MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:13 am

Ela era a única pessoa da minha família que me aceitava como eu era.
Chorei muitas vezes no colo dela.
— Conversou com seus pais a respeito? — perguntou Simone, servindo chá fumegante para os dois.
— Quem falou que eles conversavam comigo?
Meu pai, quando se dirigia a mim, o que era raro, me ofendia, agredia com palavras.
Minha mãe se calava.
Por isso vivi deprimido.
Para não me matar, pois pensei muito em suicídio, não pela minha condição, eu não era infeliz por ser homossexual.
Eu era infeliz por causa do tratamento que me dispensavam.
Aliás, qualquer criança ou adolescente, homo ou heterossexual, que recebe tratamento rude, crítico dos pais, é infeliz e pensa em morrer.
Então, para não fazer besteira, fui morar com minha avó, que já estava bem velhinha.
Decidi estudar para tornar-me economicamente independente.
Comecei a procurar explicação para o que eu era, para a minha condição.
Descobri que eu era homossexual e não transexual.
Nunca quis virar mulher.
Não quero ter corpo de mulher como os transexuais.
Quero ser como sou. É simples assim.
— Você é formado em quê? — interessou-se Cristiano.
— Primeiro eu fiz faculdade de Economia, depois Arquitectura, depois Artes.
Além disso, fiz duas pós-graduações e um mestrado.
Hoje dou aula de diversas matérias em duas universidades.
— Nunca quis actuar em uma dessas áreas? — perguntou o outro.
— Não. Pode parecer absurdo, mas gosto de dar aulas — riu. — Reclamo, mas adoro.
Em seguida, afirmou:
— Por tudo o que vivi, posso garantir que é muito difícil assumir a homossexualidade para a família, para os amigos.
Sofri muito por causa do preconceito, da discriminação.
A tortura psicológica é pior do que a física.
Tive sorte por me tornar independente e ser forte, emocionalmente, para enfrentar o preconceito.
Nem todas as portas se abrem quando se assume ser o que é, por isso acho que tem muita gente enrustida, dentro do armário.
Por medo da dor da rejeição.
Vi muitos homossexuais expulsos de casa na adolescência.
Não tiveram apoio.
Não conseguiram estudar nem ter um emprego decente.
Acabaram com uma vida triste, na prostituição, no crime, nas drogas...
Eles não fazem isso porque não prestam, fazem para sobreviver.
— Isso é lamentável — disse Cristiano.
— O Abner fez bem em assumir sua condição só depois de sair de casa.
Essa é minha opinião — tornou Cláudio.
— Isso depende muito da família.
Não foi o caso do meu irmão.
— Por isso é importante ensinar a criança a dizer não ao preconceito, dizer não ao bullying, não aos apelidos ofensivos.
Isso fará dela e dos outros, adultos melhores — opinou Simone.
— E verdade. Tem gente que fica querendo que o filho seja o melhor, mas não o corrige quando ele briga na escola, morde o coleguinha e não tem limite em nada.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:14 am

Essa criança crescerá sendo agressiva e, consequentemente, odiada.
O mesmo acontece com aqueles que desejam um mundo melhor, um planeta despoluído, mas ainda jogam papel de bala na rua, latinha de bebida pela janela do carro...
Não se consegue o máximo se não começarmos com o mínimo — disse Cristiano.
O choro de Pedro interrompeu-os e Simone disse sorrindo:
— Meu campeão acordou.
Deixe-me correr porque ele está bem exigente.
Após sua saída, Cláudio comentou:
— Estou penalizado por ela.
Coitada da minha amiga.
Seu eu pudesse ajudar mais...
— Sendo amigo como você é, já está ajudando muito.
Vamos lá para dar uma olhada?
— Não, Cris. Vou lá para me despedir.
Está bem tarde.
No quarto, despediu-se da amiga e se foi.
Depois, ao lado de Simone, Cristiano perguntou:
— O que ele tem?
— Acho que nada.
Esse chorinho é normal.
— Não está na hora de mamar?
Ela consultou o relógio e respondeu:
— Quase... Vou lá fazer o leite.
— Eu cuido dele — disse, deitando-se na cama ao lado do menino, acariciando-o.
Mesmo extremamente cansada, Simone não parava.
Não descuidava do filho e dos afazeres para com ele.
Retornou, alimentou o pequeno Pedro e o colocou na cama de casal ao lado de Cristiano.
Ele voltou a acariciar o menininho, brincando com ele.
Ela sorriu pela cena e deitou-se também, deixando o filho entre eles.
— Está cansada, não está?
Cristiano perguntou, levando a mão até seu rosto e afagando-o com carinho.
— Você nem imagina...
O silêncio foi absoluto.
Somente o garotinho, às vezes, resmungava.
Cristiano continuou com o braço estendido, acariciando-lhe os cabelos e o rosto e, sem resistir, Simone adormeceu.
Cuidadoso, ele se levantou e cobriu-a com uma manta.
Pegou o pequeno Pedro, apagou a luz e saiu do quarto, fechando a porta.
Foi para o quarto do garotinho e lá ficou cuidando do menino a noite inteira.

2. (N.A.E. — Em O Livro dos Espíritos, no Capítulo IX — perguntas 817 a 882 — falam sobre a igualdade dos direitos do homem e da mulher, sob a visão da Doutrina Espírita).
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:14 am

22 - A BRIGA ENTRE SAMUEL E CRISTIANO

NO DOMINGO, bem cedo, Cristiano terminou de alimentar o pequeno Pedro e o embalava tentando fazê-lo dormir.
— Você quase não nanou esta noite, não é?
Só quer saber de colo.
Danadinho! — conversava com voz meiga, apesar de grave.
O rapaz consultou o relógio e ficou satisfeito por Simone ainda dormir.
Afinal, sabia que ela precisava.
Assim que o garotinho pegou no sono, ele o colocou, cuidadosamente, no berço.
De repente, ouviu um barulho no corredor lateral da casa, depois na edícula.
Preocupado, Cristiano foi até a cozinha e abriu a porta que dava para um quintal, de onde podia ver a edícula.
Surpreendeu-se com o perfil de um homem que abria a porta do cómodo da pequena casa no fundo do quintal.
— Ei?! O que você quer aí?! — gritou Cristiano.
O outro se virou quase tão assustado quanto ele.
— Eu sou o dono desta casa.
Sou eu quem pergunta:
o que você está fazendo aqui?! — tornou em tom rude, parecendo muito insatisfeito.
O rapaz ficou parado à porta da cozinha e Samuel foi ao seu encontro, perguntando com dureza:
— Quem é você?!
— Sou Cristiano.
Não se lembra de mim?
Sem esperar resposta, disse:
— A Simone está dormindo, exausta por cuidar do Pedro dias e noites directo.
Gostaria que você voltasse em outro momento.
— Eu vou entrar e falar com ela!
Cristiano pôs-se à frente da porta, erguendo os ombros, como se estufasse o peito, ficando mais alto do que seu um metro e oitenta, e enfrentou-o com voz firme e grave:
— Não! Aqui você não vai entrar!
A Simone precisa de descanso!
— Quem você pensa que é?! — berrou Samuel.
Macho dela?!!!
Mesmo com um filho doente, ela não se dá ao respeito e já colocou um homem pra dentro de casa!!!
Saia da minha frente!!!
Quando Samuel foi para cima do outro, Cristiano espalmou as mãos em seu peito, empurrando-o com força.
Ele cambaleou e foi a sua direcção novamente, disposto a brigar.
Nesse instante, a voz de Simone soou firme:
— Parem com isso!!! O que está acontecendo aqui?!
— Sua ordinária! Deixei esta casa com tudo porque estava com dó de você e do menino!
Agora vejo que não demorou nada para pôr um safado na sua cama!
Ordinária! Sem-vergonha!
— Veja como fala com ela! — berrou Cristiano partindo para cima do outro.
Simone o agarrou pela camisa, inibindo-o e gritou:
— Fique quieto, Cristiano!
E cale a boca, Samuel!
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:14 am

Você não sabe o que está falando!
Aliás, você é quem é um ordinário, covarde que deveria me ajudar a cuidar do Pedro, pois esse filho não é só meu!
Faz mais de três meses que não sei o que é ter uma noite de sono!
Esta noite foi a primeira que consegui dormir bem e você vem aqui para me perturbar.
Não sabe o que é cuidar do seu filho, levá-lo aos médicos, hospitais, cuidar da febre, das infecções, dar remédios, alimentá-lo!!!
Você não sabe nada disso!!!
Nunca o alimentou nem viu como é! É desesperador só de ver!!!
Não sabe e nunca viu trocar uma fralda do seu filho!!!
Me abandonou grávida, nos primeiros meses de gestação, porque não aguentou a pressão!!!
Correu para os braços de uma vagabunda e tão ordinária quanto você, que só quer coisa fácil!!!
Ontem eu estava exausta como nunca!
Não disse nada para ninguém, mas eu estava passando mal de tanto cansaço.
O Cristiano alimentou o seu filho, trocou as fraldas dele e o fez dormir.
Eu adormeci. Nem sei como foi essa noite!
Se conheço bem o seu filho, ele não deixou o Cristiano pregar os olhos!!!
Foi a primeira noite de sono e sossego que tive e não foi graças a você, pai do Pedro!
No entanto, acordo com sua ignorância, suas exigências!...
Quem é você para exigir alguma coisa de mim?!
Quem é que pensa que é para exigir alguma coisa do homem que cuidou do seu filho?!
Que levou o seu filho ao médico e hospitais por várias vezes?!
Onde estava quando precisamos de você?!
Agora quer exigir o quê?!
Quer entrar nesta casa para quê?!
Precisa ser mais perverso e impiedoso do que já foi?!
O silêncio foi absoluto.
Ainda indignada, gritou:
— Vamos! Entre! Eu deixo!
Vamos lá dentro ver o seu filho!
Me ajude a trocar a fraldinha e alimentá-lo.
Vendo-o parado, exigiu num berro:
— Entre!!!
Novo silêncio até que Samuel, sem jeito, disse:
— Eu vim aqui para levar aqueles meus livros que você disse ter colocado aqui na edícula.
Não quero incomodá-la.
— Você não me incomoda. Você me enoja — disse virando-se.
Ao entrar, chamou:
— Vem, Cristiano.
Fechando a porta para não ver a movimentação no quintal, sentou-se à mesa da cozinha onde apoiou os cotovelos e segurou o rosto com as mãos.
Cristiano ia afagar-lhe as costas quando Pedro chorou.
Simone se levantou, foi até o quarto, pegou o filho e o levou até o quintal.
Encontrando o marido, que saía da edícula com uma caixa nas mãos, ela aproximou-se e disse:
— Veja, filhinho, este é seu pai.
Só assim para conhecê-lo pessoalmente.
Quando ele te viu, foi por trás de um vidro no hospital.
Samuel olhou a criança por alguns segundos, virou o rosto, lentamente, e despediu-se:
— Preciso ir.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:14 am

E saiu sem olhar para trás.
Insatisfeito com o que acontecia, Cristiano foi até ela e pediu:
— Dê-me ele. Está frio aqui fora para o Pedro.
Entregando o filho nos braços do rapaz, entraram.
Sentando-se à mesa, novamente, Simone abaixou a cabeça e quietou-se, parecia arrependida de ter levado o filho para Samuel o ver.
Extenuada, esvaída de forças, murmurou:
— O desprezo, o mau trato emocional é pior do que qualquer dor física.
— É difícil acreditar que existam pessoas tão egoístas e insensíveis assim.
Mas... Não deveria tê-lo levado para ele ver.
Ela não disse nada.
Cristiano, encostando o rosto no menino, cheirou-o e reclamou brincando com voz engraçada:
— Eeeeh!... O Pedrinho fez caquinha!
Agora precisa de um banho!
Um banho bem gostoso!
Todo o ocorrido foi o bastante para amargurar Simone que, silenciosa, preparou o banho para o filho, vencendo as dificuldades dos pensamentos tristes.
Muitas vezes, ela se via aflita, fraca e impotente, mas seguia forçando-se e fazendo de tudo para oferecer o melhor para o filho.
* * *
Naquela tarde opaca e fria, o senhor Salvador secava as louças que dona Celeste havia lavado após o almoço.
Rúbia ficou surpresa com a atitude do pai, mas nada disse.
Apenas sorriu.
Não demorou e o senhor quis saber:
— Vocês sabiam que o Cristiano era irmão do Davi, não sabiam?
— Sabíamos sim, Salvador — respondeu a esposa.
— E por que não me contaram?
— Não vi necessidade e creio que isso não mudaria nada a sua opinião a respeito do Cristiano nem a respeito da condição do Davi e do seu filho — disse a mulher que, em seguida, comentou:
— Espero que você tenha sido educado quando conversou com o Davi ontem.
Ele é um bom rapaz.
— Para dizer a verdade, pensei em falar um monte de coisa pra ele.
Só não fiz isso por causa do Cristiano.
— Você ia falar o quê? — inquiriu dona Celeste, mas não o deixou responder e perguntou:
— Ia falar que ele é muito educado, gentil, inteligente, trabalhador, respeitoso?
Não podemos reclamar da conduta desse moço, muito menos do nosso filho.
A vida deles não nos pertence.
Aliás, não temos nada a ver com a vida de ninguém.
O senhor ficou pensativo e logo depois questionou:
— E quanto a Simone e o Cristiano?
Esses dois estão tendo algum caso?
Não se largam nos últimos tempos e vi os dois muito juntos ontem lá na cozinha.
— Nossa filha tem o direito de ser feliz.
Não precisa sofrer por tudo o que o Samuel fez.
Se ela e o Cristiano se derem bem, Deus que os abençoe.
— Gosto muito dele.
Em uma situação complicada como a dela, ele está sempre junto, dando apoio, ajudando sem ter qualquer obrigação.
Enquanto o Samuel...
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:15 am

— Chego a ter dó do Samuel — manifestou-se Rúbia, embalando o filho.
— Por quê? Não entendi — perguntou o pai.
— Ele foge das responsabilidades com o filho.
Não ajuda a Simone nem visita o Pedro.
Agora ele pode e consegue fazer isso, porém esquece ou ignora que a vida pode chamá-lo a encarar uma situação igual a do filho e a qual não poderá evitar.
— Isso é praga, filha? — indagou a senhora.
— Não, mãe. Comecei a aprender que o que nós temos que experimentar, ninguém experimenta pela gente.
Podemos fugir de uma responsabilidade, de uma situação, por um breve tempo, só que chegará o dia em que não escaparemos mais.
— Me enganei muito com o Samuel.
— Todo mundo se enganou, Salvador. Todo mundo.
Fico surpresa pelo facto dos pais dele não darem nenhuma orientação, não falarem para ele assumir o que precisa fazer.
— Ele pode não querer mais nada com a Simone, porém deveria respeitá-la e ajudá-la no que fosse preciso por todo o tempo que viveram juntos, pelo que construíram.
Dinheiro não é tudo, até porque o que ele está dando não ajuda totalmente com as despesas do Pedro e dela — opinou Rúbia.
— A Simone está passando dificuldade? — quis saber o pai.
— Eu não diria dificuldades. — disse a filha.
É que os gastos são muitos.
Remédios caros, internações...
Tem exames e outros procedimentos que o plano de saúde não cobre e ela precisou pagar por conta própria.
Alguns cuidados com o Pedrinho ela mesma assume, pois tem procedimentos como injecções, sondas... que, se não soubesse por ter feito enfermagem, deveria pagar alguém para fazer.
Ela é muito forte, eu não teria coragem de fazer o que faz.
— Como é o destino — lembrou a mãe —, a Simone fez faculdade de Enfermagem e não gostou.
Não quis ser enfermeira de jeito nenhum.
Depois fez faculdade de Economia, trabalhou naquela firma.
Fez mestrado e foi dar aula.
Um dia, ela disse que fazer Enfermagem foi uma perda de tempo.
Agora, teve uma utilidade sem tamanho.
— É verdade. Eu me lembro disso — disse o pai.
Em seguida, ele observou:
— Quero falar uma coisa para vocês duas.
Podem dizer que sou grosseiro, ignorante, mas eu não faço diferença entre meus dois netos.
— O que quer dizer homem?
Que estou agradando mais a um do que a outro?
— Está sim. Você chega na casa da Simone, dá uma olhadinha no Pedrinho e corre para pegar o Bruno.
Já vi isso várias vezes.
E não estou falando pelo facto da Simone ver e ficar chateada.
Estou falando pelos meninos.
Os dois precisam da nossa atenção e carinho.
— Mas é...
— Não tem mas, Celeste.
Comecei a entender que o Pedro e o Bruno são os netos que Deus deu pra gente amar do mesmo jeito.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:15 am

Sem distinção. Sem preconceito.
A filha arregalou os olhos e concordou:
— O pai tem razão, mãe.
Ontem mesmo, quando a senhora me chamou para vir pra cá, nem perguntou para a Simone se ela queria vir ou se precisava de ajuda.
Ela está cansada por dar tanto duro.
Eu mesma não peguei o Pedrinho no colo desde quando o Bruno nasceu.
— Viu como eu tenho razão?
Ontem quem ficou lá ajudando ela?
Viemos embora e largamos aquela bagunça toda lá.
Nunca vi tanta gente naquela casa — tornou o senhor.
— É mesmo. Agora é que estou me dando conta.
Ficou tanta louça suja... — admitiu a senhora.
— Você só ajudou a Rúbia a pegar algumas coisas.
Pegou o Bruno no colo e veio embora.
Nossa filha, além de toda aquela sujeira e bagunça, teve que cuidar do Pedrinho.
Isso está errado. Nem empregada ela tem mais.
— Vou ligar para ela, depois vou pra lá — decidiu dona Celeste.
Atendida pela filha, a senhora ficou sabendo que o amigo Cláudio
e Cristiano a tinham auxiliado com tudo, inclusive com os cuidados para com o filho.
Simone decidiu não contar que Cristiano havia dormido lá.
Nem disse que Samuel e ele brigaram e precisou interferir.
Disse que estava tudo bem.
Ao terminar a conversa com a filha, dona Celeste voltou e contou:
— O Cláudio e o Cristiano ajudaram a Simone ontem.
O senhor não disse nada.
Reparou que de todos ali, incluindo ele, foi Cláudio, aquele rapaz alegre, com trejeitos que ele não aprovou, que ficou e ajudou sua filha.
Sem dizer nada, ele foi para a sala.
Vendo-se a sós, mãe e filha comentaram:
— O pai está tão mudado, tão diferente. O que deu nele, mãe?
— Acho que foram algumas conversas com o Cristiano.
É interessante como esse moço tem influência sobre seu pai.
O Salvador está bem melhor, mais tolerante.
— Que bom! Ele está reclamando menos, entendendo e aceitando melhor as situações.
Até me chamou para voltar para casa — riu.
Dona Celeste achou graça e comentou a seguir:
— É... Dizem que cachorro velho não aprende truque novo...
Não é o caso do Salvador.
O Cristiano é o anjo de bondade que eu pedi para orientar o Salvador.
Tenho tanto a agradecer a Deus e pedir que Ele abençoe esse rapaz.
Elas sorriram satisfeitas e continuaram conversando.
* * *
Debruçado no guarda-corpo da sacada do apartamento, Davi perdia o olhar ao longe e tinha os pensamentos distantes quando Abner se aproximou, ficou ao lado por algum tempo e só depois perguntou:
— Não está frio para ficar aqui fora?
— Eu já ia entrar quando chegou.
Estava pensando na sua irmã.
— Qual?
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:15 am

Davi sorriu ao dizer:
— Na verdade, pensava nas duas.
Você não achou o Ricardo um pouco interessado na Rúbia?
O outro riu ao concordar:
— Achei sim.
Breve instante e contou:
— Assim que se separou, o Ricardo me disse que não queria mais mulher na vida dele.
Mas acho que ele não vai cumprir o que prometeu — riu.
Você sabia que a ex-mulher dele e o marido estão pensando em se mudar para os Estados Unidos por conta do serviço dele?
— E o Renan?!
— Terá de ir com a mãe.
— Se isso acontecer, o Ricardo morre.
Ele é muito apegado ao filho.
— Seria legal se ele se entendesse com a Rúbia.
Até porque formam um bonito casal.
Em seguida, quis saber:
— E quanto à Simone?
O que estava pensando sobre ela?
— De verdade, não estava pensando.
Sabe que reparo muito nas coisas e...
— E sobre ela e seu irmão?
— O Cris acha que a Simone está com problemas financeiros.
Ele quer ajudar, mas não quer ofender.
— Será que o canalha do Samuel não está ajudando? — revoltou-se Abner, indignado.
— Ajudando, está, mas não o suficiente.
Comecei a desconfiar disso quando ela dispensou a empregada e passou a pedir para levá-la com o nené ao médico, hospital...
— Como não vi isso antes?
Se ela pede para alguém levá-la é porque não tem dinheiro para pagar o táxi.
— Seria bom você, como quem não quer nada, dar uma sondada para saber como vão as coisas.
Ela está vendendo o carro, sabia?
— Não. Vou falar com ela e ajudar no que for possível.
— Faça isso. A Simone merece.
Não demorou e Davi propôs:
— Vamos entrar. Está bem frio.
— Vamos sim.
Que tal fazermos uma pipoca e assistir a um filme?
Aluguei um. Acho que você vai gostar.
— Óptimo. Vou preparar um chocolate quente.
Com esse frio vai cair bem — sorriu.
Abner concordou.
Sobrepôs o braço no ombro do companheiro e entraram.
* * *
Com o passar das semanas, Simone estava desanimada e mais abatida a cada dia.
Seu coração era castigado pela onda de preocupações e dificuldades com o filho.
Pressentia que, fatalmente, a trajectória de vida do pequeno Pedro estava no fim.
Nas últimas semanas, ficou mais tempo internado do que em casa.
Não sabia mais o que fazer.
Mesmo com a venda do carro, não lhe sobrou muito dinheiro, que foi gasto com a internação de Pedro e procedimentos hospitalares.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:16 am

Como se não bastasse, sua ex-sogra a avisou de que Samuel tentava ver a possibilidade de reverter o facto de ela ficar com a casa.
Ele alegava que tinha direito à metade daquele património e que Simone havia colocado outro homem para dentro da residência.
Samuel, sabendo que o filho não estava nada, nada bem, preparava tudo para, assim que o menino viesse a falecer, entrar com novo pedido diante do juiz.
O que fazer agora?
Não sabia dizer se seria possível o ex-marido conseguir do juiz autorização para vender a casa para partilharem o dinheiro.
Afinal, aquele imóvel foi adquirido pelos dois e, na falta de Pedro, seria o correto a fazer.
Entretanto era injusto.
Ela cuidou do filho sozinha.
Ele nunca ajudou em nada.
Apenas pagava uma mísera pensão que mal dava para as fraldas.
Sentando-se no sofá, Simone largou o corpo e fechou os olhos.
Ela não podia ver, porém, na espiritualidade, Vanilson, Vitória, bem como outros amigos espirituais, estavam presentes.
O espírito Vanilson curvou-se e beijou, demoradamente, o rosto de Simone, envolvendo-a com carinhoso abraço.
— Sabia que ela não precisava passar por tudo isso com o Pedro? — perguntou Vitória.
— Eu sei.
As situações que uma pessoa não precisa enfrentar, mas, por amor, por grandiosidade de sua alma evoluída, enfrenta, somam méritos para sua evolução e uma vida melhor.
Toda moral de Jesus se resume no amor, na humildade e na caridade.
Em todos os seus ensinamentos o Mestre sempre apontou essas três virtudes como sendo as que levam alguém para a felicidade.
Ele pregou bem-aventurança aos misericordiosos, pediu para amar ao próximo como a si mesmo e combateu o orgulho e o egoísmo.
— Eu fiz tudo errado.
Tanto no passado quanto na recente encarnação. Agora reconheço.
Mesmo com todo o conhecimento que adquiri no espiritismo sobre amar ao próximo, não admiti que não respeitar os sentimentos e a opinião do próximo, é falta de amor, caridade e humildade.
Ajoelhando-se frente à Simone, colocou as mãos sobre as suas e pediu arrependida:
— Desculpe-me por tudo.
Se você foi infeliz no passado, foi por minha culpa.
Não fique triste pelo seu filhinho.
Ele está muito bem por tê-la como mãe, mesmo dentro das actuais condições.
Seja forte, pois tudo isso vai passar.
Nesse instante, Simone respirou fundo, abriu os olhos e murmurou:
— Deus... Dai-me forças...
Amigos espirituais impuseram as mãos sobre ela e começaram a lhe ceder energias revigorantes e fortificantes através do passe espiritual.
Minutos passaram e o telefone tocou, mas antes de Simone atendê-lo, Vanilson e Vitória se despediram dela com um beijo.
Ao atender, Simone titubeou:
— Ir hoje ao centro? Não sei...
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 18, 2017 9:16 am

Diante da insistência de dona Janaina, ela aceitou:
— Tudo bem. Vou sim.
Vocês passam aqui para me pegar? — diante do sim, respondeu — Óptimo!
Animou-se, foi tomar um banho e se arrumar.
* * *
Assim que retornaram para a casa de dona Janaina, lugar que lhes servia de amparo, o espírito Vanilson virou-se para Vitória e perguntou:
— Tudo bem com você?
— Estou triste por ter sido uma pessoa nada flexível.
Nada humilde. É difícil descobrir isso.
— O mal da humanidade é o orgulho, o egoísmo, a vaidade e esses males só existem quando não há humildade.
Vitória, é bom saber que temos um Deus bom, justo e misericordioso, que nos dá quantas chances precisamos para evoluirmos e sermos verdadeiramente felizes.
Um momento e revelou:
— Hoje preciso ir.
Devo reencarnar em breve para prosseguir em minha jornada evolutiva.
Preciso continuar de onde parei.
— Reencarnar?! Será que é o que estou pensando?
Será filho de Simone e Cristiano?
— Devemos prosseguir de onde paramos — sorriu satisfeito.
— Vai me deixar aqui? — perguntou com tristeza.
Ele sorriu largamente e convidou:
— Se quiser vir comigo...
Creio que já está preparada.
— Posso?! Será que posso ir para uma colónia?!
— Essa deve ser sua próxima etapa, filha — disse o espírito João, aproximando-se.
Quando a criatura reconhece suas falhas, seus erros e deseja, de todo o coração, mudar e melhorar, as condições de renovação aparecem.
É chegada sua hora de crescer — sorriu, estendendo-lhe os braços e convidando-a para um abraço fraterno.
Vitória o envolveu com força e muito carinho.
Não demorou e seguiram para uma colónia espiritual.
* * *
Assim que pegaram Simone para que fossem ao centro espírita, Cristiano e dona Janaina se animaram em contar:
— Temos uma surpresa! — anunciou o rapaz.
— Que seja boa, por favor — pediu ela sorrindo.
— O Cristiano chamou seu pai para ir ao centro espírita e ele aceitou — contou a senhora.
— Meu pai?!
Num centro espírita?! — assombrou-se.
— Não acredito.
Meu pai não vai nem à igreja católica quando minha mãe convida.
E olha que ela insiste! — riu.
— Pois acredite.
Estamos indo pegá-lo — disse o rapaz.
E logo contou:
— O senhor Salvador apareceu hoje lá na clínica, como quem não quer nada.
Eu disse que não poderia conversar, a não ser que ele esperasse eu atender um paciente que aguardava.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:25 am

Ele esperou e depois conversamos. Não muito.
— O que ele queria?
— A verdade é que a condição do Pedro ainda mexe com ele que quer saber por que alguém nasce como ele e outro nasce perfeito.
Já falamos sobre isso, mas acho que não foi o suficiente.
Ele tem dúvidas e ideias iguais a muita gente.
Conversamos sobre a evolução dos espíritos e as necessidades de um nascer de um jeito e outro de outro.
E para conversar sobre isso não dá para não falar sobre a Doutrina Espírita e sobre reencarnação.
— Nossa!... Mesmo sem fazer nada, o Pedro faz tanta coisa — disse Simone, mas não continuou, sua voz embargou.
— Viu, filha, todos nós temos importante tarefa nesta vida.
Não existimos por acaso.
Você foi a nossa casa para se distrair e nos conhecer, no começo da gravidez, pois estava impressionada, sentida com a condição do seu filho.
Logo nos conheceu por causa dele — sorriu.
— Quando falou sobre a síndrome que ele tinha, o Cris disse que conhecia e ficou interessada em saber mais.
Por causa disso, o Cris foi à instituição com você.
Venceu dificuldades, dirigiu por sua causa, voltou a atender os pacientes.
— Se não fosse pela condição do Pedro, eu também nunca iria conhecer, de verdade, meu ex-marido.
— Nem ia se entender comigo, não é? — disse o rapaz com generoso sorriso.
— É... — sorriu encabulada.
— Viu como ele foi importante na vida de muita gente?
Até na vida de seu pai! — disse a senhora, sorrindo — Falando nele, como está?
— Fui vê-lo hoje cedo.
Está na mesma: com medicamentos e soro.
— Uma dor apertou seu coração e Simone se calou.
Ninguém disse mais nada até chegarem frente à residência do senhor Salvador, que já os esperava no portão.
O homem estava animado.
Seus olhos brilhavam e parecia ansioso por conhecimentos da doutrina que lhe causou curiosidade.
Depois de cumprimentar a todos, foi apresentado à dona Janaina e admirou-se:
— Foi pontual, Cristiano!
Gosto de gente assim.
— É bom sermos pontuais.
Mostra nossa disciplina.
Nem sempre isso é possível e precisamos ser tolerantes e compreensivos quando acontece.
Voltando-se para a filha, quis saber sobre o neto.
Após as explicações de Simone, perguntou:
— E lá na faculdade, filha?
Como está sua situação?
— Complicada.
Não posso voltar a dar aula com o Pedro assim.
A licença-maternidade acabou.
Porém tenho direito à licença para prestar assistência ao meu filho, por ele ser deficiente, durante um período de seis meses, prorrogável até quatro anos.
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Ave sem Ninho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:25 am

— Se tivesse um jeito de sua mãe e eu olhar o Pedro para você voltar.
— Eu sei que não podem, pai. Não tem como.
O senhor a olhou com piedade e afagou-lhe o ombro.
Era difícil vê-la naquela situação e não conseguir ajudar.
Ao chegarem à casa espírita, animaram-se um pouco mais, cumprimentaram os conhecidos e apresentaram o senhor Salvador.
A palestra foi excelente e o tema não poderia ser melhor:
Bem--aventurados os que são brandos e pacíficos; amai ao próximo como a ti mesmo.
O palestrante foi muito bem envolvido pelo plano espiritual.
O tema incluiu problemas atuais como bullying, preconceito racial, preconceito por orientação sexual, apelidos ofensivos, piadas de mau gosto, brincadeiras cruéis que provocam sentimentos de imensa dor moral e prejuízos extremamente tristes.
O palestrante falou sobre a importância de ensinar as crianças, desde cedo, a respeitarem os outros, seja ele quem for e dizer não a qualquer sentimento preconceituoso, pois a falta de orientação dos pais na formação dos filhos, faz adolescentes rebeldes, agressivos e adultos infelizes e cruéis.
Aquele que é satisfeito e feliz é tolerante e sabe respeitar os outros.
Lembrou que quem age com o bem, recebe o bem e aquele que age com o mal, recebe o mal.
Por isso pode-se afirmar que a felicidade não é questão de destino, é questão de escolha.
No final, o senhor Salvador ficou muito pensativo.
Ao se ver longe dos demais, ele perguntou à dona Janaina:
— Como a senhora perdoou seu filho, o Davi?
— Não precisei perdoar Davi.
Amo meu filho — falou com simplicidade e ternura na voz doce e tranquila.
Aproveitando a distância de Simone e Cristiano, desabafou:
— É que é difícil pra mim aceitar. Não consigo entender e esse sentimento me maltrata.
Chego a ter dor no coração por estar revoltado.
É uma angústia que não sei explicar.
Quero entender e arrancar isso de mim.
— Senhor Salvador, acho que toda essa angústia, toda essa dor não é porque o senhor não perdoa ao seu filho.
É porque o agrediu e não conversa mais com ele.
Não importa o que ele seja nem em qual condição vive.
Ame seu filho e mostre isso a ele.
Procure o Abner e converse com ele.
Não precisa pedir desculpas.
Esqueça o passado e viva como se nada tivesse acontecido.
Ele vai entender e seu coração ficará mais leve.
— Acho que nunca vou conseguir fazer isso.
— Vai sim. O senhor tem um coração bom, cheio de amor.
Por ter tanto amor sente essa angústia por não conversar mais com ele.
O senhor pode não entender, pode não concordar, mas pode aceitar a condição de nossos filhos e respeitá-los.
— Como posso fazer isso?
— Não criticando. Não brigando.
Não virando a cara.
Não precisa aceitar e levantar bandeira de apoio, afirmando que eles estão certos e que o mundo deve ser assim.
É preciso tratá-los normalmente sem recriminar, sem ofender.
Esse será um grande passo.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:25 am

A convivência acaba com o preconceito, alivia o coração e faz todos mais felizes.
Pense em uma coisa: esses são os filhos que Deus nos confiou.
Cabe-nos não desapontar o Criador nem a nossa consciência ou teremos de nos harmonizar com toda a dor e intolerância que provocarmos.
O assunto encerrou quando Simone e Cristiano se aproximaram.
Os pais repararam que o rapaz sobrepunha o braço nos ombros de Simone, mas não disseram nada.
— Gostou da palestra, pai?
— Gostei sim.
Quero vir aqui de novo. Posso?
— Lógico! Que bom.
Fico feliz que tenha gostado — alegrou-se Cristiano.
— Então vamos.
Amanhã temos de levantar cedo — pediu Simone satisfeita com seu pai.
Todos concordaram e se foram.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:26 am

23 - O ADEUS A PEDRO

RÚBIA DECIDIU ficar alguns dias na casa de seus pais com o pequeno Bruno.
Daria menos preocupação para sua irmã.
Além disso, pensou nas despesas que Simone estava tendo.
Ela soube que, com jeitinho, Abner a estava ajudando financeiramente e isso a deixava mais tranquila.
Com passar dos dias, em casa de sua mãe, Rúbia recebeu a visita de Talita, sua amiga, e ficou muito feliz ao vê-la.
— Ai, que bom você ter vindo.
Pensei que tivesse esquecido de mim.
— Ah... Não reclama. Eu te liguei.
Só achei que não deveria vir logo nos primeiros dias.
Sei lá... Sempre se tem muita gente visitando e a casa fica cheia.
Isso é cansativo para a mãe, o bebé e quem ajuda.
Um instante e perguntou:
— E aí? Como você está?
— Óptima. Apesar de não saber o que é uma noite inteira de sono — sorriu.
É gratificante pegar aquela coisinha linda e saber que fui eu que fiz — riu gostoso.
— Será que ele vai dormir muito? Quero tanto pegá-lo.
— Daqui a pouco o Bruno vai acordar para mamar.
É um reloginho!
Ele está tão esperto. Tem que ver.
— E aí? Já decidiu se vai voltar a trabalhar lá quando sua licença-maternidade acabar?
— Acho que serei demitida.
Mesmo se não for, não tenho coragem de voltar.
Estou de cabeça quente.
Preciso arrumar outro emprego.
Agora tenho o Bruno.
— O que vai fazer?
Arranjar uma escolinha com maternal?
— Será o ideal se eu tiver um emprego e tiver como pagar.
O que recebo está sumindo com fraudas, roupas, produtos para ele...
Não me dei ao luxo de comprar sequer um creme para o rosto.
— Filho é assim mesmo.
— E eu que sempre reclamei das pessoas que não planejavam um filho.
Ai, Talita, paguei minha língua — riu engraçado.
— Nada é por acaso. Tudo tem jeito.
Ainda bem que tem uma família que te apoia.
Mudando de assunto, perguntou:
— E o Geferson? Você o avisou?
— Não. Certamente ele deve saber que o Bruno nasceu, por causa da data.
— Eu não ia te contar nada, mas...
Tem uma estagiária lá e ele estava de caso com ela, mas...
— Enquanto tiver mulher que goste de se iludir, o Geferson terá chance de se dar bem.
Dele quero distância — disse, interrompendo-a.
— Não seria o caso de você exigir pensão?
Dar uma lição no cara.
— Já pensei nisso como te falei.
Mas não quero meu filho exposto a esse sujeito.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:26 am

E se ele quiser ter direito a visitas, passeios...
Não! Isso eu não iria admitir.
Tem muito pai e madrasta por aí jogando filho pela janela, espetando criança com agulhas, fazendo um monte de maus-tratos.
Vejo que ele não é uma pessoa confiável.
Nem ele nem a mulher.
— Vendo por esse lado, você tem razão.
— Sei que a situação será bem difícil, contudo devo assumir a responsabilidade.
Não vou tentar dividir a tarefa de criar um filho com alguém em quem não confio, não tem carácter nem boa índole.
Sabe lá Deus o que essa criatura será capaz de fazer.
— Como eu ia te contando...
O Geferson estava dando em cima da nova estagiária e o caso não foi pra frente.
Ele não está bem de saúde.
— O que ele tem?
— Descobriu um tumor de próstata.
Vai ter que fazer quimio antes de operar.
Ele está afastado.
Desde que soube, parece que envelheceu trinta anos em um mês.
— Nossa... — admirou-se sem se exaltar.
Depois confessou:
— Quer saber a verdade?
Não estou sentindo nada.
Nem dó nem felicidade por ele estar assim.
Nem sei o que pensar.
— Ele usou a energia sexual erroneamente.
Envolveu-se com muitas mulheres.
Desgastou-se espiritualmente, desequilibrou e danificou, energeticamente, a área espiritual em torno dos órgãos sexuais.
Só podia dar nisso, ou nesta ou na próxima encarnação.
— Dou graças a Deus eu não ter pegado nenhum vírus, nenhuma doença.
Enquanto meus exames não ficaram prontos, no começo da gravidez, não fiquei sossegada.
— Pensando bem, acho que o melhor é você esquecer definitivamente esse cara.
— Já esqueci.
— Então vamos falar de coisas boas! — animou-se Talita.
Nesse momento, Bruno resmungou mostrando-se acordado.
Rúbia se levantou, pegou-o no colo e o apresentou para a amiga
que logo quis pegá-lo também.
A visita de Talita foi tranquila e deixou a amiga animada.
* * *
As semanas foram passando.
Mergulhada em pensamentos tempestuosos, Simone aguardava sentada em uma poltrona na sala de espera gelada do hospital.
Com olhar perdido no chão, sentia-se exaurida de forças por tanto trabalho e pela inquietação que a dominava.
Estava frio e seu corpo gelado. Havia passado a noite ali.
Eram quase sete horas da manhã quando Cristiano chegou circunvagando o olhar a sua procura.
Assim que a encontrou, aproximou-se rapidamente.
Ao vê-lo, ela se levantou, parando à sua frente.
Afagando-lhe o braço, sentiu sua pele gélida.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:26 am

Enquanto tirava sua jaqueta e lhe dava para vestir, comentou:
— Vim o quanto antes.
Por que não me chamou ontem à noite?
— Sinto-me mal por incomodar tanto você e os outros.
Em seu semblante doce a testa estava franzida.
Em sua expressão de cansaço era nítida sua preocupação.
Recostando-se no peito de Cristiano, envolveu-o pela cintura, apertando-o.
Ele a abraçou com carinho, beijou-lhe o alto da cabeça e acarinhou-lhe as costas.
Não demorou e perguntou:
— O que o médico disse?
Sob o efeito de uma expressão triste e apreensiva, Simone o encarou e murmurou:
— Que ele não está nada bem. Não suportou.
Seu rosto se contorceu e chorou.
Chorou um pranto dolorido, abafado.
Cristiano a agasalhou em seu peito, acariciando-lhe os cabelos e não disse nada.
Não havia o que dizer.
Procurou ser forte para passar-lhe segurança, mas não conseguiu.
E, sem que ela visse, chorou junto.
Alguns minutos se passaram e Simone se afastou.
Ele secou o rosto com as mãos, suspirou fundo e perguntou:
— Quer um café ou água? Vou buscar.
— Para mim, não. Obrigada — sentou-se.
Naquele instante, Simone olhou para o lado e viu, caminhando lentamente em sua direcção, o doutor Natanael, médico que cuidava de seu filho.
Um frio percorreu-lhe a alma.
Ficando em pé, aguardou a aproximação do médico.
Seus olhos se atraíram de modo impressionantemente tristes.
Ela sabia. Seu coração avisava.
Não era preciso dizer nada.
Mesmo assim, o médico falou baixinho, em um tom grave e solene:
— Sinto muito.
Procurando socorrer-se em Cristiano, ela o abraçou escondendo seu rosto.
Ele a envolveu com carinho, deixando-a chorar o quanto quis.
Agasalhando-a no peito, chorou em silêncio para que ela não visse.
Assim que pôde, Cristiano informou os avós e os tios de Pedro.
Pediu para Rúbia comunicar Samuel e os avós paternos.
Lembrou-se também dos amigos e um avisou ao outro, e compareceram em peso ao velório e ao enterro para serem solidários à amiga e não deixá-la só.
No velório, Simone estava quieta, sentada em uma cadeira.
Em total silêncio.
Ali recebia os pesares e a solidariedade de todos.
Havia bastante gente, muitos colegas de faculdade, amigos da instituição e companheiros do centro espírita que realizaram uma leitura do Evangelho de Jesus, seguida de breve explicação e da prece que Jesus ensinou: Pai Nosso.
Samuel compareceu, entretanto ficou a distância.
Pouco antes do enterro, aproximou-se de Simone, mas nada disse.
Somente trocaram olhares.
Durante o enterro, algumas lágrimas rolaram na face sofrida, pálida e inchada de Simone.
Ela recostou o rosto no peito de Cristiano, que segurava o choro e a abraçava.
No final, caminharam lentamente abraçados até o carro.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:26 am

Simone decidiu ir para sua casa.
Não aceitou o convite de seus pais, nem de Abner ou dona Janaina para ficar com eles.
Disse, educadamente, que gostaria de ficar sozinha.
Somente Cláudio, seu fiel amigo, e Cristiano foram os que a acompanharam, a seu pedido.
Em casa, ela foi para o quarto do filho.
Olhou em volta, reparando em cada detalhe, em cada enfeite, em tudo o que preparou para ele.
Após isso, fechou a porta e foi para a sala.
Sentou-se no sofá e cerrou os olhos.
Cláudio ajoelhou-se ao seu lado e foi lhe tirando os sapatos, quando ela perguntou com a voz fraca:
— O que está fazendo?
— Qualquer coisa para que se sinta melhor.
Tirou-lhe os calçados, colocou-lhe os chinelos e indagou:
— Não acha melhor tomar um banho?
Seria bom para tirar esse cansaço, essa impregnação de hospital e cemitério.
Não acha, meu bem?
A amiga não respondeu e ele propôs:
— Vamos lá, eu te ajudo a ir até seu quarto.
Tome um banho. Separei uma roupa bem quentinha e confortável para você.
Está lá em cima da sua cama.
O Cris está preparando um chá e acho que uma canja também.
Depois você toma um pouquinho e se deita.
Ela concordou.
Decidiu deixar-se cuidar.
Com a ajuda do amigo, levantou-se e foi tomar banho.
Um pouco depois, chegando ao quarto de Simone e levando uma bandeja, Cristiano viu Cláudio de joelhos sobre a cama, empunhando um secador e terminando de secar os cabelos da amiga.
— Está friozinho e pode fazer mal se ela deitar com esses cabelos molhados — justificou-se ao vê-lo.
— É verdade — concordou o outro.
Em seguida, ao olhá-lo desligar o aparelho, ofereceu:
— Eu trouxe um chá para vocês.
Estou fazendo uma canja, porém ainda não está pronta.
Simone relutou, mas acabou aceitando.
Depois de beber o chá, ela agradeceu aos dois e deitou-se encolhida.
Cláudio a cobriu com uma manta.
Abraçou-a por sobre as cobertas e beijou seu rosto.
* * *
Cristiano achou interessante o carinho e a dedicação do amigo.
Talvez familiares não fizessem o mesmo.
Ao observar o outro se afastar, o namorado se aproximou, beijou-lhe e pediu antes de sair e deixar a porta entreaberta:
— Qualquer coisa, me chama.
Simone não respondeu e ele foi para outro cómodo.
Ao chegar à sala, viu Cláudio sentado no sofá e perguntou:
— Quer mais um pouco de chá?
— Não, Cris. Obrigado.
— Espere um minuto só.
Vou desligar o fogo.
Cristiano foi até a cozinha e voltou em seguida.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:27 am

Servindo-se de uma xícara de chá, ocupou uma poltrona, quase frente ao amigo, e comentou:
— Pensei que os pais da Simone viessem para cá.
— Não pense mal deles.
Eu vi a Simone dizendo que queria ficar sozinha e depois ouvi a dona Celeste dizer que o Bruno estava com febre.
Ela e o senhor Salvador iam levar o menino ao médico junto com a filha.
— Aaaah... Por isso a Rúbia foi e voltou logo.
Nem tive tempo de conversar com ela.
— Você viu?
O Samuel estava lá e teve a coragem de levar a outra.
— Vi. Ainda bem que ele não ousou abrir a boca.
Estou engasgado com esse sujeito.
— Conheci, ou melhor, pensei que conhecia o Samuel.
Já faz muitos anos.
Não imaginava que ele faria uma coisa dessas.
Rejeitar o filho desde a gestação!
Que absurdo! Ainda bem que Deus colocou você na vida dos dois para ampará-los e ficar ao lado deles fazendo o papel de pai e companheiro.
Sua presença foi muito importante para ela e para o Pedro.
Substituiu o pai.
— Não foi essa a intenção.
O que fiz foi de coração.
Um instante e perguntou:
— Você e a Simone são bem próximos.
Vocês se conhecem há muito tempo?
— Desde a época de faculdade.
Primeiro ela fez Enfermagem e detestou.
Nem actuou na área.
Não sabia que faria essa faculdade somente para cuidar do filho, ou então, o pobrezinho, talvez, só pudesse ficar no ambiente frio, sem afecto de um hospital.
Depois que terminou Enfermagem, ela já começou o ano fazendo Economia.
Foi aí que nos conhecemos.
Mas não éramos amigos.
Ela deveria me achar muito espalhafatoso — riu.
Quando terminamos o curso, fomos directo fazer mestrado.
Terminamos e fomos convidados para dar aula.
Aceitamos e...
Só depois de um tempo surgiu a amizade.
Contudo, parece que nos conhecemos há anos.
— Ela sempre falou de você.
— E de você também.
Cristiano ficou atento e Cláudio continuou:
— Olha, Cris, eu te conheço bem pouco, porém o suficiente para ver que é um cara legal.
Faço votos que vocês dois se dêem muito bem.
Seja sempre honesto e verdadeiro.
Siga os seus sentimentos.
Breve pausa e prosseguiu:
— Posso parecer meio intrometido, mas...
Não dê importância ao que os outros pensam ou digam.
— Como assim?
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:27 am

— Aaaah... Podem dizer coisas do tipo:
ela é mais velha, é divorciada, teve um filho...
Sei lá mais o quê.
Lembre-se de que o importante é a partir de agora.
Vocês dois se amam, respeitam-se e isso é o que basta.
Não ligue para a opinião de ninguém.
Sejam honestos um com o outro.
Riu de um jeito engraçado e ainda disse:
— E contem comigo!
— Obrigado, Cláudio.
Foi importante o que me disse.
Sabe, já chegou a passar pela minha cabeça, no início, assim que comecei a me sentir atraído por ela, o facto de eu ser solteiro, sem qualquer empecilho...
Tenho uma profissão.
Gosto do que faço e, hoje, não tenho qualquer problema.
No entanto, eu me deixo envolver por uma mulher divorciada.
Fiquei ajudando a tomar conta do filho em vez de sair, de me divertir, aproveitar a vida...
Até o facto de me defrontar e me indispor com o Samuel aconteceu.
Cheguei a pensar que eu não precisava disso.
Mas não consegui me afastar dela nem do Pedro e, consequentemente, da situação que os envolvia.
Eu bem que poderia procurar outra sem compromisso e...
— Sair atrás de descompromissada, na sua idade e com a sua situação financeira, com um futuro garantido...
Querido! Você só iria encontrar mulher interesseira.
Pronta para dar o golpe a fim de se estabilizar.
Uma mulher madura, de cabeça feita, que tem profissão é a melhor coisa.
— Acho que aqueles pensamentos vinham a minha cabeça por factores obsessivos, espirituais, pois essas ideias passavam quando estávamos juntos.
Em seguida, contou:
— Pensei que fôssemos encontrar problemas com a nossa família, mas até agora...
Somente minha mãe me alertou sobre algumas coisas, mas não se alongou.
— Família é fogo!
— Você não tem contacto com sua família?
— Não. Ninguém quer me ver nem pintado!
Só vão se interessar por mim se eu ganhar um prémio acumulado na loteria — riu.
— E sozinho? Não tem ninguém?
— Morando comigo, não.
Actualmente, nem namorado tenho.
Depois que minha vozinha morreu, eu me mudei da casa dela e arrumei um lugar só pra mim.
Graças a Deus, amigos não me faltam.
Por isso não me sinto só.
Cristiano olhou pela janela e consultou o relógio.
Depois disse:
— Eu fiz uma canja para nós, só que preciso tomar um banho.
— Fique à vontade. Se ela acordar...
— Não. Não vou tomar banho.
Não tenho roupa limpa aqui.
Preciso ir até minha casa.
Você poderia ficar aqui?
Prometo que volto logo.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:27 am

— Vá tranquilo.
Eu tomo conta da Simone.
Assim foi feito.
Cristiano se foi.
Quando voltou, Simone já havia se levantado.
Cláudio colocou a mesa para jantarem e ela, a custo de muita insistência, alimentou-se um pouco.
Após o jantar, o amigo se despediu e se foi.
Abner telefonou para saber como estava a irmã.
Bem mais tarde, dona Celeste fez o mesmo para saber da filha e conversaram um pouco.
Cristiano decidiu ficar ali.
Não poderia deixá-la sozinha.
* * *
No dia seguinte, quando Cristiano precisou ir para a clínica e Simone se viu sozinha, foi o pior momento.
Não tinha o filho para cuidar nem precisava ir ao hospital.
Um vazio tomou conta de seu ser e uma tristeza calou sua alma.
Sabia que o filho tinha problemas sérios de saúde.
Estava consciente de suas dificuldades, mas se apegou a ele.
Dedicou-se o quanto pôde e foi a melhor mãe enquanto ele viveu.
Agora se sentia só, saboreando uma dor, um assombro, um medo inexplicável e tantos outros sentimentos oriundos da tristeza.
Era capaz de entender que seu filhinho precisava apenas de um, curta estada terrena e a cumpriu.
E ela agora?
Como viver com tamanha ausência?
O que fazer?
Caminhou até o quarto do filho e deu outra olhada.
Sem demora, dirigiu-se até a edícula em seu quintal, encontros algumas caixas e as levou para dentro de casa.
No quarto que foi de Pedro, sob as lágrimas dolorosas que lhe corriam na face pálida, pegava todas as coisas, todas as roupas e brinquedos que havia comprado com tanto carinho e os quais mostrava ao filho brincando e fazendo graça.
E foi encaixotando um a um.
No final, o quarto estava limpo.
Só os móveis sem adorno, sem aí roupas, sem graça, sem vida.
Simone colocou tudo no canto, fechou a janela e a porta e saiu.
* * *
Cristiano a visitava todos os dias e decidiu ficar com ela algumas noites.
O amigo Cláudio, também lhe fez companhia.
Ela ainda recebeu visitas de vários amigos solidários.
Somente Samuel não lhe dava notícias, mas isso não lhe interessava.
O tempo foi passando.
O namorado era capaz de entender sua tristeza pela morte do filho, porém acreditava que ela se fechava muito.
Não queria sair. Falava pouco.
Quase não brincava.
O amigo Cláudio era quem lhe arrancava algum riso.
Certo dia, Simone e Cristiano assistiam à televisão, em uma tarde de sábado, quando o telefone tocou.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:27 am

Ele atendeu e passou o aparelho para ela, dizendo:
— Disseram que é de um hospital.
Querem falar com você.
— Comigo?! — estranhou.
Atendendo, perguntou:
— Quem fala?
Após a pessoa se identificar e dizer do que se tratava, Simone se levantou, fez uma anotação e respondeu:
— Estou indo para aí o quanto antes.
— O que aconteceu?! — preocupou-se ele.
— O Cláudio está no hospital.
Não sabem dizer o motivo.
Ele foi agredido e está bastante machucado.
Sem o celular ou qualquer outra agenda, só se lembrou do número do meu telefone porque era fácil.
— Vamos lá. Vou com você.
Chegando ao hospital, quase não reconheceram o amigo, que estava muito ferido, com o rosto bastante inchado.
Cláudio foi brutalmente agredido por alguns rapazes.
A agressão foi sem motivo, sem razão de ser.
Haviam lhe quebrado alguns ossos da face, onde tinha diversos cortes com pontos.
Quebraram-lhe também o braço, o pé e duas costelas.
Ele mal conseguia falar.
— Por que fizeram isso?
Você brigou ou ofendeu alguém? — perguntou Simone, chocada ao vê-lo.
— Sou só mais uma das centenas de vítimas de homofóbicos, querida — murmurou tentando fazer graça.
— Mas, por quê?! — insistiu ela, indignada.
— E só pelo facto de ele ser homossexual — respondeu o médico na vez do paciente.
Homofóbicos são pessoas com terríveis transtornos emocionais.
Profundos distúrbios psicológicos e, acima de tudo, covardes.
Não passam de criminosos.
Criminosos que continuarão agindo enquanto não tivermos leis mais duras e sérias, sem proteccionismo para os mais abastados.
Esses grupos homofóbicos que agridem homossexuais, normalmente são jovens desocupados, sem base familiar e que precisam rever seus conceitos morais, sociais, espirituais e mentais.
Coisas simples que pais equilibrados lhes dariam.
Só que hoje, normalmente, os pais são omissos e mal informados.
— E verdade — concordou Cristiano.
Quando os pais são irresponsáveis na formação e na educação dos filhos, quando não lhes ensinam limites e respeito aos outros, seus actos, suas acções tornam-se agressivas e bárbaras.
É o momento de as leis, do Estado, das instituições penais fazerem o dever dos pais.
Aí eles choram e se lamentam como se fossem vítimas, quando, na verdade, são os culpados pelos seus filhos serem o que são e fazerem o que fazem.
— Você tem razão — tornou o médico.
Os pais são responsáveis pela frustração e insegurança dos filhos que, sem estrutura, cometem esses crimes.
Só alguém frustrado e inseguro é capaz de atacar alguém por sua condição.
Sem motivo.
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Ave sem Ninho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:28 am

É um absurdo agredir alguém pela sua condição de mendigo, colocar fogo no outro por ser índio, matar por ser deficiente.
Até onde vamos tolerar tanto abuso?
Tanta falta de lei?
— Acho que isso é falta de religião — opinou Simone.
— Não creio.
Têm muitos que se dizem religiosos e são intolerantes com os homossexuais.
Ofendem, agridem e matam até em nome de Deus.
— Estou com muita dor — reclamou Cláudio.
— Vou pedir para lhe preparar uma medicação.
Depois farei a prescrição de analgésicos e já estará liberado.
Aconselho que preste queixa em uma delegacia.
Faça um Boletim de Ocorrência.
Tudo foi feito devidamente e Simone levou Cláudio para sua casa.
Não poderia deixá-lo sozinho em seu apartamento.
Alguém precisava ajudá-lo.
O senhor Salvador não ficou satisfeito quando soube.
Em visita à filha, surpreendeu-se e reclamou sem que o outro visse:
— Você não pode ficar com ele aqui.
— E vou mandá-lo para onde?
Além do que, pai, o Cláudio é meu amigo.
Após o enterro do meu filho, foi ele e o Cris que ficaram comigo e cuidaram de mim.
Não vou abandoná-lo agora. De jeito nenhum.
— E o Cristiano?
O que ele diz de você cuidar de um homem na sua casa?
Simone esboçou um sorriso e questionou:
— Um homem, pai?! Por favor.
O Cláudio é meu amigo. O Cris entende isso.
E assim os dias foram passando.
* * *
Simone perdeu o emprego na faculdade, onde leccionava, por influência de Samuel.
Entretanto, o amigo, que se recuperava em sua casa, fazia contacto com outra universidade a fim de lhe arrumar novo emprego.
O tempo que despendia cuidando de Cláudio, fazia Simone mais activa, sem aquele estado depressivo de antes.
Ela parecia mais animada.
Enquanto isso, Rúbia, havia ficado em casa de seus pais.
Ela estava bastante preocupada com sua situação e conversava a respeito:
— Preciso sair e procurar um emprego.
Desculpe-me abusar da senhora, mãe...
Preciso que olhe o Bruno para mim.
Assim que eu começar a trabalhar, vou colocá-lo em uma escolinha com maternal e tudo vai ficar mais fácil.
— É, filha.
Precisamos ir à igreja pagar aquela promessa que fiz pra você arrumar um emprego.
— Gosto de ir ao centro espírita, mãe.
Estou aprendendo muito com essa doutrina.
Será que preciso mesmo ir pagar essa promessa que a senhora fez?
A mulher a olhou com seriedade e lembrou sabiamente:
— Na minha opinião, filha, Mãe Santíssima não tem religião.
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Ave sem Ninho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:28 am

Nossa Senhora não é católica nem espírita nem nada.
Sei que fui eu que fiz a promessa e eu gostaria muito que você entendesse minha fé e fosse lá comigo.
Isso será uma prova de tolerância da sua parte.
A filha sorriu e concordou:
— E verdade, mãe. Mal não vai fazer.
— E seu pai, hein? Quem diria.
Se deu tão bem lá no centro. Nunca pensei...
— Por que a senhora também não vai mais vezes?
Faz companhia para ele.
— Quando meu coração pede, eu vou.
Você sabe. Gosto de ir à igreja.
Respeito e gosto muito de saber que seu pai encontrou Deus por outro caminho.
Não importa qual seja.
O importante é encontrar o Pai e tê-Lo no nosso coração através das nossas práticas.
Fiquei tão feliz com o Salvador.
Ele mudou tanto e mudou para melhor.
— É verdade. Não importa a nossa religião.
Se temos Deus no coração, somos melhores com o nosso semelhante, com a nossa família, com a nossa comunidade, em nosso trabalho e perante o mundo.
— Nossa, filha! Falou bonito.
Naquele momento, a campainha tocou.
Dona Celeste ficou com o neto e Rúbia foi atender.
Porém o senhor Salvador já havia recebido Ricardo e Eloah, que queriam falar com Rúbia.
— Entrem. Fiquem à vontade — convidou o senhor bem animado.
— Não queremos incomodar.
Seremos breves — afirmou Eloah com jeito firme e voz grave.
Devíamos ter ligado antes.
Não é educado ir à casa de alguém sem avisar, mas não deu tempo.
Estávamos aqui perto e decidimos dar uma passadinha rápida.
Chegando à sala, Rúbia os cumprimentou.
— E o Bruno, como está? — quis saber Ricardo.
— Levado como sempre!
Agora está lá na cozinha com minha mãe.
— Ele está dando muito trabalho? — perguntou Eloah.
— Vem acordando menos à noite.
Isso é muito bom.
De vez em quando, fica resfriadinho, mas não demora muito e volta a ficar bom.
— Isso é comum.
É coisa de criança — tornou a outra.
Em seguida, explicou a razão de sua visita:
— Rúbia, estou aqui pelo seguinte:
o Ricardo comentou comigo sua situação na empresa onde trabalha.
Parece que você não quer mais voltar para lá. É isso?
— É sim. Minha licença já está no fim e preciso de outro emprego o quanto antes.
— É o seguinte:
a empresa onde trabalho está ampliando.
Precisamos de alguém com conhecimento em administração, sua área.
Não é um serviço grandioso nem paga tão bem — riu.
Contudo, é um começo. O que acha?
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:28 am

— Não tenho que achar nada! — sorriu satisfeita.
Querem que eu comece amanhã?!
Eles riram e Eloah disse brincando:
— Não. Pode ser depois de amanhã.
Um momento e explicou:
— As coisas por lá estão se ajeitando.
Em uns vinte dias, precisaremos de alguém com seu perfil, com certeza.
Você havia deixado um currículo com o Ricardo.
Ele me passou e eu levei para o pessoal.
Se concordar, deixo tudo acertado para ir lá para uma entrevista e outros acertos.
Precisará dar baixa em sua carteira de trabalho antes, mas eles vão esperar.
Quem sabe consegue ser demitida e receber os direitos que lhe cabem.
— Lógico que concordo.
Quando quiser, estarei lá.
É só terminar minha licença-maternidade que estarei lá.
Nossa! Obrigada, Eloah! — exclamou levantando-se e abraçando-a.
A outra correspondeu satisfeita e, em seguida, disse:
— Bem... Se não reparar, já vou indo embora.
— Não! É cedo!
Vamos tomar um café — convidou o senhor Salvador.
— Obrigado. Preciso ir mesmo.
Tenho um compromisso agora cedo.
Só se o Ricardo quiser ficar.
Mas eu não posso — explicou-se Eloah.
— Olha... — Ricardo riu.
Sou muito cara de pau e aceito esse café sim.
Dona Celeste chegou à sala trazendo Bruno no colo.
Eloah brincou com o garotinho, depois se despediu e se foi.
Dona Celeste foi à cozinha fazer o café e o senhor Salvador segurou o neto e a acompanhou.
Na sala, Rúbia dizia ainda surpresa:
— Nem acredito no que está acontecendo.
— Assim que a Eloah me contou que você poderia preencher a vaga, decidi te contar para que ficasse mais tranquila.
Vi o quanto estava preocupada em arrumar outro emprego.
— Você nem imagina o quanto.
É um alívio saber que as portas estão se abrindo. Tenho muito que lhe agradecer.
— Ora... O que é isso... — falou sem graça.
— Mudando de assunto...
Como você está, Ricardo?
Estou te achando um pouco quieto, meio triste...
— O dia de o Renan ir com a mãe para os Estados Unidos está próximo.
Isso está acabando comigo.
— Puxa... Lamento muito.
— Estou me sentindo péssimo.
— Posso imaginar.
Se alguém tirasse o meu filho de mim, eu morreria.
— Estou me enterrando no trabalho para não pensar nisso.
Tenho medo de entrar em depressão de novo.
— Não sei o que dizer, mas...
Se precisar conversar, desabafar...
Isso ajuda a se sentir melhor.
O senhor Salvador chegou à sala, chamando-os para o café que estava pronto.
Ricardo e Rúbia se levantaram e foram para a cozinha.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 19, 2017 11:29 am

24 - A VERDADEIRA AMIZADE

Á MEDIDA QUE o tempo passava, Cláudio, mais recuperado, preparava-se para sair da casa de Simone.
Era uma manhã fria e os dois faziam o desjejum quando o amigo falou:
— Pode ficar tranquila.
No próximo semestre, você estará dando aula em um lugar bem melhor.
Tenho certeza de que vai gostar de lá.
É lógico que gente chata tem em todo lugar.
Só que lá o número de pessoas assim é bem menor.
Riram e Simone disse:
— Obrigada, Cláudio.
Não sei como vou lhe agradecer.
— Sou eu que devo a você, amiga.
Se não fosse sua amizade, sua solidariedade...
Eu teria muita dificuldade.
— Amigos de verdade são assim como nós.
Sorriu generosa. Um sorriso tranquilo como há tempo não se via.
Simone estava com uma aparência melhor, mais rosada e saudável.
Ela o encarou sob o efeito de uma expressão doce e bela e comentou:
— Aconteceu tanta coisa em minha vida nos últimos dois anos.
Eu era uma pessoa muito diferente.
Sempre me achei prática, objectiva, directa, moderna...
Entretanto, todas as circunstâncias, toda a movimentação que vivi, mudaram-me profundamente.
Sempre fui o tipo de pessoa que gostava de tudo sob controle, por isso programei, meticulosamente, minha vida, até chegar o momento em que não havia programado e precisei improvisar.
— Improvisar? Não entendi, meu bem.
— Precisei improvisar para viver e sobreviver.
Eu esperava um filho, mas não sabia que ele tinha problemas.
Tomei um baita susto.
Quando pensei que iria receber apoio do meu marido, vi-me sozinha.
Precisei improvisar para não desmoronar, principalmente quando peguei o Samuel com outra.
Foi ali que cheguei ao fundo do poço.
— Chegou ao fundo do poço, mas não ficou lá esperando jogarem terra em cima.
— Arranquei forças da alma para ser mais forte do que nunca e continuar.
Depois que o Pedro nasceu, vieram as preocupações e os cuidados...
— E o Cristiano também veio nessa época.
Ela sorriu lindamente e concordou:
— O Cris foi uma bênção na minha vida.
Foi aquele anjo enviado por Deus.
Suspirou, fez breve pausa e continuou:
— Hoje sou outra pessoa.
Todo aquele desespero, toda aquela angústia me fez alguém diferente.
Não sei explicar...
Dou muito mais valor à vida, às pessoas que estão perto de mim, às amizades...
Foram os amigos verdadeiros que estiveram ao meu lado me apoiando, ajudando-me a me levantar e seguir em frente.
Alguns segundos e prosseguiu:
— Aprendi a viver com as adversidades.
Sei que o futuro será escrito da melhor maneira se eu fizer a minha parte bem-feita.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

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