MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 10:01 am

Quem sabe ele e Davi dividiriam o apartamento, mas ela só viu um quarto de dormir montado.
Um momento e lembrou:
"O rapaz disse haver esquecido as chaves.
Por que teria as chaves dali?"
Foi estranho cochicharem para ela não ouvir.
Houve muito mistério para a apresentação daquele amigo. Por quê?
Um pensamento ligeiro passou por suas ideias, entretanto, achou impossível, absurdo e o afugentou de imediato, voltando a atenção para a conversa dos dois.
— Se fosse depender do fogão... — dizia Abner.
— Ainda não ligaram o gás? — indagou o amigo.
— Não. Deixei a chave com o zelador, mas ele disse que o técnico não veio.
— Depender de prestador de serviço é fogo.
Nunca cumprem o prometido.
— Nem me diga — tornou Abner indo para a cozinha preparar um café, enquanto Davi o seguia.
Rúbia sorriu e ficou no escritório arrumando alguns livros.
Não demorou e a chamaram.
Sentados à mesa da sala de jantar, a moça observou:
— Nossa! Que lírios perfumados.
São lindos!
— A minha mãe disse que lírios brancos trazem alegria, amor e sorte.
Então, estávamos no mercado e ela decidiu comprá-los para o Abner.
Para trazer prosperidade para a nova casa.
— E como está a dona Janaina?
Por que não veio? — quis saber o amigo.
— Ela está bem. Ficou com meu irmão.
Reclamou de você por não ter ido lá em casa domingo passado.
Você havia prometido.
— Não deu. Você sabe.
Aliás... Estou com dois livros dela e os encontrei hoje quando vinha trazendo os meus para cá.
Já os li. Quando for embora, não se esqueça de levá-los para ela, por favor.
Coloquei-os sobre a mesa do escritório.
— Não se preocupe.
Tenho certeza que ela não tem pressa.
— "Emprestar é um prazer. Devolver é um dever", diz o ditado popular.
Gosto de ter o caminho aberto quando o assunto é empréstimo, por isso não deixo de devolver nem deixo estragar qualquer coisa que pego emprestado.
A propósito, os livros são muito bons.
— Livros de quê? — interessou-se Rúbia.
— Romances espíritas — respondeu Davi.
Minha mãe é espírita e o Abner vinha se interessando pelo assunto.
Eu o levei lá na minha casa.
Ele e minha mãe ficaram horas conversando sobre tudo.
É lógico que a conversa foi regada a café com bolinho de chuva — riram.
Agora, não param mais de conversar.
— Conheço um pouquinho sobre espiritismo, mas não muito.
Você é espírita? — ela quis saber.
— Diz-se que o espírita é o frequentador assíduo de uma casa espírita, que faz cursos sobre a doutrina e presta trabalho voluntário no centro.
Se você perguntar se sou frequentador assíduo do centro espírita e se, actualmente, faço cursos, a resposta é não.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 10:01 am

Agora, se perguntar se sou espírita de coração, de alma e em minhas práticas diárias, a resposta é sim.
— Já li inúmeros romances, contos e histórias espíritas.
O primeiro que li foi Nosso Lar, de Chico Xavier, pelo espírito André Luiz.
Foi minha irmã quem me emprestou.
Ela frequentou o centro espírita por um bom tempo.
— Esse livro é um clássico da literatura espírita.
— Eu adorei.
Um momento em que bebericou na xícara de café, ela perguntou:
— O que você faz, Davi?
— Sou odontologista, popularmente conhecido como dentista — sorriu.
— Puxa! Estou falando com a pessoa certa.
Estou com um dente dando sinal de vida — riu.
— Isso pode se tornar um problema, se não cuidar logo.
— Onde fica o seu consultório?
— Aqui perto.
Vou lhe dar um cartão — disse levantando-se e indo até o sofá pegar em uma pasta que havia deixado lá.
Voltando, entregou-o à Rúbia.
— Obrigada. Vou ligar e agendar uma consulta.
— Faça isso.
Diga à secretária que é irmã do Abner e terá um encaixe rapidinho.
Nesse momento, Abner comentou:
— O Ricardo ficou de passar aqui para me trazer alguns projectos, mas está demorando.
— Tomara que ele chegue logo.
Estou esperando um telefonema e talvez precise ir.
Quando Rúbia disse isso, o interfone tocou e Abner foi atender.
Não demorou muito e a campainha soou.
O rapaz foi abrir a porta e retornou na companhia de Ricardo e de um garoto aparentando cerca de dez anos.
Ao chegar à sala, o sócio de Abner os cumprimentou e, a seguir, apresentou:
— Este é meu filho, Renan.
Educado, o garoto cumprimentou todos e sentou-se no sofá por sugestão do pai.
O menino trazia nas mãos um pequeno aparelho de jogos electrónicos e estava atento em um deles.
Ricardo entregou a Abner o que precisava, aceitou a xícara de café oferecida e depois comentou:
— Faz tempo que não nos vemos, não é Rúbia?
— É verdade.
Faz alguns meses que não vou à empresa de vocês.
Nem você a nossa casa.
— O que tem feito de bom? — tornou ele.
— Consegui um emprego novo.
— Óptima novidade.
Isso é bom demais. Parabéns!
— Como foi horrível ficar desempregada.
Você nem imagina.
— Faço ideia.
Se bem que não ficou desempregada por muito tempo, não é?
— Para quem está acostumada a trabalhar, foi tempo demais.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 10:01 am

Virando-se para o outro, Ricardo pediu:
— Davi, diga a sua mãe que não esqueci o livro dela.
Estou quase terminando a leitura.
— Pelo que entendi, a mãe do Davi empresta livro para todo mundo — brincou Rúbia.
Quero conhecê-la também.
— Quando você quiser — disse Davi de bom grado.
A dona Janaina adora conhecer gente nova.
Receber visitas é com ela mesma.
— Avise, antes de ir lá, que ela vai lhe preparar o melhor bolinho de chuva que já comeu — sugeriu Abner.
Além de fazer um bolo de chocolate que é para comer rezando!
Parece ter sido feito por anjos.
A dona Janaina cozinha muitíssimo bem.
— Vai sentir falta da comida da mamãe quando vier morar aqui, não é Davi? — brincou Ricardo ao perguntar.
Davi e Abner se entreolharam sem saber o que responder, enquanto Rúbia estranhou a questão.
Franziu o semblante e, desconfiada, olhou para o irmão cobrando-lhe uma resposta.
Nesse instante, Ricardo arregalou os olhos e entendeu haver cometido uma gafe.
Não teria como retirar o que falou nem como tentar corrigir-se.
O silêncio reinou.
Ele ficou muito sem graça e, visto que não tinha o que dizer, decidiu ir embora.
Abner o acompanhou, deixando sua irmã e Davi na sala.
No hall, enquanto aguardava o elevador, ele retractou-se:
— Desculpe-me, Abner.
Pensei que já tivesse contado para sua irmã.
Eu os vi tão animados e...
Você disse que, quando o apresentasse, iria revelar tudo.
— A princípio, era essa a minha ideia — sorriu sem jeito.
Após ela e o Davi conversarem um pouco, pensei em contar, mas não deu.
Faltou coragem. Então você chegou.
— Desculpe-me, cara.
Por favor — pediu, verdadeiramente arrependido.
— Não se preocupe. Não esquenta não.
Talvez eu volte lá agora e conte tudo de uma vez.
— O que fiz foi imperdoável.
Procure entender. Não foi por mal.
— Já disse: não esquenta.
Nada é por acaso.
— Valeu, então.
Deixe-me ir que a Flora está me esperando.
Ela vai pegar a estrada ainda hoje.
— Fica tranquilo — despediu-se, apertando-lhe a mão.
Boa viagem, Renan — cumprimentou o garoto, despedindo-se dele também.
Após vê-los pegar o elevador, o rapaz respirou fundo.
Sabia que teria de encarar a irmã.
Ao entrar em seu apartamento, viu Rúbia e Davi, em pé, conversando em tom enérgico, quase acalorado.
— Abner, pelo amor de Deus!
O que ele está dizendo é mentira, não é?!
É uma brincadeira? Estou certa?!
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 10:01 am

— Rúbia, sente-se.
Vamos conversar — pediu o irmão em tom brando.
— Não temos o que conversar! — praticamente gritou.
É um absurdo!
Caminhou alguns passos negligentes, alinhou os cabelos com os dedos e esfregou o rosto.
Incrédula, perguntou, forçando um sorriso:
— É uma pegadinha?
Olhando-a firme, de modo sério, o irmão respondeu:
— Não, Rúbia. Não é brincadeira.
Sou homossexual. Conheço o Davi há cerca de quatro anos.
Há um ano e meio, quase dois, namoramos e pretendemos nos unir.
Ela sentiu-se esfriar. Parecia sonhar.
Acreditou não ouvir direito.
Suas pernas fraquejaram e procurou o sofá, sentando-se lentamente.
Abaixando a cabeça, segurou-a com as mãos e apoiou os cotovelos nos joelhos.
O irmão foi para junto dela, sentando-se ao seu lado.
Davi ocupou um lugar à mesa, de onde os olhava, e permaneceu totalmente em silêncio.
Ao lado da irmã, Abner afagou-lhe as costas carinhosamente.
Depois falou:
— Procure entender...
— Eu nunca pensei...
Nunca pude imaginar...
Estou até me sentindo tonta, enjoada...
Não posso crer nisso!
— Não posso negar mais.
A verdade sempre aparece, Rúbia...
Ela não o deixou prosseguir e o interrompeu:
— Não quero ouvir mais nada. Vou embora.
— Não do jeito que está.
Vamos conversar — insistiu o irmão.
— Não temos muito o que conversar.
Temos?! — indagou séria, encarando-o com o semblante carregado e voz quase agressiva.
Diante da cena, Davi decidiu:
— Bem... Vou indo.
Acredito ser melhor ficarem sozinhos e conversarem.
Minha presença pode atrapalhar. Tchau.
Dizendo isso, foi-se sem alongar cumprimentos.
Rúbia o seguiu com o olhar, medindo-o de cima a baixo até o rapaz sair.
Depois, não disse nada por longo tempo.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 01, 2017 10:02 am

3 - VIDA É MUITO MAIS

ABNER FICOU acomodado ao lado da irmã por longos minutos.
Ninguém dizia nada.
Ela parecia bastante nervosa, agitando freneticamente o pé e apoiando-se na ponta para balançar a perna em movimentos bem curtos e rápidos.
Ele decidiu ir até a cozinha e trazer-lhe um copo com água adoçada, oferecendo-o.
A irmã aceitou.
Bebeu-o lentamente.
Puxando uma cadeira e sentando-se à sua frente, pôde ver as lágrimas, que não caíam, tremendo em seus olhos tristes.
— Por que está assim tão chocada?
Pensei que não fosse preconceituosa.
— Preconceituosa?!...
Nesse momento perdi completamente a noção.
Estou atordoada, com um sentimento ruim...
Tá doendo, sabe... — expressou-se gaguejando, fugindo-lhe o olhar ao abaixar a cabeça.
— Rúbia, você está falando como se homossexualidade fosse uma doença. E não é.
— Quando foi que virou homossexual?
Abner sorriu e explicou calmamente:
— Homossexualidade é uma condição normal de uma parte da população mundial.
Antigamente acreditava-se que a homossexualidade era causada por algum trauma de infância ou problema com a família.
Hoje se sabe que não é nada disso.
A pessoa nasce homossexual.
Homossexualidade não é, nem nunca foi, um distúrbio emocional, psicológico.
Aliás, é bom lembrar que o Conselho Federal de Psicologia proíbe qualquer psicólogo tentar curar uma pessoa de sua homossexualidade.
— Não foi uma escolha sua?
Sei lá... De repente você decidiu ser diferente...
— Ora... Por favor...
Ninguém escolhe ter desejo, sentimentos e emoções homossexuais.
Ninguém consegue decidir pelo mais difícil ou pelo mais fácil.
A vida simplesmente vai acontecendo.
Não é fácil admitir essa condição em um mundo tão hipócrita, ignorante e tirano.
— Se é assim...
Você sempre foi homossexual? — falava agora de modo mais calmo.
— Sim, sempre.
Veja, minha irmã, homossexualidade não é opção, é uma condição.
Eu nasci assim. Sou assim.
Não escolhi isso como quem escolhe fazer uma tatuagem e viver tatuado pelo resto da vida.
Acontece que somos educados e criados para sermos heterossexuais, ou seja, quando nasce um menino, todas as suas roupas e brinquedos são masculinos.
Ao nascer uma menina, os pais e parentes escolhem roupas e brinquedos femininos.
Até cor é determinação do sexo para alguém.
Azul para meninos, rosa para meninas.
Ignoram, até, que azul é cor feminina, sabia?
A irmã ficou em silêncio e Abner continuou:
— A família sempre espera que o menino, que o garoto se interesse pelo sexo oposto.
Assim também é com a menina.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:25 am

Mesmo quando percebem que sua tendência, seus desejos são homossexuais.
Os pais não gostam ou não querem admitir que seu filho ou filha é diferente da maioria.
E comum ouvir alguém dizer que o fulano virou homossexual.
Quando, na verdade, o correto é dizer que o fulano assumiu ser homossexual.
— Como foi que eu nunca percebi? — murmurou ela.
— Talvez porque eu nunca senti vontade de me expressar com trejeitos.
As pessoas podem se expressar como querem desde que não ofendam alguém.
Expressão é um direito.
Alguns gays têm necessidade de se mostrarem com gestos, trejeito, roupas, falas e tudo mais.
Outros não têm esse desejo.
Devemos respeitar isso.
Eu, particularmente, assim como o Davi, não tenho vontade de expor-me com trejeitos, falas, roupas...
Diante do silêncio de Rúbia, ele prosseguiu:
— Sabe... os gestos, o jeito masculino em uma mulher não quer dizer, necessariamente, que ela seja homossexual.
Tão menos o jeito delicado e feminino não indica que um homem seja homossexual.
Conheci mulheres com gestos rudes, que alguns diriam masculinizados, mas eram heterossexuais.
Talvez fossem assim pela dureza de suas vidas, pelas dificuldades, pelo ambiente em que foram criadas.
Assim como conheci homens com um lado feminino bem evidente.
Eram gentis, educados, delicados e héteros.
Gostavam apenas de mulheres.
Da mesma forma que existem homossexuais fortes, aparência máscula, praticantes de artes marciais, tipo bad boy — garoto mal — que ninguém diria que são gays, mas são.
Assim como têm mulheres com fala, jeito, gestos, vestimentas extremamente femininas.
Gostam de outras mulheres e se relacionam com outras mulheres.
— E os transexuais?
O transexual é o próximo passo após o homossexual se assumir?
— Não seja ignorante — pediu paciente.
Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
O transexual veste-se, comporta-se e, principalmente, sente-se como pessoa do sexo oposto ao que seu corpo apresenta.
Esforça-se extremamente por mudança de nome e por uma intervenção cirúrgica para a mudança de sexo.
Hoje o governo oferece, em hospitais públicos, esse tipo de cirurgia.
É difícil conseguir, porém é possível, assim como a mudança de nome em todos os documentos.
Eu entendo que o transexual masculino é uma alma feminina aprisionada em um corpo físico masculino e o transexual feminino é uma alma masculina aprisionada em um corpo físico feminino.
Cada um tem um motivo, uma razão espiritual individual para nascer assim.
O transexual não é homossexual.
Um é diferente do outro.
O homossexual masculino sabe que é homem, entende-se como homem, aceita seu corpo como é, porém gosta de pessoas do mesmo sexo que ele.
Apesar de não apreciar é capaz de se relacionar sexualmente com uma mulher.
Com a mulher homossexual é a mesma coisa.
Já uma transexual não aceita seus órgãos sexuais masculinos.
Ela acredita piamente ser mulher e não admite se relacionar sexualmente com uma mulher.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:26 am

As transexuais são pessoas que não optaram por serem assim.
Isso não é um desejo.
Elas nasceram dessa forma.
Breve pausa e justificou:
— Eu disse: as transexuais porque a maioria são homens, têm um corpo de homem.
— Abner, isso não é normal — disse ainda contrariada.
— Rúbia, você e tantas outras pessoas são preconceituosas porque esse assunto trata de sexo e do desconhecido.
Veja, falar de sexo é algo delicado e, para alguns, complicado.
Falar do desconhecido provoca medo, pois vamos lidar com os mistérios de Deus.
Se dissermos que a pessoa nasce homossexual e não que a pessoa decidiu ser homossexual, estamos falando da existência de algo antes do nascimento, estamos falando de reencarnação.
Isso nos leva a crer que Deus admite uma pessoa ser diferente para a sua evolução e por inúmeros motivos que nem podemos imaginar.
Esse assunto é extenso e nos leva a filosofar muito.
Devemos admitir que nem todo mundo gosta de pensar e repensar, pois isso leva a rever conceitos e admitir erros.
— Sem falar de vidas passadas.
De repente eu acho que Deus decidiu que alguém deve nascer homossexual para se controlar e pronto.
Não seria isso?
— Dentro da sua crença, temos um Deus injusto e tirano que para um oferece uma vida considerada normal, perfeita.
Essa pessoa encontra sua alma gémea, casa-se, tem filhos.
Irónico, acrescentou:
— Não vamos esquecer de oferecer saúde, vida longa, dinheiro, viagens e muita alegria para essa pessoa.
Em contrapartida, esse mesmo Deus resolve criar uma outra pessoa que é pobre, feia, com dificuldade para aprender, com alguma deficiência, que sofre, é doente, depende dos serviços públicos de saúde, vive desempregada...
Ou então esse mesmo Deus, que você acredita, cria alguém que vive em conflito com sua sexualidade por descobrir sua homossexualidade, pois a maior parte da população global é heterossexual pode se relacionar com o sexo oposto o que ele não quer.
Ora, por favor!
Somos diferentes uns dos outros porque Deus permite sermos assim para nos aperfeiçoarmos, aprendermos com as experiências.
Existe uma razão para tudo isso.
Essa razão, esse motivo ainda é um mistério.
Não temos um Deus injusto e tirano, mas sim um Pai que nos deixa aprender através das diversas experiências de vida.
— E por que não conhecemos os mistérios de Deus?
Por que não fica claro para o mundo inteiro que existe reencarnação?
Por que não lembramos as vidas passadas?
Isso explicaria por que alguém nasce homossexual, por exemplo.
— Sobre a reencarnação... o que posso dizer é que ela é dita em várias escritas, desde Sócrates e Platão, inclusive na Bíblia.
Muitas outras religiões e filosofias, não Cristãs, também observam e ensinam sobre a reencarnação, mas muitos não dão importância.
Talvez por terem medo de, no futuro, na próxima vida, terem de se harmonizar com tudo que fizeram de errado nessa — sorriu.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:26 am

Quanto a conhecermos os mistérios de Deus, eu creio que não os conhecemos justamente para evoluirmos, desenvolvermos nosso potencial de pensamentos bons, de justiça, fé, amor, bondade.
Nós não lembramos as vidas passadas para não enlouquecermos com as recordações de tantas burradas que fizemos e hoje sofremos por isso, ou pior, imaginarmos como será o nosso futuro para pagarmos os débitos do passado.
Ou então, não recordamos da outra vida para não ficarmos vaidosos, vangloriando-nos de algo generoso e correto que tenhamos realizado no passado.
Deus permite que não lembremos as vidas passadas para acertarmos, fazermos o que é correto por nossa escolha, por nossa vontade e não por medo.
Ninguém deve fazer algo bom por coacção, mas sim pelo coração.
— Para mim ainda é difícil entender essa diferença, essa condição.
Para mim você não é homossexual.
Não parece. Acho que deveria rever o conceito.
— Maninha, isso não é assim.
Em vez de falarmos sobre sexo, falemos dos gostos pessoais para entendermos as diferenças.
Nos anos sessenta, setenta e meados dos oitenta, tínhamos os hippies.
Era um grupo não-conformista, caracterizado pelo rompimento com a sociedade tradicional, conservadora, especialmente no que diz respeito à aparência pessoal e aos hábitos de vida e por um enfático ideal de paz e amor universais. Defendiam uma forma livre e mais liberal de vida.
Por gosto, por vontade usavam roupas largas e coloridas, cabelos ao vento, com flores...
Muitos se drogavam para alcançarem outro estado de consciência, como diziam.
Enfim, eles gostavam de viver assim.
Os hippies se viam livres só por terem aquela aparência.
Na mesma época, e até hoje, existem pessoas que gostam de ser livres, gostam ou, talvez, aprovem algumas das ideias hippies, só que nem todas, pois essas pessoas não deixam de tomar banho nem usam roupas iguais as deles.
Contudo, com toda a certeza, amam a paz, defendem o amor, a liberdade e ideias semelhantes às deles.
— Entendi o que quer dizer, mas não posso concordar.
— Rúbia, o maior problema, quando o assunto é homossexualidade, é o medo, é a ignorância, os dogmas religiosos, políticos e de falsa moral.
— Você só está querendo se justificar, arrumar uma desculpa para o seu novo jeito de viver — disse de forma rude, levantando-se.
— Sente-se, por favor.
Vamos conversar melhor.
Você é uma pessoa inteligente.
Não sabia que era tão preconceituosa.
— Eu não era preconceituosa.
Nunca se é até que se tem um irmão que, de repente, decide ser gay.
Você namorou, teve namoradas, como é que não viu sua homossexualidade antes?!
— Você está alterada.
Não gosto de conversar com gente nesse estado.
Não é bom.
—Como queria que eu estivesse?! — perguntou de forma acalorada.
Ele não respondeu, por isso continuou:
— E se de repente eu chegasse e lhe dissesse que gosto de outra mulher.
Como iria se sentir?
A princípio, iria ouvi-la.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:26 am

Mas você não está me ouvindo.
Está tão envolvida com seus medos, preconceitos e ignorância que não me ouve.
Não presta atenção em mim.
Não quer entender nem aprender.
— Medo? Ignorância? Eu?!
— Medo sim. Medo de ter de me apresentar como irmão e os outros descobrirem que sou gay.
Ignorante porque não quer aprender sobre algo novo, diferente e que desconhece, porque, por séculos e séculos, o homossexualismo, em alguns lugares do mundo, foi taxado como doença, desvio psicológico, motivo de ir para a fogueira ou para campos de concentração.
A homossexualidade sempre existiu em uma grande parcela da população mundial, em toda parte do planeta.
Só que muitos homossexuais não se revelavam por medo de serem diferentes, por vergonha.
Eles sempre foram motivos de discriminação, sofreram rejeição da família, dos amigos e conhecidos, sofreram violência de todos os tipos só por não serem como a maioria.
O preconceito contra os homossexuais é grande.
E isso tem um nome, chama-se homofobia.
A homofobia é a causa de muito sofrimento para os homossexuais porque vem repleta de agressão de todos os tipos.
Só quem já foi discriminado, rejeitado e humilhado sabe quão grande é essa dor.
— Seu sofrimento, assim como o de muitos que se dizem homossexuais, não é por causa do preconceito, é porque, no fundo, sua consciência não se aceita.
— Você está enganada, minha irmã.
Passei a ser mais feliz quando me conheci, quando me entendi e admiti ser o que sou.
Não imagina o que é ter uma namorada hoje e outra amanhã só para satisfazer a família e mostrar para os amigos e para a sociedade.
E difícil estar ao lado de alguém incompatível, alguém com quem não se quer intimidade.
Chega. Já me maltratei demais ao fazer isso.
Hoje posso dizer que sou uma pessoa resolvida.
Sei quem sou e o que quero.
Se os outros não aceitam, não entendem, problema deles.
Não estou agredindo ninguém, física ou moralmente.
Tenho minha consciência tranquila.
— Não acredito no que estou ouvindo — disse em tom amargo, em voz baixa e revoltada.
Sua próxima fala será qual?
A de me dizer que ama o Davi e vai trazê-lo para morar aqui?
— Você disse isso por mim.
Não preciso repetir — respondeu firme, encarando-a com ar sereno.
— E sua consciência?
Como você se justifica para Deus?
— Não preciso me justificar.
Deus é Pai criador de todas as coisas.
Deus é amor e bondade.
Sabe quem sou e o que sou, porque me criou.
Se Ele não entender que eu estou sendo sincero, honesto...
Se Ele não entender que sou bom e justo para com os outros e, principalmente, para comigo mesmo ao ser e viver como sou...
Se Ele, Pai Criador, não entender, então não é Deus.
Porém eu acredito que Ele entende, pois eu existo.
Rúbia respirou fundo, parecia incrédula com o que ouvia.
Pegando sua bolsa, virou-se e, sem dizer mais nada, saiu batendo a porta.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:26 am

Abner fechou os olhos, levou as mãos ao rosto e passou-as pelos cabelos, recostando-se na cadeira.
Acreditou que aquela conversa com sua irmã seria bem mais fácil.
Julgava-a menos preconceituosa e ignorante.
Ela estava confusa, insegura e revoltada.
Por um instante preocupou-se.
O que a irmã faria agora?
Contaria aos pais?
Não falaria mais com ele?
Acreditou ser melhor esperar.
Era o que lhe restava. Talvez ela precisasse reflectir.
Quem sabe procurasse orientação e assim conheceria mais sobre o assunto.
Nesse momento o telefone tocou.
Angustiado, o rapaz atendeu:
— Pronto!
— Abner?
— Fala, Simone.
Ela se calou.
Ao perceber que chorava, insistiu:
— Fala, Simone.
O que foi? — perguntou, tentando passar serenidade na voz.
— Preciso conversar.
— Fique calma.
Vamos conversar.
— Abner... Posso ir aí?
— Agora?
— É... Se eu não for lhe atrapalhar...
— Você tem condições de dirigir até aqui ou quer que eu vá buscá-la?
— Estou aqui embaixo.
Em frente ao seu prédio.
— Então suba!
Nem precisa pedir.
Estou esperando.
O rapaz foi até a cozinha e interfonou para a portaria, autorizando antecipadamente a entrada da irmã no prédio.
Aguardou alguns minutos e Simone subiu.
Ao vê-lo à porta do apartamento, nem o cumprimentou e atirou-se em seus braços.
Assim que pôde, ele a chamou generoso:
— Venha... Vamos entrar.
Após conduzi-la para o sofá, foi até a cozinha e lhe trouxe um copo com água adoçada e lhe serviu.
Esperou vê-la mais tranquila e perguntou:
— Está mais calma?
— Não sei...
Estou desesperada.
O irmão sentou-se na cadeira à sua frente e indagou:
— O que aconteceu para ficar assim?
— Eu e o Samuel fomos ao médico e os exames indicaram um problema como nené... — chorou.
Depois de recompor-se, explicou:
— Fiquei aflita quando vi a cara dele ao fazer a ultra-sonografia...
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:27 am

Ela não coordenava as ideias e se atrapalhava com o que dizia:
— Ele disse que já estava desconfiado, mas agora já podia garantir...
Simone chorava compulsivamente.
Quase não se entendia o que dizia.
— Eu fiz todos os exames que o ginecologista-obstetra pediu e...
Ao vê-la tão nervosa, o irmão sugeriu gentil:
— Calma, Simone.
Respire fundo e conte direito. Do princípio.
— Eu fiz todos os exames que o médico solicitou.
Fui lá levar. O Samuel me acompanhou e...
Depois de ver os exames laboratoriais, o médico foi fazer o ultra-som e...
O meu bebé tem Síndrome de Patau.
Simone descontrolou-se em pranto comovente.
O irmão sentou-se ao seu lado, abraçou-a e mesmo sem saber do que se tratava, entendeu ser algo grave para ela estar desse jeito.
Fazendo-lhe um carinho, disse comovido:
— Procure se acalmar.
Desespero não vai ajudar nesse momento.
Breve pausa e perguntou com jeito amoroso:
— Sabe me explicar o que é Síndrome de Patau?
— É uma falha genética raríssima.
Um acidente genético, por assim dizer.
O médico disse que é uma anomalia no cromossomo 13, por causa da trissomia.
A trissomia é um tipo de alteração cromossómica em que um cromossomo possui três cópias em vez de duas, que é o correto.
Então... essa alteração cromossómica, ou anomalia cromossómica, promove, proporciona várias... várias má-formações no feto.
Ele vai nascer, se nascer... — chorou.
Se ele nascer, terá muitos defeitos físicos.
E um problema genético tão grave que pode chegar a ponto de deformar, totalmente, um bebé.
É muito triste...
O irmão não sabia o que dizer. Levantou-se, pegou uma caixa de lenços de papel e lhe ofereceu.
Simone secou o rosto, bebeu mais um gole de água, depois contou:
— Você sabe que antes de fazer Economia, fiz Enfermagem — referiu-se aos cursos universitários que realizou —, não me lembro de ter estudado isso, mas...
Eu pesquisei a respeito e... — tirou um papel dobrado de sua bolsa, abriu-o e disse ao ler:
— A Síndrome de Patau também é conhecida como Síndrome de Bartholin-Patau.
Eu entendi que essa síndrome é causada quando não há a disjunção dos cromossomos durante a anáfase da meiose, daí geram-se gâmetas com 24 cromátides.
Sendo assim, o gameta possui um par de cromossomos 13, que juntado com o cromossomo 13 do pai, forma um ovo com trissomia.
— Não entendi direito.
É um problema hereditário?
— Tudo diz que não é hereditário.
É genético. É um acaso, um acidente.
Assim como a Síndrome de Down, ou Trissomia do cromossomo 21, causado por um cromossomo 21 a mais.
É um acidente, acontece por acaso.
— Então... Não se sabe se é o homem ou a mulher quem produziu a alteração cromossómica?
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:27 am

— Não. Não se sabe.
Sabe-se que gâmetas masculinos portadores de alterações numéricas cromossómicas têm menor viabilidade que gâmetas normais.
Nada é impossível.
Não há muita chance de um gameta alterado do homem fecundar um óvulo.
Já a mulher, por produzir apenas um óvulo, se esse tiver alteração...
Geralmente ocorre com mulheres com idade acima de trinta e cinco anos, mas pode acontecer com uma de dezoito anos.
Tenho trinta e dois...
Cuidadoso, Abner perguntou com jeitinho:
— E... O que podemos entender como... várias má-formações no nené?
O que pode acontecer com ele?
— Anomalias graves no sistema nervoso central, daí... tudo se complica.
Apresenta holoprosencefalia, arrinencefalia... — leu e chorava — ...má-formações da linha média cerebral, craniana ou facial.
O resultado é uma deficiência no embrião.
Essas deformações são variáveis.
A proencefalia — lia no papel — é a forma mais grave.
A face fica deformada, pode ser bem feio.
Pode ter olhos extremamente pequenos, ou até não ter olhos ou, ainda, ter uma espécie de... um único orifício onde tem os dois globos oculares juntos... — chorava.
Pálpebras alteradas, as orelhas malformadas e deslocadas, deformações nasais de graus variados, deformações faciais leves ou ausentes...
As mãos e os pés podem ter um sexto dedo ou o quinto dedo sobrepõe-se ao terceiro ou quarto...
O retardamento mental pode ser de moderado ou grave.
O nené geralmente apresenta fissura labial e palato fendido ou até sem o palato, ou seja, a criança não tem o céu da boca.
Chorou compulsivamente, depois contou:
— No ultra-som... Dá para ver que o meu filho tem fenda labial.
Em uma mão... o punho está fechado, como se os dedinhos não estivessem bem formados e na outra só se vê dois dedinhos.
Já dá para ver que a cabecinha tem um formato anormal.
Aflita, desabafou:
— Essa anomalia é incompatível com a vida normal.
A Síndrome de Patau ocorre uma entre 20.000 nascidos vivos.
Quando chegam a nascer, cerca de oitenta por cento morre no primeiro mês de vida.
Outros vivem até seis meses.
Em casos raros chegam a viver cerca de dez anos.
Possuem problemas cardíacos congénitos ou má-formação do coração, problemas renais, mentais, genitais...
Breve pausa e contou:
— Apenas dois e meio por cento dos fetos com essa síndrome nascem vivos.
Mexendo novamente em sua bolsa, tirou outros papéis e entregou-os para Abner.
Chorando, disse:
— Imprimi essas fotos da internet. Veja.
O rapaz se surpreendeu ao olhar fotos tão tristes e ficou impressionado.
Após observá-las bem, dobrou-as novamente e as colocou na bolsa da irmã que estava aberta sobre o sofá.
— Pesquisei também a respeito da chance de se ter um segundo filho com a mesma síndrome e...
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:27 am

Entendi que a chance é a mesma de uma mulher que nunca teve filhos.
Isso é um acidente. Mas...
— Esse diagnóstico sobre o nené é definitivo? — quis saber o irmão preocupado.
Tipo... Não tem tratamento?
— Não, não existe tratamento.
Não se pode fazer nada. Estou angustiada.
Não consigo trabalhar.
Não consigo me concentrar em mais nada.
Só penso nisso. Não esperávamos por nada assim.
É nosso primeiro filho! Entende?!
O outro não respondeu e ela continuou:
— Planeamos tudo em nossas vidas.
Compramos uma casa, depois de colocá-la em ordem nós nos casamos, demos um duro danado...
Só após bem estabilizados, decidimos ter um filho.
Agora... ele virá com sérios problemas e nem terá muito tempo de vida, se nascer...
Alguns minutos e perguntou lamentosa:
— O que eu faço, meu irmão?
— Se você não pode fazer nada, se não há nada que ninguém possa fazer, então deixe acontecer de acordo com a vontade de Deus.
Simone o olhou fixamente, secou as lágrimas com as mãos e comentou:
— Não pensei em aborto.
Eu não teria coragem mesmo se o médico falasse a respeito.
Mas... Não sei o que faço.
Não sei se me apego a ele, se continuo conversando, brincando e contando historinhas...
Um soluço embargou sua voz.
— Tenho medo de sofrer...
O médico disse que crianças com esse problema não têm muito tempo de vida e eu não paro de pensar nisso.
Abner respirou fundo, pensou por um momento e respondeu:
— Essa criaturinha aqui — falou ao passar a mão carinhosamente sobre a barriga —, é fruto de seu amor com o Samuel.
Não importa qual a dificuldade que esse nené tenha ou venha a ter.
Eu acredito que é um ser querido.
Vou dizer que deve ser muito querido para você ter desejado ajudá-lo, dar-lhe abrigo, carinho, amor e até ter querido aprender com ele.
Uma criança não vem como filho ou filha se não for para ser amado.
Não importa se é para ser gerado, nascer e viver só por alguns dias, meses ou poucos anos.
Não importa o tempo que ele deva ficar perto de vocês.
Esse filho é para ser amado todo dia, cada momento, cada segundo, como se fosse o único e o último.
— Eu queria que ele fosse perfeito — tornou, expressando-se triste.
— É claro que queria. Lógico.
E isso é maravilhoso, pois você deseja o bem para o seu filho.
Mas o Pai, que está no céu, sabe o que é melhor para ele.
O Pai Celeste sabe do que seu filho precisa para ser uma criatura melhor, para evoluir.
A vida não se limita somente aos anos que vivemos aqui na Terra.
A vida é eterna. A vida é muito mais do que experimentamos aqui.
Pode parecer estranho o que vou dizer, porém é a realidade:
essa experiência é para a evolução, é para o crescimento espiritual seu, de seu filho e do Samuel também.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:28 am

— Eu sei. Acredito nisso.
Só que quando uma situação dessas acontece com os outros, é mais fácil entender e encontrar explicações.
Quando é com a gente, dói.
Ela estendeu-lhe as mãos e o irmão as pegou, puxando-a com delicadeza para perto de si.
Simone recostou-se em seu peito e o abraçou.
Enquanto sentia o afago nos cabelos longos e um beijo no alto da cabeça, disse:
— Estou muito triste.
Decepcionada comigo mesma.
É como se eu fosse a culpada pelas condições dele.
— Não diga isso.
Você é uma pessoa instruída.
Sabe que isso não é verdade.
— E que gostaria que fosse diferente.
— Lógico que sim.
Porém é forte o suficiente para lidar com essa situação ou Deus não permitiria a você e ao seu filho que passassem por essa prova.
Ele também é forte e, provavelmente, pediu essa experiência.
— Você também acredita nisso? — perguntou, afastando-se do abraço e encarando-o firme.
— Sem dúvida.
Sei que você também sabe que os desafios e dificuldades só existem para mostrarmos nossa fé e evoluirmos.
Breve pausa e indagou:
— E o Samuel, como está lidando com essa situação?
— Não conversamos a respeito desde quando saímos do consultório médico.
Não conseguimos falar sobre o assunto.
Às vezes, ele vem, me faz um carinho... Só isso.
Nunca mais conversou ou brincou com o nené.
Lágrimas rolaram em sua face.
Dessa vez ela parecia mais calma.
Chorava sem desespero.
— Contou para a mãe?
— Não. Não tive coragem.
Não sei como contar.
Um instante e falou:
— Eu estava fazendo o enxoval...
Comprei cada coisinha tão linda...
E agora? Continuo?
O que você faria no meu lugar?
— Faria tudo o que precisa ser feito, normalmente.
Sem exageros, mas faria tudo naturalmente.
— Mas... Ele pode nem chegar a usar.
— Mesmo assim.
Veja bem, eu penso que você precisa fazer tudo de maneira normal, como se não soubesse de nada.
Afinal, se não fosse pelos exames clínicos e laboratoriais tão modernos, não saberia de nada, não é?
— Sim, mas...
— Simone, cuide-se.
Cuide de seu filho normalmente.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:28 am

Trate-o com amor, carinho, bondade.
Demonstre todo o seu afecto.
— Fazendo isso, vou sofrer mais quando ele se for — chorou.
— Vai sofrer de qualquer jeito.
Mas que seu sofrimento não seja carregado de remorso, dor e arrependimento por não ter sido uma boa mãe nos momentos em que ele mais precisou de você.
Entenda que já é mãe dele desde a concepção, e ele sabe disso.
Seu filho sente isso.
Sofrer você vai, mas não de arrependimento por ter se negado a amá-lo.
— O médico comentou que não sabe como a gravidez está indo adiante tão bem.
— Isso é porque Deus, você e seu filho querem assim.
Os médicos não espiritualizados só sabem dizer o que as limitações da ciência lhes mostram.
A irmã havia parado de chorar e estava bem mais calma do que quando chegou.
Abner tinha como conquista espiritual a dádiva, o dom de espargir energias tranquilizantes, principalmente nos últimos tempos, quando começou a entender um pouco mais sobre a espiritualidade.
Simone respirou fundo e ele disse:
— Vamos até a cozinha.
Vou fazer um chá para nós.
Ao se levantar e estender-lhe a mão, comentou para mudar de assunto e distraí-la:
— A água precisa ser aquecida no micro-ondas — sorriu.
— Não arrumaram o gás do fogão?
— Ainda não.
Já na cozinha, a irmã sentou-se em uma banqueta e contemplou o ambiente.
Mesmo sem empolgação, comentou:
— A cozinha ficou bonita.
— Você precisa ver o resto.
Depois vamos lá dentro.
— O outro apartamento está prestes a ser entregue.
Se vai morar aqui por pouco tempo, por que decorou tão bem?
— Conheço os donos da empresa de móveis planeados.
Eles me ofereceram um belo desconto.
Sabem que, como arquitecto, eu uso os serviços que prestam e também os indico.
Alguns segundos e perguntou com jeitinho:
— Abner, você precisava mesmo sair da casa da mãe?
Ele silenciou por um instante.
Tirou a água quente do micro-ondas e escaldou os saquinhos de chás que estavam nas canecas de louça sobre a bancada.
Reflectiu, antes de responder:
— Precisava sim.
Chegou o momento.
Quero ter minha própria vida.
O pai, como sabe, vive implicando comigo, com o que faço e deixo de fazer.
Fez breve pausa, adoçou o chá e perguntou:
— Você não encontrou a Rúbia quando chegou?
— Não. Ela esteve aqui?
— Saiu e você ligou.
Não sei como não se encontraram.
— Que pena...
Queria conversar com ela também, mas longe da mãe.
Talvez se ela estivesse junto quando eu fosse contar, teria mais força.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:28 am

— Foi bom não encontrá-la.
Nossa irmã estava bastante nervosa.
— Por quê?
— Nós brigamos.
— Você e a Rúbia brigaram?! — alarmou-se.
Antes de receber uma resposta, indagou novamente:
— Por quê? O que aconteceu?
Abner a olhou firme e disse:
— Sei que tem problemas demais, porém a qualquer momento vai saber e será melhor que seja por mim.
— Saber o quê?
Do que está falando?
— A Rúbia está revoltada porque, hoje, eu lhe contei sobre a minha homossexualidade.
Simone parou, olhou-o por longo tempo, depois abaixou o olhar dizendo quase num murmúrio:
— Para mim não é surpresa.
— Como assim?! — intrigou-se preocupado.
— Faz muito tempo eu pensei nisso.
Com uma naturalidade que o irmão não esperava, completou:
— Não notei nada no seu jeito de ser.
Percebia-o muito quieto e, alguns anos atrás, aparecia com uma namorada que não significava muito para você e, na maioria das vezes, estava só.
— Não vai se zangar, nem ficar revoltada ou brigar comigo?
— Por que eu faria isso, meu irmão?
Ele respirou fundo, ofereceu ligeiro sorriso e desabafou:
— Eu esperava esse comportamento da Rúbia, não de você.
Como me enganei — sorriu.
— Para dizer a verdade, quando a ideia de você ser homossexual passou pela minha cabeça, fiquei assustada.
Não queria que fosse assim.
Depois não me importei mais.
A partir de então comecei a me aproximar e ter amizade com outros colegas homossexuais, professores na universidade onde lecciono.
Simone sorriu ao admitir:
— Percebi o quanto fui tola por ter me afastado de pessoas tão boas, sensíveis e com um coração capaz de entender nossos conflitos mais íntimos, por mais insignificantes que sejam.
Pude, então, ter o prazer de observar pessoas geralmente inteligentes, que se dedicam bastante aos assuntos que lhes interessam.
São atenciosas, prestativas, amorosas, compreensivas, com uma capacidade incrível de atenção e carinho.
São transparentes.
Sabe, um se tornou um grande amigo.
É com ele, o Cláudio, que tenho desabafado desde quando soube do problema com o nené.
Ele é tão generoso, me consola, ouve.
Fala pra caramba — sorriu.
Fico melhor depois de nossas conversas que me conformam e acalmam.
O Cláudio é mais confiável do que muitas amigas que tive.
Nossa como é.
Aprendi a olhar os homossexuais de forma bem diferente.
— Você aprendeu a respeitá-los.
— Respeitá-los, sempre respeitei.
Acho que aprendi a conhecer o que é homossexualidade.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:28 am

Entendi que a pessoa é assim e pronto.
Eu já fui muito ignorante, sabe.
Lá na faculdade há uma professora de história que é homossexual.
Eu não me aproximava dela por achar que iria levar alguma cantada ou coisa assim.
Certo dia, em uma reunião, começamos a conversar.
Passamos a ser colegas mais próximas.
Nunca percebi um olhar diferente ou uma conversa estranha, entende?
— É comum as pessoas se enganarem, como você.
Não é porque sou homossexual que vou cantar ou querer sair com todos meus colegas de trabalho ou sócios só por eles serem homens.
Isso é um engano. E só pensar um pouco.
Por acaso todos seus colegas homens e héteros vivem lhe dando cantada e convidando para sair, pois estão interessados em um relacionamento mais sério ou um envolvimento?
— Não. Lógico que não.
— Então por que o medo de uma mulher gay se aproximar e fazer o mesmo?
— Puro preconceito, eu sei.
E, se por acaso isso acontecer, eu devo dizer não, como diria a um homem que não me interessasse.
— Exactamente.
Simone ofereceu leve sorriso ao admitir:
— É assim: era muito difícil alguém se revelar ou assumir publicamente sua homossexualidade.
Somente nos últimos tempos isso se tornou um pouco mais comum.
Mesmo assim, as pessoas ainda têm muita ignorância a respeito e não sabem como agir.
— É simples, deve-se agir normalmente.
Sei o quanto pode parecer estranho, mas depois de se ter conhecimento a respeito do assunto, é simples.
Um instante e desabafou:
— Eu não esperava a Rúbia ter aquela reacção.
— Não foi a forma como você contou?
— Na verdade nem contei.
Aconteceu assim: o Ricardo esteve aqui e...
Abner relatou todo o ocorrido e disse por final:
— Se ela tivesse ficado para conversarmos melhor, mas não.
— A Rúbia adora você.
Nós duas nunca fomos tão unidas como vocês dois.
Eu sempre tive ciúme disso.
Acho que ela vai reflectir e depois irá procurá-lo, com certeza.
— Creio que vai contar para o pai e para a mãe.
Ainda bem que já saí de casa.
— Acredito que não contará nada.
Ela aguardou alguns segundos, pensou e quis saber:
— Você vai contar ou deixar que descubram?
Afinal, pelo que entendi, o Davi deve vir morar aqui, não é?
— Talvez para a mãe eu conte.
Quanto ao pai...
Melhor deixá-lo descobrir sozinho.
Momento esse que nem quero ver.
— Nem eu — admitiu a irmã.
— Sabe, estou muito triste, magoado.
Não queria que a Rúbia reagisse como reagiu.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:29 am

Aliás, pensei que você fosse fazer o que ela fez.
Será que a mãe vai fazer como ela?
— Mãe sente as coisas a respeito disso, Abner.
No fundo ela sabe.
— Às vezes, também penso assim.
A mãe me entende, me aceita...
— Quando nós duas conversamos sobre sua mudança pra cá, ela se manifestou de uma forma... diferente, apoiando.
Disse que você precisava ter sua vidinha, sem dar satisfação a ninguém.
Falou do seu jeito quieto e que nunca sabemos o que está pensando.
Por isso, no fundo, eu acho que ela sabe.
— Também sinto que sim — falou com certo desalento.
— Abner, o impacto, a surpresa de uma verdade como essa é só no começo.
Depois passa. O tempo cura tudo.
Simone sorriu com simplicidade e disse:
— Veja, cheguei aqui aos cacos e olha como estou depois de conversarmos.
Sinto uma tristeza tão grande, uma angústia...
Tem momento que não aguento e preciso chorar.
Porém, pessoas que falem coisas como o que disse, me ajudam muito.
Parece que começo a entender e aceitar um pouco mais.
— E o Samuel, onde está?
— Na universidade.
Agora que passou a ser director do curso de História, está sobrecarregado.
O outro director deixou uma desorganização enorme.
Tem muito aluno reclamando.
Então, eu estava em casa sozinha, bateu aquela dor, aquela tristeza e...
Liguei para o Cláudio, meu amigo, mas não estava em casa e o celular deu caixa postal.
Lembrei-me de você.
Eu queria dar um tempo maior antes de contar à família, mas...
Achei que você seria a única pessoa que poderia me entender.
Após um tempo, desabafou:
— Estou achando meu marido muito estranho, distante.
— Ele deve estar em choque.
Assim que possível, aproxime-se dele.
Conversem a respeito.
Será bom para vocês dois.
Ele lhe dará muita força, apoio.
É o momento em que precisam um do outro.
Afagando-lhe o braço, afirmou:
— Saiba que pode contar comigo.
Não importa o dia ou a hora, pode me procurar.
Estou nessa com você.
Os olhos de Simone ficaram marejados.
Ela pegou a mão do irmão e apertou-a entre as suas.
Ele se aproximou e abraçou-a com carinho.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:29 am

4 - REJEITANDO O FILHO

MESMO COM o passar dos dias, Rúbia não se conformava com a revelação sobre a homossexualidade de seu irmão.
Para ela, sempre foi bem fácil aceitar a homossexualidade dos amigos e conhecidos, porém, quando se deparou com a condição sexual de Abner, revoltou-se.
Não queria aceitar.
Não suportando, procurou por sua amiga e contou tudo.
Depois desfechou:
— Eu não me conformo, Talita.
Ele é meu irmão!
Como foi que nunca percebi?
— Só lamento por ele ser um gato!...
Até tive esperanças.
— Não brinca! — falou brava.
— Não estou brincando, Rúbia.
Adorei o Abner desde a primeira vez que o vi.
Ele é lindo!
Não entendo por que você está assim, tão resistente em aceitar.
Veja, amiga, pense da seguinte forma:
ele continua e continuará sendo seu irmão querido, amoroso, atencioso, dedicado.
Isso nunca vai mudar.
Quanto à vida dele...
Bem, ele é feliz, sexualmente falando, do jeito dele.
Isso não é da sua conta nem da minha.
Nem é da conta de ninguém.
— Isso não é certo, Talita.
— O que não é certo?
A vida é dele, o corpo é dele.
Seu irmão é responsável por tudo o que fizer ou deixar de fazer.
— Deus diz que é errado.
— Onde?! Onde é que Deus disse que gostar de alguém do mesmo sexo é errado?
Quero saber.
A outra não respondeu e Talita prosseguiu:
— Olha, amiga, fui evangélica por mais de vinte anos.
Fiquei bitolada com todos aqueles sermões que os pastores diziam ser a palavra de Deus, a vontade de Deus.
Li a bíblia toda, várias vezes.
Eu era cegamente evangélica.
Até que, um dia, eu estava em uma livraria e me deu uma coisa para pegar uma bíblia católica e dar uma olhadinha.
Teria de ser escondido, pois o pastor dizia que o facto de pegar uma bíblia, que não fosse evangélica, era um pecado.
— E tem bíblia evangélica e católica?
— Tem sim. Então peguei e dei uma lida.
Observei que a colocação das palavras dava um sentido diferente aos dizeres, aos ensinamentos e, consequentemente, mudava o modo de pensar.
Concluí que eram os homens que escreviam aquilo manipulando as palavras e o entendimento.
Deixei de ir à igreja.
Por gostar de ler, comecei a consumir todos os tipos de livros que falassem sobre protestantismo, catolicismo, espiritismo, hinduísmo, budismo...
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 02, 2017 11:29 am

Tudo que encontrei, li.
Criei uma coragem sobre-humana e fui a igrejas católicas, centros espíritas, centros de umbanda, templo budista, sinagogas e outros lugares.
Só que fui como observadora, pesquisadora, entende?
A outra pendeu com a cabeça positivamente e Talita continuou:
— Menina! Conheci tanta coisa errada em tantos lugares que falavam em nome de Deus!
Você nem imagina. Bem...
Resumindo, hoje, quando alguém me diz que uma coisa é pecado, que Deus não permite, que a bíblia diz o contrário...
Primeiro, tomemos cuidado com a interpretação do que é dito na bíblia, porque ela foi escrita por homens que, talvez, tivessem uma segunda intenção e puderam manipular as palavras quando contavam uma história.
Segundo, dizer que uma coisa é pecado, que não é correto...
Não sei não. O que entendemos como pecado?
O dicionário diz que pecado é uma transgressão, é contrariar qualquer ordem ou mandamento, regra ou norma religiosa.
Eu sei que as religiões foram criadas, ou até inventadas, pelos homens e ainda digo que os homens inventaram as religiões para ajudarem em seus interesses pessoais, políticos...
Então uma ordem, uma regra, uma norma religiosa foi inventada por homens e não por Deus.
Terceiro, acreditar que Deus não permite algo é absurdo.
Deus permite tudo.
Deus compreende tudo.
Só que a pessoa é e será responsável por tudo o que fizer de sua vida e para a vida dos outros.
— Então você não acredita na bíblia?
— Acredito, entretanto filosofo, penso muito e muito a respeito.
Eu não tenho mais uma religião.
Jesus não instituiu, não criou nenhuma religião.
Ele, de certa forma, substituiu os tão longos Dez Mandamentos pelo seguinte:
Amar ao Senhor teu Deus, de todo o teu coração e sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.
Pare um pouco, todos os dias e reflicta sobre essa frase.
Pronuncie-a e faça dela sua forma de viver.
Pense nela quando precisar tomar qualquer decisão. E o que eu faço, diariamente.
Acredito que, por mais que a tradução de uma bíblia tenha sido manipulada, jamais, eu disse, jamais poderão desfazer, mal interpretar o significado de "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo".
— Nós estamos falando de homossexualidade. Deus é contra.
— Como sabe?
Por acaso você foi lá conversar com Ele e Ele te falou que é contra?
— Não brinque, Talita! — zangou-se.
— Não estou brincando — sorriu.
Nunca falei tão sério.
Breve pausa e disse:
— Se você não consegue entender ou aceitar a homossexualidade de alguém, use a fórmula mágica que Jesus ensinou:
Ame ao próximo como a ti mesmo.
Não ofenda, pois você não gostaria de ser ofendida.
Jesus também disse que com o mesmo peso que julgar, você será julgada.
E mais: A luz do corpo são os olhos.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:07 am

Se teus olhos forem bons, todo teu corpo será luz.
Se teus olhos forem maus, todo o teu corpo será tenebroso.
Não tenha olhos maus a respeito da homossexualidade.
Esperou alguns segundos para a amiga reflectir e falou:
— Não posso acreditar que Deus seja contra a homossexualidade.
— Por quê?
— Porque Ele nos criou.
A homossexualidade sempre existiu desde que o mundo é mundo.
Ela existe entre animais racionais, que somos nós, humanos — riu de um jeito agradável — e existe entre os animais irracionais, sabia?
— Não. Sério?!
— Sério. Existe o comportamento homossexual entre várias espécies de animais como girafas, pinguins, baleias, chipanzés, golfinhos e outros.
Alguns desses animais escolhem um parceiro do mesmo sexo e a união é duradoura até por toda a vida, mesmo havendo fêmeas disponíveis para acasalamento no mesmo bando.
— Não entendi direito, Talita.
O que faz você crer que Deus não seja contra a homossexualidade?
— Porque não é doença.
E uma condição da pessoa hoje, nesta vida.
— Você também acredita em outras vidas antes e depois desta?
— Lógico. Depois de tanto buscar a verdade, eu seria louca se não acreditasse.
Ou então, eu deveria crer em um Deus cruel, malvado, capaz de fazer sofrer sem fundamento.
Se não crer em reencarnação, vou crer que Deus é um carrasco nazista ou da Idade Média, como queira, para provocar tanta dor, tanto sofrimento gratuito.
Mas Deus não é assim.
Deus é a fonte de energia, de vida e nos socorre quando precisamos.
É o Pai que não abandona, mas ampara, assiste e até nos deixa experimentar o sofrimento para aprendermos, para evoluirmos e caminharmos na jornada evolutiva, rumo à verdadeira felicidade.
— Não acredito que o homossexual seja feliz.
Se a homossexualidade é uma condição, não seria essa condição um castigo?
— Não. De forma alguma pode ser um castigo.
O homossexual não é infeliz porque é homossexual.
Lógico que não.
Ele pode não ser feliz quando não entende ou não aceita sua condição, sua atracção por pessoas do mesmo sexo.
Aí é falta de conhecimento, falta de aceitação própria.
É uma pessoa mal resolvida.
Essa não aceitação pode ocorrer em outra condição de existência como... — pensou.
Ser baixo, ser alto, ser ruivo. Ah!
Lembrou-se:
— Conheci um colega que odiava ser ruivo. Também, coitado!
O pessoal o chamava de água de salsicha, cabeça de palito de fósforo e assim por diante.
Isso doía, maltratava.
Ele começou a tingir os cabelos, o que ajudou um pouco e tentou de tudo para se livrar das sardas, o que não conseguiu muito.
Esse amigo não se aceitava, se odiava.
Demorou muito para ele se aceitar e ver que ser ruivo não atrapalhava sua capacidade.
As pessoas que o ofendiam eram pobres coitadas e, certamente, um dia, iriam experimentar a ofensa na mesma medida de dor que ofenderam.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:08 am

No entanto, conheci outras pessoas ruivas que adoravam ser ruivas.
Aliás, tem um monte de gente que tinge os cabelos de ruivo porque querem ser assim.
O homossexual não é diferente.
Primeiro, ele precisa entender, compreender e aceitar sua condição.
Depois, decidir o que é melhor para ele, o que é melhor para sua vida.
Sob a visão de caminharmos para a evolução.
O melhor seria ele não se corromper, não se prostituir, não se transviar, como qualquer outra criatura.
Uma vida desregrada não é legal e isso serve para homossexuais e heterossexuais.
A maior dificuldade para o homossexual é assumir sua sexualidade, sua condição ou, como dizem, sua orientação sexual.
É encarar a família, os parentes e conhecidos.
Isso, se ele descobriu com certa idade sua homossexualidade, sua preferência por pessoas do mesmo sexo físico.
A maior dificuldade para o gay é enfrentar os ignorantes preconceituosos.
Fico contrariada com esses infelizes.
Uma pessoa preconceituosa, seja com o que for, é uma pessoa infeliz.
Esses preconceitos são os causadores das tristezas, das dores, dos sofrimentos, por causa da discriminação, das ofensas com palavras maldosas, das obscenidades no linguajar quando se referem ao homossexual, da violência física, moral e psicológica.
É difícil e triste enfrentar a rejeição por ser diferente da maioria.
A rejeição é causa maior de sofrimento.
O preconceito contra a homossexualidade chama-se homofobia.
Fobia significa medo e homo significa igual.
É um termo utilizado para determinar a aversão, o preconceito, o ódio, o desprezo contra os homossexuais e, obviamente, contra a homossexualidade.
Essa aversão, ódio, discriminação, não aceitação podem ser velados, ou seja, silenciosos, podem ser manifestados de forma subtil, insidiosa, traiçoeira ou vivamente declarada.
— O termo fobia significa medo e é usado como aversão, não é estranho?
— O termo homofobia foi criado usando a palavra grega phobos, que quer dizer fobia, com o radical homo-, também do grego, que quer dizer igual.
Phobos, quer dizer medo em geral, um medo irracional ou não, primário, instintivo, muitas vezes, sem explicação.
Nesse caso, o termo fobia é usado não só para designar o medo em geral, mas também a repulsa, a aversão sem qualquer motivo.
O mais correto seria o vocábulo homofilofóbico, que significa medo de quem gosta do igual.
O termo homofobia é motivo de muita discussão.
Alguns chegam a dizer que as pessoas homofóbicas têm uma atitude mental de medo de elas próprias serem homossexuais ou de os outros pensarem que elas são.
Há ainda os que dizem que as pessoas homofóbicas têm medo daqueles que gostam do igual, por isso não os aceitam.
Em todo caso, eu penso que o homofóbico, a pessoa que não aceita os homossexuais, é alguém que ainda não tem conhecimento, é ignorante, não tem controlo sobre seus sentimentos e por isso despreza ou agride de alguma forma.
A ignorância é mãe de muitos males.
Lembra-se da época em que crianças canhotas eram forçadas a fazer as coisas com a mão direita?
A outra acenou positivamente com a cabeça e Talita continuou:
— Isso acontecia por ignorância dos pais, professores e religiosos, principalmente.
Acreditava-se que a pessoa canhota tinha tendências esquerdistas, ligação com o mal.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:08 am

Tanto que, na Idade Média, eram condenadas a morte.
Quanta ignorância — lamentou.
Hoje não se força mais ninguém com esse tipo de condição e o mundo vem se adaptando para os canhotos.
Existem tesouras para canhotos, abridores de latas para canhotos e outras coisas para pessoas com mais habilidade com a mão esquerda.
Forçar uma criança a escrever com a mão direita, se ela for canhota, pode dar até processo.
Pastores, padres, freiras e tantos outros religiosos que consideravam os canhotos como criaturas que tinham pacto com o demónio ou coisa assim, perderam suas batalhas para a ciência.
A pessoa canhota nasceu com essa condição.
Ela não insiste nem força usar a mão esquerda.
Estima-se que cerca de dez por cento da população é canhota ou sinistra, como alguns chamam.
A ciência prova que, nos canhotos, o lado direito do cérebro é mais activo e ainda diz-se que isso é associado à grande inteligência e genialidade, além de habilidade como artista.
Albert Einstein era canhoto.
Ser canhoto não é um castigo.
Rúbia ficou pensativa e comentou:
— Então como ficam os castigos de Deus?
— Deus não castiga ninguém.
E nossa consciência que impõe os castigos.
Se homossexualismo for um castigo, ser ruivo, alto demais, baixo demais, gordo demais, magro, negro, branco, feio, também é castigo.
O castigo é nossa forma de ver as coisas.
O castigo é imposto pela própria pessoa quando ela não se aceita, quando não se compreende, não aceita ser o que ela é.
Isso sim, causa um castigo imposto por ela mesma, pois viverá em conflito íntimo e dizendo em pensamento:
olha, não fui aceita aqui ou acolá por ser negra, por ser gorda, ser branca demais, por ser gay, e assim por diante.
A não aceitação de si próprio é um castigo.
— E se alguém não for aceito por isso mesmo?
— Então quem está errado é o grupo que não o aceita.
Essas pessoas que não aceitam o outro não devem ser boas companhias.
Sabe, às vezes, devemos usar aquele velho ditado:
o que os outros pensam de mim, não é da minha conta.
O que deve importar é a própria consciência com Deus.
Podemos mentir para os outros, mas não podemos mentir para nós mesmos nem para Deus.
Ela reflectiu por um segundo, depois completou:
— Creio que Deus não é contra a condição de ninguém.
Porque o Pai, bom e justo, do qual Jesus falou e nos fez acreditar, não seria preconceituoso nem cruel.
Sabe, Rúbia, devemos tomar cuidado com a crença sobre o que lemos.
Eu creio muito em Jesus e podemos perceber que não há preconceito no Evangelho do Cristo.
Com o que leio no Antigo Testamento, na bíblia, tomo muito cuidado.
O Antigo Testamento ou Velho Testamento, como alguns chamam, foi escrito por judeus e para os judeus.
Isso significa que ele traz uma história e um conceito milenar para um povo milenar, escrita por eles mesmos.
Os judeus não são Cristãos, não crêem em Jesus como nós, eles não aceitam os ensinamentos do Mestre.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:08 am

Aí caímos novamente no que disse antes:
foi algo escrito pelos homens de acordo com as necessidades de um povo.
Tanto é que existem erros, contradições no Velho Testamento, justamente onde dizem que é a palavra de Deus.
Você acha que se aquilo fosse escrito por Deus, Deus erraria?
— Onde? Nunca ouvi falar.
— Deixe-me ver... — pensou.
Em Êxodo, capítulo 20 versículo 5 diz:
...porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem.
Então Deus está dizendo que o que os pais fizerem de errado, os filhos irão pagar ou sofrer até a terceira ou quarta geração.
Já na mesma bíblia, em Deuteronómio, capítulo 24, versículo 16, diz:
Os pais não morrerão pelos filhos nem os filhos pelos pais, cada qual morrerá pelo seu pecado.
Esse é um exemplo que lembro.
Breve pausa e opinou:
— Sabe, amiga, o problema não é termos uma condição.
O problema é usarmos nossa condição de forma abusiva, insensata, irresponsável.
Por exemplo: pensemos em uma moça muito bonita.
A natureza permitiu que ela tivesse uma condição belíssima, porém ela pode usar essa beleza de forma errada.
Usa sua condição para seduzir, fazer conquistas, se aproveitar de situações como sair com o director de uma empresa para conseguir determinado cargo ou coisa assim.
Usa sua beleza para ganhar presente, dinheiro...
Então ela está se corrompendo, se prostituindo.
Isso não é legal para a consciência dela que um dia irá cobrar.
— Será que o homossexual não deveria se abster do sexo?
— Se ele for feliz abstendo-se, privando-se do sexo voluntariamente, sim.
Se a abstinência sexual lhe trouxer paz e felicidade, é o certo para ele.
Em matéria de sexo, aliás, em tudo na vida, o problema é o desequilíbrio, a má conduta moral e o abuso.
O que pode e, geralmente, traz algum prejuízo psicológico é o heterossexual envolver-se com alguém do mesmo sexo e ter uma relação homossexual, já que sua identidade sexual é firmemente estabelecida para o ato sexual com alguém do sexo oposto.
Ele, o hétero, não vai se sentir nada bem com a experiência.
E isso pode ocorrer antes, durante ou depois do acto.
Será muito ruim para o seu íntimo, para a sua heterossexualidade.
Poderá experimentar um sofrimento psicológico significativo.
Isso é comum acontecer quando o hétero participa de situações envolvendo bebidas, drogas, amizades duvidosas.
Eu penso que a prática do sexo abusivo, promíscuo, irresponsável, inseguro é prejudicial a heterossexuais e homossexuais, moral e espiritualmente falando.
Seja a pessoa hétero ou homo, ela é quem vai ter de prestar conta à própria consciência e a Deus a respeito de tudo que praticou erroneamente.
Desde que não nos agrida ou ofenda, não temos nada a ver com a vida dela.
No entanto, é importante ressaltar que a homossexualidade não é, nem nunca foi, uma doença, uma opção ou uma escolha.
O homossexual não é um marginal, como algumas organizações, principalmente as religiosas e educacionais acreditam ser.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:08 am

O homossexual nasce homossexual.
Essa história de que alguém entrou para determinada organização religiosa, fez tratamento psicológico ou psiquiátrico e deixou de ser homossexual, é mentira.
Até acredito que a pessoa nunca foi homossexual e viveu ou experimentou experiências homossexuais e depois decidiu não querer mais essa prática.
Até aí, acredito.
Mas dizer que alguém se curou do homossexualismo, casou-se com alguém hétero e de outro sexo e mudou sua vida por causa da religião ou de um tratamento psicológico, ah!
Nisso eu não acredito.
Quem fez isso, não era homossexual.
— E difícil aceitar.
Ele é meu irmão.
— Isso porque nós fomos criados e acostumados a ver homem unindo-se com mulher e mulher com homem.
Não temos orientação, educação ou conhecimento familiar sobre a identidade sexual das pessoas.
Talvez as pessoas mais antigas não comentassem o assunto porque consideravam algo feio, indelicado.
Ninguém podia falar nisso.
Nos últimos tempos, as mentes das pessoas estão mais abertas.
Hoje se fala mais sobre sexo, menopausa, menstruação, TPM — tensão pré-menstrual —, andropausa, homossexualidade, heterossexualidade e, mesmo assim, alguns falam com certa reserva, certa vergonha.
Pensemos que sexo, e tudo relacionado a ele, faz parte da vida e é bom discutirmos, descobrirmos, conhecermos mais para não ficarmos ignorantes ou preconceituosos e não vivermos no erro.
— Não sei o que digo ao Abner.
— Você acha que precisa dizer alguma coisa?
A outra não respondeu.
— Talvez deva falar algo e alertá-lo, se for preciso, para se prevenir contra a promiscuidade, a prática do sexo desprovido de relação pessoal, parceiros múltiplos, sentimento verdadeiro.
Sexo casual não é legal pra ninguém, eu acho.
Talvez, possa dizer algo a respeito, mas lembrando que a vida é dele.
— Talita, você não acha que, se aceitarmos a homossexualidade, daqui a pouco precisaremos aceitar a pedofilia?
— Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
A pedofilia é uma doença.
A homossexualidade não.
Pense bem, a pedofilia envolve a prática de sexo com crianças e essas são criaturas sem orientação, sem noção do que estão fazendo.
Isentas de responsabilidades.
Pedofilia é algo cruel, desumano.
Não misture as coisas.
— Estou angustiada, Talita.
Pensei que fosse ver isso só na família dos outros, entende?
— Entendo. Essa angústia vai passar à medida que você compreender que seu irmão é o que é.
Ele não está se forçando a nada.
Apenas assumiu, admitiu sua condição.
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