ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 8:22 pm

Em frente aos seus dedos, havia um aparelho que tinha nas pontas pequenas agulhas que quando movidas por uma roldana, fazia com que elas entrassem por debaixo das unhas, o que causava uma dor insuportável.
Eu, várias vezes, já havia presenciado uma tortura como aquela e outras ainda piores, porém nunca havia me importado e ficava feliz ao ver homens e mulheres gritando de dor e desespero, mas naquele dia, depois do sonho, ao ver aquele aparelho, senti um estremecimento pelo corpo todo.
Levi, embora tenha tido o mesmo sonho não ligou e ao ver o homem naquela situação, disse com ironia:
— Como vai, meu bom homem?
O homem olhou para ele e demonstrando o medo que estava sentindo, respondeu:
— Não muito bem...
— Não se preocupe, daqui a pouco vai ficar tudo bem.
Só depende de você...
— Eu sabia o que aquelas palavras queriam dizer e o homem também.
Percebi que de seus olhos caiam lágrimas.
Levi, com um sorriso infernal, continuou falando:
— Sabemos que você é bruxo, quanto a isso não resta dúvida, só nos resta saber como faz para contactar o demónio e como ele lhe dá as ordens.
O homem assustado, respondeu:
— Não sou bruxo e não falo com o demónio...
— Não minta! Sabemos da verdade!
Você só precisa confessar!
Percebi que Levi já estava descontrolado.
O homem, tremendo, disse:
— Como posso responder sobre algo que não fiz?
— Sei que você sabe onde encontrar o diabo, que fala com ele e que obedece a suas ordens!
Pare de mentir, do contrário será muito pior.
— Não posso confessar, não fiz nada disso de que o senhor está me acusando...
Levi, tomado de ódio e pelo prazer que sentia ao perceber o poder que tinha naquele momento, fez um sinal para um outro padre que estava ali e ele começou a rodar a roldana.
As pequenas agulhas começavam a entrar por debaixo das unhas do homem que gritava sem parar.
Meu coração começou a bater forte e ouvi aquela voz de homem que disse:
— Está tudo errado...
Num impulso, após ouvir aquela voz, me aproximei do padre que fazia com que aquela maquina terrível se movesse, segurei sua mão e olhando para Levi, disse nervoso:
— Faça com que ele pare Levi!
Esse homem nada sabe, ele não pode confessar uma coisa que não faz!”
Levi me olhando e não acreditando no que eu estava fazendo, perguntou raivoso:
— Que está fazendo, Bartolomeu?
Não vê que ele, como todos os outros que passaram por nossas mãos, está mentindo?
Ele serve sim, ao demónio!
— Não, Levi!
Ele e talvez os outros também que condenamos, não estava nem está mentindo.
Ele não sabe sobre o que você está falando.
Se soubesse, já teria contado.
Não suportaria tanta dor...
— Como não, Bartolomeu?
Ele foi apontado como alguém que faz curas milagrosas!
— O que tem isso de mal, Levi?
Se isso for verdade e ele pode ajudar as pessoas é muito bom!
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Ave sem Ninho

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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 8:22 pm

— Afaste—se, Bartolomeu, precisamos continuar o nosso trabalho!
— Não posso mais continuar aqui.
Não tenho condições de presenciar uma tortura como essa.
— Está bem, pode sair.
Você está estranho desde que me contou sobre aquele sonho.
Não esperei nem mais um minuto, saí dali e quando me vi sozinho, comecei a chorar sem parar.
Desesperado, pensei:
Aquele homem não está com o demónio...
Quem está com ele é Levi, pois só o demónio poderia usar da força e do terror como Levi está fazendo...
Deus não faria isso, ele é nosso Pai e criador...
Daquele dia em diante, nunca mais participei daqueles actos de terror e tortura e comecei a ajudar e a esconder aqueles que eram suspeitos de bruxaria.
Levi tomou conhecimento do que eu estava fazendo, ficou furioso e mandou que eu fosse levado até sua sala.
Assim que me aproximei, com muita raiva e gesticulando, disse:
— O que você pensa que está fazendo ajudando a esses bruxos que estão ao lado do demónio?
— Eles não são bruxos nem estão ao lado do demónio, Levi.
São pessoas simples que acreditam em Deus.
— Como se atreve a dizer isso?
Você também está servindo o demónio e só não mando que seja queimado porque é meu amigo, mas vai ficar preso em uma sela pelo resto da sua vida, para que não tenha chance de continuar servindo o demónio.
— Não estou servindo o demónio, só estou praticando o que Jesus nos ensinou, a caridade.
— Jesus nos ensinou a caridade, mas ensinou também a expulsarmos o demónio!
Como podemos ter caridade com o demónio?
Agora, não temos mais o que conversar.
Padre, leve o Bartolomeu para uma cela de onde não poderá sair nunca mais.
Lá, sozinho e sem ter como ajudar, o demónio se afastará para sempre do lado dele e será salvo.
Um padre que estava lá e que acompanhou toda a nossa conversa segurou com força em meu braço e me empurrou até uma cela onde fui colocado e fiquei até morrer.
Todos ouviam Bartolomeu contando sua história.
Nenhum deles a conhecia.
Não conseguiram evitar que lágrimas caíssem por seus rostos.
Donata disse:
— Deve ter sofrido muito nesse tempo em que ficou preso, Bartolomeu.
— Sim, não só por estar preso, mas muito mais por não poder mais ajudar aqueles que precisavam e principalmente, por acreditar que Levi estava sendo dominado pelo demónio.
— O que aconteceu depois que morreu?
— Durante o tempo em que estive preso, li muito a bíblia e outros livros que existiam na época, mas por mais que lesse, não conseguia me conformar com aquilo que estava acontecendo.
Rezava muito por todos aqueles que estavam sendo perseguidos e por Levi.
Devido à má alimentação e às condições em que estava vivendo não fiquei muito tempo na cela, apenas cinco anos, mais ou menos.
Em uma noite, muito fraco pela doença que havia me acometido e sem tratamento, sonhei com um lindo anjo vestido de branco e muito brilhante, que me disse:
Agora está tudo certo e você pode retornar para a casa do Pai e dessa vez, vitorioso.
Eu, muito fraco, apenas sorri e adormeci.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 8:22 pm

Quando acordei, estava em um quarto pintado de um azul muito claro e suave.
Ao meu lado, uma senhora disse, sorrindo:
— Que bom que acordou Bartolomeu.
— Onde estou? – perguntei intrigado.
— Está em um lugar de tratamento, mas agora está bem e poderá ver tudo por aqui.
— Posso me levantar?
— Está se sentindo bem?
— Sim, muito bem.
— Então pode e deve se levantar.
Tem muito para ver.
Aquela mulher falava comigo com tanto carinho, o que fez com que me levantasse.
Naquele mesmo dia, tomei conhecimento de tudo o que eu e Levi havíamos feito durante tantos séculos.
Chorei muito ao ver tudo aquilo e como eu havia sido mau.
— Que aconteceu com Levi?
Bartolomeu olhou para Marina e disse, sorrindo:
— Moça dos olhos curiosos, você não é só curiosa, é impaciente também...
Marina já estava acostumada a ser repreendida.
Sorriu e com os olhos, ficou esperando a resposta.
Bartolomeu continuou falando:
— Levi morreu quinze anos depois de mim.
Durante todo esse tempo, embora eu ficasse ao seu lado intuindo bons pensamentos, ele nunca ouviu e continuou praticando as mesmas maldades.
Quando morreu, estava sendo esperado por aqueles espíritos maus que o acompanharam durante toda a sua vida.
Embora tenha tentado interferir, não consegui.
Ele estava muito envolvido com as forças do mal e por isso, sua energia era intensa e pesada o que não permitiu que eu me aproximasse.
Foi levado para um lugar do qual, embora eu estivesse estado lá por muitas vezes, naquele momento não me lembrava.
Quando tomei conhecimento de como era, fiquei horrorizado e rezava todos os dias para que ele fosse libertado daquele lugar e daquelas forças.
Em uma manhã, fui chamado e me disseram que o tempo havia passado e que Levi estava pronto para ser resgatado.
Não podem imaginar como fiquei feliz, pois apesar de tudo o que ele havia me feito na última encarnação, eu ainda o considerava meu amigo e sabia que era considerado por ele.
Junto com uma equipe de resgate, fui ao seu encontro.
Quando o encontramos, ele estava em uma situação muito ruim.
Parecia demente, falava coisas sem nexo e sentia muito medo.
Ao me ver, demorou um pouco de tempo para me reconhecer, mas assim que reconheceu, correu para meus braços e chorando muito, nos abraçamos.
Ficamos assim por um bom tempo.
Ele, com medo não queria se separar do meu abraço, até que um dos participantes da equipe disse:
— Está na hora de irmos embora.
Nosso tempo está terminando.
Eu, que nunca havia participado de uma equipe como aquela não entendi o que ele quis dizer com aquelas palavras, mas sem protestar, os acompanhei e saímos dali.
— Cuidei de Levi com muito carinho.
Era meu amigo e estava de volta ao meu lado.
Depois de muito tempo de tratamento, Levi tomou conhecimento de tudo o que havia praticado e como sempre, se arrependeu, jurou que havia mudado e que nunca mais seria mau.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 8:23 pm

Acreditei nele e fiquei feliz.
Fomos chamados, estava na hora de renascermos, nos perguntaram se queríamos renascer juntos.
Claro que respondemos que sim.
Mas, como das outras vezes, novamente Levi fracassou.
Nasci como seu irmão e como eu realmente havia mudado, fiquei o tempo todo tentando convencê—lo a não praticar maldade, mas levado pela ambição e pela vontade do poder, ele se tornou um assaltante e assassino.
Voltou assim, à estaca zero.
Para resumir, nascemos e renascemos muitas vezes sempre juntos, ora como pai e filho, irmãos, parentes ou amigos.
Eu tentava, mas não adiantava, ele sempre fracassava.
Até a última encarnação quando era o pai de Aurélia, poderoso dono de fazenda com muitos escravos.
Eu era um escravo que havia sido trazido da África e que nunca havia sido escravizado.
Quando o pai de Levi me comprou, eu era ainda um menino, tinha apenas oito anos, a mesma idade de Levi.
Fomos criados juntos.
Brincávamos e fazíamos tudo o que uma criança da nossa idade fazia.
Não existiam preconceitos, como não poderia deixar de ser, continuávamos amigos.
Quando crescemos e ele foi para outro país estudar, fiquei ansioso esperando sua volta.
Quando ele voltou, logo percebi que ele estava diferente.
Já não era o mesmo, tratava os escravos e até a mim com muita raiva e nos fez ver a todos a enorme diferença que existia entre nós.
No começo, não entendi o que havia acontecido para que ele mudasse tanto.
Com o tempo, fui entendendo que ele conheceu outras pessoas e viu um mundo diferente.
Deve ter descoberto que o branco era superior ao negro e que por isso não podia se misturar, muito menos ser amigo de um escravo.
— Ele se esqueceu da amizade que existia entre vocês durante tanto tempo?
— Não, Ademir, embora ele sentisse e demonstrasse o ódio e asco que sentia pelos negros, nunca conseguiu esquecer nem deixar de gostar de mim.
Sempre que tinha algum problema ou estava feliz, me chamava para contar seu problema ou falar de sua felicidade.
Quando conheceu Rita, perguntou o que eu achava.
Eu respondi que se gostava dela e se estava feliz com aquele casamento devia se casar.
Ele sempre fazia isso, mas logo que ouvia o que eu tinha para dizer me mandava de volta para a lavoura ou para a senzala.
Ele, enquanto seu pai viveu não pôde fazer muita maldade com os escravos, pois seu pai embora fosse um rico fazendeiro que também não gostava dos negros, nunca permitiu violência contra eles.
Mas assim que ele morreu e Levi se viu dono de tudo, inclusive dos escravos, aquela velha ânsia pelo poder se fez presente e ele começou a usar dela para poder se realizar.
Cometeu muita maldade.
— Não entendo uma coisa...
— O que moça dos olhos curiosos não entendeu?
— Se em todas as encarnações ele sempre fracassou por causa do poder, por que em todas foi lhe dada à oportunidade de exercê—lo?
— Exactamente por isso, era uma fraqueza que ele precisava superar.
Isso acontece com todos nós.
As mesmas dificuldades de sempre, os mesmos desafios sempre retornam, até o dia em que entendemos o que fazemos e mudamos nossa atitude.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 8:23 pm

Marina olhou para ele e disse:
— Tem lógica, mas é perigoso, muitos podem fracassar.
— Todos temos o livre—arbítrio e com a ajuda dele, podemos mudar ou continuar.
Como disse é difícil, mas não impossível.
Quando conseguimos superar nossas fraquezas, não existe felicidade maior.
— Que aconteceu quando ele se tornou único dono e poderoso? – Marina perguntou.
— Começou a perseguir os negros.
Teve conhecimento de que eles praticavam uma religião na qual adoravam deuses diferentes dos dele.
Ficou furioso, tentou descobrir que religião era essa, como e onde praticavam.
Fez perguntas, procurou, colocou seu capataz para que contasse com a ajuda de algum negro para conseguir a informação que queria, mas não obteve resposta, ao contrário, quando os negros descobriram sua intenção, começaram a mudar os nomes de seus deuses para o nome de santos da igreja católica e diziam—se cristãos.
Para poderem continuar praticando seus rituais, preparavam um altar que sempre era coberto por um lençol branco, depositavam as oferendas, comidas e presentes para seus Orixás.
Embora ele fingisse acreditar, sabia que estava sendo enganado e continuou procurando e torturando os escravos.
Por ter muito orgulho de seu nome, desejou ardentemente ter um filho, mas só teve duas filhas, Aurélia e Matilde.
Embora quando elas nasceram tenha ficado triste, com o tempo as reconheceu e as amou.
Matilde estava sempre ao seu lado, carinhosa o atendia em tudo o que precisava.
Aurélia também gostava do pai, mas era mais prática e o ajudava na administração dos negócios.
Ele tinha verdadeira adoração por elas e sonhava com um casamento que além de fazê—las felizes aumentaria a fortuna que já era enorme.
Em uma fazenda próxima moravam Alberto e você, Marconi.
Eram irmãos e praticamente da mesma idade de Matilde e Aurélia e como as famílias se davam muito bem, estavam sempre juntos.
Quando crianças brincavam e sempre vinham me procurar para escutar as histórias que eu tinha para contar.
Marconi, você sabe, sempre gostou muito de Aurélia e ela sabendo disso, fazia com que você fizesse tudo o que queria e atendesse a todos os seus desejos.
Alberto e Matilde, desde crianças, sempre estiveram juntos e também se gostavam muito.
Aurélia não conseguia entender aquele amor e carinho que um sentia pelo outro e resolveu que gostava de Alberto e que não permitiria que eles ficassem juntos.
As famílias resolveram que para que a fortuna não fosse dividida e ao contrário, se unisse, deveriam se casar.
Marconi, Matilde e Alberto ficaram felizes, pois era o que mais queriam, mas Aurélia ficou desesperada.
Ela não queria se casar com Marconi, mas sim com Alberto.
A data e a festa dos casamentos foram preparadas.
Seriam no mesmo dia.
Tudo foi feito com muito luxo.
Para que não houvesse brigas futuras entre as duas famílias, foram construídas duas casas em cada fazenda, assim os casais poderiam morar um tempo em cada uma.
Tudo estava perfeito, mas Aurélia embora não demonstrasse, estava infeliz e passava o tempo todo imaginando uma maneira de impedir que Matilde se casasse com Alberto.
No dia do casamento, tudo saiu como o planeado.
A cerimónia foi muito rica e bonita.
As noivas estavam lindas e pareciam felizes.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 8:23 pm

Na festa havia pratos apetitosos e vinho de boa qualidade.
Enquanto a festa acontecia na casa grande, os negros sabendo que não estariam sendo vigiados aproveitaram e fizeram comidas para seus Orixás, dançaram e cantaram em sua homenagem.
Na hora do brinde, quatro taças com champanhe foram oferecidas aos noivos, que beberam felizes.
Assim que terminaram de beber, Alberto e Matilde demonstraram que não estavam bem e em poucos minutos caíram mortos na presença de todos os convidados.
Houve muita confusão, ninguém entendia o que havia acontecido.
Desesperada, Aurélia apontou para Marconi e começou a gritar:
— Foi ele! Foi ele!
Marconi, sem entender o que estava acontecendo, olhou para ela, perguntando:
— O que está dizendo, Aurélia?
Sou culpado do quê?
— Você me disse que estava casando contrariado e que faria qualquer coisa para que esse casamento não se concretizasse!
Vi quando você conversava com aquele negro velho e ele lhe deu um pacotinho com um pó dentro.
Delegado! O veneno deve estar no quarto dele, vá até lá e procure, sei que vai encontrar!
— O delegado, por sugestão de Aurélia, dizendo que ele era uma autoridade, foi até a fazenda de Marconi e ao seu quarto.
Não levou muito tempo para encontrar um pacotinho com um pó branco.
Aurélia ficou feliz quando viu que o delegado acreditou no que havia dito.
Sabia que ele encontraria o tal pacotinho que havia sido colocado por ela em um lugar estratégico.
Você foi preso e condenado.
Ficou preso por muito tempo.
Levi, depois que a festa terminou e todos foram embora, mandou me chamar.
Eu estava na festa dos negros, não dançava mais porque já estava muito velho.
Embora eu tivesse a mesma idade de Levi, pelo trabalho ao sol durante a vida toda e pela alimentação de má qualidade, aparentava ser muito mais velho.
Quando recebi o chamado por um dos escravos da casa e sem saber o que havia acontecido, fui até a casa grande.
Quando me aproximei, estranhei que a festa já houvesse terminado e as pessoas estavam indo embora.
Entrei na casa e vi o corpo de Matilde e Alberto caídos no chão.
Sem entender o que havia acontecido me aproximei de Levi, que estava sentado em uma poltrona feita de madeira e perguntei:
— Qui cunteceu, sinhô?
— Como se atreve a fazer uma pergunta como essa Bartolomeu?
— Num to intendendu, sinhô...
— Como não?
Não se faça de bobo, sabe muito bem o que aconteceu! – disse nervoso e gritando.
Eu fiquei assustado com aquilo que via e tentei dizer:
— Nun sei, não, sinhô...
– Claro que sabe!
Você ajudou aquele canalha do Marconi a matar minha filha e Alberto!
— Eu, sinhô?
— Não precisa mentir, já sei de tudo o que aconteceu!
— Nun fiz nada, sinhô...
— Não quero mais ouvir suas mentiras!
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 8:24 pm

— Sem mis nada dizer, chamou o capataz e mandou que eu fosse chicoteado até morrer.
Fui açoitado e por ser muito velho, não suportei por muito tempo.
Vi quando amigos que, assim como vocês fazem hoje, vieram me buscar.
Adormeci e quando acordei estava em um quarto.
Fui recebido com sorrisos por amigos nossos que partiram antes e que estavam esperando que eu acordasse.
Ao tomar conhecimento de que havia morrido e do que havia acontecido, comecei a chorar, não pela minha morte, mas por Levi ter fracassado mais uma vez.
Bartolomeu, emocionado por se lembrar de tudo o que havia acontecido, parou de falar.
Os outros que o ouviam com atenção, choravam e também permaneceram calados.
Ademir foi o primeiro a falar:
— Lembro—me desse dia, Bartolomeu.
Como todos fiquei surpreso, mas por ser seu amigo e de Alberto e saber o quanto ele gostava de Matilde, estava triste por tudo o que havia acontecido com eles.
Sabia que você Marconi, não havia feito aquilo e muito menos que você havia lhe dado o veneno, Bartolomeu.
Você nos conhecia desde crianças e sempre demonstrou muito amor por todos nós.
Nunca faria aquilo.
Não conseguia saber ou entender o que havia acontecido.
Enquanto você, Marconi, esteve preso, eu o visitei várias vezes.
Você sabia o que havia acontecido, que Aurélia tinha planeado tudo aquilo, mas sabia também que não teria como provar.
— Também sofri muito naquele tempo, Marconi.
Você era meu irmão, sempre tinha sido muito carinhoso com todos nós.
Não dava para acreditar, mas como o veneno foi encontrado lá em casa, não havia como contestar.
Papai, triste por não acreditar que você havia feito aquilo, foi ficando doente e um ano após também morreu.
Eu e Ademir nos casamos e fomos para a faculdade.
A fazenda ficou sendo dirigida por Armando, nosso primo, que sempre cuidou muito bem dela e de nós também.
— Nossa quanto sofrimento!
— Foi muito sofrimento mesmo, Marina.
Aconteceram coisas que ninguém, por mais que imagine, pode entender.
— Mesmo assim, Bartolomeu, você disse que está aqui para ajudar Levi?
Bartolomeu, enxugando as lágrimas com as mãos, disse:
— Ele sempre foi meu amigo, Marina.
— Mas sempre lhe fez muito mal também...
— Sim, tem razão.
Depois de tomar conhecimento de tudo o que houve e depois de estar recuperado, pedi para voltar à fazenda e tentar ajudar Levi.
Permitiram que eu, acompanhado de alguns amigos, voltássemos.
Quando cheguei, percebi que Levi estava pior do que havia sido até aquele dia.
Ficou com mais ódio dos negros e muito mais daquela religião que eles praticavam.
Proibiu qualquer manifestação religiosa, pois sabia que eles o enganavam, dizendo—se cristãos.
Todo negro que fosse pego praticando qualquer ritual seria colocado no tronco e chicoteado até morrer, mas nem sempre isso aconteceu.
Muitos foram mortos, mesmo sem dar motivo algum, bastava que Levi desconfiasse e dava a ordem, que era cumprida imediatamente.
Fiquei muito triste com o que vi.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 8:24 pm

Por isso, durante a noite enquanto ele dormia, eu me aproximava e tentava conversar com ele, pois assim como está acontecendo agora com Aurélia, ele também atraiu para junto de si entidades das trevas.
Essas entidades o envolviam por uma nuvem densa, igual àquela que vocês viram envolvendo Aurélia, que impedia que eu me aproximasse.
Com muita oração consegui ficar à distância e lhe falava, na esperança que ele pudesse ouvir algumas palavras.
Tentei lhe mostrar o mal que estava fazendo para os negros e muito mais para ele mesmo.
Rita, sua esposa, morreu logo em seguida a todos aqueles acontecimentos.
Aurélia que, a principio, vibrou por seu plano ter dado certo, com o tempo se deu conta de que havia matado não só sua irmã, mas também ao homem que julgava amar.
Espíritos das trevas se aproximaram dela e começaram a atormentá—la.
Ela não conseguia esquecer o momento em que os dois haviam morrido e não conseguia comer ou dormir.
Andava pela fazenda, conversando com Alberto e dizendo o quanto o amava.
Em uma manhã tomou do mesmo veneno que tinha colocado nas taças e do qual havia guardado um pouco, caso naquela noite não conseguisse.
Quando isso aconteceu, eu estava ao seu lado, mas não consegui evitar.
Aqueles que ela havia atraído por companheiros estavam ao seu lado, só esperando para que cometesse aquele delito para apoderarem—se e levá—la para onde quisessem.
Bartolomeu parou de falar.
Os outros, emocionados, continuaram olhando para ele, esperando a continuação da história; Enquanto Bartolomeu falava, os outros choravam.
Marconi emocionado, disse:
— Nessa época eu estava preso e só soube o que tinha acontecido com ela quando morri e me encontrei com você, Bartolomeu.
— Sim, você morreu antes de todos.
Eu, que já participava de uma equipe e fazia o trabalho que fazem hoje, estava à sua espera e o conduzi para um lugar seguro.
Contei—lhes o que havia acontecido com Aurélia e o que temia que fosse acontecer outra vez com Levi.
Depois de recuperado, você começou a trabalhar ao meu lado.
— Sim, a principio eu não queria ir, tinha muito medo de doenças e da morte.
Embora soubesse que estava morto, ainda achava que ela em alguns casos era injusta, mas depois de acompanhar muitos espíritos nessa hora, percebi que ela não era injusta, mas era uma bênção.
Participando desta equipe e tendo como professor você, Bartolomeu, aprendi que a morte sempre vem na hora em que precisa vir e que ela é sempre justa.
Cada espírito tem um tempo certo para viver na Terra e poder se libertar do corpo que o aprisiona e impede que veja com clareza o que fez ou deixou de fazer.
Crianças e jovens, embora sejam apresentados dessa maneira, são espíritos velhos, que já viveram muito e às vezes, o tempo em que vivem na Terra é o tempo que lhes restava para atingirem a plenitude.
— Tem razão, Marconi, também quando eu e a Donata morremos, fomos convidados por Bartolomeu para trabalharmos na sua equipe e assim como você, Marconi, aprendemos muito.
— Para vocês dizerem isso é muito fácil, pois são espíritos iluminados e têm uma visão e conhecimento maior que quase cem por cento da humanidade.
A maioria não pensa assim.
Quando perde um ente amado se desespera.
Eu mesma não aceitei e embora tente até hoje aceitar, não consigo entender por que tive de morrer tão cedo e abandonar meu marido que me amava e aos meus filhos ainda tão pequenos.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 8:24 pm

— Assim como você, Marina, existem outros tantos que pensam da mesma maneira, mas com o tempo, sei que entenderá o que aconteceu e o porquê.
Marina ouviu o que Donata disse, mas não deu muita atenção.
O que queria mesmo era saber o que havia acontecido com Levi e por que Bartolomeu, depois de tudo aquilo, ainda continuava ao seu lado.
Bartolomeu, depois dessa pausa, continuou falando:
— Levi, quando viu a maneira como Aurélia morreu, entrou em desespero.
Ele, que sempre fora um homem muito rico e poderoso e ainda continuava sendo, estava ali sozinho.
Perdeu sua família de uma maneira que nunca havia imaginado e aos poucos, pensando em tudo o que havia acontecido, algumas vezes tentou mudar de atitude, mas não conseguiu.
Estava muito envolvido pelas entidades das trevas e continuou perseguindo os negros e sua religião.
Quando eu conseguia ultrapassar a nuvem densa e fazer com que ele ouvisse algumas de minhas palavras, ele sentia saudade do tempo em que conversávamos e sabia que durante toda vida eu sempre havia sido seu melhor amigo e queria muito que eu estivesse ali, naquele momento, para poder ter alguém com que pudesse conversar.
Mas isso durava pouco, pois as entidades que o acompanhavam, assim que percebiam a minha presença, o envolviam com mais força e ele não conseguia mais me ouvir.
O tempo passou e ele também como todos, morreu.
Como havia acontecido com Aurélia, também foi levado por aquelas figuras sinistras.
Eu estava ao seu lado, mas impedido pelas criaturas, não consegui me aproximar, muito menos impedir.
Ele havia usado seu livre—arbítrio e escolhera um caminho para seguir.
O tempo passou, continuei trabalhando na equipe e acompanhado por vocês, ajudamos a muitos.
Um dia, fomos chamados e nos comunicaram que estava na hora de resgatarmos Aurélia e Levi.
Vocês se lembram como foi imensa a nossa felicidade.
Sabíamos que eles teriam uma nova chance e nós os reveríamos novamente.
— Sim, Bartolomeu, como não nos lembramos daquele dia?
Depois de nos reunirmos, fomos em busca deles e a maneira como os encontramos nos deixa tristes até hoje.
Eles estavam em uma situação indescritível.
Assustados, dementados, não conseguiam nos reconhecer.
Nós nos aproximamos primeiro de Aurélia e depois de Levi.
Com muito cuidado e carinho conseguimos trazê—los.
Foram tratados e depois de algum tempo, já estavam em condições de conversar e saber o que havia acontecido e o porquê.
Tomaram conhecimento de tudo e mostraram—se arrependidos e desejosos de ter uma nova chance.
A equipe que cuida das reencarnações disse que em breve seríamos chamados, pois deveríamos decidir juntos.
— Esse dia chegou, Marconi.
Nós nos reunimos e a equipe de reencarnação disse para Levi:
— Estivemos pensando muito, Levi, por tudo o que fez e para que possa resgatar seu espírito, achamos que deveria voltar como negro e ser um dirigente espiritual da religião deles a qual perseguiu com tanto ardor.
Assim, poderá sentir o que um negro sente quando é discriminado.
Sua principal missão será a de ser um guardião dessa religião, ensinar todos os mistérios e magias para seus muito seguidores que se identificam com ela.
Para nossa surpresa, Levi começou a chorar e a dizer:
— Não posso... Não quero, Bartolomeu, vou fracassar outra vez...
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Mar 30, 2017 8:24 pm

— Por que não, Levi?
Terá uma óptima chance de resgatar em uma só encarnação, tudo o que fez de mal na anterior...
— Não quero... Não quero...
— Também não entendi.
Por que ele não queria? – perguntou Marina.
Bartolomeu olhou para Donata e rindo disse:
— Donata, você sempre foi muito curiosa, mas essa moça ganha de longe...
Todos que conheciam Donata também riram.
Bartolomeu se voltou para Marina e continuou falando:
— Em parte, sabíamos que ele tinha razão e medo de ser um líder espiritual.
— Por quê?
— Ser líder espiritual ou um comunicador em qualquer área é um desafio muito grande para qualquer espírito.
— Ainda não entendi.
Sempre achei que um líder tem a chance de ajudar a muitas pessoas, fazendo com que tenham mais facilidade para entender o que se passa à sua volta.
— Nisso você tem razão, Marina, mas um líder pode e na maioria das vezes é o que acontece, usar de sua liderança em beneficio próprio, não só por ambição, mas também por poder, orgulho e vaidade.
— Ainda não entendi.
— Um líder espiritual, de qualquer religião, política ou um comunicador, torna—se para as pessoas que o seguem, quase um Deus.
Elas acreditam em tudo o que ele diz e se deixam levar.
Se um líder espiritual não for alguém sério, poderá levar essas pessoas por caminhos de submissão total, fazendo com que elas façam tudo o que ele quiser, tirar delas todo o dinheiro que possuem.
Com isso, embora não saibam ou não se importem, estarão trazendo para si a responsabilidade da Lei de acção e reacção e terão de responder perante a espiritualidade.
Por isso, quando é comunicado a um espírito que ele terá de voltar como comunicador, político ou líder espiritual, ele, quase sempre sente muito medo, pois essa é uma missão muito difícil de ser cumprida e quase todos fracassam.
— Nunca pensei sobre isso... fracassam, por quê?
— Um líder espiritual, como aqueles que professam na Umbanda, Candomblé e em outras religiões, tem por obrigação e dever ensinar tudo o que aprenderam sobre sua religião.
Na Umbanda e no Candomblé precisam também ensinar a seus seguidores a magia e a história de seus Orixás, que representam as forças da Natureza.
Mas, de posse dessa magia, eles na maioria das vezes, ao sentirem o poder que exercem sobre as pessoas, por orgulho, vaidade e principalmente ganância, se aproveitam e exploram, mentem.
Outros fazem como fez aquele que Aurélia foi procurar.
Fazem “trabalhos” para separar um casal ou até destruir um inimigo.
Esses estarão contraindo para si dividas enormes, assim como aqueles que o procuram.
O mesmo acontece com o líder espiritual do Cristianismo.
Ele tem por dever e obrigação ensinar o que Jesus nos deixou.
Ao judeu deve ser ensinado o que está escrito no Tora e aos muçulmanos, o que lhes deixou o Profeta Maomé, assim como nas demais religiões.
Infelizmente, quando os líderes na maioria das vezes, ao perceberem que têm muitas pessoas que os endeusam, deixam—se levar pelo poder, vaidade, orgulho e ganância e também começam a explorar essas pessoas para as quais a palavra dele é lei.
— Nossa... Que horror.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:14 pm

— Sim, é verdade, mas isso acontece também com escritores e comunicadores de rádio, televisão e jornal.
Assim que descobrem que vendem muitos livros ou que têm uma audiência muito grande no rádio ou na televisão, ou que vendem muitos jornais, enchem—se de orgulho e julgam—se superiores aos demais.
Esse é o primeiro passo para se deixarem envolver pelo orgulho, vaidade, poder e o pior, pela ganância, assim passam a desvirtuar o que fizeram e no que acreditaram até então.
Começam a só escrever e falar aquilo que pode lhes render mais poder e dinheiro.
— Isso é verdade?
— Sim, Marina.
Está vendo por que os espíritos não querem nascer como lideres?
— Estou e também nunca vou querer ser um líder....
— Não, Marina, não deve pensar assim.
O líder é importante e necessário.
Ele, assim como pode subjugar e destruir uma pessoa, pode também ajudar e incentivar outras para que conquistem seu lugar e direitos.
O líder espiritual pode e deve ensinar uma pessoa a pensar naquilo que está em suas leis, sem desvirtuar ou desejar para si glória, poder e dinheiro.
O pai de santo deve ensinar a seus filhos como adorarem, louvarem e presentearem seus Orixás.
Pode e deve trabalhar com Exu para que ele ajude uma pessoa a conseguir trabalho, curar uma doença ou até desmanchar uma demanda ou algo que foi feito contra ela.
Por suas energias serem parecidas com a dos encarnados, eles fazem isso muito bem.
O que não podem é usar Exu para prejudicar ou destruir e nunca, nunca mesmo, cobrar por isso.
Se conseguirem cumprir essas leis como eu disse para Levi, podem em uma só encarnação, resgatar todos os erros passados, pois estarão ajudando a muitas pessoas.
— Qual é a religião verdadeira?
— Todas as religiões são boas e não existe uma verdadeira.
Todas elas são compostas por espíritos encarnados e entre eles, como acontece em qualquer lugar, sempre existem os bons e os ruins.
Deus, quando nos criou e nos deu o livre—arbítrio, como não poderia deixar de ser, sabia que todas elas existiriam e que cada um ficaria e professaria aquela que fosse mais útil para o seu aperfeiçoamento e sua caminhada em direcção a Ele.
— Deus é sábio mesmo.
— Se não fosse assim, ele não seria o criador de tudo e de todos.
— O que aconteceu para que Levi aceitasse essa missão, já que ele tinha tanto medo de fracassar novamente?
— Conversamos muito e eu lhe fiz ver as enormes conquistas que poderia ter.
Ele relutou e só aceitou quando lhe disse que voltaria não mais como um encarnado, mas como seu guia espiritual e que estaria sempre ao seu lado.
Ele aceitou e aqui estamos.
— Por isso continua com a aparência de negro, escravo e velho?
— Por isso e para não me esquecer de que, não importa a aparência, o que importa é o espírito e sua caminhada e que não sou diferente nem melhor que Levi.
Só encontrei o meu caminho um pouco antes.
Naquela época, eu tomava conta dessa equipe em que trabalham hoje, Marina e você, Jaime.
Fiquei muito triste em ter que deixá—la, mas como sabia que estaria em boas mãos, entreguei a vocês e parece que estão indo muito bem, não é Ademir?
— Sim, com a ajuda da espiritualidade e por termos tido um óptimo professor.
— Como Levi está se comportando? – perguntou Jaime.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:14 pm

— Até aqui, muito bem.
Acredita de todo seu coração nessa religião.
É dedicado e três vezes por semana tem trabalhos com caboclos, preto velhos, marinheiros, boiadeiros e claro, com Exu, mas só praticando o bem e também, com seus filhos de santo.
Todos ajudam a muitas pessoas que os procuram.
Aos domingos, faz uma reunião com seus filhos e lhes ensina tudo sobre a religião, inclusive suas magias e a maneira de trabalharem.
Sempre faz questão de dizer que não é superior a eles, apenas tem um pouco mais de conhecimento.
Esta casa foi deixada por seu pai, portanto não precisa pagar aluguel.
As pessoas e os filhos de santo trazem flores, velas e todo o material que é usado para poderem trabalhar.
Levi não cobra pelo trabalho e nem permite que um filho de santo seu também cobre.
Vive do salário que recebe de uma empresa, onde trabalha como electricista.
Eu estou muito feliz, pois sinto que, dessa vez, ele conseguirá vencer todos os seus preconceitos e voltará vitorioso.
— Vitória essa que, em grande parte, deve a você, Bartolomeu.
— Talvez eu tenha ajudado Ademir, mas a vitória é toda dele.
Se não tivesse a convicção de fazer a coisa certa, a minha presença, como das outras vezes, não adiantaria.
Marina e Jaime, diferentes de Ademir, Donata e Marconi, que já o conheciam, estavam extasiados e ouviam com atenção o que Bartolomeu dizia.
Tinham tido contacto com espíritos iluminados, mas nunca com um igual a ele.
Ela, ainda curiosa, perguntou:
— O que Aurélia decidiu nessa reunião em que estavam discutindo uma próxima encarnação?
— Ela reconheceu seu erro, pediu para voltar com uma missão que fizesse com que ela tivesse a chance de resgatar seus erros.
Depois de muito conversarem, chegaram à conclusão de que ela e Alberto teriam de se encontrar novamente para, desta vez, ela esquecer o amor doentio que sentia por ele e se libertar.
Trabalhariam juntos em uma indústria farmacêutica, onde poderiam desenvolver estudos para que remédios fossem criados e ajudassem na cura de muitas doenças.
Assim, juntos, também ajudariam a muitas pessoas.
— Parece que não está dando certo.
— Sim, infelizmente parece, mas para Deus nada é impossível.
Existe uma equipe que trabalha exactamente com a intenção de ajudar para que todas as oportunidades sejam dadas aos espíritos para que encontrem seu caminho.
Uma delas está ao lado de Aurélia.
Bem, agora que terminei minha história, acho que já podem ir embora.
Devem ter muito que fazer.
— Temos, sim, Bartolomeu.
Hoje à tarde, lá pelas seis horas, algo muito importante vai acontecer e precisamos estar presentes.
— Vocês me levarão até a minha casa para que eu encontre a minha família?
— Ainda não, Marina. Não está na hora.
Mas não se preocupe, essa hora chegará.
— Está bem. Estou tão feliz com tudo o que estou vendo e aprendendo, que desejo ficar por aqui por muito tempo.
— Antes de irmos embora, posso fazer um pedido?
— Claro que sim, Marina.
Estava esperando por isso.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:15 pm

Sabia que não sairia daqui antes de ver o que existe dentro do barracão.
Marina sorriu, sabia que um espírito como aquele devia adivinhar seu pensamento.
Bartolomeu e os outros sorriram.
Ele disse:
— Não é preciso ser um espírito iluminado para adivinhar seu pensamento, basta simplesmente conhecê—la.
Vendo a expressão envergonhada de Marina, continuou:
— Não precisa ficar envergonhada, a curiosidade é uma de suas qualidades.
Devemos, sim, querer saber de tudo o que acontece e como acontece em qualquer religião, assim será mais difícil sermos enganados.
Vamos entrar?
Apontou para a porta que estava aberta e todos
entraram. Bartolomeu foi o último.
Lá dentro, ouviram uma música suave que envolvia todo o ambiente.
Na frente deles, havia um altar com imagens de vários santos da igreja católica, conhecidos por todos.
No centro, a imagem de Jesus com os braços abertos.
Todo o altar estava enfeitado com flores e velas que permaneciam acesas.
Os outros conheciam aquele lugar, já haviam estado ali muitas vezes em busca de alguma erva para algum doente para quem embora estivesse muito mal, ainda não havia chegado à hora de partir.
Marina e Jaime, ao contrário, nunca haviam estado em um lugar como aquele.
E estavam encantados com beleza das luzes que saíam das velas e que subiam para o alto a uma distância que não tinham como calcular.
Só viam que elas ultrapassavam em muito o telhado.
— Essa luz vai muito além daquilo que podemos ver ou imaginar, Marina.
Ela, para aqueles que acreditam, serve de farol e direcção para que os mortos não fiquem perdidos.
— E isso é verdade?
— Para aqueles que acreditam, sim.
Bartolomeu, Ademir, Marconi e Donata aproximaram—se do centro do altar, fizeram uma reverência e saíram.
Marina e Jaime, mesmo sem entender o que significava, fizeram o mesmo.
Saíram do barracão.
Abraçaram—se para se despedirem de Bartolomeu, que disse:
— Apareçam sempre, estarei aqui ainda por muito tempo.
Levi está só com quarenta anos e só morrerá depois dos oitenta.
— Sabe que apareceremos, Bartolomeu, pois sempre precisaremos de suas ervas ou de seus conselhos.
Sorriram e com um aceno de mão, foram andando em direcção ao portão da casa.
Marina e Jaime estranharam, pois estavam acostumados a desaparecer de um lugar e chegar ao outro, mas ficaram calados e acompanharam os três.
Agora sim, em poucos instantes estavam no hospital e no mesmo lugar perto do banco em que estavam sentados e decidiram ir falar com Bartolomeu.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:15 pm

A HISTÓRIA DE JAIME
Sentaram—se no banco, menos Marconi que permanecendo em pé, disse:
— Fiquem a vontade, desfrutem dessa paisagem.
Preciso entrar, já estou há muito tempo fora do hospital.
Preciso falar com Luci e ver como as coisas estão caminhando.
— Vá, Marconi, ficaremos aqui, ou melhor, Donata, o que acha de voltarmos para aquela praça que fica na cidade da Marina?
Acho que temos muito para mostrar a esses dois.
— Acho uma boa ideia, Ademir.
— Façam isso, mas não se esqueçam de que precisam estar aqui às seis horas.
— Não se preocupe, Marconi.
Por nada perderíamos um acontecimento como esse.
Marconi sorriu, acenou com a mão e entrou no hospital.
Marina, desde que ouviu o que Ademir disse, não cabia em si de felicidade.
Sentia que estava chegando à hora de poder ir até sua casa e rever sua família, mas permaneceu calada.
Assim que Marconi desapareceu pela porta, Donata se voltou para ela e perguntou:
— Marina, que achou da ideia de Ademir?
— Estou muito feliz, Donata.
Sempre gostei de passear naquela praça.
Assim, estando perto de casa, poderemos ir até lá nem que seja só por um instante?
— Ainda não está na hora, Marina.
Lembre—se de que estamos aqui a trabalho.
Depois que terminarmos o que viemos fazer e antes de voltarmos, passaremos por sua casa, você verá a todos, matará a saudade e iremos embora.
— Está bem, mas não posso negar que estou muito ansiosa e não vejo a hora que isso aconteça
— Deve estar mesmo, mas precisa aprender a controlar essa ansiedade.
Sabe que ela é a maior causadora de muitos males?
A ansiedade não permite que se pense com clareza e muitos erros são cometidos.
— Sei disso e como sei...
Donata sorriu e disse:
— Você e noventa e nove por cento das pessoas que vivem na Terra sabem disso, mas não adianta.
Sentem—se impotentes perante ela.
Agora, vamos para a praça?
Marina e Jaime sorriram e acompanharam Donata e Ademir e desapareceram.
Em breves instantes, chegaram à praça.
Era um pouco mais de meio—dia e as pessoas andavam apressadas.
Eles sabiam que todos estavam indo para algum lugar almoçar.
Marina e Jaime já haviam aprendido como distinguir os encarnados dos desencarnados e os acompanhavam com os olhos.
Donata apontou um banco que estava vazio, onde se sentaram.
Marina respirou fundo e olhando para uma rua que saía da praça, disse:
— Quanta saudade eu tenho do tempo em que vivi aqui e que era muito feliz.
No meio daquela rua fica a faculdade onde conheci Norberto.
Suspirou fundo e continuou olhando a praça.
De repente, soltou um grito de felicidade, dizendo:
— Olhe lá a Nanci!
— Quem é Nanci?
— Minha melhor amiga, Jaime!
Jaime e os outros olharam para onde ela apontava e viram uma senhora que se aproximava.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:15 pm

Ela se levantou para ir ao seu encontro, mas for impedida por Donata que disse:
— Espere, Marina, sei que está feliz por rever sua amiga, mas não pode se esquecer de que sua energia é diferente da dela e ao se aproximar e tentar abraçá—la, poderá lhe causar mal.
Tome cuidado...
— Obrigada por me lembrar, Donata.
Realmente, eu ia abraçá—la.
Deve imaginar como fiquei feliz ao vê—la, mas ela está diferente, mais velha do que quando a conheci.
— O tempo passou, Marina.
— Sim, é verdade, mas mesmo assim ela continua muito bonita.
Nanci continuou andando e foi em direcção a um dos bancos que existiam na praça.
Marina ficou acompanhando—a com os olhos e viu emocionada, que no banco havia outra senhora sentada que ao ver Nanci, sorriu:
Marina deu outro grito:
— Aquela é a dona Cora!
— Quem é ela?
— A mãe de Nanci.
Elas foram muito importantes em minha vida, muito mais em todo o tempo em que estive doente.
Donata, posso me aproximar delas?
— Sim, pode, desde que não tente abraçá—las.
Marina se aproximou e pôde ouvir o que elas conversavam.
Nanci dizia:
— Finalmente o dia chegou, mamãe.
Hoje é a formatura dele.
Nem consigo acreditar...
— Pode imaginar como estou feliz, Nanci.
Esperei tanto por este dia.
Quando fiquei doente, senti muito medo de morrer antes deste dia.
Meu neto se formando em medicina.
Vai ser um médico!
Nunca em minha vida pensei que teria um médico na família.
Estou muito feliz.
— Também estou, mamãe.
Ele é um menino muito bom e estudioso.
Sei que será um bom médico.
Mas, vamos buscar o presente que comprei para lhe dar?
Pretendo dar essa noite, antes de irmos para a formatura.
— Vamos sim, Nanci.
Sei que ele ficará muito feliz com o presente.
Levantaram—se e saíram andando.
Marina, com lágrimas nos olhos, acompanhou—as com os olhos e disse:
— Quanta saudade...
Obrigada a vocês dois por me trazerem.
Estou muito feliz, mais ainda em saber que Nanci se casou, tem um filho e parece que está muito feliz.
— Sim, ela parece estar muito feliz, Marina.
— Sinto muita saudade daquele tempo.
— Também sinto muita saudade, Marina...
Marina olhou para Jaime, que havia falado e perguntou:
— Posso lhe fazer uma pergunta, Jaime?
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:15 pm

Jaime olhou para Donata e Ademir que falou:
— Já estava demorando muito, Marina.
Sabia que a qualquer momento, você faria essa pergunta...
— Como sabe que eu ia perguntar?
Pode ler meu pensamento?
— Nem precisaria, pois por todo esse tempo em que estamos juntos, pude conhecer você muito bem.
Quer que eu faça a pergunta?
— Está bem, faça, assim ninguém pode dizer que sou curiosa.
O curioso agora está sendo você, Ademir. – falou, rindo e olhando para Donata, que também sorriu.
Ademir também sorrindo e imitando a maneira de Marina falar, perguntou:
— Jaime, quanto tempo faz que você morreu?
É tão jovem... morreu do quê?
Jaime, entrando na brincadeira, também sorriu e respondeu:
— Não faz nem um ano.
— Você é tão jovem...
— Sim, Marina.
Quando aconteceu, também não quis aceitar.
Ao acordar e tomar conhecimento de que havia morrido, assim como aconteceu com você, também me revoltei.
Não entendia o porquê daquilo.
Logo comigo, que havia lutado tanto para chegar aonde cheguei.
Não aceitava e me perguntava por que a vida havia sido tão injusta comigo.
Eu tinha só trinta anos.
Ia completar trinta e um dali a quatro meses.
Havia terminado de me formar em medicina, de fazer minha residência e estava com tudo pronto para meu casamento com Sandra, uma moça que conhecia desde que entrei na faculdade e a quem amava muito.
— Como foi sua vida e a sua morte?
— Desde criança, não sei por que, meu sonho era ser médico.
Minha família não tinha posses, portanto esse sonho seria quase impossível, mas estudei muito, me dediquei e consegui passar em uma Faculdade Federal onde não precisaria pagar.
Contudo, a faculdade ficava distante da cidade em que eu morava e para me manter estudando precisaria de um bom dinheiro.
Meus pais e meus dois irmãos mais velhos do que eu trabalhavam e conseguiram me manter estudando.
Foi uma época muito difícil para todos nós, mas consegui e me formei.
Depois, fiz dois anos de residência em um hospital público, trabalhei muito, mas foi lá, no dia a dia que realmente aprendi muito.
— Que aconteceu para que uma carreira como essa fosse interrompida e um jovem médico tão promissor morresse?
— Quando comecei a estudar na faculdade, conheci Sandra.
Ela não era estudante, trabalhava no escritório da faculdade e fazia o trabalho burocrático.
Assim que nos vimos nos apaixonamos e começamos a namorar.
Sabíamos que eu precisava me formar, fazer a residência e que só poderíamos nos casar depois que isso acontecesse.
Ela não se importou e continuamos o namoro.
Ela era uma moça muito pobre.
Desde que nasceu, havia sido criada em um orfanato e não sabia quem era sua família.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:16 pm

Depois que saiu do orfanato sempre se manteve sozinha.
Pagava seu aluguel, vestuário e alimentação.
Vivia de uma maneira muito simples, mas estava sempre sorrindo e brincando.
Só quando conversávamos sobre como sua vida tinha sido, ela chorando, dizia:
— Não entendo como uma mãe pode abandonar uma criança e nunca mais querer saber dela...
— Sua mãe deve ter tido um motivo muito forte, um problema para ter feito isso, Sandra.
Não deve condená—la... uma mãe não abandona seu filho a não ser que não tenha como evitar isso.
— Tento não condená—la, Jaime, mas não consigo.
Ela pode ter tido um motivo, mas a vida dá muitas voltas.
Será que em algum momento da vida ela não deve ter ficado em condições de voltar ao orfanato e procurar saber o que havia acontecido comigo?
Se ela tivesse feito isso, me encontraria e minha vida teria sido diferente, mas não, nunca fez isso.
Ela não deve ter tido problema algum, eu devia ser uma criança que ela não esperava e por isso sim me tornei um problema e assim que nasci, ela se desfez do problema e o esqueceu para sempre...
— Não deve sofrer por isso, pois pelo menos ela permitiu que você nascesse, se tornasse essa linda moça que eu amo e que farei o possível para fazer feliz.
Não se preocupe mais, Sandra.
Quando nos casarmos, teremos muitos filhos e você poderá dar a eles todo o amor que não teve.
Esse tempo ruim em sua vida está terminando.
— Ela me ouvia e ficava mais calma.
— Coitada dessa moça...
— Também achava isso, Marina, mas não ficava preocupado, pois sabia que assim que nos casássemos, ela seria recompensada por todo o tempo de sofrimento por que havia passado.
Continuei os estudos e quando me formei, sabia que teria pela frente dois anos de residência, o que não seria fácil para nós dois, pois os plantões seriam difíceis e cansativos.
Teria de trabalhar muitas noites e ela trabalhava durante o dia, o que sabíamos, dificultaria nossos encontros, mas mesmo assim continuamos com o firme propósito de esperar e assim fizemos.
Aqueles dois anos de residência realmente foram difíceis.
Quase não nos encontrávamos, mas quando isso acontecia, o nosso amor era maravilhoso.
Terminei a residência e comuniquei à minha família que queria me casar.
Eles ficaram muito nervosos e não quiseram aceitar.
Conheciam Sandra, mas não como eu.
Eu a havia levado em casa só algumas vezes e ficávamos pouco tempo.
Não acreditaram que aquele namoro continuaria depois que me formasse.
Achavam que ela, além de não pertencer à nossa religião, não era uma moça à minha altura e diziam que eu era um médico e merecia uma moça que tivesse uma família para apresentar e que, de preferência, essa família tivesse dinheiro.
Quando eles falavam isso, eu ficava nervoso, brigava e dizia:
— Não me importa quem possa ter sido a família dela!
O que me importa é que amo essa moça e sei que seremos felizes.
— Meus irmãos, que haviam me ajudado para que eu pudesse estudar, diziam:
— Investimos tanto em você para que se tornasse alguém e agora que está formado e que vai começar a ganhar dinheiro, vai tudo para essa moça que não tem um tostão furado!
— Isso não me importa, já estou com trinta anos e sei muito bem o que quero da minha vida!
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:16 pm

Houve muitas discussões e brigas sérias, mas eu me mantive sempre na mesma posição, até que um dia, quando estávamos todos reunidos naquele clima de brigas estranho, minha mãe disse:
— Jaime, estivemos conversando e já que você não quer nos ouvir, decidimos que você tem razão quando diz que já tem trinta anos e sabe o que quer da vida, não temos mais o que fazer.
Por isso você precisa entender que, embora tenha decidido isso, nós não precisamos nem queremos participar dessa loucura.
Essa mulher vai estragar a sua vida, porém sabemos que você só se dará conta disso quando estiver velho.
Não estamos dispostos a esperar todo esse tempo.
Portanto, se quer mesmo continuar insistindo nessa loucura, queremos que saia desta casa e que só volte quando recuperar a razão e nos diga que abandonou essa mulher...
— Meu Deus...
Sua mãe disse isso, Jaime?
— Sim, disse, Marina.
— O que você fez?
— Olhei para todos eles e com lágrimas nos olhos fui até o meu quarto, peguei duas malas, coloquei algumas pelas de roupa e saí dali.
Estava triste e ao mesmo tempo revoltado com toda aquela situação.
Minha família não conhecia Sandra, a não ser nos poucos momentos em que a levei até minha casa e que ela ficava o tempo todo ao meu lado.
Por sentir que não era bem—vinda, ela ficava calada.
Eles não tiveram tempo de conhecê—la e não quiseram, apenas a descartaram de nossa família.
Sofri muito.
— Posso imaginar.
Não entendo como sua família e principalmente, sua mãe, pôde fazer aquilo.
— É fácil de se entender, Marina.
— Como fácil, Donata?
Se pensarmos bem, não havia motivo algum.
Jaime estava feliz e só isso deveria importar.
— Disse bem, deveria, mas nem sempre o que deveria agrada as pessoas.
Sua família, Jaime, havia esperado muito de você.
Queria que simbolizasse o valor e orgulho dela própria e uma moça como Sandra, pobre e sem família, estava longe disso.
Para eles, o amor entre vocês não importava.
Não sabiam, mas estavam perdendo um momento maravilhoso de reconciliação.
— Sabia disso, mas pensava que com o tempo, conheceriam Sandra mais a fundo e assim como eu a conhecia, aconteceria o mesmo com eles, mas não houve tempo.
— Não houve tempo, por quê?
— Eu estava surpreso com aquilo, não esperava, por isso não tinha para onde ir nem sabia o que fazer com a minha vida.
Durante todo o tempo em que estive com Sandra, ela continuou morando com mais duas amigas em um apartamento que alugaram juntas, pois sozinha, com o salário que ganhava, não daria para pagar.
Elas, quando alugaram o apartamento resolveram que, para evitar constrangimento, nunca levariam um namorado até lá, por isso, sempre nos encontrávamos em qualquer lugar que não fosse no apartamento.
Depois de pegar as malas, nervoso com tudo aquilo, saí apressado de casa.
Meu carro estava estacionado do outro lado da rua.
Atravessei sem olhar.
Um carro vinha se aproximando e mesmo contra vontade do motorista que fez tudo para evitar, fui atropelado e morri ali mesmo.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:16 pm

— Meu Deus...
Morreu na frente da sua casa?
Deve ter sido horrível...
— Sim, morri na frente da minha casa, mas não senti coisa alguma, parece que adormeci antes do impacto.
Só soube o que havia acontecido quando acordei em uma casa muito grande e bonita.
Minha avó mora nela e me recebeu com muito carinho.
— Como não sentiu coisa alguma?
— Posso responder a essa pergunta, Marina.
Sabendo o que ia acontecer, uma equipe como a nossa, segundos antes, se aproximou e cortou os fios que o prendiam ao corpo, Jaime.
Por isso, você não sentiu o momento do impacto.
— Se a equipe sabia, Donata, por que não evitou?
Por que ele não saiu de casa um pouco antes ou um pouco depois?
— Porque aquele era o momento em que o acidente aconteceria, Marina.
— Então, mesmo que não houvesse a briga, o acidente aconteceria?
— Sim, Marina.
O tempo de Jaime havia terminado.
Ele já tinha cumprido sua missão.
— Que missão, Donata?
Eu, depois de muito esforço e sacrifício, havia terminado meus estudos.
Estava formado naquilo com que havia sonhado durante toda a minha vida.
Amava Sandra e era amado por ela, íamos nos casar!
Como pode dizer que cumpri minha missão, ela estava só começando!
— Sua missão estava cumprida, Jaime.
Sua missão não era ser médico na Terra, mas sim, aqui ao nosso lado.
Sandra e sua família precisavam continuar com suas vidas, aparar as arestas, se perdoarem mutuamente.
— Isso é fácil de dizer, mas os motivos da espiritualidade são diferentes do que pensamos quando estamos encarnados.
Quando acordei, minha avó disse essas mesmas palavras.
Confesso que aceitei, mas não entendi e não entendo até hoje.
— Sei disso, mas chegará o dia em que entenderá, Jaime.
— Sua família e principalmente sua mãe, não se sentiu culpada pelo acidente?
— Não sei, Marina.
Desde aquele dia em que acordei na casa de minha avó, tentei e pedi várias vezes para voltar, mas sempre me disseram que não era a hora.
Depois, comecei a trabalhar no hospital dando assistência para aqueles que chegavam, me envolvi no trabalho e não tive muito tempo para me preocupar com mais nada, sabia que quando chegasse à hora, seria avisado.
— Chegou a hora, Donata?
— Sim, Marina.
Se quiser, Jaime, podemos ir até sua casa e ver como tudo está por lá.
Você quer?
— Verdade, Donata?
— Sim, quando convidamos você para que viesse connosco, foi para que pudesse ir até a sua casa.
— Poderei ver todos eles?
— Sim, foi para isso que veio.
— Também poderei ver a Sandra?
— Também, Jaime.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:17 pm

— Por que não me contaram?
Pensei que estaria somente acompanhando vocês para conhecer o trabalho e poder trabalhar nesta equipe ou em outra como esta.
— Isso também é verdade.
Quando terminarmos o que viemos fazer, conversaremos a esse respeito.
— Donata, Ademir, vocês não podem imaginar como estou feliz!
Podemos ir agora?
Ademir sorriu e disse:
— Entendo sua felicidade, Jaime, mas preciso lhe dizer que nem tudo pode estar da maneira como pensa e que precisará de muita força para entender o que está acontecendo.
— Falando assim, está me deixando com medo, Ademir...
— Não precisa ficar com medo, só precisa ter muita força para entender o que está acontecendo.
Bem, mas já que quer ver sua família, não podemos perder tempo.
Agora é quase uma hora da tarde e não podemos nos esquecer do compromisso que temos às seis horas.
— Está bem, então vamos?
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:17 pm

VOLTANDO PARA CASA
Chegaram ao portão de uma casa, assim que a viu, falou quase gritando e muito nervoso:
— Esta é a minha casa!
Foi aqui que nasci e fui criado.
Tive uma infância maravilhosa e feliz.
— Que bom que está feliz, Jaime, mas não está notando alguma coisa diferente?
— Não, Ademir. O que é?
— Preste atenção, olhe as cores das paredes.
Jaime olhou com mais atenção, depois perguntou:
— Que aconteceu com esta casa?
Suas paredes estão mofadas, com a pintura velha!
É triste vê—la dessa maneira.
Nunca foi assim, meus pais sempre a conservaram muito bem.
Todos os anos, a pintura era trocada.
Ela sempre teve a aparência de nova.
Eles tinham muito orgulho dela, pois a conseguiram após muito tempo de trabalho.
Que aconteceu, Ademir, para que ela ficasse assim tão feia?
— A dor, o sofrimento e a mágoa, o ódio e a revolta atraíram espíritos que tem os mesmos sentimentos.
— Como aconteceu isso?
— Sua família, Jaime, desde sua morte tornou—se infeliz, triste e revoltada.
Ninguém aceita sua morte e atrai companhias iguais.
— Eu até entendo o que sentiram, pois eu mesmo demorei a aceitar, mas precisamos fazer alguma coisa Ademir.
Eles não podem continuar assim...
— Para tentarmos isso é que estamos aqui.
Vamos entrar e entender o que está acontecendo.
— Não entendo como isso pôde acontecer, Ademir...
— Esta casa agora, para as pessoas que passam pela rua, está parecendo uma casa velha e feia, quando na realidade ela não é.
As paredes com pintura velha, mofadas, indicam que nela existe muito sofrimento e dor.
Espíritos que também sentem dor e sofrimento perceberam a energia que dela se propaga por quilómetros, vieram e se instalaram aqui.
— Essa dor e sofrimento foram causados pela morte de Jaime?
— Em parte sim, mas não só por isso, Marina.
— Não? Por que mais poderia ser?
— Como está minha família?
E minha mãe? Está bem?
— Você mesmo pode olhar.
Vamos entrar?
Jaime estava aflito, sabia que alguma coisa poderia ter mudado depois de sua morte inesperada, mas nunca imaginou que poderia ter mudado tanto.
Respondeu:
— Vamos, Ademir.
Sinto que algo não está bem, preciso ver como todos estão e tentar ajudá—los.
Ademir consentiu com a cabeça, entraram em casa e depois em uma sala.
Em um sofá e em frente a um aparelho de televisão, uma senhora estava sentada.
O aparelho estava ligado, mas podia—se perceber que a senhora embora estivesse olhando para o programa que era transmitido, não ouvia nem prestava atenção.
Ela não chorava, mas seu pensamento estava distante, no dia em que Jaime morreu.
Por toda a sala e embora não visse por toda a casa, havia entidades envoltas por energias pesadas.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:17 pm

Ao lado da senhora, algumas entidades estavam sentadas e outras rodopiavam à sua volta.
Quanto mais ela pensava, mais as entidades abraçadas a ela, choravam.
Jaime correu para ela e a abraçou, chorando e tentando fazer com que ela o visse.
Disse:
— Mamãe, não fique assim, estou bem.
A senhora sentiu uma tontura e quase desmaiou.
Ademir rapidamente o afastou dela, dizendo:
— Não faça isso, Jaime.
Sua energia é diferente da dela e poderá lhe fazer mal.
— Quero abraçá—la e dizer que estou bem, Ademir.
Ela está muito mal, seu cabelo todo branco e despenteado!
Nunca a vi assim!
Ela sempre foi muito vaidosa.
Logo pela manhã, a primeira coisa que fazia era colocar uma roupa bonita, salto alto e se maquiar.
Eu até brigava com ela, dizia que o salto alto poderia fazer mal à sua coluna, mas ela ria e dizia que sentiria dor se não o usasse.
Essa não é nem de longe a mãe que conheci...
Ela não pode continuar assim...
Olhou à sua volta e disse:
— Esta sala está descuidada, os móveis cheios de poeira...
Isso nunca aconteceu.
Ela sempre foi muito zelosa com a casa e principalmente com esta sala.
Ela não pode continuar assim, Ademir!
Está se matando!
— Tem razão, Jaime, por isso estamos aqui e trouxemos você.
Precisamos tentar mudar essa situação.
— Por que tentar, Ademir?
Não podemos simplesmente mudar?
— Se não houver mudança de pensamento das pessoas que aqui vivem, infelizmente não, Marina.
São esses pensamentos que as atraem.
As entidades não conseguiam vê—los.
Jaime estava muito nervoso ao ver sua casa e principalmente sua mãe naquela situação.
Não percebeu a presença de quatro entidades que estavam ali e que olhavam para todos eles.
Uma delas disse:
— Olá, Ademir, Donata e você, Jaime!
Ainda bem que chegaram.
Estávamos ansiosos pela chegada de vocês.
— Olá, Romeu, parece que as coisas não estão muito bem nesta casa.
— Já notaram?
Não estão bem mesmo, embora tenhamos tentado, não conseguimos que a faixa de pensamento mudasse e as entidades sofredoras estão encontrando aqui um reduto para ficar.
— Já notamos isso, mas parece que há algo mais.
Jaime olhava para aquele homem.
Parecia conhecê—lo, mas não conhecia.
Olhou para as outras entidades que olhavam para ele e sorriam, mas também não as reconhecia.
Confuso, perguntou:
— Desculpem, parece que me conhecem, mas eu não os reconheço...
— Sabemos disso, Jaime.
Somos velhos amigos de sua família.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:17 pm

Estamos há muito tempo trabalhando nesta equipe de auxílio para ajudar as famílias quando seus entes queridos voltam para a casa do Pai e agora estamos aqui.
Não só por fazer parte de nosso trabalho, mas por sermos amigos de todos vocês.
Não está nos reconhecendo porque nesta sua encarnação não viemos, permanecemos na espiritualidade fazendo o nosso trabalho.
Estes são Isaura, Felício e Pedro.
Jaime olhou para os outros e tentou sorrir.
Depois perguntou, aflito:
— Que está acontecendo aqui na minha casa e principalmente com minha mãe?
Ela não é nem a sombra do que sempre foi!
— Ela está com remorso por ter brigado com Jaime no dia da sua morte e sente—se culpada?
Todos olharam para Marina que havia feito essa pergunta.
Donata se adiantou:
— Romeu, esta é Marina.
É a primeira vez que faz parte de uma equipe, por isso está muito curiosa em saber como tudo funciona.
— Acontece com todos, não é Donata?
Donata não respondeu, apenas sorriu.
— Sim, Marina, todo esse sofrimento é resultado do sentimento de culpa, de ódio, mágoa e foi também o que trouxe até aqui essas entidades que estão espalhadas por toda a casa.
Principalmente aquelas que estão naquele canto da sala.
Olharam para onde ele apontava e viram três entidades de aparência sinistra, que pareciam adormecidas.
Marina, como sempre, não se conteve e perguntou:
— Quem são elas?
Parece que também não estão bem, que estão muito doentes...
— São entidades que cometeram suicídio e que até agora não entenderam sua situação.
Estão aqui para levarem Gina ao suicídio e da maneira como ela está reagindo, esse dia não está longe.
Desde o dia da sua morte, Jaime, estamos tentando fazer com que sua mãe reaja, mas está difícil.
Há pouco ministramos passes magnéticos nas entidades para que adormecessem e Gina pudesse ficar por um tempo livre delas, mas não será por muito tempo.
Ela está presa a um sentimento de ódio muito forte e se não se livrar dele dificilmente resistirá ao apelo do suicídio.
— Ódio, por quem e por quê?
Romeu ia responder, quando ouviram som da campainha da porta que tocou por várias vezes, até que finalmente Gina a ouviu e lentamente se levantou, foi até a porta e a abriu.
Para espanto de Jaime, quem estava tocando a campainha era seu pai.
Confuso, perguntou:
— Meu pai tocando a campainha para entrar em casa?
O que está acontecendo aqui?
Ele sempre teve sua chave!
Novamente, Romeu ia responder, mas não teve tempo.
Armando, o pai de Jaime, assim que Gina abriu a porta, disse:
— Senti uma enorme vontade de vir até aqui para ver como você está, Gina.
— Estou bem. Pode ir embora.
— Não, Gina, você não está bem!
Não pode continuar assim.
Vou entrar, precisamos conversar...
Ele, afastando—a, entrou e se sentou no mesmo sofá em que ela estava sentada.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:18 pm

As entidades que estavam adormecidas, com o barulho da campainha despertaram, se assustaram com a presença dele e se afastaram, ficando a uma certa distância.
Gina olhou bem nos olhos do marido e disse, nervosa:
— Não temos o que conversar, Armando.
Você tomou seu partido e seus filhos também, não quero vê—los nunca mais.
Só quero morrer e encontrar meu filho.
— Você sabe que o que está dizendo não é a verdade, Gina.
Não tomamos partido, apenas entendemos que havíamos praticado um erro e assumimos a nossa parcela de culpa.
Só isso, mas ainda é tempo de repararmos e tudo voltar a ser como era.
— Nada, nunca mais será como era...
Meu filho foi morto antes da hora e a culpa foi daquela mulher!
Eu a odeio e continuarei odiando—a até o fim da minha vida!
Ela destruiu a nossa família, foi culpada de tudo!
Por causa dela, você e nossos filhos se afastaram desta casa e de mim.
O pior foi que Jaime foi morto antes da hora!
Se ela não tivesse aparecido em nossa vida, nada disso teria acontecido.
Jaime estaria hoje clinicando, como sempre foi o sonho dele e o nosso.
Poderia fazer a especialidade em pediatria e seria um médico famoso!
Por causa dela, que pertence ao mundo, nada disso aconteceu e ele foi morto!
Eu a odeio! O que aconteceu connosco, Armando?
Sempre acreditamos, seguimos e pregamos a palavra de Deus.
Sempre pagamos nossos dízimos, fizemos nossas ofertas para que Deus nos abençoasse.
Sempre julgamos que servíamos a um Deus poderoso, como Ele pôde permitir que isso acontecesse?
Só pode ser por causa daquela mulher que não seguia sua palavra!
Marina olhou para Donata, que sabendo o que ela estava pensando, disse:
— Estão vendo como não importa a religião?
Sempre que algo de ruim acontece, a reacção é sempre a mesma, não aceitamos e nos revoltamos, mas vamos continuar ouvindo a conversa.
Armando se aproximou de Gina, a abraçou e chorando ficaram assim, calados, pois não sabiam o que poderia ser dito naquele momento.
Jaime acompanhava o que a mãe dizia e não pôde evitar as lágrimas que surgiram em seus olhos.
Donata percebeu, abraçou—o e disse:
— Não fique assim, Jaime.
Foi por isso que o trouxemos até aqui, para tentarmos reverter esse quadro.
Sei que não será fácil, mas faremos tudo o que estiver ao nosso alcance.
— Entendo o que ela está dizendo, Donata.
Realmente, sempre foi muito crente e fez tudo o que a igreja pregava.
Achava que, por cumprir a sua obrigação, estaria livre de qualquer sofrimento, mas hoje vejo que não é bem assim, que todos, independente de religião, estamos sujeitos às mesmas leis.
— Hoje você sabe, mas ela não e por isso está sofrendo tanto.
Se acreditasse na vida pós—morte, não sofreria dessa maneira.
— Sei disso, Donata, mas o que mais me preocupa é que está culpando a Sandra, quando na realidade isso não é verdade.
Nem ela nem Sandra tiveram culpa do que aconteceu... como vocês disseram, meu tempo havia terminado e eu atravessaria aquela rua, naquele segundo em que outro carro vinha se aproximando.
Nem um segundo antes nem um segundo depois... como isso pode estar acontecendo com minha família?
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 8:18 pm

Sempre fomos felizes, eles estão casados há quase quarenta anos e nunca imaginei que um dia os veria assim...
— Isso tem um nome, Jaime.
Preconceito e para ele, sempre existe uma desculpa.
— Preconceito, Donata?
Como, por quê?
— Sim, Jaime, novamente voltamos a ele.
Essa palavra está presente em quase todos os espíritos que vivem na Terra.
O preconceito pode destruir muito mais do que se possa imaginar.
— Não pode ser verdade, minha família nunca teve preconceito, a não ser quando comecei a namorar Sandra...
— É sempre assim que acontece.
Todos dizem que não têm preconceito, mas só falam isso, quando na sua família está longe de acontecer.
O preconceito costuma—se dizer que é só racial, mas na verdade ele está presente em todas as actividades humanas e existem em todos.
— Desculpe, Donata, mas acho que você está exagerando... eu nunca tive preconceito...
— Não estou exagerando, Marina.
Quantas vezes já ouviu alguém dizer:
não gosto daquele porque é negro ou não gosto daquele porque é branco.
Não gosto daquele porque é católico ou não gosto daquele porque é protestante.
Não gosto daquele porque é pobre ou não gosto daquele porque é rico.
Não gosto daquele porque é estudado e doutor ou não gosto daquele porque é ignorante e não tem estudo.
Não gosto daquele porque é judeu ou não gosto porque é muçulmano.
Não gosto daquele porque é espírita ou não gosto porque é umbandista ou do candomblé.
Sempre existirá uma desculpa, mas ele se fará presente na primeira oportunidade.
Marina olhou para Donata sem saber o que responder.
Ficou pensando e analisando sua vida passada.
Donata continuou:
— O preconceito, embora o espírito encarnado não queira admitir, existe em todas as camadas sociais e é uma mistura de ódio e de inveja.
A humanidade, desde sua criação evoluiu na ciência e tecnologia, mas deixou muito a desejar no sentimento e na igualdade.
O sentimento de amor, compreensão e aceitação do outro como ele é e não tentando modificá—lo ou afastá—lo de sua presença.
Isso há muito deixou de existir ou nunca existiu realmente e o espírito só encontrará sua realização plena e a Luz Divina quando isso acontecer; Gina se afastou de Armando e disse, raivosa:
— Isso não poderia ter acontecido, Armando!
Nosso filho não podia ter morrido daquela maneira!
Ele era um jovem talentoso e estudioso!
Como médico, poderia ajudar a muitas pessoas e tinha muito para oferecer!
Ele morreu enquanto outros, pobres e sem instrução, que nada têm para oferecer, continuam vivos e saudáveis!
Isso não é justo, Armando!
Não é justo!
Armando ficou calado, mas com a cabeça concordou.
Donata, sorrindo tristemente, disse:
— Olhem um exemplo vivo de preconceito.
Gina disse: meu filho jovem, saudável e com instrução morreu, enquanto aquele outro, filho de não sei quem, pobre e sem instrução, está vivo.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

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