MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:03 am

— Quem fala? — perguntou com voz estremecida.
— O Davi.
— Por favor, Davi...
Aqui é a Simone, irmã dele.
— Tudo bem, Simone? — quis saber educado.
— Não. Não está nada bem e... — silenciou.
Percebendo sua respiração forte, como se estivesse chorando, quis saber:
— O Abner me contou que está grávida.
Precisa de ajuda?...
Quer que eu vá até aí?
— Preciso que me ajude sim.
Por favor, peça para o meu irmão vir me pegar aqui em casa o quanto antes.
— Digo sim. Pode deixar.
Um instante e perguntou:
— O que está sentindo?
Quer que eu chame uma ambulância?
Talvez chegue mais rápido. Ou então...
Se quiser conversar comigo...
— Não. Obrigada, Davi.
Preciso pegar algumas roupas.
Tenho de desligar.
Vou aguardar meu irmão aqui em frente da minha casa.
— Está bem.
Assim que ele sair do banho, irá até aí.
— Obrigada. Até mais.
— Tchau.
Davi avisou Abner que se apressou.
Enquanto isso, Simone apanhou duas bolsas, colocou algumas peças de roupas e foi aguardar o irmão na calçada em frente a sua casa, sem dizer nada ao marido.
Abner não demorou e chegou em companhia de Davi que desceu rapidamente do carro e foi ao seu encontro, pegando-lhe as bolsas.
Envolvendo-a com um abraço, o irmão a beijou na testa e preocupou-se.
Enquanto a conduzia para entrar no carro, indagou:
— O que aconteceu, Simone?
— Depois eu conto.
Leve-me para sua casa.
Assim foi feito.
Ao chegar, ela teve forte crise de choro por longos minutos.
O irmão lhe fez um chá e o esfriou.
Servindo-a, pediu com um tom afável na voz:
— Bebe um pouco.
Vai lhe fazer bem.
Após se recompor, ela contou-lhe tudo o que aconteceu e desfechou:
— Eu não esperava isso do meu marido.
— Pelo que entendi, você saiu de casa e não o avisou, certo? — observou Davi.
— Foi isso mesmo.
Eu não tinha mais o que falar.
O que poderia dizer?
— Nesse caso, o melhor é silenciar — opinou Abner.
— Contei pro pai e pra mãe sobre o nené.
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Ave sem Ninho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:03 am

— Fiquei sabendo.
Fez bem em ter contado.
— Nunca pensei que o pai fosse agir como agiu.
Ele foi tão generoso, compreensivo, amoroso...
Fiquei surpresa.
Ainda tenho de contar para os meus sogros.
— Não acha melhor deixar essa responsabilidade para o Samuel? — propôs o irmão.
— Abner, eu não sei o que fazer.
Estou confusa, atordoada.
Tem hora que não sei...
— Desculpe-me a intromissão.
Sei que não pediram meu palpite, mas...
— Por favor, Davi, pode falar - pediu ela, fixando-lhe o olhar.
— Simone, eu acredito que o momento é bem delicado e por isso você precisa estabelecer prioridades em tudo o que for fazer.
Penso que sua prioridade, agora, é o seu bem-estar e o bem-estar do seu filho.
Precisa dar atenção, muita atenção, à sua saúde física e mental.
Discutir com seu marido não vai lhe trazer paz.
Ao contrário.
Você percebeu que ele teve uma reacção equivocada e bastante dura.
Talvez ele não mude de ideia, pois não estava nada, nada preparado para essa experiência.
— Também acho que não devo bater boca com o Samuel para que ele aceite a condição do nosso filho.
Isso só iria me desgastar.
Mas... O que faço?
— Você precisa de conforto, apoio, protecção.
Tem de se fortalecer, mental e psicologicamente para saber lidar com a condição de seu filho.
Pode ser que ele precise muito de você.
Então... Aproveite todo acolhimento oferecido por sua família e se recomponha.
Depois que tudo se acalmar, você e seu marido poderão conversar melhor — tornou Davi.
— Não é justo que uma sem-vergonha qualquer destrua minha família, minha vida.
Tenho vontade de procurá-la e... — chorou.
— Será que vai adiantar?
Será que tem toda energia e disposição necessárias para procurá-la e brigar, xingar, trocar ofensas?
Sim, porque é isso o que vai acontecer se encontrá-la, não acha? — opinou o rapaz cauteloso.
Simone silenciou e o encarou reflexiva.
E ele completou:
— Como eu disse, você tem uma família boa e disposta a acolhê-la com todo o amor e carinho.
Busque, junto a seus pais e irmãos, força para a etapa mais importante que é a de receber seu filho.
Primeiro isso.
Depois, você observa a posição de seu marido.
E provável que ele a procure e peça desculpas.
O Samuel não teve estrutura para o que aconteceu a vocês e, de repente, ele mesmo pode enxergar isso e se arrepender.
— Não paro de pensar nele com a outra.
Como foi capaz de me trair em meio a tudo o que nos está acontecendo?
— Ficará pensando e falando nesse assunto até esgotar um pouco essa energia de raiva, de contrariedade.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:03 am

Isso é normal.
Porém, assim que puder, direccione o foco, os pensamentos e preste atenção em outras coisas mais tranquilas e agradáveis.
Assista à TV, à novela, oferecendo atenção ao que vê.
Saia, caminhe, de preferência em uma praça.
Fique observando uma árvore, os pássaros, o céu azul.
Isso fará com que desvie a mente de um assunto obsessivo que lhe faz muito mal — aconselhou Davi.
Simone parecia mais calma, embora nada estivesse resolvido em sua vida.
Olhando o rapaz por longo tempo, em total silêncio, parecia pensar muito naqueles conselhos tão importantes.
Depois ela ofereceu leve sorriso.
Apesar disso, podia-se ver uma tristeza na sombra de seu olhar.
Ele correspondeu ao sorriso, estendeu-lhe as mãos e pediu:
— Levante, respire fundo e lave o rosto.
O Abner disse que hoje vai preparar um sanduíche natural delicioso para nós.
— Eu disse isso?!
— Sim! Eu ouvi você acabar de dizer — riu.
Abner sorriu e concordou:
— Vou mesmo. Comprei ingredientes para isso.
Se vai dar certo... Isso é outra história.
— Abner — quando o irmão a olhou, completou: —, será que eu posso ficar aqui hoje?
Durmo no sofá. Não se preocupe.
— Pode. Claro que pode.
Só que vai dormir lá dentro.
— Obrigada. É que não quero ir pra casa da mãe.
O Samuel deve ir lá e não quero vê-lo.
Depois ligo pra ela saber que estou aqui.
Se quiser, poderá contar para ele.
— Fique à vontade, Simone.
Minha casa, sua casa.
— Não vou incomodar?
— De forma alguma.
Fique tranquila — respondeu, abraçando-a com carinho.
Bem mais tarde, Simone se deu conta de seu pedido e achou que constrangeria seu irmão e Davi.
Pensou que Davi dormiria ali e ela iria tirar a liberdade de ambos.
Na primeira oportunidade de se ver a sós com Abner, comentou:
— Acho que será melhor me levar hoje mesmo lá pra casa da mãe.
O Davi pode não se sentir à vontade.
Não pensei nisso antes.
— Não estamos morando juntos.
Se é o que quer saber.
— Eu pensei que...
— A ideia é essa.
Mas não agora.
— Desculpe-me, Abner.
O assunto é... delicado.
— É um assunto novo, por isso é estranho ter de comentar a respeito dele para você e para mim.
Com o tempo acostumamos.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:04 am

— Obrigada pela ajuda e pelo apoio.
— Digo o mesmo.
Davi chegou à sala e disse:
— Já está bem tarde.
Minha mãe está sozinha.
Preciso ir.
— E o seu irmão? — perguntou Abner.
— O Cristiano ainda não chegou e ela está preocupada.
Hoje ele não estava muito bem.
Quando entra em pânico, ele sai.
Sempre faz isso quando não está bem.
Foi isso o que fez hoje, mas até agora não voltou.
A dona Janaina — referiu-se à mãe — está aflita e já me ligou três vezes, pois não conseguiu falar com ele.
O celular só dá caixa postal.
Vou amarrar um bip no Cris.
Ele vai ver só — tentou brincar para desfazer a preocupação.
— O que seu irmão tem? — interessou-se Simone.
— Meu irmão sofreu um acidente de carro muito violento.
Ele, a noiva e o irmão dela.
Entregavam os últimos convites para o casamento.
O irmão dirigia, a Vitória estava ao lado, no banco do carona, e meu irmão no banco de trás.
O carro era bem velho, mas achava-se em boas condições.
O Vanilson dirigia em alta velocidade e um outro veículo, que passou com o sinal vermelho, bateu na lateral.
O carro capotou várias vezes.
A Vitória foi arremessada para longe.
Ela estava sem o cinto de segurança e morreu a caminho do hospital.
O irmão faleceu no instante da batida.
O Cris, que estava com cinto, foi o único que sobreviveu.
Ele fracturou o crânio e ficou em estado de coma por mais de um mês.
Quando acordou, não se lembrava nem do próprio nome.
Aos poucos recuperou a memória, porém começou a ter sonhos estranhos, pesadelos horríveis.
Acordava aos gritos... Tinha que ver.
Foi então que durante o dia passou a ter fortes crises de choro.
Ao se lembrar de tudo, não se conformou com o que aconteceu, principalmente porque foi ele que decidiu ir no banco de trás, pedindo para a noiva se sentar na frente.
Meu irmão fez cirurgias, recuperou-se das múltiplas fracturas, inclusive da de crânio.
Fez muitas fisioterapias, mas não se recuperou da alma.
Até hoje não conseguiu retornar ao serviço.
Os médicos dizem que está sofrendo de um estresse pós-traumático, síndrome do pânico.
Tem momento em que o vemos praticamente normal, mas tem hora que entra em pânico, depressão e fica péssimo.
Quando conversa e fala muito, diz que melhora.
Coloco-me à disposição para conversarmos, mas tem hora que ele não quer.
Não é fácil entender.
— Ele faz tratamento com médico psiquiatra, psicólogo?... — interessou-se ela.
— Sim, faz.
Psicoterapia uma vez por semana e toma remédios tarja preta, indicados por um psiquiatra com quem passa pelo menos uma vez por mês.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:04 am

Além disso, cuida-se com medicina alternativa como homeopatia, cromoterapia, florais.
Tudo o que pode.
Inclusive passes na casa espírita.
Ele vem tendo certa melhora, mas bem lenta.
Quem o viu no começo acha que está óptimo.
— Em que ele trabalhava?
— É dentista também.
Mas ainda não consegue voltar ao trabalho.
Eu insisto que me trate — sorriu.
Até o Abner se propôs como cobaia, mas...
Ele entra em pânico e não consegue.
— Mas... O que tem a ver o acidente que sofreu com o pânico que sente ao tentar voltar a trabalhar?
Tem explicação?
— Segundo ele e o psicólogo que o trata, chegaram à conclusão de que é o medo de errar, de tomar decisões.
Acredita que, quando ele decidiu que a noiva iria sentada na frente, decidiu por sua morte.
— Ele sabe dizer por que estavam em alta velocidade?
— O Cristiano conta que o futuro cunhado começou a correr e ele pediu para que fosse devagar.
Depois disso, não sabe dizer o que aconteceu.
Só tem um lampejo do momento da batida e mais nada.
Com certeza, o impacto foi forte e houve a capotagem devido à alta velocidade.
Sabe, não temos pai, ele faleceu há cinco anos.
Sou eu e minha mãe que cuidamos dele.
Não é fácil.
Nos últimos tempos, depois que se recuperou das fracturas com muitas fisioterapias, o Cris está tendo crises de pânico.
Ele disse que melhora assim que sai para andar.
Então sai de casa, anda a pé dez ou quinze quilómetros, depois volta.
Isso nos preocupa.
Quando acontece e não estou, minha mãe fica desesperada achando que algo aconteceu.
Piora quando ele esquece ou não atende o celular.
Não está sendo fácil.
— Você tem que ver, Simone — interrompeu Abner.
Conversando com o Cristiano, ninguém diz que está vivendo um transtorno tão sério, tão preocupante.
Mas quando entra em crise, fica irreconhecível.
— Ele gostava muito da Vitória.
Até hoje chora bastante por ela.
Em seguida, decidiu:
— Agora preciso ir.
Foi então que Abner falou:
— Sua mãe me chamou para almoçar lá amanhã, mas será melhor deixarmos para outro dia.
Diga a ela.
— Não. De jeito nenhum — decidiu a irmã.
Você me deixa na casa do pai e vai lá almoçar.
Virando-se para ela, Davi convidou:
— Eu gostaria muito que você conhecesse minha mãe.
Quer ir lá amanhã?
Será um prazer imenso para nós.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:04 am

— Bem... — ela titubeou.
— Vamos, Simone.
Você vai gostar da dona Janaina — insistiu o irmão.
— Mas não para almoçar.
Vou só dar uma passadinha para conhecê-la.
Abner e Davi se entreolharam e sorriram.
Sabiam que não seria só uma visita rápida.
E o irmão apoiou:
— Então está bem.
Só uma passadinha.
— Até amanhã — despediu-se Davi, aproximando-se de Simone e beijando-a no rosto.
Olhando-a nos olhos, afagou-lhe a face com carinho, depois recomendou:
— Cuide-se, hein!
E cuide também desse garotão.
Oferecendo um sorriso singelo e triste, agradeceu:
— Obrigada por tudo.
Você me ajudou muito.
— Então se cuide, querida — reforçou.
Após Davi ir embora, o silêncio reinou por algum tempo até ela observar:
— Tem certeza que vocês dois são homossexuais?
O irmão riu com gosto e perguntou:
— Por que diz isso?
— Porque não parece.
Não parece mesmo.
Eu seria capaz de apresentar uma amiga a você ou querer que a Rúbia namorasse o Davi.
— Homossexuais não precisam ter trejeitos.
— Vocês dois são tão bonitos — expressou-se com voz suave e jeito meigo.
Abner achou graça e ela comentou:
— Você saiu ao pai, só que bem mais alto.
Pele clara, olhos cor de mel, cabelos castanho-claros...
Já eu e a Rúbia puxamos à mãe.
Somos mais morenas...
Ao vê-lo sorrir sem dizer nada, perguntou:
— A mãe dele sabe de vocês?
— Que somos homossexuais? Sim.
A mãe, o irmão e alguns parentes sabem sim.
E que namoramos também.
— Não houve nenhuma discriminação ou preconceito por parte da família dele, quando assumiu ser homossexual?
— O Davi conta que foi bem difícil no começo.
O pai era vivo e não queria falar no assunto.
Apesar disso, respeitava-o, tratava-o igual ao irmão.
Mas não queria conversar a respeito.
Quando o assunto surgia, o pai se retirava.
A dona Janaina, acho que como a maioria das mães, nesse caso, foi mais compreensiva.
Nunca o desrespeitou.
É uma mulher muito amorosa.
— E quando foi que vocês dois...
Como eu posso dizer... começaram a namorar?
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:04 am

— Eu frequentava o consultório dele e do irmão.
Nós nos tornamos colegas.
Depois fiz as plantas de arquitectura para a reforma do consultório.
Comecei a frequentar a casa deles... Ficamos amigos.
A dona Janaina gosta muito de mim.
Nunca falamos nada a respeito de nosso relacionamento com a família dele.
Nunca ninguém presenciou qualquer intimidade entre nós.
Só fomos aparecendo sempre, um em companhia do outro.
Os mais chegados, que sabiam que éramos homossexuais, deduziram estarmos juntos, conhecendo-nos melhor, namorando.
— Creio que seja mais difícil quando a pessoa é homossexual e parece hétero.
— Também acho.
Quanto mais tarde a pessoa se descobre ou assume ser homossexual, maior o impacto para ela e para os outros.
Quando se tem jeito, fala, vestimenta, aparência diferente desde a infância ou adolescência, parece que fica mais fácil, ninguém se assusta quando o vê com alguém do mesmo sexo.
— Confesso que é bem estranho ouvir isso de você.
Justamente pela falta de trejeitos, algo nunca apresentado.
Breve pausa e quis saber:
— Se a família dele sabe, então... me conta, como vocês foram se apresentando para eles?
Houve preconceito?
— Foi assim: nós nos conhecemos, ficamos colegas, amigos e logo após o acidente com o Cristiano, nós começamos a aparecer mais vezes juntos e todos foram notando, principalmente a mãe dele.
Ninguém nunca nos criticou ou fez algum comentário, pelo menos na nossa frente não, pois não demos motivos para que o fizesse.
Com o tempo, foram se acostumando connosco.
— Abner, desculpe minha curiosidade, é que quero conhecer melhor você.
O irmão sorriu e ela perguntou:
— Você namorou antes com outro rapaz?
— Namorei sim — respondeu simplesmente.
— Então, se tiver certeza do que quer...
Falando em termos de sentimento...
Ela não sabia como se expressar, mas organizou as ideias e indagou:
— Se houvesse a união estável entre homossexuais, o chamado casamento gay, você se casaria?
— Casaria sim. Existe um sentimento muito forte entre nós dois.
Isso nos leva a não querer desamparar um ao outro, em qualquer circunstância.
Acredito que seja importante os homossexuais terem deveres e direitos perante eles mesmos e à sociedade.
A homossexualidade sempre existiu desde que o mundo é mundo.
Por séculos pessoas vêm se maltratando, sofrendo, sentindo-se culpadas por terem nascido com essa orientação sexual, com essa condição sexual.
Escondem-se para não serem rejeitadas, assassinadas, ridicularizadas, humilhadas.
Nos últimos tempos, com muitos grupos reivindicando liberdade e direitos, chegou a hora de nos libertarmos e também exigirmos nossos direitos.
E preciso acabar com o preconceito e com a discriminação contra GLBT — Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgénicos.
Da mesma forma como existem leis contra o preconceito racial, contra o preconceito por pessoas portadoras de deficiência e outros.
Somos todos seres humanos.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:05 am

Uns diferentes dos outros, criados por um único Deus, o mesmo Pai.
É preciso acabar com o bullying1 na escola, com o preconceito no trabalho, com as discriminações na rua, seja pelo que for.
Chega de sofrimento para todos.
Saiba que não é uma situação confortável para nós, homossexuais, ver que somos rejeitados por pessoas por conta de suas ignorâncias, rejeitados por irracionais dogmas religiosos e pessoas que se dizem conservadoras repletas de concepções de falsa moral.
Sabe... eu comecei a estudar um pouco a Doutrina Espírita e se todos procurassem conhecer um pouquinho sobre reencarnação, não haveria preconceito.
Hoje nascemos homem; amanhã,
No passado, pode-se ter sido homossexual e hoje heterossexual.
Pode-se ter sido negro, hoje branco, índio. Não sei.
Alguém que foi rico e abusou do que possuiu, espezinhou, usurpou, foi fraudulento, mesquinho, ganancioso, hoje nasce pobre e sem condições de melhorar de vida, vive dependendo de doações dos outros e das concessões do governo como vale-isso e aquilo, bolsa aquela e outra.
— E alguém que mutilou, maltratou, foi carrasco ou maltratou o próprio corpo com drogas e outros abusos, pode nascer com o corpo doente, sequelado...
Como o meu filho — disse triste.
Abner foi para junto da irmã e, acomodando-se ao seu lado, falou em tom brando:
— Não tente descobrir agora o motivo de isso ter acontecido.
Só vai lhe causar sofrimento.
Se fosse para saber, já saberia.
Se for um resgate, pense que já estamos resgatando.
Sabe, Simone, acredito que sou homossexual por precisar reparar algo do passado.
Ou cheguei ao ponto de compreender e sentir amor por todos, independente do sexo.
Não sei. Pensei, no início, que eu deveria me abster do sexo, sublimar essa energia.
Reflecti muito sobre isso e concluí o seguinte:
não sou um homossexual promíscuo, não me prostitui nunca.
Quando apareceu alguém, pensei: e agora?
Nós nos damos bem, nos gostamos.
Então decidi ter uma boa moral, ter integridade.
Não vou sair por aí com um e com outro.
Porém tenho o direito de ser feliz com alguém que eu amo, que me ama.
Nós nos respeitamos.
Por alguma Lei de Deus, que desconheço, se for para eu me abster do sexo, sinto muito, hoje, nesta vida, ainda não consigo.
No entanto, vou ter a consciência tranquila por não me prostituir.
Não vou pensar no passado nem no futuro.
Vou viver o melhor para minha consciência, agora.
Respeitando a mim mesmo acima de tudo.
— O mais importante é cada um cuidar de si mesmo e deixar a vida dos outros em paz.
Abner sorriu e a envolveu com carinho, beijando-lhe o alto da cabeça.

1. (Nota da Autora Espiritual — Bullying é um vocábulo em inglês empregado para descrever actos de violência física ou psicológica, propositais, intencionais e repetidos, realizados por um ou mais indivíduos, com a intenção de intimidar, humilhar ou agredir o outro ou outros que não têm condições de se defenderem).
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:05 am

7 - A DECEPÇÃO DE RÚBIA

NO DIA IMEDIATO, Abner e Simone chegaram à casa de Davi onde foram recebidos com muito carinho.
Dona Janaina era uma senhora muito simpática, estatura baixa, mulher miúda, bem magrinha, muito ágil e animada para os seus sessenta e dois anos.
Cabelos curtos e bastante grisalhos para sua idade, bem tratados, pois os fios brancos tinham um suave azulado que lhe davam um tom clássico, todo especial.
Seu rosto bonito e alegre era marcado pelas linhas de expressão, sinais do tempo e das experiências de vida.
Após as apresentações, Abner perguntou:
— Eu ia telefonar ontem para saber, mas fiquei conversando com minha irmã e, quando olhei no relógio, já estava bem tarde.
E o Cristiano, chegou bem?
— Chegou bem.
Agora está no banho.
Ontem esse menino sumiu e me deixou doida.
Fiquei tão preocupada!
Ele sempre me avisa, mas, ontem, não me avisou e demorou muito.
— Quando eu cheguei aqui em casa, o Cris chegou junto comigo.
Nem precisei chamar a polícia ou o exército — brincou Davi.
Mudando de assunto, dona Janaina quis saber, falando em tom agradável:
— E quanto a você, filha.
Está bem? A gravidez está bem?
— Estou bem, graças a Deus.
— Já sabe o que é?
— Um menino... — ao responder, seus olhos ficaram marejados e sua voz embargou.
Olhou para o irmão como um pedido de socorro.
— Eu disse algo errado? — tornou a senhora ao ver sua reacção.
— Não. De forma alguma — afirmou Abner.
É que ela está um pouco sensível e...
— Está tudo bem com o nené? — interessou-se a mãe de Davi, novamente.
Simone não suportou e recostou o rosto no ombro do irmão que a envolveu e explicou:
— O nené apresenta a Síndrome de Patau.
É um problema genético que traz sérias consequências para sua saúde física e mental.
— Sinto muito — lamentou a senhora aproximando-se e afagando-lhe o braço.
— Está sendo muito difícil para mim.
Não só o problema do meu filho, mas... a não aceitação do meu marido.
Como o meu irmão disse, estou bem sensível, preocupada, e ainda não tenho o apoio que esperava do Samuel.
Entre outras coisas.
O pior de tudo é que a criança com essa síndrome que chegam a nascer viva têm uma expectativa bem curta de vida.
A Síndrome de Patau é muito triste para a criança e para os pais.
— Bom dia — cumprimentou Cristiano, de modo tímido e com voz baixa, ao chegar à sala.
Era o filho mais novo de dona Janaina.
Tratava-se de um rapaz alto, com seus 1,80 cm de altura, corpo bem torneado, pele branca, cabelos pretos, lisos, teimosos e escorridos.
Olhos escuros, barba bem cerrada que, escanhoada, dava-lhe um tom azulado na face alva.
Ele experimentava sérios transtornos de origem psicológica desde o acidente que sofreu.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:05 am

Por essa razão, apresentava-se sem sorrir e um tanto constrangido.
Após os cumprimentos e as apresentações, o rapaz perguntou de forma simples:
— Que criança nasceu com Síndrome de Patau?
— Ainda não nasceu — respondeu Simone olhando-o com semblante triste.
— Como pode ver, estou grávida e meu filho tem essa síndrome, que é muito rara.
Você a conhece ou já ouviu falar?
— Sim, conheço sim.
De facto é uma síndrome rara.
Fui voluntário em uma instituição que cuida e assiste crianças com essa e outras deficiências.
Eu prestava tratamento odontológico lá.
Realmente é algo que choca os que não estão preparados.
— É meu primeiro filho.
Não está sendo fácil para mim.
Ao vê-la triste, dona Janaina animou-se em mudar de assunto.
— Estou fazendo uma lasanha especial para nosso almoço.
Você é a primeira pessoa da família do Abner que vem nos conhecer, por isso merecemos um almoço bem especial.
— Não quero incomodar nem dar trabalho.
— Não é incómodo algum.
Apesar de um tanto constrangida, Simone gostou da recepção e do acolhimento de todos.
Sentiu-se bem em companhia da senhora tão amável.
Após o almoço agradável, a conversa salutar a fez até se esquecer de suas dificuldades.
Bem depois, ela ocupou um lugar no sofá reclinável e adormeceu assistindo à televisão.
Sobressaltou-se quando sentiu uma leve mantinha recostar em sua pele.
— Desculpe-me. Não quis assustá-la — pediu Cristiano que a cobria.
— Não... Não devo dormir.
Preciso ir embora.
— O Abner, minha mãe e meu irmão estão resolvendo um problema no encanamento da pia da churrasqueira.
Acho que vai demorar — sorriu e brincou, coisa difícil de vê-lo fazer nos últimos tempos:
— Os três são técnicos altamente qualificados para o serviço.
Por isso nem fui ajudá-los.
Ela sorriu e perguntou:
— Você é dentista e tem consultório junto com o seu irmão, não é?
— Sim, é... mas...
Não estou actuando.
— Disse que tratou de crianças com Síndrome de Patau?
— Foi por uns três ou quatro anos somente.
Depois precisei parar.
— Eu admiro muito o trabalho voluntário.
Se ouvi falar dessa síndrome, não me lembro.
Não devo ter dado importância.
Tomei um susto enorme.
Pensei em tratamento, cura, mas descobri que não existe nada que a amenize.
Isso acabou comigo, com meu marido e até...
— Até?... — quis que continuasse.
— Acabou até com o meu casamento.
Meu marido não aceitou.
Está revoltado e foi procurar consolo nos braços de outra.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:06 am

— Nossa!... — exclamou com voz grave e em tom baixo.
Imagino o quanto deve ser difícil, contudo devemos aceitar e fazer a nossa parte quando não temos nada a acrescentar.
— Cristiano — interessou-se ela —, minha primeira faculdade foi de Enfermagem, mas não abracei a profissão.
Desisti. Ao terminá-la, fui fazer Economia.
Algo completamente diferente.
Desliguei-me totalmente da área da saúde.
Já vi crianças com problemas especiais, mas nunca vi, pelo menos não me lembro de ter visto, especificamente, uma criança com Síndrome de Patau, a não ser pela internet quando pesquisei a respeito.
Eu entendi que você conheceu bem de perto uma criança com essa síndrome e...
Estava nervosa.
Queria perguntar, porém temia a resposta.
— Sabe me dizer se é muito difícil ou...
Como é a vida de uma criança assim e a vida de seus familiares?
— Eu não sei dizer se o termo certo é grau.
No entanto, para nos entendermos, eu diria que existem diferentes graus no que diz respeito a essa síndrome.
Algumas nascem com muitas deficiências que são bastante comprometedoras.
Tanto que não têm muito tempo de vida.
Isso você sabe.
— Sei.
— Outras, com menor grau de comprometimento, vivem por mais tempo.
A grande maioria tem fenda labial e palato fendido, isso provoca sérios problemas na arcada dentária, se houver, quando atingem certa idade.
— O que você chama de certa idade?
—Nos que conseguem chegar à idade para a primeira dentição e, se houver, uma segunda dentição precoce.
Os dentes são prejudicados, bem fracos e o tratamento odontológico é bem difícil.
É preciso sedar a criança.
— Diga-me uma coisa, se é que você sabe.
Essas crianças são como vegetais? Ou entendem alguma coisa?
— Eu creio, piamente, que todas entendem e sentem sim.
Em diferentes graus, lógico.
Entretanto, sem dúvida, todas entendem.
Eu percebia que, apesar do retardamento mental, elas tinham noção do que acontecia e eram capazes de nos reconhecer, de nos sentir.
Além disso, passavam seus sentimentos e desejos.
Todas tinham vontade própria.
— Meu marido acha que não sentem nada.
Ele diz que não devemos nos apegar.
Chegou a comentar que era para eu considerar essa gravidez uma doença e que em alguns meses eu iria me recuperar e... — sua voz embargou e conteve o choro.
— É uma vida.
É um ser que cresce e, quando nascer, precisará de cuidados, de alimento e, consequentemente, precisará de amor e atenção.
Ainda digo que é necessário amá-lo desde agora.
— Eu gostaria de entrar em contacto com crianças assim.
Você acha aconselhável?
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:06 am

— Por que você quer isso? — surpreendeu-se.
— Para saber, desde já, com o que vou lidar.
Quero ter uma noção mais viva, prática e real de como é ter nos braços uma criancinha assim.
— Não vejo nada de errado, se estiver preparada.
Como eu disse, não é algo fácil, pois não é comum de se ver.
— Mas eu vou ter de ver, encarar e lidar com meu filho, não é mesmo?
— Será que isso não a fará sofrer antecipadamente?
— Será que sou capaz de sofrer mais?
Diante do silêncio, Simone pediu:
— Você pode me dar o endereço dessa instituição?
— Posso até ir lá com você, se quiser.
— Quero sim. Se alguém estiver comigo, vou me sentir mais segura.
— Amanhã posso telefonar para lá e confirmar o horário de visita.
Faz algum tempo que não entro em contacto com eles.
De repente, teve alguma alteração.
— É longe?
— Não. Fica no bairro vizinho.
Perto de onde temos o consultório.
Você pode deixar o número do seu celular?
Assim que eu tiver qualquer informação, ligo para combinarmos um horário.
Cristiano pegou seu celular, anotou o número do telefone de Simone e salvou, prometendo:
— Pode deixar que eu ligo e agendo para irmos.
— Isso vai me ajudar muito.
— Espero que sim.
Está sendo muito corajosa.
Lá vai encontrar também crianças com outras síndromes e deficiências.
Todo trabalho realizado é muito bom.
Eles têm actividades físicas, para os que podem.
Jogos, brincadeiras, fisioterapia, psicomotricidade, terapia ocupacional e muitas outras coisas.
A maioria dos que abraçam a tarefa são voluntários:
médicos, dentistas, pedagogos, professores, psicólogos, mas isso não exclui tarefeiros voluntários preciosos que não têm formação universitária.
Esses auxiliam com alguns cuidados, brincadeiras, leituras...
Na maioria das vezes, são aposentados ou pessoas com algum tempo livre.
Ou ainda gente de boa vontade que faz questão de tirar algumas horas de seu tempo para ajudar o próximo.
— As crianças que estão lá são internas?
— Algumas sim.
Trata-se daquelas que foram abandonadas pela família, infelizmente.
Outras têm família, mas sem condições de lhes oferecer os tratamentos e os cuidados necessários.
Como o transporte de ir de casa para a instituição fica difícil e dispendioso, essas crianças vão para junto da família somente nos finais de semana e feriados, pois os pais trabalham.
Somente um número muito reduzido chega lá pela manhã e vai para casa no início da noite, pois moram mais perto.
— Eles ficam todos juntos?
— Não. São separados por idade e também pelas necessidades, pelo tanto que dependem de outras pessoas.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:06 am

— Interessante.
Nunca conheci trabalho assim.
— Existe e é um trabalho lindo.
— Por que se afastou? — perguntou com simplicidade.
— Sofri um acidente.
Estou em tratamento psicológico ainda.
Não consegui superar totalmente o trauma.
É algo involuntário, pois sempre gostei do meu trabalho, mas não consigo realizá-lo.
Quando tentei, entrei em pânico, passei mal e não consegui.
— Tentou voltar quantas vezes?
— Duas, três...
Quando insisti, passei tão mal que entrei em uma crise de pânico muito intensa.
Quase desmaiei. Depois entrei em depressão.
Foram sintomas psicossomáticos que demoraram meses para aliviar, por isso temo tentar novamente.
Não sei o que aconteceu comigo.
Sempre gostei do que fiz.
— Já pensou em fazer outra coisa?
— Estou pensando nisso.
Matriculei-me em um curso de paisagismo e jardinagem.
— Paisagismo e jardinagem?! — Admirou-se e sorriu.
Nossa! Que área diferente.
Para quem fez odontologia...
— Sempre gostei.
Acho que vou fazer para ocupar o meu tempo.
Estou cansado de tratamentos médicos, psicológicos e de fisioterapia.
Sabia que fiz mais de duzentas sessões de fisioterapia até agora?
— Está brincando?!!
— Não mesmo.
Acho que já fiz fisio para o corpo inteiro.
— Você parece tão bem.
— Mas não estou nos meus cem por cento.
Ainda tenho limitações.
Passei por quatro cirurgias após o acidente.
Fico apavorado só de pensar em hospitais e médicos.
— Entendo...
E o seu trabalho também é na área da saúde.
— Verdade.
O assunto de ambos foi interrompido pela conversa dos que se aproximavam.
— E aí? Consertaram tudo? — perguntou ela ao ver o irmão.
— Nem pensar.
O encanamento está vazando dentro da parede.
Mas isso é simples — respondeu Abner.
— Simples para quem entende do assunto, tem as ferramentas e materiais apropriados — disse Davi em tom alegre.
— No meio da semana, eu trago um dos rapazes que trabalham com hidráulica na obra e ele faz o serviço.
— Obrigado, filho — agradeceu dona Janaina.
Faz tempo que aquilo está com problema.
Por isso o registo de água daquela torneira fica fechado o tempo todo.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:06 am

Só que isso me deixa sem água na outra torneira do quintal também.
— Ah, mãe, já disse para a senhora chamar alguém.
Não sei mexer naquilo nem gostaria de tentar.
Não posso machucar minhas mãos.
Preciso muito delas.
Da última vez que me meti a fazer um serviço desse tipo, acabei com um corte enorme e fiquei quase três semanas sem poder trabalhar.
Por sorte, na época, o Cristiano tratou dos meus pacientes que não podiam esperar. — disse Davi.
Abner olhou para a irmã e chamou:
— Vamos?
— Sim, vamos.
— Está cedo. Fiquem mais um pouquinho.
Vou fazer um cafezinho e um bolo.
— Não, dona Janaina. De jeito nenhum.
Comi muito hoje.
Não aguento mais nada — falou Simone.
Levantando-se, aproximou-se da senhora e agradeceu:
— Muito obrigada por tudo.
Passei uma manhã e um início de tarde muito bons.
O melhor dos últimos meses.
Senti-me muito bem em sua casa e adorei a senhora e seus filhos.
Aliás, o Cristiano vai me acompanhar até a instituição onde prestou assistência a algumas crianças e, se for possível, no dia em que formos lá, darei uma passadinha aqui para vê-la.
— Você vai lá?! — expressou-se a mulher admirada e preocupada.
- Vou sim. Eu preciso — tornou convicta.
Dona Janaina olhou para Cristiano, que considerou:
— Ela quer conhecer.
De repente, vai lhe fazer bem.
Vendo o mesmo assombro no rosto do irmão, Simone disse:
— Não se preocupe comigo.
Estou querendo me preparar para receber meu filho.
Não quero surpresas.
Preciso viver a realidade, seja qual for.
Ninguém disse nada e, após um instante, decidiu:
— Bem... Preciso ir.
Obrigada a todos por me proporcionarem um dia tão agradável.
— Volte quando quiser, filha.
Precisamos conversar mais.
Ah! Tenho umas receitas de casaquinhos e sapatinhos de lã que são lindas.
Vou fazer algo para o seu nené. Deixe comigo.
Comovida, Simone ofereceu singelo sorriso e a abraçou novamente.
Em seguida, despediram-se e se foram.
Ao se ver a sós com Davi, a mãe demonstrou-se surpresa e comentou:
— Não acredito que o Cris vai acompanhar a Simone lá na instituição.
— Nem eu. Todas as vezes que o convidei para voltarmos lá, ele passou mal.
Teve um dia que chegamos até a porta e quase desmaiou.
Tivemos de voltar.
Minha intenção era que o Cris se animasse em prestar alguma assistência, coisa que gostava tanto.
Trabalhos voluntários, em casos como o dele, ajudam muito o estado psicológico.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 05, 2017 9:07 am

— Sei disso.
Foi estranho, agora há pouco, quando olhei para o seu irmão, ele estava tão seguro.
Que estranho.
— De repente, chegou o momento de ele reagir e, talvez, para isso não precise do nosso apoio.
Talvez, até necessite estar no comando, no controle da situação.
No caso, ele é quem vai, sozinho, levar a Simone que está fragilizada, sensível.
Isso será óptimo, pois é ele quem terá de ser forte para dar a ela o exemplo, controlar a situação.
— É mesmo.
Então não vamos dizer nada.
* * *
A caminho da casa de seus pais, Simone não parou de elogiar dona Janaina e os filhos.
Abner ouviu-a com satisfação e acrescentou comentários generosos àquela família.
Ao chegarem frente à casa de seus pais, ela chamou:
— Vamos entrar.
— De jeito nenhum.
— Abner, a mãe vai gostar de vê-lo.
— Mas o pai não.
— Quer dizer que nunca mais vai visitar a mãe de novo?
— Não sei. Nunca é algo muito definitivo.
Digamos que, por enquanto, não dá.
Beijou-lhe o rosto, sorriu e desceu do carro para pegar as bolsas com as roupas da irmã.
Quando estava em frente ao portão, ele perguntou:
— Você quer que eu fale com o Samuel?
— Não. Não faça isso.
Por favor.
— Talvez, quem sabe...
Uma conversa pode ajudar.
— Não, Abner.
O que vou fazer é procurar pelos meus sogros e lhes contar tudo.
Preciso fazer isso o quanto antes.
— Outra coisa...
Tem certeza que quer ir à instituição com o Cristiano?
— Tenho toda a certeza do mundo.
Quero sim. Se eu não quiser ver outras crianças, como vou olhar par o meu filhinho?
Vou lá sim. Com o Cristiano ou sem ele.
Amanhã ou depois vou a minha casa pegar meu carro, para não depender de ninguém e tomar uma atitude quanto a minha realidade.
Não sei o que me deu hoje, senti-me bem fortalecida depois das nossas conversas, depois que conheci dona Janaina.
Eles lamentaram a condição do meu filho, mas não o viram como coitado.
Nem me trataram como coitadinha.
Admirei quando a dona Janaina disse que iria fazer casaquinho e sapatinhos para ele...
Tratou-o de modo normal.
Não ficou pensando se nasceria vivo, como nasceria ou por quanto tempo viveria.
— Isso se chama viver o momento.
É importante não lamentar o passado que não foi bom ou fazer dele um baú de lembranças boas que se foram e não voltam mais, vivendo-o constantemente para fugir da realidade.
Também é importante não viver ansioso, preocupado com o futuro, com situações que ainda não aconteceram e, provavelmente, não vão acontecer.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 06, 2017 9:33 am

A pessoa é mais equilibrada e mais feliz quando vive o presente, um dia de cada vez, procurando acertar.
Fazendo o melhor por si e pelos outros hoje, no aqui e agora.
Não acumulando tarefas para o amanhã nem vivendo do passado.
— É verdade.
Acabei de entender bem isso.
Obrigada, Abner.
Obrigada por tudo — ela abraçou-o com força e muito carinho.
— Quando precisar de mim...
Sabe onde e como me encontrar.
— Obrigada.
* * *
Após entrar na casa de seus pais e lhes contar tudo o que aconteceu entre ela e o marido, Simone decidiu ir para o quarto da irmã.
Parada à porta, viu Rúbia sentada em sua cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos.
Segurava o celular com uma das mãos, usando a outra para abafar a voz.
Estava com os cabelos caídos nas laterais do rosto e falava quase sussurrando:
— Precisamos conversar!
O que está acontecendo para você agir assim?!
Breve pausa em que ouviu, depois perguntou:
— É sua mulher, não é?
É ela quem está pegando no seu pé?
Outra pausa e falou:
— Você disse que viviam na mesma casa, mas que estavam separados de corpos.
Não interessa! Você tá diferente!
Cade o divórcio que ia agilizar?
Precisamos conversar com urgência!
Preciso falar com você. É sério!
Novo silêncio.
- Geferson, preste atenção: eu não vou segurar essa barra sozinha!
Onde estão os seus sentimentos por mim?
Onde está a sua jura de amor? — Silêncio.
— Sou capaz de fazer uma loucura!
Conto tudo para a sua mulher!
Simone sentiu-se gelar ao deduzir sobre o que a irmã falava.
— Geferson?! Geferson?! Alô!
— Com quem você estava falando?
Com quem falava desse jeito?
Simone perguntou firme, encarando-a com olhar repressor ao aproximar-se e rodeá-la.
Após o sobressalto, a irmã demonstrou-se nitidamente nervosa e se descontrolou.
— Não vem não, Simone!
O que você quer?
— Quero saber com quem conversava.
Por que disse que ia contar tudo para a mulher dele?
É o que estou pensando?
Rúbia viu-se acuada.
Não sabia o que dizer.
Não tinha como mentir ou disfarçar e começou a se desesperar.
Trémula, foi até a porta, fechou-a e, nitidamente abalada, contou:
— Comecei namorar um cara.
Ele é director onde trabalho.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 06, 2017 9:34 am

Foi com ele que o Abner falou para conseguir uma entrevista para mim.
Alguns segundos e prosseguiu com jeito aflito ao torcer as mãos.
— Eu não sabia, juro que não sabia...
Até que uma amiga me contou que ele era casado.
Então... Ele não vive bem com a mulher e já estão separados.
Só vivem na mesma casa.
— Separados que vivem sob o mesmo tecto?! — falou insatisfeita, contrariada.
— Sim, mas...
Simone nem a deixou terminar e perguntou irritada:
— E você caiu nessa?!
Eu não acredito! — caminhou alguns passos negligentes, passando as mãos na cabeça de modo inconformado.
— Não é o que está pensando.
A mãe dele é doente e não aceita a separação.
Eles só dividem a mesma casa e...
— Duvido! Duvido muito!
Quando acaba o amor, duvido um homem e uma mulher viverem na mesma casa, principalmente com a condição financeira dele.
Afinal, é director da empresa, ganha bem.
A esposa deve trabalhar e...
Rúbia! Você ficou louca?!
— Você não entende!
— Lógico que não!
Não entendo como você, uma moça esperta, inteligente, foi cair nessa!
Um homem que está casado e vive com a mulher sob o mesmo tecto não vai terminar o casamento por sua causa nunca!
Se fosse para se separarem, se divorciarem, já o teriam feito!
— Não é assim.
— Como não é assim?!
Esse cara só quer te levar pra cama, te enganar, sair com você por exibição, te usar.
Só que depois de te usar como bem quiser, ele vai te descartar e voltar para a mulher.
É com ela que ele dorme todas as noites!
Você não passa de um objecto.
Não passa de ser a outra, a leviana.
Não passa de ser alguém vulgar com quem ele varia o cardápio.
Sendo assim, esse cara nunca vai querer um compromisso oficial com alguém vulgar.
Expressavam-se nervosas, quase gritando.
Porém tentavam abafar a voz para não serem ouvidas.
— Não diga isso!
Não é verdade!
— Você está sendo vulgar!
Como pôde se prestar a um papel tão baixo, tão pobre, tão nojento! — revoltou-se.
O meu casamento está sendo destruído por uma outra que não é diferente de você.
— Você está me ofendendo!
— Você é quem não se valoriza.
Deveria ter tido coragem e dito não, no momento em que descobriu toda a sujeira em que se meteu.
Fomos criadas com boa moral, com princípios.
Inconformada, caminhou sem rumo pelo quarto, mas não conseguiu se conter e prosseguiu:
— O sujeito é um cafajeste, um safado...
Garanto que ele deve viver muito bem com a esposa e até com os filhos.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 06, 2017 9:34 am

Pensou e perguntou:
— Ele tem filhos?
— Dois.
— Rúbia! O que deu em você?!
— Não fale assim comigo.
Não sabe como tudo aconteceu.
Nós nos amamos.
Com jeito e tom irónico, Simone questionou indignada:
— Ah, é! Se amam?!
Você está dizendo que se amam para convencer a quem?
Convencer a mim ou a você?
Nenhuma resposta.
— Do jeito que a vi falando com ele, ainda há pouco, como é capaz de me dizer que existe algum sentimento de respeito entre vocês dois?
Sem ouvir a irmã se defender, após concatenar as ideias, perguntou:
— O Abner sabe disso, não é mesmo?
Ele sabe e foi chamar sua atenção.
Por isso o ofendeu e acabou deixando o pai saber sobre ele, não é mesmo?! — foi firme.
— Ele soube sim — tornou Rúbia agressiva.
Quem é ele para dizer se estou certa ou errada?
— Ele é alguém que tem moral.
Nosso irmão não é leviano, cafajeste ou canalha como você e o tal de Geferson estão sendo.
— Ah, não?!
— Não! No caso dele não existe uma esposa traída, filhos enganados, lar destruído.
Se nosso irmão se envolveu com alguém, nenhum dos dois é comprometido, não tem ninguém sendo traído ou ferido nessa história.
E quanto a você?
Como pode ir pra cama sabendo que está usando um homem que é de outra e, assim que te deixar, vai voltar a dormir e a se relacionar com ela?
— Cale a boca!
— Não vou calar não!
Como é que não fica imaginando os dois juntos após ele te deixar?
Estou com nojo de você!
Traição magoa e sempre faz alguém se sentir um lixo.
Enquanto vocês dois estão rindo e se divertindo, jantando fora e passeando, a esposa dele está lá cuidando da casa, dos filhos, administrando a vida de toda a família.
Imagine-se como esposa de um homem e, de repente, aparece uma vagabunda para tirá-lo do lar, para destruir tudo o que construíram, destruir sonhos, conquistas...
Destruir um lar!
Pensa e se põe no lugar da outra e vai saber o que é se sentir trouxa, idiota!
Se bem que você já está sendo a trouxa e a idiota por perder o seu tempo e a sua juventude.
Breve pausa e perguntou:
— Sabe qual é o pior em tudo isso?
Não ouviu resposta e prosseguiu:
— O pior em tudo isso é que, se ele faz isso com a esposa, com quem tem um compromisso perante a lei e diante de Deus, imagina o que não fará com você, que não passa de uma qualquer, de uma aventura leviana?!
O que ele faz com a esposa, fará bem pior com você, se um dia ficar ao seu lado.
— Sai do meu quarto! Fora daqui!
— E lógico que eu vou, para que fique sozinha com sua consciência triste e infeliz.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 06, 2017 9:34 am

Duvido que possa se sentir bem com o que fez e está fazendo.
Dizendo isso, Simone virou-se e saiu deixando a irmã sozinha.
Confusa, decepcionada consigo mesma, Rúbia pegou o travesseiro, jogou-o longe, atirando-se de bruços sobre a cama.
* * *
Com o passar dos dias, Rúbia não se conformava com o comportamento estranho de Geferson e começou a pressioná-lo.
Não suportava mais ficar envolvida em uma situação tão instável e desagradável.
— Você está me enganando, está me usando, fazendo com que eu perca minha juventude.
Só está me fazendo perder tempo.
— Pare com isso.
Estou cansado das suas exigências.
— Exigências?!
Você disse que ia pedir o divórcio, mas, até agora, nada.
Disse que iria contar para a sua mãe, mas não contou.
Sempre arranja uma desculpa.
Eu já avisei que não quero ser a outra.
Isso está me incomodando.
— Você não está sendo compreensiva.
— Não mesmo. Chega!
Não podemos mais continuar desse jeito!
— Se acha isso mesmo...
Geferson levantou-se de sua mesa e saiu da sala, deixando-a sozinha.
Rúbia sentiu-se muito mal.
Seus irmãos tinham razão.
Ela não passava de uma aventura.
Indignada, voltou para sua seção.
Na manhã seguinte, sem que esperasse, foi chamada ao sector de Recursos Humanos da empresa onde soube que foi demitida.
Incrédula, fez tudo o que precisava e foi até sua seção pegar suas coisas pessoais.
— Demitida?!
Você?! — perguntou Talita alarmada.
— Não me diga mais nada.
Não quero chorar.
— Erga a cabeça e respire fundo.
É uma surpresa desagradável, mas vai superar.
— Espero que sim.
Estou arrasada, desorientada.
Não sei o que fazer.
— O melhor é ir para casa e descansar — orientou Talita.
— Amanhã devo fazer os exames médicos...
Vou embora agora.
— Nem sei o que dizer, amiga.
Porém o melhor a fazer é ir para casa e descansar — disse, verdadeiramente angustiada, pois gostava da colega.
— Você me liga à noite?
Pra conversar um pouco...
— Ligo.
Despediram-se e Rúbia se foi.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 06, 2017 9:35 am

Ao chegar a sua casa, não foi agradável encarar os pais e lhes dar a notícia sobre sua demissão, principalmente pela pergunta pertinente:
— Por qual motivo te demitiram?
— Ora, pai... Eles nunca dizem.
— Você estava fazendo tudo certinho, não tava?
— Estava. Agora preciso de um banho.
Estou péssima. Quero descansar.
Entretanto o pior de tudo para sua situação, ainda estava por vir.
Rúbia realizou os exames médicos exigidos no momento da demissão e descobriu que estava grávida.
Procurando por Geferson, sentiu-se muito mal e humilhada ao ouvir:
— Livre-se dessa gravidez o quanto antes, entendeu?!
Você é uma irresponsável!
Ou, então, uma espertinha, oportunista!
Aquele golpe foi duro demais.
Ela não acreditou que fosse suportar.
Sem dizer nada, deixou-o sozinho no restaurante e se foi.
Chegando a sua casa, Rúbia foi para o seu quarto e não saiu mais de lá.
Não queria conversar com ninguém.
Também não foi atrás da documentação na empresa para saber como ficaria sua situação, a partir de agora.
— Filha, pelo amor de Deus, o que você tem?
— Nada, mãe. Quero ficar sozinha.
— Precisa se alimentar, sair desse quarto...
Perder o emprego não é o fim do mundo — dizia dona Celeste, procurando consolá-la.
Olha, toma essa sopinha que fiz pra você.
— Não quero.
— Está acontecendo mais alguma coisa além da demissão?
A filha começou a chorar.
Nesse instante, Simone entrou no quarto e sentou-se na cama ao lado da irmã.
Afagando-lhe os cabelos, perguntou:
— O que está acontecendo?
Podemos ajudar.
Somos sua família e a amamos.
— Ninguém pode me ajudar — balbuciou a outra.
— Conte o que está se passando com você, filha — insistiu a senhora.
Ela percebeu que não poderia esconder aquele fato de sua família.
Não por muito tempo.
Sentou-se na cama, secou o rosto com as mãos e contou num murmúrio:
— Estou grávida.
Dona Celeste procurou por um lugar e, sentando-se lentamente, balbuciou:
— Grávida? Filha...
— Você tem certeza? — tornou Simone.
— Tenho.
— E o seu namorado, filha?
Nós nem conhecemos esse moço — disse dona Celeste.
— Ele não quer o filho.
Disse para me livrar da gravidez.
— Meu Deus!
Ele tem que assumir o que fez.
Isso não pode ficar assim — preocupou-se a senhora.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 06, 2017 9:35 am

Nervosa, Rúbia confessou em meio ao choro:
— Ele é casado...
Não vai assumir nada.
— Minha Nossa Senhora! — alarmou-se a mãe.
— Calma, mãe. Não é o fim do mundo — falou Simone.
É uma situação difícil, mas não é o fim.
— E o seu pai?
Como vai ser quando ele souber?
Rúbia chorava e Simone respondeu:
— Ele vai ficar nervoso, bravo, mas terá de aceitar.
— Seu pai não vai aceitar.
Deus do céu! — enervava-se a mãe.
Filha! Como deixou isso acontecer?!
Com um homem casado?!
O que você tem na cabeça?!
— Pare, mãe. Pare com isso.
Agora eu já sei.
Está feito e não posso mudar nada.
Atordoada, a senhora saiu do quarto e, ao passar pela sala, o marido perguntou:
— E a Rúbia, comeu?
— Não.
Dona Celeste o observou por alguns instantes e decidiu contar antes que se acovardasse ou se torturasse por mais tempo.
— A Rúbia está arrasada.
Não só por causa da demissão.
Ela descobriu que está grávida.
— Ela está o quê?!!!
— Foi isso o que ouviu.
A Rúbia está grávida!
O senhor Salvador ergueu-se do sofá, encarou a mulher e perguntou furioso:
— Cade o desgraçado do namorado?!!!
— Ele não quer assumir o filho.
Ele é... Ele é casado — praticamente sussurrou.
— Eu mato a Rúbia!!! — berrou.
Safada! Sem-vergonha!
Furioso, ele xingou vários palavrões e foi em direcção ao quarto da filha.
Simone, vendo-o tão alterado ao entrar, pôs-se na frente do pai ou ele iria agredir sua irmã.
— Eu não criei uma filha para ser safada, vadia, leviana!!!
Você não é digna de morar nesta casa!!!
Depois de muito gritar e ofender, exigiu aos berros:
— Suma daqui!!! Suma!!!
Simone e dona Celeste tentavam contê-lo e arrastá-lo para a sala de onde ele gritou:
— Eu vou sair, mas se eu voltar e essa safada estiver aqui, eu mato ela!!! Eu mato!!!
Deitada em sua cama, Rúbia chorava encolhida e apavorada, ouvindo tudo.
Conforme falou, o senhor Salvador virou as costas e saiu.
Dona Celeste arrependeu-se de ter contado, mas já estava feito.
Sabia que o marido reagiria daquela forma de qualquer jeito.
De volta ao quarto, ao ver Simone sentada na cama ao lado da irmã afagando-a nas costas, acreditou que precisava acalmá-las e decidiu ir fazer um chá.
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Ave sem Ninho

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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 06, 2017 9:35 am

Na cozinha, enquanto a água fervia e lavava alguns ramos de erva-cidreira que apanhou no jardim, pensava aflita no que fazer.
Precisaria ser firme com seu marido, não iria admitir que expulsasse a filha, ainda mais naquele estado.
Já bastava Abner não ir mais visitá-la.
Sentia falta do filho, sentia-se mal com aquela situação.
Nesse instante, Simone chegou à cozinha, puxou uma cadeira e sentou-se à mesa.
Secando as mãos em um pano, a senhora aproximou-se perguntando:
— Filha, você está bem?
— Estou nervosa, mãe. Tremendo.
— Oh, meu Deus...
Você não pode passar nervoso.
O chá de cidreira está quase pronto e...
— Pensei que o pai fosse bater na Rúbia.
— Só não bateu por causa da gente.
Eu não deveria ter falado nada agora.
— Uma hora ou outra teria de contar.
— Como ela está?
— Chorou aquela hora que a senhora viu, depois ficou quieta.
Não disse mais nada.
— Como sua irmã pôde se envolver com um homem casado?!
Vocês tiveram uma boa criação.
Tiveram princípios, religião...
Será que ela ficou desorientada porque eu não paguei aquela promessa que fiz para que arrumasse um emprego?
— Ora, mãe, que absurdo!
Nossa Senhora não seria cruel para proporcionar um castigo só por não lhe ter pagado uma promessa.
Só me preocupo com uma coisa.
— O quê?
— Como vai ser quando o pai voltar?
— Deus vai ter de me dar forças para enfrentar seu pai.
Ainda mais embriagado, como ele vai voltar.
Ele não vai expulsar a Rúbia daqui de casa.
Não mesmo. — A senhora levantou, pegou o chá, que esfriava, adoçou-o.
Apanhou as xícaras e serviu Simone, dizendo em seguida:
— Vou levar esta xícara para sua irmã.
Chegando ao quarto da filha, para sua surpresa, não a encontrou.
Chamou-a no corredor, procurou-a no banheiro e em toda a casa.
Nem sinal dela.
— O que aconteceu, mãe? — quis saber Simone que foi ao seu encontro.
— Sua irmã sumiu.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 06, 2017 9:35 am

8 - O ENVOLVIMENTO ESPIRITUAL

AO SE ENVOLVER com um homem compromissado como Geferson, Rúbia não imaginava a amargura e as energias espirituais inferiores atraídas para si.
Não reconheceu os sinais espirituais chegados através da angústia, do incómodo na consciência cada vez que se lembrava que Geferson era casado.
Aqueles sentimentos eram um alerta, sinalizando o caminho infeliz trilhado.
Além disso, ignorava as companhias espirituais que se sustentavam de sua aventura no falso prazer e sua fuga às obrigações espirituais de contribuir com valores morais elevados para a ascensão do espírito humano.
Eram espíritos de baixo valor moral, levianos desejosos de alimento energético e maior número de encarnados a se juntarem a eles pelas exigências mais baixas.
Sofrendo a influência desses espíritos, recebia os estímulos deles por meio dos centros de forças — chacras — onde se situam o sexo e o estômago.
Quando fez sua escolha e decidiu ser adúltera, escolheu, mesmo sem saber, por companhias que desejava espiritualmente.
Acreditou poder viver uma falsa felicidade, pois Geferson a iludiu e ela se deixou iludir, deixou-se enganar.
Ninguém nos ilude sem a nossa permissão.
Isso aconteceu por não ter opinião própria, por não renunciar o lado inconsequente, por não ter se posicionado moralmente.
Não se é feliz, verdadeiramente, quando existe alguém traído, enganado ou prejudicado.
Não se é feliz quando se é irresponsável com a vida e com a felicidade alheia.
Um dia, certamente, o lado inconsciente da moral e da responsabilidade vai lhe bater à porta e a consciência vai lhe chamar para harmonizar o que desarmonizou.
Agora, após tanta decepção, resolvendo abandonar a conduta inadequada que teve, Rúbia tinha novas companhias espirituais, diferentes das anteriores.
Eram personalidades vulgares apegadas aos recursos energéticos inferiores, criados pela inevitável vibração de seus pensamentos e pela energia de tudo o que aconteceu.
Os obsessores do momento exigiam-lhe postura que nem mesmo eles puderam, em experiência terrena, praticar para a elevação moral e espiritual.
Eram espíritos adúlteros vivendo no círculo das aflições.
Julgavam-se educadores daqueles que se afastavam do melhor caminho a seguir.
Porém, negavam-se aos ajustes dos quais necessitavam com a própria consciência, acreditando que, ao punirem e fazerem sofrer os que se desviaram como eles, eles se livrariam do terror consciencial das cobranças, das harmonizações que precisavam.
Achando-se desamparada, Rúbia caminhava sem rumo.
Não podia ouvir, mas sentia na alma tudo o que os espíritos inferiores lhe desejavam.
Sua mente, então, insegura e fragilizada, imprimia-lhe tremendos conflitos e ideias mórbidas por causa das sugestões espirituais.
— Safada! Cachorra!
Vai, idiota!
Viu o que deu sair com homem casado?!
— Ê mesmo, vadia! — dizia outro, além de outros nomes ofensivos, deploráveis e impronunciáveis.
Agora tá aí, carregando um bastardo!
Safada! Você deveria morrer!
— Isso mesmo!
Sem-vergonha como você precisa morrer para encontrar a gente aqui!
Aí sim vai aprender! Vadia!
Morra, infeliz! Morra!!!
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 06, 2017 9:36 am

— Seu pai vai te matar!
Você não tem mais casa, nem lar, nem ninguém.
Aquele miserável traidor só soube te embuchar e te dar um pé!
— Morra, imbecil!
Essas e outras inspirações eram direccionadas à Rúbia que tinha, cada vez mais, pensamentos confusos e ideias conflituantes.
— Desgraçada!
Se ela tivesse sido enganada por ele, mas não foi.
Sabia e adulterava junto!
Queria construir a felicidade em cima da desgraça do lar alheio!
— É! Ele não tinha abandonado a família para ela ficar com ele!
É uma imunda!
Tipo de mulher que não vale nada!
Não tem moral!
* * *
Em sua casa, junto à igrejinha que tinha e onde colocava algumas imagens de santos católicos, dona Celeste acendeu uma vela à Mãe Santíssima e começou a orar.
— Minha Nossa Senhora, socorra minha filha.
Traga essa menina de volta, minha Nossa Senhora.
A Senhora é mãe e sabe o que eu tô sentindo.
Sabe o que é bom para os nossos filhos.
Ilumine a mente dessa minha filha...
Mesmo tendo o coração apertado, a mulher continuou em prece sentida, rogando luz e envolvimento para sua filha por longo tempo.
* * *
Rúbia não se importava em saber onde estava.
Havia caminhado muito quando a noite e uma garoa fina e fria começaram a cair.
Em meio a pensamentos confusos, surgiam ideias infelizes, inspiradas pelas companhias espirituais do momento.
"Seria melhor eu morrer.
Isso resolveria tudo.
Acabaria com todo esse sofrimento.
O que vou fazer sem emprego?
Sem família? Vou viver nas ruas?
É melhor eu morrer." — pensava.
Ela caminhava por uma ponte que se sobrepunha a uma avenida importante e com um trânsito bem movimentado, principalmente de caminhões.
Aproximando-se da mureta, apoiou os braços nela e ficou observando.
"Seria melhor eu pular o quanto antes.
Se não morrer na queda, um caminhão resolve tudo...
Tem que ser muito rápido... sem problemas.
Somente assim darei sossego a todo mundo, principalmente para o meu pai que, agora, tem tanta vergonha de mim.
Ele morrerá de remorso pelo que me falou...
O Geferson... Cachorro, desgraçado...
Me enganou, me abandonou...
Acabou com a minha vida...
Quero que ele morra de remorso pelo que fez comigo." — pensou, imaginando a reacção das pessoas.
As energias pela prece sentida de dona Celeste serviam como força protectora manipulada por entidades amigas para distanciar o alvoroço feito pelos espíritos inferiores que vibravam na mesma sintonia de Rúbia e alimentavam aqueles desejos.
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Re: MAIS FORTE DO QUE NUNCA - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 06, 2017 9:36 am

Sua mentora a envolvia, inibindo a acção daquelas personalidades malignas.
Contudo, os pensamentos inferiores continuavam por conta da falta de fé em Deus e esperança nas manifestações divinas que mudam toda uma trajectória quando decidimos nos erguer e agir melhor.
Vendo-a com ideia fixa naquele propósito infeliz, de por um fim em tudo, a mentora de Rúbia precisava agir rápido.
E assim o fez com a ajuda de outros amigos espirituais.
Aproveitando-se de um transeunte de boa índole que passava por ali, entrou em sintonia com o protector espiritual dele e, rapidamente envolveram o encarnado a uma acção quase involuntária, inesperada.
Resultando que o homem incomodou-se com a postura de Rúbia diante da mureta e seu olhar perdido para o panorama de veículos que passavam em alta velocidade lá embaixo.
Sem pensar muito no que fazia, o desconhecido aproximou-se dela e perguntou:
— Moça... Tudo bem?
Ela sobressaltou-se com leve susto.
Olhou-o surpresa, porém não disse nada.
— Tudo bem com você?
— Está — murmurou.
— Desculpe incomodar.
É que está pálida, se segurando aí...
Posso chamar ajuda, caso não esteja passando bem.
— Só estou um pouco confusa...
Perdi o emprego.
Não sei o que fazer — calou-se.
— Quer me acompanhar?
Acho que vamos para o mesmo lado.
Não tem muita gente passando por aqui por causa do frio e da garoa.
Caso não se sinta bem, pode cair e vai demorar para alguém te ajudar.
Venha — propôs o homem.
Ela não reflectiu e o seguiu mecanicamente.
No trajecto para percorrerem o resto da ponte, espíritos amigos que a envolviam com energias benéficas, principalmente as energias recolhidas pelas vibrações de sua mãe durante a prece, procuravam protegê-la, mas era difícil resguardá-la dos próprios pensamentos.
— Estou indo para a igreja — contou ele, puxando conversa.
Hoje é dia de novena a Nossa Senhora e eu tenho muito para agradecer.
Um momento e contou:
— Sabe, fiquei desempregado e em uma situação bem difícil.
Adoeci e não arrumava emprego.
Minha esposa me levou na igreja e fez uma promessa a Nossa Senhora.
Naquele dia, eu senti que algo aconteceu comigo.
Fiquei muito emocionado.
Recuperei a saúde e, logo em seguida, arrumei um emprego.
E, diga-se de passagem, um emprego muito bom.
Riu e comentou:
— Por ser bom eu correspondo à altura.
Procuro ser o melhor funcionário.
Desde então sou devoto da Mãe Santíssima e todo o dia de oração em devoção a Santa Maria, na igreja do outro lado da praça, eu venho agradecer.
Me sinto tão bem! — Breve pausa.
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