Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:07 am

- Você é cega! Muito cega!
Ela se sentou, pegou a saia de praia para se cobrir e pediu:
- Vamos embora.
Ouvi muitos absurdos por hoje.
Segurando com generosidade em seu braço, ele a fez parar.
Olhou-a nos olhos e disse:
- Não estou falando nenhum absurdo.
Absurdo é você não se amar.
Não se dar valor e não acreditar quando uma pessoa diz que gosta de você.
O silêncio reinou por minutos enquanto se olhavam firmes.
Em seguida, Edwin prosseguiu:
- Durante todo esse tempo que conversamos pela internet, eu achei você uma pessoa inteligente, sensata, bonita, sensível, amorosa, com uma alma linda...
Agora, pessoalmente, vi que é muito mais do que pensei.
Bem sério, afirmou categórico:
- Lamento muito não acreditar em mim.
Não sei o que posso fazer para que acredite.
Talvez o tempo...
O tempo vai fazer com que você se ame e creia em si mesma.
Somente depois disso, poderá amar e acreditar em alguém.
Aquelas palavras tocaram o coração de Nanei, que se sentiu envergonhada por um instante.
Séria, ela o fitava como se estivesse sob o efeito de uma hipnose.
Alguns segundos e sorriu, meio sem jeito, depois disse sem encará-lo:
- É que... Sabe, normalmente as pessoas procuram na outra a beleza física e isso eu sei que não tenho.
- Quem disse que não?! - protestou Edwin.
A beleza não pode seguir normas nem padrões.
O que é bonito para os outros, pode não ter graça para mim.
Muitas pessoas vão atrás do que está na moda sem entenderem do assunto.
Quer um exemplo?
Ela pendeu com a cabeça e ele explicou:
- Arte moderna! Vejo muita gente com a boca aberta e queixo caído diante de uma tela onde esfregaram um monte de tinta.
Para mim, a pintura não faz o menor sentido.
Uns dizem que o pintor expressou isso ou aquilo.
Mesmo assim, eu não consigo entender.
A pintura não faz sentido aos meus olhos.
Eu só posso dizer que o pintor não sabe pintar nada e que, aquela tinta jogada em uma tela, até eu posso fazer parecido.
- Mas a arte moderna... - tentou defender.
- Espera! Espera!... - sorriu, pedindo educado.
Eu sei o que vai me dizer.
Já ouvi de amigos e entendidos de arte tudo a respeito, mas não conseguiram me convencer.
Sabe por quê?
- Não.
- Porque eu tenho opinião e afirmo, categoricamente, que não gosto!
Não gosto e pronto! - sorriu.
O que admiro e fico encantado é com uma pintura que retracta algo com forma, com definição.
Uma paisagem, uma pessoa... Gente!
Bicho! Flor! Eu olho os detalhes e, até mesmo sem saber fazer igual, consigo criticar uma ou outra coisa como a profundidade, a cor, o brilho, a luz!...
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:07 am

Eu gosto do que entendo e do que está ao meu alcance.
Admiro o que é natural, o que é bom, o que faz bem.
É esse o meu jeito de ver as pessoas.
Esse é o mesmo método que uso para admirar as mulheres.
- Então vejo que você gosta de baixinhas e gordinhas - riu gostoso.
- Não. Eu gosto da harmonia do que vejo.
Se for baixa, alta, gorda, magra e for natural, eu gosto.
É simples! - sorriu.
- Talvez, por ser tão simples, as pessoas não entendam.
- A moda é mulher alta, magérrima, loura, dourada...
- Oh!... Pare com isso! - gargalhou.
É um absurdo fazer uma forma e querer impor que todas as mulheres sigam esse padrão, se encaixem nessa forma.
Somos seres humanos!
Não somos robôs!
Ande pela rua e me diga quantas mulheres, com corpo exuberante, de modelo, você vê?
Uma, duas no máximo!
O resto das mulheres são normais!
E outra coisa:
por quanto tempo esse corpo de modelo ficará assim?
Nanei riu e ele acrescentou:
- O tempo passa e a idade chega para todos!
Sem excepção!
Por isso, quando conheço alguém, eu gosto do que a pessoa tem.
Admiro e aprecio a bagagem que ela traz consigo.
Nunca quero que ela se encaixe nos padrões de beleza ou que seja de outra forma, pois, se for assim, deixo de gostar.
- Nem todos pensam assim.
- Então todos têm muito que aprender!
Aproximando-se, beijou-a no rosto e afirmou:
- Você é linda! É apaixonante!
Gostei muito de você!
Nanei ficou envergonhada.
Torcendo os longos cabelos, que estavam bem cacheados, sorriu com jeitinho e pediu:
- Que tal irmos para casa?
- Sim. Vamos sim.
Ao caminharem pelo gramado, perto da piscina da casa, Nanei comentou:
- Apesar do sotaque forte, você fala português muito bem.
- Aprendi com minha mãe.
Foi algo natural. Desde pequeno.
Não sou muito bom na escrita desse idioma - riu.
Ah! Isso não! Viu pelos meus e-mails.
- O que acha de ficarem por aqui até o fim de semana?
- Não sei... - falou com um brilho no olhar.
Eu gostaria. Preciso ver com minha mãe.
Como expliquei, pegaremos minha avó no Rio de Janeiro e vamos directo para Nova Iorque, para a casa da tia Maria Elvira.
Ficaremos alguns dias lá.
Depois, junto com minha irmã Desirée e o marido, que estão lá, voltaremos para Paris; e eu, para Londres.
Tenho de voltar a trabalhar.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:07 am

- Quer dizer que, se não fossem essas pequenas férias, que vieram para o Brasil buscar sua avó, não iríamos fazer nossas mães se reencontrarem?
- Tudo aconteceu no momento certo! - admirou-se Edwin.
Foi impressionante!
Elas se reencontrariam, mas demoraria um pouco.
Certamente não faríamos essa surpresa.
O incrível é que, nos últimos dias minha mãe não parava de falar na dona Belinda!
- Foi uma surpresa boa!
Você viu a cara das duas?
- E como vi!
Parando um pouco no jardim, Edwin, diante dela, perguntou sem jeito:
- Nanei, depois que nós formos embora...
Não nos veremos mais?
- Bem... Eu não sei...
- Você vai muito à Europa?
- Não. Já fomos muito, mas...
Cada vez que íamos a Paris, minha mãe esperava encontrar a sua - riu.
Meu pai tem parentes em Portugal, Espanha e Itália, mas...
Nos últimos anos, não fomos muito para lá.
Era fácil perceber que Edwin havia se interessado muito por Nanei.
A moça era uma excelente companhia e queria conhecê-la melhor.
Estava nitidamente inquieto e um tanto preocupado com uma situação recém-resolvida em sua vida.
- Podemos falar sobre isso depois, não é?
Tecer planos...
- propôs ele com largo sorriso. - O que acha?
- Sim. Podemos - concordou a moça.
Eles entraram e Nanei nem podia acreditar no que acontecia.
Edwin era um rapaz simpático, inteligente, educado, muito maduro e atraente.
Sabia o que pretendia da vida.
Encantou-se com ele.
Alto, bonito, ombros largos, cabelos pretos e lisos, olhos castanhos.
Tinha uma voz linda, para ela, estonteante.
O tipo de pessoa que sabia se comportar em qualquer ocasião.
Nanei percebeu-o interessado nela. Não podia acreditar.
Aquilo era o máximo.
Sentia-se muito sozinha há algum tempo.
Namorou alguns rapazes, mas nada deu certo.
Havia momentos em que seu coração apertava.
Queria alguém ao seu lado para conversar.
Ouvir alguém que fosse inteligente como ela, gostasse das mesmas coisas ou quase...
Gostaria de ter uma pessoa para compartilhar a vida, os momentos, os passeios, as viagens.
Desejava uma companhia para pedir opinião ou apenas ficar ao lado, quietinhos, em silêncio.
Para não perder tempo, após o banho, ela decidiu deixar os longos e fartos cabelos cacheados caídos lindamente pelas costas, prendendo-os somente com uma tiara no alto da cabeça.
Isso chamou a atenção do rapaz.
Durante o jantar, Edwin contou a sua mãe seus planos de pernoitarem ali, mas, se ela quisesse, ficariam até o final de semana.
Maria Cândida ouviu o filho, pensou, porém não deu resposta e voltou a falar sobre algum assunto animado com a amiga.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:07 am

Danielle conheceu a amiga de sua mãe, entretanto não se falaram muito.
Ela precisou dar atenção ao marido, que não se sentia muito disposto.
Nanei e Edwin deixaram suas mães conversando na sala e foram para a varanda, de frente para o mar, de onde podiam ouvir as ondas quebrando nos rochedos.
O rapaz falou um pouco de si e ela narrou toda a sua vida.
Ele ouviu com imensa atenção e prazer.
Nanei tinha uma fala calma e voz macia, gostosa de ser apreciada.
Era prazeroso escutá-la falar, rir e vê-la se expressar com graça.
Estavam lado a lado, sentados na mureta da varanda.
Já conversavam longamente, noite adentro, quando ele não resistiu.
Tocando-lhe em uma mecha cacheada, interrompeu-a, dizendo bem baixinho:
- Você é linda!
Gostei muito de você!
Nanei emudeceu. Paralisou.
Edwin desceu de onde estava e ficou frente a ela.
Tocou seu rosto com delicadeza, curvou-se e a beijou com ternura.
Foi maravilhoso tê-la em seus braços.
Sentir o seu perfume suave.
Era como se a conhecesse e a esperasse por muito tempo.
Aconchegados um ao outro, trocaram carinho, demonstrando afecto, e permaneceram juntinhos até a madrugada chegar.
Depois decidiram, contra a vontade, ir deitar.
Não dormiram, encantados com a magia daquele momento.
Entristeciam-se com a ideia de se separarem, pois, certamente, isso iria acontecer.
Na manhã seguinte, Belinda deu ordens para que o café da manhã fosse servido na varanda de frente para o mar.
O dia estava lindo e tão alegre quanto às amigas que não se viam há muito tempo.
Sentadas à mesa para o desjejum, Belinda comentou:
- Estou com saudade da dona Filomena.
Gostaria de vê-la!
- Vamos até o Rio!
- Por que não a trouxeram?
- Eu não sabia que viríamos aqui.
Porém, o Edwin fez bem em não trazê-la.
A viagem foi longa e seria cansativa para ela.
- Sabe que eu não dormi essa noite!
- Eu também não! - riu Maria Cândida.
- Menina!... Eu fiquei tão eufórica que não consegui pegar no sono!
- Deveria ter ido ao meu quarto!
Ficaríamos conversando!
- Pensei nisso, mas achei indelicado - riu de novo, pegando a mão da outra sobre a mesa.
Pareciam duas crianças encantadas.
Um pouco mais séria, Belinda perguntou:
- Será que vamos demorar mais quarenta e nove anos para nos vermos novamente?
- Daqui a quarenta e nove anos estaremos no plano espiritual, pensando em reencarnar de novo! - riu com gosto.
- Sabe, tem hora que não acredito que temos sessenta e oito anos!
Eu não me sinto com sessenta e oito anos!
- Nem eu! - exclamou animada.
Às vezes, me surpreendo com isso!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Mar 12, 2017 11:08 am

Sinto-me com dezanove anos, quando estava lá no cais vendo você partir para a Europa em lua-de-mel e de mudança!
- Onde você passou a lua-de-mel? - perguntou Maria Cândida.
- íamos para Miami.
Passamos em Nova Iorque antes.
Porém, com o assassinato do presidente americano John Kennedy, em Dallas, no Texas, tudo ficou muito tenso no país.
Nem chegamos a Miami.
Tomamos outro rumo.
Fomos até o Caribe e depois voltamos para o Brasil.
- Você está brincando?! - falou surpresa.
Eu e o Óscar estávamos em Nova Iorque quando o presidente Kennedy morreu!
Não acredito que não nos encontramos! Também...
- Também o quê?
- Eu não saí muito.
Só fiquei presa na casa da minha irmã.
Sabe como é...
Fazia pouco tempo que a minha Danielle havia partido e eu não estava nada bem.
O meu marido acreditou que, se viajássemos, se eu fosse visitar meus parentes, seria bom para mim...
Eu gostaria tanto de ter o seu endereço nessa época!
Como precisei de você, Belinda!
- Agora não vamos nos separar!
Eu prometo! - expressou-se risonha.
- Diga-me uma coisa:
o que o marido da sua Danielle tem exactamente?
- Câncer.
- Meu Deus!...
Um rapaz tão novo! - lamentou.
- Estamos todos muito abalados ainda.
A descoberta é recente. Foi tão rápido.
Nem acreditamos no acontecido.
A Danielle é quem mais está sofrendo.
- Pobre menina! Pareceu-me tão abatida!
- Minha filha era cheia de vida.
Alegre, espontânea e sempre feliz.
Nunca a vi desanimada.
Eles namoraram desde o colégio.
- Estão casados há um ano.
Por que demoraram tanto para se casarem?
- A Dani sempre foi esforçada e estudiosa.
Quis terminar a faculdade de Computação que fazia no Canadá.
Ela decidiu por um curso com especialização em Web Design.
Não entendo muito bem.
É uma espécie de desenhista de página de web, na internet.
- Eu também não entendo de internet - confessou a amiga.
Ela trabalha?
- A Danielle fez intercâmbio no Canadá e uma pós.
Fala muito bem inglês e francês.
Depois que retornou ao Brasil, voltou com emprego arrumado na área de Marketing, em uma multinacional.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:19 am

Após um ano, ela e o Raul decidiram se casar.
Quando completaram um ano de casados, decidiram arrumar um nené.
Ela não engravidava e começou a ir ao médico fazer exames quando ele ficou doente.
Meu genro parecia ter contraído uma gripe muito forte.
Sentia dores nas costas e em todo o corpo.
O médico disse que estava com começo de pneumonia.
Prescreveu medicamentos fortes por dez dias.
Os sintomas da gripe desapareceram, mas a dor nas costas continuou.
Outro especialista foi consultado e disse que se tratava de um problema muscular.
Com o passar dos dias, o Raul dizia que não conseguia respirar direito, pois o movimento de encher os pulmões, simplesmente, provocava dores horríveis.
A Danielle o levou a outro médico que pediu mais exames e até biópsia.
Foi então que, repentinamente, descobriu-se a doença que já se espalhava por diversas partes do corpo.
Os pulmões foram os órgãos mais comprometidos.
Quando isso aconteceu, há pouco tempo, minha filha decidiu pedir demissão para cuidar dele, pois o médico foi bem honesto e explicou detalhadamente a seriedade do caso.
Após as duas cirurgias, ele ficou bem.
Depois que começou a fazer quimioterapia...
O Raul ficou muito abatido, depressivo.
A Nanei fez questão de trazê-lo para cá a fim de vê-los mais animados um pouco.
Mas parece que não funcionou.
- Percebi que não estavam bem.
Pouco ficaram connosco ontem.
- Não repare, por favor - preocupou-se Belinda.
- Imagine se vou reparar!
Breves minutos e perguntou:
- Já pensou em um tratamento fora do país?
- Tudo é muito recente.
Estamos nessa luta há dois meses.
Nunca falamos a respeito.
Essa opinião é algo que podemos considerar!
Vou falar com minha filha.
- Sei que é uma doença terrível.
Ela destrói a pessoa física e mentalmente.
O desgaste emocional é imenso, mesmo quando sabemos que, para muitos casos, existem tratamento e cura.
Sabe, o meu cunhado teve um tumor maligno no peito.
- O marido da Maria Elvira?! - admirou-se Belinda.
- Ele mesmo! De repente ele encontrou uma espécie de bolinha entre o mamilo e a axila.
Foi ao médico, extraiu o nódulo e um exame de biópsia revelou ser maligno.
Outro exame encontrou mais dois nódulos em seu corpo.
Todos ficamos desesperados, menos ele. Nossa!
Foi impressionante a fibra daquele homem. Consultaram vários médicos e ele fez um tratamento rigoroso de quimioterapia, radioterapia...
Nem sei direito.
Apareceu outro nódulo e, após a cirurgia, mais tratamento.
Agora ele está óptimo.
Não tem mais nada há dez anos!
Nossa, o Matt mudou sua vida.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:19 am

Melhorou sua alimentação, trocou os hábitos...
Agora, para ele, tudo precisa ser o mais natural possível e muito saudável, inclusive mentalmente.
- Ele é americano?
- É.
Em seguida, propôs:
- Por que não tentam especialistas renomados no assunto e bem experientes?
- Podemos falar com a minha filha.
Ela é aberta para sugestões. Vai gostar.
Nesse momento, Danielle apareceu.
Estava pálida e desanimada.
Caminhava vagarosamente até a mesa.
- Bom dia, dona Maria Cândida.
Bom dia, mamãe - disse curvando-se e beijando Belinda.
Sob aquela luz da manhã, Maria Cândida pôde olhar melhor e por mais tempo para a moça.
Cada minuto que passava sentia algo estranho, algo que a deixava inquieta, quase aflita.
Surgiram alguns assuntos corriqueiros e elas conversaram bastante até a visitante querer saber:
- Danielle, quantos anos você tem mesmo, minha querida?
- Vinte e sete.
- Sua mãe me disse ontem, mas me esqueci.
É a minha idade! - sorriu ao brincar.
Você aparenta ser bem mais nova.
Parece uma menininha! É muito bonita!
- Obrigada.
- Eu tive uma filha com o seu nome.
Sua mãe deve ter lhe dito.
- Não. Nunca disse - admirou-se a moça, olhando para a mãe.
- Nunca contei isso.
A não ser para a Nanei, há poucas semanas, quando perdi as esperanças de encontrá-la.
Sempre pensei em fazer uma surpresa.
Quando visse minha melhor amiga novamente, apresentaria a família e minha filha com o mesmo nome.
Somente o Osvaldo, meu marido, sabia dessa história.
- E a vovó? - quis saber Danielle.
- Ah! Seus avós sabiam, lógico.
Mas levaram o segredo quando partiram.
Voltando-se para a amiga de sua mãe, perguntou:
- A senhora disse que teve uma filha com esse nome.
Ela...
Percebendo seu embaraço misto à curiosidade, Maria Cândida contou:
- Minha filha faleceu aos quinze anos.
Foi em um acidente de carro.
- Lamento - tornou generosa e educada.
- Você é incrível, Danielle!
Gostei do seu jeito, menina!
- Obrigada! - agradeceu envergonhada por não encontrar motivo que justificasse o elogio.
- E o seu marido? Não vai fazer o café da manhã connosco?
- Desculpe-me pelo Raul.
Não sei se minha mãe contou que ele está em tratamento e a medicação é muito forte.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:19 am

- Contei sim. Falávamos sobre isso quando chegou.
A Maria Cândida comentou que o cunhado teve a mesma doença e ficou curado depois de um tratamento rigoroso.
Elas ficaram conversando sobre o assunto e Danielle pareceu muito interessada no que a amiga de sua mãe dizia.
A mulher lhe dava esperança e, de alguma forma, oferecia-lhe uma energia, uma força interior muito grande, fazendo renascer sua fé.
Enquanto isso, Nanei e Edwin faziam longa caminhada pela praia.
Os olhos do rapaz brilhavam enquanto lhe oferecia extrema atenção.
A moça era encantadora, delicada, gentil e muito agradável.
Decidiram se sentar em uma grande pedra de onde tinham uma magnífica vista do mar com longínquos barcos singrando.
Por um momento, notou-a sem jeito de tanto que a olhava, como se absorvesse cada detalhe seu.
- Adorei seus cabelos hoje! - elogiou.
Reparou que tem cachos com fios dourados em diferentes tons?
Meio aloirados, castanho-escuros, claros...
- Você me deixa sem graça.
- Sem graça estou eu que não suporto a ideia de ter que ir embora hoje.
Nanei, surpresa, não disse nada e Edwin tomou-a em seus braços e a beijou com ternura.
Depois da troca de carinho, ele a aninhou nos braços e perguntou:
- Você não pode ir para o Rio?
Ficaremos lá até o sábado.
- Não sei. Talvez...
- E... Talvez possa ir também para Nova Iorque, depois para Paris e Londres, não pode? - falava de um jeito romântico.
Nanei riu.
Pensou, por um momento, que ele estava brincando.
Mas algo em seu íntimo dizia que não.
Sentia que Edwin era verdadeiro.
- Podemos conversar pela internet - disse ela.
- Sabemos que isso não é o que queremos - concluiu sério, olhando firme em seus lindos olhos verdes.
Tocando em seu rosto com delicadeza, em seguida, afagando-lhe os cabelos macios, Edwin falou:
- Nanei, eu gostei muito de você. Muito mesmo!
Quero conhecê-la melhor.
Em, no máximo, quinze dias, preciso retornar à Europa.
Porém, primeiro, como contei, preciso ir para os Estados Unidos levar minha avó para ver minha tia, antes de retornar a Paris.
Preciso decidir o que fazer agora.
Não tenho muito tempo... Ou melhor, não temos.
A moça não disse nada, e ele perguntou:
- Você trabalha?
- Não. Sou formada em Direito, mas não gosto dessa área.
Nem sei por que fiz essa faculdade.
- Você não quer vir comigo?
Pode passar uns dias ou meses com minha mãe em Paris.
Eu moro praticamente em Londres, porque de lá fica mais fácil o meu trabalho na rede de hotéis.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:19 am

Porém estou toda semana em Paris.
Sendo assim, tenho certeza de que sua mãe vai concordar! - disse sorridente e esperançoso.
Ela ficou entusiasmada e bem alegre.
- Não sei...
Você me pegou de surpresa com esse convite.
- Um pouco sem jeito, prometeu:
- Vou conversar com minha mãe.
Edwin a abraçou com ternura e a beijou com carinho.
Depois comentou, demonstrando felicidade:
- Eu nunca, nunca poderia imaginar que, após o primeiro e-mail com você, eu iria fazer uma viagem dessa e me apaixonar.
Nunca! - sorriu satisfeito.
Nanei sorriu encantada e ele a apertou contra si, beijando-a novamente.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:20 am

4 - A VIDA É ESCRITA POR NÓS

Naquela tarde bem quente, o céu estava encoberto e o sol aparecia raramente entre nuvens acinzentadas.
Danielle, parada no gramado do jardim de frente para o mar, olhando o horizonte, trazia o semblante sério.
Abraçava o próprio corpo.
Pálida e silenciosa, aparentava cansaço.
Ouvia o som ininterrupto das ondas e sentia o vento forte soprar seus cabelos e esvoaçar sua blusa.
Desde aquela manhã, Maria Cândida tinha se interessado muito por ela.
Havia algo na filha caçula de sua melhor amiga que atraia sua atenção e a encantava.
Vendo-a sozinha, ali, parada, a senhora alta, esguia e bem disposta, contornou a piscina, passou pelo jardim e chegou até o gramado ficando ao lado da moça.
Ao percebê-la, Danielle se virou, oferecendo um sorriso simpático.
A outra perguntou:
- E o Raul? Não quis dar uma volta?
- Não. Ele adormeceu.
Não demorou muito e quis saber:
- Dona Maria Cândida, a sua irmã me forneceria o endereço do médico que cuidou do marido dela?
- Lógico! Se quiser, ligarei para ela daqui mesmo!
Você está interessada?!
- Muito interessada!
A senhora não imagina! - exclamou com tristeza no olhar.
Sabe... Não comento isso perto do Raul nem para a família, mas...
O caso do meu marido é grave, eu sei.
Procurei, sem que ele soubesse, o médico que cuida dele e, apesar de dizer que não devemos perder as esperanças, esse oncologista afirmou que eu precisava ser bem forte, me preparar para tudo...
Seus olhos ficaram empoçados nas lágrimas e sua voz embargou.
- Vamos dar uma volta, minha querida?
Danielle aceitou sem dizer nada. Enquanto caminhavam, contou:
- Demoramos para descobrir a doença e as metástases se espalharam.
O que pensávamos ser uma íngua, abaixo do queixo, perto do ouvido e outra na axila, eram tumores malignos.
A pneumonia exibiu a doença inicial nos pulmões...
Ele nunca fumou...
Só bebia socialmente...
- Não deve perder as esperanças.
Não é por acaso que o Raul está passando por isso e você está ao lado dele.
- Às vezes me pergunto por que Deus faz isso.
- Sabe, filha... - Maria Cândida parou frente à moça e experimentou um frio cortante em sua alma.
Seus olhos pareciam invadir Danielle, que também se surpreendeu com a sensação estranha e familiar.
A senhora sacudiu a cabeça ligeiramente e, com os olhos lacrimosos, olhou para o mar, respirou fundo e disse:
- Desculpe-me.
- O que foi? - perguntou generosa e também confusa.
- Eu não sei. Senti uma coisa tão...
Tão forte, tão terna...
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:20 am

Não querendo dar importância, falou novamente:
- Desculpe-me, por favor.
Como eu estava dizendo...
Creio, Danielle, que não é Deus que faz isso connosco.
- Não?! Se não é Deus quem permite as coisas acontecerem, quem o faz?!
- Nós mesmos. Eu entendo que Deus é amor, bondade, evolução, progresso, prosperidade, vida.
- Por que, então, alguns ficam doentes, como o Raul, enquanto outros têm saúde perfeita até o fim de seus longos dias de vida?
Já li livros, mas não entendi ainda.
- Eu acredito em reencarnação.
Sempre acreditei.
Minha mãe é espírita e ensinou a mim e a minha irmã conceitos dessa filosofia.
Encontrei, nessa doutrina, explicações lógicas para muitas situações na vida, para não dizer todas.
Principalmente para aqueles acontecimentos tristes e desagradáveis.
Entendo que Deus é bom e justo.
Deus é amor, conforme Jesus nos ensinou.
Quando se enfrenta um desafio, pode ter certeza de que fomos nós que o atraímos para nós mesmos.
- Pode-se dizer que o Raul está doente porque ele mesmo atraiu essa doença para si?
- Se não acreditar nisso, então tem que se crer em um Deus injusto, perverso e cruel.
Sabe, a própria ciência prova,
hoje em dia, que as pessoas irritadas, nervosas, impacientes tendem a ficar mais doentes do que as mais calmas.
Muitos problemas de saúde estão relacionados ao tipo de comportamento e de personalidade.
São as chamadas doenças psicossomáticas.
Como é o caso da gastrite ou de uma úlcera no estômago, ser, tipicamente, uma doença de pessoas irritadas, estressadas, nervosas.
Você não encontra uma criatura calma com gastrite. Já percebeu?
- É verdade.
- Assim são outras coisas.
As enfermidades que o nosso corpo apresenta não estão somente acontecendo por um comportamento desta vida actual.
Podemos trazer um problema, um desafio de outra existência.
- E onde está a bondade de Deus?
- Em nos dar a vida eterna para nós nos corrigirmos, passo a passo, dia a dia e aprendermos que o que fazemos, o que desejamos a outra pessoa, vamos experimentar, vamos viver.
Só entendemos as dores dos outros quando passamos pelo mesmo grau de sofrimento.
Infelizmente é assim que aprendemos a não fazer o mal.
Danielle suspirou fundo, olhou para o firmamento e perguntou:
- O que o Raul fez para sofrer isso?
- Deus é tão bom que, aqui, encarnado, provavelmente nós não vamos saber.
Não seria nada agradável ter consciência das coisas erradas que fizemos no passado, dos maus tratos proporcionados aos outros...
Sendo que esse outro pode estar ao nosso lado hoje.
Se ficarmos cientes de uma vida passada, isso deve acontecer com um propósito muito importante e com permissão do plano superior.
Não devemos ir atrás disso.
- Isso faz sentido.
Mas por que uma pessoa tem uma doença grave, leva só um susto e se cura, enquanto outra sofre muito e morre do mesmo mal?
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:21 am

- Porque, certamente, o que uma precisava harmonizar era diferente da outra.
Tudo depende do planeamento reencarnatório feito no plano espiritual.
- Quer dizer que sabemos o que vamos sofrer antes de reencarnarmos?
- Não só sabemos como, muitas vezes, escolhemos sofrer o que sofremos.
Existem espíritos que têm um reencarne compulsório, forçado, sendo o seu planeamento reencarnatório feito por entidades superiores.
Mas nem sempre é o caso.
Todos nós vamos evoluir um dia, quer desejemos ou não. Isso é Lei de Deus.
Para evoluir, precisamos harmonizar e corrigir os erros que cometemos.
Para isso Deus nos proporciona muitas oportunidades e se não evoluímos de um jeito, evoluímos de outro.
- Será que alguém pede para sofrer tanto, a fim de corrigir os erros do passado?
- Pedindo ou não, uma criatura deseja, inconsciente e desesperadamente, corrigir esses erros, pois o sofrimento, na consciência do espírito, é tão grande, tão intenso que ele sabe que qualquer sofrimento encarnado é bem menor do que o sofrimento consciencial.
- Eu não queria ver o meu marido sofrer assim - falou em tom triste.
- Ninguém quer ver o outro sofrer.
Isso também é Lei. É a Lei do Amor!
Porém, daqui há muitos, muitos anos, no plano espiritual, você e ele se encontrarão e felizes vão dizer aliviados:
que bom! Tudo acabou!
Como é maravilhoso não ter débitos e estar em equilíbrio! - falou com leve sorriso.
Danielle sorriu e perguntou:
- Será que é assim mesmo?
- Se não for isso, será bem parecido.
E creia, vai acontecer! - afirmou com convicção.
Tudo passa tão rápido!
Quando estamos vivendo uma situação, um problema, ele parece eterno.
Depois de tudo concluído, nós olhamos o passado e até nos assustamos de como passou rápido.
Alguns segundos e ainda disse:
- Confie no Pai. Ele é bom e justo.
O que parece ser difícil e cruel, é o que nos faz forte, nos faz evoluir, nos liberta e nos faz caminhar para a felicidade.
Deus é tão bom que não nos deixa sós.
Sempre temos uma mão amiga para nos amparar, fortalecer, orientar.
O Pai colocou você ao lado do Raul e muitas outras pessoas ao seu lado.
- Mesmo pensando e acreditando em tudo isso que a senhora me diz, não é fácil aceitar e viver feliz e naturalmente com o problema que temos.
- Embora acreditando no que digo e tendo a certeza de que o futuro será de harmonização, de evolução, se você, hoje, viver naturalmente feliz diante de um problema, de uma doença como essa, eu vou dizer que você não é uma pessoa equilibrada.
Ninguém normal pode gostar da dor, do sofrimento e de problemas.
Crendo na lei de acção e reacção, na harmonização, não se deve ficar feliz com uma dificuldade, mas deve-se procurar manter o equilíbrio emocional e fazer o melhor de si diante do desafio.
Ficar triste, chorar faz parte da evolução.
Significa que você tem sentimentos.
Porém se desesperar e se entregar dizendo que não tem forças, não sabe o que fazer com aquele problema, tanto quanto banalizar a situação, significa irresponsabilidade.
- Ou seja, se eu gritar e me desesperar e não conseguir fazer nada, será o mesmo que virar as costas para o problema como se ele não existisse?
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:21 am

- Lógico! Diante de um desafio, precisamos encontrar o equilíbrio e fazer o melhor que podemos.
Haverá momentos de tristeza, de choro, de emoção, porque isso faz parte da vida, da evolução humana.
Certamente chegará o momento de respirar fundo, aliviado e feliz, dizendo: acabou!
Consegui! Tudo o que nos acontece foi escrito por nós mesmos, inclusive a morte, que não deixa de ser a continuação da vida.
Danielle tinha o semblante mais leve e quase esboçava um sorriso.
Há tempos não se sentia tão confiante e com fé no futuro, fé em Deus.
Olhando para Maria Cândida, suspirou fundo, sorriu e, num impulso, abraçou-a com força, dizendo emocionada:
- Obrigada! Suas palavras me deram força...
Sinto-me mais animada!
Deus a colocou no meu caminho!
- Ele a colocou no meu! - disse emocionada.
Afastando-se, ficou contemplando-a por alguns segundos e prosseguiu:
- Quando precisar, procure-me. E quando não precisar, lembre-se de mim!
- Obrigada! - exclamou, apertando-a novamente junto ao peito.
Em seguida, sob o efeito das lágrimas que disfarçou, Maria Cândida sugeriu:
- O que acha de voltarmos para eu ligar para minha irmã?
- Acho óptimo! Vamos!
Concordou a moça que enlaçou seu braço e ainda inclinou a cabeça em seu ombro, agarrando-se à mão da outra enquanto caminhavam pela praia sentindo o vendo soprar contra seus rostos mais leves, aliviados.
Maria Cândida conseguiu deixá-la em paz.
* * *
O encontro com Maria Cândida trouxe novas perspectivas para as filhas de Belinda.
Todos conversaram muito naquela noite.
Depois de alguns telefonemas, Maria Cândida decidiu, junto com o filho, que iriam para São Paulo.
Ficariam alguns dias na casa de Belinda.
Tempo suficiente para Danielle e Raul se organizarem para a viagem aos Estados Unidos.
Iriam junto com eles, depois de passarem no Rio de Janeiro.
Belinda ficou satisfeita em ter a companhia da amiga por mais tempo, principalmente, por ela conseguir animar e poder ajudar sua filha caçula.
Antes de dormir, Nanei, muito ansiosa, foi falar com a mãe a respeito de ir junto com Danielle para Nova Iorque e depois para Paris.
Contou que ela e Edwin se apaixonaram e desejavam se conhecer melhor.
Belinda não pareceu surpresa, apesar de não ter percebido nenhum romance entre os dois.
Ninguém percebeu. Mas ficou feliz com a notícia.
* * *
Na tarde do dia seguinte, estavam em São Paulo.
Logo à noite, um jantar especial marcou a recepção da amiga na casa dos Linhares.
O senhor Osvaldo conversou bastante com Maria Cândida, porém foi Edwin quem o impressionou muito com sua inteligência, expressividade e facilidade de comunicação.
A política no mundo, era o assunto principal entre os dois, muito embora falassem sobre outras coisas também.
Maria Cândida apreciava contar casos de sua família, e Nanei ficava bem atenta e interessada no assunto.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:21 am

Em determinado momento, Belinda, brincando, comentou:
- O Kléber, meu segundo filho, e a Danielle, minha caçula, encontraram-se na vida.
Estão formados e casados.
Mas o Guilherme e a Nanei não sabem direito o que querem! - riu, trocando olhares com a filha, que não ficou satisfeita com o rumo da conversa.
Porém a mãe não se intimidou com seu olhar e continuou:
- A Nanei fez faculdade de Direito, mas não se realizou. Não gostou.
O Guilherme também fez Direito e mais outras faculdades e não sei quantas pós-graduações.
Trabalha para uma grande empresa, actualmente, e cursa mais uma pós em Berlim, entretanto não quer saber de casar.
- Estamos empatadas nisso, minha querida! - riu a amiga.
O meu Edwin e a minha Olívia se formaram, mas só trabalham.
Casar que é bom, nada!
O Edwin só sabe namorar! - riu.
Quando eu penso que encontrou uma nora para mim, ele me apresenta outra namorada!
O filho lhe arregalou os olhos, tentando fazê-la parar, entretanto não conseguiu.
Maria Cândida não entendeu sua expressão aflita e continuou sem trégua:
- Agora ele está namorando a Agatha, filha de um diplomata canadense.
A moça é muito geniosa e...
Nanei fuzilava Edwin com o olhar. Sentiu-se magoada.
Foi uma tola quando se permitiu envolver e se apaixonar.
Sabia que um homem como ele só poderia brincar com os seus sentimentos.
Sem que os demais entendessem a brusca atitude, Nanei se ergueu repentinamente e, com semblante sério, sisudo, disse firme:
- Com licença!
Sem prestar atenção em ninguém, ela se virou e saiu da mesa de jantar.
Imediatamente, Edwin se levantou.
Aflito, olhou para Belinda e pediu:
- Se a senhora me permite...
Posso ir atrás dela?
- Vá logo! - respondeu num impulso.
Sem olhar para trás, ele a seguiu.
- Com licença? - perguntou o senhor Osvaldo muito educado.
Eu deveria saber de algo que está acontecendo?
- Não, querido. Não deveria.
Fique tranquilo - tornou a esposa.
- Belinda... - tentou dizer a amiga, muito surpresa, ao começar a entender o que estava acontecendo.
Falei demais? - perguntou arrependida.
- Acho que sim, minha amiga.
Acho que sim.
Edwin alcançou Nanei na sala de estar, próximo às escadarias.
Segurando-a delicadamente pelo braço, falou parecendo implorar:
- Escute-me, por favor!
- Você não tem nada para me explicar.
Fui uma idiota mesmo!
- Não! Não foi!
Por favor, preste atenção!
Eu e a Agatha terminamos dois dias antes de eu vir para o Brasil com minha mãe.
Eu não contei a ela porque a conheço bem!
Minha mãe ficaria a viagem toda falando e reclamando que eu não dou certo com ninguém!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:22 am

- Deveria ter me contado.
Apesar do que, acredito ser apenas mais uma na sua colecção!
- Você é diferente, Nanei!
Nunca conheci alguém assim!
Nunca senti o que sinto por você!
- Deve ter dito isso para todas as outras - replicou com olhos cheios de lágrimas.
Com o coração partido, decidiu:
- Com licença. Preciso subir.
Edwin sentiu-se mal.
Aquilo não poderia ter acontecido.
Nunca havia sentido por uma garota o que sentiu quando viu Nanei pela primeira vez.
Queria tê-la ao lado sempre.
Adorava ouvir sua voz, respirar seu perfume suave, admirar seus cabelos lindos, longos, naturais, sentir sua pele macia...
O que fazer? Como reverter aquilo? Teria tão pouco tempo para isso!
Naquele momento não queria ver nem falar com ninguém.
Por essa razão não voltou para a sala de jantar e resolveu ir para o jardim, caminhar um pouco.
Enquanto isso, em seu quarto, Nanei experimentava uma angústia infindável com um misto de arrependimento, pois acreditava que se deixou enganar.
Perplexa, pensava no quanto a vida era imprevisível e surpreendente.
Na manhã seguinte, bem cedo, Nanei não queria que a paixão compartilhada entre os dois fosse o assunto mais importante do dia.
Por isso saiu antes que a vissem.
Impaciente, e sem saber que ela não estava, Edwin a procurou por onde pôde até a dona da casa encontrá-lo na varanda e perguntar:
- Tudo bem, Edwin?
- Não, dona Belinda.
Não está nada bem.
- A Nanei havia me dito que gostaria de ir com vocês para Nova Iorque e depois para Paris.
Mas parece que minha filha mudou de ideia.
- A senhora conversou com ela?
- Não.
Em seguida, convidou:
- Venha, Edwin, sente-se aqui. - indicou os sofás de vime almofadados com tecidos de estampas florais, bem coloridas, que havia na larga varanda da mansão.
Acomodando-se à sua frente, pareceu bem à vontade, enquanto o rapaz tinha uma postura mais tensa.
- Não conversei com a Nanei.
Ontem a procurei, mas ela me pediu para deixá-la sozinha.
Hoje, quando levantei, ela já havia saído.
- Liguei para o celular, mas não me atendeu.
- O que aconteceu para minha filha reagir assim?
Edwin ergueu os olhos, encarou-a com rosto sério e lívido.
Após um momento, declarou:
- Estou apaixonado por sua filha.
Quando minha tia me procurou, contando sobre a proposta da Nanei de reencontrar a senhora e minha mãe, achei graça.
Não no sentido de sarcasmo, zombaria, não!
Testemunhei como as coisas aconteciam de forma interessante.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:22 am

De repente vocês duas se separaram e, quando não tinham mais esperanças de se reencontrarem, os filhos cuidaram disso.
Porém, se não fosse a ajuda da tecnologia...
Bem, entrei em contacto com a Nanei por e-mail.
Falamo-nos muito...
Perdi as contas de quantas vezes telefonei para ela.
Cada vez que ouvia sua voz, queria ouvir mais.
Não foi isso que começou a abalar meu namoro com a Agatha.
A verdade é que eu nunca me apeguei a alguém.
Nunca me atraí por ninguém.
Olhando-a nos olhos, disse, parecendo confessar:
- Eu nunca me atraí por alguém como me atraí por sua filha. Acredite!
- Eu acredito - afirmou tranquila.
- Quando eu a vi, foi... foi... - Edwin tropeçava nas próprias palavras.
Só saberia dizer que estava louco por Nanei, mas não era assim que desejava falar.
- Não sei explicar o que aconteceu!
Adorei a Nanei! Adorei tudo em sua filha!
Esfregou o rosto e passou as mãos pelos cabelos lisos e teimosos que voltavam para o mesmo lugar.
Curvando-se, apoiou os cotovelos nos joelhos, entrelaçou as mãos frente ao corpo e encarando-a, contou:
- Meu namoro estava estremecido e dois dias antes de virmos para o Brasil, terminei tudo.
Só não contei para minha mãe.
Ela iria falar sobre isso a viagem inteira e era tudo o que eu não queria.
Agora não sei o que fazer.
A Nanei não acredita em mim.
Está magoada. Não quer nem falar comigo.
- A Nanei é uma pessoa maravilhosa, Edwin.
Mas é muito sensível quanto a um romance porque, geralmente, entrega sua alma.
Já se feriu muito por isso.
Acredito que não quer se machucar novamente.
- Parece que ela não acredita nas pessoas.
Não acredita que alguém possa gostar dela.
- Insegurança! - afirmou a mãe.
- Será que é insegurança?
Ou será que ela não permite alguém amá-la de verdade?
Pode ser falta de amor em si mesma?
- Não sei dizer.
- Estou para ir embora e não sei o que fazer.
A distância será um grande obstáculo.
Tenho certeza de que ela não vai abrir qualquer e-mail meu.
Se eu telefonar, não vai atender e...
- Calma, filho! - sorriu Belinda.
A mágoa que ela está sentindo vai perder força.
A Nanei vai parar e reflectir melhor.
Vamos aguardar. Não fique assim.
Edwin não concordava, mas precisava aceitar.
Não tinha outro jeito.
Maria Cândida ficou inconformada com o que havia feito.
Não se perdoava por aquilo.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:22 am

Tentou falar com Nanei que, educadamente, ouviu-a, mas não disse nada.
Ficou irredutível, em seu silêncio.
Enquanto isso, Danielle providenciou tudo para ela e Raul seguirem para o Rio de Janeiro e depois para Nova Iorque.
A amiga de sua mãe fazia questão de ajudá-la, e ela necessitava daquele apoio.
Ao se despedirem, apesar de ouvir tudo o que Edwin queria lhe provar, Nanei permaneceu calada e somente lhe desejou boa sorte, após lhe dar um beijo no rosto.
Enquanto ele precisou reprimir as lágrimas.
Após algumas horas chegaram ao Rio de Janeiro, depois de uma viagem cansativa, em que tiveram de parar várias vezes, pois Danielle não se sentiu bem devido a muito enjoo.
Na casa de dona Filomena, Maria Cândida estava com grande expectativa para apresentar a filha de sua amiga a sua mãe.
A mulher pareceu em choque ao ver Danielle que, simpática, cumprimentou-a e a beijou com carinho, sentindo uma emoção desconhecida.
Perplexa, a senhora de oitenta e sete anos procurou um lugar para se sentar.
- Meu Deus, filha!... Meu Deus!...
- O que foi, vó?! - quis saber Edwin sem entender.
Sem rodeios, Maria Cândida decidiu esclarecer, até porque Danielle e o marido ficaram preocupados, estranhando o comportamento dela e da senhora.
- Sua avó está surpresa com a semelhança de Danielle com sua irmã.
Edwin achou muito exagero.
Ela lembrava Olívia, mas nem tanto.
- Ela se parece um pouco com a Olívia, mas...
- Não é com a Olívia.
E não se parece, é igual à Danielle, irmã que você mal conheceu, pois tinha dois anos quando ela faleceu.
O seu irmão deve se lembrar bem melhor.
O George tinha oito anos.
- Sério?! - perguntou Raul, curioso.
- Eu disse isso para a Belinda, mas parece que não acreditou - acrescentou Maria Cândida.
- Eu posso provar, minha filha! - disse dona Filomena confiante, levantando-se imediatamente.
Após retornar de seu quarto, a senhora passou para as mãos delicadas de Danielle, um porta-retrato e disse:
- Veja você mesma!
- Meu Deus! - assustou-se a moça.
O que é isso?! - riu de modo nervoso.
Parece eu quando tinha uns... dezassete anos!...
- Ela estava com quinze!
Quase dezasseis! - tornou dona Filomena.
Danielle entregou o porta-retrato ao marido, que também ficou impressionado.
Em seguida, Edwin o pegou e começou a comparar:
- A semelhança é incrível!
- Bem... Não vamos incomodá-la com isso.
Viajamos muito e ela está cansada.
Olhando para a mãe, contou:
- Ela enjoou muito.
Deveríamos ter vindo de avião, enquanto o Edwin trazia o carro.
- Ai... Perdoem-me pelo transtorno.
É que sempre, em toda minha vida, passo mal quando viajo de carro por muito tempo.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:23 am

Mas hoje, talvez pelo calor, foi bem pior.
Não sei por que isso acontece.
Já fui a médicos e os remédios não resolvem esse problema.
- Não se incomode com isso!
Venha, filha - propôs dona Filomena muito generosa -, vou mostrar um quarto gostosinho, onde poderá descansar depois de um banho.
Raul as acompanhou.
Ao ficar a sós com sua mãe, Edwin quis saber:
- A senhora não está pensando que ela é minha irmã, está?
Percebendo que o filho poderia repreendê-la, Maria Cândida fez prevalecer seu jeito altivo e respondeu firme:
- Eu ainda não pensei nada.
Quando decidir, eu falo.
Agora vamos.
Quero ver se partimos para Nova Iorque amanhã ou depois.
Por um momento, Edwin se preocupou.
Sua mãe era uma mulher muito consciente, pés no chão e jamais viveu de ilusões.
Porém, lembrando-se da fragilidade do coração de toda mãe, acreditou que ela poderia, de alguma forma, querer substituir o vazio deixado pela primeira filha.
Embora não houvesse nada que pudesse fazer, de certa forma, já a tinha alertado.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:23 am

5 - Em Nova Iorque

Maria Elvira, irmã de Maria Cândida, que morava em Nova Iorque, recebeu a todos com muita satisfação.
Aquela pessoa "azeda", como brincava sua irmã e Belinda,
havia se transformado em uma criatura alegre, tolerante e muito tranquila.
De imediato também ficou impressionada com a semelhança entre Danielle e sua sobrinha falecida.
Não só a aparência, como disse sua irmã, mas também o jeito, o riso, a personalidade da moça eram incrivelmente semelhantes aos da outra.
Maria Elvira prontificou-se em auxiliar, orientar e até acompanhar ela e Raul aos médicos e clínicas que conhecia.
Matt, seu marido, que também viveu parecida e amarga experiência, animava-os bastante a cada dia que conversavam.
Uma semana após chegarem à cidade, instalados no apartamento de Maria Elvira, que fez questão de hospedá-los, Danielle reclamava para o marido que não estava se sentindo bem.
A princípio pensou que fosse pela viagem, apesar de nunca ter passado mal ao andar de avião.
Era acometida por dores de cabeça, não fortes, mas muito incómodas e uma espécie de vertigem.
- Use o seguro-viagem.
Vá ao hospital - aconselhou Raul sem saber como agir.
- Se eu não melhorar até amanhã, vou mesmo.
- Não espere até amanhã, Dani! - insistiu ele.
Maria Cândida, que chegava repentinamente, interessou-se pelo assunto e quis saber:
- O que a Danielle não deve deixar para amanhã? Posso ajudar?
- Ela não está se sentindo bem desde que deixamos São Paulo - explicou Raul.
Está com tontura, dor de cabeça...
- Precisamos saber o que você tem.
O Raul tem razão.
Vendo que a moça não se manifestou, Maria Cândida propôs:
- Quer que eu a acompanhe ao hospital?
- Ai!... Eu não aguento mais ver hospital! - reclamou sem prestar atenção ao que falava.
Um frio percorreu-lhe o corpo quando viu o marido e pensou que ele poderia se sentir culpado.
- Desculpe-me, Raul.
Não foi isso o que quis dizer.
Sentado ao seu lado, ele aproximou-se, sorriu e a abraçou com carinho, dizendo:
- Não tem problema. Eu entendo.
Mas faço questão que procure um médico.
Olhando para Maria Cândida, sugeriu:
- Se a senhora fosse com ela, eu ficaria bem tranquilo, pois a Dani não teria companhia melhor.
Não estou com disposição para sair.
- Eu entendo, Raul. Não se preocupe.
Virando-se para a moça, disse:
- Vamos lá. Pegue os seus documentos e vamos.
Abatida, Danielle estava sem ânimo.
Sem dizer nada, precisou se esforçar para se levantar e ir para o quarto apanhar sua bolsa.
Naquele instante, Desirée chegou com o esposo William.
Ela entrou falando alto, contrariada com alguma coisa.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 13, 2017 10:23 am

- Calma, filha! Abaixe o volume da voz!
Parece que está brigando! - reclamou a mãe ao vê-la.
- Não estou brigando, mãe! Estou revoltada!
Virando-se para Raul, pediu:
- Desculpe-me, Raul.
Não é agradável ter alguém exaltado ao lado.
Mas estou furiosa com o meu pai!
- O que foi, dessa vez, Desirée? - perguntou a mãe, que a conhecia bem.
William, parecendo cansado e entediado com a irritação da esposa, cumprimentou Raul e sentou-se no sofá ao seu lado, sem dizer mais nada.
Largando o corpo e, recostando no encosto, fechou os olhos.
Enquanto isso Desirée, nervosa, explicava:
- O pai quer que o Will fique aqui em Nova Iorque acompanhando a bolsa, as acções ou sei lá mais o quê!!!
Quer que ele viva em Wall Street, no centro financeiro do mundo!!!
Eu não vou suportar!!!
Podemos ficar aqui por meses!!!
A senhora acredita?!!
Procurando ser calmo, o marido retrucou em tom grave e firme:
- Não é só a bolsa ou negociações com acções milionárias que não podemos deixar nas mãos de qualquer um.
Preciso acompanhar a demonstração do desenvolvimento de uma nova tecnologia americana em aviônica.
Não sabemos se vamos fechar com os americanos ou com os alemães e queremos ser os primeiros a essa modernização.
Ela não entende que esse é o meu trabalho.
Sou director da empresa nessa área.
Tenho de decidir quem chamamos para uma demonstração, com quem fechamos negócio...
Eu preciso ficar aqui.
Quer queira ou não.
Vou acompanhar as últimas novidades no desenvolvimento e produção desses equipamentos.
- O meu pai é o dono daquela porcaria, assim como de muitas outras!
Ele pode mandar e desmandar!
Você deveria pedir para pôr outro em seu lugar!
- Ele é o sócio presidente da companhia, Desirée! - William falou firme.
Não foi por acaso que chegou até aí!
Foi por competência.
Se ele decidiu que o melhor sou eu ficar aqui, cuidando e acompanhando tudo, bem de perto, vou ficar. Entendeu?!
- Eu nem queria vir para Nova Iorque!!!
E não quero ficar aqui!!!
- Então volte para Paris!
Eu fico! - exclamou insatisfeito.
Levantou-se, pediu licença e se retirou.
- Desirée! Pare com isso, filha!
Parece uma menininha mimada! - repreendeu a mãe.
O que deu em você?!
- Mãe, ligue para o pai e fale com ele!
Ele escuta a senhora!
- Não vou fazer isso!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:09 am

Danielle chegou à sala e estava pronta para sair.
Ficou parada e observando a cena, quando Maria Cândida pediu:
- Vamos logo, Dani!
- Onde estão indo? - quis saber Desirée.
A mãe explicou.
Em seguida, despediram-se e se foram.
Desirée, inconformada, passou a se queixar para Raul, que a ouvia com atenção e lhe dava conselhos para que não ficasse resistente aos acontecimentos.
Lamuriosa, ela contou-lhe toda a sua vida.
Sempre lamentando e protestando muito de seus problemas fúteis, insignificantes.
O rapaz era capaz de sentir pena de alguém assim.
Conversou e aconselhou, deixando-a tão à vontade que ela sentou-se ao seu lado e chorou algumas vezes a fim de mostrar o quanto sua vida era difícil, de seu ponto de vista.
Após longo tempo, William retornou à sala e viu a esposa com a cabeça recostada no ombro de Raul, que o olhou de modo estranho, como quem não sabia o que fazer.
O marido não disse nada.
Conhecia bem a esposa.
Não teria ciúme de Desirée.
Ao vê-lo, a mulher começou a reclamar novamente.
Ele se retirou rápido, e ela foi atrás.
* * *
Era um enorme apartamento triplex, com uma vista fabulosa para o rio Hudson.
Não era fácil imaginar porque Maria Elvira e o marido faziam questão de morarem, ali, sozinhos.
O único filho residia na Califórnia, com a esposa e seis filhos, sendo dois adoptivos.
Recebiam, com frequência, parentes e amigos.
Era uma residência muito grande onde, de uma das sacadas, Raul apreciava a vista olhando um navio, no rio, ao longe.
Pensava na esposa, quando ela chegou.
- Nossa, amor!
Você demorou! - disse indo ao seu encontro para beijá-la.
Maria Cândida, alegremente, exclamou:
- Vocês dois têm muito que conversar!
Deixe-me pedir para alguém preparar um lanche para nós!
- O que ela quis dizer? - tornou o rapaz, após ver a senhora sair.
- Vem cá, Raul - pediu ela com simplicidade.
Pegando em sua mão, levou-o até o sofá e o fez se sentar, acomodando-se ao lado.
Olhando-o nos olhos, revelou sem demora:
- Estou grávida! - falou com uma voz terna, suave.
Imediatamente as lágrimas brotaram nos olhos do marido que, respirando de forma descompassada, iluminou-se com grande sorriso e perguntou incrédulo:
- É verdade mesmo?!
- Sim! É! - afirmou jogando-se em seus braços e beijando-o com amor.
Em seguida, ele preocupou-se:
- Mas... E a medicação que eu tomei?
A quimio?... Não pode...
- Não! Não pode nada! - sorriu ela.
- Como assim?
- Você quer saber se o excesso de química não poderia trazer alguma consequência para o bebé?
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:09 am

- É! Além disso, seria difícil...
- Estou de oito semanas! - riu.
Dois meses! Engravidei antes de você começar o tratamento com a quimio e não percebemos.
- Como não percebemos?! - perguntou, rindo junto.
- A última menstruação foi há um mês e o fluxo foi bem pequeno.
A outra não aconteceu e, por eu estar nervosa, preocupada, pensei que fosse um atraso por estresse.
Já aconteceu isso antes, lembra?!
Quando eu menstruei, um mês atrás, e o fluxo foi bem pouco, eu já estava grávida!
Raul não disse nada.
Abraçou-a com força e a beijou com carinho. Depois declarou:
- Acho que Deus quer que eu viva!
Oh, Pai! Obrigado!
Estou tão feliz!
- Eu também!
Tudo vai dar certo, amor!
Vamos ter fé!
Todos ficaram surpresos e felizes com a notícia, principalmente Belinda, que só lamentava não poder estar junto da filha.
Contudo conversavam, por telefone, com frequência e a filha lhe contava as novidades.
Por causa do tratamento rigoroso, Raul precisava permanecer internado a cada seção de quimioterapia e Danielle recebeu orientação para não ficar no hospital como acompanhante durante a noite toda, como desejava, devido ao seu estado.
Ela estava muito abatida e exames comprovaram uma anemia considerável.
Edwin, nitidamente amargurado pelo que ocorreu entre ele e Nanei no Brasil, retornou a Paris e sua irmã Desirée resolveu acompanhá-lo, deixando o marido nos Estados Unidos.
Maria Cândida e sua mãe decidiram continuar em Nova Iorque, acompanhando Danielle em tudo.
Por sua vez, Maria Elvira fazia questão de que todos ficassem em sua casa.
- Não tem cabimento vocês saírem daqui para outro lugar na cidade!
Além do que, duvido que consigam encontrar um bom apartamento, em Nova Iorque, para alugar nessa época do ano.
Aliás, esta cidade está lotada em qualquer época! - dizia a irmã.
Eu e o Matt moramos sozinhos!
Este apartamento é enorme e é muito bom termos companhia.
Por favor, fiquem!
- O William está providenciando para sair daqui, não sei se você sabe.
E eu estou pensando na Danielle e no esposo.
Quando ele está no hospital e ficamos nesse vaivém, não me preocupo.
Porém, nos intervalos do tratamento, vejo que o Raul, principalmente, não fica nenhum pouco à vontade!
Eles estão constrangidos.
Você deve ter percebido.
- Eu notei sim. Gosto de tê-los aqui.
Acredite!
Pensativa, após um momento, comentou:
- Gosto tanto da Danielle!
Você não imagina! Ela...
- Eu sei. Parece a minha Dani.
Meu Deus!...
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:10 am

Maria Cândida chorou emocionada e desabafou:
- Parece que Deus resolveu me juntar novamente com minha filha.
É como se eu sentisse uma vontade, uma necessidade enorme de ajudá-la.
De fazer por ela o que eu não pude ou não fiz.
Secando o rosto com as mãos, tentando reprimir o choro, prosseguiu:
- Gosto dela tanto quanto dos meus outros filhos!
Não é possível um coração de mãe se enganar.
- O papai ficou desesperado quando tudo aconteceu.
Coitado! Ele procurou notícias da Danielle desencarnada, por todos os meios que pôde.
- Ninguém se conformou com o que aconteceu, principalmente eu.
Fiquei pensando...
Sempre quis levá-la para morar comigo, na França ou na Inglaterra.
Junto com os irmãos, mas ficava com pena dos nossos pais que ficariam sozinhos no Brasil.
Depois do acidente, fiquei louca...
Você se lembra. O remorso acabou comigo, Maria Elvira.
Todas as férias, por um mês, ela ficava na Europa, comigo e com os irmãos... - Chorou.
- Eu penso que a Danielle voltou.
Voltou para viver o que não viveu.
Voltou para você fazer por ela o que não pôde ou não conseguiu.
Dona Filomena as ouvia e, quebrando seu silêncio, revelou:
- Certa vez, eu e o pai de vocês, por estarmos sofrendo muito, perguntamos pela Danielle em uma seção na casa espírita que frequentávamos.
Um espírito amigo nos disse que eu ainda, nesta vida, iria reencontrar a minha neta.
Disse para orarmos por ela que estava muito bem e estudava no plano espiritual.
Ele ainda alertou que parássemos de nos desesperar, de lamentar sua ausência e, principalmente, que parássemos de pedir que ela se comunicasse.
O Armando ainda insistiu e perguntou se ele também se reencontraria com ela.
O espírito amigo foi sincero e lhe disse que, nesta vida, ele não iria revê-la como desejava.
Mas que Danielle ainda retornaria para os meus braços e os braços da mãe.
- Não seria a Olívia ou a Desirée, reencarnada, mamãe?
- perguntou Maria Elvira.
- Não! Tenho certeza que não! - afirmou dona Filomena.
- Pensei nessa possibilidade quando elas nasceram.
Mas o pai de vocês estava vivo e o espírito amigo disse que ele não se reencontraria com ela.
Depois... Não senti, nas outras filhas da sua irmã, nada que lembrasse a Danielle.
E quando vi essa menina!...
Quando a Cândida chegou lá em casa com ela...
Eu vi a Danielle. Até me assustei com o seu nome.
Ao saber que era filha da Belinda, entendi que a minha neta voltava de outra forma.
- Estou muito surpresa com tudo isso - tornou Maria Elvira, reflexiva.
É impressionante!
Vejo que, apesar de um pouco constrangida, talvez até por causa do marido, a Danielle se dá muito bem connosco.
Fica bem tranquila entre nós, como se estivesse acostumada.
Outro dia eu a vi deitada ao seu lado e na sua cama, Maria Cândida.
Estava afagando-a. Coisa que suas filhas não fazem!
Observei como ela trata a senhora, mamãe.
Nossa!... É uma coisa muito natural para ela.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:10 am

- É minha neta! Tenho certeza!
- Só quero ver quando ela encontrar o George.
A Danielle se dava muito bem com todos nós, inclusive gostava muito do Edwin, apesar de ele ter dois anos quando ela se foi, mas nunca gostou do George.
Eles não se suportavam.
Viviam brigando e, muitas vezes, a tapas.
Eu precisava ficar muito atenta quando os dois estavam juntos.
Maria Cândida suspirou fundo e prosseguiu:
- Venho observando e analisando tudo, cada detalhe.
É inegável. Preciso até tomar cuidado.
- Por quê?! - perguntou a irmã.
- O Edwin notou o meu interesse por Danielle e ficou intrigado, preocupado pelo facto de achá-la idêntica a minha Danielle.
Por outro lado, a Desirée está enciumada como sempre.
Vocês perceberam como ela foi embora?
- A Desirée é muito mimada! - reclamou dona Filomena.
- Sempre foi uma menina cheia de dengo e caprichos inúteis.
Agora, mesmo sendo uma mulher casada e com vinte e nove anos, não criou juízo.
E a culpa é sua e do Óscar! - exclamou zangada.
Deveriam ter posto as rédeas nela enquanto era tempo!
Sabendo que sua mãe começaria a tecer longa queixa sobre a educação de seus filhos, Maria Cândida decidiu ocupá-la com outro assunto.
- A Desirée se deu tão bem com o Raul.
Vocês perceberam?
- Foi mesmo - concordou a irmã.
Ele é capaz de ficar ouvindo-a por horas e não parecer insatisfeito.
Eu o vi falando, aconselhando...
Ela até ficou mais calma com o Will, por causa dele, creio.
- Não sei... Temo que o Raul convença a Danielle para irem para outro lugar, por achar-se inconveniente.
Eu ouvi, parcialmente, uma conversa dele com a Belinda - disse Maria Cândida.
- E o que podemos fazer?! - preocupou-se a senhora.
- Não quero ficar longe da minha neta!
- Mamãe! Não diga isso! - repreendeu Maria Cândida.
- Eu tenho uma ideia!
O rosto de Maria Elvira iluminou-se e ela revelou:
- A casa em Long Island está vazia.
Somente os empregados estão lá.
É um lugar maravilhoso, devemos reconhecer.
Sol, praia, tranquilidade...
É cerca de uma hora e pouco de carro até lá!
É o lugar ideal para ficarem no intervalo dos tratamentos.
Quando precisar vir para a clínica, eles ficam aqui em casa.
O Raul vai gostar da ideia. Tenho certeza!
- Mas eu não gosto de lá! - reclamou dona Filomena.
- Passei o maior medo naquele ano em que um furacão nos pegou lá.
- Mamãe, a senhora fica aqui connosco.
Seria bom a Danielle e o marido se sentirem à vontade.
Há momentos em que ele passa mal, não quer ninguém por perto e tem razão.
Sente-se enjoado, tonto...
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:10 am

O intestino não funciona direito, como aconteceu outro dia.
A senhora viu como ele ficou envergonhado.
- Eu fico lá com eles! - decidiu Maria Cândida.
- Sim, claro!
A Danielle está grávida, pode precisar de companhia e você é a pessoa ideal.
- Fabuloso, Maria Elvira!
O problema está resolvido! - disse a irmã bem satisfeita.
A mamãe fica aqui e, por ser perto, eu venho a cada dois ou três dias.
- Eu sei me cuidar, Maria Cândida!
Não me trate como se eu fosse uma criança! - zangou-se a senhora.
- Não é isso, mamãe!
- É sim!
Para acalmá-las, Maria Elvira prosseguiu com novas ideias.
- Eu penso que o William até aceite continuar aqui, depois que vocês forem.
- Acha que ele não gosta do Raul e da Dani? - quis saber a irmã.
- Não, não é isso.
Ele me disse estar preocupado por se achar demais nesta casa.
Apesar daqui ser enorme! Com menos gente... Quem sabe?
Eu posso providenciar que ele fique lá em cima.
Poderá chegar e sair directo, sem ser visto nem incomodado, por causa do elevador privativo.
- Que óptimo!
É bem provável que ele aceite - tornou a irmã.
* * *
Edwin estava em Londres, de onde tentava entrar em contacto com Nanei, mas ela não respondia a seus e-mails nem atendia seus telefonemas.
Contrariado consigo mesmo e até com sua mãe, decidiu falar com Belinda, por não saber mais o que fazer.
- A senhora conversou com ela? - perguntou ele preocupado.
- Lógico, Edwin.
Mas a Nanei não diz nada, só me ouve.
É pior do que se ela brigasse e reclamasse.
- Entendo. Não posso ir aí agora.
Tenho muitos compromissos por aqui.
Ela precisa acreditar em mim e ver que tudo foi um mal entendido.
Queria muito que ela me ligasse.
Pode dizer isso a ela?
- Digo sim.
- Obrigado, dona Belinda.
- Gosto muito de você, Edwin.
Ficaria feliz se a Nanei pensasse melhor.
- Obrigado.
- Boa sorte, filho!
- Fique com Deus, dona Belinda!
Após desligar, Belinda subiu até o quarto da filha.
Estava zangada e não escondia isso.
- Nanei?!!! - gritou ao bater.
- Entra!
- Nanei, o que você pretende?!!!
- Como assim, mamãe?! - surpreendeu-se, pois era difícil vê-la tão irritada.
- Mandou a empregada dizer que você não estava e o Edwin pediu para falar comigo! Sabia?!!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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