MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:09 am

Para não vê-la tão concentrada no assunto, Talita perguntou:
— E sua irmã? Como está a gravidez?
— Faz tempo que não vejo a Simone.
Nós nos falamos um pouco por telefone.
Ela dá aula na faculdade.
Nossos horários são incompatíveis.
— Sua mãe não vê a hora da chegada do netinho, não é?
— Nossa! É mesmo!
Todos estamos felizes.
Muito ansiosos.
Ao consultar o relógio, Talita se alarmou:
— Nossa! Já acabou nosso horário de almoço.
— E mesmo. Vamos.
Rúbia sentiu-se bem melhor após a orientação da amiga.
Passou a entender a condição de seu irmão.
* * *
A noite, ao se encontrar com Geferson, Rúbia não conseguiu resistir ao desejo de falar sobre seu irmão e contou.
Após ouvi-la atentamente, o namorado se admirou:
— O Abner?! Não acredito!
— Pois é verdade.
Eu mesma não acreditei, a princípio.
Agora estou me acostumando com a ideia, mas...
— E os sócios dele, sabem?
— Se todos sabem, não sei.
O Ricardo sabe.
Eu liguei para ele, lá na empresa.
— Para o Ricardo?
— Sim, foi. Conversamos um pouco.
Ele me pediu desculpas por ter falado sobre o assunto.
Pensou que eu já soubesse.
— Estou muito surpreso.
Nunca imaginei.
— Nem eu, que sou irmã, desconfiei disso.
— E os seus pais?
— Nem imaginam de algo assim.
Meu pai vai ter um colapso. Nem quero ver.
O sonho do meu pai é que o Abner se case e lhe dê netos.
Meu irmão é o único que pode levar adiante o sobrenome do meu avô.
— Não se envolva.
Deixe seu irmão levar a vida dele.
— E nós a nossa, não é?
— Claro.
— Falando nisso...
— O que tem?
— Você sabe, Geferson.
Não gosto da nossa situação.
— Amor... é por um tempo.
Estou tentando resolver a situação com ela.
Apesar de não termos mais nada, a Cícera está exigente.
Está dificultando o divórcio amigável.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:09 am

— Então saia de lá.
Arrume um apartamento e vá morar longe dela.
— E a minha mãe, Rúbia?
Não posso agir assim.
A dona Zenaide é sensível.
_ Você falou com ela?
_ Estou falando. Aos poucos, claro.
Mostro a ela que não tenho mais um casamento sólido, que ambos estamos insatisfeitos.
— E seus filhos?
— São adolescentes que não ligam muito para o que está acontecendo.
Não param em casa.
O Pedro Henrique estuda pela manhã, faz inglês à tarde e à noite fica na internet.
O João Victor faz cursinho de manhã, estuda à tarde e à noite, quando não sai com os amigos, fica no computador igual ao irmão.
Nos finais de semana vão para a balada e depois passam o dia dormindo. É sempre assim.
— Você deveria arrumar um apartamento, colocar sua mãe e se mudar.
— É nisso que estou trabalhando.
Aproximando-se, beijou-a e pediu:
— Vamos falar de coisa boa agora.
Gosto de estar com você assim...
Só desse jeito.
Com você encontro tranquilidade, paz...
É tão bom ter paz...
Geferson mudou de assunto e Rúbia sentiu-se angustiada.
Mais uma vez ele parecia fugir sobre o que era mais importante conversar.
* * *
Era final de semana quando Abner decidiu ir até a casa de seus pais.
Precisava muito conversar com Rúbia.
Só não imaginava que, naquele dia, sua irmã Simone estaria lá.
Ela havia decidido contar aos pais sobre o problema de saúde do nené que esperava.
Seu marido, Samuel, ainda parecia muito chateado com o facto e se isolava.
Não queria falar no assunto nem contar a seus pais ou aos sogros.
Mesmo assim, ela resolveu que era o momento.
Ao chegar, Simone soube que Abner estava no quarto de Rúbia.
Sentiu-se mais segura, uma vez que o irmão, tão compreensivo e atencioso, encontrava-se lá.
Ele lhe daria apoio.
Resolveu, então, aguardar.
Sabia que ele e a irmã precisavam se acertar.
Quando terminassem, reuniria todos e contaria.
Na sala, em companhia dos pais, Simone esperava, enquanto conversavam.
Dona Celeste, mãe observadora, preocupou-se:
— Você está com uma carinha desanimada, filha.
O que aconteceu?
— Nada, mãe.
— É a empregada outra vez? — tornou a senhora.
Antes que a filha respondesse, o senhor Salvador comentou:
— Essas empregadas não têm jeito mesmo.
Primeiro, chegam dizendo que sabem fazer de tudo.
Querem o emprego de qualquer jeito.
Depois que começam a trabalhar ficam preguiçosas, não limpam nada direito.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:09 am

Quando vamos mostrar o que não fizeram, elas ainda olham feio, resmungam e até respondem com alguma malcriação.
A daqui de casa vive pendurada no telefone celular, falando ou mandando mensagem.
Tá certo que é ela quem paga a conta ou aproveita a promoção da operadora.
Só que enquanto fica no telefone não faz o serviço direito, para de trabalhar, fica enrolando e não presta atenção em nada.
Tudo fica malfeito.
Depois, quando se senta na mesa para comer, não tem um pingo de educação.
É gulosa, enche o prato de mistura, ataca a fruteira e acaba com tudo.
— Salvador! Isso é coisa que se diga? — repreendeu a esposa.
— É sim. E minha casa, é minha comida, são minhas frutas!
Duvido se na casa dela, quando tem fruta e sobremesa, ela deixa à disposição e oferece pra todo mundo acabar com tudo num dia só.
Outra mania que ela tem é de reclamar que está doente.
Cada dia reclama que dói um lugar diferente.
Isso é porque não quer trabalhar.
Quer justificar o serviço malfeito.
Vive saindo cedo por causa disso ou daquilo.
Claro! Ninguém desconta nada.
Mas, se um dia ela trabalha um pouquinho a mais, quer ganhar por isso.
Se faz um servicinho que não é dela, quer receber por ele.
Agora, o que ela ganha de coisa que não faz parte do salário, aaaah!...
Isso ela não vê nem valoriza.
Vejo sua mãe fazendo feira e dando pra ela levar fruta e legumes, quando não, até carne pronta ela leva pra casa.
— Já vi que não dá pra conversar aqui.
Vamos lá pra cozinha, filha.
Vou passar um café.
Ao vê-las levantar, o senhor resmungou:
_ Não se esqueçam de mim!
Enquanto dona Celeste e Simone estavam na cozinha, Abner repreendia Rúbia.
Falava em voz baixa e enfatizava quase sussurrando:
- No que você está se envolvendo?!
O Geferson é casado! Tem filhos já adolescentes!
— Somos amigos — tentou mentir.
— Conversa! Eu vi vocês dois aos beijos.
Então é ele o namorado misterioso?
— Não! Não é!
— Por que, então, não trouxe seu namorado aqui em casa?
Por que não o conheço?
Sempre conheci todos os caras com quem saiu.
— Olha aqui, você não tem nada a ver com minha vida — irritava-se e exclamava num sussurro.
Sou maior e vacinada!
— Você não vê que um cara casado nunca assumirá um compromisso sério?
Só quer passar o tempo, te levar para cama, ter um caso.
Só que na hora de ir dormir todas as noites, é do lado da esposa que ele estará.
Se fosse pro sujeito ter abandonado a mulher e os filhos, já teria feito isso.
Não seria preciso você aparecer na vida dele.
— Ele não vive bem com a mulher.
Estão separados de corpos.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:10 am

— Mentira! Ele está te enrolando!
Caia na real, Rúbia!
Você se sente bem sendo a outra?
Sente-se bem sendo a amante?
A destruidora de um lar?
— Quem é você para falar assim comigo?!
Cuide da sua vida! Vá fazer um tratamento!
Onde já se viu!
Saiu daqui para montar um lar com outro homem!
Isso sim é anormal, é doentio!
— Cuidado com o que está falando! — advertiu firme.
— Se eu tenho alguém na minha vida, é outro homem.
E você? Namorando um homem!
Quer viver maritalmente com um homem!
É nojento! Como é que vai contar isso para o pai e para a mãe?!
Quando terá coragem de dizer aos seus pais que gosta de outro cara?
Que é depravado e nojento?
Nesse instante, ambos notaram um vulto à porta do quarto.
Ao olharem, viram o senhor Salvador em pé, parado e calado, olhando para o filho.
O homem estava rubro e suando.
Sem dizer nada, ele foi na direcção de Abner e o agarrou pela camisa.
Só então gritou, com todas as forças de seus pulmões:
— Desgraçado!!! Seu infeliz!!!
Eu sabia!!! Sabia!!!...
Bem que desconfiei!!!...
Enquanto berrava, agitava-o pela camisa.
Abner, apesar de bem mais alto e mais forte que o pai, não reagiu.
Somente equilibrou-se para não cair.
O senhor Salvador desferiu-lhe dois socos no rosto e o ofendia com inúmeras palavras obscenas.
— Você não é meu filho!!!
Não pode ser!!! Vou te matar, seu!...
Rúbia tentava segurar o pai, mas em vão.
A gritaria atraiu a atenção de dona Celeste e Simone que chegaram ao quarto e, assustadas, tentaram segurar o senhor Salvador que investia sobre o filho, esmurrando-o.
Em meio ao alvoroço, Abner soltou-se, olhou por um instante a cena deplorável, virou-se e se foi.
O senhor Salvador só demonstrou-se mais calmo ao ver o estado nervoso e fragilizado de Simone, que chorava.
Ao lembrar que ela estava grávida, segurou-se, para não continuar com as agressões e gritos.
Acreditou que a filha não merecia enervar-se daquele jeito.
Deixando todas no quarto, ele foi para a sala, mas não encontrou o filho.
Enraivecido, olhou para a esposa que o seguiu e teve um acesso de raiva.
Pegou uma cadeira da sala de jantar, levantou-a acima da cabeça e, violentamente, bateu-a no chão, quebrando-a.
— O que fiz para merecer isso?!! — berrou, parecendo insano.
Aquele desgraçado não pode ser meu filho!!!
Quero que ele morra!!! Morra!!!
Dona Celeste, com lágrimas correndo pela face, não disse nada.
Acreditou que ficando ali alimentaria a raiva do marido.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:10 am

Principalmente se tentasse argumentar alguma coisa.
Sabiamente virou as costas, deixando-o sozinho.
Foi para a cozinha onde se sentou e chorou.
Enquanto isso, Simone e Rúbia permaneciam no quarto.
Mesmo nervosa, Rúbia tentava explicar à irmã:
— Não foi culpa minha. Nós...
Eu estava falando para o Abner que não é certo o que ele faz, o que ele é.
- Falasse em outro lugar!
Você não tem o direito de ofender
nosso irmão!
— Ele é gay!
— E daí?!
— Não é certo!
— Rúbia, a vida é dele.
Sendo gay ou não, o Abner é nosso irmão.
Sempre foi uma pessoa maravilhosa, de coração bom, atencioso, prestativo.
Ele tem inúmeras qualidades.
A identidade sexual dele não me importa.
— Admiro ver você falando desse jeito.
Sempre foi a certinha da família.
— Eu cresci.
— Você gostaria que seu filho fosse gay?
— Aprendi a respeitar a vontade de Deus.
Seja como for o meu filho, ele é o que eu preciso que ele seja.
Se Deus me enviar uma criaturinha com qual dificuldade for, é porque nós dois, eu e meu filho, temos capacidade e evolução humana para lidar com essa prova.
E foi o Abner quem me fez entender isso.
Breve pausa e desfechou:
— Você não tem o direito de ofendê-lo.
Saiba disso. Aliás, ninguém tem.
Visivelmente nervosa e trémula, Simone saiu do quarto e foi à procura de sua mãe.
Encontrando-a sentada na cozinha, afagou-lhe as costas e, em pé, ao seu lado, perguntou com voz gentil e meiga:
— Oooooh, mãe... A senhora está bem?
— Tá tudo bem, filha.
Não se preocupe comigo — disse, afagando-lhe o outro braço e a barriga.
Você não devia estar aqui.
Não pode ficar nervosa... O nené sente tudo.
— Estou triste, mãe. Não estou nervosa.
Preocupada com a senhora e com o pai.
Vendo-a em silêncio, comentou:
— Imagino como a senhora deve estar.
Não é fácil para uma mãe saber que o filho... — deteve as palavras.
— Ele é meu filho — afirmou convicta, secando o rosto com as mãos.
Ninguém vai fazer ou falar nada que magoe o Abner aqui nesta casa.
Não importa o que ele é.
O Abner é meu filho — bateu levemente com a mão direita no próprio peito.
— Que bom a senhora pensar assim. Pensei que...
— Pensou errado, meu bem.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:10 am

Olhando-a nos olhos, confessou:
— Eu sabia, filha. Sabia que seu irmão era diferente.
— A senhora viu alguma coisa no comportamento dele?
— Não exactamente. Jeito de mulher, não — falou com simplicidade.
Notei algo diferente nas amizades, de um tempo para cá.
Um amigo que sempre liga para ele...
Saem sempre... Mas isso não importa.
Ele é meu filho. Foi o que Deus me confiou aos cuidados.
— E quanto ao pai?
— Ele deve ter ido pro bar.
Quando voltar e o fogo passar, vou falar com ele.
Dona Celeste levantou-se, afagou o rosto da filha.
Deu um sorriso forçado e avisou:
— Vou fazer um chá de cidreira.
A gente precisa se acalmar.
Enquanto isso, liga pro seu irmão.
Quero falar com ele e saber como está.
Simone tentou fazer a ligação várias vezes, mas o telefone do apartamento de Abner não era atendido e o celular caía na caixa postal.
Dona Celeste fez o chá e serviu à filha.
Chamou Rúbia e as três permaneceram sentadas à mesa da cozinha, bebericando a bebida fumegante em total silêncio.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:10 am

5 - UM CORAÇÃO CRUEL

ERA NOITE e caía uma chuva fria e fina quando o senhor Salvador recuperou-se, parcialmente, do efeito da bebida alcoólica.
Estava lúcido, mas ainda se sentia tonto e com forte dor de cabeça.
— Toma esse chá — ofereceu-lhe a esposa.
Vai ajudar a melhorar o fígado.
Ele sentou-se na cama, pegou a caneca e tomou poucos goles, devolvendo-a.
— Toma tudo — exigiu a mulher com modos firmes.
— Tá amargo — reclamou.
— Tem gosto melhor do que pinga.
Vamos, toma — disse enérgica.
Segurando a caneca com ambas as mãos, curvou-se e ficou olhando para o chão do quarto.
No momento seguinte, falou desconsolado:
— Eu não posso crer que tenho um filho maricá, sem-vergonha, safado, canalha...
Interrompendo-o, dona Celeste afirmou duramente:
— Eu creio que tenho um marido alcoólatra.
Convivo com isso e não quero.
Isso é coisa que dá pra mudar e você não muda.
Por isso digo que você, sim, é safado e sem-vergonha.
Faz algo que pode parar de fazer.
— Cale a boca!
Olha como fala comigo!
— Olha você, como fala comigo!
Já calei demais minha boca!
— Quem você tá pensando que é?
— Sou sua mulher!
Mãe dos seus filhos.
Eu sou aquela que limpa seus vómitos, lava suas roupas urinadas, faz chazinho e cafezinho para curar suas ressacas!
Estou cansada de ter de cuidar de você com as suas bebedeiras.
Olha seu estado agora!
Quer reclamar do seu filho?
Olha antes quem é e o que faz.
Belo exemplo, belo pai foi e é.
Que moral você tem para ofender seu filho?
Com o exemplo que deu, ele podia ter virado alcoólatra e não virou.
— Mas virou maricá!
Dona Celeste, aproveitando-se do mal-estar, que sabia o marido sentir, empurrou-o forte, impondo-se:
— Cale a sua boca!
Não vou admitir que o xingue!
Você pode ter posto comida dentro de casa, pode ter dado roupa e escola, mas atenção, carinho, amor, compreensão, você nunca deu.
Então, agora, não tem o direito de reclamar do que ele é ou deixa de ser.
— Ele não é meu filho!
Dessa vez, ao ouvir isso, ela o empurrou com tanta força que a caneca de louça soltou-se das mãos do marido e espatifou-se no chão.
Enquanto ele caiu de lado na cama, ela gritou:
— Não me ofenda! Seu palhaço!
O Abner é seu filho e se quiser tem exame que prova.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:11 am

Se disser isso novamente, eu quebro sua cara e te ponho pra fora desta casa!
Cansei! Cansei de cuidar de bêbado sem--vergonha, safado que nem você!
Cale a boca! — gritou.
Senão, você vai ver o que te faço!
A dor de cabeça era intensa e ele passava muito mal.
O senhor Salvador não conseguia reagir.
Ficou confuso e até temeroso com a reacção que a esposa nunca teve.
Mais tarde, por telefone, em seu apartamento, Abner conversava com Simone e ela dizia:
— Eu fui hoje lá para contar para o pai e pra mãe sobre o nené.
_ Puxa... — lamentou.
Desculpe-me. Fui eu quem começou a discussão com a Rúbia.
Querendo que eu parasse de repreendê-la, começou a falar da minha vida.
De certa forma, ela tem razão.
— Nossa irmã não tem o direito de ofendê-lo.
— E eu não tenho o direito de me meter na vida dela.
— O que a Rúbia fez?
— Deixa pra lá. A vida é dela... o problema é dela...
— Caso ela esteja fazendo algo errado, acho que está certo chamar sua atenção.
— Agora, pensando melhor, acho que não é da minha conta, Simone.
— Ah... é sim.
Se ela fizer algo errado e quebrar a cara, a quem vai pedir ajuda?
Para a família, lógico!
Porém, se estiver agindo errado, você alertar e ela disser:
"você não tem nada a ver com a minha vida, na minha vida mando eu", então, quando ela se der mal, você não tem que ajudar.
Sabe, eu penso que se não ouve o meu conselho, não peça minha ajuda.
— É... Mas...
Não podemos ser assim.
A Rúbia está iludida, ou melhor, iludindo-se.
— Iludir-se aos vinte e nove anos?!
Não acha que está um pouquinho madura para isso?
A Rúbia é bem grandinha.
Sabe separar o certo do errado.
— Bem... Vamos deixar isso pra lá.
Quando a poeira baixar, vou falar com ela.
Mudando de assunto, perguntou:
— E o Samuel, não quis ir na casa do pai com você?
— Não. Ele parece muito distante.
Está fugindo do assunto.
Não pára em casa. Vive na universidade...
Passa a maior parte da madrugada no computador ou assistindo a filmes.
Não sei o que fazer.
Ele não me acompanha mais ao médico, não quer saber de mim... — sua voz embargou.
Respirou fundo, recompôs-se e disse:
— Estou sozinha nessa.
Ainda não contei nem para os meus sogros.
— Você não está sozinha.
Eu estou com você, viu?
Quando irá ao médico novamente?
— Na quarta.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:11 am

— A que horas?
— Às... — pensou.
A consulta está marcada para às dez da manhã.
— Na quarta, às nove e meia estarei aí. Vou com você.
— Não, Abner. Você não tem que...
— Ei! Não queira dizer o que tenho ou não de fazer — falou com um tom amigável na voz.
Quero acompanhar minha irmã e meu sobrinho.
E não será você quem vai me impedir, hein!
— Eu agradeço. Estremeço tanto a cada consulta, a cada exame.
— É claro que sim.
Você é humana, tem sentimentos. Não poderia ser diferente.
— Desculpe-me se estou ligando muito.
É que quando converso com você ou com o Cláudio, sinto-me bem melhor.
O Cláudio é meu amigo, não quero perturbá-lo muito.
Você — riu — é meu irmão e posso abusar um pouquinho...
Caso eu esteja incomodando, avise-me.
— Você nunca me incomoda.
Um instante e perguntou:
— Simone, como a mãe está?
Como ela reagiu depois de tudo o que ouviu?
— Ela disse que já sabia.
Disse que não vai admitir que ninguém o ofenda.
Reagiu de um jeito que eu não imaginava, não esperava.
— E a Rúbia? — quis saber ele.
— Ficou completamente calada.
Não disse mais nada a respeito, perto da mãe.
Só aquilo que contei.
Acho que está arrependida por não ser cuidadosa, por ter falado demais.
— Como eu disse, vou deixar a poeira abaixar.
— Deveria ligar para a mãe.
Ela quer falar com você.
O rapaz ficou pensativo depois decidiu:
— Acho que vou ligar mesmo.
Se o pai foi beber, como disse, a essa hora ele está dormindo ou curtindo a ressaca.
É... Vou ligar para ela.
Nesse momento, o interfone tocou.
Abner avisou a irmã, despediu-se e foi atender.
— Pode deixar subir — permitiu ao porteiro e apressou-se até a porta, aguardando apreensivo.
Quando a porta do elevador se abriu, ele expressou-se bem admirado, esboçando um sorriso:
— Mãe! A senhora aqui?!
— Oi, filho.
Eu tinha que vir.
Abraçou-o por algum tempo.
Depois, envolvendo-o pela cintura e ele com o braço sobreposto em seu ombro, entraram.
A senhora sentou-se no sofá, colocou a bolsa de lado e perguntou:
— Você está bem?
Seu pai te machucou?
Abner sentou-se em uma poltrona que ficava quase ao lado do sofá.
Parecia um tanto confuso.
Não esperava aquela visita nem sabia o que conversariam.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 03, 2017 9:11 am

Mesmo assim, respondeu:
— Estou bem, mãe.
Não foi nada.
— Seu rosto está vermelho, seu lábio inchado.
Ela inclinou-se em sua direcção e quis tocá-lo.
Ele pegou generosamente sua mão, beijou-a e segurou um pouco entre as suas, até a mãe recolhê-la.
— Estou bem. Não se preocupe.
Não foi nada.
— Eu vim aqui porque cansei de ligar e...
Primeiro, ninguém atendia.
Fui fazer minhas coisas, cuidar de seu pai...
Sabe como é que ele chega depois que bebe, não é?
Tentei de novo e só deu ocupado e ocupado.
— Eu estava conversando com a Simone.
Ela me ligou assim que cheguei.
Enquanto fiquei fora, dei uma volta para esfriar a cabeça, desliguei o celular.
Desculpe-me se a preocupei.
— Quando deu ocupado, decidi vir.
Decidi não ficar mais esperando.
O rapaz respirou fundo, olhou-a bem e pediu amável:
— Mãe, eu preciso que me desculpe.
Sei o que todo pai e toda mãe esperam de um filho.
Eles o criam como homem, dão-lhe toda a educação baseada no sexo do corpo físico, mas...
No meu caso, não sou o que vocês esperavam.
Tentei, juro que tentei, mas...
Quando eu namorei uma menina, foi algo tão contrário a minha natureza...
Não sei explicar.
Sofri muito, demorei muito para admitir...
Foi e está sendo muito difícil para mim.
Sem qualquer expressão, a mãe o ouvia atentamente.
Ele prosseguiu:
— Imagino como está sendo difícil para o pai, para a senhora...
Será muito triste, muito constrangedor encarar os vizinhos, os parentes e amigos que ficarem sabendo e vierem com brincadeiras ofensivas ou mesmo com ofensas directas.
Foi por isso que eu saí de casa.
Saí de lá por respeito a vocês, que não têm culpa por eu ser o que sou.
Se eu pudesse, iria para bem longe, para os outros não saberem e fazê-los sofrer, passar vergonha por minha causa.
O silêncio reinou absoluto por longos minutos.
Ela o observava fixamente e Abner não sabia mais o que dizer.
Mesmo assim, tentou se explicar:
— Não é culpa do pai nem de ninguém.
Essa condição não é consequência de nenhum trauma.
Eu já pesquisei a respeito.
Conversei com profissionais qualificados na área da saúde mental como psicólogos, médicos psiquiatras...
Procurei resposta em religiões...
— Filho — interrompeu-o —, você acha que Deus é mau?
— Não. Lógico que não.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:29 pm

— Sou bem ignorante, Abner, mas quando não entendo muito bem uma situação, deixo o meu coração me explicar.
Eu entendo que quando você é uma coisa, vive num estado...
Quero dizer...
— Vive uma condição — ajudou-a com as palavras.
— Isso. Quando você vive uma condição, essa condição não é culpa de ninguém.
Se for preciso viver assim, esse estado ou essa condição aconteceu com a permissão de Deus.
Deixe que os ignorantes culpem Deus pelas condições de quem quer que seja, pois é isso o que os preconceituosos fazem.
Quando os preconceituosos xingam, ofendem, discriminam, maltratam alguém por causa da sua condição, eles estão ofendendo e culpando Deus que permitiu alguém nascer desse jeito.
Se xingam, ofendem ou discriminam alguém pela cor, pelo sexo, pela diferença, pela necessidade especial, por ser gordo ou magro, alto ou baixo, essa pessoa preconceituosa terá de se entender com Deus.
Então deixe que os outros falem.
Não se iguale a eles na maldade com palavras.
Não ofenda a eles por serem ignorantes.
Mas também não se rebaixe.
Erga sua cabeça e siga sua vida.
Sou ignorante, filho.
Não sei como falar direito, mas...
Também não agrida nem ofenda as pessoas com o seu jeito de viver.
- Como assim, mãe?
— O mundo está moderno, mas tem coisa que incomoda um pouco, principalmente para alguém da minha idade ou alguém criada como eu.
— O que a senhora quer dizer?
— Outro dia eu estava no shopping e vi um rapaz e uma moça se beijando.
Filho, aquilo não era um beijo, era... era uma relação sexual! — admirou-se.
Apesar de ser um rapaz e uma moça, a cena tava demais.
Fiquei com vergonha.
Se fosse um dos meus filhos, eu chamava a atenção.
Que dê um beijinho, uma bicota.
Até eu já fiz isso em público.
Mas daquele jeito que vi aqueles dois... Tava demais.
Então, se eu ver dois rapazes ou duas moças se beijando, vou ficar chocada.
Penso que a grande maioria das pessoas não estão preparadas para isso.
Por essa razão, eu te peço:
vigie seu comportamento quando estiver em público.
Isso é o que dá motivo para os outros ofenderem pessoas com a sua condição de... de homossexual.
— Hoje em dia, local público onde heterossexuais podem se beijar, é válido também para homossexuais.
Não vou dizer que é comum, porém é fácil vermos homossexuais que namoram ou vivem maritalmente juntos, andando um ao lado do outro, de mãos dadas, fazendo compras em lojas ou supermercados.
— Eu sei. Também já vi muitos.
E confesso que vi muitos bem educados e respeitosos com os outros a sua volta.
Eles pareciam viver como queriam e não incomodavam ninguém.
O que falo a você é o que já falei para suas irmãs.
Olha, antigamente, a mulher era muito reprimida pelos pais, depois pelo marido.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:29 pm

Isso era no meu tempo.
Depois, quando a mulher começou a se sentir mais livre, mais à vontade, muitas ficaram à vontade demais.
Muitas mulheres se vulgarizaram por andar hoje com um, amanhã com outro...
Sei de moças de famílias boas que se prostituíram até para pagar faculdade.
No momento em que vira uma mulher vulgar, fácil, sai até com homem casado, essa moça não presta atenção no que está fazendo.
Mas depois, com o tempo, com os anos, na consciência dela, vai existir o arrependimento, a dor...
Ela vai querer voltar atrás em tudo o que fez e não vai poder.
Isso pode resultar em crise nervosa, depressão, dor na alma e esse monte de transtorno que muitas vivem hoje e com tão pouca idade.
Normalmente, e isso eu falo por experiência de vida, esses casais que vivem se agarrando, se esfregando, dando beijos escandalosos em público...
Esses casais não duram muito. Fazem isso por exibicionismo, para se auto-afirmarem.
Da mesma forma que não é agradável ver um homem e uma mulher se esfregando e se beijando, também não será agradável ver duas mulheres ou dois homens fazendo o mesmo.
Pelo menos é o que eu acho.
O mundo ainda não entende o que é homossexual e ficará mais difícil de entender se essas pessoas se impuserem desrespeitosamente.
— Entendi o que a senhora quer dizer.
Mas não precisava me orientar sobre isso.
Eu não tenho o desejo de me expor.
Não dessa forma.
Não vou negar que sou gay.
Já sofri muito por negar o que sou.
No entanto, não quero impor minha homossexualidade aos outros.
— Sabe, filho, às vezes, quando vejo aquela parada gay e muitos rapazes mostrando o corpo e se expondo tanto, penso que não é diferente daquelas mulheres que se expõem nuas ou seminuas nos desfiles de carnaval.
A mim, choca um pouco, tanto um quanto o outro.
Não sei dizer se tá certo ou errado.
Para mim é desnecessário fazerem aquilo.
Acho que é isso que revolta algumas pessoas.
Já vi muitos rapazes com aquele jeito de moça, com aquelas falas delicadas, usando pintura, tirando sobrancelhas...
Isso é mais comum, aceitável, uma vez que cada um se veste e se arruma como quer.
Mas naqueles desfiles de parada gay, com gente nua ou no carnaval com aquela mulherada nua...
Ah!... Isso eu não aprovo.
— Não me lembro de ter visto gente nua em parada gay.
No carnaval, é mais comum.
Mãe, eu acredito que a parada gay é uma forma de pedirem seus direitos e aceitação.
Com isso, as pessoas se conscientizam de que existe homossexualismo, que essas pessoas são gente e têm seus direitos como todos.
Já foi o tempo em que o homossexual precisava ir para a fogueira, morrer em campos de concentração, no holocausto.
Até a década de setenta, os psiquiatras consideravam a homossexualidade uma doença mental.
Só no início dos anos noventa que a OMS — Organização Mundial da Saúde — retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:29 pm

Foi uma vitória, mas tudo ainda é bem recente e tem muita gente mal informada.
Acham que o homossexual precisa de tratamento.
Hoje se sabe que não é doença mental, não é transtorno psicológico.
Inclusive, por lei, é proibida a tentativa de curar alguém de sua homossexualidade por parte dos profissionais da área da saúde.
Homossexualidade é um jeito diferente de ser homem ou mulher.
Há culturas, como a indiana, que crêem na reencarnação, que também crêem que a homossexualidade é um terceiro sexo.
Tanto que lá, existem três itens em formulários de procedimentos públicos do governo para a pessoa especificar o género ou sexo ao qual pertence.
— Como assim?
— Quando a gente faz uma ficha onde precisamos nos identificar e colocar os dados pessoais como tirar a carteira de habilitação, por exemplo, em alguns formulários, aqui e em outros países, existem dois itens para nós colocarmos a qual sexo pertencemos:
M para o sexo masculino e F para o sexo feminino.
Na índia, há três: M masculino, para homens; F feminino, para mulheres, e T para Transgénicos.
A mãe nada disse e ele continuou:
— Às vezes, penso que estão mais correctos.
Pelo menos, mais correctos do que aqueles fanáticos religiosos que criticam e querem tanto curar o homossexual, ignorando sua verdadeira natureza.
Aliás, deveria ser proibido, por parte dos religiosos, as propostas de curar, as promessas falsas de converter alguém e fazê-lo virar heterossexual.
Eles deveriam ter mais o que fazer.
Levar consolo a quem está em hospitais, aos idosos que estão em asilos, alegria a crianças internadas, participar de organizações que arrecadam alimentos e levam educação e cultura a quem não tem, ajudar na inclusão social.
Tem tanta coisa a ser feita.
Mas não. Eles insistem em divulgar a cura da homossexualidade.
Isso é homofobia e homofobia é crime.
— É homo... o quê?
— Homofobia é qualquer tipo de preconceito contra homossexuais.
É a não aceitação, o desprezo, as agressões, ofensas físicas ou verbais, constrangimento moral ou psicológico.
Há inúmeros casos de homicídios de homossexuais por causa de sua condição ou orientação sexual.
Apesar de ser crime, as leis deveriam ser mais rigorosas.
— As leis sobre todo tipo de preconceito deveriam ser mais rigorosas, filho.
Em seguida, o silêncio foi absoluto por algum tempo, até que a senhora justificou:
— Abner, eu vim aqui para saber como você estava.
Fiquei preocupada com a forma que saiu lá de casa e...
E também para dizer que sou sua mãe, seja você como for.
Só te peço uma coisa — vendo-o em silêncio, prosseguiu:
— Não se prostitua. Não se corrompa.
Não se vulgarize. Não vire um qualquer.
Seja uma pessoa decente com você mesmo.
Eu acho que não é correto a pessoa ser promíscua.
Não sei se deseja ir a uma parada gay ou não, mas...
Pense nisso, filho.
Todos podem pedir, protestar por seus direitos.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:29 pm

Essa parada deve ser um protesto contra a tal homofobia e para dizer ao mundo que vocês têm direito de ser o que são, de amar quem quiserem, porque Deus deu a vocês o livre-arbítrio.
Quanto às doenças que se transmitem sexualmente, elas existem para todos.
Isso a gente tem que tomar cuidado e pronto.
É preciso lembrar também, filho, que cada um pode se vestir como quiser, falar e gesticular do jeito que quiser, mas é bom lembrar que homossexual não é animal, é gente e gente tem de se valorizar.
Eu vi pela televisão, nessas paradas, aqueles que rasgam a roupa e transam ou insinuam que estão transando na rua, como bichos.
Isso não é certo.
Ninguém precisa se expor a tamanha baixeza para reivindicar seus direitos.
Haja como um ser humano civilizado.
Pode até, um dia, querer se vestir diferente, mas se vista como gente.
— Eu sei mãe — sorriu.
Não vou fazer isso.
Também não sou favorável a esse tipo de atitude, seja para quem for.
Dona Celeste abriu-lhe os amorosos braços, chamando-o para envolvê-lo.
Abner aceitou e correspondeu imediatamente, indo a sua direcção.
Enquanto se abraçavam, a mãe se emocionou. Nesse instante, a campainha tocou.
O filho se afastou e, um tanto constrangido, comentou:
— Para subir sem ser anunciado, deve ser o Davi.
Imediatamente dona Celeste entendeu de quem se tratava e pediu:
— Vá lá, mande-o entrar.
Afinal, eu só o conheço por telefone.
Talvez a senhora não quisesse essa experiência para o filho, mas o
que poderia fazer se não aceitá-lo com amor.
Brigar, gritar, ofendê-lo, distanciar-se de nada adiantaria.
Só lhe serviria de agressão que o faria sofrer imensa negatividade que dificultaria seu caminho.
Cabe-nos, diante de toda circunstância, inclinar amor incondicional através da aceitação.
São pessoas como todas as outras, que procuram entender suas dúvidas, seus medos e anseios.
Quem de nós não busca equilíbrio?
Quem de nós não busca ser compreendido?
Não somos superiores.
Não nos cabe julgar.
Devemos medir a parte de responsabilidade que nos cabe diante daqueles que nos surgem no caminho, seja ele um velho, uma criança, uma pessoa especial, um deficiente, um heterossexual, um homossexual, ou quem quer que seja.
Não basta ser heterossexual para dizer que tem equilíbrio e tranquilidade, principalmente no que diz respeito à sexualidade.
Ao abrir a porta, Abner não teve tempo de dizer nada, pois Davi entrou falando:
— Na hora que me ligou, eu estava no mercado com minha mãe.
Ela ficou brava porque você não foi pra nossa casa.
Mandou essa torta de frango para você e... — deteve-se ao ver a senhora, em pé, na sala de estar.
— Esta é minha mãe, dona Celeste — disse Abner, apresentando-os.
Este é o Davi.
— Olá, dona Celeste.
Tudo bem com a senhora? — cumprimentou normalmente, ao se aproximar.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:30 pm

A mulher abriu os braços e, quando ele a abraçou, ela disse:
— Então você é o Davi!
A gente só se falou por telefone, não é mesmo?
Ao se afastar, segurou em suas mãos, dizendo:
— Você é muito diferente do que eu imaginava, filho — sorriu.
É um moço muito bonito.
— Obrigado, dona Celeste.
A senhora é muito amável e simpática.
Tem um sorriso lindo.
Aliás... sorriso é a minha especialidade.
— Você é dentista, não é mesmo?
— Sou sim.
Quando precisar dos meus serviços, é só falar.
Cochichando, disse em tom alegre:
— Pra senhora não vou cobrar nada.
É só me procurar.
Mas não conte a ninguém.
— Olha que vou mesmo, hein!
Tô precisando.
— E para ir mesmo. Tome meu cartão.
Tirou o cartão do bolso e lhe ofereceu:
— E só ligar e marcar.
Terei muito prazer em atendê-la.
A senhora olhou o cartão e guardou-o dentro da bolsa.
Abner estava totalmente sem jeito.
Jamais havia se imaginado naquela situação.
Logo a senhora disse:
— Já vou indo. Está tarde.
— Não, mãe. Fique — pediu o filho.
— A minha mãe mandou esta torta para o Abner.
Indo até a mesa da sala de jantar, Davi mostrou e disse:
— Ainda está quentinha.
A senhora não quer comer um pedaço?
— Não vou ter vergonha não, menino.
Essa torta está bastante cheirosa.
Quero um pedacinho e depois vou embora.
Abner estendeu uma toalha sobre a mesa, abriu um refrigerante, colocou pratos, talheres e serviram-se.
Em seguida, dona Celeste decidiu:
— Já é tarde. Preciso ir mesmo.
— Eu levo a senhora, mãe.
— Vamos em meu carro — propôs Davi.
Está estacionado na rua. Fica mais fácil.
Durante o caminho até a casa de dona Celeste, o filho quis saber:
— E o pai, mãe?
— Você sabe como ele fica depois que bebe.
Ressaca, dor de cabeça, de fígado...
Tá que não se aguenta.
Falei umas coisas pra ele antes de sair.
_ Não quero que briguem por minha causa.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:30 pm

- Você me conhece, filho.
Não sou de brigar.
Sempre deixo seu pai falando sozinho.
Porém, quando quero, sei como e o que falar.
* * *
Em sua casa, Simone se preocupava com os problemas de sua família, apesar de já ter bastante em sua vida.
Naquele dia, após retornar da casa de seus pais, onde havia ido com a intenção de lhes contar sobre a condição do filho que esperava, ela não encontrou o marido.
Após falar com seu irmão por telefone, ligou para a casa dos sogros, mas Samuel não estava lá.
Preocupada, ligou para o celular do marido e estranhou quando ouviu o aparelho tocar no quarto.
Foi até lá, pegou-o, sorriu por um instante e o abriu.
Constatou que havia outra chamada não atendida, além da que acabara de fazer.
Puxando pela lista de chamadas não atendidas, verificou um nome: Marrie.
Achou estranho ver um nome que não era comum.
Puxando pela memória, lembrou-se de Marrie, uma professora que leccionou na mesma universidade que ela, no semestre anterior, mesma universidade onde o marido era director do curso de História.
Recordou tratar-se de uma mulher não tão bonita, porém se vestia bem e sabia se comportar melhor ainda.
Ela e Marrie não eram muito amigas e quando a via conversando com Samuel, isso a incomodava de alguma forma.
Alguns meses haviam se passado desde que Marrie deixou a universidade.
O que poderia querer com Samuel?
Por qual razão teria o número do celular dele?
Afinal, se fosse por alguma questão de voltar a trabalhar lá, deveria ligar para a universidade ou ir até lá.
Não tinha cabimento telefonar para o celular de Samuel, até porque ele era director de outro curso e não do que Marrie era apta a dar aula.
Esperta, Simone decidiu averiguar a caixa de mensagens enviadas e recebidas do celular.
Estranhou. Todos os recados estavam apagados.
O marido não era do tipo que se preocupava com isso.
Seu telefone celular sempre ficava à vontade e, muitas vezes, era ela quem apagava as mensagens a pedido dele.
Além do que, ele havia apagado as mensagens recentemente, pois, no dia anterior, ela havia lhe enviado uma.
Aquilo a incomodou muito.
Tomou um banho, ligou a TV e tentou se distrair com um filme quando o marido chegou.
Samuel, calado, passou pela sala e mal a olhou.
Nem para se aproximar e lhe dar um beijinho rápido, como de costume.
— Bem?... — chamou-o.
Aconteceu alguma coisa?
Ele retornou, encarou-a e respondeu:
— Saí com uns amigos.
Estava stressado e precisava relaxar um pouco.
— E meu beijo? — perguntou sorrindo como se não estivesse magoada, ressentida com sua atitude fria.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:30 pm

O marido se aproximou, beijou-a como sempre e Simone reparou:
— Está com uma carinha triste.
— Estou cansado.
— Samuel.
Vendo-o encará-la, contou:
— Hoje fui lá à casa dos meus pais, mas...
Não deu para contar.
O clima estava meio tenso e...
Não era um bom momento.
Porém, amanhã vamos à casa de seus pais e dos meus.
Eles precisam saber sobre o bebé.
— Eu não quero contar nada. Conte você.
A mulher se levantou, aproximou-se e disse em tom brando:
— E sobre o nosso filho.
Se você está sofrendo, eu também estou.
— Já sabemos o que vai acontecer a ele, não sabemos?
Então o melhor é considerarmos que não temos um filho.
Faça de conta que ele não existe.
Assim sofreremos menos.
Imagine que você está doente e que daqui a alguns meses...
Sei lá... Será operada e tudo volta a ser como antes.
Simone não suportou e esbracejou:
— Você é um monstro!
Veja o que acabou de falar!
Como pode ser tão cruel?!
Tão insensível?! Tão?!...
Que absurdo, Samuel!
O que te deu?!
— Estou sendo realista, Simone. Realista!
Sei que, se ele chegar a nascer, terá pouco tempo de vida.
Semanas ou meses...
— Tem crianças com essa síndrome que chegam a ter dez anos ou mais.
- E você quer isso?!
Tem certeza que quer um filho com sérios problemas mentais, físicos vivendo anos?!
Quer mesmo um filho com a fisionomia horrível que dure dez anos?!
Eu não quero! — gritou ele.
A mulher ficou em choque e sem palavras.
Sentiu-se mal devido à reacção insensível e perversa do marido.
Ele se virou e foi para o quarto, deixando-a sozinha.
Confusa e extremamente triste, ao ouvir o esposo ligar o chuveiro, não suportou e telefonou para o amigo Cláudio que a escutou com atenção e confortou com palavras generosas.
Simone e o marido não se falaram mais.
Não havia o que dizer um ao outro depois da opinião rude que ele manifestou.
Ela sentia-se magoada, ferida.
Estava incrédula, pois ele sempre se mostrou uma criatura gentil, atenciosa, compreensiva.
Agora não sabia o que lhe dizer ao descobrir o coração cruel do marido.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:31 pm

6 - O ACOLHIMENTO DA FAMÍLIA

NA QUARTA-FEIRA, conforme combinado, Abner estava logo cedo na casa da irmã a fim de acompanhá-la à consulta médica.
Assim que a viu entrar no carro, percebeu-a muito nervosa.
Após trocarem beijos, ele quis saber:
— Tudo bem?
Simone respirou fundo e, com os olhos marejados, respondeu em voz baixa:
— Nada está bem.
Não estou aguentando mais.
— Foi o Samuel?
Ele disse ou fez algo que a magoou?
A irmã contou-lhe sobre a opinião do marido e ainda
afirmou:
— Ele arrumou outra.
Tenho certeza.
— Imagine se... — desacreditou.
Não. O Samuel não faria isso.
— Tenho certeza, Abner.
Peguei ligações não atendidas no celular e ontem vi uma mensagem que ele não apagou.
É uma tal de Marrie, foi professora lá na universidade.
Uma mulher bastante intelectual, fina, elegante.
Não é bonita, mas tem presença marcante. Porém...
- O quê? — perguntou o irmão diante da pausa.
Não posso julgar, mas...
Sabe aquele tipo de mulher que a gente, só de olhar, sabe que não vale nada?
Abner ficou em silêncio, sem expressão alguma e ela continuou:
— Nunca gostei de vê-la conversando com o Samuel.
Sentia como se a Marrie se oferecesse.
_ O que dizia a mensagem que encontrou no celular?
_ "Me liga. T. A."
Esse T. A., creio que quer dizer:
Te Amo. Só estava escrito isso.
Estou arrasada. Minha vida acabou.
Além de dizer o que disse sobre nosso filho, não respeitando meus sentimentos, minha sensibilidade, ainda arrumou outra.
Hoje cedo, eu o lembrei que havia a consulta, mas ele não disse nada.
Arrumou-se e foi para o trabalho.
— O Samuel queria muito esse filho.
Ficou revoltado com a condição do nené e não está sabendo lidar com a situação.
Não estava preparado.
— Nem eu.
Em seguida, consultou o relógio e alertou:
— Vamos. Estamos atrasados.
— Sim, vamos.
Abner a acompanhou na consulta, conforme planeado e não saiu do lado da irmã, amparando-a em todos os momentos.
Principalmente quando o médico explicou sobre as condições difíceis e até as características do nené.
Ela chorou muito e o irmão, vendo-a sem condições, sugeriu ao médico uma licença do serviço, uma vez que, do jeito que se encontrava abalada, não teria condições emocionais de dar aulas.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:31 pm

O médico concordou e forneceu a dispensa, pois, além de seu estado emocional muito abalado, havia o risco de aborto espontâneo.
Depois foram para a casa de dona Celeste.
Abner não entrou.
Deixou-a lá e foi para o serviço.
A senhora percebeu que a filha não estava bem e a acolheu com carinho.
— Venha, Simone.
Sente-se aqui.
Vendo-a acomodada, perguntou:
— o que aconteceu para ficar desse jeito?
Simone não resistiu e contou-lhe tudo sobre as condições do bebé.
Falou sobre suas pesquisas na internet, sobre a síndrome e até mostrou os papéis que havia imprimido.
No final, chorou muito e dona Celeste, abraçada a ela, também.
Sem ser visto, o senhor Salvador a escutou.
Primeiro, o homem ficou atordoado.
Depois de algum tempo, tomou coragem e foi até a sala.
Sentando-se ao lado da filha, disse:
— É por isso que não gosto desses exames idiotas.
Se fosse antigamente, num caso desse, você só sofreria depois de ver seu filho nascer e não antes.
Agora, veja só...
Vai se torturar até ver a criancinha.
Isso tá errado. Esses médicos não sabem de nada.
Vem cá... — Puxando-a para que se recostasse em seu ombro, o pai a afagou com carinho.
Vendo-a mais recomposta, aconselhou:
— Vê se não fica desse jeito. Para de chorar.
Seu filho não merece sofrer.
— Mas, pai, ele...
— Ele sente sim.
Tem que tratar dele muito bem, viu.
Eu já assisti a muitas reportagens que dizem que todo nené, ainda na barriga da mãe, sente tudo o que se passa com ela e no ambiente.
Por não entender nem saber o que é, ele sente susto, medo, rejeição...
— Eu não queria que fosse assim... — tornou chorosa.
— Ninguém queria, filha — disse a mãe.
Mas se foi isso o que Deus permitiu, vamos fazer de tudo para respeitar a vontade Dele e cuidar muito bem desse nené.
— O Samuel está estranho.
Ele não quer se apegar ao filho.
Simone contou, parcialmente, a opinião do marido e o pai falou:
— Então o Samuel, que é um homem estudado, é mais ignorante do que eu.
Nunca pensei que...
Não terminou e decidiu:
— Então você não volta mais para tua casa.
Pronto. A gente cuida de você aqui.
— Não posso ficar, pai.
Tenho minha casa.
— Mas você não falou que o médico te deu licença do serviço?
Então... — disse o homem.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:31 pm

Dona Celeste, mais ponderada, opinou:
— Não precisa deixar sua casa totalmente.
Pode ficar aqui com a gente durante o dia e, à noite, o Samuel passa aqui e te leva embora.
Ficar lá o dia todo olhando para as paredes e pensando besteiras, não será nada bom.
Você ia mesmo ficar aqui na dieta, o que vai mudar é que virá pra cá antes.
- Não posso decidir assim.
Preciso falar com o Samuel.
— Mas ele não tá nem ligando pra você, muito menos pro filho - resmungou o pai.
— Não precisa falar assim, Salvador — repreendeu a esposa.
O Samuel está confuso. Só isso.
Vai passar.
Apesar da dor e da tristeza que sentia por aquela notícia e pelo estado fragilizado da filha, dona Celeste respirou fundo e procurou parecer firme, propondo:
— Simone, chega de sofrer.
Seu filho é e continuará sendo amado.
Isso tudo é triste, mas não muda o que sentimos por ele nem por você.
Não é mesmo, Salvador?
— É sim. Aqui terão todo apoio nosso.
— Então, filha, vai lá pra dentro, toma um banho bem gostoso...
Vou pegar um roupão da sua irmã pra vestir.
Depois vai comer alguma coisa e descansar.
Mais tarde a gente liga pro Samuel avisando que está aqui. Tá certo?
— Vou fazer isso mesmo.
Estou tão cansada...
Assim foi feito.
Bem depois, enquanto Simone dormia, seus pais estavam sentados à mesa da cozinha em total silêncio até que o senhor Salvador perguntou:
— Será que o nené é mesmo do jeito que ela falou?
— Nem ela, nem o médico iriam brincar com uma coisa dessas.
Hoje, o Abner foi junto com ela e viu o exame de ultra-som.
— Eu ouvi o que ela leu daqueles papéis e vi de longe aquelas fotos...
Mas nem quero ver de novo. Fico pensando...
Por que será que Deus permite uma criancinha nascer assim?
Por não ouvir resposta, contou:
— Já li na bíblia, quando Jesus fala que a cegueira de um homem não era por culpa de seu pai ou de sua mãe.
Ele era cego por culpa dele mesmo.
Mas se o homem nasceu cego...
Onde ele errou ou pecou para ser culpado por sua cegueira?
A esposa, extremamente triste, não o ouviu e lamentou:
— Meu netinho... — chorou.
Meu primeiro netinho...
Eu não esperava isso...
— A gente só acha que essas coisas acontecem na família do vizinho.
Levantando-se, o senhor Salvador ficou em pé atrás da esposa e disse, ao afagar-lhe as costas suavemente:
— Eu também não queria isso, mas se tem que ser assim...
A gente precisa é se unir e dar força pra Simone.
* * *
Mais tarde, depois de um sono reparador, que há muito não tinha, Simone foi acordada carinhosamente pela mãe.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:31 pm

— Filha, já passam das quatro.
Acho que se você dormir mais, não vai dormir direito de noite.
Ela despertou, sentou-se na cama e a mãe sugeriu:
— Vamos lá para a cozinha, fiz um chazinho de cidreira pra você.
— Mãe...
— Que é?
— Senta aqui, mãe — pediu espalmando a mão na cama.
A senhora obedeceu e a filha contou:
— Eu não estou gostando do jeito do Samuel.
Ele arrumou outra.
Depois de ouvir toda a história contada pela filha, a senhora opinou:
— Não tire conclusões precipitadas.
Você não viu nada. Não o pegou com outra.
— Vou falar com ele.
O que a senhora acha?
— Fale, mas fale com calma.
Não acuse seu marido.
— E se for verdade?
E se ele tiver outra mulher?
— Tenha fé, filha.
Você precisa rezar e pedir muita força a Deus pra Ele te sustentar.
Reza pra Maria, Mãe Santíssima, para Ela te proteger e te guardar com o seu manto.
Vendo-a aflita, pediu carinhosa:
— Não chore. Não vai passar emoção ruim pro nené.
Isso não é bom. Venha, levante e vamos para a cozinha.
Depois a gente dá uma volta no quarteirão e vai ver que esse sentimento ruim vai embora.
Logo após o jantar, Samuel chegou para pegar sua mulher.
Recebido pelo senhor Salvador, ele mal o cumprimentou e acomodou-se no sofá, ficando à espera da esposa.
Sentando-se costumeiramente em sua poltrona, o sogro disse:
— A Simone nos contou sobre o nené.
O genro não disse nada e continuou olhando firme para a televisão.
Contou também sobre a sua opinião, que é para ela pensar que está doente.
— Olha, senhor Salvador, esse é um problema muito particular que eu não quero dividir com ninguém.
A minha visão é realista.
Não quero que a Simone sofra.
Devemos encarar os factos e pronto.
— Você tá fazendo a Simone sofrer mais do que a notícia do filho com problemas.
Tem que pensar nos sentimentos dela.
O genro nada disse a respeito. Levantou-se e perguntou:
— Onde ela está?
Preciso ir embora logo.
— Lá no quarto da irmã.
Tá todo mundo lá.
Samuel, em silêncio, foi até o quarto de Rúbia e entrou chamando:
— Simone, vamos?
— Ao vê-las reunidas, cumprimentou-as a distância e disse:
— Amanhã preciso levantar cedo.
A esposa não respondeu.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:32 pm

Levantou-se e foi pegar sua bolsa.
Enquanto isso, dona Celeste explicou com naturalidade aparente:
— O médico deu licença para a Simone.
Ela não tem condições emocionais para trabalhar.
Amanhã ela disse que vai cuidar da documentação.
Então eu falei pra ela ficar aqui em casa.
Acho que, sozinha, lá na casa de vocês, será pior pros pensamentos dela.
— A Simone não vai ficar sozinha.
Tem a empregada.
— Não é a mesma coisa.
Minha filha está sofrendo muito e perto da família vai encontrar conforto.
Será melhor.
— Concordo com a minha mãe — disse Rúbia.
Precisamos cuidar do lado emocional da Simone.
— Como quiserem.
Pra mim, tudo bem — concordou, mas respirou fundo exibindo insatisfação.
— Então fica assim:
você a traz para cá de manhã e a pega de noite — propôs a senhora.
— Pode ser. Se ela não tiver condições de dirigir, pode ser assim.
— Ela até pode ter condições de dirigir, Samuel, mas ir para casa, à noite, fica difícil — tornou Rúbia.
Você só chega após às onze da noite.
Não será legal ela ir embora mais cedo e ficar sozinha.
No entanto, se sair daqui após às dez ou dez e meia, é muito tarde.
Não é seguro.
Nesse momento, Simone chegou e pediu:
— Vamos.
Ele não respondeu nada à cunhada.
Estava contrariado.
Ao vê-la pronta para ir, dona Celeste lembrou:
— Filha, amanhã, não esquece de trazer umas roupas para ficar à vontade.
— Tudo bem, mãe. Vamos ver.
A bênção — despediu-se.
— Deus a abençoe.
Dona Celeste os acompanhou até a porta.
Depois retornou a quarto de Rúbia, dizendo:
— Nossa... Não dá para acreditar no que está acontecendo.
Nunca vi esse moço tão frio.
— É mesmo, mãe.
Como o Samuel está estranho.
Não parece o mesmo homem.
— E você nem sabe do pior.
— O quê?
— A sua irmã está desconfiada que ele arrumou outra.
— Outra?!
Dona Celeste contou tudo, depois se irritou:
— Isso é coisa de alguma sem-vergonha, pilantra, que quer se aproveitar da situação!
Mulher safada que não tem capacidade de arrumar homem livre e fica destruindo o lar dos outros.
— Pode ser só uma amiga.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:32 pm

— Amiga?! Homem casado não tem amiga!
A amizade de uma mulher deve ser com o casal, mesmo assim...
Isso é coisa de mulher à-toa que fica à espera de um lar destruído.
Urubu, safada!
Não disse nada disso pra sua irmã pra não deixar que fique ainda mais magoada, mas...
Rúbia sentiu o coração apertado.
Pensou que, de certa forma, sua situação com Geferson era semelhante.
Ele ainda vivia com a esposa e os filhos, e ela não passava de alguém que estava à espera da destruição de um lar.
Não sabia o que dizer.
Ficou corroendo os pensamentos tristes e amargurados.
Não foi criada para destruir o lar de alguém.
Sua família lhe passou princípios morais básicos.
O que acontecia em sua vida era contrário a sua educação e moral.
— Rúbia! Estou falando com você! — disse a mãe ao vê-la distante, sem prestar atenção no que falava.
— Desculpe... Eu estava tão longe.
A senhora continuou como se ela tivesse ouvido:
— Como eu disse, quero que converse com seu irmão.
Se não pode, se não tem capacidade de compreender o Abner, aceite somente.
— A senhora é favorável ao que ele é?
— Não sou a favor nem contra.
Eu só entendo e aceito.
É meu filho.
Foi isso o que Deus me confiou.
— Só se Deus confiou isso a você e não a mim — protestou o senhor Salvador que chegou sem ser visto.
Eu preferia ter um filho na cadeia ou morto, do que um filho marica, pederasta.
— Você não sabe o que está falando, Salvador! — repreendeu a esposa.
Eu amo e aceito o nosso filho exactamente como ele é!
— Só se for seu filho, porque o meu morreu no dia que eu soube das suas safadezas!
Se ele aparecer por aqui, vou quebrar ele no meio!
Para mim ele morreu!
Não adianta vir aqui nem quando ele estiver doente.
Sim, porque já que virou o que virou, só se pode esperar que Pegue essas doenças que têm por aí!
— Deixe de ser ignorante, homem!
As doenças que você está falando existem para todo mundo, não só para homossexuais.
— Não me importa.
Se ele aparecer aqui...
— Parem, por favor! — pediu Rúbia.
Vão começar a brigar por uma coisa...
O telefone tocou e dona Celeste foi atender, não dando importância ao marido que continuou:
— Eu dou apoio pros meus filhos, mas não vou admitir um filho pederasta e uma filha vadia, mulher à-toa que sai com homem casado ou sai com um e com outro por aí.
Isso nunca! — esbracejou e saiu do quarto.
Mais uma vez Rúbia foi invadida por pensamentos que a machucavam muito.
Se seu pai desconfiasse de que ela namorava um homem casado, ele a mataria.
Ele a poria para fora de casa e não iria querer vê-la mais.
Faria igual ao que fez ao seu irmão.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:32 pm

O comentário de sua mãe e as palavras ásperas de seu pai, a respeito de se ter um romance com um homem casado, não saíam de sua cabeça.
Sentia-se amargurada e com vontade de chorar.
Precisava decidir o que fazer de sua vida.
Não era isso o que queria, mas pensava gostar muito de Geferson.
Se bem que, nos últimos tempos, principalmente quando reclamava a ele sobre não fazer nada a respeito do divórcio, Rúbia o percebia bem insatisfeito, dando desculpas e até um pouco distante.
Ao lembrar do comportamento de Geferson, experimentou um medo nunca sentido antes.
Um sentimento ruim, terrível, apertava-lhe o peito e a sufocava.
Não suportava os pensamentos causticantes e decidiu ligar para o celular de Geferson, mas só caía na caixa postal.
Sendo assim, precisou suportar calada a angústia dolorosa que sentia.
* * *
Com o passar dos dias, Simone começou a dormir na casa de seus pais.
Cada dia era por um motivo.
Às vezes, estava tarde e Samuel dizia-se cansado demais para passar lá para pegá-la.
Outras, ele precisava levantar cedo demais e se a deixasse lá antes de ir trabalhar, teria de acordar ainda mais cedo.
Quando percebeu uma distância significativa do marido, Simone o procurou e foi bem directa ao perguntar:
_ Existe outra, Samuel?
Você tem outra mulher?
Muito surpreso com a questão, ele tentou dissimular:
— Que isso?!
De onde tirou essa ideia?!
_ Do seu comportamento estranho e distante.
Das mensagens que encontrei em seu celular, as que recebeu de uma tal Marrie.
_ Andou vasculhando minhas coisas?...
Mexendo no meu celular?
— Não. Foi por acaso.
Você havia saído e eu liguei para o seu celular.
Só que o aparelho tocou no nosso quarto.
Fui pagá-lo e apagar a ligação perdida para não ficar bipando a cada cinco minutos.
Nisso eu vi uma mensagem e fui ver o que era.
Não sou do tipo de cheirar camisas ou vasculhar ligações.
Apesar de ter observado que você apagou todas as mensagens e ligações existentes, coisa que não costuma fazer.
O marido nada disse e ela insistiu:
— E então?
Existe outra, Samuel?
Simone sentia-se trémula por dentro, porém ficou firme até ele dizer friamente, encarando-a:
— Estou confuso quanto ao nosso casamento.
Acho que a sua gravidez... — calou-se.
Diante do silêncio, mesmo confusa, disse:
— Nós planejamos tudo em nossas vidas! Não engravidei por descuido.
— Você não está entendendo.
Nós não planeamos um filho deficiente e debilitado.
Isso mexeu comigo.
Eu não estava preparado.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 04, 2017 12:32 pm

— E você acha que eu estava?! — questionou com firmeza.
— Acredita que para mim está sendo mais fácil do que para você?!
— Imagino que não.
Se quiser, pode resolver esse problema.
O aborto é permitido, no seu caso.
— Não acredito que esteja me falando isso — expressou-se magoada.
— É o que eu penso, Simone.
Não estou suportando mais.
- Não está suportando, por quê?
Sem esperar, respondeu:
- Porque foi chorar as mágoas para alguma sem-vergonha que o consolou e o fez esquecer que você tem tanta responsabilidade quanto eu para com este filho?
— Quer saber?! — falou rude e bem nervoso:
— Encare como quiser.
Nunca pensei na possibilidade de ter um filho problemático.
Isso me abalou e eu não poderia desabafar sobre esse assunto com você.
E mais:
a Marrie apareceu lá na universidade na semana em que soubemos.
Eu estava pra baixo e conversamos.
Desabafei com ela sim.
Ela soube me entender e ver a situação do meu ângulo.
Quanto a você...
Cada vez que a vejo sinto uma cobrança.
Não aguento mais.
— Que cobrança?!
Nunca o cobrei de nada.
— Ah, não!
Hospital, médicos, laboratórios, exames...
Não quero acompanhar nada disso!
— Se seu filho fosse perfeito, acompanharia?
— Com certeza! Essa é a verdade.
E se quer saber mais:
estou decepcionado, com vergonha dessa situação.
Não sei como encarar os parentes e amigos, principalmente quando me perguntam sobre sua gravidez, sobre o nené.
Vão sentir pena da gente.
Vão nos ver como coitados e muitos só vão querer especular.
Odeio especulação!
Simone tremia dos pés a cabeça.
Lentamente a esposa sentou-se no sofá.
Incrédula e sem saber o que fazer.
O marido pouco se importou com seus sentimentos, com sua sensibilidade naquele estado tão delicado.
Virou indo para o quarto.
Mesmo confusa, ela pegou o telefone e ligou para seu irmão.
— Abner?
— Não. Um momento — respondeu a voz de homem que atendeu.
Retornando, disse:
— O Abner está no banho.
Gostaria de deixar recado, por favor?
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