ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:53 pm

Ao seu lado estava um homem que a abraçava e também chorava.
A senhora dizia:
— A culpa é nossa, Fernando!
Não devíamos ter comprado o carro para ele...
— Não podíamos fazer isso, Alice.
Tínhamos prometido que se conseguisse entrar na faculdade, daríamos o carro.
Assim que passou no vestibular, ele nos lembrou da promessa, precisávamos cumprir.
Como podíamos ter adivinhado que isso aconteceria?
— Isso não está certo, Fernando.
Ele é o nosso único filho, como vai ser daqui para frente se ele morrer?
Como poderemos continuar vivendo?
— Ele não vai morrer Alice!
Os médicos conseguirão salvá—lo, você verá!
Para isso eles estudam muito e se dedicam.
Eles salvarão o nosso menino.
Precisamos ter fé em Deus.
Já falamos muito sobre isso.
Durante todo o tempo em que seguimos a Doutrina, aprendemos muito Alice...
Alice olhou para o marido e disse:
— Sei que falamos muito sobre isso e na bondade de Deus e no Seu amor, mas como posso confiar em Deus, Fernando, se ele está tirando nosso filho?
Que Deus é esse?
— Sei que tem razão para estar tão desesperada, mas não podemos nos esquecer do que, durante tantos anos, aprendemos na casa espírita.
Sempre dissemos que tudo está sempre certo e que não podemos julgar a ninguém, muito menos a Deus.
Ele é o único que sabe de tudo...
Alice olhou com raiva para ele e chorando desesperada, disse, quase gritando:
— Casa espírita? Casa espírita?
Nunca mais irei a uma casa espírita!
Do que adiantou nos dedicarmos tanto tempo em frequentar a casa espírita, ajudar as pessoas se no final a nossa recompensa foi essa?
Foi esse o pagamento que tivemos?
Esse Deus de quem tanto falamos está nos tirando nosso único filho, nosso bem maior!
Como posso acreditar em qualquer coisa?
Como posso acreditar que tudo está sempre certo?
Donata, percebendo que Alice estava fora de si e que era o momento de intervir, colocou a mão sobre a garganta de Fernando, que parecendo estar mais calmo, disse:
— Será que todo o tempo em que estivemos na casa espírita, depois de termos lido tantos livros e acreditarmos em uma vida após a morte, não serviu para nada, Alice?
Será que nada aprendemos?
Quantas vezes consolamos mães e pais que perderam seus filhos?
Quantas vezes eles nos disseram que realmente, nossas palavras os haviam ajudado?
Não será esta a hora de usarmos tudo o que aprendemos para nosso próprio conforto?
Se nosso filho tiver de ir embora, sabe que nada poderemos fazer.
Sabe que o tempo dele terminou, mas que o nosso continua e sabe também que é sim uma vontade de Deus e que Ele sim é o único que sabe de tudo...
— O que está dizendo, Fernando?
Acha que se meu filho morrer, algum dia poderei me esquecer dele e não sentir revolta pelo que aconteceu e da maneira que foi?
Ele é jovem, bom, estudioso, muito carinhoso e tem a vida toda pela frente.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:53 pm

Sei que durante tanto tempo trabalhamos na casa espírita.
Do que adiantou?
Não tivemos protecção alguma!
— Não estou pedindo para que se esqueça do nosso filho, também nunca conseguirei esquecer, mas como sempre dissemos aos pais que nos procuraram, devemos pensar da mesma maneira:
Deus é quem sabe das coisas e se isso aconteceu, deve ter existido um motivo.
— Que motivo pode ter existido?
Ele é um jovem feliz, estudioso e carinhoso, é um bom filho...
Tem a vida toda pela frente!
Não é um marginal que só poderia causar problemas para a sociedade, ao contrário, sendo médico como queria ser só poderia fazer o bem.
Não estou entendendo a sua atitude, parece que não gosta do seu filho, que não está se importando com o que pode acontecer com ele!
— Claro que gosto do meu filho, Alice.
Só estou repetindo as mesmas palavras que sempre dissemos e em que sempre acreditamos.
Será que durante todo esse tempo, você não aprendeu nada?
Será que durante todo esse tempo esteve apenas fingindo que acreditava?
— Mas era diferente, Fernando...
— Diferente por que, Alice?
— Falávamos sobre os filhos e parentes das outras pessoas, nunca poderia imaginar que um dia isso estaria acontecendo connosco...
Com o nosso filho...
— Também nunca imaginei, mas se aconteceu devemos aceitar e como falávamos para os outros, devemos nos dizer as mesmas coisas.
Tudo está sempre certo e tudo o que nos acontece na maioria das vezes é resultado de nossas próprias escolhas.
Hoje, mais do que nunca, precisamos acreditar nisso, Alice.
— Sei que deveria ser assim, mas não consigo, Fernando!
Ele é nosso único filho!
Como posso aceitar?
Como poderei viver sem ele?
— Nada vai acontecer.
Nosso filho vai se recuperar e tudo voltará a ser como sempre foi, mas se acontecer, teremos de usar para nós mesmos as mesmas palavras que sempre usamos para com os outros, da mesma maneira que tentamos conformar outras mães e pais que perderam seus filhos.
Mais do que nunca, precisamos acreditar em tudo o que aprendemos, para o nosso próprio bem e para o bem de Octávio.
Devemos entregar a ele e a nós mesmos nas mãos de Deus.
Ele nos ama e é quem sabe das coisas, Alice.
Só Ele sabe o verdadeiro motivo para esse acidente ter acontecido...
Só Ele, Alice, ninguém mais.
Precisamos acreditar nisso...
— Sei que deveria ser assim, mas não está sendo.
Comecei a frequentar a casa espírita, a ler e a querer entender o plano espiritual, primeiro por curiosidade, depois pensando que se me dedicasse, estaria protegida e nada de mal poderia me acontecer.
Com o tempo fui me sentindo bem e importante por ver as pessoas me procurarem pedindo ajuda.
Sentia—me muito bem sendo procurada.
Acho que só o que me importava era isso.
Estava me sentindo importante, segura e achava que já que era importante e estava ajudando a tantas pessoas, nada de mal poderia me acontecer.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:53 pm

Esse era o pagamento que eu achava que merecia por tanta dedicação!
— O que está dizendo, Alice?
Queria só ser procurada pelas pessoas que sofriam para se sentir importante?
Não acreditava naquilo que dizia?
— Claro que acreditava, mas me sentia muito bem sendo procurada e enaltecida.
Achava que por frequentar uma casa espírita e ajudar as pessoas, nada de mal poderia me acontecer, pois eu era uma escolhida por Deus.
“— Não consigo acreditar nisso que está dizendo, Alice!
Você não pode ter agido assim.
Isso não pode ser verdade... você está dizendo isso por estar nervosa e desesperada...
— Não estou dizendo por estar nervosa ou desesperada, Fernando.
Era isso exactamente o que sentia.
Achava que por poder ajudar as pessoas, eu era uma escolhida e que nada de mal poderia me acontecer, mas vejo que estava enganada, que tudo o que sempre preguei era uma mentira!
— Alice, você não está em seu juízo perfeito.
É impossível que não acreditasse no que dizia.
Quantas vezes dissemos para as pessoas que tudo o que tivesse de acontecer, aconteceria, que a doutrina espírita ensina que podemos passar por uma dificuldade rindo ou chorando, mas que ela acontecerá e que o bom e o ruim passam e que de cada experiência boa ou ruim, sobra muito aprendizado.
Quantas vezes dissemos isso, Alice?
Milhares de vezes.
Você não podia estar mentindo...
— Eu não estava mentindo.
Eu dizia tudo isso, mas achava que nunca passaria por um momento como este.
Agora que estou passando, não aceito tudo o que sempre disse!
Meu filho é um rapaz que estuda, trabalha e nos ajuda na casa espírita como médium e evangelizador!
Não merecia isso, Fernando!
Isso não poderia ter acontecido, não com ele...
— Não acredito, Alice que você, embora tenha passado tanto tempo na casa espírita, tenha lido tantos livros, não tenha aprendido nada!
Eu, ao contrário, sempre acreditei e já entreguei meu filho nas mãos de Deus.
Sei que tudo o que aconteceu teve um motivo e por isso, não me desespero.
Ela, quando ouviu aquilo, ficou mais nervosa ainda, parou de chorar e perguntou quase gritando:
— Como pode dizer isso, Fernando?
Você não pode estar aceitando dessa maneira tudo o que está acontecendo com nosso filho e connosco!
— Estou aceitando e dizendo por que acredito que seja assim que funcione.
Já parou para pensar por que Octávio estava passando naquele momento e naquele cruzamento onde encontrou outro carro que vinha do outro lado e os dois se chocaram?
Não podiam ter passado um minuto antes ou depois?
Se isso aconteceu, foi porque tinha ou estava programado e precisava acontecer.
Sempre dissemos para as pessoas que nos procuraram aquilo em que sempre acreditei.
Acreditei e acredito que a encarnação tem sempre um planeamento e que os participantes concordaram com o que foi programado.
Se nosso filho morrer é porque era assim que deveria ser, Alice, e que foi Octávio mesmo quem escolheu.
Não podemos nos esquecer de que, também, já que somos seus pais, também devemos ter escolhido com ele.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:53 pm

— Você não pode acreditar nisso que está dizendo!
Não pode estar aceitando dessa maneira!
Não posso acreditar nisso que está dizendo, Fernando!
— Claro que estou acreditando, Alice.
Foi isso que aprendi e em que acreditei durante muito tempo.
Tudo que acontece é porque tem de acontecer.
Cabe a nós escolhermos como devemos aceitar.
Alguns aqui na Terra poderão dizer que o que aconteceu foi um acidente.
Eu prefiro acreditar que tenha sido um acerto de contas entre eles dois.
— Não consigo entender nem aceitar o que está dizendo, Fernando!
Eles não se conheciam!
Nosso filho está morrendo e o outro, pelo que ouvi dizer, não sofreu um arranhão, como quer que eu aceite isso?
— Por isso mesmo, por ele não ter sofrido um arranhão é que digo que pode ter sido um acerto de contas.
Alice recomeçou a chorar copiosamente.
Havia realmente aprendido tudo aquilo que Fernando dizia, mas mesmo assim, estava sendo difícil aceitar que seu filho estava morrendo.
Fernando abraçou—a e choraram juntos.
Donata retirou a mão que continuava sobre a garganta dele e disse:
— Agora está tudo bem.
Ela está chorando porque está relembrando e pensando em tudo o que aprendeu, ficará melhor.
Podemos voltar para junto de Octávio.
Marina, abismada com tudo o que havia presenciado, perguntou:
— Donata, ela realmente tinha conhecimento de como era na vida espiritual?
Ela realmente sabia e confortava as pessoas na hora do sofrimento?
Sim, Marina, durante muitos anos estudou e acreditou em tudo o que pregava e foi uma das melhores médiuns da casa espírita que frequentava.
Sempre deu atendimento para as pessoas que estavam sofrendo pela perda de um ente querido.
Sempre teve ao seu lado um protector que a orientava nas palavras que devia dizer e na maioria das vezes, conseguia fazer com que as pessoas que a procurassem saíssem aliviadas.
Por isso era muito elogiada e procurada.
No começo, tudo era normal para ela, mas com o tempo deixou—se levar pelo orgulho e cada vez que era procurada, sentia—se como ela mesma disse, importante, uma escolhida, quando na realidade não é assim.
As pessoas que escolheram, antes de nascer, ajudar a outras, é porque em encarnações passadas, prejudicaram a muitos.
— Isso que está dizendo é verdade, Donata?
As pessoas que ajudam o fazem porque são devedoras?
— Na maioria das vezes são devedoras e orgulhosas, por isso pedem para fazer esse tipo de trabalho, não só para resgatarem, mas também para superarem seu orgulho.
— Todas são assim?
— Claro que não, Marina.
Algumas escolhem esse caminho pelo simples desejo de ajudar, mas estarão sempre sujeitas a se deixarem dominar pelo orgulho.
Isso não acontece só nas casas espíritas, mas em todas as profissões, em todos os segmentos da sociedade e em todas as religiões.
O orgulho é um dos principais empecilhos para o aperfeiçoamento.
Todos aqueles que, por qualquer motivo, podem ser reverenciados por ajudar aos outros, precisam tomar muito cuidado para não se deixar envolver pelo orgulho.
Alice aprendeu tudo sobre a vida após a morte e como funciona o plano espiritual, mas na hora em que teve de provar sua fé, aconteceu isso que está vendo.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:54 pm

— Estou vendo, mas não entendo.
Se ela acreditava no que aprendeu, por que não aceita o que está acontecendo com seu filho?
Não entendo...
— Porque, como ocorre com a maioria das pessoas que participam, por muito tempo, de qualquer religião, seguem os rituais, ensinamentos e mandamentos, somente pelo orgulho que sentem ou pelo poder que podem exercer sobre as outras pessoas.
Quando são procuradas para dar um conselho ou apenas ouvir, sabem exactamente o que dizer para consolar as pessoas que a procuram, mas na primeira oportunidade em que devem realmente demonstrar sua fé, agem como Alice.
Porque, embora tenham mostrado para as outras pessoas que são religiosas e que acreditam no que dizem, no fundo não acreditam.
Tudo não passa de aparência, para que os outros vejam.
Por isso, para Deus, não existe religião.
Para Ele, não importa a que religião cada um pertença.
Para Ele, só interessa o ser humano, sua caminhada e evolução.
— Está dizendo que não se deve seguir nenhuma religião, Donata?
— Não, ao contrário, a religião é importante porque o ser humano traz dentro de si lembranças do passado, por isso sabe que, em algum lugar existe um local de paz, de felicidade e inconscientemente procura por esse lugar.
Daí, embora acredite na matéria e em tudo o que ela pode e deve conquistar, também acredita que existe algo superior que o protege e ajuda e é em busca dessa ajuda que todos se filiam a uma religião.
O perigo das religiões é quando elas se julgam as melhores, únicas e verdadeiras e partem para destruir as outras, tornando seus seguidores fanáticos.
Isso, durante a história, já foi e é, ainda hoje, a causa de muitas guerras e destruição.
Todas as religiões são boas, pois todas ensinam à palavra de Deus e as de Jesus e não poderia ser diferente, pois o que Jesus disse está escrito e não há como se mudar.
Outras que não são cristãs acreditam nos ensinamentos deixados por seus profetas.
Existem também os indígenas que não conhecem as palavras de Jesus e acreditam nos deuses da Natureza.
Existem ainda aqueles que são ateus e que não acreditam em religião alguma, muito menos em Deus.
Por acreditarem nessa ou naquela religião ou por deixarem de acreditar serão abençoados ou abandonados?
Não, claro que não.
Independente de qualquer religião, todos somos filhos do mesmo criador e estamos sujeitos às mesmas leis, entre elas duas muito importantes, a de acção e reacção e a do livre—arbítrio.
Somos filhos de um mesmo criador e livres para escolher a religião que quisermos ou não aceitar nenhuma delas, mas responsáveis por nossa caminhada, pois com ou sem religião essa caminhada terá de acontecer e depende de cada espírito e de sua escolha, independente de religião.
Marina ouvia com atenção o que Donata falava, ia fazer mais uma pergunta, mas foi interrompida por Rosa que entrou na sala, dizendo:
— Donata, está na hora, Marconi e Ademir mandaram chamar vocês.
— Está bem, vamos.
Voltaram para o quarto onde Octávio e os outros estavam, no exacto momento em que Marconi cortava o fio que estava preso na cabeça de Octávio e que ele dava o último suspiro.
O médico, sentindo sua impotência diante da morte, triste, disse para uma das enfermeiras que o acompanhava:
— Terminou, nada poderá ser feito.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:54 pm

Preciso conversar com os pais.
Providencie para que o corpo seja levado.
Dizendo isso, tirou sua roupa cirúrgica, saiu da sala e foi conversar com Alice e Fernando.
Marina, emocionada, viu Octávio que, adormecido, foi levado por quatro entidades que chegaram enquanto ela estava ao lado de Alice e de Fernando.
Por isso, ela não as conhecia.
Em seguida, olhou para o médico que saía da sala e também para Donata, demonstrando a vontade que sentia em acompanhá—lo.
Queria ver qual seria a reacção de Alice e de Fernando.
Donata, percebendo o que ela pretendia, disse:
— A curiosidade não é boa companheira, Marina.
Nosso trabalho aqui terminou.
— Sei disso, Donata, mas por favor, preciso saber se nesta hora Alice vai colocar em prática tudo o que aprendeu.
Donata olhou para Marconi e para Ademir, que com a cabeça, concordaram.
Ela disse:
— Está bem, Marina, podemos ir – voltou—se para Rosa e perguntou:
— Também quer ir, Rosa?
— Sim, Donata.
Alice é minha filha e neste momento precisa muito de toda a ajuda que eu possa lhe dar.
Donata sorriu e olhou para Jaime, perguntando:
— Quer ir connosco, Jaime?
Embora não demonstre tanto quanto Marina, sei que também tem curiosidade.
Ele, um tanto envergonhado, disse:
— Desculpe, Donata, mas queria sim ver como tudo isso vai terminar.
Donata sorriu e com a mão fez um sinal para que a acompanhassem.
Em poucos instantes, estavam junto a Alice e Fernando, no exacto momento em que o médico se aproximou e disse:
— Desculpem, mas não consegui.
Fiz tudo o que estava ao meu alcance, mas ele não resistiu.
Alice, desesperada, começou a chorar.
Fernando a abraçou.
Por detrás de seus ombros, deixou que lágrimas caíssem por seus olhos e pensou:
Meu Deus sei que chegou o momento de meu filho partir rumo aos Seus braços.
Sei também que sofreremos muito e será triste e difícil a sua ausência, mas, por favor, Senhor, permita que ele seja acompanhado por espíritos amigos, para que possa chegar ao seu destino sem problemas.
Um dia o Senhor o colocou em meus braços, agora, eu o estou devolvendo sabendo que seu tempo aqui na Terra terminou.
Seja feita a sua vontade.
Ajude—nos a mim e principalmente a Alice a suportar tudo o que está acontecendo.
Para espanto de Marina e de Jaime, uma luz imensa e branca surgiu do alto e iluminou os dois, que continuavam abraçados.
Marina e Jaime não se contiveram e começaram a chorar diante da beleza daquela luz.
Donata, Ademir e Marconi, acostumados a ver aquela Luz, também emocionados, apenas sorriram.
Com muita emoção e não se contendo, Marina perguntou:
— Que Luz maravilhosa é essa, Donata?
— É a Luz Divina que foi mandada para nos mostrar que em todos os momentos, bons ou ruins, Deus está sempre ao nosso lado e também para nos avisar que Octávio está bem e que cumpriu sua missão.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:54 pm

— Como bem, Donata?
Ele morreu muito jovem...
— Sim, mas esta Luz que vimos nos mostra que ele está bem, portanto cumpriu sua missão.
— Continuou não entendendo.
Você sabe por que aconteceu o acidente?
Por que ele morreu e o outro não sofreu nenhum arranhão?
— Não, não conheço o motivo, pois trabalho há muito tempo nesta equipe ou em outras como esta, que dá assistência para aqueles que estão desencarnando.
Existem outras equipes que, quando o espírito renasce, o acompanham em todos os momentos para ajudá—lo a realizar sua missão.
— Acha que Fernando estava certo quando disse que se tratava de um acerto de contas?
— Pode ser, mas como só um morreu e o outro não teve nem um arranhão, pode—se deduzir que, embora não se conhecessem nesta encarnação, podem ter sido amigos de muito tempo e provavelmente, quando escolheram a vida que teriam, Octávio por saber que o amigo havia fracassado por várias vezes, resolveu acompanhá—lo para que, se estivesse pronto a fracassar novamente o ajudasse.
— Está dizendo que só Octávio morrei para evitar que o amigo fracassasse outra vez?
— Eu disse que pode ser, mas não conheço a história de cada um.
Quem pode, talvez, nos esclarecer é Rosa.
Ela esteve sempre ao lado da família que também permanece junta há muitas encarnações.
Pode nos esclarecer, Rosa?
— Acredito que sim.
Como você disse, Donata, estamos há muito tempo convivendo.
Eu, Alice e Fernando sempre estivemos juntos.
Octávio e Roberto que é o nome do outro rapaz vieram depois.
Marina interrompeu Rosa, perguntando:
— Desculpe por interromper, mas Fernando teve razão quando disse que foi um acerto de contas?
Eles eram inimigos em outras encarnações?
Rosa sorriu e respondeu:
— Poderia ter sido, mas neste caso não foi.
Como você disse, Donata, Octávio e Roberto sempre foram amigos.
Octávio, após muitas encarnações, conseguiu se esclarecer e encontrar o caminho.
Trabalhou por muito tempo em uma equipe que cuidava de reencarnação.
Roberto continuou renascendo, mas sempre caía nas mesmas armadilhas e voltava a fracassar.
Octávio ficava triste e por várias vezes, foi em busca do amigo que estava perdido em algum lugar.
Depois disso, junto com seus companheiros e com a ajuda do próprio Roberto, planeavam a próxima encarnação.
Nesta última, vendo que o amigo tinha muita dificuldade para encontrar o caminho, decidiu que viria para ficar ao lado de Alice e Fernando, amigos também de outros tempos.
Alice, de todos nós, era a que mais precisava de nossa ajuda.
Se tudo corresse bem, eu, Fernando e Octávio a encaminharíamos para que conhecesse a espiritualidade, podendo assim, encontrar o seu caminho.
Tudo foi decidido e aceito por todos nós, inclusive por Roberto.
Eles não se conheceriam para que Roberto tivesse a oportunidade de usar de seu livre—arbítrio e encontrar o seu caminho.
A torcida de todos nós era no sentido de que ele realmente, desta vez, não fracassasse.
Tudo corria bem, até que Roberto começou a se envolver novamente com más companhias que o levariam a cometer os mesmos erros de antes.
Tudo havia sido combinado para que, se isso acontecesse, Octávio o ajudasse de alguma maneira.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:54 pm

Com o acidente e com a morte dele, Roberto terá mais uma oportunidade de repensar sua vida e mudá—la.
Marina disse, nervosa:
— Está dizendo que Octávio morreu para que o amigo tivesse mais uma chance?
Isso está errado!
Se Roberto era quem estava se desviando do caminho, quem tinha de morrer era ele e não Octávio!
— Talvez seja difícil para você entender, Marina.
Mas foi isso que aconteceu.
Roberto sobrevivendo e sabendo que foi o culpado de tirar a vida de um jovem como Octávio, pensará em tudo o que fez e no que poderá fazer daqui para frente e esperamos que seja o certo.
— Mesmo com a morte de Octávio, nada garante que Roberto mudará!
— Nisso você tem razão, mas é uma nova chance.
— O que vai acontecer com Octávio?
— Ele está adormecido e permanecerá assim por mais algum tempo, quando acordar será inteirado de tudo o que aconteceu.
Entenderá e provavelmente dentro de pouco tempo estará trabalhando em uma equipe.
Ele é um espírito de Luz.
— Alice não sabe do motivo por que tudo aconteceu e não poderá aceitar ter perdido o filho.
O que acontecerá com ela e com Fernando?
— Por um bom tempo sofrerão de tristeza, dor e saudade, mas logo surgirão problemas e soluções, alegrias e tristezas.
A vida se encarregará de fazer com que as lembranças fiquem cada vez mais distantes e com o tempo, se lembrarão do filho, é claro, mas não com ódio ou revolta.
Continuarão trabalhando na casa espírita e agora sim, passando por essa experiência, terão muito mais condições de ajudar as pessoas que os procurarem.
— Acha mesmo, Rosa, que Alice voltará a trabalhar na casa espírita?
— Acho, ela já aprendeu muito, embora não tenha usado o que aprendeu, mas aprendeu e daqui para frente, aprenderá muito mais.
Além do mais, eu e Octávio estaremos sempre ao seu lado para ajudá—la em algum momento de indecisão.
Marina se calou.
Não entendia por que tinha de ser daquela maneira, mas também entendia muito pouco da espiritualidade.
Vendo que Marina se calou, Rosa olhou para Donata, sorriu e disse:
— Essa menina é muito curiosa, Donata.
Está me lembrando de alguém quando começou a participar desta equipe.
Ademir, também olhando para Donata e sorrindo, disse:
— Eu que o diga...
Eu que o diga...
Marina e Jaime também se admiraram.
Marina perguntou:
— Donata, você também era curiosa igual a mim?
Donata, um pouco envergonhada, respondeu:
— Nem tanto, Marina, você é muito mais...
Ademir, percebendo o constrangimento de Donata, ainda sorrindo, disse:
— Claro que era, Donata e ainda continua.
Sempre que acontece alguma coisa que ela não entende, sei que logo vem uma pergunta.
— Depois de tanto tempo que fazem esse trabalho, ainda existe alguma coisa que vocês não saibam?
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:55 pm

— Muita coisa, Marina.
Estamos a cada dia aprendendo mais.
O espírito está em constante aprendizado.
— Donata, por isso é que você tem tanta paciência comigo?
— Não me lembrava mais da maneira como eu era, só depois que começamos a conviver foi que percebi e é por isso que não tenho problema algum para responder a todas as suas perguntas.
Quando conheci você, não posso negar que vi a mim mesma e por saber como se sentia, foi que sempre tentei responder às suas dúvidas.
Marina não conseguiu esconder a felicidade, sorriu e disse:
— Que bom que você sabe o que estou sentindo e agora que conheço um pouco mais da sua história, não me sentirei mais constrangida em perguntar.
— Pode perguntar e farei o possível para responder.
Rosa, Ademir e Marconi também sorriram felizes.
Novamente Luci entrou, dizendo:
— Marconi, a Maria Isabel está esperando.
— Está bem, Luci, iremos agora mesmo para lá.
Luci, apressada, saiu.
Marconi olhou para os demais, dizendo:
— Maria Isabel é também uma velha conhecida nossa.
Está se lembrando dela, Donata?
— Como poderia me esquecer?
Não sabia que um de seus pacientes era ela.
— Sim, é ela mesma.
Já a conhece há muito tempo e sabe como é difícil o desprendimento.
— Sei, sim, Marconi.
Ela, apesar de todas as vezes que reencarnou, ainda não conseguiu superar isso.
— Infelizmente não.
Vamos até lá?
— Vamos sim.
Em breves segundos, desapareceram.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:55 pm

DOMINAÇÃO
Entraram em um outro quarto onde, sobre uma cama, estava deitada uma senhora idosa.
Donata sorriu, aproximou—se e carinhosamente disse:
— Olá, Maria Isabel.
Como você está?
A senhora abriu os olhos e ao ver Donata, disse demonstrando com os olhos, a felicidade que estava sentindo:
— Donata, você está aqui?
Há quanto tempo que eu não a via e não sabia de você... por onde tem andado?...
Não estou bem, preciso de sua ajuda...
— Sim, faz muito tempo, Maria Isabel, mas agora estou aqui e vim para ajudar você a voltar para casa.
Lá todos a estão esperando ansiosos.
Maria Isabel ao ouvir aquilo, começou a se debater e nervosa disse:
— Não posso voltar, Donata!
Tenho ainda muita coisa para fazer e principalmente, não posso deixar a Ieda sozinha!
Ela não saberá viver sem a minha companhia.
— Chegou à hora minha amiga.
Não tem nada mais para fazer. Ieda não precisa mais da sua companhia.
Ela precisa continuar sozinha.
— Ela não pode, Donata!
Você nos conhece e sabe como sempre dependeu de mim e também que ela não saberá como continuar!
Vai se entregar ao primeiro homem que aparecer... vai se perder e depois ficar doente!
Entrou no quarto uma outra senhora acompanhada de um médico.
Ela chorava e estava muito nervosa.
Assim que a viu, Maria Isabel disse, com a voz muito fraca:
— Ieda, ainda bem que chegou.
Estava preocupada.
Quero que conheça minha amiga, Donata.
Ela veio me visitar, fazia muito tempo que não à via.
O médico e Ieda olharam para o lado a que Maria Isabel se referiu.
Donata, mesmo sabendo que eles não poderiam vê—la, sorriu e acenou.
Ieda, sabendo da condição da mãe, com lágrimas, perguntou:
— Como ela está, doutor?
— Sinto muito, mas nada mais poderemos fazer.
Como sabe, ela já está doente há muito tempo.
Nem sei como ela suportou até agora.
É uma mulher muito forte.
— Não estou doente coisa nenhuma.
Ele é quem quer me matar, Ieda.
Ele está mandando me aplicar uma injecção que me faz dormir.
Quero ir embora, me leve para casa, Ieda... — Maria Isabel falou com a voz muito baixa, tanto que Ieda precisou encostar seu ouvido bem perto da mãe.
— Não fale assim, mamãe.
Faz muito tempo que o doutor Evaristo está cuidando da senhora.
Ele só quer ajudar e essa injecção que está lhe aplicando é para que não sinta muita dor.
— Mentira! Ele só sabe pedir exames, receitar injecções e receber muito dinheiro por tudo isso.
Só isso, nada mais que isso!
Ele está enganando você, minha filha e como todos os homens só quer o nosso dinheiro!
Sempre lhe ensinei a não confiar nos homens, eles não prestam.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:55 pm

Não se lembra do que seu pai me fez?
Ieda, você precisa me levar embora deste hospital! – Maria Isabel agora estava chorando.
— Ieda tem razão, dona Maria Isabel.
Eu cuido da senhora há muito tempo e sabe o quanto já a ajudei...
Sabe que não é por causa do dinheiro, é por eu ser médico e tentar curar as pessoas, é o meu dever, mas também pela amizade que sinto pela senhora e por ela.
Estou aqui só para ajudar...
— Mentira! O senhor quer que eu morra para ficar com a Ieda e assim pegar todo o nosso dinheiro, mas não vai conseguir!
Eu não vou permitir!
O médico e Ieda, confusos, se olharam.
Ieda, nervosa, perguntou:
— De onde a senhora tirou essa ideia, mamãe?
Conhecemos o doutor Evaristo há muito tempo, ele sempre tratou da senhora e nunca existiu nada entre nós dois que não fosse a preocupação com seu bem—estar!
— Você está dizendo isso só para me enganar!
Pensa que já não vi a maneira como se olham?
Eu não vou morrer e você não vai se casar com ele!
Ieda olhou para o médico, incrédula, sorriu e disse:
— Tem razão, a senhora não vai morrer e eu não vou me casar com ele nem com ninguém.
Ficarei ao seu lado até o dia em que eu morra.
— Então, vai ficar muito tempo...
Não é, Donata?
Ieda e o médico olharam—se e ao mesmo tempo se voltaram para o lugar onde Donata estava.
Outra vez, Donata mesmo sabendo que eles não podiam vê—la, sorriu e respondeu:
— Maria Isabel, seu tempo terminou.
Ieda até agora foi uma filha dedicada, mas ela tem seus próprios compromissos assumidos antes de nascer.
Precisa ficar sozinha e continuar sua caminhada e você não pode mais impedir que ela continue.
Seu tempo terminou, precisa se entregar para que possa ser acompanhada até em casa, onde, verá como se sentirá melhor.
Essas dores e esse mal—estar vão passar e você ficará feliz.
Vamos, Maria Isabel, entregue—se.
— Não posso fazer isso, Donata.
Ela não pode ficar sozinha e se isso acontecer, ela vai se entregar ao primeiro homem que aparecer e isso não vou permitir!
Você não se lembra como fiquei quando o Josias morreu?
Quase me matei...
Não vou permitir que minha filha, que sempre esteve ao meu lado, sofra da mesma maneira que sofri...
Não posso... Não posso, Donata.
— Sei tudo o que aconteceu em sua vida, Maria Isabel, mas sua filha, embora você nunca tenha aceitado, tem o direito de viver sua própria vida e escolher seguir o seu caminho.
Ela, embora você pensasse que fosse, nunca lhe pertenceu, nunca foi sua propriedade.
Ela, como todos nós, é um espírito livre e por isso não pode ser aprisionada.
Você, com seu medo, com sua dominação, fez com que ela perdesse muito tempo, mas agora terminou.
Agora, você irá para casa e lá terá tempo de pensar em tudo o que fez e sua filha continuará vivendo, acertando e errando como todos, mas tendo suas próprias escolhas.
— Donata, você não entendeu nada...
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:55 pm

Ela pode viver, pode fazer suas escolhas desde que seja ao meu lado e longe de qualquer homem que só lhe trará infelicidade...
— Com quem a senhora está falando, mamãe?
— Com Donata! Já não disse que ela veio me visitar?
Ela está dizendo que chegou a hora de eu ir embora, mas eu não quero ir!
Não posso deixar você sozinha, Ieda...
Ao ouvir aquilo, Ieda começou a chorar.
Ela também tinha medo que a mãe morresse e de ficar sozinha.
— Mamãe, a senhora não vai morrer, pois se isso acontecer também não sei como será a minha vida!
Não consigo me imaginar sem a sua presença!
— Está vendo, Donata?
Não lhe disse que ela não saberia viver sem mim?
— Ela saberá sim, Maria Isabel.
Não se preocupe, ela ficará bem.
O seu tempo terminou, o dela só está começando.
— Não ficará bem coisa alguma!
Não está vendo como ela está chorando com medo que eu morra?
— Estou vendo e sei com tem sido a vida de vocês, mas agora terminou.
Precisa aceitar isso.
Está voltando para casa e sabe que lá é muito bom.
— Não quero voltar par lugar algum que não seja a minha casa! Será que você não entende isso, Donata?
Todos acompanhavam a conversa.
Marina, assim como Jaime estavam confusos e não entendiam o que estava acontecendo.
Ademir, com a mão fez um sinal para que esperassem.
Eles entenderam que na hora certa teriam todas as respostas.
Ieda chorava sem parar e com um lenço enxugava as lágrimas.
A porta se abriu e por ela entrou um senhor que ao vê—la ali, perguntou:
— Por que está chorando Ieda, mamãe piorou?
— Sim, meu irmão.
O doutor disse que nada mais pode ser feito.
Tudo o que puderam fazer já fizeram e agora só nos resta esperar.
Estou com muito medo...
— Tem certeza, doutor?
Sabe que ela, apesar de ter setenta e dois anos sempre resistiu e lutou contra a doença.
— Sim, Josmar, tem razão, mas apesar de toda fortaleza ela ficou doente e o peso dos anos conta muito.
— Sei disso, doutor, mas não existe mesmo chance de que ela se restabeleça?
— Infelizmente não.
Já esgotamos todos os nossos recursos.
O organismo está rejeitando os medicamentos e eles já não fazem mais efeito.
— Ela está nos ouvindo?
— Acho que sim, Josmar.
Embora não tenha certeza se está nos ouvindo ou conversando com alguém que não estamos vendo ou ouvindo.
— Por que está dizendo isso, Ieda?
— Agora a pouco ela falava com uma mulher que disse ter o nome de Donata.
Josmar sorriu e em pensamento disse:
Obrigado meus irmãos por estarem aqui neste momento.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:56 pm

Donata olhou para Ademir que sorriu e jogou um raio de Luz sobre Josmar, que se aproximou de Maria Isabel dizendo:
— Mamãe, não sei se está me ouvindo, mas se estiver, quero que saiba que amo muito a senhora e desejo que parta em paz.
Cumpriu sua missão e o seu tempo aqui na Terra.
Estamos bem, sentiremos sua falta, mas a senhora está sofrendo muito com essas dores que não passam.
— Que está dizendo, Josmar?
Ainda não chegou há minha hora...
Não posso deixar você e muito menos a Ieda...
Ela não saberá viver sem mim...
Mesmo tendo dito com a voz muito fraca, Josmar conseguiu ouvir e disse:
— Mamãe, não precisa mais se preocupar connosco.
Eu e Ieda estamos bem.
A senhora fez um bom trabalho.
Criou—nos e nos deu tudo o que precisamos.
Fique em paz, mamãe.
Ieda disse que a senhora está conversando com amigos seus, que devem ter vindo levá—la em segurança.
Agradeço a esses amigos e a entrego em suas mãos.
Vá em paz...
- Que é isso, Josmar?
Não quero ir a lugar algum.
Quero ficar com vocês...
Tenho ainda muito para fazer...
Vocês sempre foram minha responsabilidade e continuam sendo...
Pensa que ainda não sofro por ter me abandonado e se casado com aquela mulher?
Sofri muito, mas mesmo assim você ainda é meu filho, eu o amo muito e não quero deixá—lo...
Marina, não conseguindo se conter nem esconder sua curiosidade, perguntou:
— Por que ela está dizendo isso, Donata?
- Apesar de já estar com setenta e dois anos e muito doente, não quer morrer e fica dizendo que não chegou à hora?
Quando é à hora, quando o espírito acha que chegou há sua hora?
— Para a morte, Marina, nunca é a hora.
Muitas pessoas com a idade de Maria Isabel ou até mais velhas estão bem e conseguem ter uma vida relativamente boa, mas com ela foi diferente.
A doença apareceu há algum tempo.
A medicina tem muito recurso, porém chega uma hora em que nada adianta.
As pessoas, independente da idade, não querem morrer e sempre, embora saibam que é inevitável, encontram uma desculpa para poder adiá—la.
— Maria Isabel está dizendo que não quer morrer porque precisa ficar ao lado da filha.
— Sim, ela está dizendo isso, porém na realidade se não fosse a filha ela encontraria outra desculpa qualquer.
Por desconhecer a vida pós—morte o ser humano tem medo e faz de tudo para adiar esse momento.
— Medo do quê, Donata?
— Do desconhecido, de não saber o que acontece realmente depois da morte.
— Donata, por que o organismo rejeita os medicamentos e por que eles não fazem mais efeito?
— Porque está na hora da separação.
Está na hora de o espírito voltar para casa e o corpo, que cumpriu muito bem a sua tarefa, voltar para a terra.
Por que pergunta isso, Marina?
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:56 pm

— O corpo de Maria Isabel já está envelhecido, mas o meu não!
Eu era jovem, tinha filhos para criar e um marido que me amava!
Não devia ter morrido tão cedo.
— Tudo acontece na hora certa e da maneira como tem de ser.
Embora não aceite ainda, você morreu na hora certa...
Na sua hora, nem um minuto antes ou depois...
— Sei que isso é verdade, mas ainda continuo achando injusto.
Você sempre fala a respeito da missão que temos de cumprir.
Eu não tive missão alguma e mesmo que tivesse não tive tempo para descobrir qual era e muito menos tempo para cumprir.
Isso não é justo.
Maria Isabel viveu muito tempo, acertando ou errando, ela teve tempo de criar seus filhos, mas eu não...
— Você cumpriu sua missão.
— Que missão, como?
Nada fiz de bom para a humanidade, não fiz algo que me tornasse famosa ou reconhecida.
Qual foi a minha missão, Donata?
Donata começou a rir baixinho.
Marina e Jaime, confusos, olharam para ela que após parar de rir, disse:
— Desculpem por eu estar rindo, mas é que acabei de constatar uma coisa.
— Que coisa, Donata?
— Você, como a maioria das pessoas, pensa que uma missão para ser cumprida deve ser algo grandioso e que as torne reconhecidas e renomadas, quando na realidade não é assim.
— Não é? – perguntou Jaime.
— Não, Jaime, não é.
Ao contrário, quando um espírito está planejando sua reencarnação, tentará de todas as maneiras possíveis, fugir de uma missão grandiosa.
— Por que ele faz isso?
— Porque todo espírito deseja renascer para poder resgatar erros, encontrar inimigos para que tenha a oportunidade de reconciliação e possa evoluir.
Sabe que tem uma missão, mas sempre escolhe a mais fácil, aquela que não o colocam em risco de falhar.
— Não estou entendendo, uma missão da maneira como penso só pode trazer facilidade, pois com ela pode—se ajudar a muitas pessoas.
— Tem razão, Marina, mas não é bem assim.
Você não viu o que aconteceu com Irene?
Ela teve uma missão como essa, só que o orgulho, que é próprio do espírito, fez com que se afastasse de seus reais motivos.
A maioria dos seres humanos quando são elogiados, homenageados e reconhecidos por algo que fazem, são vistos ou o pior, sentem—se pessoas superiores, acima dos demais.
Isso os torna orgulhosos e prepotentes.
Por isso, sempre correm o risco de não cumprir sua missão como deveria ser.
Na maioria das vezes, o espírito que retorna com esse tipo de missão, é porque já teve outras iguais e fracassou pelo orgulho e prepotência.
Volta novamente, na tentativa de, desta vez, superar esses entraves.
Podendo assim, cumprir sua missão e se redimir de erros passados.
— É por esse motivo que as pessoas escolhem nascer pobres?
— Na maioria das vezes, sim.
O dinheiro fácil é outro elemento que causa muito problema para o espírito.
O dinheiro foi inventado para dar o bem—estar.
Com dinheiro, um empresário dá a muitas pessoas a oportunidade de ter um trabalho e poder assim se manter com dignidade e aos seus filhos, mas quando esse dinheiro é usado para explorar e servir só ao bem próprio, também se torna um perigo imenso para o espírito.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Mar 27, 2017 7:56 pm

Por isso, quando estão planeando o renascimento, muitos, embora aqui na Terra não acreditem, quase sempre escolhem nascer pobres, pois assim terão mais chances de poder cumprir bem suas escolhas.
— Mas isso nem sempre dá certo, Donata.
Conheci muitos que, por não terem dinheiro, cometeram roubos e até assassinatos.
— Tem razão, Jaime, mas esta também é uma escolha de cada um.
Todos sabem que roubar ou matar é um crime não só perante Deus como também perante a sociedade.
Ao cometerem esses crimes, é sempre por sua escolha e terão de pagar.
Não só perante a sociedade, como perante a Deus também.
— Nossa, Donata, nunca pensei nesses termos.
Existe uma outra profissão e missão que os espíritos não querem ter?
— Sim, existe outra missão da qual qualquer espírito foge e não deseja, a de ser político.
— Por quê?
— O político tem o dever de governar, criar leis que ajudem todas as pessoas de uma nação a progredir a ter uma vida decente.
Porém, a maioria deles quando chega ao poder se deixa corromper, não só pelo dinheiro, mas também pelo próprio poder.
O poder faz com que eles se sintam superiores e creiam que podem tudo.
A vaidade toma conta de todo o seu ser.
Deixando—se corromper, deixam de fazer aquilo para que vieram e perdem uma oportunidade maravilhosa de crescimento espiritual.
Normalmente quando morrem, são elogiados por alguns e recriminados por outros, mas eles, só eles, terão de enfrentar sua verdade e quase sempre se arrependem muito daquilo que fizeram e muito mais do que deixaram de fazer.
Por saberem dos riscos que correm é que os espíritos, quando estão planeando o renascimento, fogem dessa missão, mas alguns terão de enfrentá—la.
Marina e Jaime iam fazer mais uma pergunta, mas ouviram um gemido agudo.
Voltaram—se para Maria Isabel e perceberam pela expressão de seu rosto que ela estava sentindo muita dor.
Ieda, desesperada, disse:
— Que está acontecendo, doutor?
Parece que ela está com dor...
O senhor não pode fazer nada para evitar isso?
— É isso mesmo o que está acontecendo, Ieda.
O efeito da injecção está passando e a dor está voltando.
— Então doutor dê outra injecção!
— Pedirei para que a enfermeira faça isso, mas não sei se adiantará.
Como viram, o remédio não está fazendo efeito.
Imediatamente, atendendo a um sinal do médico, uma enfermeira se aproximou de Maria Isabel e lhe aplicou uma injecção.
Imediatamente, ela parou de gemer e fechou os olhos.
Parecia dormir.
— Ela está inconsciente, doutor?
— Sim, Ieda, e ficará assim por algum tempo, mas como já disse, não por muito tempo.
Infelizmente, nada mais pode ser feito.
Só nos resta esperar.
Marina que até agora estava bem, ao ver o rosto de Maria Isabel se contorcendo de dor, começou a tremer.
Lembrou—se do tempo em que sentiu muitas dores e começou a chorar.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 7:31 pm

Donata percebeu e perguntou:
— Marina, você está bem?
— Sabe que não, Donata.
Por mais que tente não consigo me sentir bem em um local como este ou ao ver uma pessoa doente e sofrendo tanto.
— Sei disso, mas espero que já tenha percebido como um trabalho como este que fazemos ajuda as pessoas.
Na hora da verdade todos precisam da nossa ajuda.
— Estou vendo e tentando me controlar, Donata, mas para mim que tenho bem recente a minha última encarnação, está sendo muito difícil.
— Se quiser pode sair.
Quando tudo estiver terminado pedirei para o Jaime ir chamar você.
Quer fazer isso?
Marina sentiu vontade de sair correndo dali, mas sabia que não devia.
Donata, percebendo a indecisão dela, disse com a voz firme:
— Marina, agora não é hora para isso.
Você precisa tomar uma decisão e se quiser ir embora, faça agora ou então faça uma oração e fique firme.
Neste momento, mais do que nunca, precisamos estar firmes.
Maria Isabel precisa de nossa ajuda e não é com lágrimas que vamos conseguir.
A hora é de oração...
Marina percebeu que Donata estava nervosa.
Com as mãos, enxugou as lágrimas e começou a fazer uma oração.
Donata olhou para Ademir e depois para Marconi.
Ambos acenaram com a cabeça.
Ela colocou a mão sobre a cabeça de Maria Isabel.
Embora seu corpo estivesse dormindo, seu espírito estava atento.
Começou a falar:
— Maria Isabel, a hora de encarar a sua verdade chegou.
Não pode mais ser adiada e você não pode mais resistir.
Precisa se desprender de tudo, inclusive do seu corpo.
Se assim não fizer, a dor aumentará cada vez mais.
Está na hora, minha amiga.
Seu tempo e sua missão terminaram. Vamos embora...
— Não posso, Donata, não posso deixar Ieda..."
— Pode, deve e precisa, Maria Isabel.
Quanto mais resistir, mais sofrerá.
— Não posso, você me conhece e sabe como foi difícil criar essas crianças depois que o Josias me abandonou.
— Sei, sim e você se saiu muito bem, mas agora terminou.
Você tem que vir connosco e seus filhos terão de continuar a sua caminhada.
Tudo o que podia fazer por eles já fez.
Agora, depende de cada um o caminho que escolherão para suas vidas.
— Não, se eu for embora Ieda não vai saber escolher e vai encontrar um homem que a iludirá e tirará tudo o que consegui com muito trabalho.
Ela ficará na miséria como fiquei.
Isso não pode acontecer...
— Não pode continuar fazendo isso, Maria Isabel.
Agora tudo terminou.
Durante toda sua vida tentando proteger sua filha, usou de chantagem emocional e fez com que ela ficasse afastada de qualquer homem.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 7:32 pm

Tentando protegê—la, atrasou a sua evolução.
Agora ela terá a oportunidade de caminhar sozinha, poderá fazer suas escolhas e usar seu livre—arbítrio.
Sua dominação sobre ela terminou.
— Você não pode fazer isso, Donata.
Sabe o que Josias fez comigo...
Depois que nos casamos, fez com que eu, confiante, assinasse papéis que eu não me importei em saber para que eram e vendeu tudo o que eu tinha recebido por herança...
Depois que havia vendido tudo, me abandonou com duas crianças pequenas...
Tive de lutar muito para conseguir criar meus filhos...
Não posso permitir que aconteça com Ieda o que aconteceu comigo...
— Não pode impedir isso, Maria Isabel.
Também não sabe se acontecerá.
Não sabemos agora quais foram os planos que Ieda escolheu antes de nascer, por isso não podemos avaliar como teria sido sua vida sem a sua interferência, mas de qualquer maneira, seu poder sobre ela terminou.
Chegou à hora...
— Você acha que, querendo ajudar, prejudiquei minha filha, impedi que ela crescesse?
— Não posso responder a essa pergunta, pois como já disse, não sei quais foram os planos dela e os seus.
Só sei que ninguém tem o direito de evitar que qualquer pessoa vida da maneira como quer e que o espírito é livre e por isso, não pode ser aprisionado.
Você errou ao impedir que sua filha vivesse sua própria vida, com erros e acertos e ela errou ao aceitar o seu domínio.
Mas, como já disse, não tenho elementos para julgar.
O que precisa agora é se entregar e permitir que a levemos em segurança.
Tudo o que tinha de fazer aqui na Terra já fez.
O que foi feito está feito e ao menos no momento, nada poderá ser mudado.
Vamos embora, Maria Isabel.
E quando chegar lá, após algum tempo poderá saber se o que fez foi certo ou errado e como acontece sempre, terá outra oportunidade para renascer e desta vez, tentar acertar...
— Acha mesmo que preciso fazer isso, Donata?
— Acho, minha amiga.
Sabe que, quando chega à hora, temos sempre de ir.
Estamos aqui para que nos acompanhe de sua livre vontade, mas sabe que se não fizer isso, teremos de usar a força e isso não é o que queremos.
Estamos aqui para ajudá—la. Entregue—se e liberte—se desse corpo pesado.
Enquanto Donata conversava sob os olhos atentos de Marina e Jaime, Ademir e Marconi cortaram os fios que estavam nas extremidades e que prendiam o espírito de Maria Isabel ao corpo.
Ela sentiu que seus pés e mãos estavam paralisados. Sabia que a hora havia chegado e que realmente não tinha mais como se recusar.
Ainda chorando, disse:
— Está bem, Donata. Estou pronta...
Donata sorriu, olhou para Ademir e Marconi, que imediatamente cortaram os fios restantes.
O corpo de Maria Isabel, que permanecia adormecido estremeceu, ela deu um suspiro fundo e se entregou.
Outras entidades que estavam ali esperando aquele momento apanharam com carinho seu espírito e sorrindo, dando adeus, a levaram embora.
Marina os acompanhou com os olhos.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 7:32 pm

Evaristo, o médico, percebeu esse momento e olhando para Ieda e Josmar, disse:
— Está tudo terminado.
Ela agora está com Deus.
Josmar, embora como os outros não tenha ouvido a conversa de Maria Isabel com Donata, olhou para o alto e disse:
— Vá em paz, mamãe, agora terá de enfrentar a sua verdade, mas sei que se sairá bem...
Ieda começou a chorar.
O médico, triste por conhecer Maria Isabel há muito tempo, deixou que uma lágrima caísse por seu rosto.
Ele, naquele momento, precisava constatar que, embora tivesse muito conhecimento e vontade de salvar as pessoas, naquela hora nada poderia fazer.
Josmar, ainda concentrado, pensou:
Obrigado, meus irmãos, por terem estado aqui nesse momento tão importante.
Que Deus os abençoe.
— Como é bonito um momento igual a este, Donata...
— Sim, Marina e por mais que participemos de uma equipe como esta, sempre nos emocionamos.
— Que acontecerá com ela?
— Como acontece com quase todos, será levada para um hospital e ficará dormindo por algum tempo.
Quando acordar, tomará conhecimento de tudo o que aconteceu e terá a oportunidade de rever como foi a sua vida aqui na Terra.
Saberá no que foi que errou e no que acertou e poderá, com o tempo, planear uma nova encarnação.
Tentará novamente superar seus defeitos e aprimorar suas qualidades.
Esse é o propósito do nosso criador.
É só isso que Ele quer...
— É maravilhoso, Donata...
Evaristo apertou uma campainha e logo depois duas enfermeiras se aproximaram.
Assim que elas entraram, ele apontou para a porta e saiu.
Ieda e Josmar o acompanharam.
Marina os seguiu com os olhos.
Donata, que sempre prestava atenção nela, disse:
— Está curiosa para saber o que vão conversar, não é Marina?
Marina não respondeu, mas olhou ansiosa.
— Está bem, vamos, e para ser sincera, também estou.
Ademir olhou para ela com desaprovação e disse:
— Não tem jeito mesmo, Donata.
Você continua a mesma de sempre.
Desta vez foi Donata que ficou sem saber o que dizer.
Marconi também sorrindo, disse:
— Ademir, você agora está pensando como a maioria das pessoas quando acham que, porque alguém morre, sabe de tudo, porém você sabe que não é assim.
Ao morrer, qualquer um continua como sempre foi, com seus defeitos e suas qualidades.
Donata, assim como Marina, sempre foi curiosa e não deixará de ser por um bom tempo.
Pode ir, Donata.
Sei que de tudo o que ouvir, terá alguma coisa para nos ensinar.
Enquanto vocês três vão e como o trabalho desta noite terminou, eu e Ademir vamos para o jardim.
Temos muito que conversar.
Donata olhou para Marconi e com um sorriso de agradecimento, colocou um braço sobre os ombros de Marina e o outro sobre os de Jaime.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 7:32 pm

Saíram.
Ieda, Josmar e o doutor Evaristo estavam em uma sala que ficava ao lado direito do corredor.
Ieda chorava desesperada e Josmar a abraçava e dizia:
— Agora tudo terminou, Ieda.
Ela se foi e torçamos para que esteja nos braços de Deus.
— Não sei o que fazer com a minha vida, Josmar.
Não conseguirei viver sem ela...
— Como não? Agora está livre para decidir o que quer fazer.
Você, desde criança, permitiu que ela a dominasse.
Isso agora terminou.
Está livre, minha irmã e poderá decidir a sua vida.
Poderá fazer suas escolhas sem interferência dela ou de ninguém.
— O que está dizendo?
— Sem a presença da mamãe, poderá seguir seu caminho, livre e poderá fazer suas escolhas.
Poderá ser feliz, minha irmã.
— Por que está dizendo isso?
— Sabe que ela impediu que você vivesse sua própria vida.
Nunca permitiu que você saísse, fosse passear ou dançar como qualquer moça gosta e precisa fazer.
Fazia isso para impedir que você conhecesse alguém e se casasse.
Ela é nossa mãe e está morta, mas não podemos negar que sempre foi muito egoísta e dominadora.
— Você deve estar muito nervoso e não sabe o que está dizendo!
Ela, desde que papai morreu, nos criou e fez o possível para que tivéssemos uma boa vida.
Nos deu educação e estudo.
— Estudo que você nunca aproveitou.
De que adiantou se formar professora se ela nunca permitiu que você saísse de casa para dar aula?
Sim, quando papai morreu, ela cuidou muito bem de nós, mas para você o preço foi muito alto.
— Não acredito que esteja dizendo isso, Josmar.
— Estou dizendo por que é verdade.
Lembra—se do que ela fez quando conheci a Matilde e quis me casar?
— Claro que me lembro.
Ela fez um escândalo e vocês brigaram muito.
Mas mesmo assim, você se casou.
— Sim, eu estava apaixonado e me casei, mas mamãe ficou muitos anos sem querer me receber nem a Matilde.
Mesmo quando meu filho nasceu ela não foi nos visitar nem quis nos receber para conhecer o neto.
Só me recebeu quando você me contou que ela estava doente e eu fui até a casa dela.
Não sei se me recebeu porque estava com saudade ou porque sabia que ia morrer.
Ela era muito ruim, Ieda...
— Eu sei que tudo isso que está me dizendo é verdade, mas você se lembra de que todas as vezes que quis me libertar mamãe ficava doente e eu ficava ao seu lado novamente.
— É verdade, mas você deveria ter se libertado Ieda.
Tinha sua vida para viver...
Ela impediu isso...
— Não fale assim, Josmar, ela era nossa mãe...
Você está com muita raiva...
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 7:32 pm

— Não estou com raiva, Ieda.
Durante o tempo em que estive afastado de mamãe me interessei por religião.
Estudei, li muito e frequentei muitas religiões, até conhecer a doutrina espírita e nela encontrar respostas para minhas perguntas.
Pratico já há vários anos.
Por isso, estou dizendo tudo isso a você.
Não é porque mamãe morreu que ela se tornou santa.
Por tudo o que aprendi, ela terá de responder por seus actos.
Aprendi também que o espírito é livre e que, apesar da circunstância que for, não pode ser aprisionado.
Você é livre, Ieda...
Ieda começou a chorar com mais força.
Josmar a abraçou.
Doutor Evaristo se aproximou e lhe deu um pouco de água.
Depois que ela terminou de beber a água, saíram com Josmar, dizendo:
— Vamos embora, Ieda.
Preciso cuidar da papelada para o enterro.
Saíram abraçados.
Donata, Marina e Jaime ouviram a conversa.
Marina olhou para Donata e perguntou:
— Do que eles estavam falando, Donata?
— Do que aconteceu.
— Mas eles falaram do pai como se ele tivesse morrido e Maria Isabel disse que ele a abandonou.
— E isso é verdade, mas ela não quis que os filhos soubessem.
Sentia—se envergonhada, por isso inventou essa história.
Da maneira como é, nunca poderia admitir ter cometido um erro.
Erro que ela sempre julgou ter cometido ao escolher Josias para se casar.
— Ele a abandonou mesmo, Donata?
— Sim. Quando seus pais morreram, por ser filha única Maria Isabel recebeu uma herança muito grande, não só em propriedades, mas em dinheiro também.
Ela não era uma jovem muito bonita e sabia disso.
Quando Josias apareceu e se interessou por ela, não pensou um minuto em aceitar.
Ele era um jovem bonito, educado e soube como conquistá—la.
Casaram—se em pouco tempo.
Ela sempre confiou nele.
Teve primeiro Josmar, depois Ieda e cuidava deles com todo carinho.
Josias tomava conta dos negócios e de todo o dinheiro.
Com o tempo, ele foi trazendo papéis e ela, confiante, foi assinando.
Ele vendeu as propriedades e gastou todo o dinheiro com bebidas e mulheres.
Quando não restava mais nada, inclusive a casa em que moravam, ele desapareceu e Maria Isabel nunca mais soube dele.
Com duas crianças pequenas e sem ter onde morar, ela conseguiu em outra cidade, um emprego de doméstica.
Nas horas de folga, começou um trabalho de artesanato que havia aprendido no tempo em que estudou em um colégio de freiras.
Com a ajuda da espiritualidade, que nunca nos abandona, seu trabalho foi reconhecido e ela progrediu.
Criou uma empresa, ganhou muito dinheiro e criou os filhos muito bem.
Ambos estudaram e ela nunca, por vergonha de ter sido abandonada e por ter perdido toda sua fortuna, contou aos filhos o que havia acontecido.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 7:33 pm

Disse a eles que o pai havia morrido.
Eles acreditaram, pois quando Josias foi embora, eles eram ainda muito pequenos, por isso só tinham uma leve lembrança do pai.
— Tudo isso não foi combinado antes que os dois renascessem?
— Quando tudo é combinado, não podemos nos esquecer de que o espírito está em um ambiente seu, onde se sente protegido e sempre acha que é fácil cumprir qualquer missão.
Mas, quando está na Terra em um corpo de carne, tudo fica mais difícil e nem tudo o que foi combinado é feito.
Por isso é que temos de voltar muitas vezes para podermos reparar o que fizemos de errado.
Maria Isabel e Josias estão há muito tempo renascendo juntos, mas nunca conseguiram se entender.
Sempre existiu entre eles muito ódio, não só deles, mas de toda família.
Nesta última encarnação, decidiram que voltariam, ficariam juntos e teriam uma família, porém ele, no meio do caminho sentiu aquele velho ressentimento e abandonou a missão.
— Ele foi o culpado?
— Sim e por isso terá de responder.
Por isso, a espiritualidade deu condições a Maria Isabel para que pudesse continuar sua missão.
Ela venceu em quase tudo, só errou quando quis e conseguiu dominar a vida da filha.
Ieda agora está com quarenta e nove anos, perdeu muito tempo submetendo—se aos desejos da mãe, mas como disse Josmar, ainda tem tempo para realizar seus sonhos, sua missão e ser feliz.
— Que aconteceu com Josias?
— Ele continuou gastando o dinheiro que roubou de Maria Isabel.
Quando gastou tudo, se arrependeu, sofreu muito e terminou se suicidando.
Isso faz muito tempo.
Foi para o vale e está lá até agora.
— Não sairá nunca?
— Claro que sim.
Maria Isabel, depois de acordar e tomar conhecimento de tudo o que aconteceu, com certeza pedirá ajuda para poder resgatá—lo e com o tempo, terão uma nova oportunidade.
— Como sabe disso, Donata?
— Conheço Maria Isabel e Josias há muito tempo.
Tem sido sempre assim.
Eles fracassam, encontram—se novamente e decidem voltar para tentar outra vez.
— Essa história é muito bonita, mas até agora não falou sobre a minha missão.
Qual foi?
— Agora não temos tempo para isso, Marina.
Ademir e Marconi estão nos esperando.
Marina queria respostas, mas sabia que naquele momento não as teria.
Acompanhando Donata e Jaime, foram ao encontro dos dois.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 7:33 pm

LIÇÃO DE HUMILDADE
Enquanto tudo isso acontecia, Ademir e Marconi conversavam sentados em um banco que havia no jardim do hospital.
Donata, Jaime e Marina aproximaram—se no instante em que Ademir dizia:
— Olhando para esse céu, com suas estrelas e com essa lua maravilhosa, o sol quase nascendo e essa brisa suave, só posso dizer que a criação foi perfeita.
Quando ouço falar em Éden e paraíso, acho que os dois são este planeta.
Deve ter sido aqui que Deus iniciou a sua criação.
— Tem razão, meu amigo.
Este planeta é maravilhoso mesmo.
Tem água em abundância, do rio e do mar; da sua terra brotam alimentos que podem manter uma população inteira.
Tudo é perfeito.
Alguns animais produzem o leite.
Tudo foi criado para o bem.
— Mas, infelizmente, Deus resolveu criar o homem.
Marconi e Ademir olharam para o lado e viram Donata, que rindo, dizia essas palavras.
— Vocês estão aí? Tem razão, Donata.
Apesar de toda essa beleza e do planeta ter tudo para que as pessoas vivessem bem, o homem insiste em destruir.
— Ademir, você acha que quando Deus criou o homem, Ele já não sabia que isso poderia acontecer?
— Claro que sabia, Marina.
— Também acho, mas penso que, lá no fundo, Ele desejou que fosse diferente.
— Isso pode ter acontecido, Donata, porém se Ele quisesse, poderia ter criado bonecos que seriam controlados por Ele, mas não quis.
Deu ao homem o livre—arbítrio para que ele próprio decidisse a sua vida.
— É verdade e aconteceu tudo o que estamos vendo.
A Terra, que não pertence a ninguém, foi dividida em pedaços e cada um se apropriou deles.
Para que essa divisão fosse feita, houve a ainda há muitas guerras, mortes, dor e sofrimento e em nome do progresso, ela está sendo destruída.
— Será que Ele está arrependido? – perguntou Jaime.
— Não, Jaime.
Ele pode estar triste, mas não arrependido.
Apesar de tudo, muitos espíritos que viveram e ainda vivem na Terra encontraram seu caminho e consequentemente, a Luz e hoje trabalham aqui e em outros planetas.
— Bem Ademir, estamos tendo uma conversa amena, mas sei que não foi para isso que vieram.
Fui avisando que viriam, porém quando chegaram, como viram, eu estava tendo muito trabalho para ajudar nossos amigos e não conseguimos conversar.
Pode me dizer qual é o verdadeiro motivo para a visita de vocês?
Sei que é para me ajudarem em uma missão, mas confesso que não tenho a menor ideia de que missão pode ser.
— Tem razão, Marconi.
Agora, com tudo calmo podemos conversar a respeito.
Estamos aqui por causa da Aurélia.
— Aurélia? O que está acontecendo com ela?
Pela última noticia que tive, ela estava bem, sendo criada por Manuela e José.
Estava crescendo e se tornando uma linda mocinha.
Tudo corria de acordo com o que havia sido planeado.
Fiquei tranquilo. O que mudou, Ademir?
— Sei que com tanto trabalho, você não tem muito tempo para visitar seus amigos.
Aurélia agora já é uma mulher.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 7:33 pm

Está formada em farmácia e trabalha em um laboratório.
— Isso estava planeado.
— Sim, mas ela agora se encontrou novamente com Alberto.
— Isso também estava planeado, eles seriam farmacêuticos, se encontrariam, se tornariam amigos e trabalhariam juntos na descoberta de novos medicamentos.
— Tudo estava planejado, só que ao se encontrarem, Aurélia voltou a sentir aquele amor doentio e para conseguir que Alberto deixasse a esposa e ficasse com ela, se envolveu com forças poderosas.
Agora, essas forças estão fazendo a sua cobrança e ela está passando por um momento muito perigoso.
— Meu Deus...
Como ela foi se envolver com isso?
— Não se conformou em não ter Alberto que julga amar e tentou o último recurso.
— Ela não podia ter feito uma coisa dessas.
Não foi isso que decidiram quando planejaram sua encarnação.
Ela deveria se livrar desse amor doentio que sempre julgou sentir por ele.
— Sabe muito bem, Marconi, que nem sempre tudo sai como o planeado e que no meio do caminho algumas coisas podem ser mudadas.
Isso depende de cada um.
Aurélia, apesar de tudo, está usando seu livre—arbítrio, por isso, pouco poderemos fazer.
Só dependerá dela.
Sabendo o que ela significa para você e para nós é que estamos aqui.
— Obrigado por terem vindo.
Sei que ela pode usar do livre—arbítrio, mas pensei que como na última encarnação ela havia sofrido e aprendido
tanto, nesta seria diferente.
— Mas não foi.
Na hora da escolha, ela não se lembrando do que havia prometido, colocou tudo a perder e agora está sendo muito ameaçada.
— Acha que ainda a tempo de a ajudarmos?
— Não sei, mas podemos tentar.
— Agora mesmo irei até ela, vocês me acompanham?
— Claro que sim, para isso estamos aqui.
— Está bem, vou falar com Luci, colocá—la a par do que está acontecendo e depois iremos.
— Vamos com você para nos despedirmos de Luci.
Entraram novamente no hospital.
Marina e Jaime acompanharam calado a conversa e como não poderia deixar de ser, estavam curiosos para saberem do que se tratava.
Após as explicações de Marconi e as despedidas dos outros, Luci disse:
— Sei que farão o que for necessário para que Aurélia tenha toda a assistência de que necessita.
Que Deus os acompanhe.
Já havia amanhecido quando saíram dali e em poucos instantes estavam em um quarto, onde havia uma moça deitada em uma cama.
Viram figuras sinistras que riam, rodopiavam em volta da cama e falavam:
— Agora que já fizemos a nossa parte, você tem de fazer a sua.
— A moça, com olheiras profundas, virava de um lado para outro tentando dormir ou, ao menos, aliviar aquela dor de cabeça que não passava.
A um sinal de Marconi, todos ficaram parados e encostados em uma das paredes do quarto, olhando para as entidades que não conseguiam vê—los.
Uma porta se abriu e uma senhora entrou.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 7:33 pm

Ela se dirigiu até a cama e demonstrando preocupação, disse:
— Aurélia, você não pode continuar assim nessa depressão.
Precisa abrir a janela.
Esse quarto está cheirando mal, parece que você passou a noite toda bebendo e fumando.
— Não estou sentindo cheiro algum.
Estou cansada, mamãe, preciso dormir.
— Já há vários dias não sai dessa cama nem vai ao trabalho.
Seus amigos estão preocupados e telefonam a todo instante, não sei o que dizer.
A moça, num gesto furioso, sentou—se na cama, dizendo:
— Diga a eles que morri!
Já não disse para a senhora mamãe, que não quero ver ninguém?
Quero ficar sozinha!
Quero morrer!
— Não fale assim, minha filha.
Que aconteceu para que ficasse dessa maneira?
— Nada! Nada aconteceu, mamãe, me deixe em paz, saía do meu quarto!
— Aurélia, levante—se dessa cama, tome um banho e vá trabalhar.
Está na hora.
— Nunca mais voltarei para o laboratório.
— Por que não?
Precisa me dizer o que aconteceu...
— Não quero mais trabalhar lá.
— Como não? Você adorava seu trabalho.
— Adorava, mas não gosto mais.
Não posso voltar, não posso! Será que a senhora não entende o que estou falando?
— Entendo o que está falando, só não entendo o que está fazendo, minha filha...
— Não precisa entender, só me deixe em paz!
— Está bem, se não quiser ir trabalhar, não vá, mas precisa fazer qualquer coisa.
Levante—se, vá fazer compras.
Já faz tempo que não come e se continuar assim, terá de ir a um médico.
Está muito fraca e poderá ficar doente.
— Não quero ir a médico algum, não quero comer, só quero morrer, será que a senhora não entende o que estou dizendo?
— Entendo o que está dizendo, só não entendo o motivo.
Você é jovem, tem um trabalho de que gosta, que mais quer da vida se ela já lhe deu tudo?
— Quero paz, mamãe, só isso.
Por favor, saia do meu quarto!
Manuela, com o olhar triste saiu e assim que se viu do lado de fora, começou a chorar e a dizer:
— Por favor, meu São Judas, ajude minha filha.
Não sei nem entendo o que está acontecendo com ela.
Sabe que sempre fui de sua devoção e sempre me socorreu nas minhas dificuldades, por isso, sei que atenderá a esse pedido.
Agora, mais do que nunca, preciso de sua ajuda.
Donata e Marina, que a acompanharam quando saiu do quarto, jogaram luzes brancas sobre ela que, aos poucos, fizeram com que se acalmasse.
Manuela terminou de rezar e foi para a cozinha.
Precisava preparar o café para o marido e os outros dois filhos.
Donata, Jaime e Marina voltaram para junto de Ademir e Marconi que acompanhavam a dança macabra das entidades.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Mar 28, 2017 7:34 pm

Quando eles se aproximaram, Marconi com lágrimas nos olhos, perguntou:
— Como ela pode ficar nesse estado, Ademir?
— Como está vendo, ela está rodeada de entidades que atraiu para seu lado e que só querem receber o que ela prometeu.
— O que ela prometeu, Ademir?
— Que, se eles conseguissem separar Alberto da esposa, ela lhes daria bebida e comida.
— Eles pediram só isso e separaram o casal?
Marina assustada, perguntou.
Todos olharam para ela que, no mesmo instante, percebeu que havia perguntado na hora errada.
Baixou os olhos.
Ademir, percebendo seu constrangimento, respondeu:
— Sim, se separaram, Marina.
— Isso é horrível...
— É sim, por isso Aurélia está nessa situação.
Quando pediu para que o “trabalho” fosse feito, não sabia com quem estava lidando, nem quais seriam as consequências.
O resultado foi esse.
— Ela não sabe que eles estão aqui e por que está dessa maneira?
— Ela não sabe, mas as energias deles são pesadas.
— O “trabalho” deu certo, Ademir?
— Em parte sim, Marina.
— Em parte? O que não deu certo?
— Alberto se separou da mulher, mas mesmo que Aurélia tenha se insinuado, ele não lhe deu atenção.
— Por que não, Ademir?
— Porque, apesar do “trabalho”, Marina, Alberto ama a mulher e os filhos.
Não está entendendo o que está acontecendo e por que, de repente, começaram a brigar até chegar à separação, mas sabe que se amam e que, em breve, estarão juntos novamente.
Aurélia percebeu isso, ficou revoltada e não quer pagar o prometido.
Prefere fingir que não mandou fazer o “trabalho”, sente raiva e vergonha.
— Por isso eles estão nervosos?
— Sim e cobrarão tudo do que julgam ser merecedores.
As entidades, que continuavam rodopiando e rindo, pararam de repente, se aproximaram da cabeça de Aurélia e começaram a falar:
— Não adianta, ele não vai ficar com você, mas disso nós não temos culpa.
Fizemos o que pediu.
Se ele não gosta de você, não é nosso problema.
Queremos que pague o que prometeu e como vê, nada mais tem para fazer a não ser se matar.
Sua vida nem você valem nada.
Você mexe com muitos produtos químicos e não será difícil encontrar um que sirva para que se mate.
No mesmo instante, como se os estivesse ouvindo, Aurélia começou a pensar:
Não deu certo, apesar de estar separado da mulher ele não quer nada comigo.
Sem ele não sei viver.
Vou pensar em uma maneira de me matar...
É só isso que me resta fazer...
Minha vida sem ele não tem valor algum.
Amanhã bem cedo, vou até o trabalho e pegarei um produto que me mate imediatamente e não me faça sofrer muito.
— Não podemos permitir isso, Ademir.
Marina disse, quase gritando e muito assustada.
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Re: ENCONTROS COM A VERDADE / Elisa Masselli

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