Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:10 am

- E eu com isso?!
Não posso fazer nada se ele prefere chorar no seu ouvido.
- Não seja cínica!! - falou firme.
Esse moço gosta de você.
Eu a vi muito interessada por ele.
Por que não ouve o que ele tem a dizer e lhe dá uma chance?!
- O que a senhora quer é me ver junto com o filho da sua melhor amiga!
Assim terá certeza de que vai tornar a vê-la sempre, não é?!
- Não seja ridícula, Nanei!!! - vociferou a mãe.
Além de ridícula, está sendo insolente!!!
O que pensa que eu sou?!!!
Quero a sua felicidade, menina!
- Será que é isso mesmo, mamãe?!
- Não me faça perder a paciência!!!
Eu só gostaria que você se desse mais atenção, mais carinho, mais amor!
Por que acha que ninguém é capaz de gostar de você?!
Por que se pune?!
Por que desconfia que haja uma segunda intenção quando alguém diz que te ama?!
Parece que duvida até do meu amor! Por que não aproveita a vida e as oportunidades em vez de... - caminhando até a sua cama, levantou o Notebook e disse ao ver de baixo do equipamento - ...em vez de ficar se entupindo de bombons e chocolate como está fazendo agora?!
Indo próximo à mãe, pegou o computador e o colocou novamente sobre a cama e em cima dos chocolates.
Com voz estremecida e olhos lacrimosos, reclamou:
- A senhora não tem direito de fazer isso!
- Sou sua mãe!
Tenho o direito de alertá-la sobre o que faz de errado na vida!
O que está fazendo é certo, Nanei?!
- Eu sei me cuidar!
- Estou vendo!!!
Vendo você se matar a cada dia quando não sai desta casa, deste quarto e se entope de chocolate!!!
- A senhora só quer me ver casada!!!
- Quero vê-la feliz!!!
Casada ou solteira, mas feliz!!!
Vejo que solteira você não se mostra nada, nada realizada e satisfeita!
Quero que saia, que viva a vida, faça o que gosta!
Conheça pessoas! Conheça um rapaz! Dê-se uma chance!
- Todo rapaz que conheço, só quer saber de tirar sarro da minha cara!
- Será, Nanei?! Será mesmo?!
Não é você quem não se aceita e acredita que os outros pensam igual?!
Ela ficou calada e a mãe continuou:
- Ficar enfornada neste quarto, pendurada na internet e comendo chocolate, vai resolver seu problema com você mesma?!
Sim, porque o seu problema não é com o mundo, é com você mesma!!!
Quando Belinda parava de falar, o silêncio era absoluto.
- Por que não liga para o Edwin? - perguntou mais calma.
- Ele mentiu para mim.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:11 am

- Ele não mentiu!
O Edwin me contou toda a história.
Não havia mais nada entre ele e a tal moça quando veio para o Brasil.
- Não interessa.
Deveria ter me dito.
Fiquei sabendo pela mãe dele.
- E qual o problema?
Por que você é tão boa, tão sensível com as outras pessoas e não é generosa com você mesma?
Por que é tão rigorosa e exigente quando se trata de você?
Se isso tivesse acontecido com alguma amiga, tenho certeza de que iria dizer para ela dar uma chance ao rapaz.
Em tom sério e grave, pediu:
- Por favor, mamãe...
Quero ficar sozinha.
Belinda a olhou por longo tempo e percebendo que de nada adiantaria, naquele momento, dizer mais alguma coisa, decidiu sair dali.
Só que antes ainda falou em tom sensível:
- Obrigada por ter sido tão boa para mim e me colocado em contacto com minha amiga.
Isso me deixou muito feliz.
Você tinha razão.
Eu estou lhe agradecendo por ter ficado na internet para resolver algo que me deixou bastante alegre.
Assim como se empenhou para a minha felicidade, gostaria que se empenhasse para a sua.
A filha nada disse, e a mãe saiu do quarto.
* * *
Os meses foram passando...
Na casa de praia em Long Island, um lugar muito privilegiado, Raul estava deitado em uma rede na varanda.
Com olhos fechados, ouvia o barulho do mar que lhe trazia calma e o acalentava.
Não sabia dizer se se achava acordado ou dormindo quando percebeu passos ecoando no assoalho de madeira.
Mais perto, pôde escutar seu nome sendo sussurrado.
Estranhamente, não se assustou ao reconhecer a voz de sua mãe, mas ergueu a cabeça para se certificar.
- Filho! - expressou-se a senhora com modos generosos e sorriso franco.
Como é bom te ver, meu filho!
- Mãe?! A senhora aqui?! - disse, sentando-se na rede.
- Vim te dar a minha bênção.
- Mãe, a senhora morreu!
- Eu também pensei que tivesse morrido.
A morte não existe, filho.
Tudo o que julguei errado e absurdo sobre depois da morte, quando eu estava aí, desse lado, existe de modo fabuloso.
A morte é só a passagem para um outro plano.
- A senhora veio me ver?
- É a primeira vez que percebe isso, assim, tão lúcido.
- Estendendo-lhe a mão, pediu com jeito carinhoso:
- Venha. Vamos dar uma volta.
Quero que conheça meus amigos.
Ele aceitou o convite e se levantou.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:11 am

Caminhavam pela praia.
De repente a paisagem foi se transformando e Raul se viu em outro lugar.
Era deslumbrante, até onde a vista não alcançava mais.
Parecia infinito. Uma névoa esbranquiçada encantava o lugar.
Sentia como se passasse entre longos e finos véus brancos e transparentes, que desciam de uma altura que a visão não podia enxergar, até o chão repleto de pétalas de rosas brancas.
O aroma de rosas era infinitamente delicioso.
Ouvia um agradável murmurinho de água de um lado.
Ao olhar melhor, quando os véus sumiram, achou estranho que o ruído da água não vinha de uma fonte, mas de um ribeirão límpido, com pedras que auxiliavam a água produzir aquele som tão agradável.
Não havia mais praia, como onde estava, nem areia.
O chão era um gramado esmeralda, fascinante.
Sua mãe o levou a dois homens que conversavam alegremente.
Ao vê-lo, cumprimentaram-no com carinho e nítida emoção.
- Eu sou Evandro.
Prazer em revê-lo, Raul! - disse um deles ali presentes.
- Eu sou Armando - falou um senhor ao lado.
Sou avô de Danielle! - explicou animado.
- Pelo que estou entendendo, vocês estão mortos? - perguntou Raul tranquilo e desconfiado.
- Não, Raul - afirmou Evandro.
Olhando para os demais, sorriu e lhe explicou:
- Todos pensamos assim quando em contacto com essa realidade.
Nós estamos vivendo em outro plano.
- E eu?! Eu morri?! - tornou ele.
- Você está em estado de sono que proporciona um desdobramento, ou seja, a alma se afasta do corpo, deixando-o em condições de nos perceber melhor.
- Então eu não morri?! - insistiu rindo.
- Não - riu o espírito Evandro.
Eu sou o seu mentor, anjo de guarda...
Chame-me como quiser.
Sua mãe estava querendo vê-lo.
Ela já o visitou muitas vezes.
Há alguns anos esteve em uma colónia espiritual de aprendizado.
Quando soube de sua doença, no corpo físico, quis vê-lo e eu a trouxe hoje.
Bem como o Armando que queria visitar a família unida e a neta que tanto ama.
- Vocês estão me preparando para a morte, não é mesmo?! - perguntou Raul.
- Todos os dias as pessoas se preparam para a morte.
Cada dia, no plano físico, é um dia mais perto do plano espiritual.
- É que estou muito doente.
- É seu corpo que está doente, não seu espírito.
Não deixe sua alma enferma.
Não permita que isso aconteça - pediu o espírito Armando.
Eu deixei minha alma muito doente, quando encarnado, depois não foi fácil me curar no plano espiritual.
- O senhor teve câncer como eu?
- Não, filho.
Minha doença foi na alma como falei.
Essa doença eu arrastei comigo por séculos e sofri muito por não conseguir perdoar, entender e amar.
- Pode me contar o seu caso?
- Sim. Claro que posso.
O espírito Armando relatou exactamente tudo o que lhe aconteceu e Raul prestou muita atenção em cada detalhe.
Para ele, a ideia que teve é de ter ficado horas, ali, conversando.
Mas o tempo, no outro plano, conta-se de modo diferente.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:11 am

6 - Cuidado com os pensamentos

Emocionado, Raul abriu os olhos e sentiu seu rosto esboçando leve sorriso.
Ele estava totalmente exausto, quando, com a ajuda de Danielle, deitou-se ali.
Naquele momento, entretanto, sentiu-se refeito, como se houvesse experimentado algum tipo de estimulante ou coisa assim.
Era difícil entender o que aconteceu.
Teve somente um sonho com sua mãe e dois homens desconhecidos.
Nada significativo que pudesse lhe trazer aquele ânimo todo.
Sentando-se, Raul percebeu que não ficou tonto nem enjoado, como sempre ocorria nos dias que sucediam os coquetéis químicos recebidos na clínica.
Levantando-se, procurou pelos chinelos e se apoiou na parede para calçá-los.
Não estava mesmo com tontura, se estivesse, teria cambaleado e até caído.
Caminhou pela varanda e entrou na casa à procura da esposa que encontrou deitada no sofá da sala de estar, próximo à lareira.
Riu ao ver, ao lado de Danielle, uma cestinha forrada de biscoitos amanteigados, que, provavelmente, comia, antes de adormecer.
Ela achava-se largada, em sono profundo.
Enquanto o seu corpo preparava uma criança.
Uma ultra-sonografia revelou ser uma menina e ficaram imensamente felizes com isso.
Sempre era uma satisfação emocionante contemplar seu ventre avolumado.
Cada dia parecia maior.
Danielle remexeu-se e abriu lentamente os olhos, surpreendendo-se com o marido parado, em pé, ao seu lado.
- Raul! Tudo bem?! - perguntou, sentando-se rápido.
- Fique tranquila.
Está tudo bem - afirmou, estampando lindo sorriso no rosto pálido e abatido.
Raul havia perdido os cabelos.
Quando isso começou, raspou a cabeça, logo de início.
Era um rapaz alto, bonito, muito forte antes da doença.
Agora estava frágil, magro e fraco.
Seus adoráveis olhos azuis se afundavam no rosto lívido.
Até sua voz parecia ter enfraquecido.
Sentando-se ao seu lado, beijou-lhe os lábios e lhe fez um carinho no rosto, afastando-lhe os cabelos da face.
Em seguida, afagou-lhe a barriga e perguntou com voz terna:
- A nossa menininha está bem?
- Sim, está - afirmou sorrindo. - E você?
- Estou bem.
- Quer biscoito? - ofereceu, indicando para a cestinha.
- Não. Obrigado.
Olhando de relance para a sala, Maria Cândida os viu sem ser vista e decidiu ir até a cozinha.
Não demorou e retornou para a sala com uma bandeja e xícaras com chá de laranja.
- Obrigada, dona Maria Cândida - agradeceu a moça, aceitando a bebida quente.
Raul também agradeceu e contou em seguida:
- Sonhei com minha mãe.
Foi um sonho tão nítido!
Que impressionante! Ela faleceu há tempos!
- Eu gosto de sonhar com o meu pai também falecido.
Sinto-me tão bem quando isso acontece.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:12 am

Conversamos muito.
Às vezes, nem lembro o quê.
Só sei que é bom - comentou a senhora.
- Acordei me sentindo disposto.
Foi tão interessante!
Nesse sonho, também vi um homem chamado Evandro que disse ser meu anjo de guarda e o seu avô, Dani!
- Meu avô?! - perguntou com estranheza.
- É! Conversei bastante com ele - sorriu.
- O que ele disse? - quis saber curiosa.
Raul tornou-se sério, repentinamente.
Pareceu arrepender-se por ter comentado sobre o sonho.
Por fim, disse:
- Contou uma história bem longa sobre ele e você.
Não sei se seria legal falar a respeito e...
- Agora vai ter de contar! - impôs rindo.
O marido ficou insatisfeito e realmente arrependido.
Porém, para contentá-la, comentou superficialmente.
- Há muito tempo, parece que há séculos, ele não gostava muito de você.
Sabe... Foi um sonho e não podemos levar a sério.
- Conta, vai! - insistiu com jeito dengoso.
- Naquela época, você era mulher do filho dele e ele te odiava.
Queria te matar. Matar mesmo.
Por isso, na última encarnação, você nasceu como sua neta.
Breve pausa e justificou:
- Olha... O que eu lembro, não faz muito sentido.
Conheço sua vida e sei que isso não aconteceu.
- Ah! Vai! Conta! - tornou ela no mesmo tom.
O rapaz respirou fundo e continuou, tentando satisfazê-la.
- Ele a criou, pois sua mãe foi morar longe.
Aprendeu a te amar muito, mas o ódio do passado era tão intenso que não perdeu força.
Por isso ele provocou, inconscientemente, um acidente de carro e você estava ao lado dele.
O carro capotou. Você ficou muito machucada.
Teve fractura craniana e permaneceu em coma por dezassete dias, depois morreu.
Mesmo trinta e cinco anos após a sua morte, quando ele faleceu, o senhor Armando nunca se perdoou pelo acidente.
Um barulho de porcelana se partindo ao chão o interrompeu.
Imediatamente eles se viraram para o lado, relanceando olhar surpreso para Maria Cândida que, pálida, levava a mão à testa.
- O que foi?!
A senhora está bem?! - preocupou-se a moça.
- Não foi nada. Eu...
Danielle sentou-se ao seu lado e começou a afagar-lhe as costas e o rosto, enquanto Raul sugeriu:
- É melhor que se deite.
- Não se preocupe, filho.
O mal-estar já passou.
- Podemos ir ao médico - tornou a outra.
A senhora riu.
Parecia bem melhor ao responder:
- De forma alguma. Já passou.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:12 am

Levantando-se, vagarosamente, com Danielle, preocupada ao seu lado como se a amparasse, sugeriu:
- Vamos para a saleta.
Vou pedir para a empregada limpar isso.
Em outro cómodo, aparentando esquecer o ocorrido, Maria Cândida perguntou:
- O seu sonho acabou aí, Raul?
- A senhora ouviu? - dissimulou ele.
É um sonho que não faz muito sentido.
- Até porque nenhum dos meus avôs se chamava Armando, e eu nunca sofri um acidente de carro como contou.
Só bati o pára-lama uma vez e estava sozinha.
- O meu pai se chamava Armando - revelou a senhora um tanto temerosa.
Como vocês sabem, tive uma filha que se chamava Danielle.
Ela faleceu em um acidente de carro em 1963 e era o meu pai quem dirigia.
Minha filha ficou em coma por dezassete dias.
Não resistiu e faleceu.
- Meu Deus! - murmurou Raul preocupado.
- O meu pai faleceu em 1998.
Trinta e cinco anos após a morte da neta.
Ele viveu muito amargurado todos esses anos.
Nunca se perdoou por ter provocado o acidente.
Segundo testemunhas, o carro estava em excesso de velocidade e, naquela noite, meu pai havia ingerido álcool.
Não estava embriagado.
Disseram que foi somente uma taça de vinho.
- Parecia que ele me falava da Danielle, minha esposa.
Tenho certeza disso.
Alguns segundos e disse:
- Eu não sabia o nome de seu pai nem que sua filha faleceu em um acidente, muito menos que ficou em coma... que ele morreu trinta e cinco anos após a morte da neta... - olhou surpreso para a senhora que lhe fugiu ao olhar.
A empregada entrou na saleta, pediu licença e informou que havia uma ligação para Danielle.
Era sua mãe do Brasil.
Ela foi atender de imediato.
Aproveitando sua ausência, Maria Cândida afirmou:
- Tenho certeza de que esse sonho não ficou limitado a isso.
Não é mesmo, Raul?
- É verdade. Mas... A Dani está grávida.
Não quero impressioná-la.
Estou confuso, perplexo com tudo isso.
Estou lembrando daquela foto de sua filha e da semelhança entre elas.
Não quero afirmar nada.
Acho que estou delirando.
- Chegou a pensar que as duas são a mesma pessoa.
Acha que a Danielle, sua esposa, é minha filha que faleceu?
- Estou pensando isso, sim.
- Há momentos que tenho certeza disso, filho.
O jeito, o riso, expressões e fisionomias...
Tudo nela lembra minha filha.
A voz doce, o modo carinhoso e atencioso como me trata, como trata a avó... Tudo!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:12 am

- Nesse sonho, conforme o senhor Armando me relatava o passado, ocorrido em outra vida, eu me vi na história.
- Quer contar?
Raul ficou pensativo, respirou fundo e depois relatou:
- Era em um tempo bem remoto.
Idade Média.
Conforme ele contava, eu via, entende?
A senhora afirmou com uma aceno de cabeça, e ele continuou:
- A Danielle era casada com um homem, o filho do senhor Armando.
Eles tinham outros nomes e eu tenho quase certeza que, de alguma forma, sei quem é o homem, filho dele.
Só não consigo lembrar onde o vi na vida actual.
É como se a ideia me escapasse.
Ainda vou saber quem é.
Um momento e prosseguiu:
- O senhor Armando, por causa da idade, ficou doente, entrevado em uma cama.
Não falava e só mexia os olhos.
Era ela, como nora, quem cuidava dele.
Havia um padre, seu confessor, muito amigo do senhor Armando.
Ele o visitava com muita frequência para lhe dar sua bênção.
Esse padre começou a insistir em um romance com Danielle.
Constrangeu-se.
- Ele a assediava muito.
Não se importava com o casamento dela nem com seus votos.
De tanto insistir, conseguiu seduzi-la.
No quarto, onde estava o sogro doente, Danielle e esse padre se encontravam, beijavam-se e até se amavam...
Naquele cómodo ninguém desconfiaria deles.
Não tinham o menor respeito pelo moribundo.
Era algo desmoralizante, pervertido...
E aquele homem, ali, entrevado na cama, assistia a tudo.
Muitas vezes - continuou em tom envergonhado - após o padre ir embora, ela agredia física e moralmente o sogro.
Batia-lhe no rosto, tratava-o de forma indelicada.
Ele a odiava muito, pois não podia fazer nada.
Raul se emocionou e seus olhos ficaram marejados.
- Esse romance durou anos...
O senhor Armando morreu com muita raiva, muito ódio em seu coração.
Queria matar Danielle por tudo o que ela lhe fez passar.
Após sua morte, o padre não tinha motivo para frequentar aquela casa como antes, pois o marido de Danielle começou a ficar intrigado, desconfiado de suas visitas.
Esse padre decidiu que a queria e, para não ter empecilhos, relatou ao Tribunal da Inquisição que viu o marido de Danielle com atitudes de bruxaria.
Contou ver livros condenados pela Igreja, em posse do pobre homem, que foi preso e levado aos Tribunais da Inquisição.
Ela se acovardou e não defendeu o marido.
Sabia que, se contradissesse as acusações do padre, também se juntaria ao esposo.
Por isso, calou-se.
Então todos os seus bens, que eram muitos, foram confiscados.
Esse homem ficou muito tempo sofrendo torturas das mais horríveis... das mais horríveis... - sussurrou.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:12 am

Quando estava quase morto, queimaram-no na fogueira.
O caminho ficou livre para o padre e Danielle.
Breve pausa.
Secou as lágrimas, respirou fundo e prosseguiu:
- O caso dos dois nunca foi descoberto.
Em uma vida seguinte, tendo o sogro, no plano espiritual, como obsessor terrível, Danielle se envolveu em dificuldades com um casamento de conveniência, forçado por seus pais.
Foi muito espancada por seu marido que era o mesmo que havia traído, na vida anterior.
Pela agressão, perdeu a filha que esperava.
Foi uma situação terrível em que ele não lhe deu qualquer assistência.
Era um homem muito violento e não sabia por que, mas trazia o ódio da traição.
Agrediu-a tanto que, com o tempo, deixou-a paraplégica.
Tiveram uma vida curta juntos.
Danielle contraiu varíola e morreu com muito sofrimento.
Desencarnado, esse homem, seu marido, arrependeu-se por tê-la agredido, pois olhou o próprio passado.
Viu seus erros, bem semelhantes aos dela.
Com isso, entendeu que não deveria ter feito o que fez, por ela não ter vencido as fraquezas no campo da infidelidade, não resistindo as tentações.
Em outras oportunidades, mais remotas, juntos, como amigos, ela o ajudou muito, muito mesmo.
Ele compreendeu o quanto errou.
Sofreu em demasia e se torturou imensamente por tudo o que fez a ela.
Mas o sogro não lhe perdoou.
Era muito ódio e nenhum amor em seu coração.
Ele queria matá-la com as próprias mãos.
Seu desejo era intenso e terrível.
Então, para acabar com esse desejo de vingança, a própria Danielle pediu um reencarne em que ele fosse forçado a amá-la.
Desejou uma situação em que o amor fosse inevitável.
Ela sabia que o ódio é supremamente terrível e o desejo de matar intenso se transforma em algo quase inevitável.
O senhor Armando sempre achou que seria incapaz de amá-la.
Danielle reencarnou como sua neta, e ele precisou tomar conta dela.
Com o esquecimento do passado o amor nasceu inevitavelmente, mas o ódio, cultivado por séculos, transformado em energia viva, levou-o a ser imprudente.
O que tanto queria, que era matá-la, realizou-se.
Sua mente inconsciente o fez agir daquela forma e sua vontade, mesmo de outros tempos, foi feita.
Ele contou que ela se feriu gravemente e morreu dezassete dias depois.
O senhor Armando desejava ter sido ele no lugar dela e nunca se perdoou.
Sempre perguntou a Deus por que aquilo tinha acontecido, mas, encarnado, nunca teve resposta.
Encontrou um pouco de conforto no Espiritismo onde aprendeu que todo sofrimento faz parte da evolução.
Disse-me que, enquanto vivemos encarnados, dificilmente conseguimos entender que só as dores fazem espíritos rebeldes, como nós, mudarem de ideia, agirem e pensarem diferente para harmonizar o que desarmonizaram.
Nunca devemos odiar alguém nem ter desejo de matar a pessoa, pois isso vai se realizar.
Essa criatura odiada virá como filho ou pessoa muito querida.
Com isso encontramos explicações para disparo acidental de arma que mata uma pessoa amada, pais que esquecem de filhos dentro de carros, deixando-os para morrer ali...
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:13 am

Atropelamentos na própria garagem onde se tira a vida de um filho quando se movimenta um carro na propriedade e tantos outros acidentes que aniquilam vidas de pessoas tão queridas, pelas quais daríamos a própria vida.
Raul silenciou.
Maria Cândida, emocionada, olhos marejados, concluiu:
- Eu entendo.
O ódio do meu pai foi tão forte, o seu desejo de matá-la tão intenso que se concretizou.
Por isso devemos tomar muito cuidado com nossos pensamentos, pois a nossa vontade pode se realizar, exactamente, como queremos.
- Não quero contar isso tudo para a Danielle.
- Lógico! Você está certo!
- Sabe o padre que desfez o casamento dela e...
- Sei - afirmou a senhora.
- Fui eu.
A mulher não disse nada a respeito, pois já havia entendido tudo.
- Estou me sentindo estranho a respeito disso. Confuso...
- Você tem algum conhecimento espírita, Raul?
- Antes de nossas longas conversas nos últimos meses, não.
Já tinha lido romance espírita, revista de espiritismo, mas nunca me interessei a respeito.
A Danielle gosta de romance espírita muito mais do que eu.
Não tenho tempo para isso.
Confesso que assim que descobri a doença, pensei: por que eu?
Por que isso aconteceu comigo? Fiquei revoltado.
Cheguei a ir a centros espíritas para procurar a cura, mas quando iniciei a quimioterapia...
Fiquei desgostoso, deprimido e achei que nada adiantaria.
De repente a senhora apareceu.
Deu muita força para a Dani, para nós dois e isso foi uma injecção de ânimo.
Quando viemos para cá, pensei melhor a respeito de Deus, principalmente quando ela descobriu que estava grávida - sorriu.
Acreditei que Ele colocou uma pessoa, como a senhora, no meu caminho, para eu encontrar a cura e cuidar da nossa filha.
Nos últimos dias, estou muito sensível. Tive sonhos.
Encontrei pessoas lá na clínica que começaram a me falar sobre não deixar a mente, a alma ficar doente, pois a vida é além do corpo físico.
O mesmo que o senhor Armando me disse.
- Isso é interessante, porque os americanos não são muito voltados ao espírito, à espiritualidade.
- Também pensei nisso - tornou ele.
Mas o médico que realizava a quimioterapia, surpreendeu-me com esse assunto.
Comecei pensar muito a respeito.
Breve pausa e revelou:
- Esse sonho, hoje, mexeu muito comigo.
Se é que eu posso chamar de sonho.
Era tão real. O incrível foi o senhor Armando falar de coisas que eu não sabia.
Isso foi impressionante e o que me fez acreditar.
- Sabe, a minha mãe sempre foi espírita.
O meu pai só a acompanhava e aceitava o Espiritismo por aceitar.
Somente depois da morte de minha filha é que realmente o aceitou.
Ele se abalou tanto e ficou procurando respostas para o que havia acontecido.
Às vezes, não é fácil entender e admitir que erramos muito no passado e hoje sofremos as consequências de nossos erros.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 14, 2017 11:13 am

- Eu fiz muita gente sofrer.
Denunciei um homem inocente para ser terrivelmente torturado e queimado vivo...
- Espere, Raul. Você não errou sozinho.
Havia um sistema, que era a Inquisição da Igreja.
Você se aproveitou dele.
- Isso não justifica o meu erro.
Eu não o torturei com minhas mãos, mas permiti que o fizessem.
- Se você tomou consciência desse fato, creio que não é para se torturar.
- Eu sei.
O senhor Armando, minha mãe e o Evandro me disseram isso.
Há meses, quando fui ao centro espírita procurando a cura, um senhor, que me recebeu com muita simpatia e paciência, disse que o Espiritismo tinha a proposta de curar a alma.
A cura do corpo poderia ser ou não uma consequência de uma alma em paz.
Estou começando a entender que quando a mente está bem, os pensamentos tranquilos, não importa o que o corpo sofre.
- Minha mãe mandou beijos e abraços a todos! - exclamou Danielle que chegou repentinamente eufórica, interrompendo-os.
- Como ela está? - interessou-se Maria Cândida.
- Óptima! Com muita saudade.
Ah! Ela contou que a Nanei telefonou para o Edwin.
A minha irmã não falou nada.
Foi seu filho que, todo empolgado, ligou no dia seguinte e minha mãe atendeu, então ele disse o que tinha acontecido.
Ela ainda contou que os dois estão combinando algumas coisas, mas não sabe o quê.
- Puxa! Que bom! - disse a senhora satisfeita.
Fiquei tão magoada comigo mesma por ter feito um comentário sobre o que não deveria.
- Isso acontece.
O importante agora é que os dois estão se entendendo - opinou Raul.
- Ai! Já pensou que legal se as nossas famílias se unirem por causa desses dois?! - alegrou-se Danielle.
- Seria óptimo! Maravilhoso! - tornou a mulher rindo, muito feliz com a ideia.
Levantando-se, disse:
- Vou telefonar para minha irmã e saber como está minha mãe.
- Diga que eu mandei um beijo para elas - pediu Danielle.
A sós com a esposa, Raul perguntou:
- Você gosta mesmo da dona Maria Cândida e da dona Filomena, não é?
- Eu as adoro! - respondeu, expressando carinho.
Parece que as conheço há muito tempo.
- Que interessante.
Acho que esse sentimento pode ser de outra vida.
- Ai, Raul... Vou confessar uma coisa...
Sabe que eu já pensei na...
- Na?... - insistiu diante da demora.
- Você vai rir de mim! - sorriu dengosa.
- Não vou não. Fale.
- Será que haveria alguma possibilidade de eu ter sido a filha da dona Maria Cândida?
- Talvez seja possível.
- Sempre quis saber a razão de eu passar mal, ter enjoo quando ando muito tempo de carro, principalmente em viagens longas como a que fizemos de São Paulo ao Rio, que demorou mais de quatro horas.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:26 am

Viajo de navio ou avião e não sinto nada!
Nunca tive explicação para isso.
Mas ao saber que a filha dela morreu em um acidente de carro...
E agora, depois desse seu sonho, tudo ficou claro.
O senhor Armando foi pai da dona Maria Cândida e, no sonho, disse que era meu avô.
Isso tudo começa a fazer sentido, não acha?
- Pode ser - respondeu temeroso, pois não sabia se seria bom ela acreditar nisso.
- A explicação por eu enjoar, sentir tão mal quando ando de carro, é porque morri em um acidente.
- Dani, não fique criando histórias na sua cabeça para não deixar de viver a sua vida.
O aqui e o agora são a sua vida.
- Sim, eu sei!
Só acho interessante a semelhança, os gostos!
A dona Filomena, principalmente, vive se surpreendendo quando eu falo que não gosto de cebola, não uso roupa marrom, adoro rosas brancas, adoro azul claro...
Esses, e outros, são gostos iguais aos de sua neta falecida.
O marido a abraçou com carinho, afagou-a e orientou:
- É algo curioso, mas fique com os pés no chão.
O melhor que tem a fazer agora é cuidar de você e do nené.
O médico falou que sua pressão está alta.
Deve ficar atenta a isso.
- Fique tranquilo! Esses médicos são exagerados.
Sinto-me tão bem. - sorriu e inclinou-se para beijá-lo.
Depois comentou:
- Minha mãe está programando vir para cá, mas o meu pai quer ir, antes, para a Europa.
- Enquanto estou com saudade de casa, eles querem viajar.
Adoraria voltar para o Brasil.
- Já falamos sobre isso.
Seria muito cansativo e dispendioso.
Teríamos que retornar em pouco tempo para darmos continuidade ao seu tratamento.
- Acho que estou incomodando muito.
Pessoas que não me conheciam, de repente, estão me hospedando.
Além do incómodo, também tem as despesas com a estada.
A dona Maria Elvira não nos deixa pagar muita coisa.
- As despesas médicas estão por nossa conta.
- Também pudera!
Aliás, não estão por nossa conta, é o seu pai quem está financiando tudo.
- As despesas com alimentação somos nós quem pagamos.
- Essa situação não está confortável para mim, Dani.
- Eu sei, amor.
Mas o que nós podemos fazer?
Ele estendeu-lhe a mão e a puxou para um abraço.
Achava-se insatisfeito, embora não houvesse o que fazer.
Desejava pedir-lhe para voltar para o Brasil, pois percebia que todo o difícil tratamento não estava adiantando.
Mas não podia.
Não queria que ela sofresse pensando que ele se entregava.
Maria Cândida chegou sorridente, anunciando:
- Amanhã, após pegar Desirée no aeroporto, William disse que virão para cá passar alguns dias.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:26 am

Ele disse que teremos uma surpresa!
- Não gosto de ficar ansiosa no aguardo de uma surpresa - protestou Danielle.
Prefiro que não me avisem.
Maria Cândida e Raul acharam graça de seu jeito, mas nada disseram.
* * *
Na tarde do dia seguinte, o sol já estava deitado no horizonte, quando dois veículos estacionaram no jardim da bela casa de Long Island.
Curiosa, Danielle se aproximou vagarosamente.
Esperava a vinda de William e Desirée, mas quem seria o casal no outro carro?
Não aguardava mais ninguém.
Não demorou e reconheceu Edwin.
Em seguida, Nanei.
Danielle correu ao seu encontro.
Abraçaram-se, beijaram-se, soltando risinhos.
Tocavam-se nos braços e no rosto, parecendo não acreditar que estavam juntas.
- Como você está linda!!!
Olha sua barriga!!!
- Que surpresa, Nan!
Que maravilha ter vindo!!!
Danielle começou a se emocionar e Edwin a puxou para um abraço apertado.
Logo depois, Desirée a envolveu com carinho e recomendou:
- Cuidado com a emoção excessiva para o nené!
- Não se preocupe. Estou bem.
Desirée ficou feliz e admirada ao ver a barriga da outra.
Passou-lhe a mão por muito tempo, fazendo-lhe um carinho, enquanto se abraçavam para subirem os poucos degraus da varanda.
Imaginava-se grávida e tão bela quanto Danielle.
Nanei ficou parada, olhando-as de um jeito estranho.
Como se sentisse ciúme.
Edwin colocou o braço em seus ombros e a conduziu para dentro da casa.
Após cumprimentarem Raul e Maria Cândida, Danielle agradeceu:
- Gente! Obrigada pelas roupinhas!
São lindas! Uma mais linda do que a outra!
- A mamãe fez questão que eu trouxesse.
Ela mesma bordou algumas peças com o maior carinho.
- Eu também estou tricotando sapatinhos e casaquinhos de lã para o nené! - comentou Maria Cândida para não ficar para trás.
- Comprei essas roupinhas em Paris!
Olha que chique! - exclamou Desirée.
Virando-se para o marido, perguntou:
- Onde comprou o presente que trouxe?
- Ah... Eu estava passando na Quinta Avenida, vi uma vitrine e me lembrei do nené.
Entrei e comprei. Não sei o nome da loja.
Eu não sei escolher direito.
- Não precisavam se incomodar.
Eu adorei! - tornou Danielle que colocava cada uma das peças sobre a barriga bem avolumada.
Após um minuto, Desirée contou:
- O pai disse que não poderá vir no voo de amanhã.
Somente no fim de semana.
- Puxa! Eu lamento!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:26 am

Gostaria tanto que ele conhecesse a Danielle e a Nanei, filhas da minha melhor amiga - reclamou Maria Cândida.
- Vai dar tempo.
Elas ficarão aqui connosco.
- E a mamãe e o papai, Nanei?
Eles poderiam ter vindo!
Estou com tanta saudade! - declarou Danielle.
- A mamãe bem que queria vir, mas você sabe como o papai é!
Ele não larga o trabalho.
Disse que só poderá viajar em outubro.
- Como assim?!
Até lá minha filha já nasceu! - queixou-se a irmã.
- Você vai querer que ela nasça aqui, nos Estados Unidos?
- perguntou Desirée.
- Gostaria de tê-la no Brasil, mas não vai dar.
- Faça como eu! - riu Maria Cândida.
Tenham um filho em cada país!
O George nasceu na Escócia, o Edwin nasceu em Nova Iorque, a Olívia em Londres e a Desirée em Paris.
Todos de surpresa e fora do tempo!
Lembrando também que minha primeira filha nasceu no Brasil.
- Você não me disse que era americano - disse Nanei olhando para Edwin.
- Não houve oportunidade.
Não brigue comigo por isso! - pediu de modo temeroso e estranho, provocando risos nos demais.
- E você, Raul? Como está? - perguntou William.
- Reagindo bem.
Essa fase do tratamento é delicada.
Estou superando.
- Ele precisa é se distrair.
Foi óptimo vocês terem vindo!
- respondeu Danielle.
- Então, amanhã, vou alugar um iate, no clube, e todos daremos uma volta! - anunciou Desirée animada.
Precisamos passear um pouco, afinal.
Enquanto a filha de Maria Cândida tecia seus planos.
Nanei se aproximou da irmã, esfregou-lhe discretamente o ombro e a chamou para saírem dali.
Na varanda, ela abraçou Danielle novamente e, emocionada, quis saber:
- E você? Como está, de verdade?
- A gravidez foi uma surpresa óptima. Como já te falei.
Acho que foi isso o que me levantou.
- Vamos caminhar um pouco? - tornou a outra.
- Vamos - sorriu, concordando.
Abraçadas, à luz das estrelas, à medida que caminhavam, Nanei contou:
- A mamãe ficou triste por não poder vir.
- Ela me ligou.
Não disse que você estava vindo para cá.
- Eu pedi que não dissesse, boba!
Quis fazer uma surpresa.
Sabe... Eu queria me encontrar com o Edwin novamente e ele não poderia ir ao Brasil.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:26 am

Tinha algo para resolver em Nova Iorque. Por outro lado, eu também queria ver você.
Então, juntamos o útil ao agradável.
- É tão bom te ver! Você não imagina!
- Imagino sim! Diz uma coisa, Dani:
como o Raul está?
Elas pararam e frente à irmã, Danielle desabafou:
- Tem dia que é difícil, Nan.
A quimioterapia está sendo muito forte.
Ele precisou de transfusão de sangue para aguentar...
Ficou muitas vezes internado.
Quando recebe alta, fica mal...
Vejo que o Raul se esforça demais para não parecer abatido, mas...
É impossível não perceber o quanto a doença o consome.
Abraçando-se à irmã com força, chorou um pouco em seu ombro e concluiu:
- A dona Maria Cândida está me dando muita força, muita ajuda.
Se não fosse ela...
Ela e o Raul conversam muito e isso o anima bastante.
Nanei não sabia o que dizer.
Ficou extremamente assustada quando viu Raul dessa vez.
Quase não o reconheceu por trás de tanto abatimento.
- Dani, tudo vai acabar bem. Tenha fé.
- Fé é a única coisa que me resta.
- Esse tratamento maltrata mesmo.
Depois a pessoa se recupera e volta ao normal.
- Eu amo o meu marido.
Vivemos tão bem!
Por que isso foi acontecer?
Não querendo vê-la triste, perguntou:
- E o pré-natal?
E a minha sobrinha?
- Está bem. Por enquanto não dá o mínimo de trabalho.
O médico disse que é um bebé muito grande.
Acha que terá de ser cesariana.
A minha pressão tem subido um pouco.
O médico pediu para eu tomar cuidado.
Mas nem sei direito o que mais fazer.
Quase não tenho tempo para mim.
Vivo preocupada com o Raul que, nos últimos meses, não tem ficado nada bem...
- Não pode brincar com pressão alta, Dani.
É perigoso para você e para o nené.
- Eu bem que queria ir para o Brasil para tê-la lá.
Queria estar perto da mamãe.
Teria alguém para me ajudar a cuidar dela e de mim.
Mas fico pensando se não será cansativo para o Raul.
Tenho de pensar ainda que, depois do parto, será difícil, para mim, retornar com ele e o nené.
Ficando aqui, talvez seja bem mais fácil.
Já estamos acomodados.
- Eu também acho.
Além do mais, será bem charmoso ter uma filha nascida aqui!
Ai! Que chique!!! - exclamou, soltando um gritinho engraçado.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:27 am

- Pare, sua boba!!! - repreendeu-a, apesar de apreciar da brincadeira.
Eu gostaria mesmo era de ter uma filha nascida em Paris, Londres, em um castelo!...
E o nome dela seria Tifanie! - gargalhou, após falar de um jeito imponente.
- Nossa, Dani! Você pega pesado quando deixa sua imaginação viajar!
Isso seria o máximo!
- Não, impossível!
Não diga ao Raul que eu gosto do nome Tifanie.
A irmã nada disse.
Em seguida, comentou:
- Viu?! A dona Maria Cândida teve um filho em cada país.
- Interessante, não é?!
Eu não sabia que o Edwin nasceu em Nova Iorque!
- Isso faz diferença?!
- Lógico que não! Mas é engraçado...
Ele é tão londrino!
O sotaque, o jeito...
É igual ao William.
- O William é de Londres?
- Acho que é. Olha só o sotaque, a compostura!... - riu, tentando imitar um jeito nobre, imponente.
- A criação na Europa é outra coisa, Nan!
Queria criar um filho lá.
- A cultura é outra, para quem gosta de estudar.
Países mais próximos do que Rio e Sampa.
A pessoa toma café da manhã em um e almoça no outro.
Sabia que o Edwin e o William falam cinco idiomas?! - admirava-se Nanei.
- Sabia! Cinco fluentemente.
Fora as boas arranhadas que dão nos outros.
Eu vi o William conversando ao telefone em francês e italiano.
Uaaauhhhh! Conversamos em português algumas vezes.
Ele só se enrola um pouquinho quando eu falo muito rápido ou uso gírias.
Acho tão engraçado vê-lo pensando e tentando adivinhar o que eu disse.
- Falam alemão também!
- Que legal! Pena eu não saber nada de alemão.
Quem é idiota é a Desirée.
Com tanta oportunidade para fazer algo, estudar, trabalhar...
Como ela é fútil!
Não fala nem português direito, mesmo tendo a mãe brasileira. - criticou Danielle.
- Quem está óptimo no alemão é o Guilherme.
- Ele me ligou há dois dias.
Estava em Berlim!
Até me esqueci de contar para a mamãe que ele telefonou.
- O papai tem tanto orgulho do Guilherme, do Kléber e de você!
Se bem que do Guilherme ele começou a se orgulhar há pouco tempo.
Mas de mim...
Também não fiz nada para isso, não é?
- Não seja tola, Nanei! Eu...
Danielle parou de repente.
Levou a mão ao rosto e com a outra segurou o braço da irmã.
- Dani, o que foi?!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:27 am

- Eu não sei... - sussurrou.
- Dani, pelo amor de Deus!
Não faça isso comigo! - pediu Nanei assustada.
Haviam andado bastante.
Encontravam-se consideravelmente longe da casa.
A praia estava totalmente deserta.
- Vamos voltar.
Vou me apoiar em você - murmurou Danielle, enlaçando-lhe o braço no pescoço.
Nanei a segurou, procurando sustentar o seu corpo e, vagarosamente, começaram o caminho de volta.
- O que sentiu?!
- Uma pontada, mas já passou.
Agora estou tonta... muito tonta.
Sinto uma coisa estranha...
Percebendo que a irmã tinha dificuldade de andar, Nanei decidiu:
- Sente-se aqui mesmo, Dani.
Eu volto logo.
Acomodando-a no chão, Nanei correu como nunca.
Chegando às escadas da varanda gritou por socorro.
William apanhou as chaves do carro e, após Nanei entrar no veículo, dirigiu para onde Danielle estava.
Pegando-a com cuidado, levaram-na para casa e depois ao hospital, em companhia de Maria Cândida.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:27 am

7 - Ganhando forças com a prece

Amanhecia quando retornaram do hospital com Danielle.
Raul, Edwin e Desirée, apesar de terem sido avisados, por telefone, sobre o estado de Danielle, estavam bem preocupados.
- Ela está bem.
Foi só um susto - disse Maria Cândida.
Não é nada grave.
O médico só pediu para ficar de olho na pressão.
Danielle sentia-se constrangida.
Um tanto ridícula por preocupar todos.
Por essa razão, não comentou mais o que se passava.
Não queria dar trabalho.
- Você vai ficar bem, Dani.
Não se preocupe - dizia Desirée, afagando-lhe a barriga.
- Que vergonha! - admitiu, escondendo o rosto no ombro da outra.
- Levei um susto!
Eu não tinha um celular comigo!
Não tinha nada!
Não me arrisco mais a sair sozinha com você! - disse a irmã em tom de brincadeira.
- Isso acontece - tornou a senhora.
Ainda apreensivo e preocupado, Raul não dizia nada.
Apenas silenciou ao lado da esposa, enquanto acariciava sua mão, beijando-a e esfregando-a em seu rosto como se quisesse perceber Danielle ali.
Desirée se levantou dizendo:
- Deixaremos o passeio de iate para o fim de semana.
Até lá a Dani estará bem.
- Creio que hoje ela já está bem - disse William.
- Não vamos arriscar - tornou a esposa.
- Eu sei. Claro que não - retrucou ele.
* * *
No final de semana, Óscar, marido de Maria Cândida, chegou de Paris conforme o esperado.
Era um homem muito educado, cauteloso e afável.
Entendia-se de quem Edwin herdou personalidade tão educada e gentil.
O senhor ficou satisfeito ao conhecer as filhas de Belinda.
Gostou muito das moças.
Foi prazeroso conversar com elas e surpreendente saber como aquele encontro se deu.
Para ele o que estava sendo extremamente desagradável era o comportamento de sua filha Desirée, diante da necessidade de William ter de trabalhar em Nova Iorque.
Afinal, precisava de alguém com o seu conhecimento em negócios e de total confiança para permanecer ali.
E Desirée não queria entender isso.
- Eu preciso de Will aqui, Desirée! - afirmou o pai.
- Não vou ficar em Nova Iorque!!! - esbracejou ela.
- Faça o que quiser da sua vida, então!
O Will fica!
- Não seja ridícula, Desirée! - repreendeu o marido.
- Eu, ridícula?!!!
Quem você pensa que é para falar assim comigo?!!!
- Além de ser o seu marido, sou alguém que consegue ver o quanto infantil está sendo!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:28 am

Ficarei aqui até o final do ano.
Quer queira ou não!
O pai os deixou a sós, e o casal começou a discutir.
- Você prometeu que iríamos de férias para as Ilhas Gregas!
Não fomos! Disse que iríamos para o Caribe e estamos aqui!
- Desirée, a vida não é feita só de passeios e viagens!
Daqui a pouco o planeta Terra será pequeno para você!
Eu disse que tinha planos de ir, nas férias, para as Ilhas Gregas, mas não deu!
- Não deu porque você é incompetente!!!
- Olha como fala comigo!!! - repreendeu-a firme, num grito.
- Incompetente, sim!!!
- Se sou incompetente, você é uma inútil!
Não sabe valorizar o que tem! É mimada!
Pensa que a vida é um conto de fadas!
Quer ver todos aos seus pés!
- Não sei como fui me casar com você!
Até do nosso aniversário mensal de casamento você se esquece!!! - gritou.
- A única mulher, no mundo, que exige comemorar o aniversário mensal de casamento, é você!
Quer presentes, jóias, jantares!...
Isso não existe!
Se não é louca, está a caminho!
Acho que deveria procurar um psiquiatra!
Aproximando-se dele, Desirée empurrou-o com as duas mãos em seu peito, retrucando em tom acusador:
- O que pensa que está falando?!
Tenho motivos para ser exigente!
Se você se casou comigo, é por ser um incompetente que precisa da empresa do meu pai!!!
O marido a segurou firme pelos braços por um instante.
Experimentou muito ódio por aquelas palavras.
Sentindo-se tremer, empurrou-a de leve enquanto a olhava furioso.
Depois saiu, deixando-a sozinha.
William estava extremamente nervoso.
Foi para a varanda, sentindo-se mal.
Um torpor o estonteava naquele momento.
Descendo os poucos degraus, sentou-se no último.
Tirou os chinelos e enrolou a barra da calça.
Levantando-se, foi em direcção da praia com a intenção de caminhar.
Não demorou muito e avistou Danielle, que não o percebeu.
Ela divertia-se com um siri, tentando cercar o bichinho com um graveto na mão.
Aproximando-se, sorriu ao dizer:
- Daqui a pouco ele te pega!
- Não diga isso!
Estou só brincando, não vou machucá-lo.
Tenho medo!
- Olha o seu tamanho e compare com o dele!
O coitadinho não vai fazer nada! - riu.
Deixando o pequeno siri correr para um buraco, ela sorriu.
Alinhou os cabelos atrás das orelhas e, ao encará-lo, perguntou:
- E a Desirée?
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:28 am

William deu um suspiro, fechou o sorriso e olhou em direcção do mar, respondendo:
- Está lá na casa.
Cheia de mimos, orgulho, vaidade e imposições.
Sempre querendo todos aos seus pés.
Não sei mais como agir.
Danielle não sabia o que dizer.
Havia percebido o quanto Desirée era geniosa e exigia todos seus desejos satisfeitos.
- É uma fase. Isso passa.
Sorriu ao supor:
- Quando tiverem um filho, ela vai se preocupar com a criança e esquecer algumas exigências.
- Eu não quero ter filhos.
Não, enquanto ela não mudar.
Vendo-a surpresa, explicou:
- Estamos casados há dois anos.
Desde que nos conhecemos eu a percebo muito exigente.
Pensei que com o tempo quando fosse mais madura, isso fosse passar.
Mas não. A cada dia está pior.
Não posso acreditar que ela vá mudar por causa de um filho.
Se fosse amadurecer, seria este o momento.
Olhando-a, perguntou:
- Quer caminhar um pouco?
- Quero. Quero sim.
Continuando a conversa, quis saber:
- Você gosta de crianças?
- Gosto sim. Adoro!
Por isso preciso pensar bem antes de ter um filho.
Não quero que ele sofra por nós dois discutindo, brigando ou se separando.
Se ela continuar assim...
Um instante de pausa e reclamou:
- Agora deu para jogar na minha cara que me casei com ela por causa da empresa de seu pai.
Isso dói, sabe!
Estudei com o Edwin, conheço-o há muito tempo.
Foi o senhor Óscar quem me convidou para trabalhar lá, depois que desenvolvi projectos, opinei sobre muitas coisas.
Estou lá por competência e bem antes de nós namorarmos.
- Talvez a Desirée seja insegura.
- Insegura só, não!
Nos últimos tempos, está se mostrando muito desequilibrada.
Ela sempre comemorou, todo mês, nesses dois anos, o nosso aniversário de casamento.
Danielle quis rir, porém se segurou.
William percebeu e disse:
- É verdade! No começo foi engraçado, mas agora...
Ela exige! Isso é um absurdo!
Principalmente quando briga por eu ter esquecido!
Isso não tem cabimento!
Após um momento, desabafou:
- E ciúme, então! Fico louco com isso!
Ela tem ciúme doentio!
Tem ciúme dos meus pensamentos!
Quer saber em quem estou pensando...
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:28 am

De quem estou lembrando...
Não pode me ver quieto!
Além disso, odeio quando me belisca!
Acha que estou olhando para outra mulher e me belisca!
Isso é horrível!
Sabe, quando uma mulher quer conquistar um homem e quer ser melhor do que uma outra, ela deve começar a ser, primeiro, compreensiva, atenciosa, carinhosa.
Se dá um beliscão ou tapa ou pontapé, ela está querendo ser odiada e não amada!
E é o que vai conseguir!
Danielle riu e William afirmou:
- É verdade!
- Desculpe-me por rir. Não aguentei.
É que nunca fui ciumenta.
Não desse jeito.
E também nunca pensei dessa forma.
Você tem toda razão.
Se uma mulher brigar com o marido, namorado ou companheiro, ficar zangada, emburrada e maltratá-lo ou beliscá-lo e lhe dar tapas por causa de outra, ele vai ficar com raiva.
Ao passo que, se não der importância e tratá-lo com carinho, se produzir mais que a outra, ele vai lhe dar mais atenção e valorizá-la.
Isso faz sentido.
- É lógico que faz.
Mesmo dizendo isso para a Desirée, ela não entende e eu odeio quando me trata dessa forma.
Pareço seu brinquedo, seu capacho!
Breve pausa e disse:
- Estou incomodando-a com meus problemas.
Desculpe-me.
- Vejo que precisa desabafar.
Às vezes, necessitamos disso.
- Vamos mudar de assunto.
E você, como está?
- Bem. Estou apreensiva por causa do nené, que chegará no final do mês ou começo de outubro.
- Vai tê-la aqui mesmo, não é?
- Vou. Já está decidido e tudo arrumado.
Ficarei, nos primeiros dias, na casa da dona Maria Elvira.
- Qual é o nome do nené?
- O Raul quer que seja Evelyn.
Apesar de eu pensar em outro, gostei.
O próximo ou a próxima eu escolho - sorriu lindamente, mas não revelou o nome que desejava para sua filha.
- É um nome muito bonito.
O Raul deve estar muito feliz e orgulhoso.
Eu adoraria ter um filho!
- Por que não tentam? Quem sabe...
- Definitivamente, não.
Não agora, Dani.
Conheço bem minha mulher.
Como lhe disse, não seria justo nem agradável criar um filho em meio a tantas brigas.
Sei o que é isso.
Observo você e o Raul...
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:28 am

Como se dão bem.
Mesmo diante de tanta dificuldade vocês se amam!
Isso é tão bonito!
Tenho inveja dele, sabia?
- Não diga isso!
- É verdade.
Queria estar no lugar dele para minha esposa se dedicar a mim como você faz.
- Pare com isso, William!
Que absurdo! - zangou-se.
- Já estamos longe.
Quer voltar?
- Vamos até os rochedos?
- Tem certeza?
- Tenho! Hoje estou bem disposta.
Gostaria que o Raul pudesse caminhar sempre comigo.
- Ele não está nada bem.
Não há como esconder.
Fico tão comovido...
Danielle parou por um instante.
Não suportou a tristeza que vinha disfarçando, para que o marido não a visse tão aflita.
Levou as mãos ao rosto e falou com voz entrecortada pelo choro:
- Não vejo qualquer melhora...
Tem dia que não aguento...
- Não fique assim - pediu, arrependido do que falou.
- Por mais que eu entenda a vontade de Deus, não consigo aceitar o que está acontecendo com o meu marido.
Não posso dizer a ele o que sinto.
Estou desesperada, Will.
William afagou-lhe o braço e, sensibilizado, puxou-a para um abraço.
Recostando sua cabeça em seu peito, acariciou-lhe os cabelos.
Ficou enternecido por vê-la tão frágil e sensível.
Danielle estava muito sofrida.
Era muito amorosa e paciente.
Talvez não merecesse passar por aquela situação tão dolorosa.
Ela soluçava agarrada a ele que a abraçava com força.
Encostando a face e os lábios no alto de sua cabeça, podia sentir o seu perfume.
De repente, um aperto no peito, lhe trouxe uma espécie de saudade inexplicável.
Uma dor com um misto de prazer.
Como era estranhamente bom estar ali, à beira mar, abraçado à Danielle.
Queria ficar daquele jeito com sua esposa e que o motivo do abraço fosse outro.
De repente William sorriu encantado.
Procurou ver o rosto de Danielle e perguntou quase gaguejando:
- Isso... o que... estou sentindo... é o nené se mexendo?!
- Desculpe-me, eu... - pediu sem jeito, afastando-se e secando o rosto com as mãos.
- É incrível! É lindo! - riu maravilhado. - Posso?!...
- pediu com a palma da mão pronta para tocá-la no ventre.
- Pode. Sinta - permitiu sorrindo e um pouco constrangida.
Pegando-lhe a mão, colocou-a na lateral da barriga onde percebia o movimento da filha.
- Que... incrível! - William se emocionou.
Era a primeira vez que experimentava aquilo.
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Ave sem Ninho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:29 am

Sem se inibir, dominado por uma vontade que não conseguia explicar, curvou-se e encostou um lado do rosto no ventre de Danielle e continuou sentindo o suave movimento da criança.
Após alguns minutos, beijou-lhe a barriga, ergueu-se e afagou o rosto rubro da mãe, que sorria, e perguntou:
- Posso lhe dar um beijo?
Vendo as lágrimas brotarem dos olhos dele, Danielle teve vontade de chorar ao consentir:
- Pode.
William segurou o seu rosto com ternura, beijou-lhe a face e disse com doçura no tom de voz:
- Parabéns. Você é maravilhosa.
- Obrigada... - murmurou.
Olhando dentro de seus olhos, parecia invadir sua alma quando sussurrou com meiguice:
- Eu a admiro muito. Pelo que você é.
Por tudo o que faz diante de situação tão difícil.
Será uma mãe maravilhosa.
- Tomara que sim. Sempre quis ser mãe.
Às vezes, acho que não me dedico tanto ao nené.
Não converso com ela como deveria.
Os bebés, mesmo durante a gestação, sentem e entendem o que os pais dizem.
- Eu sei. Não só os pais.
Eles percebem quando são queridos por todos.
Sentem ambientes calmos ou estressantes e tudo os afecta.
Percebendo que ele não tirava a mão de seu ventre, ela comentou, sorrindo:
- A minha mãe diz que barriga de grávida não tem dono, pois todo o mundo quer passar a mão, beijar, acariciar, conversar com o nené...
Porém aqui nos Estados Unidos, eu não vi muito disso.
Acredito que esse afecto é exclusivo do meu país.
- O Brasil tem fama de ter um povo muito amoroso, prestativo.
Bem diferente de outros países.
Das vezes em que estive lá percebi isso.
- De onde você é, Will?
- Inglaterra. Nasci em Londres.
- Não tinha certeza.
Até comentei sobre isso, outro dia, com minha irmã.
Deduzimos que era de lá por causa de seu sotaque e da sua educação.
Aliás, o seu português é óptimo.
- Seu inglês também - sorriu.
- Morei seis anos no Canadá.
Fiz intercâmbio, faculdade, pós...
- Ir para o Canadá fazer intercâmbio e estudar não é tão fácil.
O TOEFL - Teste de Inglês para Língua Estrangeira -, onde se passa por uma entrevista para testar a sua fluência na língua, é bem exigente.
Além disso, precisou de carta de recomendação de seus professores e também de notas.
Você foi uma óptima aluna! Uaaauh!
Sei que tudo é analisado e as recomendações exigentes.
- Você está muito bem informado!
É verdade. Não foi fácil.
Eu não poderia perder a oportunidade.
Adoro inglês e francês.
No Canadá, tive chance de abusar muito dos dois idiomas.
Para mim, foi óptimo.
Voltei para o Brasil com emprego arrumado.
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Ave sem Ninho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:29 am

- Não estava trabalhando quando veio para cá?
- Não. Assim que comecei a namorar firme o Raul, fui para o Canadá.
Namoramos a distância - riu.
Quando voltei, já estava trabalhando e ficamos noivos.
Um ano depois nos casamos.
Assim que descobrimos a doença, decidi cuidar dele e parei de trabalhar.
Depois viemos para cá, descobri que estava grávida...
Tudo aconteceu bem rápido.
- Ele parou de trabalhar e está, como se diz, de dispensa?
- De licença.
O Raul trabalhava na empresa de seu pai.
Depois que começou a quimioterapia não conseguiu mais...
Nossos pais nos sustentam e isso o incomoda muito.
- É aceitável. É por um tempo.
- Eu sei.
Só que não é uma situação cómoda.
Fico amargurada. Não sei o que fazer.
Estamos dependentes não só dos nossos pais, mas também de pessoas, praticamente, estranhas.
E isso é difícil.
- Não são tão estranhas!
Todos gostam muito de vocês.
- Sei disso, mas... - sorriu.
- Dani, eu não gostaria de assustá-la, mas...
Está vendo aquelas nuvens escuras lá no horizonte?
- O que tem?
- Está sentindo esse ar abafado, sem vento?
- Estou. Por quê?
- Não sei se você conhece bem Long Island.
Aqui é lindo, maravilhoso, mas muito vulnerável a grandes tempestades e furacões.
- Furacões?! Não brinque?!
- Não creio que teremos um furacão.
Se assim fosse, estaríamos todos bem alertados.
É que as tempestades são fortes por aqui.
Aquelas nuvens densas indicam uma, talvez nesta direcção.
Vamos voltar?
- Vamos. Deixe os rochedos para outro dia.
Ao retornarem, ela perguntou:
- Já viu algum furacão?
- Já! Foi bem assustador!
- Sério?! Onde estava?!
- Aqui mesmo. Foi em 1999.
Depois da lua-de-mel.
Viemos para os Estados Unidos e a Desirée quis visitar a tia.
Dona Maria Elvira planeou uma bela recepção com almoço no gramado e tudo mais.
A dona Filomena também estava aqui.
Porém o furacão Floyd chegou e fez miséria na região.
Ele não avançou muito para esse lado de Long Island, no entanto sentimos intensamente o seu efeito.
O Floyd foi classificado na categoria três.
- Fiquei preocupada agora.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:29 am

- Não fique.
Antes da chegada de um furacão todos são alertados.
Os radares meteorológicos e o serviço de informação sobre o tempo, aqui, são bastante eficientes.
No máximo, teremos uma tempestade.
- Minha mãe tem medo de tempestades.
- Dona Belinda...
A dona Maria Cândida sempre falava muito dela.
Gostaria de conhecê-la. Não sei porquê.
Eu queria tanto que ela estivesse aqui quando minha filha nascesse.
Disse que talvez no próximo mês ela venha para cá.
- Talvez venha a tempo.
- Acho que não.
Creio que o meu pai está implicando um pouco com a minha situação.
- Como assim?
- Minha mãe e minha irmã não comentam, mas sei que o meu pai está insatisfeito com as despesas.
O pior é que ele é muito rico.
O que nos envia são migalhas, comparado com o que recebe por mês e com seu património.
Todos os anos ele faz uma viagem sozinho, ou melhor, com um grupo de amigos.
Gasta uma fortuna com passeios, amigos, jogos...
Minha situação é tão desagradável e nem posso comentar isso com o Raul.
- Claro que não.
Ele precisa de tranquilidade agora.
Estavam perto da casa quando William parou.
Frente à Danielle, pediu:
- Imagino o quanto está sendo difícil para você poupar o Raul de algumas coisas.
Certamente quer desabafar.
Precisa reclamar de algo e, para ele, o assunto será desagradável e inoportuno.
Por isso, se quiser e quando quiser, conte comigo para ouvi-la.
- Obrigada, Will.
Vou me lembrar disso.
Ele afagou-lhe o braço com carinho e generoso sorriso estampado no rosto.
Em seguida, caminharam até os poucos degraus onde ele encontrou seus chinelos e os calçou.
Entraram e logo uma chuva forte começou.
Em meio aos relâmpagos e trovões, podiam-se ouvir os gritos de Desirée, nervosa com o marido, em seu quarto.
- Vou-me embora!!! Nunca mais vai me ver!!!
Você não dá a mínima atenção para mim!!!
- Você precisa ser mais compreensiva!
Amadurecer! Ter bom senso!
Eu não sei mais o que fazer, dentro das minhas possibilidades, para agradar-lhe!
- Se ficasse ao meu lado, seria suficiente!!!
- Não nascemos juntos!
Não somos siameses!
- Custa me dar um pouco de atenção?!!!
- Desirée, presta atenção, eu não vou voltar para a Europa agora.
Estou trabalhando.
Ir e vir fica não só dispendioso, mas também muito exaustivo.
Não posso ficar atrás de você o tempo todo.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Mar 15, 2017 10:29 am

Sabe por que você tem essa fascinação, essa obsessão para ficar o tempo todo comigo?
Sem esperar por uma resposta, afirmou:
- Por que você não faz nada!
Não é uma pessoa útil!
Não tem nenhuma ocupação!
Breve pausa e prosseguiu:
- Gosta tanto de moda!
Por que não monta uma loja?
Uma maison de alta costura em Paris?
Vai viver no mundo que sempre quis!
Cheio de badalações! Imprensa! Viagens!
Fotos! Ou então...
Você fez Arquitectura.
Procure se ocupar nessa área!
Mas, pelo amor de Deus, dê-me sossego!!!
- Sei que eu não queria ter um filho antes para não estragar o meu corpo, mas, para a nossa felicidade, faço tudo.
É um filho que você quer?!!
- Não!!! Eu não quero filho nenhum com você desse jeito, implicando comigo!
Ninguém está falando em filho aqui!
Em tom mais brando, fazendo-se de vítima, comentou:
- Eu vi você e a Danielle na praia aqui em frente.
Você dava toda a atenção para ela.
Até esfregou seu braço.
Ela está grávida! Está linda!
Quer me ver assim?!
- Talvez. Futuramente.
Quando for tão calma e madura quanto ela.
Agora não é o momento. Cuidado, Desirée!
Não sei se é o caso da Dani ou do Raul, mas algumas pessoas só amadurecem, tornam-se mais calmas e sensíveis quando experimentam grande sofrimento.
- Está dizendo que vou sofrer para poder entendê-lo? - perguntou quase chorando.
Você quer que eu fique doente!
Igual ao Raul!...
- Bendito Deus!!!
Eu não disse isso!!! Chega!!!
Para mim, chega!!! - vociferou, deixando-a sozinha no quarto.
Indo para uma saleta da casa, pensou em colocar uma música de sua preferência, mas não conseguiu ligar o aparelho de som.
- Droga!!! - protestou dando um tapa no móvel.
- Estamos sem energia eléctrica - disse Raul ao vê-lo.
- O tempo assim é horrível.
Sem energia é pior ainda - reclamou William.
Raul sentou-se e viu uma mesinha onde havia exposto um jogo de xadrez com as peças postas para iniciar uma partida.
Ao olhá-lo, o amigo sorriu.
Entendendo o proposto, perguntou:
- Quer jogar?
- Claro!
Óptimo, Raul! Obrigado.
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