Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Página 12 de 12 Anterior  1, 2, 3 ... 10, 11, 12

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:36 am

O senhor não imagina.
Tenho muito medo que fique hipertensa como aconteceu na outra gravidez.
Fico apavorado com a ideia.
Ela diz que está bem, mais nada.
Antes da cirurgia na minha perna, quando estava só imobilizado, quis ir ao médico com ela, mas não deixou.
Não me ajudou a me arrumar e se foi antes que eu conseguisse.
Muito sentido, desabafou:
- Sabia que nunca me deixou tocar sua barriga?
- Não sei o que dizer, Will.
Não sei como posso ajudá-lo.
Só se... E se eu falasse com a Charlaine?
Posso mandar procurá-la e pedir que converse com a Dani.
- Não! Não confio nela.
Poderá não dizer a verdade sobre o que aconteceu.
Poderá dizer que fui eu quem a assediou e não foi verdade.
Tenho medo de arriscar.
Não posso confiar em uma mulher que foi capaz de fazer o que fez.
Desde quando o marido começou a falar que ela agia como se fosse sua enfermeira, Danielle ouviu atrás da porta, sem querer, pois chegava ao quarto levando uma bandeja com xícaras de café.
Ela parou e ficou pensativa por algum tempo.
Da forma como William falou de Charlaine, ele só poderia ter dito a verdade.
Porém, no minuto seguinte, acreditou que ele deveria ter agido diferente e lhe contado tudo assim que ocorreu.
Em seguida, entrou no quarto e ofereceu-lhes o café como se nada tivesse escutado.
* * *
O tempo foi passando lentamente e William se recuperava.
As tonturas diminuíram consideravelmente, sua visão não ficava mais turva e os exames eram considerados normais.
Danielle observava o esforço de o marido insistir em andar, com dificuldade, apesar da dor.
Foram feitas longas seções de fisioterapia e, além disso, William ainda se exercitava com equipamentos de ginástica que tinha em casa.
As dores de cabeça reduziram de frequência e intensidade.
Quase não as tinha mais.
Certo dia, à distância, observava-a atento e emocionado.
O ventre da esposa era bem visível e ela estava ainda mais linda.
Não resistindo, foi até a sacada onde Danielle se encontrava encostada de lado no guarda-corpo e com o olhar perdido na bela vista.
E ele ficou a sua frente.
Ela o olhou surpresa e perguntou:
- O que foi? Você está bem?
- Estou. Fiquei reparando em você.
Está tão bonita! - sorriu generoso.
Os lindos olhos azuis de William brilharam por sua emoção.
Com o coração aos saltos, levou a palma da mão em sua barriga e perguntou com ternura:
- Posso?
Danielle pareceu perder o fôlego e não disse nada.
Lembrou-se de quando, na outra gravidez, andavam na praia e, como amigo, lhe fez o mesmo pedido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:36 am

Ao vê-la paralisada, sem saber o que dizer, ele acariciou-lhe o ventre e sorriu.
Emocionado, cedeu às lágrimas.
Em seguida falou, sorrindo:
- O que será que é?
- É uma menina - respondeu Danielle, olhando-o firme.
- Menina! - iluminou-se no mesmo instante.
Quando soube?
- Há um mês - respondeu séria.
- Por que não me contou? - quis saber com um tom triste na voz.
- Não sei.
Ela ia se retirar quando William pediu com ternura:
- Deixe-me acariciar, por mais tempo, a minha filha.
Você me disse, certa vez, que barriga de grávida não tem dono.
Posso não significar mais nada para você, mas sou o pai dela.
Ela merece o meu carinho e eu o dela.
Danielle ficou paralisada por alguns segundos.
Estava quase chorando e não queria que ele percebesse.
Virando-se rápido, não disse nada.
Deixou-o sozinho na sacada e foi para o quarto.
William perdia as esperanças a respeito de a esposa compreender tudo o que aconteceu e desculpá-lo.
A cada dia ficava mais triste, calado.
Não sabia o que fazer.
Só poderia se dedicar aos exercícios físicos, que o ajudariam a andar melhor.
Recolhia-se sempre em prece, pedindo pela filha, por Danielle e por sua saúde.
Em uma dessas ocasiões, sentiu algo estranho.
Erguendo o olhar para o ambiente na penumbra, teve a nítida impressão de ver Raul no canto de seu quarto.
Ele estava em pé e sorrindo e o envolveu em pensamento.
Surpreso, assustou-se e chamou:
- Dani! Vem cá!!!
Ela estava no outro quarto.
Ao ouvi-lo, levantou-se apressada e foi até a outra suíte.
- O que foi?! Você está bem?!
- Dani! Dani!
- O que aconteceu?! - perguntou, sentando-se ao seu lado, passando-lhe a mão na testa.
Ele, ofegante, não conseguia dizer nada.
- Fala, Will!
- Dani... Estou bem. É que...
- Fala! Não me deixe assim!
Ao vê-la nervosa, contou:
- Eu vi o Raul. Ele estava ali - apontou.
Em pé e sorrindo.
- Pare, Will! Não diga isso! - pediu, aproximando-se do marido e agarrando-o pela camiseta.
- Calma - pediu, envolvendo-a com carinho.
Levei um susto.
Mas... Não é nada ruim.
Ela recostou-se em seu peito e o abraçou.
William podia senti-la trémula e começou a afagá-la com ternura.
- O que mais você viu? - perguntou murmurando.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:36 am

- Só o Raul. Ele estava diferente de quando o conheci.
Seu cabelo estava comprido, preto, liso como o meu.
Estava mais forte.
Bem saudável, com uma aparência óptima.
Sorria e parecia me dizer...
- O quê? - indagou, afastando-se um pouco e encarando-o firme.
- Para eu ter fé.
Que é só uma fase. Que iria passar.
Desejou-me bênçãos e sorte.
Ela sentou-se direito e ficou quieta.
Cabisbaixa, parecia reflexiva.
Preocupado, perguntou:
- Você está bem?
- Estou - sussurrou.
- E o nené? - tornou ele, colocando a mão sobre a barriga.
- Está bem - respondeu, colocando a mão sobre a dele e olhando-o de modo indefinido.
- O que o médico tem dito?
Como está sua pressão?
- Está controlada.
Ele disse que está tudo bem.
Não estou hipertensa.
- Fico muito preocupado com você.
Não quero que aconteça de novo - falou de modo carinhoso.
- Não vai acontecer.
Estou bem e estou atenta - respondeu no mesmo tom.
- Você conversa com ela? - quis saber com lindo sorriso no rosto.
- Converso - respondeu com ternura e retribuiu o sorriso.
William a acariciou por longo tempo e ficaram ali, parados, em silêncio.
Após alguns minutos, Danielle se levantou e decidiu fazer um chá para o marido.
Ao retornar com duas canecas, entregou-lhe uma e pediu:
- Posso ficar aqui com você?
Estou com medo. Não quero ver o que viu.
- Vem cá! Deita aqui - convidou, levantando a coberta.
- Desculpe-me se a assustei.
Não deveria ter lhe dito nada.
Tendo-a perto, afagou-lhe o ventre e começou a conversar com a filha.
Emocionava-se ao senti-la mexer levemente.
Quieta, calada, a esposa passou a noite ao seu lado.
Só aquela. Nas seguintes, voltou para a outra suíte.
Contudo, após esse ocorrido, Danielle parecia mais flexível com William em alguns momentos, dividindo assuntos e comentários sobre a gravidez.
Certo dia a mulher estava sentada no sofá com as pernas esticadas.
William acomodava-se em uma poltrona e assistiam à televisão.
Inesperadamente, ela sobressaltou-se, sorriu e deu um pulo.
Sentando-se direito, quase gritou:
- Vem ver!!! Vem ver!!! Olha!!!
- O que foi?! - perguntou assustado, indo ao seu lado.
O marido abriu largo sorriso, quando Danielle pegou sua mão e colocou sobre sua barriga, falando emocionada:
- Ela nunca mexeu assim! Sente só!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:37 am

Com as duas mãos em seu ventre, o pai percebeu o movimento muito abrupto que não parava.
Ele começou a sorrir sem parar, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas.
Não teve palavras.
Sentando-se ao lado dela, curvou-se e beijou-lhe demoradamente a barriga que acariciava.
Depois encostou o rosto com carinho e falou com voz meiga:
- O papai está aqui, viu?! Bagunceira!
A esposa se emocionou e secou as lágrimas antes de ele ver.
Esperou William se erguer e perguntou:
- Você tem algum nome de sua preferência?
- Para ser sincero, tenho.
Ela ficou no aguardo e, em alguns instantes, contou:
- Uma vez eu estava correndo no Jardim de Luxemburgo e encontrei uma garotinha chorando.
Ela havia machucado os joelhos.
Estava bem arrumadinha, com lacinhos nos cabelos e tinha lindos olhos azuis.
Havia se perdido do pai.
Eu a peguei no colo e brinquei com ela para que parasse de chorar.
Depois perguntei o seu nome e ela respondeu.
Era uma menina muito esperta.
Tinha três anos.
Enquanto eu procurava os guardas, encontrei o pai, desesperado, com dois guardas procurando-a.
O homem agradeceu muito e disse que ela brincava de esconde-esconde, atrás de umas árvores gigantescas que tem lá.
Ele contou que foi atender o celular por um instante.
Distraiu-se e, quando desligou, não encontrou mais a filha.
Não sei porquê, mas isso foi muito marcante para mim e... - sorriu.
Eu me imaginei no lugar dele, ali, brincando com minha filha.
Pensei que, quando isso acontecesse, nunca iria atender o celular.
Sempre me recordo disso e não esqueci o nome da menininha.
- Qual era? - perguntou sorrindo.
Parecendo contente por ouvir a história.
- Tifanie. O nome dela era Tifanie.
- É um nome lindo! - disse incrédula e emocionada, sorrindo largamente.
- Você gosta mesmo?!
- Adorei. É lindo! - sorriu.
Mas não contou que sempre quis esse nome para sua filha.
Quando ele pegou sua mão e a encarou, Danielle se afastou.
Levantou-se e disse:
- Vejo que você está bem melhor e...
Diante da demora, ele perguntou:
- É?...
- Eu conversei com o Edwin e pedi meu emprego de volta, pois desde o acidente não fui mais trabalhar.
Ele me disse que precisaria de alguém para substituir a encarregada do sector de designer, em Londres, cerca de dois ou três meses. Eu aceitei.
- Em Londres?!
- É. Viajo na próxima semana para arrumar uma casa e conhecer o serviço.
Só que... Se não se importar, vou levar a Meg junto.
- E o pré-natal?
- Eu estou bem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:37 am

Penso em mudar e consultar o mesmo médico que cuidou da Nanei.
Não posso viajar para Paris sempre e...
Apesar de não estarmos juntos, eu sei que quer que sua filha nasça em Londres.
Vou respeitar seu desejo, até porque, eu também quero que ela nasça lá.
- Dani, você vai deixar tudo terminar entre nós?
- Quando eu estiver instalada, podemos cuidar do divórcio.
William a olhou incrédulo.
Como ela podia ser tão fria?
Por que não acreditava nele?
Mesmo que não acreditasse, poderia perdoar-lhe, por algo que ele fez.
Levantando-se, parou frente a ela e tentou falar com tranquilidade, mas não conseguiu.
Emocionou-se até a alma e, com lágrimas, disse:
- Eu poderia dificultar o divórcio, você sabe.
Faria isso pelo simples facto de amá-la demais.
Só para atrasar nossa separação.
Mas não vou fazer isso.
Seria um desgaste muito triste para nós três.
Eu lamento muito. Não imagina quanto.
Não acreditava que você pudesse ser tão dura, tão fria e tão cruel.
Faça como quiser.
Na partilha dos bens, leve tudo, pois o principal, que é o seu amor e a minha filha, você está levando de mim.
Então o resto não tem importância.
Retirando-se da sala, deixou-a sozinha.
De alguma forma, William conseguiu comovê-la.
Na espiritualidade, Raul o inspirava e Carina envolvia Danielle.
O mais difícil, no entanto, seria fazer Danielle romper os laços com o orgulho, voltando atrás em sua decisão.
* * *
Naquele início de noite, Maria Cândida foi visitá-los como quem ignorasse a decisão de Danielle sobre voltar a trabalhar.
William a recebeu com satisfação.
Avisou que a esposa estava na sala de televisão e havia dormido no sofá.
- Eu a cobri agora pouco.
Nem desliguei a televisão, pois sempre que fazem isso comigo, acordo.
- Deixe-a descansar.
Depois converso com ela.
Após um momento, comentou:
- Você está bem melhor.
Sua aparência está óptima.
- Devo concordar - expressou-se animado.
Quando cheguei do hospital, assustei-me comigo mesmo - riu.
- A Dani está cuidando bem de você.
- Realmente está.
- Pelo visto a gravidez está bem tranquila, não é?
Tudo corre normalmente.
- Sim. Elas estão óptimas.
E a Dani está muito linda também.
- Vocês dois formam um casal muito atraente, simpático, bonito!
Quero ver como essa menina vai ser!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:37 am

Não importa a quem puxar.
Já escolheram o nome?
- Tifanie - respondeu com sorriso luminoso.
- Que lindo! Adorei!
E... Já decidiram onde ela vai nascer?
- A Dani resolveu voltar a trabalhar até o nené nascer.
Conversou com o Edwin e ele encontrou uma colocação temporária para ela.
Em Londres - desfechou em tom amargo.
- Em Londres?! - tentou parecer surpresa.
Você vai junto?
- Não. Talvez em menos de um mês, eu volte a trabalhar.
Espero. Preciso retomar minha vida.
Não será fácil, para mim, após o divórcio.
- Divórcio?!!
Que divórcio?!! - assustou-se de verdade.
- A Dani me pediu o divórcio.
Disse ser o que quer, após se instalar em Londres - revelou com um travo de angústia na voz grave.
- Ela não pode fazer isso!
Ele a olhava de modo fixo, sem expressão no rosto pálido.
Maria Cândida, após minutos de perplexidade, perguntou:
- Will, você acha que a Dani alterou tanto, como a Belinda disse, por causa de eu ter dito que ela foi minha filha?
- Para ser sincero, acredito que essa história mexeu muito com a Dani.
Quando a dona Belinda se hospedou aqui, por alguns dias, conversou muito com ela.
A Dani foi tomando consciência do que estava fazendo com o nosso casamento.
Isso foi óptimo, porque eu não aguentava mais.
Ela foi ficando mais segura, tranquila e passamos a viver melhor.
A senhora não imagina.
No entanto, aquela maldita situação com a Charlaine, acabou com nós dois e com o nosso casamento.
Não tenho como provar que nunca tive nada com aquela infeliz e a Dani não acredita em mim.
- Eu posso conversar com ela a respeito disso?
- Sim, se quiser.
- De certa forma, eu me sinto culpada por tudo.
Reflecti bastante a respeito e entendi que eu quis mudar a vontade de Deus e ter minha filha de volta.
Saber que ela está vivendo bem, não foi suficiente para mim.
Fui egoísta e quis acolhê-la como não fiz no passado, quando a deixei com minha mãe e vim morar na Europa.
A Dani talvez tenha se empolgado com algumas lembranças que teve do passado e eu alimentei essa ilusão de viver duas vidas:
a de continuar sendo minha filha e, paralelamente, filha da Belinda.
Toda essa situação não a deixou se concentrar na realidade.
Ela se desequilibrou e não soube lidar com os acontecimentos na vida de vocês.
Junto com um processo espiritual obsessivo, não teve opinião, força, equilíbrio.
A aproximação de Danielle chamou-lhes a atenção.
Maria Cândida se levantou alegre e foi cumprimentá-la.
William as deixou conversando e se retirou.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:37 am

Quando começou a falar no assunto, educadamente, Danielle pediu:
- Por favor, eu não quero mais tocar nesse assunto nem com a senhora nem com ninguém.
Quero viver a vida com meus erros e acertos.
Quero viver o meu presente.
- O Will me disse que quer o divórcio.
- É um assunto nosso.
Nem minha mãe sabe disso.
A decisão foi minha.
- Sinto muito, Dani.
O que posso fazer para ajudar?
- Deixar que eu siga meu caminho.
Seja somente minha amiga, como foi de minha mãe.
Foi difícil para Maria Cândida aceitar o que ela queria, porém Danielle estava muito consciente do que fazer.
* * *
Como desejava, Danielle se mudou para Londres e permitiu que William a visitasse conforme ele pediu.
Eles conversavam e pareciam conservar a amizade.
A gestação corria maravilhosamente bem.
Ela fazia o pré-natal com o médico indicado por Nanei.
Queria ser bem assistida, quando fosse dar a luz à Tifanie.
Nem de longe gostaria de passar o que experimentou em Long Island quando sua filhinha nasceu morta.
A cada quinze dias, William viajava para a Inglaterra.
Passavam o dia juntos.
Conversavam, almoçavam e ele pernoitava em um hotel.
A esposa nunca o convidou para que dormisse em sua casa, uma residência pequena e encantadora.
Um chalé de madeira e pedras a meia hora da cidade.
William nem sequer conhecia o chalé.
Sabia que havia uma lareira em cada cómodo para aquecer nos dias frios, pois a neve era bem densa no inverno.
O lugar era lindo e magnificamente silencioso.
Danielle morava sozinha.
Não tinha vizinhos por perto.
Somente Meg lhe fazia companhia.
Precisou comprar roupinhas de lã e até sapatinhos para vestir na cachorrinha nas noites de frio e o bichinho parecia gostar.
Mesmo estabilizada, quando se encontrava com o marido, ela nunca falou a respeito do divórcio.
Sempre conversava por telefone com sua mãe, que havia voltado para o Brasil, e dizia não saber o que fazer a respeito de seu casamento.
- Isso é orgulho besta, Danielle!!! - zangava-se Belinda.
- Por que está se castigando tanto?!
- Não estou me castigando, mamãe.
- Então o que está fazendo aí, nesse fim de mundo, sozinha?!
Quase sem recursos!
- Não vivo sem recurso!
Quem disse isso?!
O meu chalé é encantador!
Tem de conhecer!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:38 am

- A Nanei e o Edwin disseram que é longe da cidade.
Que os vizinhos são longe.
Vivo morrendo de preocupação com você!
Está distante de tudo e de todos.
Se a sua irmã não estivesse aqui, eu iria para aí agora!
Após alguns instantes, comentou amorosa:
- Oh, filha...
Eu não quero que aconteça o que ocorreu na outra gestação.
- Não vai acontecer.
Eu estou muito bem.
Moro a meia hora do centro de Londres, mamãe.
Não enfrento engarrafamento.
Por favor! Aqui é óptimo!
- Está longe sim, filha.
Perto de estranhos e distante daqueles que a amam.
Que fazem tudo por você.
O Guilherme e a Olívia estão em Berlim.
A Nanei e o Edwin estão aqui, visitando-me.
A Maria Cândida, na França.
Até o seu marido você não quer aí.
O que pensa da vida, filha?
Faz dias que estou lhe falando isso!
E se acontecer alguma coisa com você, aí, sozinha?
- Não vai acontecer nada.
Falta, praticamente, um mês para a Tifanie nascer.
Quando estiver mais perto, daqui uns quinze dias, vou para a casa da Nanei.
Até lá ela estará de volta.
O Will disse que vem pra cá.
E... Se algo acontecer antes, o irmão e a cunhada do Will podem me ajudar até ele chegar.
É gente boa. A senhora conheceu no casamento.
- Eu vou para Londres junto com a Nanei.
Semana que vem estou aí.
Cuidarei de você e da minha netinha, quando ela chegar. Sabe disso.
- Sei, mamãe, eu sei.
Depois, todos passaremos o Natal juntos!
Vai ser o máximo! Ai!
Não vejo a hora! - deu um gritinho engraçado.
- Estou preocupada, filha - tornou Belinda, séria.
Por que não está com o seu marido, em seu apartamento?
Tinha uma vida óptima, Dani!
Um homem bom ao seu lado.
Por causa de uma besteira, de uma secretária imbecil que ninguém sabe onde está, você...
- Mamãe - interrompeu-a - a Charlaine me telefonou - contou pausadamente.
- O quê?! O que essa maldita queria?!
- Conversamos muito, ou melhor, ela falou bastante.
Pediu desculpas.
Contou-me exactamente o mesmo que o Will.
Ela disse que não sabe explicar por que fez aquilo.
Disse que gostava dele sim.
Mas não queria estragar o nosso casamento e estava arrependida.
Somente agora soube que eu estava grávida e havia me separado dele por causa do que ela fez.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:38 am

- Você contou para ele?
- Não.
- Por que não?!!! - gritou Belinda.
Ligue para o seu marido e corra para os braços dele!!!
Peça desculpas, filha!!!
- Ah, mamãe...
Belinda era envolvida por Raul para convencer Danielle a procurar o marido.
Ela percebeu que a filha chorava em silêncio e aconselhou, com jeitinho, tocando em seu ponto fraco:
- Eu sabia que, para me ligar a essa hora, tinha acontecido alguma coisa.
Mas não era para mim que deveria ter telefonado.
Era para o seu marido.
Você está arrependida do que fez e precisa procurar o Will o quanto antes.
Se não fizer isso logo, quando decidir, pode ser tarde demais.
- Por quê?!
- Cada dia que passa, o seu marido se vê mais longe de você e acha que não há possibilidade de voltarem.
Ele pode arrumar outra, se é que já não arrumou.
- Ele não fez isso!!!
Não pode fazer isso!!!
A filha dele vai nascer!!!
- Foi você quem o deixou livre!
Talvez ele não tenha lhe contado por causa da gravidez.
Está só esperando a filha nascer e...
Ele não vai correr atrás de você a vida inteira!
Você acredita que vai?!
- Não... Ele...
Ele não pode arrumar outra! Não nos divorciamos.
O Will me vê a cada quinze dias e não falou nada.
- E daí?! - O silêncio foi absoluto e longo.
Depois, Belinda prosseguiu:
- Dani, preste atenção, filha.
Sei que você está arrependida.
Não se sente bem por estar longe dele e...
Você o ama, Danielle! Assuma isso!
Faça alguma coisa agora, antes que seja tarde!
Diga que acredita nele, que se arrependeu.
Que perdoa! - A filha não respondeu.
Está me ouvindo?
- Estou... - chorava sem deixar que a mãe percebesse.
- Hoje é quarta...
Na sexta à noite ele vem a Londres.
No sábado nos vemos.
- Você não vai esperar até sábado!
Ligue hoje! Agora!
- Está nevando muito, mamãe.
- E o que tem a neve com o telefonema, Danielle?!
- zangou-se.
- Ele vai querer vir para cá agora, se eu ligar.
O tempo não está bom para voar e...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 29, 2017 9:38 am

Se conseguir um voo, talvez não chegue aqui por causa da neve.
Na sexta, o tempo vai melhorar conforme a previsão.
- Danielle, se estivesse aí, eu lhe daria muitas palmadas!!!
- gritou.
- Por quê?!
- Agora que me diz que está nevando!
Que pode estar isolada!
Você não tem responsabilidade!
E se te acontece algo, menina?!
E se você passa mal?!
- Estou óptima, mamãe. Acredite em mim!
- Tá bom!... - suspirou fundo e tentou se acalmar.
Vou acreditar. Só que, amanhã, você vai para a casa da sua irmã no centro de Londres.
Está me entendendo?!
Os empregados estão lá e vão cuidar de você até eu chegar!
A filha riu e, para contentá-la, aceitou:
- Está bem. Pode deixar.
- Dani?!
- Oi!
- Liga para o seu marido.
Conversa com ele - pediu com jeito meigo.
- Desde que me mudei, nunca telefonei para o Will, mamãe... - tornou em tom triste.
- É hora de ligar e você sabe disso.
- Tudo bem. Eu ligo.
- Dani, só mais uma coisa!
- O quê?
- A sua irmã não quer que eu conte ainda, só que...
Você terá mais um sobrinho ou sobrinha!
- A Nanei está grávida de novo?! Que legal!!!
- Deixe que ela te conta, tá? - tornou alegre.
- Pode deixar. Nossa!
Estou muito contente por eles!
Conversaram durante mais algum tempo, depois se despediram.
Ao desligar, pensou em William e sentiu uma infinita e profunda tristeza.
Sua mãe tinha razão.
Ela o deixou livre e a cada dia ele se sentia mais distante e descompromissado dela.
Lembrou-se de como eram felizes, dos passeios pela cidade, das visitas aos museus que não conhecia, de todos os programas que faziam juntos, das flores que o marido lhe mandava ou da delicada rosa solitária, muitas vezes, com um simples bilhetinho apaixonado.
William realmente era muito romântico.
Gostava quando lhe ensinava as coisas e de quando ele ficava narrando sobre a história de Paris como se fosse um guia turístico.
Ela sorriu por um instante ao recordar de seu sorriso iluminado, o seu riso gostoso de ser ouvido, seu jeito aristocrático e bem britânico, sua educação polida e seu jeito carinhoso.
Era tão fácil amá-lo.
Era tão bom amá-lo.
Por que aquele ciúme idiota, que não a deixava viver bem?
Por que não disse que acreditava nele quando viu a verdade em seus olhos?
Por que foi tão dura e fria não o deixando participar da gravidez, aproximando-o da filha desde o início?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 9:53 am

Tantas perguntas e nenhuma atitude.
Lembrou-se da história da cidade de Paris, que William lhe contou.
A cidade nasceu em uma ilha, foi palco de batalhas, destruições e pestes, mas se reconstruía a cada episódio.
Agora era grande luzente, bela, perfeitamente linda.
Como sua vida poderia ser depois de tantos reajustes, se William lhe desse uma chance.
Sentia tanto sua falta.
Falta de seu carinho, de sua atenção.
Como foi tola por se distanciar dele durante a gravidez.
Porque não aproveitou os seus afagos, os seus carinhos...
Em vez disso, afastou-se. Deveria ter sido tão bom.
Indo até o quarto, mexeu em um pequeno armário e pegou uma foto onde estavam juntos.
Uma dor apertou-lhe o peito e seus olhos se nublaram.
Eles eram lindos juntos.
Sorriam ao se abraçar, colando um rosto ao outro.
Pensar em ficar sem ele, amedrontava-a.
Porque perder tempo?
Porque jogar fora um amor tão bonito?
Danielle foi até a sala e ligou para William, que estranhou seu telefonema.
- Alô.
- Will?! - sua voz parecia assustada, como se tivesse medo de não ouvi-lo.
- Dani?! Tudo bem?! - preocupou-se.
Ela nunca lhe telefonou desde que foi para Londres.
- Você está ocupado, Will?
Imediatamente, levantando-se da grande mesa de reunião, onde todos o olhavam com incrível atenção, ele respondeu sem se importar:
- Não. Não estou ocupado não.
Pode falar - afirmou saindo do recinto, sem dar satisfação aos demais.
Caminhou lentamente para a sala da presidência, que agora ocupava, e a ouviu com atenção.
- Eu parei de trabalhar essa semana - ela contou sem saber por onde começar uma conversa.
- A outra encarregada voltou?
- Sim. Voltou.
Eu não posso assumir nada, digo, outra função, porque daqui a pouco o nené vai nascer e...
Enquanto a ouvia, ele deslizava os dedos, como se fizesse um carinho, no porta-retrato sobre sua mesa, onde havia uma fotografia dos dois juntos, abraçados e sorrindo.
A mesma foto que ela tinha em suas mãos.
Ainda intrigado, estranhando a ligação e sentindo-a muito diferente, quis saber:
- Dani, está tudo bem mesmo?
O nené está bem?
- Está. Está sim.
- Tem certeza?
- Will...
- Fala - Podia ouvir sua respiração e percebeu que sua mulher estava chorando.
Diante do silêncio, insistiu:
- Dani, o que está acontecendo?
- Nada - tornou com voz embargada.
Continuou, quase sussurrando:
- Exactamente, nada...
Eu não consigo parar de pensar em você e...
Queria ouvir sua voz.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 9:53 am

- Você está em casa?
- Estou.
- Sozinha?
- Sim. Quer dizer, eu e a Meg.
Ela está aqui no meu colo.
- A Meg está bem? - indagou com graça, para animá-la.
- Está - falou sorrindo, e ele percebeu.
Sei que deve estranhar a minha ligação..
É que estou angustiada.
Ficar aqui sozinha me fez reflectir muito sobre nós e...
Com voz de choro, declarou:
- Eu te amo, Will.
Queria que você estivesse aqui.
Estou arrependida por tudo que lhe fiz.
Eu te amo muito.
Eu deveria estar junto de você.
- Dani, não chora. Está me ouvindo?
- Estou ouvindo, mas não estou chorando - respondeu com a voz embargada, tentando negar.
Só estou triste.
- Não fique assim. Pense no nené.
Ela não vai entender essa emoção e...
Enquanto conversava com a esposa, ele fez uma anotação, pegou um casaco pesado, típico para aquela época do ano e saiu da sala.
Ao passar pela secretária, entregou-lhe um bilhete onde estava escrito:
"Uma passagem para Londres.
Agora!!!" - Dani, estou indo para a garagem.
Talvez a ligação caia.
- Não desligue.
Continue falando comigo.
Preciso ouvir a sua voz.
- Se cair eu ligo de novo.
Estou indo para nossa casa.
Vou pegar meu passaporte para ir até aí.
- Está nevando muito, Will.
A estrada está bem difícil.
- Eu chego. Acredite em mim.
A ligação teve de ser refeita algumas vezes e ele precisou desligar ao embarcar no avião.
As horas se arrastavam.
Já eram quase oito da noite e William não chegava.
Danielle achava-se aflita, inquieta.
Andava de um lado para outro a fim de se acalmar.
Tentou ligar para o celular do marido, mas não conseguia.
Só caía na caixa postal.
Onde William estaria?
Ele nunca havia ido até o chalé.
Será que se perdeu?
Ficar preso naquelas estradas à noite, a neve e o frio poderiam até matá-lo.
- Meu Deus!
O que.eu fiz?! - desesperou-se ela.
Ele já deveria ter chegado há mais de duas horas!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 9:54 am

Foi por diversas vezes até a porta e viu que começou a nevar novamente.
Fazia muito frio.
Pensou em ligar para sua mãe, ela saberia lhe aconselhar e confortar, mas não deveria ocupar o telefone.
William talvez tentasse ligar para dizer que não estava conseguindo chegar.
Ela foi a todas as lareiras, colocou mais lenha e voltou para o sofá.
De repente Meg começou latir, latir muito.
- O que foi, Meg?
O que você quer me falar?
Ai, meu Deus! Estou sentindo uma coisa!
Faça o Will chegar rápido, por favor - começou a rezar.
A cachorrinha não parava de latir e, mais uma vez, Danielle foi até a porta e a abriu para olhar.
Inesperadamente, o animalzinho saiu correndo.
- Meg! Meg, vem aqui!!!
Volte, Meg!!! - gritou.
Saiu até o jardim, olhou a rua e não a viu.
Entrou em casa, pegou um agasalho mais pesado e voltou ao portão.
Ao sair para a rua, totalmente deserta, decidiu voltar.
Algo a impediu de ir atrás de Meg.
Sentando-se no sofá, rogou:
- Deus, me ajuda! O que eu fiz?!
Eu não deveria tê-lo deixado vir para cá com um tempo desses.
O avião pode ter caído!
E a Meg?! Ela vai morrer!
Pensar nisso a deixou ainda mais desesperada.
Na espiritualidade Raul e Carina a assistiam e tentavam acalmá-la.
O ranger do portão de ferro chamou-lhe a atenção.
Ela correu até a porta e a abriu. Era William.
Ele chegava sorrindo, lindamente, e trazendo Meg dentro de seu casaco.
Danielle não acreditou e correu ao seu encontro.
Depois de se abraçarem, ele a beijou com carinho e apertou-a contra o peito.
Curvando-se, beijou-lhe a barriga e pediu, abraçando-a:
- Vamos entrar!
Está frio demais!
Dentro de casa, Danielle abraçou-o ainda mais e o beijou com ternura.
- Você demorou tanto!
Estava desesperada!
Liguei para o seu celular e não atendeu.
O que aconteceu?!
- Aluguei um carro no aeroporto e ele não é muito adequado para o gelo.
Mas só havia esse modelo disponível hoje.
Acho que alugaram todos os outros.
No caminho, quando fui ligar para você, descobri que havia descarregado a bateria do celular - riu.
- Também...
Conversamos tanto!
Precisei dirigir muito devagar.
Foi terrível! - contava bem-humorado.
O carro derrapou no gelo e a estrada estava escura, totalmente deserta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 9:54 am

Só as luzes das poucas casas e chalés, bem distantes umas das outras, iluminavam um pouco.
Não conhecia bem o vilarejo.
De repente, vi aquele cachorrinho, bem familiar, no meio do caminho - sorriu.
Parei, abri a porta e eis que era a Meg!
Então descobri que estava perto.
- Ela escapou quando fui olhar para ver se estava chegando.
Ela havia começado a latir.
Tinha percebido que você estava chegando.
Que incrível! - sorriu admirada.
- É! Acabou me encontrando!
Danadinha! - Tirou as luvas, o casaco pesado e o cachecol em torno do pescoço, depois o paletó, ficando só de suéter.
Sentou-se, contemplou-a por algum tempo e a puxou em seu colo, afagando-lhe a barriga.
Aninhada em seus braços, olhou-o nos olhos e disse com voz meiga:
- Desculpe-me por tudo, Will.
Sei que nada justifica o que eu fiz.
Perdoe-me, por favor!
Ele sorriu.
Colocando o indicador em seus lábios, pediu silêncio.
Vendo-a se calar, disse:
- Não me lembre do que eu já esqueci.
Amo você.
- Também te amo.
O marido a beijou com carinho.
Acariciou-a por longo tempo e a olhava sempre, esboçando leve sorriso.
Não acreditava no que estava acontecendo.
Encabulada, ela retribuiu o sorriso e falou com jeito meigo:
- Tem sopa, pão e queijo. Quer?
- Quero. Estou morrendo de fome.
Não almocei hoje.
- Dando-lhe um tapinha na perna para que se levantasse, falou:
- Vou lavar as mãos e o rosto.
Onde é o banheiro?
- Ali - apontou.
Danielle foi até a cozinha esquentar a comida e ele, após se lavar, procurou-a.
O marido parecia bem contente.
Conversou bastante e se mostrava descontraído.
Enquanto ela estava muito alegre, apesar de envergonhada por tudo o que o fez passar, não só naquele dia, mas também nos últimos meses.
Fazia de tudo para agradar-lhe.
Não parava de acariciar-lhe a nuca, vendo-o sentado à mesa, esperando a sopa esquentar.
Quando foi servido, ele perguntou:
- Não vai comer?
- Não. Eu andei tomando chá e comendo biscoitos...
Não estou com fome - respondeu em pé, ao seu lado, afagando-lhe os cabelos.
William a abraçou, beijou-lhe a barriga e só depois, começou a comer.
Ela acomodou-se ao seu lado.
Não tirava os olhos dele e ficou ouvindo-o.
- Gostei daqui.
O chalé é pequeno e bem aconchegante.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 9:55 am

- Aqui é bem gostoso mesmo.
Vai ver durante o dia.
O lugar é lindo! Principalmente quando neva!
- É bem longe do serviço.
Não era cansativo ir e voltar todos os dias?
- Não. Eu gosto.
Sabe que acostumei andar de carro!
Dirigir bastante.
Não fiquei mais enjoada.
Não é curioso?
Eu enjoava, antigamente, quando andava de carro por muito tempo.
- E o seu carro?
- O Jipe?!
Está lá na garagem.
É lá nos fundos.
Quem passa na rua não a vê.
Continuaram conversando.
O tempo passava e ele reparou algo estranho: só ele falava.
- Você está tão quieta. O que foi?
- Acho que fiquei muito tensa com a sua demora. - Sorriu.
Após alguns instantes, lembrou:
- Ah! A Nanei e o Edwin querem que sejamos os padrinhos do Twiller.
- O Edwin já me falou e eu concordei.
Só precisava ver com você.
- Será bom baptizá-lo logo ou, então, terão de fazer dois baptizados ao mesmo tempo - riu sem conseguir guardar segredo.
- Por quê?
Vai querer baptizar a Tifanie junto?
- Não estou falando da nossa filha.
A Nanei está grávida novamente!
- Sério?!
- Não é para dizer nada.
Deixe que ela conte.
Foi minha mãe quem me falou hoje.
- Fico feliz por eles. Que bom!
Ao vê-lo terminar, perguntou:
- Quer café?
- Não. Obrigado. Estou exausto.
Quero relaxar um pouco.
Ao observá-la séria e pensativa, propôs:
- Vamos assistir a um filme juntos.
Depois quero dormir até!... - riu.
- É. Pode ser - concordou de um jeito estranho, sem entusiasmo.
Danielle se levantou.
Tirou o seu prato e colocou na pia.
Ficou calada de repente.
Parecia desassossegada.
Foram para a sala.
Ligaram a TV e colocaram um filme.
O marido a chamou para que ficasse ao seu lado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 9:55 am

Ela aceitou, mas não parava sentada.
Ia e vinha do banheiro.
Fez pipoca e voltou para a sala.
William começou a se preocupar ao vê-la respirar fundo, colocar as mãos nas costas, na altura dos rins e se esticar.
Aquela cena lhe era muito familiar e ficou apavorado, lembrando quando a viu fazer aquilo.
Sem demonstrar-se nervoso, perguntou muito sério:
- Dani, o que você tem?
- Eu não sei...
É uma coisa... - contorceu-se como se quisesse alongar o corpo.
- Dani, o carro em que vim não é bom para a neve!
Onde estão as chaves do seu Jipe? - quis saber levantando-se.
- Ali - apontou para um móvel.
Mas não vai adiantar.
Ele não sai da garagem há dois dias por causa da neve.
- Danielle, pelo amor de Deus!
Você não vai fazer isso comigo novamente!
Você não tem juízo! - exclamou, indo ao encontro dela.
- Will, não fale igual a minha mãe! - disse meio irritada e parecendo aflita.
Acho que estou sentindo uma dor muito forte!
Will, me ajuda! - pediu nervosa, quase gritando, como se implorasse.
Me leva para o quarto!
- Não! Vou levá-la para um hospital!
Apanhando um casaco pesado, ele a fez vestir.
Agasalhou-se também e só pegou os documentos da esposa.
Conduzindo-a para o carro, percebeu que Danielle não estava bem.
Sentia contracções e, provavelmente, entrava em trabalho de parto.
- Will, não vai dar tempo!
- Vai sim! Não vou passar pelo que já passei.
Por Deus, não vou!
Eu posso dirigir devagar e vamos chegar com segurança e a tempo. Confie em mim.
A distância até o hospital parecia ter dobrado de tamanho.
Danielle gemia e, às vezes, gritava.
O marido se concentrava no caminho, tomando muito cuidado para dirigir naquele terreno de gelo e neve.
Chegando ao hospital, Danielle quase não conseguia sair do carro.
Segurou-o pela roupa e exigia que ele fizesse alguma coisa para a dor passar.
Colocaram-na em uma maca e correram para a emergência com o marido ao seu lado que, tentando acalmá-la, não percebeu que adentrou na sala onde a levaram.
- Will, quero uma epidural!
Já combinei com o doutor Kurt!
- Não há mais tempo para uma anestesia, minha querida.
O nené já está nascendo! - avisou uma enfermeira sorridente.
- Eu quero o meu médico!!! - ela exigia, agarrando William pelo casaco.
- Se o seu marido o chamou, ele está a caminho - tornou a enfermeira, simpática.
- Will!!! Faça alguma coisa!!!
É terrível!!! Não posso mais!!! - gritava.
- Pode! Você pode sim, Dani! - dizia calmo ao seu lado, oferecendo-lhe a mão que ela passou a apertar com força quando gritava.
Enquanto ele a afagava com a outra.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 9:56 am

Uma médica chegou imediatamente.
Não houve tempo de nada.
Nem de pedir para ele sair.
O que ela fez foi amparar a criança que nasceu rapidamente.
Quase num susto.
William ficou parado, petrificado, com um largo sorriso estampado no rosto onde lágrimas corriam incessantes.
- É uma menina! - anunciou a médica em meio aos gritos agudos da criança.
Uma grande e linda menina!
Oferecendo generosos cuidados à criança, perguntou:
- Você é o pai?
- Sim. Sou eu - disse sorrindo, incrédulo.
- Então vem aqui, papai!
Corte o cordão! - tornou a médica.
Ele se aproximou, pegou a tesoura oferecida e separou mãe e filha sob forte emoção de riso e de choro.
Em seguida, voltou para junto da esposa, abraçando-a, beijando-a, fazendo-lhe carinho e secando suas lágrimas.
Tifanie foi entregue nos braços de Danielle, que não conseguia falar.
Sorria e chorava de emoção enquanto beijava a filha.
* * *
O dia estava claro quando Danielle, deitada em um leito confortável e aquecido, acariciava o rosto da filha ao seu lado.
- Ela é linda!
Parece com você! - disse o pai orgulhoso.
- Não. Parece com você. Os olhos são claros, os cabelos escuros.
- Será?! - duvidou, examinando-a curioso e feliz.
Não dá para ver os olhos direito.
Vaidoso, mudou de ideia e concluiu:
- É! Você tem razão!
Ela se parece comigo sim.
- Convencido! - falou, achando graça da forma como ele se expressou.
- Ela é sim! - afirmou de um modo engraçado.
Vou lhe mostrar minhas fotos de bebé! Vai ver!
- Obrigado, Will.
Ele a beijou com carinho, afagou-lhe os cabelos e comentou:
- Viu? Eu fiquei com você.
Assisti a minha filha nascer!
- Eu vi! - sorriu de modo maroto.
- Foi tanta emoção!
Fiquei tão envolvido que não tive tempo de pensar nada.
Fiquei ali, acompanhando você.
Quando ela nasceu...
E chorou... Nossa! - contava empolgado.
- Quando cortei o cordão!...
Foi tanta emoção! Viu!
Eu cortei o cordão!
Danielle começou a rir de seu jeito e não disse nada, enquanto o marido não parava de falar que assistiu ao parto.
Na espiritualidade, Raul, Carina e outros companheiros que os auxiliaram, observavam satisfeitos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 9:56 am

- Fiquei assustado. Tão preocupado quanto eles - confessou Raul.
Diante de tudo, William se saiu muito bem.
Ficou calmo o tempo todo.
Não perdeu o controle e ainda assistiu ao parto.
Quem diria - sorriu.
- A Danielle... Sempre teimosa.
Se tivesse ouvido os conselhos de Belinda, dias atrás, não precisariam dessa correria toda.
Ainda bem que, inspirada por Raul, a mãe encontrou palavras que a comoveram e a fizeram ligar para o marido.
Ele, sensível, atendeu a inspiração e foi ao encontro da esposa.
Se não fosse isso, Danielle estaria sozinha quando tivesse a filha.
Seria bem difícil.
E olha que quase não deu tempo! - disse Carina, sorridente.
- Graças a Deus, deu tudo certo - disse um companheiro.
- Estou tão feliz pela Evelyn ter nascido entre eles.
- Tifanie! O nome dela agora é Tifanie, Raul! - riu Carina.
- É verdade. Estou muito feliz por isso.
De certa forma sinto-me como pai dela, pois fui seu pai mesmo que por poucos meses, não é?!
Carina sorriu largamente, entendendo a satisfação de Raul e não disse nada.
Os demais companheiros se despediram e se foram.
- Agora, com Desirée aprendendo e se recuperando longe da crosta, tudo será bem diferente para eles.
- Será diferente para todos nós - concordou Raul, sobrepondo o braço em seus ombros, sentindo-se satisfeito.
* * *
Olhando para o marido, que não tirava o sorriso do rosto, Danielle perguntou:
- Ligou para minha mãe?
- Liguei. Contei tudo.
Ela disse que vai lhe dar uma surra quando chegar aqui.
Ficou bem zangada, mas por fim...
Está louca para ver vocês duas.
Acha que vem amanhã ou depois.
- Não vejo a hora de vê-la - sorriu.
Ligou para a dona Maria Cândida?
- Liguei. Ela está vindo para cá.
- Ai, que bom.
Estou com saudade dela.
Fui tão dura com ela quando conversamos pela última vez.
Tomara que não esteja chateada comigo.
- Ela nunca vai se chatear com você.
Porém, ninguém se conforma com o que fez.
Foi morar sozinha, longe de todos.
E se eu não chego a tempo?
E se não estivesse lá com você?
- Não foi tão complicado assim - sorriu com jeito travesso.
- Dani, eu nem vou falar nada! - disse mais sério, parecendo zangado.
A bolsa estourou dentro do carro!
Quase a Tifanie nasceu no carro, a caminho do hospital, em uma noite fria, escura e nevando!
- Eu te amo, Will! - interrompeu-o, sussurrando e sorrindo com doçura.
Olhou-o com meiguice, fazendo-o se enternecer.
- Eu também amo você - tornou no instante seguinte, sorrindo, totalmente brando.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 9:56 am

Beijou-a com carinho e depois falou, calmo:
- Só me lembre de não confiar mais em você quando formos ter nosso próximo filho.
- Você quer mais um?! - perguntou surpresa e forçando um sorriso engraçado.
- É... Se você quiser...
Só que da próxima vez eu vou acompanhá-la em tudo, até no parto! Viu como eu fui capaz?!
- Acho que é cedo para falarmos sobre isso - sorriu.
- Agradeço muito a Deus por ela estar aqui e bem - emocionou-se.
- Eu também.
Obrigada por me compreender e por tudo o que fez por nós.
Ele sorriu, encantado, e falou orgulhoso:
- Ela nasceu em Londres, como eu queria!
Tifanie Phillies!
Que nome lindo! Não acha?!
- É! Tifanie...
Sempre quis uma filha com esse nome.
Mas... Não terá o meu sobrenome?!
- Acho que ficou tão lindo assim!
Não acha?! - perguntou com jeito manhoso.
- Tifanie Linhares Phillies - ela pronunciou.
Em seguida admitiu:
- De facto, Tifanie Phillies fica mais bonito.
Você tem razão. Ficou bem melhor.
- Óptimo! Temos de cuidar dos documentos dessa mocinha - riu, olhando para a filha.
Hoje mesmo vou providenciar tudo.
Por ter chegado aqui, o principal ela já tem:
o passaporte para a vida!

Fim

§.§.§- Ave sem Ninho
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74080
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 12 de 12 Anterior  1, 2, 3 ... 10, 11, 12

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum