MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

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MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:27 am

MAIS FORTE DO QUE NUNCA
ELIANA MACHADO COELHO

Pelo Espírito SCHELLIDA

ABNER SOFREU COM O PRECONCEITO.
E A VIDA ENSINOU SUA FAMÍLIA A SER MAIS TOLERANTE COM A DIVERSIDADE.


ABNER, ARQUITETO bem resolvido, 35 anos, bonito e forte, decide assumir a sua homossexualidade e a relação com Davi, seu companheiro.
Mas ele não esperava que fosse encontrar contrariedades dentro de sua própria casa, principalmente por parte de seu pai, senhor Salvador, que o agride verbal e fisicamente.
Os problemas familiares não param por aí.
As duas irmãs de Abner enfrentarão inúmeros desafios.
Rúbia, a mais nova, engravida de um homem casado e é expulsa de casa.
Simone, até então bem casada, descobre nos primeiros meses de gestação que seu bebé é portador de Síndrome de Patau:
o marido Samuel, despreparado e fraco, afasta-se e arruma uma amante.
Em meio a tantos acontecimentos, surge Janaina, mãe de Davi e Cristiano, que sempre orientou seus filhos na Doutrina Espírita.
As duas famílias passam a ter amizade, e Janaina orienta Rúbia e Simone, enquanto Cristiano começa a fazer o senhor Salvador raciocinar e vencer seu preconceito contra a homossexualidade.
Ele oferece ao pai de Abner explicações claras sobre o que seja orientação sexual, identidade sexual, género sexual, transgénicos, intersexuais, transexuais e travestis para demonstrar, por meio do raciocínio lógico, que homossexualidade e tantas outras condições sexuais também são obras de Deus.
Neste MAIS FORTE DO QUE NUNCA, O espírito Schellida, por intermédio da psicografia de Eliana Machado Coelho, mais uma vez vem nos dar uma verdadeira aula de humanismo, espiritualidade e solidariedade, ensinando-nos que, acima de tudo, somos todos filhos do mesmo Pai.

ELIANA MACHADO COELHO nasceu em São Paulo, capital, em 9 de outubro.
Desde pequena, Eliana esteve em contacto com o Espiritismo.
Ainda menina, sempre via a presença de uma linda moça, delicada, sorriso doce e muito amorosa.
Era o espírito Schellida, que já trabalhava para fortalecer uma sólida parceria com Eliana Machado Coelho, prenunciando as tarefas espirituais que ambas deveriam desenvolver conforme o planeamento da espiritualidade.
Amparada por pais amorosos, avós, mais tarde pelo marido e filha, Eliana foi estudando a Doutrina Espírita e realizando muitos treinos de psicografia sob a orientação de sua mentora até que, em 1997, surge o primeiro livro, uma bela obra do espírito Schellida.
A tarefa começava a tomar forma e hoje a dupla Schellida e Eliana Machado Coelho encontra-se mais afinada do que nunca.
Trabalhos à parte, as curiosidades sobre Schellida e Eliana são inevitáveis.
Duas delas são:
quem é Schellida e de onde surgiu esse nome?
A médium responde esclarecendo que esse nome vem de uma história vivida entre elas e, por ética, deixará a revelação dos factos por conta da própria mentora, já que Schellida avisou que escreverá um livro contando parte de sua vida terrena e sua ligação amorosa com Eliana.
Por essa estreita ligação com Eliana é que Schellida afirmou, certa vez, que se tivesse que escrever livros utilizando-se de outro médium, ela assinaria um nome diferente a fim de preservar a idoneidade do tarefeiro sem fazê-lo passar por questionamentos constrangedores que colocassem em dúvida o próprio trabalho.
Segundo Schellida, o que sempre deve prevalecer é o conteúdo moral e os ensinamentos transmitidos em cada livro.
Schellida mais uma vez reafirma que a tarefa é extensa e há um longo caminho a ser trilhado por ela e Eliana, que continuarão sempre juntas trazendo importantes orientações sobre o verdadeiro amor no plano espiritual, as consequências concretas da Lei de Acção e Reacção, a necessidade da harmonização e, sobretudo, a conquista da felicidade para cada um de nós, pois o bem sempre vence onde existe a fé.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:28 am

ÍNDICE

1 - A CAMINHO DOS SONHOS
2 - A VERDADE SEMPRE APARECE
3 - A VIDA É MUITO MAIS
4 - REJEITANDO O FILHO
5 - UM CORAÇÃO CRUEL
6 - O ACOLHIMENTO DA FAMÍLIA
7 - A DECEPÇÃO DE RÚBIA
8 - ENVOLVIMENTO ESPIRITUAL
9 - CULTIVE A CENTELHA DE DEUS QUE HÁ EM VOCÊ
10 - O QUE É REALMENTE A CARIDADE?
11 - CONVERSA ESCLARECEDORA
12 - A UNIÃO DE ABNER E DAVI
13 - FAZER O BEM E VENCER DIFICULDADES
14 - HOMOSSEXUALIDADE É OBRA DE DEUS
15 - PEDRO CHEGA A SUA CASA
16 - É PRECISO AMOR PARA SER FELIZ
17 - CRISTIANO NÃO CONSEGUE NEGAR SEU AMOR
18 - ALÉM DA MORTE
19 - ALÉM DA RAZÃO
20 - RESPEITO ENTRE IRMÃOS
21 - O ENCONTRO DE DAVI E DO SENHOR SALVADOR
22 - A BRIGA ENTRE SAMUEL E CRISTIANO
23 - O ADEUS A PEDRO
24 - A VERDADEIRA AMIZADE
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:28 am

1 - A SOMBRA DOS SONHOS

A SOMBRA do grande edifício em construção deitava-se sobre a luz intensa e radiante daquela manhã ensolarada.
Usando um capacete, empunhando uma prancheta em uma mão e a caneta em outra, o arquitecto conversava com o mestre de obras dando-lhe orientações precisas a seguir.
— Tá certo, doutor Abner.
Vou fazer direitinho. Pode deixar.
— Obrigado, senhor António — tornou o arquitecto educado.
Quase os interrompendo, o engenheiro, que visitava a obra junto com o colega, chamou-o:
— Abner! Você viu a fundação das garagens que ficarão sob as piscinas? — perguntou algo nervoso no tom de voz.
— Ainda não. O que tem? — indagou calmo como sempre.
— Teremos de desmanchar duas colunas que foram mal calculadas.
Inferno! Juro que vou demitir o Zé.
É a segunda vez que coisa desse tipo acontece.
— A que altura as colunas estão?
— Passam de um metro! — respondeu ainda nervoso.
Estão erradas. Eu fui bem claro.
Era para calcular as vigas a partir do baldrame, mas ele não fez isso.
Odeio gente burra!
— Calma. Vou até lá ver. De repente dá-se um jeito.
— Não tem jeito, Abner!
Tranquilo, o arquitecto foi até o lugar do qual o outro falava e passou a fazer novos cálculos, examinando atentamente as plantas em suas mãos.
Enquanto isso, o colega não parava de reclamar, até Abner concordar:
— De fato, Ivan... Você tem razão.
A medida está errada. Porém...
— Porém, o quê?!
O sujeito é burro!
— Porém alguém deveria tê-lo acompanhado no momento da armação e colocação das ferragens.
Ele não é engenheiro nem arquitecto.
Só obedece ordens.
Não estudou para isso.
— Mas calculou errado!
Olha o prejuízo! — enervava-se Ivan.
— Não exija de quem não tem.
A obrigação de acompanhar a armação das ferragens era sua.
— Não venha você querer...
— Calma, calma... — pediu em tom tranquilo, espalmando a mão na direcção do outro.
Dê-me um dia.
Está vendo aquela área ali onde será a rampa de acesso às garagens?
O outro acenou positivamente com a cabeça e Abner continuou:
— Como aquela parte não foi feita, acho que tive uma ideia.
Vou trabalhar nisso hoje e amanhã lhe trago para dar uma olhada.
Acho até que teremos mais luz natural vinda dali — apontou.
O outro fez um ar de desdém, duvidando. Mas nada disse.
Nesse momento, o celular de Abner tocou e ele pediu, afastando-se:
— Com licença.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:28 am

Em seguida atendeu, dizendo em tom alegre:
— Fala, Rúbia! Tudo bem?
— Quase tudo.
Você falou com o pessoal daquela empresa? — perguntou a irmã.
— Ainda não. Estou na obra.
Daqui vou para o escritório e darei uma ligadinha para aquele meu conhecido.
— Ai, Abner...
Não aguento mais ficar em casa.
O pai tá uma coisa!...
— Calma, maninha... — riu.
Vou dar um jeito.
O que é que eu não faço por você?! — riu novamente.
— É que não aguento mais.
Você disse que iria falar com seu conhecido hoje.
Consultando o relógio, o rapaz expressou-se de um jeito engraçado:
— O dia de hoje vai até a meia-noite.
Ainda são dez horas da manhã.
Acho que tenho muito tempo, não é?
— Você sabe como sou.
Estou ansiosa, nervosa...
Não sei ficar sem trabalhar.
— Relaxa. Vai dar outra repassada no currículo.
Entra na internet...
Distraia-se um pouco.
— Desculpe-me por incomodá-lo.
— Você nunca me incomoda, Rúbia.
Estou indo agora lá para o escritório.
Mais tarde, se eu tiver alguma novidade, ligo para você. Certo?
— Está certo. Vou esperar.
Obrigada... Um beijo.
— Outro. Tchau.
Após desligar, o rapaz viu que o mestre da obra parecia aguardá-lo terminar a ligação.
— Seu Abner?
— Sim, senhor António.
— Olha...
Acho que o seu Ivan se enganou um pouco — dizia enquanto caminhavam lado a lado.
— Por que acha isso?
— Eu mesmo vi quando ele mandou o Zé furar bem ali para as armações.
— Tem certeza, senhor António?
— Tenho sim.
E que o pobre do Zé não tá aqui, se não ele ia confirmar isso pro senhor.
Diante do silêncio do arquitecto, o homem comentou:
— Não quero causar problema, mas acho injusto mandar o Zé embora pelo que ele não fez.
Chegando perto de onde seu carro estava estacionado, Abner repousou a mão no ombro do senhor e o tranquilizou:
— Não vai acontecer nada com o Zé.
Fique sossegado.
É que o Ivan está nervoso.
— É... Ele sempre está nervoso, né, seu Abner?
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:28 am

O outro sorriu, estapeou-lhe as costas e ainda disse:
— Pode deixar, vamos resolver isso.
Não se preocupe.
Até amanhã, senhor António.
— Até...
Depois de entrar no veículo, colocar no banco ao lado a prancheta e as plantas, o rapaz seguiu para o escritório onde trabalhava e era sócio.
* * *
No final da tarde, Abner ligou para Rúbia que ficou eufórica:
— Nossa! Não acredito!
Você conseguiu!
— Não consegui nada!
Somente agendei uma entrevista para você amanhã cedo.
Quem tem de conseguir apresentar-se bem para ocupar o cargo à disposição é você.
— Deixa comigo!
— Olha, Rúbia!
— Fala.
— A empresa, pelo que sei, é familiar, do tipo conservadora.
Sei que se veste bem.
Não me leve a mal dizer isso, mas...
Só vou reforçar para que vá sem mostrar as pernas acima dos joelhos, os ombros, o colo... — riu.
Você entende?
— Lógico! Nem precisava falar.
Mesmo assim, obrigada pelo lembrete.
Não vou nem usar perfume — riu também.
— E... Bem lembrado.
Uma colónia bem fraquinha cai bem.
Não devemos incomodar os outros com nosso cheiro.
Use pouco e quem gostar que chegue perto para sentir melhor o aroma.
A irmã riu gostoso e disse:
— Pode deixar. Sei me apresentar bem.
— Eu sei. Estou certo de que vai conseguir.
— Obrigada, Abner.
Não sei como vou te pagar por essa.
— Eu sei! Pode deixar que eu sei muito bem como vai me pagar! — expressou-se em tom de brincadeira e molecagem na voz.
Continuaram conversando animadamente por mais algum tempo.
Ela estava muito feliz com a oportunidade e começou a fazer mais perguntas sobre a empresa.
* * *
Rúbia, que era bem qualificada, conseguiu o emprego tão desejado.
Nos últimos tempos, sentia-se realizada e muito feliz.
Era uma moça esperta, com seus vinte e nove anos.
Bonita, alta, morena, um tipo de pele suave cuja cor era naturalmente bronzeada.
Cabelos longos e cacheados, mas viviam lisos, pois ela gostava assim.
Seus grandes olhos castanhos eram bem expressivos.
Tinha uma bonita boca carnuda, onde sempre usava um batom marcante que ressaltava ainda mais sua beleza.
Desde o início em seu novo serviço, chegava a sua casa com viva expressão de alegria e animação.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:29 am

Naquele dia, ao entrar na cozinha, viu Abner fazendo seu prato junto ao fogão, repleto de panelas.
— Oi, sumido! — cumprimentou-o, dando-lhe um beijo no rosto.
— Oi! Você é quem está sumida!
— Voltei a fazer academia, por isso, alguns dias, não chego cedo.
— E lá na empresa? Tudo bem?
Animada, ela respondeu:
— Se melhorar, estraga. Estou adorando.
Tem muita coisa para ser feita.
Eu gerencio uma equipe de vinte funcionários.
A outra gerente que saiu, abandonou aquilo na maior bagunça.
O pessoal estava perdido — riu.
Nesse momento, Rúbia levou a mão à panela e pegou um pedaço minúsculo de frango.
Ia pôr na boca, quando sua mãe, entrando sem ser vista, estapeou-lhe a mão com força e reclamou:
— Tire a mão suja das minhas panelas!
— Ai, que susto, mãe!
Nossa!... — exclamou e riu ao ver o pedaço de frango ir ao chão.
Após pegá-lo e jogá-lo no lixo, no instante seguinte, pediu:
— A bênção, mãe.
— Deus a abençoe.
Mas não seja porca, Rúbia.
Chegou da rua, tá com a mão suja e vai querer comer desse jeito?
Tenha dó! Vá se lavar, tomar um banho... Depois você come.
— É que o cheiro está me matando, mãezinha.
Não estou resistindo — expressou-se com mimos.
— Então, pelo menos, vá lavar as mãos.
O jornal, que seu pai está assistindo na televisão, está terminando e ele já vem jantar.
Vamos comer todos juntos.
Faz tempo que a gente não se reúne no jantar.
— Tá bom. Já volto — concordou e foi, voltando sem demora.
Estou morrendo de fome.
Tomarei banho depois.
O senhor Salvador, já sentado à cabeceira da mesa, esperava dona Celeste acabar de fazer seu prato e reclamava:
— Políticos safados e sem-vergonhas.
Prometem isso e aquilo, mas depois gastam o dinheiro do povo com uma comitiva de mais de quinhentas pessoas para viajar para fora do país.
Enquanto os governantes de outros países, que também foram para a mesma convenção, levaram uma comitiva de cinquenta pessoas ou menos!
Vejam que absurdo!
— Depois que você se aposentou, só sabe ver jornal e reclamar da política, do povo...
Fique calmo, homem, e vê se come sossegado — argumentou a esposa servindo-lhe o prato fumegante.
— A comida está tão boa, mãe! Uma delícia.
Vou até repetir — elogiou Abner, levantando-se.
Dona Celeste encheu-se de orgulho ao responder, tentando ser humilde:
— Ora, filho... O que é isso?
A mãe fez o de sempre.
Ao passar por ela, Abner beijou-lhe o rosto e ficou esperando a irmã terminar de fazer o próprio prato.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:29 am

Todos estavam sentados quando o rapaz perguntou:
— E lá, Rúbia? Como é trabalhar com o Geferson?
— Muito bom. É um director bem tranquilo.
— Conheço-o há pouco tempo.
Parece ser uma pessoa bacana — tornou o irmão.
— Todo mundo é bacana pra você, Abner.
Todo mundo — falou o pai em tom de crítica.
— É que ele não vê tanta maldade nas pessoas como você, Salvador — retrucou a esposa.
— Gente que não vê a maldade dos outros acaba sendo trouxa.
Quebra a cara — replicou o senhor.
— Pai, estamos jantando em paz.
Não começa... — pediu Rúbia em tom brando.
— Isso mesmo, vamos mudar de assunto — sugeriu dona Celeste animada.
— Vamos mesmo — concordou o senhor Salvador com a boca cheia.
E lá na empresa nova, você vai ganhar mais do que naquele banco, não vai?
— Quase a mesma coisa, pai.
Não posso reclamar nem exigir nada ainda.
Estou trabalhando há tão pouco tempo.
Devo dar graças a Deus por ter arrumado um emprego tão bom.
Fiquei desempregada por quatro meses.
Não foi fácil para mim.
— É uma considerável empresa de propaganda e marketing.
Grande, muito respeitada no mercado — disse Abner por sua vez.
— Você ganharia mais se não tivesse imposto retido na fonte.
É um absurdo o que pagamos de imposto nesse país — tornou o pai, reclamando novamente ao falar de boca cheia.
— Se você deixasse de fumar e de beber, Salvador, pagaríamos menos impostos ainda — retrucou dona Celeste.
— Não enche, mulher.
Não enche — resmungou, olhando para a esposa com insatisfação.
— Filha, você tem que ir comigo à igreja para pagar uma promessa que fiz à Nossa Senhora.
Se arrumasse um emprego bom, nós duas iríamos lá levar flores no altar para ela.
Rúbia não se manifestou.
Alguns minutos e, ao ver o filho se levantar e levar o prato à pia, a senhora perguntou carinhosa:
— Quer pudim de leite, Abner?
Fiz pensando em você, filho.
— Oba! Quero sim — respondeu ele satisfeito, exibindo largo sorriso.
— É só para o Abner que ela faz as coisas.
Só pensa nele — reclamou o marido.
— É que quando eu faço um bolo, uma sobremesa ou qualquer comida pensando nele, não desanda.
Dizem que quando fazemos as coisas pensando em alguém e dá certo, a pessoa em quem pensamos tem o coração bom.
— Então por que você não pensou em mim? — tornou o marido.
— Porque se eu fizer um bolo pensando em você, ele não cresce. Vira pedra.
— Ora!... Você é cheia de coisa mesmo.
Observando o filho saciar-se com o doce, pediu:
— Vai... Vê um pedaço pra mim.
Dona Celeste deu um sorriso maroto e o serviu; foi quando Rúbia perguntou:
— Mãe, e a Simone? Ligou?
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:29 am

— Liguei para ela.
Sua irmã disse que vai ao médico amanhã.
Eles estão muito felizes.
— Já pensou, dona Celeste?
Quando a senhora tiver o seu primeiro netinho, como é que vai ser, hein?
Aí não vai fazer nem um bolo pensando em mim, só vai pensar nele — expressou-se Abner com ênfase, rindo a seguir.
— E você? Quando é que vai casar e nos dar netos?
E o único que vai dar continuidade ao meu nome e de seu avô — interrompeu o senhor Salvador com jeito rude.
Tranquilo, o rapaz olhou-o firme e respondeu:
— Não penso em me casar, pai.
Isso não está em meus planos.
Dizendo isso, ele colocou o prato de sobremesa sobre a pia e ia saindo da cozinha quando ouviu o pai dizer:
— Pensei que tivesse tido um homem, mas não.
— Salvador! Pare com isso!
á vai começar?! — esbravejou dona Celeste.
— O que querem que eu diga?!
Esse cara está com trinta e cinco anos, não quer saber de casar e vive aqui às minhas custas!...
— Posso morar na sua casa, mas viver às suas custas não, pai — respondeu o moço firme e imediato.
Trabalho e ganho muito bem.
Se essa casa dependesse só da sua aposentadoria...
Não concluiu a fala.
Porém, após a breve pausa, desfechou:
— Se minha presença o incomoda, fique sabendo que estou providenciando tudo para sair daqui.
Afirmando isso, virou-se e se foi.
Enquanto o senhor Salvador ainda reclamava:
— Vai para onde? Morar com quem?
Pensa que a vida é fácil, é?
— Salvador!
— Pai!
Exclamaram mãe e filha ao mesmo tempo.
Não demorou, Rúbia foi até o quarto do irmão e bateu à porta.
— Entra — disse o rapaz deitado na cama, de costas, trazendo as mãos entrelaçadas na nuca.
Acomodando-se na beiradinha da cama, ao seu lado, de bruços, apoiou os cotovelos na cama e segurou o queixo com as mãos.
Ao vê-lo pensativo, perguntou:
— Quando disse que ia sair daqui, você não estava falando sério, estava?
— Estava sim. Estou vendo um apartamento.
Algo pequeno. Só para mim.
Pretendo alugá-lo até que fique pronto aquele que comprei na planta.
— Se você for embora, quero ir junto.
Não vou aguentar o pai.
Hoje, viu como ele estava?
E olha que não havia bebido.
Quando bebe, ninguém o suporta.
— Ele tem razão, Rúbia.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:30 am

Tenho trinta e cinco anos. Sou bem grandinho.
Posso me sustentar muitíssimo bem.
Não há razão para eu continuar aqui.
Na verdade, só não fui embora antes por causa da mãe.
Tenho dó dela.
Porém... É chegada à hora.
A irmã aproximou-se, encostou o rosto em seu peito e o abraçou pela cintura, dizendo baixinho:
— Terá um lugar para mim no seu apartamento?
— Um lugar fixo não.
Você até poderá dormir lá, muito de vez em quando — apesar do tom de brincadeira na voz, foi sincero.
— Ai, Abner!
Que egoísta! — reclamou com jeito mimado.
— Definitivamente, quero independência, maninha.
— Vai continuar ajudando aqui em casa financeiramente, não vai? — quis saber curiosa.
— Vou, claro.
Mesmo que você os ajude, sei que não será o suficiente.
O que o pai recebe de aposentadoria não dá.
Não quero vê-los com qualquer dificuldade.
Não vou abandonar vocês.
Só preciso do meu canto, um espaço, entende?
— Para ser sincera...
Às vezes penso em arrumar um cantinho para mim também.
A ideia de independência me atrai muito.
Contudo, tenho medo de alguma instabilidade financeira.
Veja, fui demitida naquele corte de pessoal e fiquei quatro meses desempregada.
Vai que alugo um apartamento, me ajeito e, de repente, perco o emprego.
Com você é diferente.
Sócio da empresa de arquitectura e engenharia que deu tão certo! Uaaauh!.. — riu.
Em vez de Administração, eu deveria ter feito faculdade de Engenharia ou Arquitectura.
Vejo que ganha tão bem e, daqui por diante, só vai prosperar.
Um momento e comentou:
— Ai... eu te admiro tanto...
Somos tão diferentes.
Você é tão tranquilo, seguro, sabe o que quer da vida...
Tudo o que faz dá certo.
— É curioso como os outros me enxergam.
Ninguém sabe, realmente, o que se passa dentro de mim.
Acham que sou sossegado, que não sofro, não fico triste, não tenho conflitos íntimos...
Vocês me vêem como se eu não fosse de carne e osso.
Afastando-se do abraço, a irmã sentou-se, olhou-o firme e afirmou:
— Há-de concordar comigo que você é a criatura mais tranquila dessa família.
Não — corrigiu-se —, é a pessoa mais tranquila e equilibrada que conhecemos.
O celular de Abner tocou nesse instante.
Ele sentou-se rapidamente para pegá-lo, mas a irmã alcançou o aparelho antes, olhou o visor e informou ao lhe entregar:
— Davi.
O rapaz pegou o celular, conferiu o nome, mas não atendeu e desligou o aparelho.
— Não vai atender?
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:30 am

— Não. Amanhã falo com ele.
— Acho que o Davi é o único amigo que você tem e não conhecemos.
Falando em amigos...
O Ricardo está bem sumido, né?
— Devido àqueles problemas pessoais, ele se enterrou no serviço.
Porém está bem, recuperou-se muito.
Quanto ao Davi...
Qualquer dia vão conhecê-lo.
Vão gostar muito da mãe dele, a dona Janaina.
Ela é um amor de pessoa.
Rúbia se aproximou, beijou-lhe o rosto e disse:
— Obrigada. Acho que ainda não lhe agradeci o suficiente por esse emprego.
— Faria o mesmo por mim — sorriu generoso como sempre.
— Vou tomar um banho e dormir.
Amanhã tenho de levantar cedo.
Olhando-o firme nos olhos, disse enternecida:
— Obrigada por tudo.
Por ser o irmãozão que é — sorriu.
Deus não poderia ter me dado um irmão melhor.
— Pare com isso. — Levando a mão a seus cabelos, desarrumou-os ao brincar.
Ela o beijou novamente, levantou-se e se foi.
Minutos depois, Rúbia ia para o banheiro e passava frente à porta do quarto do irmão, que estava entreaberta, e ouviu-o dizer:
— Sou eu. Oi.
Quando ligou minha irmã estava comigo.
Não pude atender.
Breve pausa e quis saber:
— Foi lá assinar os documentos? — Nova pausa.
É verdade. O pessoal estranha ainda.
Não é comum um apartamento em nome de dois homens.
É preciso que tudo seja feito em nome de nós dois.
Melhor assim. É mais seguro.
Contou para sua mãe?
Ao fazer a pergunta, Abner aproximou-se da porta para fechá-la e Rúbia rapidamente se afastou para não ser vista.
Porém ficou intrigada.
O irmão talvez estivesse falando com Davi.
Foi o único que ligou enquanto estavam juntos.
Por que a documentação do apartamento seria feita em nome de alguém estranho?
Quem era esse amigo que ela nem conhecia?
Seria o apartamento que estava alugando ou o outro que ele comprou e estava sendo construído?
Ruminando essas e outras perguntas, ficou planeando falar a respeito do assunto com o irmão.
Precisaria encontrar uma oportunidade.
Talvez até dissesse que ouviu a conversa sem querer.
* * *
A gravidez de Simone deixou todos bem felizes.
Era a filha do meio de dona Celeste.
Tinha trinta e dois anos, casada há cinco anos com Samuel.
— Já sabe o que é, filha?
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:30 am

— Ainda não. E muito cedo.
Não vejo a hora de confirmar o sexo para fazer o enxoval, decorar o quarto...
Aaaaih... Vi em uma loja de roupas infantis, cada coisinha liiiinda! — expressou-se com jeito gracioso, mimoso.
A senhora tem que ver, mãe.
— Essas coisas modernas de saber o sexo da criança só atrapalham.
Tiram a surpresa.
Antigamente, quando não se tinha nada disso, era bem melhor — opinou o senhor Salvador.
— Ah, pai, será legal fazer o enxoval na cor certa, decorar o quarto, comprar brinquedos...
— E verdade. Há um tipo de brinquedo para menina, outro para menino.
Outro dia eu vi uns papéis de parede para quarto de criança que eram tão lindos.
Tinha um com carrinhos e pára-quedas com ursinhos para meninos, outros com moranguinhos, casinhas e bonequinhas para meninas.
Tinha um que era só uma faixa, não era colocado na parede inteira.
Era tão lindo! — animou-se dona Celeste.
— Eu já vi também.
Por isso quero saber o que é — disse Simone.
— Se for menina eu vou dar os brinquinhos — tornou a senhora.
A filha riu e comentou:
— Brinco hoje em dia não é só para menina não, mãe.
O senhor Salvador aproveitou e opinou de forma grosseira, como sempre:
— É verdade. Tem um monte de sem-vergonha, que diz ser homem e tá de brinco.
Coisa nojenta! Homem que é homem não usa essas indecências.
Se eu pegar meu filho de brinco, rasgo as orelhas dele.
Deixa, pra ver só!
— Salvador, deixa de ser besta, homem!
Como você critica tudo o que vê.
Não dá para falar nada perto desse homem, pois ele sempre tem algo ruim para acrescentar.
— É que eu falo a verdade. Por isso não gostam.
Pra mim, homem de cabelo comprido, de brinco, não é homem.
Só falta usar saia.
— Pai, Jesus tinha cabelos compridos e usava vestido.
homem silenciou.
Pareceu ser pego de surpresa.
- A mãe tem razão.
O senhor deve pensar que as pessoas não podem ser iguais.
Elas têm o direito de ser diferentes.
Ser diferente é ser normal.
Cada um deve ser feliz a sua maneira, desde que não atrapalhe os outros.
— Não é bem assim.
Se eu fosse dono de uma empresa, funcionário meu seria demitido se usasse brinco ou fizesse tatuagem.
Isso é coisa de bandido, coisa que se faz na cadeia, coisa de presidiário.
— Pai, concordo que as tatuagens de antigamente, as feitas nas prisões, como o senhor diz, eram coisas de quem não fazia nada.
Hoje em dia, existem tatuagens que são obras de arte e tem gente que quer expressar ou expor essa arte em seu corpo.
Particularmente, eu não gostaria de ter uma em mim.
Até agora, não penso em fazer uma.
Não existe nada que eu queria expressar na minha pele pelo resto da minha vida.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:30 am

Quem faz algo desse tipo em seu corpo, deve se lembrar que é para o resto da vida.
Não critico aquele que quer exibir, na sua pele, o que vai em seu interior, em sua mente, em seu coração.
A tatuagem é como uma obra de arte onde cada artista demonstra o seu interior, suas ideias, seus desejos, sua vontade, sua forma de ver a vida.
Só que na tatuagem a pessoa escolhe uma imagem e manda o tatuador fazer o que ela deseja expor.
— Outro dia eu vi uma moça com umas borboletinhas tão lindas nas costas — comentou a senhora.
— Tem pessoas, mãe, que querem demonstrar sua alegria pela vida e se tatuam com borboletas, estrelas, anjinhos, flores, fadinhas, coisas enigmáticas ou filosóficas como dragões, Buda, símbolos significativos...
Outras, precisam exprimir coisas tribais, pois fazem parte de alguma tribo, de algum grupo de amigos.
Agora, tem gente que quer mostrar sua revolta pela vida e tatua coisas que consideramos feias como caveiras, bichos horríveis, corpos humanos desesperados entre labaredas...
Outros chegam a colocar chifres implantados sob a pele da testa e outras coisas agressivas à natureza humana.
Cada um mostra, em seu corpo, através da tatuagem ou do que quer que seja, o que tem no coração. Todos, sem dúvida, serão responsáveis pelo que fazem.
Assim como somos responsáveis pelo que falamos e pensamos, somos responsáveis pelo que exibimos em nosso corpo.
Temos o poder de alegrar, entristecer ou agredir a vida a nossa volta.
— Pra mim, não importa.
Tatuagem é tatuagem e pronto — protestou o senhor.
— Venha, Simone. Vamos lá pra cozinha.
Deixa o seu pai aí vendo televisão e assistindo ao jornal.
É só assim que esse homem não reclama.
Não critica os outros.
Mãe e filha foram para a cozinha e, acomodada à mesa, Simone comentou:
— Cada dia que passa o pai parece pior.
Tão intolerante!
— Vou passar um cafezinho pra nós.
— O pai não era assim, né, mãe?
— Ele sempre foi reparador.
Reparava em todo mundo.
Só que, nos últimos anos, ele começou a criticar, reclamar tanto...
Como disse, cada dia está pior.
— Ele não se ocupa.
Quase não sai, não tem amigos, não faz uma caminhada, não frequenta uma igreja...
— Não, filha. Ele não faz nada disso.
Só sabe ficar na frente da televisão o dia inteiro vendo jornal, tragédia, crime...
E no horário que não tem isso, assiste a filmes violentos.
Já falei pra ele que isso faz mal.
Mas seu pai não tem jeito.
— Assistir a um jornal, actualizar-se, faz bem.
Mas do jeito obsessivo que ele faz... Está errado.
Gostar de acompanhar notícias de crimes, violências, sequestros, tragédias e mais tragédias...
Credo! Isso é prejudicial à mente e vai reflectir no corpo, certamente.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:31 am

Vamos nos impregnando com energias ruins, negativas.
Pouca gente sabe que, quando vemos ou ouvimos algo violento, agressivo, o nosso cérebro interpreta como se o ocorrido fosse perto de nós ou connosco, mesmo se é algo fictício como uma simulação, uma invenção.
E nosso corpo reage com cargas hormonais violentas e desnecessárias causando grande estresse físico.
Com isso, vamos nos desgastando.
Daí que, quando acontecer uma situação, verdadeira, que nos deixa nervosos, poderemos ficar extremamente irritados, depressivos e esgotados, pois já nos stressamos desnecessariamente com coisas e situações simuladas.
— Seu pai não compreende isso.
Quisera eu que aparecesse um anjo de bondade na frente dele para fazer esse homem entender e mudar.
Depois que se aposentou, não para de fumar, está bebendo quase todo dia.
Você viu as cortinas atrás do sofá onde ele senta pra ver televisão?
Antes de a filha responder, ela continuou:
— Estão amarelas, horrorosas.
O pior é que o encardido pela fumaça do cigarro não sai nem lavando.
— Acho que é o tipo de tecido.
— Imagine como estão os pulmões de seu pai.
O pior é que eu acabo fumando sem ser fumante.
Deveria ter uma lei que proibisse fumar dentro de casa, quando outra pessoa que vive junto, não fuma.
— Peça para ele ir fumar lá fora.
— E eu já não pedi?
Seu pai não tem jeito.
Se vou falar qualquer coisa, começa uma briga.
— Se pelo menos se ocupasse...
— Ele poderia me ajudar com o serviço da casa.
Secar uma louça, recolher uma roupa do varal, pôr o lixo para fora, varrer um quintal...
Mas que nada! Só ele se aposentou.
Eu nunca vou me aposentar.
Tem a mulher da limpeza que ajuda, mas você sabe que empregada não faz tudo.
— Já pediu para ele secar uma louça, por exemplo?
Quem sabe o pai ajuda.
— Já pedi. Ele responde que está aposentado.
Que já trabalhou o que precisava trabalhar.
Breve pausa e dona Celeste ofereceu-lhe uma xícara com café, dizendo:
— Está uma delícia.
— Obrigada, mãe.
Bebericou o café e depois confirmou:
— Tá uma delícia mesmo.
— Então conta, Simone — pediu sorridente, sentando-se frente à filha —, o Samuel está bobo por causa da sua gravidez, não está?
— Como está! A senhora tem que ver.
Já contou para todo mundo lá na faculdade.
Riu ao comentar:
— Não quer que eu suba escada, carregue peso... Parece bobo.
Sorriu e contou:
— Toda noite, antes de dormir, ele fica conversando com o nené.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:31 am

— Você tem um marido muito bom.
Acho que até demoraram muito para arrumar um nené.
— Que nada. Foi tudo no tempo certo.
Estou feliz como jamais estive em minha vida — afirmou Simone com um sorriso luminoso.
Em seguida, perguntou:
— Mãe, o Abner me disse que arrumou um apartamento para alugar e está indo embora daqui.
Eu ri, não acreditei. É verdade?
— É sim. Você conhece seu irmão.
Ajuda em tudo e a todos, mas é um moço muito reservado.
Ninguém nunca sabe, de verdade, o que ele está pensando.
— O Abner sempre foi muito calmo, tranquilo. Só isso.
— Não, filha. Não é só isso.
Acho seu irmão muito calado.
— É o jeito dele.
Só acho estranho que saia de casa.
— Vai ver quer ter a vidinha dele sem dar satisfação a ninguém.
Não é mesmo? — tornou a mãe, tentando encontrar uma justificativa para a situação.
Nesse instante, o senhor Salvador entrou na cozinha e reclamou:
— De lá da sala senti o cheiro de café.
Fiquei esperando alguém me levar uma xicrinha, mas que nada.
Todo mundo se esquece de mim.
— É impossível esquecer de você, homem. Eu ia levar.
Só demorei um pouco — respondeu dona Celeste, pegando uma xícara para servi-lo.
— Eu ouvi você falando do seu irmão. Esse menino me preocupa muito.
— Não reclame dele, pai — defendeu Simone firme.
Até hoje o Abner nunca deu dor de cabeça para o senhor.
Sempre trabalhou, estudou, não se envolveu em más companhias...
— Não sei não. Não sei não...
Sinto que ele ainda vai aprontar alguma.
Tudo tá dando muito certinho com ele.
Estudou, se juntou com os amigos e montou a empresa de construção ou sei lá o que...
Trabalha, ganha bem... Mas não sei não.
Ele precisava era casar e ter filhos.
Teria coisa importante para se preocupar.
Assim, do jeito que está, sem ocupação na vida pessoal, ainda vai arrumar dor de cabeça.
Dona Celeste, acostumada aos comentários do marido, não deu importância.
Serviu-lhe o café e procurou mudar o assunto.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Mar 31, 2017 9:31 am

2 - A VERDADE SEMPRE APARECE

ALGUM TEMPO havia se passado desde que Rúbia começou a trabalhar no novo emprego.
Ela sentia-se satisfeita com o serviço e com os novos colegas.
Tudo caminhava bem.
Havia estreitado amizade com Talita, uma gerente de outra seção e sempre estavam juntas.
Naquele dia, ao almoçarem, Talita perguntou:
— É hoje que a Silvana vai entregar aqueles cosméticos que compramos, não é?
— Hoje mesmo.
Ah! Não vejo a hora de usar aquele batom.
É tão bonito, não acha?
— Em uma boca como a sua, Rúbia, tudo fica bem — riu a amiga.
— Deixe-me perguntar uma coisa... — mudou o assunto.
O que você acha do Geferson?
— O director?
— É.
— Sei lá... Não o conheço muito bem não.
É um homem reservado.
Não sabemos muito sobre ele.
O que sei dele é...
Foi interrompida.
— Acho que ele é um quarentão bonito — riu de um jeito engraçado.
— Bonitão, ele é mesmo.
Acho que a mulher dele deve morrer de ciúme — concluiu Talita sorrindo.
— O Geferson é casado?! — estranhou surpresa.
— Penso que sim.
— Ele não usa aliança nem fala da família, da esposa...
— Ora, Rúbia, você acha que todo homem tem que usar aliança?
Cai na real!
— Você acha que ele é...
— O quê? Casado?
— É.
— Por que o stress, Rúbia?
Levou alguma cantada? — brincou.
— Não... Só curiosidade.
As amigas continuaram conversando, porém aquele assunto fervilhava na mente de Rúbia.
Naquele início de noite de sexta-feira, Geferson estava com o carro estacionado em uma rua próxima à empresa onde trabalhava, quando Rúbia, apressadamente, correndo da chuva, abriu a porta do veículo rapidamente e sentou-se ligeira.
— Pensei que não viesse por causa do tempo — disse ele.
— Oi. Tudo bem?
— Tudo — respondeu ele, beijando-lhe rápido.
Em seguida, perguntou:
— Quer ir a algum lugar especial?
— Antes preciso conversar com você — falou encarando-o.
Ela havia pensado muito a tarde inteira e desejava argumentar sobre o assunto de uma forma que ele respondesse exactamente a verdade.
Então arriscou:
— Eu soube, por uma pessoa da empresa, que você é casado.
Geferson pareceu esperar por aquela descoberta em algum momento.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 9:58 am

Ele sorriu por um instante e respondeu com tranquilidade na voz:
— Estou me divorciando.
Breve pausa em que abaixou o olhar entristecido, pegou nas mãos húmidas de Rúbia e expressou-se constrangido:
— Justamente hoje, eu ia conversar com você sobre isso.
— Então você é casado mesmo!
Eu não posso acreditar! — exclamou puxando as mãos que ele segurava e as esfregou no rosto num gesto aflitivo.
— Estou me divorciando, Rúbia.
A situação está muito complicada.
Eu já deveria ter saído de casa, mas...
— Eu vou embora.
Quando ia sair do carro, Geferson a segurou pelo braço e pediu generoso:
— Por favor, fica.
Ouça-me primeiro.
— Não vou ser a outra!
Não serei o motivo de sua separação.
— Não é por sua causa que estou me separando. Acredite!
Além do mais, você não é a outra.
Apesar de viver com ela na mesma casa, dormimos em quartos separados há muito tempo.
— Então por que não se separaram ainda?
— Por problemas com a família.
Uma das razões é a minha mãe...
Ela... Ela é uma pessoa com certa idade.
Muito conservadora e mora connosco.
Tem sérios problemas de saúde.
Seu coração, principalmente...
Eu... Eu... — gaguejava, mostrando-se comovido, vitimado.
— Tentei conversar com ela, mas não deu.
Tive de socorrê-la todas as vezes.
Da última, ficou internada por duas semanas.
Teve problemas renais, precisou fazer diálise...
Não posso carregar a culpa com grave consequência para ela, por causa de meu divórcio.
Você não pode imaginar como é difícil.
— Não posso acreditar nisso, Geferson.
Além do que...
— Rúbia, eu te amo! Te adoro!
Não esperava experimentar um sentimento tão forte assim por uma pessoa e...
Você foi a melhor coisa que já aconteceu em minha vida! — expressou-se como se implorasse por compreensão.
Tocando-lhe o rosto com carinho, ele a fez olhá-lo nos olhos e afirmou parecendo sincero:
— Se eu sonhasse que iria encontrar uma pessoa como você, já teria me divorciado antes, mesmo com minha mãe sofrendo tanto.
Essa minha situação mal resolvida será por pouco tempo.
— Então, primeiro você se divorcia e sai de casa. Depois...
Interrompendo-a, tornou-se sentimental:
— Pensei que me amasse e confiasse em mim, Rúbia.
— Eu te amo muito, mas...
— Peço que confie em mim e me dê um tempo.
Dê-me um tempo em nome desse amor! — implorou novamente, afagando-lhe o rosto com as costas das mãos.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 9:58 am

Rúbia estava confusa, trémula e sem saber o que dizer.
Seu coração apertava, doía.
Continuar comprometida com um homem que acabava de saber ser casado, era contra seus princípios.
Seus valores morais clamavam que se afastasse de Geferson, mas, por outro lado, apreciava sua companhia e sentia-se muito sozinha.
Não queria ficar só.
Tinha medo de que a vida lhe reservasse a solidão.
Uma angústia apertou-lhe o peito ao dizer:
— Sempre repugnei a outra, a amante...
Essa é uma condição detestável.
— Não é a sua condição.
Você não é a outra — afirmava convicto.
Não tenho mais nada com ela a não ser uma situação ainda não resolvida no papel.
Alguns instantes e pediu com jeito comovido:
— Por favor, Rúbia, acredite em mim.
Confie em mim. E só isso o que lhe peço.
Sem demora, ele ajeitou-se no banco, levou a mão ao bolso interno do paletó e tirou uma caixinha, declarando-se:
— Eu amo você.
Entregando-lhe, pediu:
— Abra. É uma prova de meu amor.
— Para mim?! — perguntou, esboçando leve sorriso ao pegar a pequena caixa.
Ao abri-la, viu brilhar um lindo anel.
Passando alguns segundos, delicadamente Geferson pegou a jóia, tomou-lhe a mão fina e macia e deslizou o anel em seu dedo.
Foi quando ela murmurou:
— É lindo!
— E o símbolo do que sentimos.
Dizendo isso, aproximou-se com leveza e beijou-lhe os lábios com carinho.
Em seguida, sugeriu:
— Podemos jantar em um lugar muito especial, alongar a noite e...
Rúbia, apesar de estar feliz com o presente, sentia novamente seu peito apertar.
Mesmo assim, sorriu e não disse nada.
Satisfeito, ele ligou o carro e se foram.
* * *
Na manhã do dia seguinte, Abner bateu à porta do quarto da irmã e ela respondeu alto, em meio ao barulho do secador de cabelo:
— Entra! Está aberta!
— Bom dia! Nossa! — admirou-se ele, rindo e abanando o ar para dissipar o calor e o pouco de vapor que havia.
Você é quem está provocando o aquecimento global com esse secador de cabelo e essa chapinha.
— Ah! Não enche! — respondeu rindo e desligando o aparelho.
Se eu não fizer tudo isso, esse cabelo fica uma droga.
— Seus cabelos são bonitos quando naturais. Não exagera.
— Todos podem achar, mas eu não.
Prefiro quando estão lisos.
— Vai acabar estragando-os por causa dessa chapinha.
— Não amola, Abner!
Veio aqui para falar dos meus cabelos? — riu, passando a prancha quente nos cabelos.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 9:58 am

Sem esperar que o irmão respondesse, explicou-se:
— Não encontrei vaga no cabeleireiro aonde costumo ir.
Por isso estou fazendo tudo em casa.
— A mãe, outro dia, estava brava porque você queimou a colcha e o estofado da cadeira.
— Bobeei. Esqueci que estava quente.
— Rúbia...
Aguardou que a irmã o olhasse e comentou:
— Vou me mudar hoje.
O apartamento está quase todo pronto.
Só faltam levar as últimas roupas e livros.
— Hoje?! — surpreendeu-se.
Pensei que fosse ficar mais uma semana.
— Também pensei, mas não.
Está tudo arrumado.
Só falta o técnico ir ligar o gás encanado.
Ficarei sem fogão por alguns dias, mas isso não é problema.
Quer ir lá comigo ver como está?
— Quero sim! — animou-se.
Porém, pensando um pouco, titubeou:
— Só que... Estou esperando uma ligação e...
— E?... Já vi que é namoro complicado — riu o irmão de modo simples.
— Como assim?
Por que diz que é namoro complicado? — interessou-se ela, parando com o que fazia.
— Quando o namoro não é complicado, normalmente os dois estão livres nos finais de semana e um não precisa ficar dependendo do outro ligar para confirmar se vão sair ou não.
Rúbia ficou pensativa e com semblante bem sério.
Aquele comentário de seu irmão a incomodou muito.
— Às vezes, a pessoa é livre, mas surgem coisas para fazer e... — ela tentou argumentar, mas não sabia o que dizer.
Enquanto Abner, mexendo com simplicidade no que havia sobre o móvel, pegou a pequena caixa com o anel e a abriu, admirando-se:
— Nossa! É de verdade?
— Não. É virtual.
Não tem nada na sua mão.
Não percebeu? — riu.
— Malcriada! — ele retrucou.
— Ganhei ontem.
— Sei...
Ontem você chegou tarde e disse que saiu com os amigos para comemorarem o aniversário de alguém.
Por acaso sobrou presente? — sorrindo, perguntou desconfiado.
— Não... É que... — Rúbia não sabia o que dizer, atrapalhando-se.
O irmão sorriu descontraído e pediu:
— Fique tranquila.
Não precisa me responder nada.
Não tenho nada a ver com sua vida.
Só reparei que é uma jóia bastante bonita e cara.
Mais relaxada, ela suspirou fundo e contou:
— Estou namorando.
Comemoramos três meses de namoro e ele me deu esse anel de presente.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 9:59 am

— Se com três meses de namoro o presente é esse...
Imagino qual será o de um ano! — olhando-a, brincou.
Ao ver a irmã parecer forçar um sorriso, indagou:
— Você não está feliz?
— Sim, estou. É que...
Sinto-me insegura.
— A insegurança, algumas vezes, é a responsabilidade batendo à porta.
— Como assim? — ela quis saber.
— Quando vamos fazer... ou quando estamos fazendo uma coisa importante e temos muitas questões envolvidas, certos deveres a serem observados e obrigações de responder pelos próprios actos ou obrigações de responder pelos actos daquele que nos acompanha, nós experimentamos a sensação de insegurança, de dúvida.
A insegurança também acontece quando fugimos dos nossos princípios.
— É que tudo aconteceu tão rápido...
— Por que diz que foi rápido?
Vocês só estão namorando.
Não tem nenhum compromisso sério a caminho ou tem?
— Não.
— Então não tem nada rápido.
Nós não conhecemos o cara.
Você não o trouxe aqui em casa.
Não estão marcando casamento...
Não há nada rápido nessa história.
— É difícil explicar.
— Ele é do seu serviço?
— É — respondeu simplesmente.
— Só posso lhe aconselhar o seguinte, maninha:
quando se tem insegurança ou dúvida em alguma coisa, não se deve ir adiante se isso estiver incomodando muito.
Vá devagar. Conheça-o bem, antes.
Assim não vai se arrepender de nada que faça.
Por um instante viu-a reflexiva e logo perguntou:
— E então? Vamos lá ver o meu apartamento?
— Se você me esperar terminar de arrumar o cabelo...
Vou sim — sorriu.
— Está certo.
Vou lá acabar de carregar minhas últimas coisas para o carro.
* * *
Abner levou suas caixas de livros e roupas para o carro, mas a irmã ainda não havia se arrumado.
Então ele foi até a cozinha e tomava uma xícara de café enquanto conversava com sua mãe.
— Faz assim: você vem almoçar e jantar aqui até ligarem o gás no fogão — opinava dona Celeste tentando ajudar.
— Vamos fazer o seguinte, mãe:
quando eu vier almoçar aqui, eu ligo, como sempre fiz.
Quanto ao jantar...
O micro-ondas está funcionando.
Eu como um lanche. Não se preocupe.
Além disso, será por dois ou três dias.
— Quanto a suas roupas sujas...
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 9:59 am

— Mãe!... Não se preocupe.
Eu sei me virar muito bem.
Se precisar, pode deixar que peço ajuda, tá?
Breve pausa e perguntou:
— Vem cá! E a Simone? Está sumida.
Quase não a tenho visto nas últimas semanas.
— O médico pediu uns exames mais específicos para o nené.
Disse que é só para tirar algumas dúvidas. Nada sério.
Porém eles estão preocupados.
Acham que o médico viu alguma coisa errada na saúde do bebé e não quer assustá-los.
— Nossa... Essa expectativa é pior do que um resultado rápido.
O médico não disse sobre o que suspeitava?
— Não. É isso o que mata.
Sua irmã andou tendo crise de choro.
Nem foi dar aula na faculdade.
— Se eu não tivesse de acabar de arrumar minhas coisas lá no apartamento, iria lá conversar com ela.
Talvez amanhã dê tempo de fazer isso.
— Essa porcaria de apartamento está tirando todo o seu tempo — interrompeu o senhor Salvador, entrando na cozinha.
— Isso é assim mesmo, pai.
Enquanto eu não puser tudo em ordem... — explicou Abner paciente.
— Você quase não tem tempo para sua família.
Sua mãe precisou fazer compra no mercado e teve de pegar táxi para vir embora.
— E por que o senhor não foi buscá-la?
Seu carro está quebrado? — tornou o filho.
— Não — respondeu a mãe no lugar de seu pai.
Ele estava assistindo ao jornal na TV e se esqueceu de ir me pegar.
— Não foi bem assim — tentou defender-se.
Você não disse a hora certa que era para eu ir te buscar.
E eu tava vendo um caso interessante e...
— Caso mais interessante do que eu, claro! — esbracejou a esposa.
Por isso não se lembrou de ir me pegar.
— A reportagem era interessante sim.
Quando envolve o meu dinheiro, quando envolve o que eu pago de imposto para esse governo ladrão, que gasta tudo o que é meu sem que eu tenha um benefício, é interessante sim!
Bando de safado e sem-vergonhas.
Eu trabalhei a vida toda e dei um duro danado pra criar vocês e não deixar faltar nada em casa.
Tive de pagar plano de saúde, porque o atendimento público é péssimo.
Paguei dentista porque se fosse depender do governo estavam todos banguelas aqui em casa.
Apesar disso, ainda tive de pagar imposto e nem rico sou!
Foi por isso que eu e sua mãe decidimos ter só vocês, ou melhor...
Era pra ser só você e a Simone, mas a Rúbia acabou vindo por engano.
Daí que sua mãe decidiu que era eu quem ia operar.
Operei. Meio a contragosto, mas operei.
Foi a melhor coisa que fizemos.
Onde come três filhos, se tiver quatro ou cinco, todos vão passar fome e necessidade.
Não dá para dar boas condições de vida para todo mundo.
Aí, a gente vê na televisão que, hoje em dia, mesmo com tudo tão adiantado, aparecem aquelas mulheres igual ratazanas com cinco, seis, sete e até dez filhos!
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 9:59 am

Será que depois do segundo, ela não aprendeu como é que faz para não ter mais filhos?
Ou melhor, o que é que tem de deixar de fazer para não se ter mais filhos?
— Salvador!
Você não tem nada com isso! — repreendeu a esposa.
— Ah! Tenho sim!
A safada fica reclamando que não tem creche, não tem escola para as crianças, que passa fome, que o governo não dá nada...
Ela foi perguntar pro governo se poderia arrumar filho, um atrás do outro, pro governo e pros pagadores de impostos sustentar?
Sim, porque quem sustenta ela e os filhos são aqueles que pagam impostos.
De onde ela acha que vem o dinheiro que recebem com bolsa-família, vale-gás, vale-leite, material escolar oferecido nas escolas públicas, uniformes escolares, construção de creches?...
O dinheiro para tudo isso vem do meu bolso e do bolso dos contribuintes!
Tenho certeza que ela não paga imposto!
Daí, fica gritando, querendo que o governo dê casa, moradia...
Quando eu quis, comprei esse terreno e construí às minhas custas!
Governo nenhum me ajudou não!
Eu tive e tenho que pagar imposto, até hoje, pelo que construí!
Esse pessoal quer tudo fácil.
É gente que não pensa, só dá despesa pro governo. — Sem oferecer trégua, continuou:
— Eu e seu avô erguíamos as paredes desta casa nos finais de semana.
Seu avô rebocou tudo e sua mãe era servente de pedreiro.
Ela carregou muito tijolo e areia.
Até virar massa, ela virou.
Todo mundo se esforçou muito para ter tudo o que temos.
Hoje se eu preciso de alguém para refazer a calçada, que tá rachada, não acho um pedreiro bom, responsável, que quer trabalhar.
Pagando, eu não acho!
Mas gente pedindo coisa no portão...
Ah!... Isso tem!
A esposa e o filho não se manifestavam.
Conheciam-no bem.
Sabiam que, se o fizessem, o assunto nunca terminaria.
— Sabe o que o governo deveria fazer?
Sem esperar pela resposta, disse:
— Colocar anticoncepcional na rede de tratamento de água e dar para essa gente beber.
Ninguém teria filho que não pode sustentar.
Daí ficaria todo mundo imunizado.
— Não é imunizado, pai. E estéril.
Todos ficariam estéreis para não ter mais filhos...
Mas... O que estou falando? — riu de si mesmo.
Que absurdo, pai!
— Absurdo é esse povo ficar reclamando do governo que não dá casa, creche...
Então eles constroem barracos em lugares inadequados e quando enche de água ou pega fogo, param uma avenida ou estrada, botando fogo em pneus, incomodando os outros que trabalham e pagam impostos.
Bando de sem-vergonhas! Safados!
E ainda ficam nos abrigos da prefeitura reclamando das condições.
De onde vem o dinheiro que sustenta esses abrigos?
Dos impostos que eu e os outros pagamos!
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Ave sem Ninho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 9:59 am

— Pronto! — disse Rúbia ao chegar à cozinha. — Demorei?
— E como! — exclamou o irmão, levantando-se.
Voltamos mais tarde.
— Eu ainda não conheço o seu apartamento, Abner.
Quando vai me levar lá? — reclamou o pai.
— O dia que o chamei, o senhor não quis ir.
Hoje não dá. Os bancos de trás do carro estão cheios de caixas.
Outro dia eu o levo, está bem?
— Isso é porque estou velho, aposentado...
Mas se fosse uns anos atrás...
O senhor Salvador encontrou outro motivo para queixar-se, enquanto Abner e Rúbia se despediram rapidamente e se foram.
* * *
Já no novo apartamento do irmão, ela reparava:
— Que mesa linda! Adorei!
Olhando adiante, comentou:
— Uaaauh! Que TV enorme!
— Entregaram ontem — disse colocando a caixa que carregava no chão.
Gostou?
— Adorei. Era um apartamento desses que eu queria.
— Em menos de um ano, o outro que comprei deve ser entregue.
Quem sabe você não aluga este?
Se for, sou capaz de deixar muita coisa aqui.
— Quem sabe — sorriu parecendo sonhar.
Em seguida, pediu:
— Deixe-me olhar a vista do seu quarto.
No dia em que viemos aqui, não pude entrar lá.
O pintor estava dando os últimos retoques.
Observando, brincou:
— Que cama enorme! Precisava ser de casal?!
— Você está parecendo o chapeuzinho vermelho da estória infantil quando pergunta: que TV enorme!
Que mesa linda! Que cama enorme! — arremedou.
Só falta perguntar para que serve — riu.
A irmã achou a comparação engraçada e sorriu.
Indo até a janela, abriu-a e ficou admirando a vista:
— Muito legal a vista.
Não tem aquele monte de prédio na frente.
Você não precisa fechar as cortinas para não olhar a sala ou o quarto dos outros.
— Eu acho isso muito importante.
Quando for comprar um apartamento, é importante reparar detalhes como esses.
Algumas pessoas não se importam, a princípio.
Somente com o tempo vão ver o quanto é desagradável olhar e ver um vizinho de outro edifício observando dentro de sua casa.
Isso é horrível. Penso muito nisso quando vou desenvolver uma planta.
Nesse momento, o telefone tocou e Abner alegrou-se:
_ Inauguraram o telefone! Finalmente!
Ele não havia tocado desde quando foi ligado.
Rúbia ficou admirando a vista ampla para o panorama do centro da cidade enquanto o irmão foi atender o telefone.
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Ave sem Ninho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 10:00 am

Não demorou e o rapaz retornou dizendo:
— Era o Ricardo.
Ele vai dar uma passadinha aqui e...
Vendo-a reflexiva, perguntou:
— Importa-se de vir comigo para o escritório?
Quero pôr em ordem os livros que trouxe.
— Vamos lá, se eu puder ajudar...
— Ah... Pode sim! Venha.
Ao mesmo tempo em que arrumavam uma estante, conversavam.
— O pai está terrível.
Cada dia que passa critica mais e mais.
Porém, algumas de suas observações têm fundamento, apesar de duras.
Quando cheguei lá na cozinha, ouvi o que ele dizia — riu, achando graça.
— Ah!... Foi a história de pôr anticoncepcional na água? — riu Abner.
— Foi — riu a irmã.
A imaginação dele é fértil demais.
Foi engraçado, mas não disse nada, pois ele iria alongar o assunto.
— Não se pode dizer isso de pessoas em condições difíceis.
Não sabemos a razão de passarem por situações como essas.
— Sei lá... Puxa vida!
Às vezes penso...
Será que não sabem como se prevenir de uma gravidez indesejada?
Porque eu acho que, com mais de um filho e passando necessidade, ninguém iria desejar ter mais filhos, não acha?
— Sabe, Rúbia, eu penso que pessoas assim precisam de orientação e não de críticas.
Elas não aprenderam diferente.
— Discordo de você.
Os meios de comunicação são amplos.
Todos sabemos das dificuldades.
Tem gente que, hoje em dia, primeiro se junta.
Depois que ela fica grávida, faz um puxadinho na casa de algum parente.
Após algumas brigas ou mesmo devido às condições naturais hostis, muda-se para algum barraco.
Só então ele resolve arrumar emprego.
Trabalhar ninguém quer, todos querem estar empregados, receberem seus salários e terem seus direitos para, na primeira oportunidade, porem a empresa no pau, como dizem.
Daí descobrem que emprego tá difícil e que não têm qualquer especialização ou qualificação.
Aí ficam desempregados, dependendo das bolsas, dos vales do governo e tudo mais.
Então o barraco enche de água, ficam sem ter para onde ir, sem creche para deixarem o filho para ela trabalhar também.
Quando conseguem uma creche, ela engravida de novo e aí vem a licença-maternidade, licença de filho doente, licença disso e daquilo.
E por isso que muita gente pensa muito antes de empregar uma mulher.
— Rúbia, não seja tão exigente.
As coisas não são assim.
Você tem essa visão porque viemos de uma família que, apesar de ter um pai sem cultura e um tanto grosseiro, é um homem que planeou o futuro, acercou-se de fazer tudo certo e nos ensinou assim.
Mas essas pessoas, que vivem em condições tão precárias, não aprenderam isso com seus pais.
Se é que tiveram pais para lhes ensinarem alguma coisa.
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Ave sem Ninho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 10:00 am

Então, lamentavelmente, será a vida que terá de lhes ensinar através de experiências, muitas vezes, amargas.
Não pense que elas gostam, que apreciam viver nessas condições.
— Você, hein...
Sempre em defesa dos pobres e oprimidos.
A campainha tocou e Abner foi atender.
Logo Rúbia ouviu uma voz dizendo:
— Esqueci minhas chaves aqui ontem.
Um murmurinho, que ela não conseguiu ouvir e, em seguida, seu irmão retornou ao escritório e apresentou:
— Esta é minha irmã, Rúbia e...
Este é meu amigo, Davi.
— Prazer, Davi.
Finalmente nos conhecemos. Tudo bem?
— O prazer é meu. Realmente...
Demorou um pouco para nos conhecermos, mas, enfim...
Tratava-se de um rapaz bonito, de trinta e dois anos, estatura média, mais ou menos um metro e setenta e cinco.
Corpo normal, sem músculos ressaltados.
Pele branca, cabelos pretos e lisos, teimosos e escorridos.
Olhos claros, cor de mel, quase esverdeados, um tipo bem raro de cor.
Seu rosto era angelical, bem suave.
Barba escassa e bem feita.
Tinha uma expressão confiável, alegre e amorosa.
Transmitia carinho e felicidade no olhar.
Sua voz tinha um tom generoso e muito educado.
Seu sorriso, de dentes extremamente alvos e impecáveis, era lindo.
— É bom conhecê-lo.
— Obrigado. Fico feliz com isso.
Observando-a, brincou:
— Você é muito bonita! Parabéns!
Só que... Você mentiu, Abner!
A Rúbia é linda!
— Meu irmão é um... um... — ficou procurando palavras para corresponder a provocação ao gracejo, mas não encontrou.
— Brincadeira, Rúbia.
Ele me disse que você é muito bonita sim.
Agora sei que não é mentiroso.
— O que é aquilo que você trouxe, Davi? — quis saber o outro.
— Passei em uma padaria e comprei um bolo, isto é, um brownie e alguns biscoitos salgados para equilibrar — riu.
Creio que dê para fazer café aqui, não é?
— Dá sim. Eu trouxe a cafeteira ontem — tornou Abner.
Os pensamentos de Rúbia fervilhavam.
Então esse era o Davi.
O amigo com quem seu irmão não quis conversar por telefone perto dela.
Porém, depois, telefonou para ele e conversaram sobre pôr o apartamento no nome deles.
Qual o interesse de Abner em colocar o apartamento também no nome de Davi?
Seria aquele alugado ou o outro que comprou?
Não, o que comprou não poderia ser. Talvez este.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 10:00 am

Quem sabe ele e Davi dividiriam o apartamento, mas ela só viu um quarto de dormir montado.
Um momento e lembrou:
"O rapaz disse haver esquecido as chaves.
Por que teria as chaves dali?"
Foi estranho cochicharem para ela não ouvir.
Houve muito mistério para a apresentação daquele amigo. Por quê?
Um pensamento ligeiro passou por suas ideias, entretanto, achou impossível, absurdo e o afugentou de imediato, voltando a atenção para a conversa dos dois.
— Se fosse depender do fogão... — dizia Abner.
— Ainda não ligaram o gás? — indagou o amigo.
— Não. Deixei a chave com o zelador, mas ele disse que o técnico não veio.
— Depender de prestador de serviço é fogo.
Nunca cumprem o prometido.
— Nem me diga — tornou Abner indo para a cozinha preparar um café, enquanto Davi o seguia.
Rúbia sorriu e ficou no escritório arrumando alguns livros.
Não demorou e a chamaram.
Sentados à mesa da sala de jantar, a moça observou:
— Nossa! Que lírios perfumados.
São lindos!
— A minha mãe disse que lírios brancos trazem alegria, amor e sorte.
Então, estávamos no mercado e ela decidiu comprá-los para o Abner.
Para trazer prosperidade para a nova casa.
— E como está a dona Janaina?
Por que não veio? — quis saber o amigo.
— Ela está bem. Ficou com meu irmão.
Reclamou de você por não ter ido lá em casa domingo passado.
Você havia prometido.
— Não deu. Você sabe.
Aliás... Estou com dois livros dela e os encontrei hoje quando vinha trazendo os meus para cá.
Já os li. Quando for embora, não se esqueça de levá-los para ela, por favor.
Coloquei-os sobre a mesa do escritório.
— Não se preocupe.
Tenho certeza que ela não tem pressa.
— "Emprestar é um prazer. Devolver é um dever", diz o ditado popular.
Gosto de ter o caminho aberto quando o assunto é empréstimo, por isso não deixo de devolver nem deixo estragar qualquer coisa que pego emprestado.
A propósito, os livros são muito bons.
— Livros de quê? — interessou-se Rúbia.
— Romances espíritas — respondeu Davi.
Minha mãe é espírita e o Abner vinha se interessando pelo assunto.
Eu o levei lá na minha casa.
Ele e minha mãe ficaram horas conversando sobre tudo.
É lógico que a conversa foi regada a café com bolinho de chuva — riram.
Agora, não param mais de conversar.
— Conheço um pouquinho sobre espiritismo, mas não muito.
Você é espírita? — ela quis saber.
— Diz-se que o espírita é o frequentador assíduo de uma casa espírita, que faz cursos sobre a doutrina e presta trabalho voluntário no centro.
Se você perguntar se sou frequentador assíduo do centro espírita e se, actualmente, faço cursos, a resposta é não.
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