mais no novo lar.
Os lugares infernais surgem pelos pensamentos, lembremos disso - respondeu Evandro.
Ficaremos por aqui para observar e ajudar conforme for possível.
- O Raul tem grande influência e ligação com Danielle.
Ele poderia inspirá-la e instruí-la - opinou Armando.
- Ele pode isso e muito mais.
O Raul tem autoridade sobre Desirée.
Além de outros atributos.
Como espírito amigo, pode realizar muitas coisas.
Embora Raul seja elevado, espiritualmente, ainda não se sente preparado.
Se ele aceitar o desafio e não estiver bem, a situação vai ficar pior e tudo sairá do controle.
- Ele ama muito a Danielle - tornou Armando.
- Amar não é o problema e sim como ele vê esse amor.
Vivi experiência assim e não fui tão forte como ele.
Sofri muito. Provoquei sofrimento.
Demorei a me recuperar. Sei o que é isso.
Foi por essa razão que, como mentor de Raul, vi que ele estava preparado e, ainda encarnado, deixei-o tomar conhecimento do passado e ver que interferiu na união de Danielle e William.
Por isso, de certa forma, foi ele que provocou o reencontro dos dois na actual encarnação.
Se não estivesse doente e ela não procurasse ajudá-lo...
Raul entendeu e aceitou. Até aí.
Foi muito bom, pois, desencarnado, não entrou em choque ao saber que os dois estavam juntos.
Sabe que se amam e se dão bem, apesar da tenebrosa obsessão de Desirée.
Mas não se sente preparado para vê-los juntos, muito menos, para actuar em favor do casal.
Vamos aguardar, sempre prontos para ajudar.
* * *
Ao se deitar, William percebeu que a esposa ainda estava muito triste.
Não quis jantar e pouco conversaram.
Arrependido, acomodou-se ao seu lado e recostou o rosto em seu ombro, abraçando-a.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 24, 2017 10:23 am

- Está dormindo? - perguntou sussurrando, mesmo sabendo que não.
- Não.
- Você está bem?
- Estou.
- Desculpe-me por ter contado aquilo.
- Deve ter pensado que eu era uma sem-vergonha, uma mulher muito baixa.
- Não. Não foi isso o que pensei.
Tanto que quis me casar com você.
Jurei, a mim mesmo, que jamais contaria sobre aquela noite.
Mas não consegui me calar, porque você começou a gritar, me acusando e agredindo.
Mostrou que não confiava em mim e eu quis provar que deveria.
A mulher não disse nada e ele pediu com jeitinho:
- Vem cá. Vira. Olha pra mim.
Ela se ajeitou e o marido falou em tom generoso:
- Não fique assim. Foi até engraçado!
- Ora, Will! Por favor!
- Foi sim! Você ficou alegre demais - sorriu.
- Nunca fui de beber muito.
Nunca bebi daquele jeito.
Não sei por que fiz aquilo. Perdi o controle.
Não me lembro exactamente de nada.
Quando nós caminhávamos às margens do Sena, naquele dia, tive a impressão de termos nos beijado.
Mas não tive certeza.
Era uma imagem, uma lembrança vaga...
Pensei que tivesse sonhado.
Eu não poderia lhe contar isso.
Você me tratava de modo tão normal.
Não tentou se aproximar.
Acreditei que, se tivéssemos nos beijado, trocado carinho, você iria tentar continuar depois.
Mas não.
Alguns segundos e comentou:
- Devo ter parecido uma vadia.
- Não diga isso.
Se eu achasse que fosse, não teria me casado com você.
- Estou me sentindo tão mal.
- Isso passa - disse afagando seu rosto com carinho.
- Vamos esquecer tudo.
- Não consigo.
Fico tentando imaginar como eu agi, o que falei...
Você me disse que eu contei toda a minha vida.
O que eu falei? - interessou-se.
- No começo me contou sobre factos da sua infância.
Que brigou na escola com sua melhor amiga.
Falou muito sobre se dar bem com os seus irmãos e ficar triste pelo facto dos dois terem algumas diferenças entre eles.
Eu não sabia que o Guilherme não se dava bem com o Kléber.
Você disse que isso foi porque seu pai deu mais apoio ao Kléber.
Por isso o Guilherme foi estudar fora e não voltou mais.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:39 am

Depois o seu pai se arrependeu.
Queria que retornasse para o Brasil e ele não quis, pois estava estabilizado e bem sucedido.
- Jura que eu contei isso? - perguntou algo decepcionada.
O que mais?
- Vamos esquecer.
- Como foi que eu tirei minha roupa?
- Ora, Dani! Por favor!...
Surgiu um clima romântico entre nós e...
Você não tirou toda a roupa.
Quer que eu conte para depois ficar chateada?
- Eu quero saber!
Devo ter agido como uma...
- Não agiu como nada.
Você foi você.
- Não agi como eu.
Tirei a minha roupa.
Não faço isso.
Ele ficou quieto e ela pediu:
- Como foi? O que eu disse?
- Bem... Você insistiu muito para saber se eu me interessei por outra.
Fez mil perguntas.
- E você?
- Eu respondi que, até aquele dia, não havia me envolvido nem me interessado por ninguém.
Porque, naquele dia, comecei a admitir que estava gostando muito de você.
Então nos abraçamos e nos beijamos.
Como eu disse, surgiu um clima romântico.
Sua camisa desabotoou, a princípio, sozinha e você fez o resto.
Depois tirou minha camisa e... Eu deixei.
Também havia bebido e...
- Havia bebido, mas não foi em frente.
Estava consciente o suficiente para...
Não me lembro absolutamente de nada.
Que vergonha!
- Vergonha, por quê?
Sou seu marido!
- Mas não era.
- Você brincava, ria, me fez rir.
Estava sedutora.
Adorou ouvir eu dizer que estava gostando muito de você.
Percebi que agia daquele jeito, provocante, por causa do vinho.
- Como pôde ter certeza?
- Porque, em meio a tudo o que falou e fez, eu lhe fiz muitas perguntas.
Você respondeu.
Sou bem experiente para saber quando uma mulher está sendo safada ou ingénua.
Você nunca fez aquilo nem com o seu marido, pois contou como tudo aconteceu com vocês.
- Ah... não... - sussurrou.
O que eu contei?
- Tudo. Por isso queria uma experiência nova comigo.
Para esquecê-lo.
Nunca teve outro homem e queria saber como era.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:40 am

Ele foi seu namoradinho desde o colégio.
Só oficializaram o romance bem depois, quando se descuidaram e pensou que estivesse grávida, mas foi alarme falso e as famílias nem ficaram sabendo.
- Pare, Will! Pare!
Eu não posso ter lhe contado tudo isso!
- Pois contou.
Breve pausa e argumentou:
- Bem que eu não queria lhe dizer nada.
Foi você quem insistiu.
Sabia que não ia gostar de ouvir.
Vendo-a amargurada, pediu carinhoso, enlaçando-a:
- Vem cá. Esquece tudo isso e confie mais em mim.
Abraçando-o e correspondendo ao carinho, ainda perguntou:
- O que mais ou o quanto mais eu falei sobre mim e o Raul?
- O suficiente para eu saber que a nossa vida é melhor.
Que posso fazê-la mais feliz do que já foi, apesar de terem vivido bem.
- Eu queria saber mais uma coisa.
Ele ficou aguardando e a esposa perguntou:
- Você disse que não houve nada entre nós e nos beijamos, nos abraçamos.
Quando ficou hospedado no hotel, dividindo o mesmo quarto com a Charlaine, disse que não aconteceu nada.
Chegaram a se beijar?
William teve vontade de afastá-la de si, por insistir em coisa tão absurda.
Mesmo insatisfeito, procurou entender e respondeu:
- Não. Não me aproximei dela.
Eu nunca teria qualquer tipo de romance ou envolvimento com uma secretária, principalmente, estando casado.
Depois ela continuaria trabalhando para mim e eu teria de encará-la, todos os dias, e me lembrar do que aconteceu.
Eu não sou esse tipo de homem.
- O George tem uma amante.
- Ele é ele! Não nos confunda.
Alguns instantes e contou:
- Quando eu era pequeno, vi o quanto minha mãe sofreu por causa das mulheres com quem meu pai se envolvia.
Minha mãe podia ter os seus defeitos, mas não merecia aquilo.
Ele era um homem rígido connosco, rigoroso.
Eu tinha muito medo dele.
- Por quê?
- Ele me agredia. Criticava-me muito.
Eu não podia tirar notas baixas, não podia chegar machucado por causa de alguma briga, não podia ir mal em um simples jogo de futebol, que ele me batia.
Batia muito. Talvez por isso não goste de futebol.
Estávamos muito bem de vida. Ricos.
O meu pai desperdiçou muito dinheiro com mulheres.
Nunca aprovei isso.
Sou o caçula, você sabe.
Quando eu tinha dez anos, minha mãe descobriu que ele tinha outra família.
Tenho dois meios irmãos com quase a minha idade.
- Onde eles estão?
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:40 am

- Não sei por onde andam.
- Você nunca me contou isso, Will.
- Não gosto de falar no assunto.
Minha mãe descobriu a outra família e ele foi embora, morar com os outros filhos e com a mulher.
Alguns anos depois, quando o meu pai ficou doente, a mulher não quis cuidar dele. Nem minha mãe.
O meu irmão, que é dez anos mais velho do que eu, decidiu internar o nosso pai em uma clínica e eu o ajudei, ou melhor, acompanhei.
E nosso pai ficou lá por um ano, até morrer.
Tudo o que tínhamos foi dividido entre os seus cinco filhos.
Os meios-irmãos receberam a parte que lhes cabia e sumiram.
Minha irmã...
Não sei o que fez com sua parte.
Meu irmão empregou o que tinha no hotel.
Fez o melhor para ele e a esposa.
O Phillip tinha vinte e seis anos e acabado de casar.
A Victória estava de casamento marcado.
- E você?
- Eu tinha dezasseis anos.
Minha mãe guardou parte do que era meu por direito e a outra parte investiu nos meus estudos.
Por isso estudei nos melhores lugares.
Era muito dinheiro.
- Quando conheceu o Edwin?
Você nunca me contou direito.
- Em Londres. Na escola - sorriu ao se lembrar.
Ele foi transferido de uma escola da França para Londres e estava muito atrasado nos estudos e eu, bem adiantado.
Por ser bem mais velho que os demais, o Edwin não fazia muita amizade.
Por outro lado, eu era bem reservado, principalmente, por causa de tudo o que meu pai fazia.
Não tinha muitos colegas.
Tornamo-nos amigos, com o tempo.
Não nos largamos mais.
Depois fizemos Oxford juntos.
Ao terminar a faculdade, viajamos pelo mundo por um ano.
Conhecemos muitos lugares.
Ao retornar, fizemos uma pós-graduação, em Merton.
Em seguida, Mestrado em Harvard. Voltei.
Comecei a trabalhar em uma empresa de construção naval.
A mesma área do meu pai.
Eu já conhecia a companhia aérea e o Edwin me chamou lá para pedir minha opinião em alguns assuntos e...
Nem sei direito como foi.
Tudo aconteceu rápido.
O senhor Óscar me convidou...
Deixei a construção naval e comecei a trabalhar na companhia aérea.
- Foi então que conheceu a Desirée?
Ou a conheceu antes?
- Eu a conheci quando o meu pai morreu.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:41 am

O Edwin, junto com seu pai, compareceram ao velório e ao enterro.
Nessa ocasião, o Edwin insistiu para que eu ficasse alguns dias na casa deles, aqui em Paris.
Aceitei e a conheci lá.
Depois a vi algumas vezes na empresa.
- Quando começaram a namorar?
- Eu já trabalhava na companhia há um ano.
Foi assim que assumi o cargo de director.
O assunto começou a ficar incómodo, mas ele não disse nada.
A mulher continuou:
- Quanto tempo vocês namoraram?
- Quatro anos.
- Ela não gostava da Charlaine.
Tinha ciúme dela, não é?
- A Desirée não gostava de nenhuma mulher.
Até da própria mãe ela tinha ciúme.
Quando pensou que a esposa havia esquecido o assunto...
- Onde foi que a Charlaine dormiu, quando dividiu o quarto com ela?
- Dani! Que absurdo!
Zangado, respondeu:
- Eu cedi a cama para ela e deitei no sofá da sala de estar da suíte, que era bem grande!
Encarando-a, insatisfeito, perguntou:
- Aonde quer chegar com suas perguntas sem cabimento?
Só está me deixando chateado!
O espírito Desirée envolvia Danielle, que aceitava as suas ideias e sugestões.
Ela sabia exactamente o que irritava William.
- Eu só queria saber o que aconteceu.
Eu não ia gostar de olhar para a sua secretária e saber que dormiram juntos.
Fico com dó da Lisie por saber o que o George faz.
- Talvez seja conveniente para a Lisie.
O casamento deles foi de interesse mútuo.
Ela sabia, muito bem, o tipo de homem que ele era.
- O Edwin era mulherengo e muito! Hoje, veja como ele e minha irmã se dão bem.
- Eu o conheço bem e há muitos anos.
Isso acontece porque o Edwin não encontra motivos para procurar outra mulher.
Tudo o que ele quer encontra na esposa, no casamento.
- A Nanei não é tão bonita assim.
- Porque você está procurando ver a beleza física. Agora...
Vamos dormir.
Preciso levantar cedo.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:42 am

17 - O auxílio de Raul

Os dias que se seguiram exigiam empenho e atenção de Danielle para a equipe de decoração no novo apartamento.
Todo estresse e cansaço apresentados eram atribuídos a isso.
Ao chegar onde residiam, William procurou pela esposa e a encontrou no quarto, vestida com um roupão e deitada sobre a cama assistindo à televisão.
- Oi. Tudo bem? - perguntou beijando-a.
- Tudo. Recebeu o meu recado?
- Sim. A Charlaine me falou que precisou sair mais cedo.
- Fui falar com o arquitecto para tirar aquele biombo do closet.
Ficou horrível. Por não conseguir vê-lo, na semana passada, precisei sair mais cedo hoje.
William havia se sentado na cama e, diante dela, só observava.
Percebendo-o quieto, quis saber:
- Está tudo bem?
- Sim. Quer dizer...
Estou um pouco sobrecarregado e... - encarando-a, contou:
- A Inglaterra fez nova convocação de reservistas para a Guerra do Iraque.
Mais soldados serão enviados para lá.
Depois que os Estados Unidos entraram em Bagdad... - calou-se.
- Você foi convocado? - perguntou, assustada, sentando-se rápido.
- Desta vez não.
Contudo creio que não vão demorar a me chamar.
Ela aproximou-se dele e o envolveu, dizendo:
- Não vão convocá-lo. Tenho certeza.
Essa guerra vai acabar logo.
Na espiritualidade, Desirée aterrorizava William com pensamentos trágicos:
- Você vai para a guerra!
Enfrentará matança e destruição!
Verá gente morta, ensanguentada, sem membros...
Soldados estarão caídos ao seu lado.
Todos rasgados e precisando de socorro e não poderá fazer nada.
Vai enfrentar a morte.
Ficará ferido e sozinho, sangrando até a morte.
Como eu! É horrível!
Horrível ver sangue e ter dor!
William sentia-se mal com as imagens que se montavam em sua mente.
- Se for pego como prisioneiro de guerra, será torturado!
Vão feri-lo e sangrá-lo e não vão matá-lo rápido não! - continuava Desirée com cenas de horror e energias destrutivas que aproveitava da tragédia que experimentou.
O mentor de William se aproximou e com a ajuda do espírito Evandro e seu grupo envolveram seu pupilo com energias mais saudáveis, tentando mudar seus pensamentos, fazendo-o reagir.
Abraçando a esposa com toda a força, William escondia o rosto em seus cabelos, pretendendo fugir da realidade.
Afastando-se um pouco, Danielle acariciava-lhe o rosto e dizia:
- Fique tranquilo.
Você não será chamado.
- E se eu for?
Tenho que encarar os factos.
Nunca gostei de violência, nem em filme.
Para ser sincero, estou com medo.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:42 am

O telefone tocou.
Ele a beijou e se levantou para atender.
Era Nanei querendo falar com a irmã.
Ele passou o aparelho para a esposa e foi tomar um banho relaxante.
Quando voltou, Danielle ainda conversava com a outra de modo que não tinha como não ouvir.
Curioso, ao vê-la terminar, perguntou:
- Disse a sua irmã que foi ao médico ou foi impressão minha?
Falavam tão rápido.
- Disse sim.
Aproveitei ter saído mais cedo e fui ao médico também.
- Aqueles sintomas estranhos voltaram, não é? Eu percebi.
- Às vezes sinto aquele cansaço.
Não de forma tão intensa como antes.
Mas não foi por isso que agendei a consulta.
- Foi por que, então?
- É que eu parei de tomar o contraceptivo e, até agora, nada.
Queria saber se está tudo bem.
Vendo-o quieto, interrogou:
- Já falamos sobre isso, não é?
Ficou tudo bem para você, não?
- Eu não sabia que estava se empenhando.
Não me disse nada sobre parar de tomar o remédio nem ir ao médico.
- Você falou que não me acompanharia.
- Também não é assim.
Posso ir com você às consultas simples.
Aliás, eu quero ir.
Deveria ter me avisado.
Não vou abandoná-la.
Breve instante e perguntou interessado:
- O que ele disse?
- Que estou ansiosa, pois ainda é cedo.
Parei de tomar o remédio há pouco tempo.
Ele sorriu e reclamou, beliscando seu nariz:
- A senhora não será mãe solteira, viu, senhora Phillies!
Quero ficar sabendo de tudo! - Ela nada disse.
Somente sorriu.
Em seguida, comentou:
- Dani, fui ligar a televisão da sala e não está funcionando.
- Esqueci de contar.
Acho que queimou.
- Tudo está queimando nesta casa.
Ontem foi a esteira, hoje cedo o forno. Agora a TV.
- Eu sei. O microondas também.
Além da cafeteira e das lâmpadas do hall.
Acho que tem algum problema com a parte eléctrica.
Ainda bem que vamos mudar.
- E se não for isso?
Talvez esteja acontecendo o mesmo de antes.
Você não acha que seria bom voltarmos a frequentar as orações no grupo espírita?
- Quase não tenho tempo, Raul.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:42 am

- William! O meu nome é William! - gritou, assustando-a.
Que droga!!! - irritou-se, indo para outro cómodo.
Sem que visse, ela chorou escondido.
Não sabia o que fazer.
Pouco depois, ele voltou avisando:
- O Pierre ligou e me chamou para um drinque no clube.
Vou até lá.
- A essa hora?
- Não vou demorar.
Pegando uma jaqueta, saiu sem beijá-la, sem se despedir.
O que foi muito estranho.
Uma angústia tomou conta de Danielle, pois ficou ruminando ideias a respeito de traição.
Por causa das propostas do espírito Desirée, acreditava que William estava se afastando e procurando outra mulher.
Amargurada, foi se deitar, não deixando de pensar no assunto.
Era tarde quando o marido retornou.
Ela não disse nada, fingindo dormir.
Esperando ele pegar no sono, levantou-se, dirigiu-se ao closet do quarto do casal e remexeu seus bolsos, cheirou suas roupas, vasculhou ligações em seu celular e itinerários no GPS.
Como já havia feito de outras vezes.
Apesar de não encontrar nenhuma novidade, nem mesmo cheiro de perfume de mulher, não se sentia segura.
* * *
O dia de mudança estava agendado.
Mesmo com tantos afazeres em sua vida particular, William era obrigado a comparecer a reuniões sociais, eventos e jantares.
o retornar de um deles, reclamou furioso:
- Nunca mais me chute por debaixo da mesa!
Muito menos me belisque!
- Você quase caiu no decote da Mary!
Pensa que eu não vi?!
- Ficou louca?!
Acha que eu faria um absurdo desse na sua frente e do marido dela também?!
- Você olhou! Eu vi!
- Com certeza, está vendo coisa que não existe!
- Aliás, não foi só para ela que ficou olhando!
Vi rindo, todo cheio de gentilezas com as outras, principalmente, para a mulher do presidente daquela empresa lá, que nem sei o nome!
- Sempre fui educado e gentil com todos!
Não me acuse de nada mais, além disso.
Da próxima vez que me beliscar ou me chutar...
- O que você vai fazer?! - interrompeu-o, enfrentando-o rispidamente.
- Nunca mais a levo para jantar ou para evento algum!
Você foi ridícula! Até o George percebeu o que estava fazendo!
- Ridícula coisa nenhuma!!!
- Fale baixo! - exigiu.
Só porque aqui é uma cobertura, não pense que os vizinhos de baixo não podem ouvir e saber que aqui mora alguém sem controle!
Se não me respeita, respeite a si mesma!
- Você me chamou de ridícula!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:43 am

- Para a sua idade, para a sua formação, por ser a esposa do vice-presidente da empresa, você foi muito ridícula e infantil sim!
A sua beleza, a sua elegância, o seu charme você jogou no lixo com aquele comportamento idiota!
Parecia uma criança mimada!
- Não fui criança!
Sou uma mulher madura e defendo o que é meu!
- Ah! É?!
Chutar é atitude de criança!
Beliscar é atitude de criança!
Ficar emburrada é postura infantil!
Você não era assim, Danielle!
O que aconteceu?!
Onde está aquela mulher segura e amável que eu conheci?
Aquela mulher ponderada e racional que conversava, educadamente, para resolver uma questão. Onde está?!
- Você me dá motivos para agir assim!
- Que motivos?!
Se o facto de eu conversar e sorrir para outra for motivo de brigar comigo, você precisa de tratamento psiquiátrico!
- Você se engraçou com a Mary!
- Conversávamos e ela contou coisas engraçadas!
Não posso rir?! Rir a incomoda?!
Por quê?! Pense, por quê?!
Não lhe dou motivo!
Estou sempre ao seu lado!
Se fosse para alguém ter ciúme, aqui, esse alguém seria eu!
Pensa que não reparo o quanto o Pierre, o Jean, o Mark e os outros ficam olhando para o seu corpo, para o jeito como fala, como sorri!...
- Você não me ama!
Por isso não tem ciúme!
- Ciúme nunca foi sinónimo de amor!
Ciúme demais é insegurança! É infantilidade!
Desirée envolvia Danielle que, cada vez mais insana e furiosa, indignava o marido.
- Você ficou olhando o decote de Mary!
Da próxima vez vou com um igual!
Aproximando-se, falou firme, sem gritar:
- Você é muito bonita. Isso é um facto.
Sei que os outros a olham por isso.
Eu até me divirto com a situação.
Porém você não é leviana e não vou admitir que seja, enquanto estiver comigo.
Eu tenho carácter, bom senso e vou exigir isso de você, Danielle.
- Quem sabe, com um vestido daqueles, olhe mais para mim! - reclamou sem se importar com o que ele falou.
- Vi o quanto gostou daquele decote!
Estava bonito, não estava?!
Irritado, não suportando mais a situação, decidiu ser irónico:
- Quer saber?! Estava!
Estava sim!!!
Sem que esperasse, Danielle deu-lhe forte tapa no rosto.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:43 am

Incrédulo, parou e olhou fixo para a esposa que ameaçou bater-lhe novamente.
Rápido, o marido segurou seu pulso e apertou-o com vigor.
Ela tentou reagir.
William agarrou o outro braço com a mesma intensidade.
Empurrando-a com força, fez com que andasse de costas até a cama do casal, onde a jogou.
William estava transtornado.
Tremia visivelmente.
Com a voz grave e muito abalado, falou pausadamente, exprimindo raiva:
- Nunca dei motivo para uma mulher me agredir.
Estou decepcionado com você.
Dizendo isso, virou-lhe as costas e foi para o closet.
Não demorou e, quando voltou, ela percebeu que havia trocado de roupa.
Sem dizer nada, procurou as chaves do carro, apanhou uma jaqueta e saiu.
Danielle sentiu o coração oprimido e uma amargura infindável.
Não entendia porque tinha feito aquilo.
Nada justificava tê-lo agredido. Sabia.
Arrependeu-se e, ainda vestida lindamente, ficou de bruços sobre a cama.
Num impulso, levantou-se, pegou o telefone e ligou para Maria Cândida.
- Dani! O que foi, filha?! - surpreendeu-se ao reconhecer o nervosismo em sua voz.
Danielle contou-lhe tudo.
Estava confusa e não sabia o que fazer.
- Não sei para onde ele foi.
Não disse nada.
- Você sabe que errou.
Errou feio, Dani! - repreendeu-a.
- Não sei o que está acontecendo comigo - lamentou.
- Quando alguma coisa a desagradar, com referência ao ciúme, antes de agir ou falar, pergunte-se:
porque e para que vai agir de tal forma ou dizer alguma coisa.
Quando envolve ciúme, o primeiro impulso sempre está errado.
Raciocine e veja se o que vai fazer não vai afastar o seu marido de você.
Acha que ele quer ser ofendido, beliscado, chutado?
Acha que ele quer uma mulher emburrada ao lado?
Se pensa isso, está muito enganada.
Se reagir com palavras rudes e acusadoras, vai deixá-lo insatisfeito.
Agredi-lo fisicamente, como fez...
Nossa, Danielle! Isso foi o fim da picada!
- O Will nunca saiu de casa...
- Terá de reconquistá-lo.
Ser humilde e pedir desculpas.
Só que terá de se desculpar mesmo!
Não agindo assim nunca mais.
Tem ideia de onde ele possa estar?
- Não. Se eu ligar, ele vai ver que sou eu e não vai atender.
- Fique na linha.
Ligarei para ele e perguntarei onde está.
Ouça o que digo e vá encontrá-lo conforme for.
Mas não conte o que combinamos.
Maria Cândida sentiu-se como se estivesse aconselhando Desirée.
Achou estranho, mas não disse nada.
Pegou o celular e ligou para William, que atendeu.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:43 am

E Danielle ficou ouvindo o que ela falava.
- Will, tudo bem?
- Quase tudo.
- A Dani me telefonou e contou o que aconteceu.
- Ela não deveria incomodá-la.
- É que está arrependida e insegura.
- Nada justifica o que ela fez.
Não vou tolerar isso.
- Onde você está, filho?
- No apartamento novo.
- Você está no apartamento novo? - repetiu para que Danielle ouvisse.
Imediatamente a moça desligou e foi para lá.
Enquanto isso, a senhora continuou:
- Não há quase nada aí, Will!
Está frio. Volte para casa.
- Não. Tem um bom sofá aqui.
É melhor a Dani ficar sozinha para que reflicta um pouco.
Ela precisa admitir que errou e mudar o comportamento.
- Vocês precisam conversar com calma.
A reforma, a mudança, está stressando os dois.
- Já falei tudo o que precisava.
Estou cansado de suas crises de ciúme, de me chamar de Raul...
- Como assim? - surpreendeu-se.
William contou o que aconteceu, finalizando:
- Respeito a memória do Raul, mas não vou admitir isso.
Parece que ela faz de propósito.
- Filho, com certeza isso é espiritual.
- Espiritual ou não, estou cansado.
Cheguei ao meu limite.
Um barulho na porta principal chamou sua atenção.
Ao ver Danielle, comentou:
- Ela está aqui.
Preciso desligar.
Muito magoado, ficou parado olhando para a esposa que foi ao seu encontro, abraçando-o.
Após um minuto, ele tirou as mãos que o envolviam e, calmamente, afastou-se, perguntando:
- O que você quer?
- Pedir desculpas - falou magoada consigo mesma, quase chorando.
Errei muito. Nunca deveria ter feito aquilo e...
Eu te amo, Will! - lágrimas corriam em seu rosto ao pedir:
- Volta para casa!
Firme, inflexível, disse calmo:
- Não. Por hoje não.
Volta para casa, você.
Amanhã nós conversamos.
- Você não vai fazer isso comigo!
- Vou. Amanhã conversamos - tornou no mesmo tom.
- Ficarei aqui. Volte para casa.
Danielle sentiu-se arrasada, envergonhada e ferida.
Estava linda naquele vestido vinho.
Os cabelos ainda alinhados e adornada com jóias caras.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:43 am

Mesmo assim, com toda sua inegável beleza, não convenceu o marido.
A esposa aproximou-se.
Tentou tocar-lhe o rosto, mas ele repeliu o contacto e insistiu:
- Vá para casa, Danielle.
Vendo-se derrotada, virou-se e se foi.
Na manhã seguinte, ela acordou com um barulho vindo do closet e depois do banheiro.
Logo viu William arrumado, no quarto, pronto para sair.
Olhou-a por um segundo, não disse nada e se foi.
Sentando-se na cama, sentiu-se indisposta, tonta.
Consultando o relógio, viu que estava perdendo a hora.
Quando pensou em chamá-lo, ouviu a porta principal bater e entendeu que já havia ido.
Ao tentar se levantar, passou muito mal.
A cabeça pesada doía muito.
Uma indisposição a dominava.
Forçou-se a ficar em pé e, apesar do atraso, decidiu tomar um banho para se recompor.
No chuveiro, notou manchas escuras na parte interna dos braços, nas pernas e na barriga.
- Meu Deus! O que é isso?!
Não havia respostas.
Foi difícil encontrar forças para pegar um roupão e um torpor a dominou.
Na empresa, William procurou se concentrar no trabalho e esquecer seus problemas particulares.
Após uma reunião, conversava com sua assistente e lhe dava algumas ordens, quando Charlaine perguntou:
- Você está bem?
- Um pouco cansado.
Não dormi direito.
- Quer um café?
- Quero sim. Obrigado.
- Como sempre?
- Não. Com açúcar - riu.
A vida está muito amarga.
A secretária levou-lhe um café e comentou:
- Você parece nervoso.
- Essa maldita Guerra do Iraque me deixa nervoso.
Posso ser convocado, você sabe.
Além disso, a política no mundo, as ações despencando, a companhia aérea com menos movimento por causa dos atentados, o turismo caindo...
Tudo me deixa nervoso.
Como se não bastasse, a Dani... - silenciou.
- Ela está bem melhor, não está?
- Está - suspirou fundo.
- Por que ela não veio hoje?
Está cuidando da mudança?
- Ela não veio hoje?! - ele se surpreendeu.
- Não. Você não sabia?
- É que...
Estávamos atrasados e eu vim na frente.
Pensei que ela tivesse chegado logo atrás de mim.
O que será que aconteceu?
- Algum problema, de última hora, com a mudança.
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Ave sem Ninho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:44 am

Ela estava bem agitada nos últimos dias.
Quer que eu ligue para ela?
- Não. Daqui a pouco eu mesmo ligo.
- Antes que eu esqueça, o senhor Óscar pediu para avisá-lo que aquela rede de TV norte-americana fechou com a nossa companhia.
Todas as viagens para os seus jornalistas, repórteres e outros, para a Europa e lugares mais próximos para a cobertura da Guerra, serão connosco.
Disse que era para você ligar para o director e marcar um jantar para ver como poderão, no meio de alguma cobertura, fazerem com que nossos aviões saiam no fundo das filmagens.
- Ah, não! Estou cansado de jantares.
Ontem mesmo... - deteve as palavras.
Por que ele não manda o George?
Droga!
Charlaine estava ao seu lado recolhendo alguns papéis assinados e, inesperadamente, passou-lhe a mão no ombro, quase lhe massageando e, sorrindo, disse:
- Calma. Não se stresse.
Sabe por que o senhor Óscar não manda o George representá-lo.
William virou-se para o lado e estranhou a atitude da secretária.
Porém, ao encará-la, observou-a agindo normalmente, como se nada tivesse feito, como se aquilo fosse algo corriqueiro.
Vendo-a sair, virou-se, pegou o telefone e ligou para casa.
Mas não foi atendido.
Tentou o celular da esposa e nada.
Quando olhou para frente, George achava-se parado, esperando sua atenção.
- Nossa! Não o vi entrar! - exclamou, franzindo o rosto.
- A Danielle faltou novamente.
- Bom dia para você também George - criticou em tom insatisfeito.
- Ela está doente de novo?
- Não. Por quê?
- Porque sua esposa não está sendo um bom exemplo para os outros funcionários.
Não estou gostando disso.
- Demita-a! - falou de forma rude.
- Se ela continuar assim...
- Se ela faltou, até agora, teve justificativa médica.
Hoje, excepcionalmente, não sei por que não veio.
Não entendo por que a Danielle o incomoda tanto.
Porém, se fará bem a você vê-la longe daqui, demita-a.
Ela não precisa do emprego!
- Eu só quero que você entenda que ela não é um bom exemplo, se continuar assim.
Só porque é mulher do vice-presidente, não pode...
- Por favor, George!
Apesar dessa não ser sua função, vai em frente!
Nem precisava falar comigo! Demita-a!
- O que deu em você?!
- Tenho muita coisa para fazer agora.
Não quero perder tempo com banalidades.
Preciso dar alguns telefonemas.
Se não se importa...
Ao ver o outro virar as costas, lembrou:
- George, preciso dos relatórios do seu departamento para a declaração da empresa. Não atrase!
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Ave sem Ninho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:44 am

- Esse não é o seu serviço!
Deixe para a contabilidade.
- Quero acompanhar tudo. É só.
George o fuzilou com o olhar.
Não disse mais nada e saiu.
Novamente William tentou telefonar para a esposa, mas não conseguiu falar com ela.
Não era atendido.
Chamando sua assistente, pediu:
- Charlaine, tente localizar a Dani para mim.
Talvez ela esteja com a irmã.
A Nanei está em Paris, só que eu não encontro o telefone dela.
Tente também a dona Maria Cândida.
Ela deve saber da Dani.
Antes do almoço, a secretária retornou:
- William, ninguém viu ou falou com a Danielle.
Nem mesmo na portaria do seu prédio.
- Você ligou para a portaria?
- Liguei. Não a viram sair hoje e o carro está na garagem.
- Cancele meus compromissos para esta tarde.
Estou indo embora - disse, levantando-se e pegando o paletó.
* * *
Chegando preocupado ao apartamento, procurou pela esposa e a encontrou caída na suíte do casal, vestida com o roupão que usou após o banho e segurando o celular em uma das mãos, pois tentou ligar para alguém, mas não conseguiu.
- Dani?! Dani?!
Pegando-a, colocou-a sobre a cama e procurou animá-la.
Ela queimava em febre. Abriu os olhos por alguns segundos e fechou-os novamente.
- Dani, reaja, vai!
Vamos por uma roupa...
Indo até o closet, voltou com um vestido.
- Vamos por isso. Vou levá-la ao hospital.
Danielle quase não reagia. Não tinha forças.
Ao tirar seu roupão, o marido se assustou com as manchas roxas em seu corpo.
- Meu Deus! Dani, o que é isso?
Também não teve resposta.
Imediatamente a levou para o hospital.
A febre era muito alta e o médico a internou para mais exames.
Uma semana depois, a mudança acontecia e William precisou cuidar de tudo sozinho.
A esposa ainda estava internada.
Vários exames foram feitos para diagnosticar a causa da febre e das manchas.
Nenhum resultado foi satisfatório.
- Você vai visitá-la hoje? - perguntou Charlaine.
- Claro. Vou sim.
- Que estranho, William.
A Danielle parece uma pessoa saudável.
Pensou em mudá-la de hospital?
- Os médicos que cuidam dela são muito bons.
Fizeram vários exames, entre eles de meningite e até câncer, mas, graças a Deus, não encontraram nada.
Não sabem o que ela tem. A febre é diária.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:44 am

Todo final de noite e madrugada.
Ela está muito fraca, abatida.
Ele parou, ficou pensativo, depois desabafou:
- Eu só queria um pouco de paz.
Descobri que o dinheiro pode comprar tudo, menos a harmonia e a tranquilidade.
Não adianta ter o que tenho, conquistar o que conquistei e não ser feliz.
Pensei que me casando com ela minha vida seria melhor, mais completa.
A Dani é uma mulher inteligente, ponderada.
Alguma coisa deu errado e eu não sei o que foi.
Quando ela não está doente, tem crises insuportáveis de ciúme.
- A Danielle, ciumenta?!
- Você nem imagina.
Aliás, nem eu imaginava.
Em matéria de ciúme, ela conseguiu ser pior do que a Desirée.
- Está brincando?! - alarmou-se a outra.
- Não. Não estou brincando.
Estou decepcionado.
No último jantar que fomos...
William contou sobre o tapa que a esposa lhe deu e a outra ficou incrédula.
- Foi por isso que vim trabalhar sem ela.
- A Danielle é tão bonita, inteligente.
Não precisa ser insegura.
- Não é a beleza de uma mulher que prende o homem, é sua auto-estima, seu amor próprio, a segurança em si mesma.
Além disso, a calma, a tranquilidade ao falar, ao se expor, o jeito amável e alegre são atributos indispensáveis.
Tendo isso, uma mulher pode, sutilmente, conseguir tudo de um homem, principalmente, fidelidade.
Estou muito surpreso por ela agir dessa forma.
A Dani não era assim.
Charlaine passou por trás dele e afagou-lhe o ombro, dizendo:
- Calma. É só uma fase.
Ele não disse nada.
Só a observou e achou sua atitude, novamente, estranha.
Na espiritualidade, para surpresa de Evandro e Filomena, Raul se juntou a eles e começou a observar, aproveitando todas as informações que tinha.
Foi o espírito Carina, mentora de Danielle, quem se dispôs a actualizá-lo.
- As energias com que Desirée envolve minha pupila são muito densas.
Danielle não colabora.
Não edifica as ideias e não dilata as próprias forças redentoras.
Temo por ela.
Por outro lado, Desirée não busca a paz e não esquece o mal.
Sua ligação com a energia da catástrofe, onde desencarnou, é bastante forte.
- Será que consigo ajudar? - perguntou Raul.
- Se não for você, não sei quem pode conseguir.
Venha comigo - pediu Carina.
Aos poucos, como pode ver, Desirée se aproveita de todas as oportunidades para separar os dois.
Agora investe em Charlaine, a fim de vê-la seduzir William.
Ao mesmo tempo o deixa atordoado.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Mar 25, 2017 10:45 am

Olhe aquele espírito.
Sua última encarnação foi uma mulher de pouca moral.
Ela foi secretária.
Trabalhava em uma das Torres Gémeas e desencarnou naqueles atentados.
Perturbada, sem princípios morais, não se liberta e revive as práticas vulgares a que se propunha com seus chefes.
Desirée a colocou junto de Charlaine que vem recebendo suas vibrações sensuais.
O intuito é de que ele se atraia pela secretária.
Enquanto isso... Venha.
Em fracção de segundos, foram para o hospital onde Danielle estava internada.
- Como pode ver, há dois espíritos desencarnados junto com Desirée, vampirizando a energia vital de Danielle, que se enfraquece a cada dia.
- Pai do Céu!
Nem parece a Dani! - surpreendeu-se Raul.
Ela está saturada de uma substância escura, formada pelos pensamentos desesperadores desses espíritos em dificuldade, aflição e tortura.
- São prisioneiros do orgulho e da vaidade.
Desencarnados, pedem a ajuda de Deus como se o Senhor tivesse a obrigação de ajudá-los.
Mas não é assim que o socorro acontece.
Essas criaturas se preocupam com o dinheiro, com a beleza e suas mentes se prendem nisso.
A beleza e o dinheiro que eles valorizam os deixam nos escombros de sombras medonhas, por isso não se afastam dessas condições e se prendem aqui.
O espírito Raul ficou penalizado ao ver Danielle e, olhando para Carina, pediu gentilmente:
- Você me ajuda com uma prece?
- É o que eu esperava de você - respondeu, iluminando-se com um sorriso.
Será preciso que entre na mesma vibração de Danielle.
Será importante que tente alcançar seus pensamentos e fazê-la reagir como se sonhasse com você e o acompanhasse nessa prece.
Ela precisa se envolver connosco para ajudar sua libertação desses irmãos.
Use todo o seu amor, Raul.
Toda a sua gratidão.
Todo o seu querer bem para tocar seu coração e sua mente.
Só você pode conseguir isso, pois se conhecem bem.
Aproximando-se de Danielle, tendo Carina ao seu lado, Raul elevou o pensamento ao Alto e orou com todo o amor, com toda a humildade.
Os fluidos mais densos se soltavam aos poucos da enferma como se fossem uma massa se desprendendo e caindo ao chão.
Raul e Carina, comovidos, envolveram as entidades sofredoras, fazendo-as se lembrar, amorosamente, do Pai.
A operação magnética durou longo tempo. Horas.
Raul e Carina se transformavam a cada vibração vigorosa de súplicas.
Iluminados, jorravam luz que se projectava em torno deles.
Os passes aplicados acalmavam os irmãos sofridos, que acordavam do pesadelo.
Queriam saber onde estavam e o que aconteceu a eles.
Explicando-lhes sobre o socorro, rapidamente, os espíritos amigos os envolveram.
Tomando-os nos braços, como crianças necessitadas, eles os conduziram ao socorro adequado, junto com seus mentores.
Horas depois, Raul decidiu retornar e Carina o acompanhou.
Na cabeceira de Danielle, ele beijou-lhe no alto da cabeça e começou a afagá-la.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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