Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:07 am

Enquanto movimentavam as peças, bem atentos a cada jogada, Raul comentou:
- Aqui é um lugar de muitas tempestades.
- É mesmo.
Eu contei para a Danielle que, em 1999, eu estava por aqui quando o furacão Floyd passou.
Ela me disse que a mãe não gosta de tempestades.
- É sim. Minha sogra tem medo.
A Dani também. Tenho certeza de que ela não contou isso.
Só sabe falar do pavor da mãe - riu.
- Não, não contou mesmo - respondeu, achando graça.
- A Dani tem medo, e a minha sogra tem pavor.
É engraçado vê-las quando está chovendo muito forte.
Ficam inquietas, nervosas.
- Não posso falar nada nem rir sobre o medo dos outros.
Tenho pavor de sangue.
- Sério?!
- Tenho sim.
Não só de sangue, mas como tudo ligado a ele.
Até de injecção tenho pânico.
Não suporto. Passo mal.
De fogo ou queimadura então, nem se fala!
Já perdi a vergonha de dizer que tenho medo.
Detesto filmes com cenas de violência, programas médicos ou qualquer coisa ligada à dor.
- Eu não me importo.
Em seguida, riu dizendo:
- Dê adeus ao bispo!
William sorriu, mas não ficou muito satisfeito e continuou o jogo.
- Nunca me importei com tempestades.
Aprecio chuva forte.
Dê adeus a sua rainha - disse William, rindo satisfeito.
- Pretende ficar muito tempo? - continuou Raul com um sorriso maroto, ciente da jogada estratégica.
- Gosto muito daqui.
Tirei esses dias de folga para descansar um pouco, mas...
Deve ter ouvido, não está sendo fácil com a minha mulher.
Receio ter de ir embora segunda ou na terça-feira.
- Vai voltar com o Edwin e a Nanei?
- Talvez sim.
Embora deva ficar em Nova Iorque, enquanto nossos cunhados vão para a Europa.
- A Dani não está feliz com isso.
Gostaria que a irmã ficasse até o nené nascer.
A mãe, provavelmente, não virá.
Ela só tem a mim. E tem dias que...
- Ela terá muito apoio, Raul.
Não fique assim.
- Estou cansado, Will.
Quero ir embora para casa.
Raul ergueu o olhar e eles se encararam por longo tempo.
Experimentaram um sentimento indefinido e profundo, que desconheciam a origem.
William ofereceu-lhe generoso sorriso, sem saber o que dizer.
O outro retribuiu.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:07 am

Em seguida, respirou fundo, olhou para o tabuleiro e riu ao dizer:
- Diga adeus ao seu rei!
Cheque Mate!
- Como isso foi acontecer?! - riu.
Sou um fiel britânico!
Defendo sempre a realeza!
Não vale! Você me distraiu!
Eles riram e começaram um outro jogo.
* * *
Mais uma vez Desirée brigou com o marido, depois com seu pai e, por fim, decidiu ir para o apartamento de sua tia antes dos outros.
Óscar ficaria mais duas ou três semanas nos Estados Unidos.
A princípio a ideia de Maria Cândida ficar na América por causa da filha de uma amiga não lhe agradou.
Mas depois de entrar em contacto com todos e com a realidade dos factos, o marido mudou de opinião.
Danielle se despedia de Nanei.
Ambas choravam como se não fossem mais se ver.
A irmã tinha planos de ir à Europa junto com Edwin e ficar por lá cerca de um mês.
Maria Cândida queria ir até Nova Iorque com o marido e aproveitar para ver como estava sua mãe. Há dias não a via.
Pelo fato de Desirée brigar com o marido, a senhora achou melhor que William ficasse em Long Island até ela retornar.
Ele faria companhia para Danielle e Raul, descansaria um pouco mais e ela aproveitaria para conversar com a filha por causa de seu temperamento e suas atitudes.
- Acho bom irem logo ou pegarão muita chuva no caminho - aconselhou William preocupado.
A previsão é de uma grande tempestade para o fim da tarde ou começo da noite.
- Assim que chegarmos, telefonaremos.
Fiquem tranquilos - disse Maria Cândida.
Despedindo-se mais uma vez de Danielle, afagou-lhe o rosto e sugeriu:
- Descanse. Nada de longas caminhadas sozinha.
- Pode deixar. Vai com Deus.
- Que Ele a abençoe - tornou, beijando-lhe a testa.
Maria Cândida a olhou com ternura, sentiu um forte aperto no peito e uma vontade inexplicável de chorar.
Não sabia o que era.
Apenas achava que não deveria deixar Danielle ali.
Mas decidiu ir.
O que falaria aos outros se mudasse de ideia?
Como se justificaria?
Em seguida, todos se foram.
Bem depois, apesar de ser cinco horas da tarde, parecia noite.
A empregada entrou na casa e, junto com William, foi fechar bem todas as janelas e proteger as vidraças.
Em seguida avisou que ela e o marido, também empregado ali, estariam na casa de caseiro, cerca de trinta metros da principal.
O rapaz agradeceu a ajuda e disse que não precisariam de mais nada.
Indo à procura de Danielle, encontrou-a na sala com o marido, quieto, e aparentando uma palidez mortal.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:07 am

- É possível que fiquemos sem energia eléctrica.
Deixei lampiões e velas espalhados pela casa, além das lanternas.
Podemos precisar - disse William.
- Não é um furacão, Will, é?! - perguntou assustada.
- Não - sorriu. - É só uma tempestade.
Igual a que tivemos dias atrás.
- Tomara. Ah! A dona Maria Cândida ligou.
Disse que chegaram bem e que o Edwin e a Nanei já embarcaram para a Europa.
Falou que o tempo lá não está como aqui.
- Ainda bem.
Em poucos minutos podiam-se ouvir o vento e os estouros dos trovões.
As horas foram passando.
Conforme o esperado, as luzes se apagaram e William acendeu os lampiões e algumas velas.
- Vamos poupar as baterias das lanternas - disse ele.
Esticado no sofá, Raul cerrou os olhos e permaneceu calmo, enquanto a esposa parecia muito inquieta.
Danielle se levantou, foi até o quarto, voltou para a sala e, em seguida, para a cozinha.
Voltou. Pegou o telefone e certificou-se de não haver linha.
Algo a incomodava e incomodava muito.
Em outra sala, uma janela começou a bater.
Ela e William foram lá para fechá-la, mas não deu tempo.
A folha da janela voou como se, em vez de madeira, fosse feita de papel.
- Meu Deus!!! - ela gritou.
Ficou assombrada ao olhar a velocidade e a fúria do vento através do vidro.
Nesse momento eles assistiram a um grande coqueiro partir-se ao meio feito um palito, enquanto telhas, tábuas e várias outras coisas de tamanho considerável voavam com facilidade.
- Vamos sair daqui! - determinou William, tirando-a do local e a levando para junto de Raul.
Sentando-se, ela olhou para o marido e confessou:
- Estou com medo!
- Dani, não fique nervosa.
Precisa tomar cuidado com a sua pressão - lembrou Raul, parecendo fazer grande esforço para falar.
- Vou fazer um chá para nós - decidiu o amigo com tranquilidade.
- Deixe que eu faço.
Assim me ocupo e me distraio - disse ela.
William a seguiu até a cozinha e reparou em seu jeito nervoso, quase agitado.
- Não gosta de tempestade, não é?
- Nem um pouco.
Vendo-a com uma expressão estranha, andando de um lado para outro, enquanto a água fervia para fazer o chá, perguntou:
- Você está bem, Dani?
- Sinto uma sensação estranha.
- Sente alguma dor?
É com o nené? - perguntou, temendo a resposta.
- Não tenho dor. É uma coisa...
O nené está quieto desde ontem, mas está fazendo pressão.
- Não é melhor ir se deitar?
- Estou inquieta.
Não vou conseguir ficar deitada.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:08 am

William não disse mais nada.
À medida que o tempo passava, sua preocupação aumentava.
Via Danielle ir e vir do banheiro.
Ela não parava.
Ficava andando o tempo todo e, às vezes, percebia uma expressão aflita em seu rosto, ao mesmo tempo que levava as mãos nas costas, na altura dos rins e parecia se esticar.
De repente o barulho de vidros estilhaçados e objectos arremessados assustaram a todos.
- Nem vou ver o que é - disse William com voz bem calma.
Com certeza são os vidros daquela janela se partindo.
Vou colocar um móvel na frente da porta.
Não podemos fazer nada além disso.
Danielle decidiu pegar mais chá na cozinha.
No meio do caminho, precisou parar.
Sentiu uma dor fortíssima e não conseguiu se mexer.
Estava na sala de jantar e, curvando-se, segurou-se em uma cadeira.
A dor não passava.
Vinha da altura dos rins para frente e a parte de baixo da barriga.
Foi tão forte que ela não conseguiu respirar direito.
- Raul!!!... - gritou pelo marido, mas foi William quem surgiu.
- O que foi?!
- Não sei! É uma dor forte!
- Pelo amor de Deus, Danielle!
Não faça isso comigo!
- pediu assustado e nervoso, amparando-a.
O nené é para o final do mês, não é?!
- Era! Mas tem alguma coisa errada! - gemeu.
Me ajuda! - implorou desesperada, agarrando-o com força pela camisa.
Atordoado, ele a levou para o quarto e a fez deitar.
Indo até a sala, tentou parecer calmo e chamou Raul:
- A Danielle está com dores.
- O quê?!
- Eu não sei o que fazer.
A tempestade está terrível.
Não podemos levá-la a nenhum lugar.
Seria arriscado demais.
Raul levantou-se, com dificuldade, e foi até o quarto onde a esposa, assustada, contorcia a face pela forte dor, enquanto amassava o lençol com as mãos.
Olhando para o chão, viu um rastro de água e, em seguida, o seu vestido molhado.
- A bolsa estourou - disse Raul em tom fraco.
- Ah, não! Não brinca!
É para o final de setembro ou começo de outubro, não é?!
Ela está no oitavo mês, não está?! - perguntou William quase desesperado.
- Está. Tudo corria tão bem...
Não sei por que isso - respondeu Raul tão desesperado quanto o outro, só que se sentindo fraco demais.
Com olhos arregalados, William observou o suor gotejando no rosto de Danielle.
Sentindo-se impotente e constrangido, decidiu:
- Vou providenciar água quente e toalhas.
Na verdade, não sei para que serve, mas em todo filme, vê-se alguém levando água quente quando uma mulher vai dar à luz.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:08 am

- E se chamarmos a caseira?! - lembrou Raul.
- Deixa comigo! - resolveu o outro, retirando-se às pressas.
Ao sair na varanda dos fundos, William se assustou e quase caiu.
O chão de madeira e o telhado haviam sumido.
Olhando para a praia, viu ondas gigantescas quebrarem, chegando até o quintal da residência.
Dando a volta, precisou se agarrar em uma mureta para não ser arrastado pelo vento.
Quase não enxergava nada.
Com muita dificuldade, caminhou alguns metros e ficou assombrado.
A casa dos empregados, simplesmente, não estava mais lá.
O que viu foram tábuas voando e árvores partidas.
A força do vento era surpreendente.
Ele retornou para casa e não sabia o que dizer ao amigo.
Aquilo era um pesadelo.
Indo até a cozinha, colocou água para ferver e foi procurar uma roupa seca para se trocar.
Em seguida, pegou toalhas limpas e levou-as até o quarto e contou:
- Não encontrei ninguém.
- Sério?!
- Eu não brincaria com uma situação dessas.
Raul não disse nada e foi para junto da esposa, que se contorcia em dores.
As vezes, gemia baixinho.
William voltou para a sala e, novamente, tentou os telefones e o celular.
Nada. Nenhum sinal.
Lembrou-se do furacão visto anos antes e achou a força do vento bem semelhante.
Sabia que não era um ciclone.
Não havia previsão de furacão.
Pensou em pegar o carro e pedir ajuda, porém isso, certamente, seria uma loucura.
Poderia sofrer um acidente ou não enxergar a estrada, pois parte dela, provavelmente, estaria coberta pelas ondas.
Retornando para a cozinha, observou a água borbulhando.
Apagou o fogo e ficou ponderando.
Era uma situação difícil para ele, mas não poderia ficar ali, parado.
Precisava fazer algo.
Nitidamente Raul não estava bem.
Talvez não pudesse ajudar Danielle.
Sentando-se em uma cadeira, colocou os cotovelos sobre a mesa e cobriu o rosto com as mãos.
Um desespero o dominou e chorou.
Não queria passar por aquilo.
Depois começou a rezar.
- Deus, ajude-me!!!
Sei que nunca fui religioso!
Agora preciso de ajuda!
Não sei o que fazer!
Preciso que me oriente.
Entendi que só eu posso fazer algo, mas não sei o quê!
Deus, ajude-me!!! Ajude-me!!!
Lágrimas correram em sua face e ele as secou com as mãos, aflitivamente trémulas.
De repente, apesar de todo o pânico, William sentiu-se dominado por uma certeza, uma força que desconhecia ter.
Levantando-se, suspirou fundo, pegou a água e a levou até o quarto onde viu Raul, de olhos fechados, sentado ao lado da esposa, segurando sua mão.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:08 am

Colocou a chaleira sobre um móvel e saiu sem ser percebido.
Retornou com uma bacia e outra chaleira com água fria.
- O que vai fazer? - perguntou Raul ao vê-lo.
- Não sei... - foi sincero.
Vejo que você não está bem e quero que vá para o outro quarto ou para a sala.
Quando precisar, eu o chamo.
Realmente ele não se sentia bem.
Compreendeu a dificuldade do outro e até seu constrangimento pela situação delicada.
Ao ver o marido se erguer, Danielle gritou:
- Não!!! Fique comigo!!!
- Calma, Dani.
Preciso que entenda.
O Raul não está bem.
Eu vou ficar com você - afirmou convicto, tentando passar-lhe segurança.
Observando Raul, percebeu-o cambalear.
Rapidamente o ajudou, levando-o até a sala e acomodando-o no sofá.
Retornando ao quarto, ao lado de Danielle, que experimentava uma contracção violenta, tentou secar-lhe o suor do rosto.
Porém ela agarrou sua mão com força enquanto gemia e empurrava o bebé, obedecendo à natureza.
A iluminação de velas e lampião era precária.
Deixando o ambiente reprimido, sufocado.
No intervalo de trégua, ele perguntou timidamente:
- Desculpe-me, mas... Posso ver?
- Pode... me ajude... - pediu ofegante, contorcendo-se levemente e com uma expressão aflitiva de dor.
William levantou o vestido e certificou-se de ver a cabecinha da criança aparecendo.
Assustado, por ver tanto sangue, ele sentiu o rosto esfriar, como se fosse desmaiar.
Após respirar fundo, ficou firme.
Em seguida, sem saber o que fazer, decidiu prender os cabelos de Danielle, que se espalhavam sobre o travesseiro.
A tempestade era terrível.
O barulho do vento uivando, junto com os trovões, apavorantes, abafava os gritos de Danielle.
As horas iam passando e William acreditava não haver progresso algum.
Não demorou e ele se viu ordenando:
- Empurre!!! Vai!!! Força!!!
O rapaz ignorava ser inspirado por amigos do plano espiritual.
Em dado momento, achou que ela perdia muito sangue, além de não ter forças suficientes.
O tempo passava.
Tudo estava muito demorado.
William, ao seu lado, afagou-lhe o rosto e não se envergonhou das próprias lágrimas quando a viu chorar e dizer num sussurro:
- Não aguento mais, Will... Me ajude...
- Aguenta sim! Só mais um pouco!
Ela está vindo! Eu posso ver!
Falta pouco!
De joelhos sobre a cama, colocando a mão sobre o ventre, ele havia entendido quando as contracções começavam.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:08 am

- Dani! Preste atenção! Eu vou ajudar.
Vou fazer pressão sobre a barriga para ajudar.
Vai! Está vindo!
Tente outra vez!
Vai! Vai! Vai!!! - bradou, repetidas vezes.
Danielle gritava desesperadamente.
Em pânico, agarrou seu braço e sua camisa, recostou o rosto em seu ombro, segurando-o com muita força por alguns minutos.
No instante seguinte, largou-se sobre a cama.
Sem forças, pálida.
- Dani! Dani!
Pelo amor de Deus!!! Reage!!!
Algum tempo e William ficou apavorado.
Demorou, porém ela se remexeu e abriu os olhos lentamente.
Alguns instantes e ele ordenou novamente:
- Vamos, Dani!
Está começando de novo!!!
Vai!!! Vai!!! Vai!!!
A mesma contracção intensa.
Ela gritou e o segurou firme outra vez.
De joelhos, ao seu lado, o amigo não parou de comprimir seu ventre até perceber que algo acontecia e a barriga parecia murchar.
As primeiras luzes da manhã começavam a invadir o quarto.
Danielle o largou e deixou-se cair, quase inconsciente.
Ágil, William pegou a criança e percebeu que havia algo errado.
A menininha aparentava uma cor estranha, azulada.
Não existia mais nada, apenas sangue e silêncio.
- Oh, meu Deus! - murmurou.
Ele agia instintivamente e impulsionado pela espiritualidade para realizar de tudo, a fim de não restar dúvidas sobre o que pudesse fazer para salvar a criança.
Amarrando o cordão umbilical, cortou-o.
Achou que era isso o que tinha ouvido falar a respeito.
Pegando a menina, virou-a de cabeça para baixo.
Bateu-lhe nas solas dos pés, depois o bumbum.
Nada. O nené não chorava.
Lembrou-se de sugar-lhe a boca e o nariz, pois as vias aéreas poderiam estar obstruídas. Nada.
Massageou-lhe as costas e o peito, mas a criancinha estava realmente sem vida.
Olhando para Danielle, notou-a estranhamente silenciosa e assombrou-se.
- Meu Deus, me ajude!!!
Deixando a criança de lado, foi para junto da mãe e, levemente, estapeou-lhe o rosto, chamando-a:
- Dani?!! Dani?!!
Sua face estava pálida, cadavérica e os lábios roxeados.
Examinando-a, viu que perdia muito sangue.
Sem saber o que fazer, começou a rezar em pensamento.
Em seguida, agindo de modo que não conseguia entender, comprimiu, com muita força, o baixo ventre de Danielle, acreditando que aquilo diminuiria o sangramento.
Era como se tivesse ouvido falar desse procedimento muito antigo, usado por parteiras em lugares sem recursos.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:09 am

No mesmo instante, suas mãos irradiavam fortes energias recebidas do plano espiritual.
Ela se remexeu e gemeu pela dor muito intensa.
Segurou firme em seu braço, tentando fazê-lo parar.
Mesmo assim, ele continuou.
Um tempo depois, realmente, a hemorragia diminuiu.
Enquanto ele passava-lhe uma toalha humedecida no rosto, fraca, a amiga ergueu-lhe os olhos e murmurou com dificuldade:
- E... minha filha?...
William não resistiu.
Com lágrimas correndo pela face, debruçou-se sobre ela e a abraçou com carinho.
Foi então que Danielle entendeu.
- Desculpe-me... - pediu o rapaz, sem saber como encará-la.
Ela não disse nada.
Somente chorou muito.
William pegou a criança, enrolou-a em cobertor limpo e a pôs sobre um sofá, cobrindo seu rostinho com um lençol.
Envolvendo Danielle em lençóis secos, após higienizá-la com toalhas húmidas, viu-a sem forças se largar sobre a cama.
Somente as lágrimas corriam pelos cantos dos olhos dela que parecia não se importar com mais nada.
Pegando-a nos braços, levou-a para outro quarto, colocou-a em uma cama limpa com cobertas quentes.
Ela achava-se gelada, pálida e inerte.
Ficou ali por algum tempo, em silêncio, afagando-lhe o rosto e acariciando-lhe a mão até vê-la ganhar cor nos lábios, o que demorou um pouco.
Por um instante havia se esquecido de Raul.
Ele não foi até o quarto, não se preocupou com a esposa e estava muito quieto.
William, ainda ensanguentado, sem tempo de se limpar, saiu à procura do outro.
Encontrou-o caído na sala de jantar.
Carregando-o para outro quarto, longe de Danielle, tentou reanimá-lo.
- Raul! Raul! - Ele se remexeu, abriu os olhos e fechou outra vez.
- Você está quente demais!
O que aconteceu?!
- Não sei... - murmurou.
E a Dani?...
- Ela está bem.
Está no outro quarto.
Achei melhor que não o visse assim.
- E minha filha? - tornou no mesmo tom.
- Raul, você precisa descansar.
Está ardendo em febre.
Eu preciso chamar ajuda.
- Vai lá... - murmurou cerrando novamente os olhos.
Ao olhar o relógio, William não acreditou que eram quase dez horas da manhã.
Ele havia passado à noite e a madrugada ajudando Danielle.
A chuva e o vento tinham passado e a luz da manhã invadia a casa.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:09 am

8 - Raul entende sua doença

A tempestade foi inclemente.
Maria Cândida e o marido só conseguiram chegar a Long Island após uma hora da tarde devido à destruição da estrada e ao longo de alguns lugares.
Não puderam estacionar perto da casa, porque havia árvores arrancadas e tombadas no caminho.
Algumas arrastadas por centenas de metros.
Até que tiveram sorte, se comparado aos estragos nas propriedades dos vizinhos.
Mesmo assim, a paisagem era devastadora.
Olharam em volta e viram que as perdas foram incalculáveis,
apesar de somente parte da casa principal ter sido destruída.
A varanda não existia mais e a casa dos caseiros desapareceu.
Os empregados abrigaram-se no porão da garagem quando perceberam que corriam perigo.
Ao encontrar Maria Cândida, a mulher narrou o terrível pesadelo e contou que William chamou uma ambulância que levou Danielle e Raul para o hospital.
A partir daí, Óscar e a esposa passaram a procurá-los em hospitais da região.
A locomoção era muito difícil.
O vaivém de carros de bombeiros e ambulâncias socorrendo os feridos, e os destroços, nas ruas, dificultavam a movimentação e o trânsito.
Somente meia-noite encontraram William, visivelmente abatido e ainda com as roupas sujas de sangue, na sala de espera de um hospital.
Sentado, apoiava os cotovelos nos joelhos e segurava a cabeça com as mãos.
Sua mente mergulhava em doloroso sofrimento íntimo.
Maria Cândida apressou-se e colocou a mão em seu ombro.
Quando o rapaz ergueu-lhe os belos olhos azuis, eles se empoçaram em lágrimas ao reconhecê-la.
Levantando-se, sem dizer nada, ele a abraçou com força e a senhora, mesmo sem saber o que acontecia, começou a chorar.
Óscar estapeou-lhe levemente as costas e perguntou:
- Você está bem?
- Acho que sim - respondeu em tom grave e voz rouca, afastando-se do abraço.
- Danielle e Raul?!
Onde estão?! - quis saber a senhora.
- Ela está internada aqui.
O Raul foi levado para outro lugar.
Não sei onde. Ele precisava de mais cuidados.
Perceberam que o rapaz estava em choque.
Seu semblante era sério e contraído.
Algo perturbado.
- Vimos a casa.
Não foi tão destruída, apesar do estrago ter sido grande.
O que aconteceu, Will? - indagou Maria Cândida.
Sentando-se, o rapaz esfregou o rosto com as mãos e, encarando-a, contou:
- A Dani entrou em trabalho de parto perto das dez horas da noite.
Acho que se emocionou muito por vocês terem ido...
Depois ficou nervosa com a tempestade...
Não sei... O Raul não estava bem.
Eu estava nervoso e não sabia o que fazer.
Levei-o para a sala e fiquei sozinho com ela.
Foi horrível... - sussurrou, parecendo atordoado.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:09 am

As dores eram violentas.
Ela sofria muito e ficava cada vez pior.
Demorou muito tempo. Muito tempo mesmo!
A Dani perdeu muito sangue.
Perdeu as forças e desfaleceu.
Eu não sabia o que fazer e comecei a rezar...
Eu tenho pavor de sangue... - Ele engolia seco.
Tinha a respiração descompassada, o olhar perdido e lágrimas correndo na face.
- Como ela está, Will?!
E o nené?! - tornou a senhora, preocupada.
- Já estava claro e a tempestade deu uma trégua, quando decidi apertar sua barriga para ajudar a criança nascer e...
Oh, meu Deus! - começou a chorar.
Secou o rosto com as mãos.
Parecia nervoso demais, aflito ao contar:
- Não sei por que fiz aquilo!
Ela gritava, mas foi o que fez a criança sair!
Só que... Nasceu morta...
A criancinha estava ensanguentada, mesmo assim eu a peguei, peguei com cuidado, e fiz de tudo para que respirasse...
Mas não adiantou!
Acho que matei a filha deles! - falou em desespero.
Maria Cândida, em lágrimas, abraçou-o e ele escondeu o rosto em seu ombro.
Enquanto Óscar afagava suas costas, tentando consolá-lo.
- Calma, Will.
Acho que fez o que era certo.
Uma atendente chamou por William e o casal o acompanhou.
Ela indicou onde Danielle estava, dizendo que um médico viria para conversar com ele.
William entrou em pânico.
No corredor, relutava para entrar no quarto.
Esfregava o rosto e passava as mãos pelos cabelos, entrelaçando-as na nuca.
Olhava para cima e andava em círculos.
Lágrimas corriam-lhe pela face contraída em expressão aflitiva.
- Will, tente se controlar - pediu Óscar.
- Como vou encará-la?!
Eu matei sua filha! - dizendo isso, retornou à sala de espera.
Sentou-se, abaixou a cabeça e ficou lá, ruminando os pensamentos.
Maria Cândida e o marido o deixaram sozinho e foram ver Danielle, que recebia soro com alguns medicamentos que a deixavam sonolenta.
Apesar disso, percebeu-os.
O médico chegou e conversou com o casal, explicando o estado da moça.
Após ouvi-lo, eles relataram o que William contou e falaram de seu desespero, pois se sentia culpado.
Conversaram a respeito e, em seguida, o médico decidiu procurá-lo.
Aproximando-se, cauteloso, perguntou:
- É o senhor Phillies?
William Phillies, responsável por Danielle Linhares Cavalcante?
Erguendo-lhe os olhos, respondeu:
- Sim. Sou eu.
- Sou o doutor Johnson e estou cuidando de Danielle.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:09 am

- Eu matei aquela criança, doutor! - afirmou aflito.
- Não. Posso lhe garantir que não.
Danielle teve complicações e uma hemorragia muito forte durante o parto.
O senhor foi o responsável por salvar sua vida.
Ela não conseguiria sem ajuda.
A criança era bem grande e estava morta quando nasceu.
- Morta porque eu a matei!!! - gritou em pranto.
- Não, senhor Phillies.
Aquela criança já estava morta.
A Danielle teve pré-eclampsia, que é a hipertensão na gravidez ou pressão alta.
Explicando de maneira bem simples, posso dizer que na pré-eclampsia os vasos sanguíneos da mãe, incluindo os que levam sangue para a placenta, ficam estreitos, diminuindo a oxigenação da placenta e, consequentemente, da criança.
Isso causa anoxia cerebral, que é a falta de oxigenação no cérebro da criança, podendo haver hemorragia intraventricular, que é no coração, parto prematuro e óbito.
Tudo o que aconteceu.
Soube que ela passou mal dias atrás.
Nessa ocasião deveria ter sido internada e até feito uma cesariana, em minha opinião.
- O bebé morreu no parto.
Não estava morta! Não pode ser!
- Pode sim.
Posso lhe garantir que a criancinha já estava morta quando nasceu.
Não foi a compressão que fez, no ventre da mãe, que a matou.
Aliás, esse é um procedimento muito comum.
Ao contrário, salvou a vida de Danielle.
Creio que a pressão dela subiu por ter ficado nervosa por causa da tempestade.
- Foi horrível! Não consigo esquecer!
Não suporto sofrimento nem dor.
- O senhor ficou em choque porque não está acostumado a situações como essa.
É um processo natural. Acredite.
É assim mesmo.
- Não. Não pode ser.
Ainda estou assustado!
Tenho pavor de sangue.
As imagens de tudo o que aconteceu, não saem da minha cabeça...
Eu passo mal quando lembro e... não consigo esquecer...
- Isso vai passar.
Levante. Respire fundo.
Tome um café e vá vê-la.
Enfrentando a situação, vai se sentir melhor.
O senhor agiu muito bem.
Se não tivesse feito o que fez, Danielle não conseguiria expelir a criança.
Teria forte hemorragia e poderia não resistir.
William esfregou o rosto mais uma vez para espantar aquela estranha sensação de sentir o sangue fugir, como se fosse desmaiar.
Respirando fundo, levantou-se.
O médico pediu licença e lhe desejou sorte.
O rapaz decidiu tomar um café e ir ver Danielle.
Ela, inerte no leito, ainda muito pálida, abriu os olhos lentamente e reconheceu-o.
O amigo aproximou-se.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:10 am

Não sabia o que dizer.
Ficou somente em pé ao seu lado, olhando-a com piedade.
Maria Cândida afagou-o nas costas e ele permaneceu em silêncio.
- Obrigada, Will... - murmurou Danielle com dificuldade.
- O médico me contou...
- Eu... Peço desculpas por qualquer coisa - falou, tentando disfarçar o nervosismo.
Desculpe-me. Eu não sabia o que fazer.
Ela estava sem forças.
Mesmo assim, observou-o com as roupas ainda sujas de sangue.
Ergueu a mão em sua direcção e ele a segurou, colocando-a entre as suas.
Lágrimas correram em suas faces e nada mais foi dito.
Danielle havia perguntado por Raul e Maria Cândida, após explicar que ele foi socorrido em outro hospital, prometeu procurá-lo assim que saíssem dali.
A tempestade não atingiu toda a costa.
Contudo, por onde passou, deixou um rastro de destruição.
Eles encontraram Raul em outro hospital e providenciaram sua remoção para Nova Iorque.
Danielle recebeu alta dois dias depois e foi levada para o apartamento de Maria Elvira.
Somente quando chegou à Europa, Nanei soube o que tinha acontecido e se arrependeu por ter deixado a irmã.
Belinda ficou apavorada.
Quis viajar imediatamente, mas teve problemas burocráticos com sua documentação e precisaria aguardar alguns dias para regularizar tudo.
Embora telefonasse diariamente para Danielle, e mesmo sabendo que Maria Cândida cuidava de sua filha, não era suficiente.
Sentia-se insatisfeita e queria estar com ela.
Nos primeiros dias, após o ocorrido, William exibia-se estranho.
Ainda chocado.
Ficava quieto, isolava-se e quase não conversava com ninguém.
Desirée queria se aproveitar de seu estado emocional, muito abalado, para que retornassem a Paris.
- Aqui não é lugar para você!
Olhe como está! Abatido, calado!...
Nem está se barbeando!
Será bem melhor se voltarmos para a Europa!
Você tem o meu pai em suas mãos, porque está casado comigo!
Acorde, Will!
Diga para ele que não quer mais ficar aqui e pronto! - insistia Desirée sem trégua.
Aos seus vinte e nove anos, era uma mulher muito bonita.
Parecia ter sete anos menos.
Elegante, sempre muito bem trajada.
Alta, magra, sabia muito bem se comportar e ter todo o extremo de perfeição de etiquetas nas altas rodas da sociedade.
Fosse em Nova Iorque, Londres ou Paris.
No entanto, era uma pessoa incrivelmente exigente, caprichosa, exigindo todos aos seus pés.
Vaidosa e sem admitir o excesso de orgulho, acreditava que o mundo se dividia em duas classes:
os que são servidos e os servidores.
Sendo que ela, logicamente, pertencia à primeira.
Sua altura, seu belo corpo elegante, seus cabelos lisos e naturalmente loiros, sua voz suave e seus lindos olhos azuis, para ela, era uma demonstração de que Deus lhe amava mais do que a outros.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:10 am

Embora tivesse recebido orientação religiosa e cristã, de sua mãe, que sempre lhe ensinou e falou sobre a reencarnação, a lei de causa e efeito e tantas outras coisas, Desirée não oferecia a menor atenção ao assunto.
Apesar de ter tantos atributos, não os usava devidamente e sabia, muito bem, como ser irritante com seus caprichos, principalmente, com o marido.
- Vai, Will! Diga alguma coisa!
Ele somente a olhou e não disse nada.
Arrumando alguns travesseiros, deitou-se na cama onde estava sentado, cobriu-se e se virou de costas para ela.
Indo a sua direcção, Desirée o descobriu, exigindo:
- Não senhor!!! Levante-se daí, agora!!!
O meu pai vem almoçar aqui e você precisa falar com ele!!!
O silêncio foi absoluto quando ela parou de falar, ele nem se mexeu.
- William! - gritou.
Poucas batidas à porta da suíte, que já estava totalmente aberta, e Maria Cândida avisou em tom alegre:
- O almoço será servido!
- Olha como o Will está!
Em vez de tomar uma atitude para se livrar do encargo de ficar aqui e aproveitar a oportunidade e falar com o meu pai para voltar a Europa...
Não!!! Fica aí, feito um idiota, mudo, quieto...
Olhando para as paredes!!!
- Pare com isso, Desirée! - esbravejou a mãe.
Respeite o seu marido!
Maria Cândida, como todos, havia percebido que William se comportava estranhamente desde que voltou de Long Island.
Provavelmente aquela experiência tenha sido traumatizante demais para ele.
Chegando perto do rapaz, perguntou:
- Você está bem, Will?
Novamente ele puxou a coberta sobre si.
Ergueu-lhe os olhos brilhantes ao responder:
- Não sei o que tenho.
Estou me sentindo estranho.
Nunca senti isso.
Estava com o rosto pálido, assim como as mãos.
O semblante bastante contraído, muito sério.
Aproximando-se, Maria Cândida tocou-lhe a testa com a palma da mão.
Depois o rosto e o pescoço, quase lhe fazendo um carinho, e se surpreendeu:
- Will! Você está queimando de febre!
- Febre?! O Will?! - exclamou a esposa em tom irónico, não acreditando.
Nunca o vi dando um espirro!
A senhora não deu importância à filha e decidiu:
- É melhor ir ao médico.
Deve ter contraído a mesma gripe do Raul, ou talvez seja porque tomou aquela chuva e tudo mais.
- Não. Não quero ir ao médico.
Dê-me somente um analgésico.
- É bom se cuidar, Will!
Ou então vai fazer companhia ao Raul que está pondo sangue dos pulmões pela boca! - disse a esposa, em tom de zombaria.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:10 am

- Desirée! - gritou a mãe.
Você é um monstro!!!
Não acredito que nasceu de mim!!!
- O que é? Não posso falar o que penso?!!
Maria Cândida ia responder quando o genro segurou sua mão, sentou-se na cama e pediu:
- Este apartamento é enorme.
Tem acomodações sobrando.
Não gostaria de dar trabalho, porém poderia arrumar um outro quarto para mim?
É até eu melhorar um pouco deste estado...
Acho que contraí uma gripe mesmo.
- Outro quarto, por quê?!! - quis saber a esposa exigente.
- Porque eu estou farto de você, Desirée - respondeu brandamente, encarando-a.
Cheguei ao meu limite.
E se não fosse por me sentir tão mal, eu iria embora agora - explicou no mesmo tom.
Desirée olhou-o com seriedade, a princípio.
Depois gargalhou debochando.
E saiu do quarto dizendo:
- Você?!! Você nunca vai se livrar de mim!!!
Maria Cândida afagou o ombro e o rosto do rapaz, sem saber o que dizer.
Estava um tanto em choque pelo que ouviu.
Não queria acreditar.
Porém reconhecia que o genro, que considerava como filho, era tolerante e paciente demais.
Se Desirée fosse sua nora, Maria Cândida seria bem capaz de tê-lo aconselhado a se separar dela.
Sabia que, nos últimos tempos, havia se tornado uma pessoa totalmente intolerante.
- Will, calma.
Não tome qualquer decisão precipitada.
Ela nunca gostou daqui.
Creio que esteja assim, por saber que você precisa ficar até o final do ano.
Além do mais, você não está bem.
Ainda vejo-o em choque com o acontecido.
- Eu não encontro paz ao lado dela.
Agora implica por eu estar aqui.
Quando voltarmos para Paris, vai querer ir para Londres.
Depois, quando tudo perder a graça, vai querer que eu a leve para Milão, Sidney...
Se não for isso, ficará triste e deprimida porque o anel de diamantes de sua amiga ofusca mais do que o dela ou, então, a gargantilha de esmeralda é muito curta... - desabafou desolado, como se estivesse esgotado.
Eu não sou tão bom assim para contentá-la.
Nada do que faço lhe agrada.
Abatido, olhou para a senhora e pediu ainda em tom brando:
- Pode me arrumar um analgésico e antitérmico, por favor?
- Claro, Will! Deite-se, filho.
Vou pegar o remédio e já volto - disse fazendo-o deitar e cobrindo-o com modos maternais.
Em seu coração, Maria Cândida acreditava que o genro fosse mudar de ideia.
Chegou a pensar que falou daquela forma por causa da febre. Mas, não.
Ao retornar com a medicação, o rapaz reafirmou o pedido de lhe arrumar outro quarto.
Bem mais tarde, quando foi ver como Danielle estava, a senhora se surpreendeu por senti-la também muito quente.
- Meu Deus! O que está acontecendo aqui?!
O Will está com uma febre que não abaixa e agora você!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 16, 2017 10:11 am

- Ele ficou encharcado quando tentou buscar ajuda durante a tempestade - explicou Danielle.
Acho que foi por isso.
- Primeiro o Raul, agora vocês dois!
Não podemos esperar!
Vamos ao médico, agora, minha filha!
Assim foi feito.
Diagnosticaram que William contraiu uma gripe muito forte e Danielle, além da gripe, estava com começo de pneumonia.
Ela precisava de muitos cuidados e permaneceu em observação.
Estava anémica e ainda bem fraca.
Naquela mesma noite, Raul também piorou.
Seu estado era delicado.
Havia contraído gripe e teve complicações respiratórias.
A infecção foi com maior intensidade do que em uma pessoa normal, porque sua imunidade se achava muito baixa, devido ao tratamento com a quimioterapia.
A capacidade dos seus pulmões ficou bastante comprometida e, com a pneumonia, seu quadro clínico agravou-se.
Vários aparelhos ligavam-se a ele quando Maria Cândida entrou no C.T.I. para visitá-lo.
Seu coração apertou ao vê-lo muito abatido.
Pouco falava e mal mantinha os olhos abertos.
Tocando a mão da senhora, que o acariciava, murmurou entristecido:
- Estou cansado de tudo isso.
Quero ir embora.
Ela não deteve as lágrimas e ele prosseguiu:
- Agradeça ao Will por mim.
Ele ajudou a Dani...
Vou cuidar bem da Evelyn, quando a encontrar.
- Não diga isso, Raul.
Você vai ficar bom.
Ainda vai recebê-la como filha e...
- Não... - sussurrou.
Não nesta vida - sorriu levemente.
Fechou os olhos por um momento, depois os abriu e falou:
- Sabe aquele...
Aquele homem do meu sonho... que eu achava que o conhecia?
- Quem?
- Aquele que eu o acusei injustamente... e o mandei para os Tribunais da Inquisição.
- Sim, sei.
- Era o William...
E eu fiz tudo aquilo com ele... - lágrimas correram pelos cantos de seus olhos.
E continuou:
- Quando jogávamos xadrez eu o reconheci.
Não conte a ninguém.
Só testemunhe os factos.
A dona Belinda era mãe dele naquela época.
Agora é mãe da Danielle para guiá-la, orientá-la e dar muita força para os dois.
O que não pôde fazer naquela época.
Observe como a vida é... como não vale a pena as atitudes mesquinhas.
Hoje ele está tão bem.
Will tem pavor de sofrimento, fogo, queimadura, dor e sangue por causa das torturas que sofreu e presenciou naquele tempo.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:31 am

É uma lembrança do seu inconsciente.
Não sabe o motivo de passar tão mal, mas ele vai vencer isso.
Aos poucos, tudo vai melhorar.
Breve pausa e comentou:
- Fico satisfeito por ele ter recuperado tudo e até mais do que, financeiramente, eu o fiz perder...
Pois todos os seus bens foram recolhidos e passaram a ser da Igreja.
Hoje ele esbanja saúde... dinheiro. Vive bem.
Fico feliz por isso. Acredite.
Por outro lado... Olhe o meu estado...
Doente, dependente, vivendo de favores...
Morrendo com tanto sofrimento...
Tudo o que provoquei ao William... tudo o que minha consciência me cobra.
- Não fale dessa forma, Raul - pediu Maria Cândida, segurando o choro.
- Estou sendo realista - tornou com a voz muito fraca.
- Arrependo-me pelo que fiz em vida passada.
Lamento por mim mesmo, pois foi somente nessas condições que aprendi...
Não vale a pena prejudicar alguém.
- Você vai ficar bom, Raul! - disse emocionada.
- Eu vou, mas não será agora.
Passado um tempo, pediu:
- Por favor, não quero que tentem mais nada para me ajudar.
Só quero remédios para a dor, que é muito intensa...
É terrível... E...
Se possível... gostaria de ver a Dani e o Will.
- Ela está internada. Você sabe.
- Quando ela puder e, se puder.
E... muito obrigado...
Nossas conversas me ajudaram muito.
Foram remédios para minha alma.
O tempo de visita se esgotava e Raul estava suficientemente cansado para falar.
Fechando os olhos, ele só ouviu Maria Cândida dizer com voz embargada pelo choro:
- Fique com Deus, meu filho...
O Pai vai te dar forças e todo o amparo necessário.
Jesus o abençoe.
Ao sair do C.T.I., ela não conseguiu deter as lágrimas e chorou muito.
* * *
Na tarde do dia seguinte, Danielle recebeu alta hospitalar e, no apartamento de Maria Elvira, Maria Cândida contava-lhe sobre Raul.
- Eu quero vê-lo! - dizia em pranto.
- Oh, minha filha, se você estiver bem amanhã, iremos lá.
Ele pediu para ver o Will também.
Creio que quer agradecê-lo por tê-la ajudado.
Abraçando-a com carinho, recostou o rosto da moça em seu peito e a afagou com ternura.
- Queria que minha mãe estivesse aqui...
- Você tem a mim, meu bem.
Sou como sua mãe, viu - afirmava, acariciando-a.
- Já perdi minha filhinha...
Tenho medo de ficar sem o Raul...
Quero a minha filha de volta!...
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:31 am

Danielle não se conformava e, abraçada à senhora, chorou por muito tempo.
Em outro quarto, Desirée, irritada, não admitia o comportamento do marido e exigia:
- Você não vai dormir aqui!!! Onde já se viu!!!
Ele nada dizia e ela não suportava isso.
- Fale comigo, Will!
Diga alguma coisa!!! - Esbravejava.
Mesmo sob efeito de medicamentos, William estava febril, com dores pelo corpo e muita tosse.
" Definitivamente não se importava mais com o que ela fazia ou dizia.
Decidido a não dar mais atenção as suas implicâncias.
Ela não parava de falar, e ele não se manifestava.
Mas, quando a mulher arrancou-lhe o edredom, descobrindo-o, ele reagiu firme e exigiu com a voz rouca:
- Não faça mais isso! Saia deste quarto!
- Sou sua esposa!!! - gritou.
- Isso não lhe dá o direito de me tratar assim!
Saia daqui!
- Sou sua esposa e vou ficar aqui!!!
- É minha esposa, por enquanto!
Acabou, Desirée! Vou me divorciar de você!
Chega!
Breve pausa e prosseguiu:
- Quanto a eu trabalhar na empresa de seu pai, considere isso temporário!
Terei outro emprego assim que pegar o telefone!
Não sou incapacitado como você me acusa!
E não vou tolerar mais os seus caprichos!
Estou me sentindo muito mal por conta da febre e das dores.
Mal estou conseguindo falar!
Se não fosse isso e se não fosse pela sua mãe, eu já teria ido embora!
Agora, saia daqui! Suma!
Em tom mais brando, começando a acreditar no que acontecia, ela perguntou:
- Você não está falando sério? Está?
- Nunca falei tão sério em toda minha vida! - afirmou calmamente, encarando-a.
- Will. Will, eu amo você!
Ele não lhe respondeu.
Pegou o edredom, cobriu-se novamente e se deitou.
- Will, as coisas não são assim!
Olhe... Estou cansada daqui.
Entediada com tudo e... - começou a chorar.
- Não faça isso comigo!
Ele não lhe respondia.
Saindo do quarto, foi à procura de sua mãe.
- Quem não viu que isso ia acontecer?!
Você é uma mulher chata e irritante, Desirée! - esbracejou a mãe, acusando-a sem piedade enquanto a filha chorava.
Não sei onde eu errei na sua educação.
Às vezes, nem eu a suporto com todas as suas exigências!
- Eu sou assim!
O que posso fazer?!
- Mude! Ninguém é obrigado a suportá-la como é!
Você não respeita a vontade nem o direito de ninguém!
Não sei como o Will a suportou até hoje!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:31 am

- Não fale assim!...
- Estou falando a verdade!!!
Você nunca foi humilde!
Nunca considerou as outras pessoas!
Só quer ser obedecida!
Consegue tudo no grito e com exigências!!!
Devemos ter consideração e respeito, inclusive com os empregados que nos servem!
Eles são seres humanos como nós!
Eles são pagos pelos serviços que fazem e não para aturarem as nossas grosserias!
- Não estamos falando dos empregados!
Estamos falando do Will!
- Pobre Will!
Agora eu percebi que ele é pior do que um empregado, pois não ganha nada, não tem pagamento algum para te aturar!!! - falou com ironia.
Acorda, Desirée!
Se não quiser perder o seu marido!
Se é que já não é tarde demais, mude!!!
Seja mais atenciosa, mais amorosa!!!
Seja uma mulher útil!!!
Ocupe-se com algo produtivo! Vá trabalhar!
O silêncio foi absoluto por um momento.
Depois, Maria Cândida, prosseguiu mais branda, porém enérgica:
- Você pensa que mulher magra, bonita, fina e bem arrumada é o suficiente para segurar um homem?!
Se pensa assim, está imensamente enganada!
- Todo homem gosta de uma mulher bonita!
- Gosta para usar e descartar!!! - retrucou a mãe.
Para conviver, para viver ao lado, dia e noite, nas dificuldades, principalmente, ele quer uma mulher de pés no chão!
Uma mulher que seja sua companheira, amiga, parceira, compreensiva, honesta!
Que o aconselhe e não o critique.
Que o convença e não grite nem exija!
Quer uma mulher que converse, brinque, ria...
Se ela tiver tudo isso, pouco importa a beleza física!
Alguns instantes e comentou:
- Veja o seu irmão.
O Edwin ficou e namorou, creio eu, com quase todas as mais lindas mulheres da Europa.
Eu digo quase todas, sem exagero.
Cada dia era uma.
No máximo, ele ficava com uma moça por três ou quatro meses.
Quando o Edwin conheceu a Nanei, ficou louco atrás dela.
Nunca vi o seu irmão assim por ninguém! Ninguém mesmo!
Quando uma moça pensava em dar o fora ou fazia pouco dele ou era exigente querendo prendê-lo, ele já estava com outra.
Mas com a Nanei foi diferente.
E veja, você mesma a conheceu.
A Nanei é bonita, mas não igual às manequins e modelos que o seu irmão namorou.
Nem parece com aquelas actrizes que ele nos apresentou.
Ela é baixinha, gordinha, cabelos lindos e naturalmente cacheados e usa óculos.
O Edwin ficou e está de quatro pela menina!
Vejam só! Quem diria!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:32 am

- E a senhora dando o maior apoio!
- Lógico! Ela tem personalidade!
Tem vida! A Nanei tem conteúdo!
Eles se conheceram e ficaram se falando durante algum tempo, antes de se verem pela primeira vez e ele viu nela o que queria encontrar em uma mulher.
Ela não grita nem fica irritada quando quer ou não quer alguma coisa!
Aliás, pelo que entendi, ela consegue tudo com o silêncio.
Eu mesma vi isso.
O seu irmão ficou correndo atrás dessa moça por meses!
Até para a mãe dela ele ligou algumas vezes de Londres, para a Belinda falar com a filha e dar uma força para ele.
Quando foi que você viu o Edwin fazer isso por uma moça, Desirée?
Ela não respondeu e a mãe afirmou:
- Nunca! Quando eu os vi juntos, lá na casa da praia, e pude conversar por mais tempo com ela, entendi a razão dele estar assim.
Ela é uma moça maravilhosa!
Breve pausa e, lembrando-se, disse:
- E foi lá, na casa da praia, que o Will estava sem camisa e eu vi as marcas roxas na cintura dele.
Quando perguntei o que era aquilo, fiquei horrorizada ao saber que foi você!!
Aquilo é lesão corporal!!!
Você o beliscou por ciúme!!!
Depois quer que ele fique perto de você!!!
Quando a mulher faz isso, o homem, além de começar a detestá-la, vai passar a ficar a uma distância de um braço longe dela!
Lógico!!! Ele não é louco!
- O Will mereceu!
- Em vez de trazer o seu marido para perto, você o está repelindo!!!
Você é idiota?!!
Se ele olhou para outra mulher e a admirou, não faça nada na hora!
Seja inteligente! Depois sim!
Fique melhor do que a outra!
Dance para ele. Exiba-se.
Faça tudo por seu marido e pelo seu marido!
Trate-o com amor e carinho!
Ponha tempero na relação!
Eu duvido que ele vá se lembrar da outra, pois é você quem ele tem ao alcance!
Vendo-a chorar, repreendeu, muito zangada:
- O Will estava com febre, eu lhe dei o remédio receitado e bem mais tarde fui vê-lo.
Coisa que era para você ter feito!
Ele estava encharcado de suor.
Peguei outra camisa para que trocasse e vi o braço dele beliscado, e era coisa nova.
Mesmo já imaginando do que se tratava, perguntei.
Ele me contou que foi você querendo saber se ele havia admirado a Danielle, pois, para ajudá-la no parto, viu-a nua ou seminua.
Ele disse que, quando não lhe respondeu, você o beliscou para que falasse.
Depois de ouvir isso, Desirée, tive certeza de que você não está bem.
Acho que está doente, psicologicamente.
Filha, isso não é normal!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:32 am

- Desde que chegou de lá, ele fica o tempo todo quieto, pensando não sei o quê.
Não conversa. Não diz nada!...
Quis saber o que estava imaginando!
Se pensava na Danielle!
- Pelo amor de Deus, Desirée!!!
A situação foi tensa, traumatizante para ele, que não tinha ideia de como ajudar em um parto!
O Will nunca escondeu de ninguém que tem pavor de ver sangue!
Há dois dias, quando fomos ao hospital por causa dessa gripe, ele avisou para o médico que iria desmaiar se tomasse injecção.
E foi isso o que aconteceu!
O Will pode ser um excelente executivo, entender muito bem de tecnologia aviônica.
É um óptimo negociante, um perfeito administrador, mas não suporta situações tensas de dor nem sangue!
Entenda isso! O Raul não pôde ajudar!
A Dani sofreu muito! Teve hemorragia!
Tudo durou horas ininterruptas!
Ele acreditou ter matado a criança e ainda havia a possibilidade daquela casa ser destroçada e carregada pelo vento!
O seu marido estava sozinho!
Entrou em choque!
Ele ainda está assustado!
Em vez de ficar ao lado dele, você vai perguntar e beliscá-lo para saber se ele admirou a outra em trabalho de parto?!! - gritou.
Ora!!! Pelo amor de Deus!!!
Ficou louca?!! Isso é doença!!!
Você precisa de tratamento!!!
- Agora já aconteceu!
Não adianta ficar falando!
- Tenho que falar para você não fazer de novo!!!
Filha, ocupe sua mente com algo útil e esse ciúme imbecil vai acabar!
- Ele quer se separar!
O que eu faço, mãe?!
Mais calma, orientou:
- Não sei se vai adiantar.
Você já foi longe demais.
Mas... Comece pedindo desculpas por tudo o que fez.
Trate-o com respeito, atenção e carinho.
Mude suas atitudes, seu comportamento.
Não seja, nunca mais, exigente.
Arrume um trabalho, mesmo que não seja remunerado.
É para ter algo bom, agradável e interessante para conversar.
Aproximando-se da filha, que estava sentada, Maria Cândida a abraçou com carinho e recostou seu rosto em seu ventre, esperando que parasse de chorar.
Levante essa cabeça, filha.
Faça algo por você mesma.
- Vou falar com o tio Matt.
Ele tem a empresa de arquitectura e...
- Óptima ideia! - alegrou-se a mãe.
Você pode pegar um trabalho temporário até o fim do ano.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:32 am

Vai se ocupar e permanecer aqui, ao lado de seu marido, sem incomodá-lo.
Será bom, minha querida!
Você vai ver.
Após um instante, propôs em tom animado:
- Agora levante!
Lave esse rosto lindo e respire fundo.
Faça um chá e leve para o Will.
Veja se ele está bem.
Converse um pouquinho. Seja gentil.
Pergunte o que ele sente.
Deixe-o desabafar.
Homem gosta de falar de si.
Principalmente ele, depois de tudo o que sofreu.
Desirée sentiu-se encorajada e sorriu.
A mãe a beijou antes da filha sair da sala.
Maria Cândida sentia-se exausta e saiu à procura de sua irmã.
Encontrando-a na sala de televisão.
- Parece cansada, maninha - brincou Maria Elvira ao vê-la.
- Não só cansada.
Estou preocupada também.
- Você acha que o Raul...
- Eu não sei.
- Que situação difícil - lamentou a outra.
- Em pouco tempo, viramos a sua casa e a sua vida de cabeça para baixo, Elvira.
Desculpe-me por isso.
Estou preocupada e tentando um meio de reverter tudo.
- Gosto quando tem gente aqui.
Adoro quando meus netos vêm para cá.
Tudo fica tão alegre.
Só lamento a situação do Raul ser tão delicada.
Aproximando-se de Maria Cândida, beijou-lhe a testa, massageou-lhe os ombros e depois disse:
- Não fique preocupada comigo, com o Matt ou com a ocupação deste apartamento.
Adoro ver isto aqui lotado!
Vivi minha vida trancafiada em um colégio horroroso por uma ridícula escolha! - riu.
Não tive mais filhos porque não vieram.
- Foi muito bom para você ter um filho só!
Eles dão muito trabalho! - riu.
- Não fique assim, tá?
Tudo vai se resolver.
Notando-a quieta, perguntou:
- E a Desirée e o Will?
- Aaaah!. Nem me lembre disso.
Minha filha é tão imatura!
Imatura e burra! - riu.
O Will é um marido maravilhoso.
Como ela é idiota!
- Ele é um homem feito por encomenda! - elogiou Maria Elvira.
- É mesmo.
E a boba da Desirée não vê isso!
- Alto, bonito, forte, tranquilo, paciente...
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:33 am

E que olhos!...
E que voz! Até rouco fica com a voz linda! - gargalhou de um jeito engraçado e brincando estar como que apaixonada.
- Olha!!! Vou contar pro Mattü! - ameaçou a irmã, rindo e brincando.
- Se eu tivesse trinta anos a menos, talvez o meu marido ficasse com ciúme - riu.
O Will tem idade para ser meu filho!
- Neto! Ele tem idade para ser seu neto!
- Filho!!! Você ficou louca?!!
- Você até parece a Olívia!
Vive escondendo a idade!
Maria Cândida riu gostoso e perguntou, em seguida:
- Cade a mamãe?
- Decidiu que queria fazer compras.
Pegou uma das empregadas e arrastou a moça para o outro lado de Manhattan.
- Que disposição que a mamãe tem!
Que bom que ela saiu e está se distraindo.
Uma coisa a menos para eu me preocupar.
Falando em preocupação...
E a casa de Long Island?
Como ficaram os prejuízos?
- O Matt estava preocupado com o seguro.
Ele não lembrava se tinha renovado ou não.
- Sei. E?...
- Ontem, o assessor dele afirmou que o seguro foi renovado há dois meses.
O próprio rapaz cuidou de tudo, só se esqueceu de avisar o Matt.
- Puxa! Que sorte!
Esse assessor merece ser recompensado!
- E será! Se não fosse ele...
Ainda bem, né?!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:33 am

9 - A DOR EM 11 DE SETEMBRO

Desirée levou chá para o marido.
Nitidamente abatido, ele se sentou na cama e bebericava a xícara, vagarosamente.
Ela sentou-se ao seu lado e acariciou-lhe lentamente as costas como há muito tempo não fazia.
Procurando demonstrar gentileza nas palavras, a mulher perguntou:
- Sente-se melhor?
- Um pouco - respondeu com a voz rouca.
- Seus olhos estão vermelhos.
O corpo ainda está dolorido?
- Bastante.
Colocando-lhe a mão na testa, para sentir sua temperatura, falou:
- Ainda está com um pouco de febre.
Quer que eu pegue um antitérmico para você tomar?
- Não. Já tomei.
- Will...
Ele ergueu-lhe os olhos cansados e a esposa prosseguiu:
- Eu quero lhe pedir desculpas. Fiquei irritada.
Fui intolerante muitas vezes e...
Não sei por que fiz isso! Conversei
com minha mãe e ela me fez enxergar o quanto estou errada.
Eu quero mudar. Quero ser diferente.
O silêncio foi absoluto por longos minutos, até ela não suportar:
- O que você me diz?
- O que eu posso dizer?
- Fale que vai me ajudar!
Que vai ficar do meu lado!
- Temos dois anos de casados, quase três, Desirée.
Namoramos por quatro anos.
Nesses quase sete anos juntos, eu sempre quis acreditar que você iria mudar.
Mas, com o tempo, vem piorando.
- Eu vou mudar, Will! Agora é pra valer!
Eu entendi que você precisa ficar aqui até o fim do ano e vou ficar junto.
Vou arrumar uma ocupação! Um trabalho!
Falarei com o meu tio.
Ele tem uma empresa de arquitectura, lembra?! - Sorria, generosa, enquanto falava.
- Posso não ganhar nada, mas estarei ocupada!
Vou tratá-lo diferente!
Diante de seu silêncio, ela insistiu:
- O que me diz?
- Desirée, eu estou com muito sono, efeito dos remédios e não consigo pensar direito.
Minha cabeça está doendo muito, assim como todo o meu corpo.
Nunca senti isso antes e...
- Anime-se, Will!
Vamos viver diferente!
- Você não quer mudar.
Veja o que está fazendo.
Não está sendo compreensiva. Olhe como estou...
- Você é forte! Sempre foi!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:33 am

Nunca o vi resfriado!
O marido respirou fundo, colocou a xícara sobre um móvel ao lado e recostou-se nos travesseiros, fechando os olhos e largando o corpo.
- Vai! Diga alguma coisa!
- Quer mesmo que eu fale? - perguntou num sussurro rouco.
- Lógico!
Olhando-a nos olhos, declarou:
- Quero me separar de você.
- Não diga isso! Está brincando!
- Não. Não estou. Cansei.
Chega. Agora... Por favor...
Inconformada, a esposa levantou-se e falou enérgica:
- Você está sendo insensível!!!
Não quer me compreender!!!
Não leva em consideração os meus sentimentos!!!
- E os meus, Desirée?!
Já levou os meus sentimentos em consideração, alguma vez?!
Olhe para você agora!
Disse que vai mudar, que quer mudar!
Veja o que está fazendo!
Estou com febre, com dor, cansado e você não respeita isso!
Não consigo nem pensar direito e sou obrigado a ouvir suas exigências!
Não pergunta o que estou sentindo por dentro!
Nem quer saber como estou!
Só sabe exigir! - exclamava rouco, com a voz sumindo por alguns instantes e com muita dificuldade para falar.
- Você está assim desde que voltou daquela maldita casa de praia!
Talvez tenha ficado tempo demais sozinho com a Danielle!
- Não acredito que estou ouvindo isso!
Sentando-se novamente, colocou os pés no chão e a encarou:
- Se você não é louca, está doente!
- Por que diz isso?!!
Por que estou falando a verdade?!!
Diga o que aconteceu!!!
Assuma que foi bom ter ficado com ela, que é gentil, atenciosa, bonita, calma!!!...
- Cale a boca!
Faz não sei quantas noites que eu não durmo por causa de pesadelos por tudo o que vivi naquela noite!
Você não sabe como foi!
Não estava lá comigo!
É tão insensível que não é capaz de imaginar!
Sua voz sumia, por segundos, e assim que podia, tornava a falar:
- Até agora, quando fecho os olhos, vejo sangue e aquela criancinha morta nos meus braços!
Quando não, parece que escuto os gritos da Danielle em desespero!
Vejo-a desfalecendo, pálida, parecendo morta!
Estou em choque!!! Estou desesperado!!!
Sua voz enfraquecia, algumas vezes, mesmo assim, ele continuou persistente e nervoso:
- Não consigo esquecer!
Se você quer saber!
Para mim, aquilo foi horrível!!!
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 17, 2017 10:34 am

Nunca gostei de sangue!
Tenho pavor até de injecção!
Detesto programas de TV com cenas de simples cirurgias, partos ou qualquer coisa do género!
Nunca tinha visto um parto nem pela televisão.
Não tinha ideia de como era nem queria saber!
Não gosto nem de filmes violentos.
Você sabe muito bem disso!!!
Porém não se importa com o meu estado emocional, com o que estou sofrendo!
E ainda me acusa de, no meio daquele pesadelo, ter arrumado tempo e... desejo de admirar Dani!
Só se eu fosse doente!!!
William apresentava cansaço na voz rouca.
Pálido, sentindo-se tonto, com muita dor de cabeça, segurou uma mão na garganta para desfechar:
- Chega, Desirée!
Tenho dó de você!
Chega! Eu me amo!
Não vou continuar sendo seu brinquedo!
A esposa, em pranto alto, saiu correndo da suíte.
Maria Cândida foi atraída pelos gritos da filha, mas ao vê-la passar correndo pelo corredor, decidiu ir até onde o genro estava.
Entrando no quarto, cuja porta estava aberta, não viu o rapaz.
Um barulho chamou sua atenção no banheiro.
Chegando lá, viu William sentado no chão e recostado na parede.
- O que aconteceu?! - perguntou correndo para ampará-lo.
- Passei mal...
Vomitei o remédio e tudo mais...
- Venha, filho.
Levante-se - pediu, ajudando-o e conduzindo-o até a cama.
Deite-se.
Olhando-o pálido e com os olhos fundos, comentou:
- Vocês brigaram feio.
- Precisei dizer algumas coisas para ela...
- É melhor ir ao médico.
Ainda está com febre.
- Não. Preciso dormir um pouco.
Amanhã quero estar bom para visitar o Raul.
- Se estiver desse jeito, não vai mesmo!
- Vou melhorar.
Só preciso descansar um pouco... - disse, fechando os olhos.
Maria Cândida o cobriu, acariciou-lhe o rosto e os cabelos com piedade.
Acreditou que sua filha havia jogado a felicidade fora.
Mas não poderia fazer nada.
Ele era um bom homem, não merecia aquilo.
William se encolheu e ficou em total silêncio.
Vendo-o tão quieto, ela achou melhor deixá-lo sozinho.
Realmente o que ele precisava era de repouso e sossego.
* * *
As primeiras horas da manhã, Maria Cândida passou conversando e orientando Desirée que se concentrava no que fazer para ser uma pessoa melhor.
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Re: Ponte das lembranças - Schellida / Eliana Machado Coelho

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