Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 10:27 am

- Estou mesmo. Sinto-me tão tenso.
Após algum tempo e inesperadamente ela foi para trás da cadeira e começou a massagear seus ombros.
Não demorou e, largando-o, disse, parecendo brincar:
- Os seus ombros estão bem tensos.
Precisa pedir para a Danielle fazer uma massagem.
- É... Preciso - respondeu sem jeito.
Não ingeriu o resto da bebida e decidiu:
- Não vejo a hora de chegar à minha casa e relaxar. Por hoje, chega.
A princípio William estranhou o comportamento da secretária, que conhecia há anos.
Porém lembrou-se de que ela sempre falava em Danielle, elogiando-a ou fazendo comentários positivos.
Não poderia haver mal nisso.
Com o tempo, o toque de sua mão, o massagear no ombro, passaram a ser algo quase corriqueiro.
Ele não tinha coragem de repreendê-la ou de se afastar. Estava atordoado.
Charlaine, inspirada por Desirée, era tão ardilosa que agia lentamente, fazendo como se tudo fosse muito natural.
O espírito Raul inspirava William a se distanciar, mas ele não reagia.
* * *
Com o passar dos dias, o senhor Óscar, sentindo a ausência de Danielle e William em sua casa, convidou-os para um final de semana prolongado na praia.
Danielle ficou indecisa, entretanto o marido não.
Estava bem animado para o passeio.
Insegura, ela chegou a ligar para sua mãe, pedindo opinião.
- Filha, eu não disse para você sumir, desaparecer da vida deles.
Só aconselhei a não viver sempre com eles.
Um final de semana na praia será óptimo para vocês.
Com isso, Danielle se tranquilizou.
Ela começou a reparar que sua vida havia mudado.
Pensou muito em tudo o que sua mãe falou.
Sua vida, ao lado do marido, achava-se mais harmoniosa, divertida, calma e bem alegre.
Até procurou o curso de dança, como a irmã sugeriu, só não contou para ninguém.
Não tinha mais ciúme de William, como antes, e nunca foram tão felizes.
Percebeu que o resultado do sentimento de ciúme era, incrivelmente, devastador e só trazia desarmonia entre ela e o marido.
O casal havia voltado a frequentar a sociedade espírita e fazia o Evangelho no Lar.
Ela passou a estudar sobre mediunidade.
Isso os ajudou muito.
Era final de tarde e William estava bem animado para ir viajar, quando Charlaine entrou em sua sala e avisou:
- Telegrama para você.
Não abri, porque... - Não disse.
Entregou-lhe a correspondência em suas mãos.
Ele a abriu e empalideceu.
- William? Tudo bem?
Com voz pausada, contou:
- Eu tenho quinze dias para me apresentar na Inglaterra.
Fui convocado para a Guerra do Iraque.
Vão mandar mais tropas.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 10:27 am

Ela contornou a mesa e, ao seu lado, tomou-lhe a correspondência de suas mãos.
Leu-a e mesmo assim ficou incrédula.
- Meu Deus! Isso não é possível!
- Sempre tive medo disso - murmurou transtornado.
- Não posso acreditar!
Sem conter as lágrimas, ela afagou-lhe o rosto ternamente e depois o abraçou com força.
Ele ficou parado, petrificado e passou levemente as mãos em suas costas.
Depois tentou afastá-la de si, ao pedir:
- Não fique assim.
Charlaine começou a chorar e não se conformava.
Ela passou a tocá-lo como se não acreditasse no que acontecia ou como se fosse à última vez que o via.
Logo segurou seu rosto e o beijou.
Pelo impacto da notícia e o envolvimento de Desirée, ele correspondeu.
Após um momento, repeliu-a.
Olhou-a de modo estranho e perguntou contrariado, nervoso:
- O que é isso?!
O que você está fazendo?!
- Eu... Fiquei desesperada e...
Enérgico, exigiu:
- Charlaine, vá embora!
- William, eu...
- Vá embora! Por favor!
Estou mandando!
Ela obedeceu e se foi.
Voltando para sua mesa, puxou a cadeira e se sentou.
Ficou por algum tempo com a cabeça baixa, reflectindo e tentando se acalmar.
Em seguida, foi para casa.
Não sabia como encarar a esposa por dois motivos:
o beijo de Charlaine e a convocação para a guerra.
Danielle estava com as malas prontas, alegre e cheia de novidades.
Ao ouvi-lo chegar, sem vê-lo e de onde se encontrava, não parava de falar enquanto arrumava alguma coisa.
Exibia-se muito feliz.
Quando pôde, aproximando-se do marido e percebendo-o quieto, quis saber:
- O que foi, Will? Está estranho!
- Preocupações com o serviço.
Não quero incomodá-la com isso.
Abraçou-a com muita força.
Diferente do que costumava fazer.
Beijou-a e a apertou novamente contra o peito.
Escondendo o rosto em seus cabelos, permanecendo assim por longo tempo.
Foi nesse momento que a esposa sentiu o cheiro de um perfume muito forte.
Era perfume de mulher.
Tinha certeza. E não era o seu.
Sem dizer nada, ao se afastar do abraço, disfarçou, com um sorriso, o sentimento amargo que a invadiu.
Olhando-o firme, viu em seu rosto, perto da boca, uma vermelhidão de batom.
Então teve certeza.
Não sabia o que fazer.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 10:27 am

Ao vê-la imóvel, observando-o de um modo estranho e indefinido, indagou:
- O que foi, Dani? - falou angustiado, temendo que ela percebesse algo.
- Nada - respondeu séria, com voz abafada.
Você ainda quer viajar?
- Por quê? Acha que não deveríamos?
- Não sei... - falou confusa, atordoada.
É que você está estranho.
- Vamos sim. Não quero estragar os nossos planos. Precisamos dessa viagem.
Distanciando-se dele, sem conseguir disfarçar o sentimento horrível de angústia que a dominou, disse, fugindo-lhe ao olhar:
- Então tome um banho. Vamos hoje mesmo.
Sem dizer nada, o marido concordou com a sugestão e foi para o banho.
Danielle não suportou e aproveitou sua ausência para cheirar melhor suas roupas.
Mais uma vez teve certeza:
a roupa de William exalava o aroma de um perfume feminino e ela era capaz de jurar que sabia de quem era.
Nesse momento sentiu-se mal.
Seu rosto esfriou e decidiu ligar para sua mãe, contando tudo.
- Danielle, escuta! - dizia Belinda firme.
Você não pode afirmar nada!
- Ele está muito estranho, mamãe.
Está triste, amargurado, parece até arrependido.
- Se está arrependido, óptimo!
Caso tenha acontecido alguma coisa.
- O pior é que eu sei de quem é esse perfume.
É da Charlaine, a secretária dele. Tenho certeza!
Ela toma banho com esse perfume!
- Você não tem certeza, filha.
Não viu nada nem ele te contou.
- O que eu faço? Falo com ele?
- Se não estivessem prontos para irem viajar, eu diria para falar, conversar com jeitinho.
Do contrário não. Viaje, brinque, descanse, aproveite.
Quando voltar, converse com ele sem se alterar.
- Não sei se vou aguentar.
- Vai sim!
Pensando um pouco, opinou:
- Dani, será que essa secretária, propositadamente, passou perfume na roupa dele para estragar a sua viagem?
- A senhora acha?
- Filha, tudo pode acontecer.
O que não deve é brigar com ele até esclarecer tudo.
Agora não é um bom momento.
Ouvindo o conselho de sua mãe, Danielle decidiu não fazer nada.
Viajaram e ele quase não conversou.
O marido estava extremamente diferente.
Quieto, muito preocupado.
William não era assim, definitivamente.
Na praia, só ficou deitado sob o sol morno, enquanto ouvia o senhor Óscar conversar.
- Aqui, na costa do Mediterrâneo, é maravilhoso.
Sei que vai me dizer que não se compara às praias brasileiras.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 10:28 am

A Côte Vermeille - Costa Avermelhada - tem várias praias e recebe esse nome por causa da cor das pedras que formam os portos.
Elas variam entre o vermelho e laranja.
- Gostei! É um lugar muito bonito - admirou Danielle.
Virando-se para o marido, perguntou:
- Já esteve aqui, Will?
- Já - respondeu simplesmente.
Maria Cândida trocou olhar com Danielle e indagou em voz baixa:
- O que ele tem?
A moça encolheu os ombros e gesticulou que não sabia.
Após algum tempo, ela pediu para o marido acompanhá-la a uma caminhada pela praia e ele concordou.
Percorreram longa distância de mãos dadas e em total silêncio.
William lembrou-se de quando andaram na praia em Long Island, quando começou a conhecê-la melhor e a admirou tanto.
Desejou um momento como aquele:
calmo em que os dois se achassem em harmonia, intimamente satisfeitos.
Danielle estava tão bem, tão diferente.
Havia mudado tanto e se encontravam bem mais felizes nos últimos dias.
Mas ele não conseguia ter paz pelo que lhe ocorreu no dia anterior.
Seus pensamentos fervilhavam e estava triste demais.
Por que não poderiam viver juntos e felizes, com ela grávida ao seu lado como da outra vez?
Só que agora seria diferente, pois o filho seria seu.
Queria que a ocasião fosse outra, mas não era e não conseguia falar.
Após algum tempo, a esposa comentou com tranquilidade.
- Se eu soubesse que você iria ficar desse jeito, não teríamos vindo.
- É verdade. Estou arrependido de estar aqui - disse, suspirando fundo e engolindo seco.
A esposa parou, ficou frente a ele e perguntou com jeitinho:
- Estamos longe de todos. Quer conversar?
- Não, Dani. Aconteceu uma coisa e...
Vou lhe contar, mas não aqui.
Não quero estragar a nossa viagem.
- Tenho certeza de que esta viagem já está estragada - falou com o coração apertado.
William abaixou o olhar, pegou em suas mãos, olhou em seus olhos e pediu em tom triste, deprimido:
- Eu gostaria que me compreendesse e...
Por favor, não me pressione.
Vou contar, mas não aqui, não agora.
Preciso de um tempo para me acostumar com a ideia.
- Que ideia? - perguntou temerosa.
- É algo desagradável para nós dois. Por favor, Dani...
Uma sensação de medo a invadiu.
Acreditou que o marido tivesse outra mulher e havia decidido deixá-la.
Um torpor a dominou e sentiu-se mal.
Com leve discrição, segurando-se nele por um instante, recostou a testa em seu peito.
- O que foi, Dani? - preocupou-se.
- Nada - murmurou. - Vamos voltar.
Ela o enlaçou pela cintura e o marido sobrepôs o braço em seus ombros e retornaram.
Praticamente não conversaram mais.
Ao longo da tarde, o senhor Óscar, que o viu bastante quieto, insistiu muito para William aceitar fazer um passeio de lancha.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 10:28 am

Queria apostar uma corrida e ele concordou.
- Vamos, Dani? Vai! - insistiu o marido.
- Não.
- Ainda não está bem?
Acha que comeu algo que não estava bom?
- Não sei.
A mulher sabia o que era, mas não quis falar.
Sua mente se corroía com a ideia de ele abandoná-la e não sabia o que fazer.
Ele ficou preocupado, parado ao seu lado, até que o senhor o chamou novamente:
- Vamos, William! Essa é a melhor hora do dia!
Vamos até a casa de barcos para pegar as lanchas!
George, Óscar e William se foram e as mulheres continuaram na praia com o filhinho de George que brincava na areia.
De onde estavam podiam ver as lanchas cortando o mar em alta velocidade.
William pilotava sozinho.
George a outra, com seu pai ao lado.
Era nítido que apostavam corrida.
Danielle olhava-os ao longe e tinha os pensamentos distantes.
Por isso demorou alguns segundos para entender quando uma das lanchas empinou e capotou várias vezes.
- Will... - murmurou, levantando-se.
Era a lancha do Will!!! Não era?!!!
De facto era.
William foi levado ao hospital gravemente ferido.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:39 am

20 - A VIDA SE ENCARREGA DE TUDO

Socorrido no hospital da região, William permaneceu em estado de coma por dez dias.
Sofreu traumatismo craniano.
Fracturou duas costelas, o braço e a perna em três lugares.
Danielle ficou desesperada e ao seu lado o quanto pôde.
Não parou de orar.
Em conversa com sua mãe, contava:
- Somente agora ele poderá ser transferido para Paris, mas ainda não está muito bem.
Dorme muito, tem dores.
Ele conversa, mas se esquece depois...
Quando saio do quarto e retorno, não se lembra de ter me visto antes.
Pensa que me viu ontem e diz:
que bom que veio me ver hoje - chorou.
Às vezes, não fala coisa com coisa. Estou muito preocupada, mamãe.
O médico disse que é normal, mas...
Ah... Disse também que vai precisar ficar internado por mais alguns dias para continuar monitorado.
- Filha, fique tranquila.
Ele vai ficar bom. Tenha fé.
- Mamãe...
- O que, Dani?
- Estou grávida. Não contei para o Will.
- Dani. Deus te abençoe, filha! - emocionou-se.
Por que não disse para ele?
- Estou arrependida por não ter contado.
Agora ele não parece bem, está confuso.
Não se lembra direito das coisas nem das pessoas.
Não quero contar com ele assim.
- E antes? Por que não disse?
- O Will estava estranho, como falei e...
Acho que queria me dizer algo sobre nos separarmos e...
Não quero que fique comigo por causa do filho - chorou.
- Ele não vai te deixar, meu bem.
Talvez ele estivesse chateado com alguma outra coisa.
Não crie fantasmas onde não existe.
Ah... se eu pudesse estar aí com você...
É que a Olívia tem a cesárea marcada para amanhã, você sabe.
- Eu sei. Não se incomode nem se preocupe.
Vou ficar bem.
Amanhã o Will será transferido e vou com ele.
Ficaremos mais perto.
- Você vai ficar sozinha, filha?
- Vou. Não se preocupe. Ficarei com ele.
Com o coração partido, Belinda, disse:
- Fique com Deus, meu bem.
- Mamãe, só uma coisa...
- Fala, filha.
- Não conte para ninguém sobre eu estar grávida.
Por favor. Quero que ele seja o próximo a saber.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:40 am

- Não vou contar.
Fique tranquila. Deus te abençoe.
- Amém, mamãe. Obrigada.
Danielle sentiu o peito apertar como nunca.
Voltando ao lado do marido, socorreu-se na prece.
* *
Ao retornar a Paris, Óscar descobriu, pela assistente, a convocação de William para a Guerra do Iraque.
Danielle estava se refazendo da viagem, na mansão de Maria Cândida, apesar de a senhora ter ido para Londres, onde Olívia deu à luz um lindo menino.
Procurando por Danielle, Óscar contou e ela assustou-se:
- Ai, meu Deus!!! Eu não acredito!
Ele não me contou!
Por isso é que estava daquele jeito!
Disse que era algo desagradável para nós dois!
Era isso! E agora?!
- Lógico que ele não vai mais!
Todo quebrado daquele jeito!
Nem se for para o William ficar engessado enquanto durar essa guerra.
Ele não vai!
Vou falar com os médicos e resolver essa situação.
Ele pode morrer, mas não vai ser nessa guerra estúpida!
- Então o mantenha longe do George! - exclamou ela firme, olhando-o de modo estranho, parecendo em transe.
- O que está dizendo, Danielle?! - perguntou George, levando um susto.
- Foi você quem sabotou aquela lancha para matar o meu marido e a mim.
Era para eu estar junto.
Você quer a vice-presidência e quer que eu suma da sua vida.
Quis nos matar assim como fez com o seu tio!
Era isso o que tinha medo que eu descobrisse!
- Ficou louca?!!
Como pode dizer um absurdo desses?!!
- Mandei investigar!!! - gritou.
A lancha foi mexida!!! - tornou ela, perdendo o controle.
Você tentou matar o Will!
- Sua louca!!! - George foi à direcção de Danielle, mas Óscar o impediu, entrando no meio.
- O que ela está dizendo, George?!
Explique-se!!! - exigiu o pai.
Danielle saiu correndo.
Com medo, pegou o carro e foi para seu apartamento.
Sentia-se confusa e não tinha ideia do que fazer.
Óscar decidiu pedir uma inspecção técnica na lancha para conhecer as causas do acidente ou seria a palavra de seu filho contra a de Danielle.
William se recuperava lentamente permanecendo muitos dias internado em um hospital em Paris.
Na maioria das vezes, sonolento, sob efeito de medicamentos muito fortes.
Danielle resolveu esperar que o marido se recuperasse bem para lhe contar a novidade.
Sua mãe era a única pessoa que sabia e guardava segredo.
O tempo foi passando.
Naquele dia, ela estava muito animada para ver o marido.
Apesar de todo engessado, ele receberia alta.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:40 am

Ao chegar à porta do quarto, Danielle ouviu a voz de Charlaine e, pela fresta, pôde vê-la na cabeceira da cama de William.
- Sei que ficou muito perturbado no dia em que recebeu o telegrama da sua convocação.
Eu fiquei em pânico e desesperada por sua causa.
Depois que nos beijamos, eu não soube me explicar e...
- Vá embora! - pediu ele.
Danielle, incrédula, foi se aproximando sem ser vista.
Charlaine afagou o rosto de William e, olhando-o com ar provocante, falou com ousadia:
- Então me dê um beijo.
Curvando-se o beijou inesperadamente.
Com dificuldade William levantou a mão para empurrá-la.
Nesse instante Danielle perguntou com voz abafada e pausada:
- O que é isso?
- Dani! - assustou-se o marido.
Dani, vem aqui! Espera!
Ela virou as costas e saiu.
Em seu apartamento, fez as malas.
Foi para o aeroporto, pegando o primeiro avião para Londres.
* *
Em desespero e choro compulsivo, jogou-se nos braços da mãe contando tudo o que aconteceu.
Edwin e Nanei ouviam atentos, mas o cunhado duvidou:
- O William não. De jeito nenhum.
Eu o conheço bem!
- Eu vi, Edwin!
Quando ele chegou ao apartamento com o perfume dela e sujo de batom, eu vi.
Contei para a minha mãe...
No hospital, eu mesma vi e ouvi a Charlaine falando sobre o dia em que foi convocado.
O mesmo dia em que ele chegou a nossa casa daquele jeito.
- Filha, não temos muito que fazer agora.
Precisamos aguardar.
É melhor você ficar calma e pensar...
Breve pausa e perguntou:
- Você contou para ele?
- Não.
- Contou o quê? - interessou-se a irmã.
- Nada, Nanei. É coisa dela e do marido.
Agora vamos, Dani.
O melhor é descansar e se acalmar um pouco.
- Edwin, eu preciso de um favor seu.
- Fala, Dani. O que é?
- Eu falei para a empregada cuidar da Meg.
Não sei como se faz para viajar com cachorro e queria sair de lá o mais rápido possível.
- Quer que eu mande trazê-la?
- Quero. Pode ser?
- Claro. Vou providenciar isso o quanto antes.
* * *
Ao telefonar para o apartamento da cunhada para falar com a empregada, Edwin foi atendido por William.
- Ela está aí?! - William quis confirmar em desespero.
- Está. Parece muito nervosa.
Chorou bastante. Contou o que viu no hospital.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:40 am

- Não tenho nada com a Charlaine! Nunca tive!
Não sei o que deu nela para agir daquele jeito.
Foi de repente! Eu não esperava!
- Eu acredito em você.
Agora a situação está muito acalorada.
O melhor é esperar alguns dias para conversarem.
- Será difícil para eu ir até aí.
Preciso conversar com a Dani.
Tente convencê-la a vir aqui conversar comigo.
- Ela quer a Meg.
- Não! De jeito nenhum!
- Will, não vão fazer como crianças!
- Não vou entregar a Meg. Ela tem de vir buscar.
- Não faça isso. A situação vai ficar pior, Will.
Entregue a cachorrinha. Confie em mim.
- Coloque a Dani ao telefone - pediu.
Danielle recusou-se, terminantemente, a falar com o marido por telefone.
Em hipótese alguma, aceitava a ideia de voltar a Paris.
Enquanto ele, imobilizado e se recuperando, não poderia viajar.
Depois de conversar muito com o amigo, William concordou em entregar a cachorrinha.
Na espiritualidade, Desirée se comprazia com a separação dos dois.
- E agora? - perguntou Raul com simplicidade.
- O que tem agora?
- Pelo jeito você os separou.
Conseguiu o que queria.
Qual é o próximo passo?
- Como assim, Raul? Não entendi.
- Tudo o que fazemos precisa ter um objectivo para nós e para os outros.
Além disso, quando alcançamos um objectivo, obtemos um resultado e assumimos a consequência dele.
Se você conseguiu o seu objectivo, tem um resultado.
Qual é o proveito de tudo isso?
- Você está me deixando confusa.
O William é meu!
É meu marido! Quero vê-lo sozinho.
Não vou deixá-lo para outra.
Quando eu estava viva, avisei que seria muito difícil ele se livrar de mim.
- Há séculos, eu acompanhei um acontecimento interessante.
Tive uma irmã muito querida.
Ela era apaixonada pelo marido.
Seria capaz de morrer por ele.
Viviam muito bem e ele era um bom homem.
Então aconteceu que surgiu a outra.
A minha irmã fez de tudo para salvar o casamento, mas não conseguiu.
O marido a abandonou.
Sem recursos, sozinha e com dois filhinhos ela foi morar comigo.
Eu não pude fazer muito mais do que lhe dar abrigo e ouvido.
Fiquei bastante impressionado por ela sofrer tanto.
Ao desencarnar, minha irmã fez da própria vida um inferno.
Hoje eu entendo que o que ela fazia para separar os dois, unia-os cada vez mais.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:41 am

Eles ficaram juntos e somente após algumas reencarnações sofreram a consequência do que fizeram.
Ele se arrependeu por tê-la abandonado e a outra sofreu muito por ter desfeito um lar. Nossa!
Coloque sofrimento nisso.
- E a sua irmã?
- Ela nunca mais se permitiu ser feliz.
Passou a ser possessiva com todo companheiro que encontrou nas experiências seguintes.
Entendi que isso foi por uma espécie de trauma daquela encarnação.
Mas ela não vê que a possessividade é um veneno muito destrutivo que deteriora os sentimentos dos dois e...
- Pare, Raul. Eu vi isso!
Acabei de me lembrar dessa história.
Breve pausa em que reflectia e perguntou:
- Era eu? Eu fui sua irmã?!
Ele sorriu e confirmou:
- Foi sim. Era você mesma.
O espírito Desirée viu-se envolvida por um sentimento confuso.
- Por isso eu simpatizei com você!
Gostava tanto das nossas conversas!
Nunca reclamava por eu falar e falar!
Imediatamente deteve-se e se revoltou:
- Então, definitivamente, os homens não prestam.
Eles traem, abandonam, maltratam...
- Não. Não é assim.
Lógico que os espíritos sem evolução têm essas práticas sim. Mas não todos.
- O que aconteceu comigo?
Nunca mais fui feliz!
- chorou.
- Você não se permitiu ser feliz.
- O Will queria se separar.
Hoje está com outra e não se lembra de mim.
- O Will foi mais um espírito amigo que tentou ajudá-la a gastar a energia do ciúme, do controle, da possessão.
Ele acompanhou de perto o seu drama naquela época, e lhe queria muito bem.
Hoje deveriam viver juntos um determinado período para depois, cada um, seguir sua vida evolutiva.
Ele não iria se separar de você.
Era a vida que iria se encarregar disso.
Assim como foi a vida que se encarregou de unir os dois.
As pessoas ciumentas pensam ter o controle de todos os que a rodeiam, porque dizem amá-los e não é bem assim.
Amor e ciúme são opostos.
- Quando termina o ciúme e começa o amor?
- Quando existe o perdão, a paciência, a confiança e a fé.
Aproximando-se dele, abraçou-o com força. Chorou e desabafou:
- O que eu faço, Raul?
- Comece desfazendo tudo o que fez de mal a eles.
É isso o que fazemos quando queremos evoluir.
Precisamos harmonizar tudo o que desarmonizamos ou não teremos paz.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:41 am

Não encontraremos felicidade.
Não teremos amor nem quem nos ame.
- Por que eu fui desencarnar naquela tragédia, Raul?
Sempre me pergunto isso.
- Você estava entre um grupo de encarnados com aquele tipo de necessidade ou algo semelhante.
Cada um com o seu motivo.
Alguns pertenciam a um grupo selectivo.
- Pode me explicar melhor?
- Desirée, pense.
Grupos de pessoas decidiram apedrejar uma outra ou outras até a morte.
Essa era uma prática muito comum em tempos antigos e durou séculos.
Por não aprenderem que isso era errado, esse grupo de pessoas pode se reunir em um lugar onde tem todas as chances de morrerem em escombros, como o que aconteceu nas Torres Gémeas ou, então, terremotos, desabamentos ou catástrofes semelhantes.
Esse é um tipo de resgate colectivo.
Assim como um grupo de pessoas que queimou alguém vivo ou se comprazia ou denunciava alguém para que morresse na fogueira, pode enfrentar um incêndio em um edifício.
Pessoas vitimadas por todos os tipos de tragédias naturais, como furacões, tornados, tsunamis, vendavais, enchentes, desmoronamentos, desabamentos que destroem casas, residências, vilas ou cidades inteiras estão juntas nesses acontecimentos catastróficos para algum tipo de resgate colectivo.
Elas passam por isso porque, de alguma forma, estiveram reunidas em ações em que destruíram casas e apedrejaram vidas.
Podem ter atirado pedras, como podem ter atirado bombas.
Em batalhas e guerras, por exemplo.
Saquearam, destruíram, torturaram e cometeram práticas de vandalismo, ferindo e matando.
Hoje alguns perdem tudo, alguns se ferem, outros sucumbem e isso acontece, com certeza, por consequência de seus actos passados, pois Deus não erra.
- Todos que perdem tudo ou morrem nesses tipos de tragédias, fazem parte de um resgate colectivo por que praticaram juntos, como um grupo, actos para matar ou destruir?
- Não necessariamente.
Pode ser um grupo, podem ser vários grupos ou um espírito que pede para estar junto a fim de aproveitar o ocorrido.
No caso, será um espírito disposto a evoluir mais rápido, geralmente.
A maioria dos resgatados
ou desencarnados em grupo não estão tão preparados e até pode-se dizer que se trata de um resgate em massa compulsório.
Por isso a energia do local é tão densa, tão ruim, pesada, escura, trevosa.
As mentes dessas pessoas, normalmente, cultivam a vaidade excessiva.
São criaturas que menosprezam as outras e se acham superiores, de alguma forma.
O orgulho, a arrogância e tantos outros sentimentos inferiores vivem, continuamente, em seus corações.
Esse tipo de acontecimento vai provar a esses espíritos que eles são frágeis, simples e ignorantes como todas as outras criaturas de Deus.
Não existe ser superior.
Esse tipo de tragédia pode continuar a acontecer com o mesmo espírito enquanto ele não for mais simples, menos possessivo, mais humilde.
Tenha certeza de que, quando você se acha superior a alguém, não trata o semelhante com educação e respeito, você se atrai para grandes tragédias, como essas, ou para pequenas tragédias do dia-a-dia.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:41 am

- Foi minha vaidade, meu orgulho que me atraiu para aquele lugar e não as opiniões do Will para eu me ocupar?
- É lógico! O Will não teve nada a ver com isso.
O próprio William poderia estar lá, mas não estava.
Repare que ele nunca ficou doente, mas precisou contrair aquela gripe para não deixar o apartamento.
Quando melhorou e ia embora, a Danielle teve febre e ele precisou socorrê-la, exactamente na hora dos atentados.
Tudo foi providencial.
O nosso inconsciente nos atrai ou nos afasta de uma situação para nos harmonizarmos, para nos equilibrarmos.
Brincando, Raul falou:
- Se o Will soubesse dos atentados de 11 de setembro e a tivesse amarrado lá e não deixado chance para que fugisse, aí sim ele seria culpado - riu.
Não foi isso o que aconteceu e você sabe.
- Estou sentindo uma coisa tão ruim...
Estou arrependida.
- Esse é o começo da elevação. Isso é bom.
- O que eu faço, Raul?
- Desfaça o que estiver ao seu alcance, enquanto é tempo.
Alguns instantes de pausa e revelou:
- Em determinada encarnação, eu interferi na vida do William.
Acusei-o injustamente ao Tribunal da Inquisição e ele foi torturado imensamente e depois morto na fogueira.
Em uma vida passada eu morri queimado em um incêndio.
A minha consciência cobrou-me tanto tudo o que fiz a ele que as torturas que eu o deixei sofrer, experimentei na última encarnação com a prova do câncer.
Tudo, exactamente tudo o que fazemos a alguém, nossa consciência cobra.
Por isso eu aconselho a desfazer o que fez de errado desde já.
- Como? Como eu posso desfazer algo do que fiz?
- Tenho uma ideia. Vem comigo!
* * *
Com o passar do tempo, William se recuperava ainda lentamente.
O nascimento de Twiller, filho de Nanei e Edwin, trouxe muita alegria a todos, principalmente para Danielle que estava sempre com o sobrinho.
- Dani, eu e o Edwin queremos que você seja madrinha dele.
- Eu?! - expressou-se alegre e emocionada.
- Você e o William - completou o cunhado.
Danielle fechou o sorriso e argumentou:
- Nós nos separamos, Edwin. Isso não será possível.
- Dani, conheço o Will há anos e posso dizer que o conheço muito bem.
Desde menino, na escola.
Depois estudamos juntos em Oxford.
Fizemos universidade e pós juntos.
Viajamos por esse mudo afora e...
Não posso crer que a traiu.
Quando conversamos, ele me disse que a Charlaine agiu sem que esperasse.
Ela foi ousada, sem-vergonha.
Chame-a do que quiser, mas não foi ele quem agiu.
- E o perfume? E o batom?
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:41 am

- Converse com o Will.
Ele poderá explicar - pediu a irmã.
Sabe que ele não tem condições de viajar ainda.
Sua recuperação não está sendo muito boa.
- Como assim?!
Ele não está andando direito, não está bem?! - quis saber Danielle preocupada.
- Não. Provavelmente não ande tão normalmente como antes.
Parece que está com sequelas do acidente - contou o cunhado, sabendo que iria sensibilizá-la.
- Fora isso, está com problemas que nem os médicos sabem exactamente explicar.
Dores de cabeça que o deixam louco... - contou Nanei.
Além disso, parece que alguma coisa está afectando sua visão.
Vai precisar sofrer uma cirurgia na perna para correcção e...
Ele está largado!
Não tem ninguém cuidando dele.
Não quer que a dona Maria Cândida vá lá.
Está se isolando de todo o mundo.
Não sei mais, além disso.
Por causa do nascimento do Twiller, quase não conversamos.
O melhor seria falar com ele pessoalmente e...
- Por que não me contaram?! - perguntou em desespero.
- Primeiro você disse que não queria mais que falássemos sobre ele.
Depois a mamãe pediu que não contássemos nada.
Ela não queria vê-la abalada e...
Dani, se você fosse visitá-lo, seria diferente.
Danielle se levantou. Sentia-se atordoada.
Caminhou alguns passos vacilantes pelo quarto e parou.
Levando as mãos no rosto, esfregou-o lentamente de modo aflitivo e alinhou os cabelos bem compridos agora.
Virou-se para o casal que a observava e contou de súbito:
- Estou grávida. O Will não sabe.
- Como não?!! - reagiu o cunhado surpreso, inconformado.
- Fale baixo!
Vai acordar o Twiller! - repreendeu Nanei.
Voltou-se para a irmã e quis saber:
- Por que não contou a ele?!
- Ia contar quando viajamos.
Eu estava tão feliz e...
O Will, repentinamente, pareceu estranho, cheirando a perfume e sujo de batom.
Não falei nada. Depois, por causa do acidente...
Fiquei desesperada.
Pensei que ele fosse morrer!
Essa ideia não me saía da cabeça! - lágrimas correram em sua face e ela as secou.
Firme, desabafou:
- Ele acordou do coma e ficou confuso.
Se eu o deixava sozinho por cinco minutos, e retornava, esquecia que tinha me visto antes, pensava que tinha sido no dia anterior.
Eu estava sozinha. Não sabia o que fazer.
Então achei melhor esperar.
Pensei que ficaria mais feliz e participaria mais da minha alegria se estivesse recomposto.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:42 am

Quando recebeu alta e cheguei ao hospital para levá-lo para casa, onde eu decidi que contaria, vi a Charlaine falando aquilo e o beijando...
Breve pausa e murmurou:
- Só a mamãe ficou sabendo e pedi que não dissesse nada...
- Você não poderia ter feito isso com ele, Dani! - protestou o cunhado, contrariado.
O Will a ama! Ele é o pai!
Tem o direito de saber!
Vendo-a triste, arrependida, perguntou mais brando:
- De quanto tempo você está?
- Dez semanas.
Eles ficaram surpresos.
Não sabiam o que dizer.
Entenderam que a outra sofria e se arrependia pelo que havia feito.
Nanei, estendendo-lhe a mão, puxou-a para que se sentasse ao seu lado.
Danielle aceitou e a irmã a abraçou, afagando-lhe com carinho.
Observando-a confusa, Edwin sugeriu:
- Dani, pode dizer que estou me intrometendo demais, porém...
Vejo que precisam conversar.
Mesmo que não seja para voltar a morarem juntos, mesmo que não façam as pazes...
Há muita coisa a ser dita, explicada, principalmente agora.
O William não está bem e precisa de você.
Quem sabe a notícia desse filho o ajude.
Pense nisso.
- Acho que vou a Paris.
Vocês ficam com a Meg para mim?
- Claro. Fique tranquila - disse o cunhado satisfeito.
Na tarde daquele dia, Danielle desceu no aeroporto Charles de Gaulle e foi directo para o seu apartamento.
Estava apreensiva, ansiosa e muito preocupada.
Ao abrir a porta, viu a sala de estar na penumbra, as cortinas fechadas.
Foi até à cozinha e também nos outros cómodos e nada.
William, na sacada da sala de televisão, sentado em um sofá de vime e almofadado, tinha a perna direita imobilizada e estendida sobre um apoio recto.
O olhar perdido ao longe, assim como seus pensamentos.
De que lhe adiantava sua colocação social, sua fortuna, sua estabilidade em tudo se o que queria o dinheiro não poderia comprar?
Onde estaria sua esposa?
Viu-a tão delicada e amorosa com Raul, enquanto ele permanecia ali, largado e sofrendo física e emocionalmente.
Um barulho chamou sua atenção para a larga porta de vidro e se virou, ficando surpreso e incrédulo ao ver Danielle, ali, parada.
Ela reparou o quanto o marido havia emagrecido e se achava abatido.
A barba por fazer.
Seu olhar era de súplica e dor.
- Dani?!... - murmurou apreensivo.
- Oi... - disse, aproximando-se.
Vim ver como você está.
Só hoje eu soube que não está se sentindo bem e...
Ninguém me contou antes.
- Vem. Sente-se aqui - pediu espalmando a mão no assento ao seu lado.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:42 am

- Não acha que está frio aqui fora?
- Quer conversar lá dentro? - perguntou e foi se levantando.
Ao vê-lo com dificuldade, num impulso ela o ajudou.
Na sala, que tinha a temperatura mais agradável, Danielle o auxiliou a se sentar e arrumou uma mesinha, junto ao marido, para que apoiasse a perna.
- Onde está a empregada? - ela indagou.
- Saiu mais cedo.
- Você tem ficado sozinho?!
Não contratou uma enfermeira nem nada?! - quis saber angustiada, arrependida por tê-lo deixado abandonado daquele jeito.
- Contratei uma enfermeira por um mês.
Depois que tirei o gesso do braço me senti mais independente e...
Ver duas mulheres aqui dentro, sendo que a enfermeira ficava só parada me olhando...
Nossa! Foi muito para mim. Então a dispensei.
Antes que me pergunte, também não quero muita visita nem da dona Maria Cândida.
Precisei de um tempo. Porém...
É tão bom vê-la aqui.
Como você está?
- Preocupada com você. Está com fome?
Quer que eu lhe prepare alguma coisa?
- Se puder fazer um chá para nós, fico satisfeito.
Não quero fazê-la de empregada, é que tomei um comprimido, há pouco, e parece entalado na garganta, até agora.
Minha movimentação é difícil porque a perna ainda dói muito.
Se puder fazer esse favor...
- Eu já volto.
William não acreditava que a esposa estava ali.
Ficou ansioso e feliz, mas não sabia o que dizer nem por onde começar.
O que a teria trazido até ali?
Quem a convenceu?
Ao retornar, Danielle entregou-lhe uma caneca nas mãos.
Acomodou-se em outro sofá e o observava bebericar o chá fumegante.
- Não vai beber?
- Depois. Os biscoitos que encontrei no armário estavam murchos, por isso não trouxe.
Não tem nada em casa.
- Você conhece a empregada, ela é péssima para cozinhar e fazer compras.
- Como você está, Will?
- Estou me recuperando aos poucos.
O braço ficou óptimo.
Só estou com a mão um pouquinho inchada e dormente, mas não é nada.
Vai melhorar. Quanto à perna...
A fractura foi exposta e não ficou totalmente boa.
Terei de fazer outra cirurgia para colocar mais pinos.
Nem sei direito como será o procedimento, não quis saber detalhes.
Depois de tirarem e colocarem o gesso várias vezes, colocaram essa imobilização.
Só que a perna dói muito.
- O Edwin me contou das dores de cabeça e falou sobre sua visão alterada.
Como é isso? - quis saber apreensiva.
- É verdade. São dores muito fortes.
Fico louco e vivo à custa de medicamentos.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:42 am

Já fui parar no hospital incontáveis vezes.
Riu, depois contou:
- Sabe... Tenho tomado tanta injecção que até perdi o medo delas! - riu novamente.
Também as dores são tão insuportáveis que as picadas de agulhas não são nada.
A esposa achou graça e esboçou um sorriso leve e tímido.
Há momentos que minha visão escurece.
Fico tonto e já cheguei a cair, várias vezes.
Realizei inúmeros exames e os médicos estão estudando uma possível cirurgia.
- Cirurgia?!
- Não é certeza! Calma.
Se eu me recuperar, não será necessário.
Vamos aguardar.
Após alguns minutos em silêncio, ambos sentiam seus corações apertados.
- Will, vim aqui para saber de você e...
Também tenho algo para contar.
Encarando-o firme, revelou sem trégua:
- Estou esperando um filho seu.
Demorou segundos para o marido concatenar as ideias, até sorrir largamente e tentar se levantar para alcançá-la.
- Não! Fique aí! - pediu preocupada com o que ele ia fazer.
Levantando-se rápido, foi ao seu encontro.
William segurou em seu braço e sentou-se novamente, puxando-a para que se acomodasse ao seu lado.
Num impulso a abraçou com força, segurou seu rosto e beijou-lhe a face.
Mas não pôde continuar.
Quando ia ao encontro de seus lábios, ela virou o rosto lentamente, abaixando a cabeça.
- Dani! Por favor...
Você não está feliz?! - perguntou baixinho e querendo ver seus olhos.
- Estou. Fiquei muito feliz quando soube.
Foi no dia em que íamos viajar.
A princípio você estava tão animado que pensei em lhe contar de uma forma romântica, à beira do mar Mediterrâneo.
- Por que não me contou?! - perguntou, acariciando seu braço.
- Porque vi o seu rosto sujo de batom perto da boca.
Além disso, estava impregnado de perfume - contava séria e calmamente.
Eu reconheci o cheiro.
Aliás, todos naquela empresa conhecem o perfume que a Charlaine usa.
Naquela noite você agiu de modo muito estranho quando me abraçou.
Sei que pode me chamar de doente pelo que decidi fazer.
Naquele dia, quando estava no banho, não resisti e, para ter certeza, cheirei sua camisa e seu paletó novamente.
Foi inegável.
Suas roupas cheiravam o perfume da Charlaine.
O marido abaixou o olhar e ela continuou tranquila, no mesmo tom:
- Lá em Côte Vermeille, você não falava, não conversava comigo, não participava de nada.
Eu só podia pensar que queria me deixar, pois tinha outra mulher.
- Não! Nunca! - defendeu-se rápido.
- Ainda disse que tinha algo para me contar e que seria desagradável para nós dois.
- Eu me referia à convocação para a guerra.
- Mas eu não sabia.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:43 am

Depois fiquei desesperada com o seu acidente.
Só me acalmei quando saiu do coma e se recuperava.
Só então soube da sua convocação.
Então decidi esperar um momento mais propício.
Pensei que, internado e em um hospital, não seria a melhor ocasião para receber uma notícia dessa.
Porém, quando fui buscá-lo...
Você sabe o resto.
Quando ela ia se levantando, William a segurou e pediu generoso:
- Dani, espere. Por favor, fique aqui.
A esposa aceitou e permaneceu ao seu lado.
Em seguida ele explicou:
- Errei em não comentar sobre o telegrama de convocação para a guerra.
Fiquei em choque quando o recebi.
Odeio violência, sangue e...
Você sabe disso muito bem.
Foi por essa razão que eu estava deprimido e quieto daquele jeito.
Aconteceu uma coisa quando recebi aquela maldita correspondência.
Eu estava na minha sala e... - William contou exactamente como tudo se passou.
Danielle permaneceu firme, fria e atenta.
- Foi isso! Eu juro!
Posso ter errado de alguma forma, mas não tenho toda a culpa como você julga.
Também não tenho como provar o que digo.
Não sei como me justificar.
Dependo somente de você acreditar em mim.
Sempre fui sincero e nunca lhe dei motivos.
Naquela noite, quando cheguei aqui, eu ia lhe contar, porém teria de falar sobre o facto de eu ir para uma guerra e não queria.
Meus planos eram de viajar e passear com você porque pensei que ia morrer e, pelo menos, você teria uma lembrança agradável minha, de nossa última viagem.
- Os olhos de ambos se encheram de lágrimas e ela desviou o olhar.
- Eu ia mandar a Charlaine embora, com toda a certeza.
Mas não tive tempo.
Fui pego de surpresa no hospital, quando ela foi me visitar.
Só me lembrei do que ela fez depois de alguns minutos que a vi ali no quarto.
Tinha me esquecido, completamente, do que aconteceu.
Naquele dia eu estava sentindo muita tontura, do tipo que vem ocorrendo ultimamente.
Não conseguia pensar direito.
Acreditei que fossem os remédios.
Um momento e comentou:
- Não sei explicar porque ela fez aquilo.
Eu a empurrei e a mandei embora, mesmo confuso.
Você deve ter visto isso.
Ela permanecia quieta.
Diante do longo silêncio, ele pediu aflito:
- Dani, diga alguma coisa, por favor!
Tirando as mãos que seguravam as suas, ela respirou fundo e respondeu muito séria:
- No hospital eu vi e ouvi o que ela disse e o que aconteceu.
Contudo, lá na empresa, mesmo sendo uma atitude que partiu dela, não consigo entender por que correspondeu ao beijo e só depois a empurrou.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:43 am

- Nem eu entendo.
Só tenho uma defesa:
eu estava atordoado por causa da convocação.
Não sei o que me deu.
Perdoe-me, Dani.
Estou sendo sincero, não lhe escondi nada.
- Para ela chegar ao ponto de ter tamanha liberdade de se achegar a você, abraçá-lo e beijá-lo, foi porque, algum tipo de aproximação, mesmo que subtil, você permitiu antes.
- Serei sincero, mais uma vez.
Respirou fundo e contou:
- A Charlaine comportou-se diferente nos últimos tempos.
Começou a ter pequenas liberdades, mas...
Eu não tinha certeza e nunca imaginei que tomaria uma atitude dessas.
Apesar de eu ter notado isso e não ter feito nada...
Perdoe-me, Dani, se acha que eu errei.
- A cada momento que conversamos, aparece mais um pedaço de história que eu não conheço.
Agora tem mais essa.
Não posso acreditar que foi só isso.
- Não estou escondendo mais nada. Veja...
- Espere, Will. Vim aqui com uma decisão tomada.
Eu vou voltar para cá.
Precisa de ajuda e vou cuidar de você.
Só que vou ficar no quarto de hóspedes.
Quando se recuperar, vou embora.
- Não, Dani. Por favor...
- Se não quiser assim, volto para Londres.
A esposa se levantou.
William, com lágrimas correndo em sua face, olhou profundamente em seus olhos e disse, parecendo ressentido:
- Desculpe-me. Eu a amo muito.
Danielle sentiu-se estremecer, teve intensa vontade de chorar.
Mas suspirou fundo e dissimulou:
- Vou arrumar as coisas por aqui.
A casa está uma bagunça.
Depois preparo um banho para você.
Está horrível com essa barba.
Mais tarde vou ligar para o Edwin e pedir para me mandar a Meg.
Dizendo isso, saiu e foi cuidar do que precisava.
As semanas passaram rapidamente e Belinda foi visitar o genro antes de retornar ao Brasil.
- A cirurgia é semana que vem e...
Se a senhora não se importar, eu gostaria de não falar a respeito.
- Vai dar tudo certo, Will. Você ficará óptimo.
- Espero.
Alguns instantes e perguntou:
- E você e a Dani, como estão?
- Ela quase não fala comigo.
Somente o necessário.
Parece calma, tranquila, preocupada comigo.
Mais nada, além disso.
- Já conversei com ela.
Não sei mais o que posso fazer.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:43 am

- Estou perdendo as esperanças.
Nunca pensei que a Dani fosse assim tão fria.
Não me deixa tocá-la, não se aproxima de mim.
Quero sentir nosso filho e ela não permite.
A chegada de Danielle interrompeu-os.
- Oi, filha! Você demorou!
- Resolvi comprar umas coisinhas.
Ao olhar as sacolas e reconhecer que se tratava de roupas infantis, William perguntou:
- São roupinhas para o nené?
- São - respondeu friamente, sem lhe dar importância e indo em direcção ao corredor que a levaria para os quartos.
- Dani! - chamou a mãe, mas ela não se voltou.
- A senhora viu?
É assim quando estamos sozinhos.
Levantando-se, Belinda foi atrás da filha.
Encontrando-a no quarto, quis saber:
- Por que está fazendo isso, Danielle?
- Fazendo o quê?
- Tratando o seu marido dessa forma!
Ela não respondeu e tirava as roupas da sacola, quando a mãe continuou:
- Filha, não seja assim.
O Will é um bom homem e...
- Um bom homem não beija a secretária - interrompeu-a.
Não sei o que mais pode ter acontecido. Não acredito nele.
- Dani, ele contou como foi tudo.
Estava atordoado. Leve isso em consideração.
Se houve alguém muito sem-vergonha nessa história foi ela. Pense nisso.
- Não está sendo fácil para mim, mamãe.
Não há um dia, um momento que me esqueça do que ele me contou.
Como vou abraçar e beijar um homem que ficou com outra, mesmo estando casado comigo?
- O Will contou como foi.
Ele é sincero, honesto.
Só demorou para acordar e perceber o que estava acontecendo.
Perdoe, Danielle, se acha que ele errou.
Assim como ele lhe perdoou.
- Perdoou-me do quê?!
- De suas cenas de ciúmes! De suas agressões!
De tê-lo chamado tanto de Raul!
Isso, para ele, poderia ser considerado um tipo de traição. Não acha?!
Você não estava pensando no Will quando pronunciou Raul.
Vendo-a pensativa, ainda disse:
- Ele tem direito sobre o filho. Lembre-se disso.
O facto de carregar essa criança, não tira o direito de pai que ele tem.
O que está fazendo é cruel e pode, com o tempo, distanciá-lo do próprio filho.
Se não o deixar participar, desde já, não terá como exigir nada dele mais tarde.
Vendo-a calada, reflexiva e de cabeça baixa decidiu:
- Volto mais tarde. Agora preciso sair.
Liguei para a Maria Cândida e marquei um encontro com ela.
Danielle ficou em total silêncio.
Aquelas palavras calaram fundo em seu peito.
Mas não fez nada.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 9:43 am

* * *
Bem depois, Belinda esperava a amiga conforme combinaram.
Encontraram-se em uma livraria-café, um lugar bem tranquilo, onde podiam conversar à vontade.
- Olá, Belinda!
Desculpe-me se eu demorei.
- Não tem problema - sorriu.
Após beijá-la, pediu:
- Sente-se, por favor.
A amiga se acomodou e contou:
- Vim da casa da Dani.
Cheguei hoje de Londres e devo embarcar amanhã para o Brasil.
- Já?! Deveria ficar mais um pouco.
- Não. Quero voltar.
- E a Dani, como está?
- Bem, a barriga está crescendo.
Porém anda estremecida com o Will.
- Tentei falar com ela, mas não me atende.
Nunca está em casa. Percebi que ela está me evitando.
- Eu pedi isso a minha filha, Maria Cândida.
- Por quê? - indagou de modo triste, lamentando.
- Para a Dani se recompor um pouco e esquecer essa história de outra vida, de ser sua filha.
Isso só trouxe prejuízo a ela.
Veja a encrenca que arrumou com o George.
- Sinto muito, Belinda.
Estou arrasada com o que o meu filho possa ter feito para eles.
Não quero acreditar nisso.
Estamos aguardando o laudo da perícia e...
Não imagina como estou me sentindo.
Alguns instantes e comentou:
- Nós duas sempre fomos amigas e muito sinceras.
- Foi por isso que eu pedi para conversar com você.
Antigamente, por mais que ficássemos tristes, irritadas ou insatisfeitas uma com a outra, sempre dizíamos a verdade, sempre conversávamos sobre o que não gostávamos que a outra fizesse.
Acho que agora não pode ser diferente.
Eu não fiquei nada, nada satisfeita com tudo o que disse para a minha filha e acredito que isso interferiu muito na vida dela.
- Somente depois que falou comigo sobre o passado interferir na vida actual que eu me dei conta do que estava acontecendo.
Você tem toda a razão.
Se fosse para sabermos o passado, nasceríamos recordando-o.
Sei que, em alguns casos raros, existe a necessidade de se saber o que aconteceu em outra vida.
Nesse momento lembrou-se de Raul que, por meio de um sonho, soube o que fez no passado.
Mas não disse nada.
Respeitou o pedido que ele lhe fez antes de desencarnar.
Não sabia qual foi a necessidade que a espiritualidade encontrou para fazer-lhe tal revelação.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:34 am

Com um travo de arrependimento, prosseguiu:
- Realmente a Dani dava muita atenção ao que eu lhe falava, principalmente, quando contava sobre algum assunto que vivi com minha filha...
Era difícil, para mim, enxergar que vê-la recordar o passado e assumir a postura que antes tinha era errado e lhe fazia mal.
Apesar de não ser espírita, Belinda, inspirada ou não por algum amigo espiritual, você conseguiu ver o desequilíbrio da Dani e também o meu.
Provavelmente eu não a deixava se concentrar no que precisava fazer para não sofrer os abalos espirituais que vinha experimentando.
Quando me dei conta disso, orei por ela e por Desirée. - emocionou-se.
- Era o que eu esperava de você, minha amiga - sorriu generosa.
- Só preciso de uma coisa.
- O quê?
- Que me perdoe.
Quero a sua amizade.
Pegando-lhe as mãos por sobre a mesa, sorriu largamente, afirmando:
- A minha amizade você sempre terá.
Quanto a lhe perdoar...
Amigas de verdade não se perdoam, porque não se ofendem, não guardam mágoa nem rancor.
Amigas de verdade se entendem, sem a intromissão de ninguém.
Lágrimas se empoçaram em seus olhos e foi difícil não deixá-las cair em meio ao riso.
- Só espero que a Dani não tenha raiva de mim - disse Maria Cândida mais descontraída.
- Eu conheço bem minhas filhas.
A princípio elas se reservam, não falam muito.
Depois não aguentam a voz do coração e se derretem.
- Então ela vai me evitar um pouco?
- Com certeza. Mas não se incomode.
Espere. Ela voltará a ser tão amorosa, gentil e amiga como antes.
- Será, Belinda?
- Com certeza! - sorriu largamente.
Vai por mim.
Agora ela está com problemas com o marido.
Acho até que está assim por causa da gravidez. Vamos aguardar.
- Estou ansiosa.
Não sabe como amo suas filhas!
- Gostei de ouvir isso!
- A única coisa que me preocupa, Belinda, é vê-la desse jeito com o Will.
- A mim também. Contudo, sinto uma esperança muito grande.
- Posso tentar falar com ela?
- Vá em frente!
Só não sei como a Dani vai reagir, a princípio.
Lembre-se do que lhe falei.
- Em todo caso, vou tentar.
- Mudando de assunto...
Viu o que nossa amizade rendeu?!
- exclamou Belinda empolgada.
- Três netos! - exclamou a outra, dando um gritinho engraçado.
- Dois, Maria Cândida! - riu.
- Ah! Considero o Will e a Dani como filhos!
Deixa o nené deles ser meu netinho também?!
Deixa, vai?! - pediu brincando, com jeito mimado.
A outra fez uma expressão graciosa, como criança dengosa, e respondeu:
- Deixo, vai. Só um pouquinho!
Riram e continuaram conversando.
A verdadeira amizade é sincera.
Não omite, considera, respeita e entende.
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Ave sem Ninho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:35 am

21 - A CHEGADA DE TIFANIE

Na espiritualidade, Carina envolvia sua pupila com ternura a fim de Danielle compreender tudo o que acontecia.
A mentora se deixava ver por Desirée para que a outra entendesse.
- Eu nunca acreditei muito em anjos da guarda, porém vocês existem.
Carina sorriu com generosidade e explicou:
- O nome anjo dá a impressão de falarmos a respeito de uma criatura perfeita, nobre, superior.
Pensar que o Pai da Vida criou um ser superior, sem erros, não é correto.
Toda criatura de Deus nasce simples e ignorante.
Através das diversas experiências vamos evoluindo, compreendendo, amando e chegamos a um ponto que podemos ajudar pessoas queridas a se melhorarem.
- Você deve amá-la muito - tornou a outra.
Deixei-a tão abalada e doente...
Foi você e o Raul quem recolheram aqueles espíritos doentes e infelizes que estavam ao lado dela, não foi?
- Sim. Fomos nós.
- Você e a Danielle foram parentes? - quis saber Desirée.
- Não. Nunca. Somos grandes amigas.
Quando eu soube que a Danielle viveria junto com o querido Raul, para se harmonizarem, pedi para ampará-la, inspirá-la para que ele fosse bem cuidado. Amo o Raul.
- Espere! Como assim?!
Você cuida da mulher que se casou com o seu homem?!
- Não. Eu cuido de uma alma muito querida, que tratou com amor e carinho uma alma que eu amo muito e que me ama também.
Por querer bem ao Raul, eu inspirei Danielle para que tivesse delicados e generosos cuidados com ele, mesmo que por pouco tempo.
Por isso, hoje, o Raul está bem, recomposto, equilibrado e realizado.
Livre dos martírios dolorosos da própria consciência.
Se o meu propósito era ficar ao lado dele como amiga, parceira, companheira fiel eu consegui com muito sucesso.
Agora, o Raul está liberto de pesadas experiências de vida e, juntos, viveremos bem melhor, mais felizes com certeza.
- Vocês já foram casados?
- Por várias vezes! - expressou-se sorridente.
Somos almas afins.
Deus não cria almas gémeas, mas nos permite e ensina viver aos pares.
Se observar a natureza, verá pares em tudo:
branco e preto, dia e noite, macho e fêmea...
Somos espíritos libertos sim, mas quando encontramos um complemento, vivemos com o nosso par, entendendo-nos, amando-nos, colaborando um com o outro, ajudando em diversas etapas evolutivas.
Isso é amor incondicional.
- Será que eu também tenho um complemento?
- Lógico! Todos temos.
Creio que, no momento que abandonar essa possessividade que sente pelo William, tudo vai mudar para você.
- Eu queria que ele fosse a minha outra metade.
- Quando conhecer sua outra metade, mudará de ideia - sorriu Carina de modo enigmático.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:35 am

- Acho que estou longe disso - tornou Desirée desalentada.
- Você é que pensa! Permita-se viver de novo.
Faça o bem e não desista. Agora venha.
Quero que converse com aquele espírito perturbado que colocou ao lado de Charlaine para ela assediar William.
Depois voltaremos para orientar Danielle.
- Diga-me uma coisa - pediu Desirée.
Aquela criancinha, filha da Danielle, que nasceu morta nos braços do Will, quem é?
E por que aconteceu aquilo?
- Ela foi filha do William e da Danielle.
Morreu no ventre da mãe, em tempos remotos, por causa das agressões que ela sofreu do marido, que era William.
Hoje ele teve a oportunidade de ter em seus braços a filha morta por sua culpa naquela época.
Aprendeu a ser muito mais sensível, a enfrentar situações ao lado de Danielle.
O propósito de a criancinha nascer morta era para ele se chocar como não fez quando pai.
Agora ela está de volta.
E a filha que Danielle espera e ele só vai poder acompanhar de longe, apesar de estar bem perto, tudo o que desprezou no passado.
- Só mais uma coisa.
Carina ficou aguardando e Desirée comentou:
- Fui eu quem inspirou o George a sabotar a lancha para que William e Danielle morressem. E agora?
- O George será responsável pelo que fez e você também.
É algo que já está feito, não podemos mudar.
Quero que saiba o seguinte:
o William não iria para a infeliz guerra.
De qualquer modo, um acidente iria impedi-lo.
Ele bateria o carro na semana que voltasse de viagem e ficaria exactamente como está.
O William precisava experimentar os efeitos do que fez Danielle sofrer quando a agrediu.
Seu caso não foi pior, por ele ter mudado muito, ter se transformado bastante intimamente e tratado a esposa extremamente bem.
Se não fosse por isso, ele ficaria com sequelas maiores do que o leve andar manco que vai lhe restar.
Por outro lado, ele não precisava ir para essa guerra.
Contudo necessitava acostumar-se com hospital, sangue, enfermidades para poder encarar normalmente a vida.
Não podemos ser omissos e fugir das situações.
O que aconteceu foi que você e o George, simplesmente, anteciparam os factos.
- Se o Will precisava sofrer um acidente, então eu e meu irmão não temos débitos!
- Está muito enganada pensando assim, Desirée.
Um acontecimento natural, espontâneo implica a vontade de Deus.
Quando uma tragédia é provocada por um ser humano ou por um grupo, significa muito ajuste e reparação.
Veja o seu caso.
Se o grupo terrorista não tivesse provocado o atentado de 11 de setembro, você não teria desencarnado ali, porém estaria em alguma outra tragédia natural, como um terremoto ou um furacão...
Algum lugar onde uma destruição ceifaria a sua vida sob escombros.
Aqueles que provocaram os ataques às Torres Gémeas são responsáveis e vão harmonizar o que fizeram.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:35 am

Deus não criou um ser humano para tirar qualquer vida. Agora vamos.
A perícia solicitada por Óscar para a lancha acidentada acusou danos criminosos que provocaram o desastre.
Investigando mais a fundo, encontrou um mecânico de barcos o qual confessou ter recebido grande valor de George para fazer aquele serviço.
Indignado, o senhor investia contra o filho.
- Eu sabia o quanto era invejoso, traiçoeiro, mas nunca imaginei que chegasse a tanto!!!
Não sabia que tinha um monstro como filho!!!
- Calma, pai! - pedia Edwin, tentando amenizar os ânimos.
Não fique nervoso!
- Estou desgostoso!!! Decepcionado!!! Arrasado!!!
Ele matou o próprio tio!!! O meu irmão!!!
Como eu não desconfiei?!!!
Agora tentou a mesma coisa contra o Will!
Tudo por causa de um cargo!!!
Quem seria o próximo?!!!
Eu?!!! O seu irmão?!!!
- Óscar, calma! - implorava a esposa muito nervosa, chorando algumas vezes.
Vamos resolver isso.
Tenho certeza de que o George...
- Você não tem certeza de nada!!!
Soube só proteger o George e a Desirée!
Por isso eles se tornaram monstros!!!
O Edwin e a Olívia são melhores porque você não os mimou!
Repreendia-os! Dava limites!
Exigia! Quanto aos outros dois!...
- Pai, calma - tornou Edwin ao vê-lo inconformado.
- O que eu faço agora?!
Chamo a polícia para o meu próprio filho?!!!
- Pense um pouco, pai - dizia novamente o filho.
- Se eu parar para pensar e me distrair, ele é capaz de me matar para ficar com a presidência!!!
- Pode chamar a polícia!
Faça o que o senhor quiser!
Estou indo para minha casa!
- Não!!! - berrou o pai enfurecido.
Vou decidir agora o que fazer!
- Calma, Óscar - implorava a esposa.
Sem lhe dar importância, o homem exigiu:
- Edwin, chame os advogados aqui, agora!
O George não faz mais parte do quadro da empresa.
Não tem qualquer poder sobre a companhia aérea nem na rede de hotéis.
Ele só terá os imóveis que estão em seu nome, que é a mansão onde mora e a casa em Côte Vermeille.
Nada mais! Estou deserdando-o hoje!
Ele não tem direito sobre mais nada.
Tudo o que eu tenho, tudo o que meu pai e o seu tio conquistaram, será dividido entre você, sua irmã e o William, que considero meu filho.
Agora, mais ainda!
A partir de hoje, George, você não é mais o meu filho!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:35 am

E faço isso para não chamar a polícia!
Para não mandá-lo para a cadeia por homicídio e tentativa de homicídio!
Maria Cândida ficou transtornada, mas o marido fez exactamente o prometido.
* * *
Ao procurar por William, que acabava de retornar para casa após a cirurgia na perna, Óscar contou-lhe tudo e pediu:
- Desculpe-me, William.
Considero você como meu filho, mas não posso chamar a polícia para o George.
Apesar de tudo o que falei e fiz, ele é o meu filho.
- Eu sei. Não vou pedir que o senhor faça nada contra ele, porém não posso aceitar o que me oferece. Não é justo.
- William, estou velho.
Já passei dos oitenta, sabia? - riu.
- Sei que não parece, entretanto não sou tão jovem quanto aparento.
- Falou de um jeito engraçado e ambos riram gostoso.
- Tenho muito dinheiro.
É muita fortuna para os meus dois outros filhos.
Acredito que tenho algum débito com você de outra encarnação, pois gosto muito de você, rapaz!
Se não quiser, administre bem esse dinheiro.
Faça uma fundação filantrópica, sei lá...
Ou continue ajudando as instituições que eu sei que ajuda.
- Cada dia que passa, entendo que o dinheiro não é tudo.
Nunca fui ganancioso, no entanto o dinheiro vem de forma fácil para mim.
Porém o que mais quero na vida, não posso comprar...
- O que está faltando para você?
- Quem eu amo.
- A Danielle voltou. Está aí.
- Não. Não como o senhor pensa. Ela só cuida de mim.
Sempre atenta a tudo o que preciso. No entanto...
- Alguns segundos e perguntou:
- O senhor se lembra daquele carinho, daquela dedicação amorosa e constante que ela tinha com o Raul?
O homem acenou positivamente com a cabeça e ele prosseguiu:
- Não é assim comigo.
Ela age como se fosse minha enfermeira.
Apesar de carregar, todo o tempo, o meu filho.
Quase não fala, não conversa.
Sabe... Hoje, aqui como estou, nesta cama, posso afirmar, com certeza, que tenho inveja do Raul.
Eu gostaria que ela cuidasse de mim e me tratasse como fez com ele, pelo menos, por um dia.
Comovido, o senhor comentou:
- Danielle largou o emprego para cuidar de você.
Precisa levar em consideração que, se ela fez isso, tem um grande sentimento e preocupação por você.
Acredito que, se está assim, provavelmente, é por causa da gravidez. Ela está sensível.
Toda mulher fica desse jeito nessa fase.
Você não pergunta como está o nené?
- Lógico! Todos os dias.
Preocupo-me tanto com ela.
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