MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 16, 2017 11:35 am

Afagando-lhe as costas, ele a fez olhar em seus olhos e, em tom quase triste, perguntou-lhe preocupado:
— Seja sincera.
Você gosta de mim?
Abraçando-o, calou-lhe os lábios com um beijo.
Depois, fitou-o nos olhos e murmurou com voz doce e jeito meigo:
— Não consigo me ver sem você.
Acho que esse é o meu medo. Afinal... — deteve as palavras e fugiu-lhe o olhar.
— Tem medo que eu a troque por outra?
Teme experimentar de novo o que já viveu com o Samuel? É isso?
— No fundo é. Tenho medo de muita coisa.
Estou insegura. Você é jovem, bonito...
Como já disse: solteiro, desimpedido, com boa profissão e...
— Simone, não me compare a ele.
Sua vida ao lado do Samuel foi tranquila e calma até aparecer a grande dificuldade com o nené no início da gestação.
Com a gente foi diferente.
Nós nos conhecemos quando tudo estava muito complicado em nossas vidas.
Nós nos apoiamos até agora.
Penso que o pior já passou.
Se, em meio aos desafios, nós ficamos juntos...
O que mais pode nos separar senão a vontade de Deus?
— Será que Deus está do nosso lado?
— Acredito piamente que sim.
Foi Ele quem fez nossos caminhos se cruzarem, não foi?
Simone o abraçou forte e ele correspondeu.
Beijaram-se e ela decidiu:
— Vou tomar um banho.
Quero visitar a Rúbia ainda hoje.
— Vai lá. Eu te espero.
Vou com você ao hospital.
Deixando a água morna do chuveiro derramar sobre sua cabeça e as costas, ela se apoiou na parede e tentou relaxar, mas não conseguia.
Sentia os pensamentos fervilharem.
Como viver aquele romance plenamente se tantas obrigações e compromissos a chamavam à responsabilidade?
O que seu pai diria?
O que poderia pensar quando soubesse que Cristiano era irmão de Davi?
E Samuel? Poderia até acusá-la de um romance enquanto estavam casados.
Ao mesmo tempo, lembrava que tinha o direito de amar, ser amada e ser feliz.
Tinha muito que pensar e decidir.
Afinal, um romance agora seria agradável ou seria mais um problema em sua vida?
Estava atraída por Cristiano havia algum tempo.
Queria-o ao seu lado.
Desejava-o sempre presente.
Apreciava sua opinião e seus conselhos.
Necessitava de sua ajuda.
Sentia-se praticamente dependente e, porque não dizer, carente daquele que, a princípio, foi seu amigo e acabou se transformando em seu amor.
Por que não admitir que o amava e o queria ao seu lado?
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 16, 2017 11:36 am

Parecia uma adolescente com a metade de sua idade, mas com a responsabilidade que impunha o peso do dobro dos anos vividos.
Não queria se privar da felicidade, porém tinha medo.
Uma onda de dúvidas invadia-lhe a alma.
E se Cristiano só tivesse se apegado a ela por conta de sua ajuda, de seu incentivo a ele?
Afinal, apareceu na vida do rapaz quando ele vivia uma grande perda e um imenso transtorno.
— Meus Deus!... — murmurou com a água batendo em sua boca.
Oriente-me, Pai. Por favor.
Terminado o banho, saiu para a suíte e se arrumou.
Secou os cabelos levemente com um secador e foi para a sala com eles ainda húmidos.
Ao ver Cristiano, de olhos fechados, largado no sofá, sorriu parecendo apaixonada.
Aproximando-se, chamou-o com suavidade e voz terna:
— Cris... — Ele dormia.
Cris... Acorda, meu bem.
— Oi... — murmurou surpreso, esquecido de onde estava.
Sorriu ao vê-la e procurou por sua mão.
Beijando-a, ajeitou-se e se levantou.
Segurando seu rosto delicado com ambas as mãos, sorrindo, afirmou:
— Quero que saiba que adoro você.
— Também te adoro.
— Sei que ainda está em dúvida sobre nós, mas isso vai passar.
Tem muita coisa acontecendo no momento.
Só peço que não seja precipitada.
— Precipitada com o quê?
— Em querer nos separar, querer um tempo para pensar ou qualquer coisa que nos distancie.
Não quero e não vou ficar longe de você por nada deste mundo.
— Estou em conflito com muitas coisas, porém tenho certeza de uma.
— Qual?
— Quero você ao meu lado — falou de modo doce e com leveza no belo sorriso.
Ele a beijou e apertou-a contra si. Depois decidiu:
— Vamos?
— Sim, vamos.
* * *
Ao chegarem ao quarto do hospital, encontraram Abner, Davi e Ricardo.
Simone e Cristiano os cumprimentaram e, em seguida, foram directo para Rúbia, abraçando-a e beijando-a com carinho.
As irmãs se emocionaram e ficaram abraçadas por algum tempo, contemplando o pequeno Bruno, que dormia relaxadamente no bercinho ao lado do leito da mãe.
— Ele é lindo! Deus o abençoe! — disse a tia emocionada.
Foi tudo tão rápido, Rúbia.
— Graças a Deus, foi.
Eu estava com tanto medo, lembra?
Eu me sentia mal.
Chegando ao hospital, comecei a sentir aquelas dores fortes.
Uma seguida da outra.
No instante em que me examinou, o médico disse que já estava nascendo. Eu nem acreditei.
Da hora que entrei no hospital até ele nascer, acho que não deram vinte minutos.
Breve pausa e empolgou-se:
— Ah! Ele já mamou. Acredita?
— Acredito sim — afirmou com voz terna, olhar brilhante e jeito meigo.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 16, 2017 11:36 am

Cristiano aproximou-se mais e, enquanto contemplava o pequeno Bruno, sobrepôs o braço nos ombros de Simone.
Ao ver a cena, Rúbia sorriu satisfeita pela irmã.
Entendeu que assumiram o romance.
Um pouco sem jeito, Simone perguntou o que já sabia:
— A mãe vai ficar aqui com você?
— Vai sim. Ela foi lá deixar tudo arrumado para o pai.
Ele precisa tomar os remédios na hora certa e...
Você sabe. O pai é todo atrapalhado com isso.
Sempre foi.
O Davi foi lá levá-la e já voltou.
— Quando sairmos daqui, podemos dar uma passada lá para vê-lo.
O que acha? — propôs Cristiano, olhando para Simone.
— Por mim, tudo bem.
Se você não se incomodar...
— Lógico que não.
Dona Celeste chegou e todos se divertiram com algumas reacções da avó que parecia muito coruja.
Davi e Abner decidiram ir embora.
Em seguida, Simone também resolveu ir.
A caminho da casa de seu pai, ela ficou em total silêncio.
Dirigindo, Cristiano a olhava vez e outra.
Incomodado com sua quietude, perguntou:
— Tudo bem?
Encarando-o, ela tentou esboçar um sorriso que logo se desfez.
Abaixando o olhar, respondeu com voz fraca:
— Tudo bem.
— Por que está assim tão quietinha?
— Sei que nada é por acaso.
Tudo tem uma razão de ser como é.
Tudo tem um motivo para existir. Só que...
— Só quê?... — insistiu diante do demorado silêncio.
— Quando olhei o Bruno dormindo...
Ele é tão lindo!
Eu pensei... — sua voz estremeceu e não conseguiu prosseguir.
— Pensou no Pedro?
Foi isso o que ia dizer? — perguntou com voz cálida.
— Foi — sussurrou.
Não sei se é errado, mas...
Meu filho poderia ser como o priminho.
Fiquei imaginando os dois crescendo juntos, brincando, correndo, tendo amizade...
Mas não vai poder ser assim...
É errado eu querer isso?
— Não é errado querer, desejar algo.
É errado ficar revoltado pelo que não se tem ou desejar o mal dos outros.
— É que a situação do meu filho me preocupa...
Não é fácil eu olhá-lo.
Não dá para ser feliz com o que vejo.
Estou sendo verdadeira.
Canto, brinco, rezo com ele, mas...
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 16, 2017 11:36 am

Não sei quanto tempo isso pode durar.
Como acha que me sinto sabendo que ele não vai durar muito?
Os problemas respiratórios, as gripes, infecções...
Tudo indica que o Pedro não vai... — chorou.
— Amo meu filho. Queria que ele tivesse saúde.
Outro dia, quando eu brincava, vi que ele riu... — um soluço embargou sua voz.
Demorou três meses para meu filho esboçar um sorriso.
Sabe o que significa isso para uma mãe?
Às vezes, quando durmo um pouco, acordo e acho que tudo não passou de um pesadelo.
Corro para ver o Pedro e vejo que não se tratou de um sonho.
Ele tem problemas, necessidades.
Tudo é muito difícil.
Não posso confiar os cuidados de meu filho a ninguém.
Nem pude amamentá-lo no meu peito — chorou.
Ele não consegue mamar e alimentá-lo daquele jeito é...
Cristiano parou o carro na frente da casa do senhor Salvador, virou-se para ela e disse em tom tranquilo:
— Deus viu em você a mãe certa.
A mãe mais perfeita para ele.
Não encare as dificuldades, os desafios como um castigo.
— Será que não é castigo, Cris?
Será que fiz tudo errado e agora preciso corrigir?
— O que vai adiantar ficar preocupada com isso e querer saber sobre o passado?
Em nada isso vai te ajudar.
Não podemos mudar o passado, mas podemos fazer um presente e um futuro melhores.
Se você não fosse uma mãe como é prestimosa, carinhosa, cuidadosa e com tantos outros atributos e o Pedro não merecesse toda a sua dedicação e cuidado, não estariam juntos.
Pense que você é uma pessoa especial a quem Deus confiou uma criaturinha especial.
Você tem dado ao seu filho o amor que ele precisa receber.
Ela respirou fundo e procurou se recompor.
Em seguida, disse:
— Você me dá tanta força...
Pegando em sua mão e beijando-a, respondeu:
— Estarei sempre ao seu lado.
Segurando firme em seu rosto com ambas as mãos, beijou-lhe a testa demoradamente e depois falou:
— Vamos lá ver como está seu pai.
O senhor Salvador ficou satisfeito em recebê-los.
Gostava de Cristiano, que lhe dava muita atenção.
Observando a filha, percebeu-a amargurada e imersa em profundos pensamentos, talvez tristes.
Ela trazia o olhar perdido e sinais de desânimo.
— O que foi, Simone?
O que você tem, filha?
— Nada, pai. Só estou preocupada.
— Foi visitar o Pedrinho hoje?
— Fui. Pensei que estivesse de alta, mas não.
É provável que amanhã...
— Você está muito abatida.
— Também acho — concordou o rapaz.
— A mãe vai ficar no hospital com a Rúbia.
O senhor quer ir lá pra casa?
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 16, 2017 11:36 am

— De jeito nenhum. Sei me cuidar.
Não sou nenhuma criança.
Sua mãe deixou tudo arrumadinho aqui pra mim.
Até a comida está pronta para amanhã.
Alguns instantes e, não suportando a curiosidade, perguntou:
— Vocês viram o filho da Rúbia?
— Vimos sim. Ele é lindo.
O senhor tem que ver, pai.
É rosadinho! Tem cabelos loirinhos... — sorriu com graça e jeito meigo.
Não se parece em nada com ela.
— Seu avô era loiro, bem polaco.
O Bruno puxou a ele.
— Com certeza — concordou com leve sorriso, não ousando contrariá-lo.
Sabia que o pai estava orgulhoso agora e o quanto foi difícil a aceitação daquele neto.
— Acho melhor a sua irmã passar a dieta aqui em casa, não acha?
— Não tem problema algum ela ficar lá em casa.
— Será melhor ela ficar aqui — tornou ele como se não tivesse ouvido.
— Vejo que o senhor está bem melhor, senhor Salvador — reparou Cristiano.
— Estou sim. Parei com o cigarro e tomo os remédios direitinho.
Mas tem hora que dá uma vontade!... — riu.
Fico quase louco.
Então a Celeste disse que é pra eu chupar bala ou mascar chiclete.
Isso distrai um pouco.
— Que óptimo! O senhor não imagina como estou feliz em saber disso.
Adoro ver pessoas determinadas, de opiniões fortes como o senhor — disse satisfeito para animá-lo.
— Estou determinado mesmo.
Vai ver. Vou conseguir — respondeu orgulhoso.
— Para se ver livre de qualquer vício é preciso ter disciplina e força.
A vontade de pegar só mais um cigarro será grande, mas se resistir só mais uma vez, o desejo vai diminuir até acabar.
Depois, com o tempo, terá até nojo do cigarro.
Olhando em volta, sugeriu:
— Por que não some com esses cinzeiros e joga fora o maço de cigarros, se ainda tiver?
Levantando-se imediatamente, bem-disposto, o senhor Salvador decidiu, animado:
— Vou fazer isso é agora mesmo!
Cristiano o acompanhou e o ajudou a jogar tudo fora.
Ao retornarem para a sala, Simone decidiu:
— Pai, já vou embora.
— Está cedo. Encomendem uma pizza!
— Não, pai. Estou muito cansada.
Preciso estar amanhã cedo no hospital e o Cris tem que ir trabalhar.
— Filha — aproximando-se, parecendo adivinhar seus pensamentos, comentou: —, você viu o filho da sua irmã hoje e...
Eu vi o quanto ficou feliz ao falar dele.
Sei que está comparando o Bruno com o Pedro, mas não fique triste.
Aceite o seu filho conforme Deus te deu.
— Eu aceito sim, pai.
Por que está me dizendo isso?
— Você está triste.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:45 am

— Apesar do trabalho, do cansaço, do desespero que toma conta de mim quando ele adoece, eu aceito o filho que Deus me confiou e por isso gostaria que o senhor também aceitasse o Abner, filho que Deus lhe confiou, tal como ele é.
Afinal, condição por condição, meu filho tem uma e o seu tem outra.
Quando a condição é imposta desde o nascimento, indica que houve a permissão de Deus para isso.
Cristiano, imediatamente, segurou em seu braço tentando fazê-la parar, mas não deu tempo.
Acreditando que disse algo um tanto desnecessário, tentou se redimir:
— Desculpe-me, pai.
Eu não precisava dizer isso.
E que estou exausta e nem sei direito o que estou falando.
O senhor Salvador, que era do tipo de reagir, silenciou.
Abaixou a cabeça e nada disse.
— E melhor irmos, não é? — perguntou Cristiano.
— Ai, pai... me desculpa — pediu sentida com nítido arrependimento.
Aproximando-se dele o abraçou.
Afagando-a nas costas, o homem disse:
— Não se preocupe, Simone.
Eu te entendo.
Ao vê-los se separarem do abraço, Cristiano insistiu:
— Vamos?
Despediram-se e se foram.
* * *
Chegando à casa de Simone, entraram e ela agradeceu:
— Obrigada por tudo.
— Não me agradeça.
Conte comigo.
E... A propósito, quem vai amanhã ao hospital com você?
Não vai poder dirigir e voltar com o Pedro, se ele receber alta.
— Vou pegar um táxi.
Não se preocupe.
— Você tem dinheiro?
Ao ver olhos dela crescerem pela surpresa da pergunta, ele disse a tempo:
— Desculpe-me querer saber, mas...
Professor não deve ganhar bem e...
Vejo que as despesas são muitas.
Sorrindo encabulada e achando graça em seu jeito, respondeu:
— Não se preocupe.
Tenho dinheiro sim.
Com a ajuda que você e os outros têm me dado, fiz uma reserva para essas emergências.
Só não posso abusar ou me dar ao luxo de pegar táxi todos os dias.
Aproximando-se, puxou-a para um abraço e foi correspondido.
Roçando seu rosto em seus cabelos, sentiu os fios enroscarem em sua barba e, mais uma vez, experimentou aquele aroma gostoso que ela exalava.
— Quer que eu fique aqui com você? — perguntou carinhoso.
— Querer eu quero, mas não devemos.
Sua mãe está sozinha e...
— Não quero ir embora.
— Não quero que vá.
Apertando-a contra si, procurou por seus lábios e beijou-a com todo amor e ternura.
Em seguida, sob a contrariedade da separação, despediram-se.
A sós, Simone entregou-se novamente às dúvidas e à insegurança.
Sentia-se além de seus limites e precisaria ser mais forte do que nunca.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:46 am

20 - RESPEITO ENTRE IRMÃOS

PELAS FRESTAS da janela entravam os raios de uma luz baça, fraca indicando um dia nebuloso, sem o brilho radiante do sol.
Era outono.
Um vento que, furtivamente, penetrou no quarto a noite inteira, fez Simone sentir frio por toda a madrugada.
Ela não teve ânimo para levantar e agasalhar-se com mais uma coberta.
Isso a deixou incomodada e seu sono foi leve e entrecortado.
Não queria levantar.
Estava encolhida sob o lençol e uma colcha bem fina.
Estendendo a mão sobre o travesseiro ao lado, acariciou-o ao se lembrar de Cristiano.
Nunca ninguém havia dormido ali ao seu lado, a não ser seu ex-marido.
Aquele tempo com Samuel parecia muito distante, enquanto a lembrança de Cristiano era viva.
Existia uma força, um sentimento muito forte que os atraia de uma forma que não conseguiam explicar.
Como viver aquele amor e ser feliz diante de dificuldades e problemas tão sérios?
Não poderia descuidar de seu filho e também não achava justo que Cristiano se confinasse, empenhasse-se em uma situação que não lhe dizia respeito, não era encargo seu.
Ele era jovem e desimpedido, porém se amavam e desejavam ficar juntos.
Suspirou fundo e sentiu-se esgotada.
Não queria, mas precisava se levantar.
Consultou o relógio, sentou-se na cama e sentiu um frio estranho.
Forçando-se se erguer, decidiu tomar um banho para se animar, pois precisava ir ao hospital e também ver sua situação na faculdade.
Ainda não sabia o que fazer, pois seu período de licença estava acabando.
* * *
No mesmo instante, Cristiano, largado sobre sua cama, lembrava-se do dia anterior.
Havia dormido pouco.
Porém, acordado, sonhou muito.
Ele não conseguia desfazer o sorriso do rosto.
Encantado, tinha o olhar fixo no tecto enquanto recordava-se de cada detalhe sobre Simone:
seu perfume suave, sua pele macia, seus cabelos sedosos que acariciou com toda a ternura.
Fazia tempo, desejava tê-la em seus braços, afagá-la com carinho, tê-la para si.
Não seriam as dificuldades com o pequeno Pedro que o deteriam ou desanimariam.
Gostava muito do menino e se apegou a ele sem entender porque.
Sentia-se penalizado por sua condição, porém acreditava em vidas futuras e que o amor, o carinho e a atenção o ajudariam a se sentir melhor e a se recompor.
Queria ajudá-lo e dedicar-lhe todos os cuidados necessários.
Com largo sorriso, que há tempos não expressava, pulou da cama sem se importar com o friozinho e foi para o chuveiro.
Pouco depois, já na cozinha, dona Janaina se impressionou com a disposição dele, que não via há muito.
— Bom dia, mãe! — exclamou sorridente, curvando-se e beijando-lhe o rosto como sempre fazia.
— Bom dia, filho.
Acomodando-se à mesa, ele encheu um copo de suco enquanto contava:
— O nené da Rúbia nasceu ontem.
— Ontem?! E você nem me avisou? Por quê?
— O dia foi bem corrido.
Quando cheguei, a senhora estava dormindo.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:46 am

— Por que não me ligou?
— De manhã fui com a Simone ao hospital.
— E o Pedrinho?
— Ainda está internado.
Depois almoçamos, fomos à instituição onde ficamos um pouquinho e... — lembrou-se e sorriu, mas nada disse.
Assim que a deixei em casa o Abner e o Davi chegaram lá contando a novidade.
Então fomos ao hospital ver a Rúbia e o nené.
Nossa! Ele é lindo! Tem que ver.
Depois, ainda fomos ver o senhor Salvador.
Levei a Simone para casa e, quando cheguei, a senhora estava dormindo.
— A Celeste ficou no hospital com a Rúbia?
— Ficou sim.
Foi parto normal e por isso, amanhã, acho que ela já recebe alta.
O senhor Salvador quer que a Rúbia passe a dieta lá na casa dele — riu.
— Que bom. Fico feliz quando os ressentimentos e as mágoas acabam.
Diga uma coisa: e a Simone, como está?
— Está bem — respondeu sem entender o intuito de sua mãe.
— Sei que ela é uma pessoa segura de si, lúcida, compreensiva, mas...
Assim que viu o nené da irmã...
Não ficou chateada?
— Eu nem ia contar...
No hospital, tudo bem. Ela agiu normal.
Porém, ao ver como a dona Celeste ficou com o netinho no colo, toda alegre e satisfeita...
Não sei se foi isso, porque, depois, quando estávamos sozinhos a Simone desabafou.
Chorou um pouco, não por ciúme ou inveja.
Ela queria que o Pedro também fosse como o Bruno.
— Toda mãe quer o melhor para o filho.
No caso dela, nem sabemos direito o que falar para animá-la.
Breve pausa e quis a opinião do filho:
— Cris, o que você acha do Pedrinho? Quais as chances dele?
O rapaz fechou o sorriso, suspirou fundo e comentou:
— Sabe-se que crianças com a Síndrome de Patau têm um quadro de saúde bem instável, complicado.
Pelo que entendi, isto é, o médico não foi bem claro, mas deixou escapar que ele tem, naturalmente, uma baixa imunidade.
Por isso fica tão sujeito às infecções e...
Não podemos dizer isso para a Simone, entretanto acho que ele não chega a um aninho de vida.
Não sei se estou sendo frio demais ou realista.
Vejo-a tão empenhada, tão preocupada, desdobrando-se para cuidar do filho e isso me dá uma coisa.
Ela não está errada.
De forma alguma.
Temo por seu sofrimento quando o Pedro precisar ir.
— Semana passada, quando fui lá, achei a Simone muito abatida.
Nossa! Como ela emagreceu!
— Quase não dorme e não tem tempo para se alimentar direito.
A senhora soube que ela dispensou a empregada, né?
Disse que a mulher não estava fazendo as coisas direito, mas não acho que foi isso.
Penso que a Simone está com dificuldades financeiras.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:46 am

— Também achei isso.
— Não sei como ajudar, mãe.
Fico sem graça de oferecer alguma coisa e ela se ofender.
— Por que se sente na obrigação de oferecer alguma coisa?
Acha que não está ajudando o suficiente?
Sério, Cristiano ergueu o olhar lentamente e encarou a mãe.
Não entendeu se ela estava contrariada por ele estar sempre com Simone, pressentindo um romance entre os dois, ou se queria simplesmente testá-lo.
— Não sei dizer o motivo de eu querer ajudar mais.
Gosto da Simone e do Pedro.
Não quero que passem dificuldades.
Se eu puder... Por que não?
Olhando-a firme, perguntou para colocá-la à prova:
— A senhora tem alguma coisa contra a nossa amizade ou contra o que faço?
— Não, filho. De forma alguma.
Penso até em, eu mesma, ir lá e saber direitinho o que está acontecendo.
Afinal, eu a considero muito. Porém ela tem os pais, os irmãos. O Abner está bem e...
— E se ele não souber?
Se não souber, não vai ajudá-la.
— Bem... Você está sempre com ela e deve saber mais do que o irmão.
Se tiver alguma coisa que possamos fazer para ajudar...
Cristiano ficou desconfiado.
Por um instante chegou a pensar que sua mãe não estava aprovando sua ligação com Simone.
Talvez estivesse desconfiada de alguma coisa e parecia não concordar.
Decidiu não dizer mais nada.
Bem sério, terminou seu desjejum em silêncio e foi se arrumar para ir trabalhar.
* * *
Já no consultório, no intervalo entre um paciente e outro, percebeu que um paciente de Davi havia faltado e foi à procura do irmão.
— Também te deram o cano? — perguntou Davi referindo-se à falta do paciente.
— Não. Ele ligou e disse que iria se atrasar.
Já está a caminho.
— Minha paciente nem avisou.
— Davi, preciso falar com você — foi directo, encorpando a voz pela tensão.
— Está sério. O que aconteceu?
Não está tudo bem entre você e a Simone?
— E um momento delicado para ela.
Não vou pressioná-la de forma alguma.
Até porque, lamentavelmente, sei que isso vai passar e quero estar ao lado dela quando acontecer.
— Não entendi. Como assim?
— Estou falando das dificuldades da Simone com o filho, o divórcio, a partilha de bens, emprego.
Isso tudo eu sei que vai passar.
Quando digo, lamentavelmente, refiro-me às condições do Pedro. Você sabe.
— É, sei — concordou triste, abaixando o olhar.
Ela está muito apegada ao filho. Sofrerá demais.
— Estou gostando muito dela, Davi.
Já faz algum tempo que me sinto atraído demais pela Simone.
Só não me aproximei antes para não assustá-la.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:46 am

— Entendo.
O irmão sorriu e confessou:
— Há tempos, eu vi que ia dar romance.
Só não disse nada porque nunca se abriu comigo sobre sua vida particular, íntima.
— Nem você comigo — afirmou-lhe, encarando-o firme.
— Comigo é diferente, Cris — fugiu-lhe o olhar.
— Hoje eu entendo que, em termos de amor, afecto, carinho, desejo, não há diferença.
Quando esses sentimentos são verdadeiros, eles são fortes e existem de modo que não podemos conter nem explicar.
— Nunca conversamos sobre nossos sentimentos, nossa intimidade.
Não sei o que você pensa, hoje, sobre mim.
Afinal, sou homossexual.
— Eu o entendo e respeito.
Respeito muito. — Davi emocionou-se.
Fugiu-lhe o olhar novamente.
Respirou fundo e mexeu em algumas coisas para disfarçar.
Cristiano aproximou-se, tocou-lhe o ombro, esperou-o se virar e continuou:
— Se eu nunca falei de mim, da minha vida íntima, foi para não parecer exibido ou para não parecer que eu queria te dizer como deveria ser.
— Sério?!
— Hoje eu entendo sua condição.
Nem sempre foi assim, confesso.
Procurei muitas informações a respeito.
Precisei de muita instrução.
Principalmente porque...
— Por quê?... — insistiu Davi querendo que continuasse.
— Porque a Vitória era completamente contra sua condição.
Não o aceitava. Achava que era assim porque queria. Nossa!
Ela me enchia tanto por causa disso.
Brigamos muito.
Então fui atrás de informações.
— Quando você não me entendia, não me aprovava, nunca me disse nada.
— Você me conhece.
Não sou do tipo de pessoa que fica criticando, hostilizando ninguém.
Depois que deixei de ser ignorante, eu o vi com outros olhos.
Sei que demorei muito tempo para entender e pensar diferente.
O acidente me ajudou muito, sabia?
Precisei quebrar, literalmente, a cabeça para deixar alguma coisa entrar — sorriu.
Eu só não queria que pensasse que eu estava me gabando, por falar de mulher ou que queria te dar lição de como deveria agir, sei lá...
— Eu não pensaria isso de você, Cris.
Nunca conversamos a respeito, mas eu não pensaria isso.
— E por que só eu deveria me abrir, hein?
Por que você não me procurou?
Davi sorriu com generosidade e respondeu:
— Também não sei. Vergonha, talvez.
Como eu ia chegar pra você e dizer que me sentia atraído por um rapaz e não por uma moça?
Como dizer que eu e o Abner nos gostávamos além da amizade?
Ao ver o outro sorrir por entendê-lo, propôs:
— Vamos deixar o que passou no passado.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:47 am

O irmão sorriu concordando e continuou:
— Sabe o que é?
Estou gostando muito da Simone.
Não consigo mais esconder isso de ninguém.
Hoje cedo, eu estava feliz por nós dois termos nos entendido ontem, pois ela também admitiu gostar de mim.
Eu ia até contar pra a mãe que estamos nos entendendo, mas...
A mãe estava meio estranha.
Veio com uma pergunta do tipo:
Por que eu me sentia na obrigação de ajudar a Simone.
Não entendi aonde ela queria chegar.
Parece que está desconfiada e não aprova muito a ideia de nos ver juntos.
Não sei se é pelo facto da Simone ser divorciada, ter um filho...
— Eu nem ia te contar, mas...
Um tempo atrás, a mãe veio com algumas perguntas sobre você e a Simone.
— O que ela quis saber?
— Se eu achava que você estava se dedicando muito ou se seu comportamento era normal.
O que eu pensava da Simone.
Como estava a ligação entre ela e o ex-marido.
Até quis entender melhor o problema do Pedrinho, se isso poderia acontecer em uma próxima gravidez ou não.
— A mãe perguntou até isso?! — surpreendeu-se.
— Em resumo, ela estava interessada na possibilidade de haver um romance entre vocês.
— E o que você disse?
— Que tudo era possível.
Que vocês formavam um casal bonito.
A mãe riu e concordou.
- Sabe, Cris, não creio que ela esteja contra, só está preocupada.
Você sempre foi o predilecto da mãe.
— Lá vem você de novo.
— É verdade! — riu. — Não tente negar.
Isso não me incomoda porque você é um óptimo irmão.
Por ser o predilecto, ela está cheia de cuidados.
Quer protegê-lo, saber se não vai se meter em encrenca.
— Como encrenca?
— Por mais que a mãe seja moderna, ela pode achar que o divórcio estigmatiza, que marca a vida de alguém.
Para algumas pessoas o divórcio é simples.
Separou, acabou e pronto.
Para outras, ele estica laços longos com alguém do passado.
— Eu sei disso.
— O Ricardo se divorciou.
Tem um filho com a Flora e, querem eles ou não, esse filho será o elo entre os dois.
O actual marido da Flora tem que aguentá-lo visitar o Renan quando está doente e fica em casa, tem que vê-lo pegar o menino e trazê-lo quando saem, entre outros contactos que o Ricardo e a Flora precisam fazer por causa do filho.
No caso deles, o divórcio não é tão simples.
O actual marido dela precisa entender, ser paciente, tolerante, pois, no casamento dos dois, a presença do Ricardo vai ter de existir.
Isso, talvez, não seja fácil para alguns.
Tem gente que não tolera e aí começam as brigas.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:47 am

— No caso da Simone é diferente.
— Por enquanto o marido dela está distante — lembrou Davi.
— Ex-marido — corrigiu Cristiano insatisfeito.
— Que seja. Ele está distante, mas quem garante que será sempre assim?
O irmão não disse nada e ele prosseguiu:
— Sei que está pensando o mesmo que eu.
É duro admitir, mas a verdade é que a ligação, o elo entre eles, o Pedrinho, talvez, não dure muito e o Samuel não vai precisar ter mais contacto.
Contudo tem a questão da casa para resolver, pois parece que o juiz deixou a Simone ficar com a casa enquanto ela estiver lá com o filho.
Além disso, o ex-marido pode ter uma crise de arrependimento, querer que ela volte para ele, sei lá...
Tem que se pensar em tudo.
Acho que a mãe se preocupa com isso.
— Não vou me afastar da Simone, a não ser que ela queira.
— Para não ficar um clima estranho entre você e a mãe, converse com ela.
Diga o que está sentindo e o que pretende fazer.
Isso vai tranquilizá-la.
Naquele momento, a voz fraca da assistente chamou-lhes a atenção:
— Doutor Cristiano, o paciente acabou de chegar.
— Já estou indo.
Voltando-se para o irmão, sorriu e agradeceu:
— Valeu, Davi. Obrigado.
Você me ajudou muito.
— O que é isso?
Conte comigo sempre.
Estapeou-lhe nas costas e Cristiano se foi.
* * *
Ao receber alta com o filho, Rúbia não quis ir para a casa dos pais.
Decidiu ficar com a irmã.
Naquele dia, dona Celeste tinha ido até sua casa arrumar algumas coisas para o marido que, por determinação dela, não deveria visitar a filha nem o neto para não contaminá-los com gripe, apesar de o marido estar bem recuperado.
A casa de Simone, novamente, era alvo de muitas visitas pela chegada de mais um bebé.
Dona Janaina visitava o pequeno Bruno e, no quarto junto com a jovem mãe, admirava o menino mamar, enquanto ouvia o chorinho angustioso de Pedro, vindo de outro cómodo.
— Vou ver se ajudo a Simone — disse a senhora piedosa.
Saindo à procura dela, encontrou-a na sala, embalando o filho com carinho, tentando fazê-lo parar de chorar.
— Quer ajuda, filha?
— Não sei mais o que faço.
Agora é sempre assim:
ele acorda e chora. Não para.
Breve pausa em que o afagou generosa e desabafou:
— Tenho tanta coisa para fazer.
Louça na pia. Roupa para lavar, passar.
Nem estou pensando na limpeza da casa.
Justo eu que sempre gostei de tudo limpinho e no lugar.
— Deixe-me pegá-lo um pouquinho — pediu a senhora com ternura e segurando-o com todo o cuidado.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:47 am

Observando bem o garotinho, ficou penalizada com sua aparência e sentida com seu choro agudo e impaciente.
— Será que não está com fome?
— Eu o alimentei agora há pouco.
Exausta, Simone sentou-se no sofá e ficou olhando a senhora embalar Pedro com cuidado.
Em seguida, pediu:
— Seria muito abuso da minha parte se ficasse um pouquinho com ele para eu dar um jeitinho na cozinha e preparar uma sopa para minha irmã?
— De forma nenhuma, filha.
Eu fico com ele sim.
Pedro chorava ainda e a mãe alertou:
— Sei que é difícil, mas não se incomode com o choro.
É assim mesmo.
— Será que não está com alguma dor?
— Nem o médico sabe dizer.
Por hoje eu já lhe dei todos os remédios.
As primeiras vezes que ele fez isso me desesperei, mas descobri que não tem jeito.
Só lamento por isso ser um incómodo para minha irmã.
— Vá lá, Simone.
Faça o que tem de fazer. Eu cuido dele.
Aproveitando a ajuda, ela correu para a cozinha.
Terminando o serviço ali, apressou-se em lavar algumas roupas do filho e do sobrinho e estendê-las na lavandaria.
Quando terminou, sua mãe havia chegado.
— Filha, por que não deixou isso para mim?
— Já terminei, mãe.
Aproveitei que a dona Janaina está com o Pedro.
— E ele? — interessou-se a senhora.
— Só chora.
Agora há pouco ficou quieto um pouquinho, mas não durou muito.
Ambas foram para a sala e viram dona Janaina acariciando a testinha do pequeno Pedro, que dormiu por alguns momentos.
— Ele ficou quietinho — sussurrou a mulher.
Quando se levantou para pô-lo no berço, o menino resmungou, acordou e voltou a chorar.
Paciente, Simone se aproximou, pegou-o nos braços e procurou acalmá-lo.
— O que foi, meu amor? — falava com voz mimosa e tom generoso.
Você está bravo hoje.
Não deixou a mamãe fazer nada e só ficou quietinho no colo da tia, não foi?
— Vovó — corrigiu dona Janaina sorrindo.
Já passei da idade de ser tia.
Pode me chamar de vovó.
Após cumprimentar a amiga, dona Celeste tentou brincar com o neto, mas não adiantou.
O nené só chorava.
— Vou dar uma olhadinha na Rúbia e no Bruno.
Eles estão lá no quarto?
— Estão. Vai lá, mãe — respondeu Simone forçando um sorriso que se desfez assim que sua mãe saiu da sala.
Ela havia percebido que, após o nascimento de Bruno, dona Celeste não se dedicava muito ao Pedro.
De facto, não era fácil contemplá-lo.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:48 am

Sem dúvida, era muito melhor contemplar Bruno:
saudável, perfeito e bonito.
Simone suspirou fundo e tinha os olhos marejados quando decidiu, em meio ao choro do filho:
— Vamos, meu amor.
Vamos trocar essa fraldinha.
Quem sabe está sendo exigente por isso, não é mesmo?
— Quer ajuda, Simone? — ofereceu dona Janaina
— Se a senhora puder pegar água morna para mim, agradeço.
A que está na garrafa térmica, lá perto do trocador, deve estar fria.
— Vamos lá. Vou pegar.
Mesmo após a troca da fralda, Pedrinho não parava de chorar.
Pareceu até que gritava mais.
Era um choro ardido, feito um grito agudo que começou incomodar muito.
Era nítido haver algo errado com ele, mas não se descobria o que era.
— Está pior do que nos outros dias.
Não sei mais o que fazer — disse Simone, quase desesperada.
Acho que vou levá-lo ao médico.
Dona Celeste e Rúbia foram até a sala enquanto Bruno dormia após o banho dado pela avó.
— De fato ele está chorando muito, Simone.
Nunca o vi desse jeito.
Deixa eu pegar um pouquinho.
Quem sabe no colo da vovó...
Tomando-o nos braços, falou com jeitinho mimoso:
— Vem com a vovó, meu amor.
Nesse momento, ouviram o toque de uma buzina em frente à casa e Simone deduziu:
— Deve ser o Abner.
Ele disse que passaria hoje aqui.
Vou ter que ir lá abrir, pois o electrónico do portão quebrou.
Ela saiu e verificou que se tratava de Cristiano.
Enquanto isso as outras três espiavam através da cortina da grande janela da sala.
Ao abrir o portão, ela o recebeu sorridente.
O rapaz foi ligeiro, beijou-lhe os lábios e Simone correspondeu.
Nesse instante, na sala, dona Celeste, muito surpresa, virou-se para dona Janaina e indagou:
— Você viu aquilo?!
— Vi.
— Você sabia?
— Não.
Rúbia não disse nada e saiu de perto, segurando o riso.
Simone, lembrando-se de que as outras poderiam ver, falou para ele parecendo cochichar:
— Não faz isso.
Sua mãe e a minha estão lá dentro.
— Está na hora de elas saberem, não acha?
Observando-a, perguntou:
— E aí? Tudo bem?
Antes de ela responder, reparou:
— Você parece aflita.
Enquanto entravam contou:
— O Pedro não para de chorar desde ontem.
Não preguei os olhos esta noite.
E também estou ajudando a Rúbia com o Bruno.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:48 am

Ao entrar na sala, o rapaz cumprimentou todas com beijos e disse:
— Deixe-me ir lavar as mãos para pegar esse moleque chorão — brincou, olhando o pequeno Pedro no colo da avó.
Após alguns minutos, voltou à sala pegando o menino nos braços.
Com jeito generoso, embalou-o com carinho, mas não adiantou.
— Por que você está tão bravo hoje, hein?
Conta aqui pro titio — falava entoando mimo na voz grave.
Acariciou-lhe a face, apalpando-lhe a lateral abaixo do ouvido.
Pedro gritou de modo dolorido.
De imediato, Cristiano pediu:
— Simone, dê-me uma fralda de pano ou alguma outra roupa, aquecida a ferro morno, por favor.
— É pra já!
Não demorou e voltou entregando-lhe:
— Toma. Vê se não está muito quente.
Com o menino no colo, Cristiano se sentou e colocou a fralda aquecida sobre a orelha de Pedro que, aos poucos, diminuiu o choro e passou a resmungar.
— Ele está com dor de ouvido — disse Cristiano que, extremamente generoso e até paternal, cuidava ternamente do garotinho.
— Meu Deus! Ele ficou quietinho — surpreendeu-se Simone.
Como não imaginei isso antes?
— Cansaço, estresse e muito envolvimento com um problema não nos deixa ver alternativas.
Além disso — brincou —, tudo foi resolvido com um papo de homem pra homem. Não é garotão?
— E agora? O que vai fazer? — perguntou dona Celeste.
— Não pode curar dor de ouvido só com pano quente.
Deve estar inflamado e ele precisa ser medicado — explicou o rapaz.
Simone desanimou, em seu íntimo, quando pensou em ir ao hospital novamente, mas sofreu resignada e nada comentou.
— E mesmo, filha — concordou sua mãe.
Será melhor levá-lo no médico agora ou de madrugada ele vai dar o maior trabalho.
— Vou me trocar.
— Arrume-se que eu a levo — decidiu Cristiano.
Dona Janaina não disse nada.
Somente observou.
Em seguida, olhou para seu filho embalando o garotinho no colo e sorriu admirando a cena.
Só queria que fosse diferente.
Sentando-se ao seu lado, afagou a cabecinha de Pedro com terno carinho.
Logo Simone retornou, alçando no ombro uma bolsa com as coisas de seu filho e perguntou:
— Você pode ir comigo, Cris?
Não vai te atrapalhar?
— De jeito nenhum.
Vamos lá — animou-se, entregando o pequeno menino a ela.
* * *
Era bem tarde quando Cristiano chegou a sua casa e acreditou que sua mãe já estivesse dormindo.
Entrou em silêncio, procurando não acordá-la.
Mas foi surpreendido com a luz que foi acesa.
— Oi, mãe! Que susto!
— Nossa, filho! Como demorou!
Eu estava preocupada.
— Depois que voltamos do hospital, fiquei um pouquinho na casa da Simone.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:48 am


Bem directa, dona Janaina contou:
— Vi você cumprimentando a Simone, quando chegou a casa dela.
— Viu?! — perguntou com certo sorriso.
— Vocês estão namorando?
Encarando-a, afirmou:
— Estamos sim, mãe.
A senhora tem algo contra?
— Contra a Simone não.
De jeito algum. Gosto dela.
— Então por que parece preocupada?
— Porque ela está resolvendo, ainda, situações com o marido.
Por ter um filho...
De verdade, nem mesmo sei por que estou preocupada.
Acho que é por você. Gostaria que fosse diferente.
— Desde que conheci a Simone, minha vida mudou.
Vi nela alguém com tanta força, tanta determinação e foi isso, principalmente, que me ajudou a sair do fundo do poço.
A senhora lembra de como eu estava, não lembra?
— Lógico. Sou muito grata a tudo que ela fez.
— Mãe, se a senhora conseguiu compreender e aceitar a condição do Davi, coisa bem difícil para muitos pais...
Se a senhora concordou com a união dele com o Abner...
Por que agora está, digamos... relutando para aceitar meu romance com a Simone?
— Não tenho nada contra o romance de vocês.
E que o marido dela não sai da minha cabeça, filho.
A atitude desse homem foi muito estranha. Não acha?
E se ele, de repente, decidir que quer a esposa de volta?
— Ex-esposa! — corrigiu-a.
A mãe nada disse e ele opinou:
— Já estão separados a tempo suficiente.
Por ela, tenho certeza que não tem volta.
— É o ex-marido que me preocupa nessa situação.
Não é nada contra vocês.
Para ser sincera, no começo, me preocupei por causa da condição do Pedrinho.
Temi que fosse algo hereditário e que os próximos filhos dela pudessem ter o mesmo problema.
— Não, mãe. Isso não tem nada a ver.
Mesmo se tivesse...
Não seria isso a me separar dela.
— Eu sei. Não é algo hereditário.
Mas sabe como são as mães...
Querem sempre o melhor para seus filhos.
Seu irmão me explicou muito bem o que é essa síndrome.
Desculpe-me por ter pensado coisas...
Cristiano aproximou-se, abraçou-a com carinho, afagando-lhe os cabelos curtos enquanto recostava seu rosto em seu peito.
Beijou-lhe a cabeça e disse:
— Fique tranquila, mãe.
Sei o que estou fazendo.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:49 am

21 - O ENCONTRO DE DAVI E DO SENHOR SALVADOR

ERA COMEÇO de uma tarde de sábado. O dia estava nublado quando Cristiano estacionou seu carro frente à garagem da casa de Simone.
Desceu, contornou o veículo e sorriu ao olhar para o portão e ver o senhor Salvador, ali parado, recostado em uma mureta.
Ao vê-lo, o senhor abriu o portão e pareceu satisfeito, cumprimentando-o.
— Que bom que chegou.
Eu precisava mesmo de companhia.
— Tudo bem com o senhor?
— Quase tudo.
— Por quê? Não melhorou?
— Da gripe? Ah, sim.
Estou completamente curado.
Porém, agora há pouco, fiquei pior do que quando estava doente.
— O que aconteceu? — quis saber com simplicidade, após entrar.
— Quando for lá pra dentro, vai ver.
Só não fui embora porque...
Nem sei por quê.
Estou indignado, para dizer a verdade.
— O que houve? — interessou-se curioso.
— Nem a Celeste nem as meninas me contaram — referiu-se à esposa e às filhas.
Eu já sei que o Abner está morando...
Você sabe. Com um cara.
Tenho muita vergonha de te contar isso, mas...
A verdade é essa.
Quando cheguei aqui, encontrei o meu filho e um sujeito.
Foi então que entendi que era o companheiro dele!
Isso é um absurdo! Quase enfartei.
Estou passando mal até agora!
— O senhor viu alguma coisa, algum envolvimento romântico entre eles? — perguntou com certo cuidado na entonação de voz.
— Não. Também, só me faltava isso! — indignou-se.
O homem estava ofegante, avermelhado e visivelmente irritado.
— O senhor tem certeza de que é o companheiro dele?
— Só pode ser.
Ouvi, sem querer, uma conversa sobre a viagem para a praia que tiveram de interromper por causa da Rúbia, que foi para o hospital.
Isso é uma pouca-vergonha!
Cristiano não disse nada e abaixou o olhar.
Aquela era a hora da verdade.
Ou contaria que Davi era seu irmão ou ele iria descobrir pelos outros quando entrasse.
— Senhor Salvador — tornou em tom tranquilo e jeito paciente —, já conversamos sobre a condição de pessoas como seu filho e o Davi.
— Davi? Então você conhece ele?
— Conheço muito bem.
E, por algumas vezes, o senhor também quase o conheceu, pois a outra sala lá no consultório odontológico é dele.
— Espera aí! Você me disse que quem atendia ali era seu irmão!
— Exactamente — confirmou sério e tranquilo.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:49 am

— Não! Não posso acreditar!
— Pois pode acreditar.
O Davi é meu irmão.
Não notou a semelhança?
Somos bem parecidos.
Se reparar bem, sou só um pouco mais alto do que ele.
— Agora que tá me falando... — fitou por longos segundos.
Por que não me contou?
Por que não me disse?
Também tem vergonha dele, não é?
— Não. De forma alguma.
Já foi o tempo que senti vergonha de meu irmão ser homossexual.
Faz tempo que eu deixei de ser ignorante e ganhei bastante entendimento a respeito disso.
Eu adoro o meu irmão.
Nós nos damos muito bem.
Eu o respeito, aceito e compreendo.
Para ser sincero, não vou admitir que alguém o maltrate ou o desconsidere por sua condição.
E esse querer bem e defesa, de minha parte, estende-se também ao Abner.
— Como pode aceitar isso? Eles...
— Eles têm o direito de fazer o que quiserem de suas vidas.
Não sou Deus para julgá-los nem o senhor.
Entenda isso.
O homem silenciou pensativo e Cristiano sugeriu sorrindo, sem lhe dar muito tempo para reflectir:
— Vamos entrar. O senhor veio aqui com o objectivo de ver sua filha e seu neto.
Então se dedique a isso.
Faça o que veio fazer.
— Não consigo olhar para eles.
— Se esse é o problema...
Não olhe. Vamos entrar.
Não poderá ficar aqui fora o tempo todo.
Aproveite que eu cheguei e vamos tomar um café, bater um papo — sobrepondo o braço nos ombros do senhor, foi conduzindo-o para dentro da casa.
Inesperadamente, o senhor parou, arregalou os olhos e, encarando-o, questionou num impulso:
— Você não é como ele, é?
Cristiano sorriu e segurou a gargalhada para responder:
— Não. Definitivamente, não — queria rir.
Poderia falar que estava se envolvendo com a filha dele.
Gostaria de ver a cara do homem.
Mas não disse nada.
Entraram e o senhor foi directo para um canto do sofá, ficando próximo do carrinho onde Pedro estava quietinho.
Pela presença do pai de Simone, Cristiano beijou-lhe o rosto como sempre fazia e ela entendeu.
O rapaz achou que as surpresas daquele dia já seriam demais para o senhor Salvador.
Todos brincavam e conversavam animadamente quando outro visitante chegou.
Tratava-se de Cláudio, amigo de Simone.
Era um rapaz homossexual, altura mediana, magro, bonito, simpático e muito expressivo.
Muito amável e risonho, cumprimentou a todos, inclusive o senhor Salvador, que estava bem escondido no canto da sala, e foi directo brincar com o pequeno Pedro.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:49 am

— Ai, amiga — pediu com trejeitos para Simone —, posso pegá-lo?
Faz tempo que não vejo meu tchutchuquinho!
— Claro. Pode pegar.
A mãe tirou o garotinho do carrinho e o entregou a Cláudio, que tinha muito jeito com criança.
— Cade o nené do titio?!
Cuti, cuti, cuti!
O titio estava morrendo de saudade desse menininho lindo!
Cade o nené?!
Apesar da deformidade labial, o sorriso de Pedrinho foi bem nítido.
— Ele sorriu!!! — gritou Simone.
Ele riu para o Cláudio!!! — tornou satisfeita, verdadeiramente feliz.
Cristiano, parecendo enciumado, ficou sério e se aproximou para confirmar.
Espiando sobre o ombro de Simone, reclamou baixinho:
— Ele nunca riu para mim.
— Mas não chora quando está no seu colo — disse ela para confortá-lo.
— Ai, gente! Esse sorriso foi uma bênção! — exclamou Cláudio animado, continuando a brincar com o pequenino para vê-lo rir mais.
O senhor Salvador se levantou sorrateiro e, sem que Cláudio visse ou ouvisse, passou perto de Cristiano e resmungou:
— Era só isso o que me faltava ver — referiu-se ao rapaz repleto de trejeitos.
Dona Celeste chamou o marido para a cozinha e lhe ofereceu café.
Ela queria tirá-lo de perto dos demais, pois temia que ele desagradasse o visitante.
Enquanto o senhor bebericava o café, perguntou:
— E a Rúbia?
— Está no banho.
O Bruno deve acordar daqui a pouco para mamar.
— Eu quero ir embora.
Não aguento mais isso.
Cristiano chegou à cozinha à procura de algo.
— O que você quer, filho? — quis ajudar dona Celeste.
— Um copo.
Estou morrendo de sede.
— Aqui está — entregou-lhe.
Enquanto via o rapaz, próximo ao filtro, encher o copo com água, o senhor perguntou:
— Você viu aquilo?
Cristiano bebeu a água e depois respondeu:
— Sabe, senhor Salvador, eu penso que aquele jeito é o jeito dele.
Assim como eu e o senhor temos, naturalmente, nosso jeito de ser e de se expressar.
Acredito que o Cláudio não está se forçando a nada.
— Você acha?
— Acho sim. Mesmo que ele se force a ter aqueles trejeitos, o que eu tenho com isso?
Ele não me ofende nem me agride.
Então, por que vou me importar? Não acha melhor pensar assim?
— E por que eu deveria pensar assim?
Cristiano sorriu e respondeu:
— Para viver mais e melhor.
Não há motivo para o senhor se incomodar com ele que não está lhe fazendo nada.
Além do que, por que o senhor se incomodaria, ãh?!
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 17, 2017 9:50 am

Por não ouvir resposta, completou:
— Lembra do que lhe falei?
As pessoas bem resolvidas consigo mesmas, as pessoas felizes consigo mesmas, não têm motivo para se incomodarem com nada.
— Acho que vou embora.
— Não faça isso.
Fique e me faça companhia — disse o rapaz, passando-lhe a mão nas costas.
O senhor se contentou e ficou.
Mesmo assim, não olhava para o filho.
Evitava-o tal qual fazia com Cláudio e Davi.
Não demorou muito e Rúbia saiu do banho, amamentou Bruno e foi para a sala.
Foi então que o avô ficou satisfeito por pegar seu neto Bruno no colo e mais à vontade com Davi que decidiu tirar fotos para registrar aquele momento.
— Veja como o senhor saiu bem nessa! — disse Davi, mostrando-lhe a imagem na câmara digital.
Orgulhoso, o homem concordou e até contou a ele:
— Bruno é o nome do meu pai, sabia?
— A Rúbia me contou.
Aliás, ela teve um óptimo gosto.
É um nome muito bonito.
— Eu também gosto.
Em seguida, sem que percebesse, puxou assunto:
— O seu irmão me disse que é dentista também e atende na outra sala lá no consultório dele.
— É verdade.
— Por que nunca o vi lá?
Sou paciente dele.
— Acho que os dias em que o senhor foi atendido pelo Cristiano, foram os mesmos em que eu estava fazendo um curso.
— Ãaah...
Todos conversavam muito, riam e brincavam e não prestaram atenção na conversa que se iniciou entre os dois.
— Pelo visto o Bruno gostou do colo do avô.
Já dormiu — reparou Davi e sorriu.
— É verdade.
Um minuto e perguntou:
— Pelo visto vocês se conhecem há muito tempo.
— Mais ou menos.
Foi no último ano que conheci a Rúbia e a Simone.
— O Abner você conhece há mais tempo? — indagou o senhor sério.
Davi o encarou, também sério, e, com suavidade no semblante, afirmou tranquilo:
— Conheço seu filho há mais tempo — com seus olhos vibrantes, cor de mel, quase esverdeados, invadiu-lhe a alma e silenciou.
O senhor sentiu um choque e fugiu-lhe ao olhar, voltando a embalar o neto.
Passado algum tempo, para o assunto entre eles não morrer, o senhor Salvador comentou:
— Minha mulher fala muito bem da sua mãe.
— São dois anjos! Sua esposa e minha mãe.
— Sabe que, outro dia, seu irmão me deu uma aula muito importante sobre a mulher.
Então eu comecei a observar e vi que eu havia me aposentado, mas minha mulher não.
Parece que ela nunca poderá se aposentar das tarefas lá de casa.
Comecei então a ajudar e...
Sabe, numa casa tem trabalho duro.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:12 am

— Sei, sei sim.
É importante ajudarmos nos serviços de casa para darmos valor à mulher e à mãe.
O homem pouco adiantado, moralmente falando, é aquele que domina a mulher e usa a força, física ou psicológica, para exercer seus direitos.
Geralmente a mulher só é fisicamente mais frágil porque, a ela, a Natureza determinou algumas funções.
Deus deu força ao homem para protegê-la e não para escravizá-la.2
— Seu irmão me falou que era espírita.
Você também é?
— Sou sim.
— Você não acha que o espiritismo deixa os seus fiéis...
Não sei se o nome é fiéis ou crentes.
— Adeptos, seria melhor.
— Sim, isso.
O espiritismo não deixa seus adeptos muito tolerantes?
— Creio que os adeptos da filosofia espírita têm mais conhecimento e por isso começam a compreender melhor as coisas, as pessoas e a vida.
— Não quero ser grosseiro, mas...
Como o espiritismo explica aquilo ali? — apontou para Cláudio que, do outro lado da sala, ria e divertia os outros contando alguma coisa.
Davi olhou, respirou fundo, alinhou os cabelos teimosos que voltaram para o mesmo lugar.
Pensou, voltou-se para o senhor e respondeu com tranquilidade:
— O senhor acredita em reencarnação?
— Não sei. Não tenho opinião formada.
— A Doutrina Espírita é uma filosofia reencarnacionista, ou seja, seus adeptos acreditam em um Deus bom e justo e que Ele, o Pai, não nos destrói após esta vida.
Nem nos confina ao inferno caso façamos muitas besteiras.
Nem nos manda para o céu se pedirmos perdão dos pecados antes de morrermos.
E quem fez tudo certo, não vai para o céu?
E quem, neste mundo, fez tudo certo? — perguntou, olhando-o ao esboçar suave sorriso.
Eu acredito que quem pisou, um dia, a Terra e fez tudo certo foi só Jesus.
E Ele bem lembrou:
Atire a primeira pedra aquele que nunca pecou.
Ninguém ousou atirar.
— Mas o que tem a ver isso com a pergunta que te fiz?
— Acreditando em um Deus bom e justo, eu acredito na reencarnação.
Portanto, eu creio que uma alma reencarnada, muitas vezes, como mulher ou uma alma que, dependendo do que fez no passado, pode vir como uma alma feminina em um corpo masculino com diferentes graus de afectação para evoluir, harmonizar o que desarmonizou ou, simplesmente, aprender.
É provável que aqui, encarnados, nunca vamos saber a razão disso, pois cada um tem um motivo diferente para vir em determinada condição.
O importante é respeitarmos a vontade de Deus e amar ao próximo como a nós mesmos.
A aproximação de Rúbia os interrompeu.
— Ele dormiu, pai?
— Dormiu sim.
— Deixe-me pegá-lo e pôr no berço.
Não quero que esse malandrinho fique manhoso e só querendo colo — brincou, beijando o pequenino na testa.
Cuidadosa, levou-o para o quarto.
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Ave sem Ninho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:12 am

Nesse momento, Simone ofereceu:
— Que tal um refrigerante ou café?
— Aceito um refrigerante, obrigado — respondeu Davi, levantando-se e pedindo:
— Com licença, senhor Salvador.
O rapaz sabiamente decidiu encerrar o assunto de forma educada.
Achou que o homem o alongaria e, pelo jeito, estava disposto a ser invasivo, intolerante, podendo até querer entrar em sua vida particular com Abner.
Ricardo chegou trazendo um presente para Bruno e flores para Rúbia.
Para surpresa de todos, estava acompanhado de sua irmã Eloah e sua companheira Suzana.
Na cozinha, preparando alguns salgados e torta para serem colocados sobre a mesa da sala de jantar, Simone virou-se para Cristiano e falou:
— Nunca tive tanta gente animada assim em minha casa!
Ele começou a rir e comentou:
— Será uma sessão de provas para o seu pai.
— É mesmo — ela concordou sorrindo.
Tomara que o senhor Salvador não me envergonhe.
Ele se aproximou, roubou-lhe um beijo e sussurrou:
— Fique tranquila.
A movimentação na casa de Simone era grande e alguns assuntos surgiram.
Suzana, encantada com o recém-nascido, confessou:
— Meu maior sonho é ter um filho.
Aliás, é o nosso maior sonho — disse, olhando para Eloah.
— Pretendem adoptar ou partir para uma inseminação artificial? — interessou-se Cláudio.
— Aqui no Brasil, hoje, a adoçam é bastante complicada para os homossexuais.
Isso é lamentável, tendo em vista o grande número de crianças sem pais, sem lar que estão crescendo em orfanatos — respondeu Suzana.
— Ah, meu amor, tem muita gente homossexual que já conseguiu — tornou Cláudio.
— Eu sei, mas tudo depende muito de quem julga o direito de adoçam. Há muito preconceito apesar de a Lei Nacional do Código Civil de 2002, bem como o Estatuto da Criança e do Adolescente, que em nada inibe a adoçam por homossexuais ou pessoas solteiras desde que, quem adopte, tenha dezasseis anos ou mais do que o adoptado.
Só que a discriminação e o preconceito são grandes, dependendo do estado.
No Brasil, quanto mais conservador o estado, mais difícil fica.
— Eles negam a adoçam para confinar a criancinha no orfanato ou instituição com péssimos tratamentos e depois deixá-la crescer sem lar, sem família, sem estudo, sem oportunidades sociais e económicas.
Ao sair de lá e ganhar o mundo, é certo que a maioria vai para o mundo do crime e, depois, para as instituições penais — desabafou Cláudio.
— Isso é culpa dos dogmas religiosos e falsos moralistas.
À medida que as pessoas de bom-senso se conscientizarem e entenderem nossa condição, acredito que nossa situação e nossos direitos vão melhorar — disse Eloah.
Nós duas, primeiro, tentaremos a adoçam.
Se não conseguirmos, partiremos para a inseminação artificial.
— Eu acho o seguinte:
a discriminação ao próximo não vale a pena.
Aquele que vive em paz é sempre mais feliz — tornou Cláudio.
A conversa continuava e Ricardo percebeu que Rúbia tinha ido para o quarto e não retornou.
Sem ser percebido, ele foi procurá-la.
A porta do quarto, chamou com voz suave para não assustar a amiga:
— Rúbia?
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Ave sem Ninho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:13 am

— Oi, Ricardo. Entra aí.
— Ele está dormindo?
— Acordou e está resmungando um pouquinho.
Após observá-la por alguns minutos, o rapaz perguntou:
— Desculpe minha curiosidade, mas...
Você avisou o pai que ele nasceu?
— Que pai?! — perguntou com certo desdém no tom de voz.
Não quero nem ver o Geferson.
Assim que terminar minha licença-maternidade, se eu não for demitida, o que parece certo, vou pedir demissão e esquecer que um dia o conheci.
— É difícil esquecer um envolvimento.
Vou avisando. Só com o tempo tudo se ajeita.
— E o Renan?
Não ficou com você neste fim de semana?
— Viajou para o Rio com a mãe e o padrasto.
Estou preocupado.
O Wilson, marido da Flora, está prestes a aceitar o convite para ir trabalhar nos Estados Unidos.
Se isso acontecer...
— Não há uma chance de o Renan ficar com você?
Afinal, o menino está acostumado aqui. Estuda...
— Duvido que a Flora o deixe morar comigo.
Ela não abre mão do filho.
Estou muito nervoso.
Não me vejo sem o Renan.
— Não fique ansioso.
De repente, o Wilson não aceita o convite, muda de ideia...
Não sofra por antecipação.
— É difícil.
— Com licença — interrompeu Eloah.
Virando-se para o irmão, pediu:
— Vamos, Ricardo.
Senão fica tarde e elas precisam descansar.
Tiveram muita visita hoje.
— Você tem razão.
— Não. Ainda é cedo — disse Rúbia.
— Não é cedo não.
Você e sua irmã devem estar cansadas.
Criança pequena dá trabalho à noite — tornou a outra.
Tchau, Rúbia. Parabéns.
Seu filho é lindo — disse Eloah, beijando-a e indo embora.
— Também vou indo — decidiu Ricardo.
Tchau. A gente se vê.
Despediram-se e Rúbia continuou no quarto com o filho.
Não demorou, Abner e Davi também partiram.
Em seguida, dona Celeste e o senhor Salvador foram até o quarto onde Rúbia estava e a convenceram apanhar algumas roupas e coisas, dela e do filho, para irem para a casa junto com eles.
Seria mais fácil auxiliar a filha, e Simone também não ficaria sobrecarregada para cuidar de Pedro e ter de ajudar a irmã.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:13 am

Simone não gostou da ideia.
Já havia se acostumado com a presença de Rúbia.
Não queria ficar sozinha.
Mesmo assim, foi feito como o proposto.
Rúbia achou que a irmã estava com encargos excessivos e decidiu aceitar o convite dos pais, o que a deixou muito feliz..
Após eles irem a casa pareceu vazia.
Na sala, Simone começou a tirar a mesa e Cláudio a ajudou, enquanto Cristiano fazia Pedro dormir.
— Menina! Quanta louça!
— Sou rápida para lavar louça.
Deixa comigo.
— Vai lavando que eu seco — decidiu o amigo, pegando um pano de prato.
Enquanto lavava, Simone comentou:
— Pensei que minha mãe fosse ficar.
Ela costuma dar a maior força — riu.
— Você está cansada, né, amiga?
— Ai... E como, Cláudio.
E como! Não sei mais o que é uma noite inteira de sono.
Nem da última vez que o Pedrinho ficou no hospital, descansei.
Tive um sono turbulento.
Fiquei muito triste. Chorei.
— Por que não me ligou?
Sabe que pode contar comigo.
— Te ligar às três da manhã seria o fim da picada! — riu gostoso.
— Se precisar, sabe que pode me ligar.
— Na manhã seguinte, passou.
Sempre passa.
Descobri que tudo passa — sorriu.
Mudando de assunto, o amigo perguntou:
— Seu pai já sabe sobre você e o Cris?
— Não. Ai!...
Hoje fiquei preocupada.
Pensei que meu pai fosse me fazer passar vergonha...
— Amiga!... — riu gostoso.
Sua casa, hoje, pareceu um congresso de gays, lésbicas e simpatizantes! — gargalhou, e ela riu junto.
O que foi isso?
Estava a maior biodiversidade aqui!
Você fez de propósito?
— Não... — riu pelo jeito engraçado do amigo.
Ai, Cláudio... Só você mesmo para me fazer rir assim.
— E não foi verdade?!
Um instante e comentou:
— Vi seu pai conversando com o Davi...
Será que ele sabe que o Davi é o companheiro do Abner?
— Não sei. Fiquei tão nervosa!
Meu pai estava de um jeito esquisito.
Com uma cara... Acho que ele desconfiou.
— Não desconfiou.
Ele ficou sabendo sim — disse Cristiano ao chegar à cozinha.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:13 am

— Como foi que ele soube? — interessou-se ela.
— Quando eu cheguei, ele foi conversar comigo e...
Cristiano contou tudo e ela se admirou:
— Então ele soube que você é irmão do Davi?!
— Eu contei.
— E aí?! — tomou ela curiosa.
— Seu pai não tinha o que dizer, depois daquela conversa que tivemos outro dia, em que eu lhe dei muitas orientações.
Só fiquei preocupado quando o vi conversando com meu irmão.
Porém o Davi é esperto.
— Gente, é muito, muito difícil um pai aceitar e entender a homossexualidade do filho.
Comigo, isso até hoje não aconteceu.
Desde pequeno eu sempre soube que não era masculino o suficiente.
Eu era diferente de meus irmãos.
— Como percebeu isso? — quis saber Cristiano.
— Não gostava das mesmas coisas que meus irmãos.
Isso me incomodou durante muito tempo.
Eu me culpava e como me culpava!
As vezes, escapava alguns trejeitos e meu pai, sempre distante, aproximava-se, mas só para me bater.
Ele me dava forte tapa na cabeça e dizia: Toma jeito!
— E você? — tornou o outro.
— Ficava péssimo.
Sofri muito, pelo facto dos meus irmãos me criticarem.
Ninguém me aceitava e brigavam muito comigo.
Eu chorava escondido.
Não conseguia ser aquilo que meus pais queriam.
Sempre tive amigas.
As meninas gostavam de mim.
Mas nunca havia nenhum outro interesse além da amizade.
Eu me identificava com elas.
Virava e mexia, eu apanhava dos meninos da escola que não me aceitavam.
Cláudio parou, pareceu triste ao recordar e contou:
— Eu era xingado, ridicularizado, humilhado...
Como era humilhado... — seus olhos nublaram.
Terminaram o serviço e Simone convidou-os para se sentarem à mesa da cozinha e foi preparar um chá.
Cláudio continuou:
— Eu não sabia o que sentir nem como agir.
Meu coração doía.
Era tão triste que, quando estava na adolescência, eu queria morrer.
— Por quê? — perguntou Cristiano.
— Queria morrer para que meus pais, meus irmãos, meus colegas de escola ficassem com remorso por tudo o que me faziam sofrer.
Não tinha culpa por ser o que eu era, o que sou.
Os outros me achavam uma aberração.
Eu me sentia atraído por meninos e me expressava com trejeitos sem perceber.
Nunca ataquei um homem por causa disso, mas os outros não me aceitavam por pensar que eu poderia fazer isso, ou então, o que eu tinha poderia contagiá-los.
Minha avó, que Deus a tenha, não me entendia, mas não me criticava.
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