Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:11 am

Movida pela ambição
Eliana Machado Coelho

Pelo espírito Schellida

Sumário

CAPÍTULO 1 - Crianças ingénuas
CAPÍTULO 2 - Planos de uma vida melhor
CAPÍTULO 3 - Um belo poema
CAPÍTULO 4 - Revoltada com a vida
CAPÍTULO 5 - Casamento forçado
CAPÍTULO 6 - O Nascimento de Antero Neto
CAPÍTULO 7 - Amor é questão de treino
CAPÍTULO 8 - Revendo a família
CAPÍTULO 9 - Nunca desista de um sonho
CAPÍTULO 10 - Superação
CAPÍTULO 11 - Autor da própria história
CAPÍTULO 12 - A volta de aldo
CAPÍTULO 13 - Confidências de um viciado
CAPÍTULO 14 - Maconha, cocaína, crak, outras drogas e seus efeitos
CAPÍTULO 15 - Prece de uma mãe
CAPÍTULO 16 - Revendo o passado
CAPÍTULO 17 - A verdadeira força do amor
CAPÍTULO 18 - A passagem
CAPÍTULO 19 - A vida é muito mais
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Ave sem Ninho

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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:12 am

CAPÍTULO 1 - CRIANÇAS INGÉNUAS

A roda moinho de vento levantava a poeira fina salpicada de relva e um pedaço de papel velho, amarrotado e rasgado.
Vitória, seu irmão Aldo e o amigo Vinícius corriam descalços atrás do papel, lançado por eles, querendo ver quem seria capaz de pegá-lo.
Sem preocupações, risonhos e felizes, se empurravam e se divertiam.
A brincadeira acabou quando o vento cessou e o papel foi ao chão.
Peguei!!! gritou o pequeno Aldo, sentindo-se vitorioso.
A irmã, ainda brincando, tentou tirar-lhe o papel da mão, mas não conseguiu.
O menino foi mais esperto.
Vitória deu uma risada alta e jogou-se ao chão, puxando o vestido comprido para cobrir as pernas finas e manchadas por pequenas cicatrizes, marcas roxas e feridas, coisas de criança pela precariedade em que vivia, e prendeu o pano embaixo dos joelhos.
Usava um vestido rodado de chita leve, salpicada de florzinhas.
Era uma roupa bem simples, muito surrada e com furinhos, alguns costurados à mão.
Alegre, ela parecia não se importar com tanta humildade em sua aparência.
Brincava sempre e sentia-se feliz.
Era uma menina de dez anos de idade, embora nem os pais soubessem exactamente quantos anos tinha, pois demoraram muito tempo para lhe fazer um registro de nascimento e a data não foi registrada correctamente.
Bonita, tinha a pele dourada de sol, cabelos castanhos, com ondas largas e compridos, também queimados de sol, o que a deixava com a aparência nada bonita e bem desleixada.
As pontas compridas e espigadas exibiam a necessidade de um bom corte.
Rostinho fino e corpo bem magro tinha braços e pernas longos.
Sua aparência mostrava falta de boa alimentação e cuidados.
Seu irmão Aldo, parecido com ela, era aproximadamente um ano mais novo, trazia sempre nos lábios um leve sorriso, mesmo quando estava sério.
Muito esperto, tinha nos olhos expressão de vivacidade.
Bem menor do que a irmã, ele também era magrelo.
Suas vestes eram simples.
Usava um short curto com a bainha desfeita para alongar um pouco mais o comprimento e uma camisa xadrez que, abotoada, via-se faltar dois botões.
Apesar de descalço, o amigo Vinícius, de doze anos, usava roupas um pouco melhores e tinha um corpo normal para sua idade.
Cabelos aloirados, curtos, e as bochechas bem rosadas, ele mostrava-se sempre asseado, dando a ideia de ter uma vida mais privilegiada.
Animados, estavam no alto de um morro com vistas para terras vizinhas e bem longe de casa, onde havia pastagem e, ao longe, animais vagando.
Vinícius sentou-se ao lado da amiguinha, procurou olhar para onde ela olhava e perguntou:
No que você está pensando?
Que eu queria ser dona desse sítio.
É tão rico.
Onde moro a terra não é boa.
Aqui também não é tão boa.
O gado está magro.
Mas tem gado, lá em casa não dá nada.
A terra não é boa.
Como sabe que a terra não é boa?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:12 am

Meu pai falou. Olhando para o irmão, a menina reparou admirada:
Olha seu joelho!
Tá todo ralado!
Mainha vai ralhar com você!
O joelho é meu... respondeu Aldo, sacudindo os ombros em sinal de desdém.
Na hora do banho vai arder lembrou Vinícius.
Tomo banho só no sábado.
Até lá já sarou.
Seu porco! retrucou Vinícius.
Hoje ainda é quarta-feira.
Quinta! exclamou Vitória.
Quarta!
A professora falou hoje cedo! tornou o amigo.
Hoje é quinta! insistiu ela.
Como você sabe?
Você não vai na escola disse o irmão.
Nem você, tá!
Discutiram por algum tempo até verem que o sol já começava a se esconder e Aldo propôs:
Vamos ter que ir logo.
Estamos muito longe de casa.
Vamos apostar corrida?
Quem chegar por último é mulher do padre!!!
gritou Vinícius, que se levantou depressa e correu ao ver o outro sair em disparada.
Vitória demorou a se levantar.
Não estava tão interessada em correr.
Havia machucado o pé em uma pedra e estava doendo.
Apressou-se um pouco, mas depois foi devagar.
No caminho, vez ou outra girava em torno de si mesma fazendo o vestido abrir como uma roda e fechar rapidamente como se a abraçasse.
O caminho foi longo.
Aldo e o amigo chegaram até uma porteira e subiram na cerca de madeira, ficando à espera da menina por longo tempo.
Ao vê-la se aproximando, começaram a vaiar, gritando em seguida:
Mulher do padre!!!
Mulher do padre!!!
Mulher do padre!!!
E vocês dois são dois bobos alegres, tá!
Ninguém vai dizer do que eu devo brincar.
Ninguém nunca vai dizer o que eu posso fazer, tá! respondeu Vitória, mostrando a opinião firme que já havia dentro de si, apesar da pouca idade.
Não demorou e ouviram:
Vitóooooria! Aldooooo! gritou a voz de uma mulher que estava longe.
A mãe tá chamando.
Vamos tornou a menina passando pela porteira antes de fechá-la atrás de si.
Amanhã de tarde, depois da escola vamos nadar no rio? convidou Vinícius.
Se a minha mãe deixar, eu vou respondeu ela sem olhar para trás, girando o corpo de um lado para o outro ao andar.
Aldo deu um adeus ao amigo e seguiu a irmã.
Ambos caminharam em direcção à uma casa extremamente simples e muito velha.
Do lado de fora, viam-se duas janelas e uma porta.
Uma parede com tijolos grandes, feitos de forma bruta e assentados com barro, e a outra de pau a pique.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:12 am

No telhado, as telhas tinham um aspecto escuro de limbo e sujeira formados pelo tempo e uma chaminé quebrada por onde saía uma fumaça lenta e esbranquiçada.
Frente à porta, havia um puxadinho de telhas que era segurado por vigas de eucalipto já bem velho, impregnado de cupim.
Um banco quebrado encostado em uma parede e um amontoado de gravetos ao lado para serem usados como lenha no fogão.
Dentro, o chão era de terra batida e precisavam ser jogados gotejos de água com a mão antes de ser varrido, a fim de não levantar muita poeira.
A cozinha tinha uma mesa de madeira bruta, pesada, ladeada de dois bancos toscos.
O fogão à lenha não tinha acabamento, os tijolos ficavam à mostra e as poucas panelas mal se apoiavam sobre uma velha grade de ferro, que servia para deixá-las longe do fogo.
Em uma feia prateleira de tábua ficavam algumas canecas para beber café e duas latas que serviam para guardar mantimentos, apesar de vazias.
Não havia pia.
Tudo era lavado em uma bacia em frente à porta da casa.
A água era de uma velha e mal preservada cisterna ou de um poço barrento, que ficava longe, e era trazida em latas sobre a cabeça.
Também não havia banheiro nem qualquer saneamento.
No tecto da casa não havia qualquer forração.
As telhas ficavam à mostra exibindo as teias de aranha, os pucumãs e as crostas pretas deixadas pela fumaça do fogão.
Em um outro cómodo, que servia de quarto, um guarda-roupa bem antigo, feio e quebrado servia para as poucas peças de roupas que tinham e como divisória.
De um lado, uma cama de casal velha e quebrada, com um colchão ondulado e sujo, que tinha um odor bem forte e desagradável, ficava sobreposto a tábuas em vez de estrados e praticamente no chão.
Do outro, dois colchões de solteiro que, pelas aberturas e rasgos mostravam ser de molas e palha, ficavam no chão servindo de cama para as crianças.
Vamos! Vamos, menina! Ande logo!
Seu pai tá pra chegar disse a voz da mulher que, com um filho pequeno e nu, sentado de pernas abertas na lateral de sua cintura, entrava na casa.
Tratava-se de uma mulher cansada e maltratada pelo trabalho duro no campo, pela falta de melhores condições de vida, pelas preocupações com os filhos e o marido.
Aos vinte e sete anos, Rosa parecia ter bem mais idade.
O sol dourou-lhe a pele ressecada, enrugada prematuramente, e danificou-lhe os cabelos, que viviam presos.
A falta de condições, orientação e higiene lhe fizera perder alguns dentes, deixando outros quebrados ou amarelados.
As preocupações e tanto trabalho duro não a deixavam pensar em si.
As roupas usadas por ela, pelo marido e pelos filhos sempre foram doadas por conhecidos ou pelo centro social da igreja da cidade mais próxima.
Rosa não se lembrava de quando teve um vestido novo.
Ao ver Aldo aproximando-se da porta, pediu:
Pegue uns paus aí fora para botar no fogão, menino.
O que tem hoje para comer? - perguntou entrando com algumas lenhas nas mãos.
Um caldinho de macaxeira - respondeu, referindo-se a algumas raízes de mandioca cozidas com muita água e quase sem sal.
De novo, mãe? perguntou Vitória como se reclamasse.
É filha. De novo.
E num reclama, não.
Vem me ajudar a cuidar de seus irmãos.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:13 am

Rosa tinha quatro filhos.
Vitória, a mais velha com dez anos, Aldo com nove, Elizeu com quatro e o pequeno Isaías com um ano.
Entre o nascimento de Aldo e Elizeu, ela havia tido um aborto espontâneo e também um filhinho que nasceu, mas viveu por poucos dias, vítima da falta de condições e da precariedade.
Ao olhar e ver a filha insatisfeita, Rosa mandou:
Pegue o Isaías aqui e vá banhar ele lá fora.
A menina obedeceu contrariada.
Pegou-lhe o menino do colo, levou-o para fora em uma lateral da casa, onde haviam tábuas no chão, um balde com água fria, nitidamente turva de barro, e uma caneca.
Colocou a criancinha já nua sobre a tábua, segurou-a por um braço, pegou a caneca com água e jogou-lhe no corpinho.
Apanhou um pedaço de sabão e a esfregou, enxaguando-a em seguida, sem se importar com seu choro, secando-a muito mal.
Chamando por Aldo, Vitória deu-lhe o irmão nos braços e pediu:
Entrega ele pra mãe.
Em seguida, jogou água em seus joelhos e pés, ensaboou-os e os enxaguou.
Lavou também o rosto e as mãos e secou-se no mesmo pano, semelhante ao de saco de farinha, muito encardido e feio.
Embora tivesse se lavado, voltou descalça para dentro de casa.
Logo a mãe ordenou que Aldo pegasse o irmão e fosse se lavar junto com ele, e o filho obedeceu.
Enquanto Rosa atiçava o fogo, Vitória colocou um pano que servia como fralda no pequenino, deixando-o em um canto da cozinha.
Nesse momento José chegou, cansado e muito suado pelos esforços e pelo trabalho duro na roça.
Deixando a enxada perto de outras ferramentas, em frente à porta da casa, foi à procura do balde de metal, que a mulher sempre deixava com água à sua espera.
Lavou-se e só depois entrou na cozinha, sentando-se no banco tosco ao lado da mesa.
Ele deu um suspiro longo e olhou em direcção de Rosa, perto do fogão.
Nesse instante, sua atenção voltou-se para os filhos que, intimidados e respeitosos, lhe pediram a bênção.
José os abençoou e, sem qualquer cumprimento à esposa, pediu-lhe de modo seco:
Me ajuda a tirar logo essas botinas.
Rosa largou o que fazia e foi auxiliar o marido.
Em seguida, ela pediu para Vitória:
Acende o lampião aí, menina.
Não vê que daqui um pouquinho num se enxerga mais nada?
Acende a lamparina também, mainha?
Não. Deixa pra mais tarde.
Num quero acaba com o óio, não.
A filha obedeceu e, em seguida, foi até a prateleira para pegar os pratos de metal esmaltados de branco com algumas manchas escuras pelo desgaste da tinta.
O barulho dos pratos batendo na mesa de madeira bruta atraiu a atenção dos pequenos que brincavam em um canto.
Até o menorzinho pareceu reconhecer o som que dava a entender ter chegado a hora da refeição.
Rosa pegou cada um dos pratos, levou até o fogão, onde um caldeirão fumegava, afundou uma concha e colocou o caldo fraco e ralo em cada um deles.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:13 am

Em seguida, pegou o filho pequeno no colo, sentou-se e começou a alimentá-lo.
Ninguém conversava.
Só se ouvia o barulho das colheres tamborilando no prato de metal.
O silêncio foi quebrado pela voz cansada e rouca de José, que perguntou:
Não tem mais nada não, muié?
Tem não.
Alguns poucos minutos, as crianças acabaram de comer e começaram a se entreolhar.
A mãe sabia que queriam mais comida, porém não sabia se o pouco que sobrou oferecia ao marido necessitado de forças para trabalhar ou aos filhos, que não entendiam tamanha pobreza.
Percebendo o que se passava, José pediu:
Divide o resto pra eles, muié.
Quero mais, não.
Sem pensar duas vezes, obedeceu.
O marido não percebeu que ela havia comido somente um pouco do resto do filho menor.
Amanhã vai sê milho, Zé.
A madrinha de Vitória vem pra cá.
Ela sempre traz coisa boa pra gente.
Num sei mais o que fazê.
Se num chovê vamo perde a lavoura de milho e feijão.
Tá tudo seco de dá dó.
Já é tão pouco...
Se a gente perde mais isso...
comentou Rosa desconsolada.
Por que o sítio do seu Batista dá as coisas? perguntou Vitória.
Porque o home tem dinheiro, tem empregados, água... respondeu o pai.
E por que a gente num tem dinheiro? quis saber Aldo.
Porque num tem, ora.
Seu avô só deixou essa terra maldita e mais nada tornou o homem parecendo desgostoso.
E o que é preciso fazer pra gente ter dinheiro igual ao seu Batista? quis saber novamente o garoto curioso.
Ora, menino! Vá caça o que fazê!
Isso num é assunto de criança.
Já comeu, sai da mesa esbravejou o pai.
Amedrontadas, as crianças se levantaram.
Rosa entregou o pequeno para a filha e virou-se para o marido tentando encontrar uma solução:
E se ocê vendê essa terra pro seu Batista como ele já pediu?
E vamo mora onde?
Nóis podemo inté trabaiá pra ele.
Ele mesmo disse isso.
Esse home num vai quere nóis lá com quatro boca.
Acho que vamo te mais um...
José a olhou de modo triste.
A princípio não se manifestou nem disse nada.
Ficou ainda mais angustiado.
Seria mais um a passar privações e a sofrer necessidades.
Apiedado ao olhar novamente para a esposa, disse em tom desalentado:
Intão... é aí que o home num vai quere nóis trabaiando pra ele, não.
Daqui a poco ocê vai te que para pra te a criança.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:13 am

Depois, com a criança pequena...
A gente pode conversa com ele e pedi garantia dele num mandá a gente imbora.
E acreditá no Baptista?
De jeito nenhum.
Os anos foram passando.
Enfrentando a miséria e as dificuldades, Rosa e José agora tinham nove filhos.
A filha mais velha estava com dezasseis anos.
Somente Vitória não ajudava os pais na lavoura.
Ela havia arrumado um emprego quando estava com quatorze anos.
Começou a trabalhar como ajudante de cozinha na casa de um fazendeiro muito influente daquela região de Minas Gerais.
Esperta, a menina soube cativar a todos da família com sua educação, simpatia e presteza.
Após os primeiros meses de serviço, Maria de Lourdes, filha do fazendeiro, deu à luz um menino e foi passar as primeiras semanas após o parto na fazenda, a fim de receber mais cuidados.
Vitória, com prática para cuidar de crianças, começou a ajudar a mulher, que a queria sempre presente.
Assim que Maria de Lourdes voltou para sua casa na cidade próxima, quis que Vitória a acompanhasse para que trabalhasse para ela.
A jovem aceitou e os pais de Maria de Lourdes concordaram.
Só que, para isso, Vitória não poderia voltar para casa de seus pais todos os fins de semana, como fazia.
Seria longe demais, praticamente uma viagem.
Então ficou combinado que ela só voltaria para o sítio de seus pais, em média, uma vez por mês.
Desde que passou a trabalhar e morar na casa de Maria de Lourdes, Vitória aprendeu novos hábitos de higiene, passou a se cuidar mais e a se vestir melhor por conta das roupas que a nova patroa lhe dava.
Além disso, alimentava-se bem e ganhou um corpo mais avolumado e bonito, nada que lembrasse aquela menina esquelética de antes.
Começou a cuidar dos cabelos, que passaram a ter outro aspecto, e ficavam muito bonitos quando presos parcialmente com um laço.
Isso deu um ar mais jovial ao seu belo rosto de olhos expressivos.
Aprendeu a falar e a se comportar melhor.
Por orientação de Maria de Lourdes, Vitória começou a frequentar uma escola e a se alfabetizar.
Esse era o único período em que não estava junto da patroa ou do pequeno Joaquim, a quem queria tão bem.
Antes de Vitória começar a trabalhar para Maria de Lourdes, ela e sua mãe foram até a casa de seus pais para tratarem do assunto, pelo facto de a menina ter de ficar semanas seguidas no emprego.
Foi quando conheceram as condições miseráveis em que todos viviam.
A partir de então, Maria de Lourdes e sua mãe começaram a ajudar a família com doações de roupas e mantimentos sempre que podiam.
Ao ver mudança tão significativa em sua vida e de sua família, Vitória viu-se como a pessoa mais feliz do mundo e, por isso, nunca reclamou de qualquer tarefa que precisasse fazer, nem das noites mal dormidas para cuidar de Joaquim.
Todos os dias, após o lanche da manhã, ela levava Joaquim para passear na praça.
Muitas vezes, quanto o tirava do carrinho e o deixava brincar na areia, ficava observando o movimento, as pessoas, os carros, algo bem raro naquela época e de muito luxo.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:13 am

Certa manhã, perto dela, parou um rapazinho esguio e sorridente, que se admirou:
Vitória?!
Vinícius!
Como você está diferente!
Quase não a reconheci!
Andou tão sumida!
Quem sumiu foi você.
Há muito tempo não nos vemos.
Fui estudar na capital.
Agora estou morando na casa de minha tia, irmã de minha mãe.
Mas... E você? O que tem feito?
Está bonita, diferente! comentou enquanto a contemplava de cima a baixo.
Estou trabalhando como babá na casa de dona Maria de Lourdes, filha do senhor Antero Magalhães.
Agora moro aqui na cidade, na casa dela.
Não vai mais para o sítio de seus pais?
Só uma vez por mês.
Às vezes nem isso.
Meus pais ainda trabalham lá no sítio para o senhor Batista.
Mas eu não quero essa vida para mim.
Vou estudar, fazer carreira e vou tirá-los daquela vida no campo.
Estou estudando, também. Minha patroa me incentivou.
Ela disse que é importante.
E é mesmo. Percebi que está falando diferente sorriu.
E seus irmãos? E o Aldo?
Continuam na roça.
O Aldo não gosta muito de lá, você sabe como ele é.
Mas o pai não deixa que ele estude.
Diz que para pegar na enxada não é preciso diploma.
Breve pausa e perguntou:
O que você vai estudar?
Vai virar doutor? sorriu.
Quero ser advogado.
Vou fazer Direito, igual ao marido de minha tia respondeu com satisfação.
Vou me esforçar muito. Você vai ver.
Vai ficar muitos dias por aqui?
Mais uma semana, eu acho.
Depois volto para Belo Horizonte e só retorno nas férias de fim de ano.
Vitória sorriu e ficou sem jeito.
Olhando para o pequeno Joaquim, verificou que estava na hora de ir ou se atrasaria para dar o almoço da criança.
Vamos, Quinzinho? referiu-se ao menino.
Tá na hora.
Posso ver você amanhã? perguntou o rapaz com certo brilho no olhar.
A jovem sentiu o rosto queimar.
Sorriu envergonhada e respondeu ao abaixar a cabeça com a face rubra:
Venho aqui todo dia no mesmo horário.
Estarei aqui, então. Até amanhã.
Até sussurrou constrangida.
Ele se foi.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:14 am

Ela pegou o pequeno no colo, colocou-o no carrinho de passeio e olhou na direcção de Vinícius, que já estava a alguns metros dali.
A caminho da casa onde trabalhava, lembrou-se do tempo de infância.
Vinícius sempre foi seu melhor amigo.
Gostava muito dele.
Algumas vezes, brincando, dizia que quando crescesse iria se casar com Vitória.
Ao recordar disso ela riu sem perceber e ostentou um suave sorriso caminho afora.
Lembrou-se de quando tinha treze anos e estava em uma quermesse da igreja e ele, oferecendo-lhe uma pipoca, roubou-lhe um beijo.
Nunca se esqueceram desse selinho.
Certa vez, Vinícius lhe disse que iria ficar rico e comprar um sítio produtivo para ela.
Seriam terras boas, pasto verde que engordasse o gado e tudo o que plantasse, deveria dar.
Ao contrário das terras de seu pai, que eram bem rochosas e de difícil cultivo.
Essas e muitas outras lembranças invadiram sua mente com um toque de nostalgia e terna felicidade.
Naquela tarde, Vitória chegou a sonhar acordada.
Será que Vinícius se lembrava daqueles planos?
Provavelmente sim, ela acreditava.
Após um suspiro, chegou a pensar que seus pais deveriam ter vendido suas terras para o senhor Batista e serem empregados dele.
Isso seria melhor do que continuarem levando aquela vida dura e miserável naquelas terras improdutivas.
Mas não foi esse o rumo do destino.
Aconteceu que, naquele fim de tarde, chegou à casa de Maria de Lourdes, Odilon, seu irmão mais novo, a fim de visitá-la e rever o sobrinho que não via há muito tempo.
Tratava-se de um rapaz com seus vinte e quatro anos de idade, que estudou Direito no Rio de Janeiro.
Era um moço vaidoso, alto, magro, trajando terno bege-claro, estilo da época, cabelos castanhos impecavelmente alinhados com risca que os dividiam ao meio e jogados para trás, com aspecto sempre de molhados devido ao produto que utilizava para penteá-los, muito comum para os homens daquele tempo.
O preto de seus sapatos bico fino era incrivelmente lustrado.
No bolso do colete, que combinava com o terno, era depositado o relógio, cuja corrente dourada ficava presa em um botão, algo que o rapaz gostava de exibir.
A camisa, de colarinho alto, era alva e engomada, com os punhos exibindo as abotoaduras douradas cravadas com pedras preciosas.
Aquele que olhasse para Odilon sempre tinha a impressão de vê-lo como se estivesse posando para um retrato, com sua postura orgulhosa.
Ao ouvir alguém, o rapaz tinha a mania de colocar uma mão no bolso da calça e, com a outra, alisar vagarosamente o bigode fino no rosto alvo que se erguia vaidoso.
Alegre, após cumprimentar a irmã, soube que o cunhado não estava em casa, estava trabalhando, mas não demoraria.
Onde está meu sobrinho?!
Vitória deve estar trocando-o agora.
Sente-se, eles já vêm disse a irmã satisfeita em vê-lo.
Conte--me, Odilon, o que tem feito na cidade maravilhosa?
Maravilhosa mesmo.
Adoro o Rio de Janeiro!
Bem... Nos últimos meses estou dando duro na empresa daquele amigo do papai, o doutor Bonifácio.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:14 am

Ah, sim... Mamãe me contou.
Então... O homem gosta muito de mim e do meu trabalho.
Tem-me como um filho.
E o filho dele?
Não se recupera, não?
Não. O João Alberto tem uma doença rara.
Vive de transfusões de sangue.
Tratava-se de hemofilia, mas Odilon não sabia explicar.
É um moço muito doente, calado, fica mais tempo no hospital do que em casa.
Eu soube que o doutor Bonifácio teve quatro filhos homens, contando com o João Alberto, e que todos os outros três morreram por conta dessa mesma doença.
Parece que é algo de família e que ataca só os homens.
Coitado lamentou Maria de Lourdes piedosa.
O doutor Bonifácio deve ser um homem muito infeliz.
Tão rico e sem ninguém para deixar sua fortuna.
Ele tem um sobrinho, pouco mais velho do que eu.
O indivíduo é um carrapato, um sanguessuga, interesseiro, que vive grudado no tio.
Com certeza está de olho na herança do homem.
A mãe desse sobrinho era irmã do doutor Bonifácio e morreu quando esse filho nasceu.
Mimado, foi criado pela avó, que lhe fez todos os gostos.
Por isso, Isidoro pensa que tudo e todos estão aos seus pés.
Quer ser servido.
O sujeito não tem competência, vive a me copiar em tudo.
Deixa isso pra lá.
Conte-me! E namorada? Vai dizer-me que ainda não encontrou a moça certa?
Odilon sorriu largamente e jogou-se para trás no sofá ao responder:
Não tenho pretendentes no momento. Tenho planos.
Planos não dão netos. Papai quer netos.
Afinal, você será o herdeiro da fazenda e de tudo o que ele tem.
E viver neste fim de mundo?!
Ora, minha irmã! riu.
Quem começa a conhecer o mundo não vai querer ficar socado aqui.
O dia em que herdar tudo o que tenho por direito, transformo em valores e vou morar no Rio de Janeiro.
Maria de Lourdes sorriu e a chegada da babá, trazendo pela mãozinha o pequeno Joaquim, mudou o rumo do assunto.
Odilon manifestou-se alegre, pegou o garotinho no colo e brincou com ele.
O menino o estranhou, franziu um biquinho e quis chorar.
Vitória se prontificou a pegá-lo e a criancinha lhe deu os braços automaticamente.
O Quinzinho e a babá são um grude só.
Às vezes tenho até ciúme disse Maria de Lourdes rindo ao ver a cena.
Também... Não o vejo há muito tempo disse o rapaz se justificando.
Observando melhor a moça que embalava o menino no colo, Odilon reparou:
Nossa!
Como a Vitória está diferente da época em que trabalhava para a mamãe!
Quase não a reconheci.
A jovem nada disse e sentiu o rosto corar, enquanto Maria de Lourdes concordou:
Verdade. Ela mudou muito.
Voltando-se para a moça, pediu:
Vá à cozinha e dê um pouquinho de água para ele.
Com licença pediu obedecendo imediatamente.
Ao vê-la sair, virou-se para o irmão e exclamou baixinho, como se o repreendesse:
Odilon, Odilon!...
Eu vi seu olhar para a Vitória.
Lembre-se de que ela é minha empregada.
Ora, minha irmã!...
O que é isso?!
Eu o conheço muito bem, viu?
O irmão gargalhou e depois ambos começaram a falar de outro assunto.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:14 am

CAPÍTULO 2 - PLANOS DE UMA VIDA MELHOR

Na manhã seguinte, Vitória estava bem animada para levar o pequeno Joaquim para passear.
Arrumou o garotinho muito bem e vestiu-se melhor ainda.
Tinha esperanças de encontrar Vinícius e queria que ele tivesse uma óptima impressão.
Ela usava um bonito vestido abaixo do joelho e bem acinturado, com motivos e corte campestres em tons rosa e azul com abotoamento nas costas.
A gola arredondada era ornamentada por discretos folhos rendados.
Puxando os fios do rosto para trás, prendeu metade do cabelo com um laço azul bem clarinho, que combinava com o vestido.
Sem que sua patroa visse, foi até a penteadeira e usou um pouco de carmim nos lábios e nas maçãs do rosto, que destacou sua beleza, e ainda aplicou um pouco do perfume de Maria de Lourdes atrás das orelhas e nos pulsos, exactamente como a via fazer. Na verdade, ela estava bem-disposta a impressionar Vinícius.
Tinha em mente lavar o rosto assim que retornasse do passeio para que a patroa não a visse pintada e acreditou que a mulher não sentiria o aroma do perfume, afinal, Maria de Lourdes o usava em abundância e provavelmente não o sentiria.
O coração da jovem estava aos saltos, batendo na boca, como se dizia na época, tamanha era sua ansiedade para encontrar Vinícius.
Ao andar vagarosamente em direcção à praça, empurrando o carrinho com o pequeno Joaquim, de longe ela viu o amigo sentado em um banco de madeira, sorrindo ao esperá-la.
Ao vê-la perto, levantou-se para cumprimentá-la e, envergonhado, estendeu-lhe a mão, que a jovem retribuiu educadamente.
Agora era bem diferente de quando crianças, tempo em que tinham mais liberdade, não se preocupavam com normas ou padrões de etiqueta nem educação.
Eram simplesmente amigos fiéis.
Como vai, Vitória?
Passou bem de ontem para hoje?
Passei. E você?
Muito bem!
Reparando-a, comentou mesmo tímido:
Nossa! Você está muito bonita.
Obrigada - tornou constrangida.
E cheirosa, também.
Envergonhada, ela escondeu o rosto e nada disse.
O rapaz a convidou para que se sentasse e ela aceitou, mas antes, tirou Joaquim do carrinho, deixando-o andar de um lado para o outro.
Atenta, não tirou os olhos do menino.
Ficaram um ao lado do outro sem dizerem nada por algum tempo, até que ela perguntou:
Como vai sua mãe?
Bem. Está bem.
Ontem eu disse que a encontrei aqui na cidade e ela ficou curiosa.
Disse que há tempos não a vê.
É verdade.
Lembra de quando éramos pequenos e eu roubava sal lá de casa para irmos chupar limão com sal directo do pé?
Lembro! - riu ao afirmar.
Teve uma vez que você ficou com as mãos todas manchadas por causa do suco do limão, depois que você pegou sol.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:14 am

Sem esperar que o rapaz respondesse, riu ao comentar:
Ficou tão feio!
É mesmo! Demorou tanto para sair.
Minha mãe ficou muito brava - riu junto.
Logo recordou:
E aquela vez que o Aldo caiu do alto do pé de manga e desmaiou.
Lembra?
Ô se lembro!
A gente arrastou ele até o rio para jogar água e esperar ele acordar.
Eu senti um frio na barriga!...
Pensei que meu irmão tivesse morrido.
Nem contei pra minha mãe.
Era tão bom nadar no rio!
Era mesmo - disse esboçando suave sorriso parecendo sonhar.
Vamos?!
Onde?
Nadar no rio de novo!
Ora, Vinícius. Não temos mais idade pra isso.
Olha nosso tamanho.
O rapaz sorriu sem jeito, por um instante esqueceu-se haverem crescido.
Mesmo assim, insistiu:
Bem... Não precisamos nadar.
Podemos fazer um piquenique. O que acha?
Nós dois? Sozinhos?
Não temos mais idade para ficar sozinhos.
Chama o Aldo.
Ele pode ir junto.
Não sei... - titubeou.
Minha mãe não vai gostar.
Será que ela precisa saber?
Eu não minto.
Quando é que você vai lá pro sítio do seu pai?
Sábado é minha folga...
É depois de amanhã! - lembrou-se.
Vou cedo e no domingo à tarde tenho que voltar.
A dona Maria de Lourdes vai me levar e buscar.
Pode deixar que eu levo algumas coisas pra gente comer e você leva o Aldo. Tá?
Antes de ela responder, falou confirmando:
Então, sábado à tarde a gente se encontra lá no rio, no lugar de sempre.
Eu não sei...
Nesse instante Vitória precisou se levantar rápido e ir em direcção do pequeno Joaquim que ameaçava sair dos limites da praça e ir para a rua.
Quando o pegou, o menino teimava em ir à outra direcção e começou a chorar.
Olha, Quinzinho, vem aqui comigo que vou lhe dar uma coisa.
Nesse instante, ouviu-se uma buzina fina e aguda.
Ao olhar, Vitória reconheceu Odilon ao volante de um carro conversível com a capota arriada.
O rapaz, sorridente ao vê-la pacientemente cuidando do garotinho marrento, chamou-a para junto do veículo e perguntou:
Vai embora agora?
Está quase na hora... Eu...
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:15 am

Então entra aqui.
Eu a deixo na casa de minha irmã.
Preciso pegar o carrinho do Quinzinho.
Odilon desceu do carro e pediu:
Dê-me ele e pegue o carrinho.
Vitória entregou-lhe o menino e apressou-se até o carrinho ao lado de Vinícius, dizendo baixinho:
É o irmão da minha patroa. Tenho de ir.
Sábado nos encontramos no rio afirmou Vinícius.
Vamos ver. Vou pensar.
Amanhã a gente se vê aqui.
Está certo. Até logo - disse ligeira para dispensá-lo com rapidez.
Até amanhã.
Ao aproximar-se de Odilon, a jovem pegou Joaquim novamente no colo, enquanto ele dobrava o carrinho e o colocava na parte de trás do veículo.
Em seguida, abriu a porta e a acomodou no banco da frente ao seu lado.
Vitória sentiu-se satisfeita.
Não era sempre que andava de carro e nunca havia entrado em um automóvel conversível.
A sensação era muito boa e até Joaquim estava gostando.
Nunca andou em um carro assim? - perguntou Odilon ao vê-la sorrir sem perceber.
Andei não.
Não andei - falou ao sorrir, tentando impostar leveza no acto de corrigi-la.
Você é uma moça muito bonita para falar errado.
Falar certo ou errado é questão de aprendizagem e costume.
Sei que está estudando e deveria usar o que aprende.
Tem razão. Deveria, sim, usar o que aprendo - respondeu um pouco impetuosa.
Viu?! Você sabe falar - sorriu.
Não demorou e a jovem percebeu que o rapaz não fazia o caminho da casa de Maria de Lourdes.
Não deveria ter ido por ali? - perguntou ela com simplicidade.
Deveria. Mas não vou.
Quero dar uma volta antes.
Vejo que você e o Joaquim estão gostando - tornou sorridente.
Odilon pegou a estrada e deu um passeio.
Muito depois, parou o carro e comentou ao observar a linda vista:
Está vendo lá embaixo?
Olhou para Vitória, viu-a fazer um aceno afirmativo com a cabeça e prosseguiu:
Ali, a partir daquela cerca é o começo da fazenda de meu pai.
Eu sei respondeu timidamente.
Vamos! Desça do carro, Vitória! - pediu ao saltar do veículo.
O pequeno Joaquim parecia sonolento e recostava a cabecinha no ombro da babá, procurando aconchegar-se para dormir quando ela respondeu sem descer do carro:
O Quinzinho está com sono.
Seria bom a gente ir embora.
Vai ficar muito tarde pra ele almoçar.
Eu nem sei que horas são.
É que eu gosto de vir aqui e olhar lá para baixo.
Sinto-me no topo do mundo.
Além disso, feliz por saber que toda aquela imensidão de terra, que vai até onde os olhos não alcançam, é minha.
Não podemos ir embora, seu Odilon?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:15 am

Ele tirou os olhos da bela paisagem e voltou-se para ela, pedindo:
Não me chame de seu nem de senhor.
Não quero me sentir um velho, certo?
Gostaria que a chamasse de senhora?
Não, mas... Sou empregada de sua irmã.
E empregada não é gente?
Não merece respeito?
A moça não respondeu.
Odilon acomodou-se novamente no banco do motorista e, bem perto da jovem, reparou:
Você é muito bonita, Vitória.
Está bem diferente daquela menina que trabalhava na cozinha de minha mãe.
Obrigada - murmurou verdadeiramente constrangida.
Em seguida, pediu:
Vamos, seu Odilon. Já está bem tarde.
O sol tá a pino e o Quinzinho dormiu.
Ele deu um suspiro e falou:
Está bem, está bem.
Da próxima vez não vamos trazer esse menino, certo?
Vitória ficou intrigada com o comentário sobre saírem uma próxima vez e sem o menino, mas não disse nada.
Durante o trajecto de volta, o rapaz não parou de falar e sempre a olhava com o canto dos olhos e uma expressão de conquista na face, que exibia um sorriso malicioso.
Ao chegarem em frente à casa de Maria de Lourdes, a mulher estava em pé diante do portão e parecia bem nervosa.
Mal esperou o irmão estacionar o carro e já foi falando:
Onde você estava, Vitória?!
Quer me deixar louca?!
Já fui até à praça!
Já andei por toda a cidade e ninguém sabia de você e do meu filho!
É que o seu Odilon nos...
Não tem desculpas!
Espere aí! Espere aí! - interrompeu o irmão que desceu rapidamente e contornou o carro.
Se alguém precisa levar bronca, esse alguém sou eu.
Chamei a Vitória e disse que a traria para casa, mas resolvi dar um passeio e fui até o início das terras de papai.
Gosto daquela vista.
Ela até me chamou para voltarmos, mas...
Você é um irresponsável, Odilon! Ela também!
Veja o calor! O sol!
Já passa do meio-dia e meu filho está sem almoço!
No meio do falatório, Odilon ajudou Vitória a descer do carro e também pegou o carrinho do sobrinho que estava no banco de trás.
Sempre segurando bem o garotinho que dormia, como se quisesse protegê-lo, Vitória não disse nada e entrou apressada na residência.
Vendo-se a sós com a irmã, Odilon falou mais sério ao segurá-la pelo braço:
Maria de Lourdes, tenha calma.
Eu peguei a babá na praça e disse que a traria para cá.
No caminho vi que o Joaquim estava gostando de andar de carro e decidi dar um passeio.
Ela me falou que estava tarde e precisava dar almoço para ele, mas eu não me importei.
A culpa não é dela.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 21, 2017 9:15 am

Você é um irresponsável mesmo.
O vento que meu filho tomou nessa porcaria de carro aberto pode lhe dar dor de ouvido.
Sem contar que o sol está quente demais.
A culpa foi minha. Não brigue com ela.
Maria de Lourdes olhou-o de cima a baixo com ar de zangada e foi entrando seguida pelo irmão.
Ao chegar à copa, a mulher deparou com a babá tentando alimentar o pequeno Joaquim que parecia estar mais com sono do que com fome.
Está vendo? - reclamou enérgica.
Agora ele não quer comer.
Ele já comeu um pouquinho - praticamente murmurou a moça.
O garotinho fechava os olhos lentamente e queria se encostar para dormir, mesmo com a babá falando e sacudindo um brinquedo para lhe chamar a atenção.
Por maior que fosse o esforço de Vitória para mantê-lo acordado, não era páreo para o sono do menino.
Deixe disso, babá! - disse a mãe enérgica.
Limpe o rostinho dele, troque as fraldas e o ponha para dormir!
Sim senhora - sussurrou.
A jovem pegou o pequeno no colo e obedeceu.
Voltando para a sala, Maria de Lourdes não encontrou o irmão e decidiu procurá-lo na biblioteca.
Ah... Você está aí!
Vou pegar este livro emprestado, está bem? - perguntou com o volume nas mãos.
Vê se devolve.
Antes de voltar para o Rio, devolvo sim.
Alguns segundos e perguntou com sorriso cínico:
Está mais calma, maninha?
Não vá se engraçar com a minha babá, entendeu Odilon?
Eu o conheço muito bem! - disse firme.
Como ela mudou, não é? - falou propositadamente para irritá-la, porém, com certo fundo de verdade em suas observações.
Está tão diferente daquela menina magrela de cabelos desgrenhados...
Está muito bonita.
Odilooooon!.
Não se preocupe comigo, maninha. Estou indo embora.
Aproximando-se, beijou-a no rosto e saiu da biblioteca dizendo baixinho para irritar a irmã:
Diga a Vitória que não me despedi por estar com pressa, mas deixei um beijo para ela.
Não sei o que faço com você! - saiu falando atrás do irmão.
Depois de Odilon ir embora, Maria de Lourdes procurou pela babá e a encontrou no quarto de Joaquim com um cesto pegando as roupas sujas.
Ela esperou que a moça saísse e a acompanhou, chamando-a:
Vitória, venha cá.
Calada e de cabeça baixa, a jovem a seguiu até a sala, longe das outras empregadas.
Após olhá-la de cima a baixo, Maria de Lourdes observou:
Eu não quis fazer comentários perto de meu irmão, mas...
Reparei que hoje, especialmente, você se arrumou muito bem só para levar o Joaquim até a praça.
Colocou um de seus melhores vestidos e usou carmim.
Como se não bastasse, senti em você o cheiro do meu perfume.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:41 am

Rapidamente o rosto da moça corou e ela abaixou o olhar.
Sem trégua, a patroa perguntou:
Como me explica isso?
Total silêncio e a mulher insistiu:
Você se arrumou assim e usou o meu perfume porque sabia que encontraria meu irmão, não foi?
Não! Não senhora - respondeu imediatamente.
Vitória, eu não nasci ontem.
Sou mais velha do que meu irmão e o conheço muito bem.
O Odilon, assim como todo jovem da idade dele, quer aproveitar a vida, ser um homem experiente.
Homem, meu bem, cai ali, levanta lá e segue em frente.
Eles se aproveitam de moças ingénuas como você e depois desaparecem deixando essas moças sem sua maior virtude que é a pureza.
Você me entende?!
Eu usei o seu carmim e o seu perfume, sim, dona Maria de Lourdes - admitiu quase chorando.
Quero que me perdoe por isso, eu...
Eu acho a senhora tão bonita e cheirosa...
Queria ficar igual.
E qual foi o motivo?...
Que razão a levou a querer ficar bonita?
Tímida e trémula, Vitória sentia-se mal.
Suas pernas queriam dobrar e suas mãos suavam.
Mesmo assim decidiu dizer a verdade:
Ontem eu encontrei um colega de muito tempo e... - perdeu a voz.
Como de muito tempo, menina?
Você só tem dezasseis anos!
Vou fazer dezassete em breve.
A patroa nada disse e ela prosseguiu:
Desde criança conheço o Vinícius.
Os pais dele trabalham no sítio do seu Batista, vizinho do sítio do meu pai.
Nossos pais se conhecem bem.
A dona Adalgisa, mãe dele, ajudou muito a gente e...
Fazia uns três ou quatro anos que não via o Vinícius.
Ele foi estudar na capital e ontem eu estava lá na praça e ele apareceu.
Conversamos um pouquinho.
Ele disse que queria me ver de novo, então falei que hoje estaria lá no mesmo horário.
Foi por isso que me arrumei assim.
Não foi por causa de seu irmão, não.
Eu e o Vinícius estamos até combinando de fazer um piquenique no meu dia de folga, pois na outra semana ele volta para Belo Horizonte.
Mas não será só eu e ele, meu irmão vai junto.
Eu deixo você ir para a praça para olhar o meu filho que precisa de distracção e não para ficar de namorico! - esbracejou.
Não tô de namorico, dona Maria de Lourdes.
Não me responda! Estou nervosa!
Preste atenção, menina: a responsabilidade de você estar morando aqui é minha.
Você só tem dezasseis anos!
É boba! Ingénua!
Vai cair na lábia de qualquer um!
Onde já se viu!
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:41 am

Não sou boba nem ingénua.
Ah! Não?! - breve pausa.
Vitória, entenda de uma vez por todas:
esses homens de hoje, sejam lá quem forem, querem meninas puras como você só para se divertirem, se aproveitarem e depois jogar fora.
Está me entendendo?
Pode ter sido seu amiguinho lá na infância, mas hoje é um homem e pensa diferente de antes.
Ele não gosta de você como amiguinha, não!
Ele quer se aproveitar, só isso!
Não seja tola! Não perca sua pureza!
Sua maior virtude!
Tem é que se guardar para alguém decente até o casamento.
Vitória decidiu não dizer mais nada.
Pensou que levaria bronca por ter usado o perfume e a maquiagem, mas sua patroa estava interessada em sua vida particular.
Ficou calada e ouvindo tudo até a mulher terminar o sermão e deixá-la ir cuidar dos afazeres.
Já no tanque de lavar roupa, enquanto ensaboava as fraldas de Joaquim, a jovem se corroía por dentro.
Suas ideias estavam carregadas de revolta.
"Quem é a dona Maria de Lourdes para achar que pode interferir em minha vida e me dar sermões?", pensava.
"Ela é minha patroa, mas não é minha mãe.
Não tem direito algum sobre mim.
Tenho dezasseis anos e sei muito bem me cuidar.
O que ela quer?
Que eu trabalhe de babá ou como sua empregada pelo resto da minha vida?
A época da escravidão já acabou!
Se nessa idade eu não arrumar um bom rapaz e me casar, viverei como empregada de casa de família pelo resto de minha vida.
Preciso arrumar um moço bom, trabalhador, que goste de mim e me dê protecção e segurança.
Não quero um homem que nem meu pai, que me faça viver como minha mãe, na miséria e só parindo um filho atrás do outro.
Não! Definitivamente não é isso o que eu quero. Ela vai ver.
Se pensa que vai estragar minha vida, está muito enganada.
Sei que ela me ajuda, ajuda minha família, mas não posso servir a ela eternamente. Ah! Isso não!"
Triste e revoltada continuou a remoer pensamentos.
Depois de viver ali, entendeu que nem todos viviam na miséria, na extrema pobreza como ela foi criada.
Não queria, de forma alguma, ter vida semelhante a de antes.
Gostava das roupas novas e limpas que passou a usar.
Adorava andar de calçados, cheirosa, com os cabelos penteados e bonitos.
Apreciava comer com talheres e em louças de porcelana.
E, principalmente, queria ter o que comer e dormir sozinha em uma cama limpa.
A verdade é que passou a detestar ter de ir visitar a família e dormir junto com suas irmãs naquele colchão de palha que ainda cheirava mal.
Após pensar muito, determinou-se, naquele momento de fúria, a não perder uma única oportunidade para ter uma vida cada vez melhor.
Era a primeira vez que se sentia oprimida por Maria de Lourdes.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:41 am

Mas isso não iria lhe fazer sentir medo.
Decidiu se encontrar com Vinícius no rio e, quem sabe, namorar e casar-se com ele.
Afinal, gostava muito dele.
Não sabia explicar o porquê de seu coração palpitar quando se lembrava do amigo.
Vê-lo, então, depois de tanto tempo, foi uma experiência única.
Começou a sonhar acordada, tecendo planos de namorar Vinícius, firmar compromisso enquanto ele estudasse.
Depois que o rapaz se formasse e arrumasse um bom emprego, poderiam noivar e se casar.
Ele era um bom moço e, provavelmente, lhe daria uma vida melhor do que a de sua mãe e a de empregada dos outros.
Ela não se importaria de cuidar de uma casa, desde que fosse sua.
A cobiça passou a fazer parte dos planos da jovem Vitória e ela não pararia mais de tecer planos para ter uma vida melhor.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:41 am

CAPÍTULO 3 - UM BELO POEMA

No dia seguinte, após muito pensar, Vitória viu seus planos de encontrar Vinícius jogados por terra quando a patroa a procurou para dizer:
Hoje você não vai passear com o Quinzinho.
Preciso que fique aqui.
Vamos arrumar este quarto e ver quais roupas dele não servem mais.
A jovem sentiu-se gelar.
Havia combinado se encontrar com Vinícius na praça.
Sem trégua, a mulher ainda disse:
E... neste fim de semana eu gostaria que me acompanhasse até a casa de meus pais, na fazenda.
É aniversário de meu irmão e minha mãe planeia um almoço antes de ele retornar para o Rio de Janeiro.
Poderá tirar seu dia de folga na próxima semana.
Mas é que...
Antes que a babá terminasse, a mulher argumentou:
Vou precisar de você, Vitória.
Já imaginou o Joaquim correndo pra lá e pra cá, mexendo em tudo e eu tentando almoçar em paz?
No próximo fim de semana você tira sua folga.
Um instante e falou propositadamente, como se quisesse adular, por interesse próprio:
- Ah!... Será bom a sua folga ser na próxima semana, pois pegarei algumas roupas e outras coisas na fazenda para levar pra sua família.
A jovem revoltou-se em silêncio.
Percebeu que Maria de Lourdes teceu a ideia de levá-la para o almoço e trocar seu dia de folga propositadamente.
Havia muitas empregadas na fazenda que poderiam tomar conta do menino.
Ela queria mesmo estragar seu piquenique com Vinícius.
Aquilo não poderia acontecer.
Não teria como avisar Vinícius.
Além disso, ele retornaria para Belo Horizonte e ficariam sem se ver por muito tempo.
Mas ela não se deixaria vencer.
Pensaria em uma forma de reverter a situação.
No sábado, após o almoço, que foi bem cedo como de costume, Vitória estava na fazenda do senhor Antero Magalhães, pai de Maria de Lourdes, pensando em uma maneira de ir até o rio, onde Vinícius provavelmente a esperava.
Inquieta, caminhava de um lado para o outro sob a sombra de uma frondosa mangueira em flor.
Ao vê-la a passos lentos olhando para o chão, Odilon se aproximou perguntando:
Pensativa?
Um pouco.
Onde está o Joaquim?
Dormindo.
Em que você está pensando?
Parece preocupada.
Repentinamente uma ideia lhe surgiu e ela mentiu num impulso:
É que... Não vejo minha madrinha já faz tempo e hoje ela vai lá na casa dos meus pais.
Gosto muito dela e... - sorriu:
Estou um pouco triste por isso.
Sabe lá Deus quando é que ela poderá vir pra essas bandas de novo.
Queria tanto ver como ela está...
Sabia que tenho o mesmo nome dela?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:42 am

Mas por que não pediu para minha irmã liberá-la para ir vê-la?
Hoje era meu dia de folga, mas dona Maria de Lourdes precisava de mim aqui.
Eu queria tanto ver minha madrinha, mas não podia deixar de ajudar minha patroa.
Ela é tão boa pra mim e...
Não é justo que fique aqui.
Minha irmã é quem tem que se virar com os próprios compromissos.
Vou falar com ela.
Não! Por favor. Espere.
Odilon não deu importância e saiu à procura da irmã, encontrando-a do outro lado da casa, na varanda, conversando com a mãe e algumas tias.
Chamando-a para um canto, o rapaz explicou a situação e desfechou:
Não é justo que a prive de ver a madrinha.
Essa menina vive servindo você e seus caprichos como uma escrava.
Mas ela não me disse nada quando pedi que me acompanhasse e deixasse a folga para a próxima semana.
Você lhe deu uma chance para isso?
Ora, Maria de Lourdes! Eu a conheço.
Em todo caso...
Agora é tarde. Já passou.
Não passou, não.
Posso levá-la até lá com meu carro.
Consultando o relógio, disse:
Agora é meio-dia e...
Acho que em uma hora chegamos.
Talvez dê tempo de ela ver a madrinha.
Você vai fazer isso?! - admirou-se.
Por que não?!
Breve instante e decidiu num impulso:
Quer saber?!
Cuide do Joaquim que vou levá-la lá é agora.
É longe!
Odilon virou-lhe as costas e saiu à procura de Vitória.
Encontrando-a, pediu:
Pegue suas coisas, pois vou levá-la para o sítio de seus pais.
Encontre-me no meu carro.
Mas...
Vamos, Vitória! Falei com minha irmã.
Ela vai olhar o Joaquim.
Vou deixá-la lá agora e amanhã vamos buscá-la.
Se eu não for, a Maria de Lourdes vai com o meu cunhado.
Depressa, pegue suas coisas.
Estou no carro.
A jovem nem pensou.
Apressou-se em pegar uma bolsa onde havia uma muda de roupa e foi para o carro de Odilon.
Durante o caminho ele era quem mais falava.
Gostava de contar sobre tudo o que existia na cidade maravilhosa.
O assunto enchia os ouvidos de Vitória como música suave e sua imaginação começou a vivenciar o sonho de conhecer o tão moderno e lindo Rio de Janeiro.
Pensar em conhecer o mar, ver as praias, coisa que nunca tinha feito, deveria ser algo deslumbrante.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:42 am

Só tinha ideia de como era uma praia por ter visto um retrato pintado na casa de sua patroa, nada mais.
Quando Odilon falava dos arranha-céus, ela não conseguia acompanhar sua narração.
Não conhecia prédios grandes com mais de dois andares, não sabia o que era.
Será que vai dar tempo de encontrar com sua madrinha? - perguntou ele tirando-a do sonho.
Por um instante, ela quase perguntou que madrinha, porém se lembrou da mentira e respondeu:
Talvez. Não sei.
Você tem planos para o seu futuro, Vitória?
Pretende fazer algo em sua vida?
Sei o que eu não quero e acho que já é alguma coisa.
E o que você não quer? olhou-a por alguns segundos ao perguntar.
Voltar a morar no sítio de meu pai, trabalhar na lavoura, viver aquela vida triste...
Mulher não tem muito o que fazer quando o assunto é lavoura.
Ou ela é patroa e manda nos outros ou é escrava e só trabalha debaixo do sol e parindo filho.
Acho que não vai dar pra eu ser patroa e não quero trabalhar na terra.
Quero continuar estudando e... calou-se.
Aqui mulher não tem o que fazer.
Lá no Rio de Janeiro elas estudam, vão para a faculdade.
Tive duas amigas em minha turma de Direito.
Mulher estudando Direito?! - admirou-se.
E outros cursos superiores também.
Até na Faculdade de Medicina.
E depois? Elas trabalham?
Sim, elas atuam na área em que se formaram.
Nem todas as mulheres, lá, são donas de casa, não.
O mundo está mudando.
Já tem muitas que trabalham em empresas, fábricas...
Outras tem seus próprios negócios como...
Ateliês de roupas ou...
O que é Atê... atê... o quê?
Ateliê é uma oficina de criação.
Percebendo que a jovem pareceu ainda em dúvida, explicou melhor:
Bem... uma modista que é óptima no que faz e tem muitas freguesas monta um lugar grande onde ela pode atender as clientes, tirando medidas e desenhando os modelos das roupas.
Esse lugar por aqui é na casa da costureira; lá no Rio, não sendo nos fundos ou no canto da sala de uma casa, é chamado de ateliê.
Algumas dessas modistas chegam a ter duas ou três costureiras que aprontam as roupas para elas.
Só que são elas as responsáveis e que levam a fama pela bela vestimenta.
Nossa! Uma modista chega a ter tantas freguesas a ponto de precisar de ajudante?
No Rio, sim.
Os olhos da moça brilharam quando murmurou:
Se eu aprendesse costurar em máquina...
Você sabe bordar.
Minha mãe e minha irmã me mostraram alguns de seus bordados nos lençóis do Joaquim e outras peças.
Esse trabalho vale muito dinheiro lá no Rio.
Naquele instante, Vitória pensou:
"Lá vale muito dinheiro e aqui trabalho de graça.
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Ave sem Ninho

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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:42 am

Foi por causa dos meus bons bordados que ela", referiu-se à patroa, "comprou aquele monte de cortes para toalhas, guarnições e...
E além de eu ter de olhar criança, lavar e passar, ainda fiquei de noite bordando."
Vitória?
O quê?
Eu estava falando...
Você é esperta, inteligente, tem aparência...
Não perca tempo.
Estude, procure um jeito de...
De ir para o Rio de Janeiro?
Mas como? Se eu tivesse uma chance!...
Odilon gargalhou ao volante e a jovem perguntou:
Do que está rindo?
Tive uma ideia, só que minha irmã me mataria.
Que ideia?
Eu estou morando na casa de um amigo de meu pai, muito amigo.
Não só moro na casa como também trabalho em sua empresa.
Esse homem, o doutor Bonifácio, tem um filho da minha idade que é bem doente.
O rapaz é enjoado, vive no hospital e precisa de muitos cuidados quando está em casa.
Breve pausa e prosseguiu:
Eu poderia sugerir que você fosse trabalhar para eles cuidando especificamente do João Alberto.
Assim você iria para o Rio empregada e poderia continuar estudando.
E a dona Maria de Lourdes?
E o Quinzinho?!
Por isso eu disse que ela me mataria! - gargalhou.
Continuaram conversando caminho afora.
Vitória, sonhadora e audaciosa, até esqueceu seus planos com Vinícius.
Naquele instante, passou a desejar muito mais do que uma vida boa, simples e pacata.
Ao chegarem ao sítio de seus pais, próximo à velha porteira quase caindo, esperta, para que o rapaz não descobrisse que sua madrinha não estava ali, ela disse:
Eu posso ficar aqui.
Num carece de me levar até a casa não.
Parando o carro, ele concordou:
Está bem.
Bom descanso e aproveite bem a folga.
Obrigada.
Desceu do carro e parou junto à cerca esperando Odilon manobrar o veículo e ir embora com a poeira correndo atrás.
Vitória olhou para um lado, depois para o outro e ficou satisfeita por nem mesmo o cachorro tê-la visto ali.
Indo atrás de um moirão, deixou sua bolsa no chão escondida numa moita e correu em direcção ao rio, do outro lado de um morro, entre pedras gigantescas e algumas árvores.
Cansada pela corrida, olhou à procura do amigo e nada.
Foi então que decidiu chamá-lo:
Vinícius!!!
Repetiu o nome algumas vezes até que ouviu um grito:
Aqui!!!
Olhando para a outra margem, o viu sorridente e acenando.
Sem demora, o rapaz tirou o calçado, enrolou a barra da calça e procurou a parte mais rasa do rio para atravessá-lo sobre as pedras.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:42 am

Enquanto ela, empolgada, com o coração aos saltos, aguardava ansiosa por ele.
Pensei que não viesse mais! exclamou muito satisfeito.
Ora... Se prometi...
Você não prometeu.
Aliás, ontem nem foi lá na praça.
A jovem nada disse e Vinícius quis saber:
Você está bem?
Se estou... Estou óptima.
É que...
Riu e contou:
Não imagina o que tive de inventar para vir pra cá.
Caminharam até uma frondosa árvore, sentaram-se sob sua sombra, próximo a algumas pedras gigantescas, e a jovem contou o ocorrido.
Você continua maluquinha! - riu com gosto.
Foi por isso que nem deu pra chamar o Aldo para vir junto.
Então ninguém sabe que está aqui?
Não, ninguém.
Foi bom ter vindo.
Depois de amanhã volto para Belo Horizonte.
Vou ficar com saudade - disse tímida, abaixando a cabeça e o olhar, enquanto torcia as mãos de forma nervosa.
É... - disse simplesmente.
Ficaram sem jeito e não se falaram por minutos ao perceberem que queriam ficar mais próximos.
Após longo silêncio, ela perguntou:
Onde está o que você ia trazer para o tal piquenique?
Eu comi - respondeu de um jeito engraçado.
Comeu?! E não deixou nadinha pra mim?
Achei que você não viria, oras!
Guloso!
Eu é que não ia levar as coisas de volta.
O cesto que trouxe está lá do outro lado.
Aliás, mais um pouco e nem ia ouvir você me chamar.
Continuaram conversando até que o rapaz, com jeito tímido, disse:
Eu trouxe uma coisa pra você.
O quê? - alegrou-se.
Vinícius tirou do bolso de trás da calça um pequeno embrulho e o entregou a Vitória, dizendo:
Não é de ouro, não, mas é de coração.
Ela puxou o lacinho de barbante que amarrava o pequeno pacote, desembrulhou-o e, ao abrir a caixinha, viu um anel de metal simples com uma pedrinha vermelha sem qualquer valor, embora gracioso.
Que bonito!
Eu tava passando e vi em uma feira.
Lembrei de você e então comprei.
Desculpa por não ser uma jóia... por não ser de ouro.
Os olhos da jovem brilharam de alegria e seu coração bateu forte como nunca.
Ela colocou o anel no dedo da mão esquerda, estendeu-a para vê-lo melhor e sorriu largamente.
Em seguida, aproximando-se de Vinícius, colocou-lhe a mão espalmada em seu peito e beijou-lhe a face alva e corada.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:43 am

Aproveitando por ela estar próxima, ele a abraçou pela cintura e com suavidade murmurou:
Eu gosto muito de você, Vitória.
Seus olhos se encontraram apaixonados e vagarosamente o rapaz aproximou seus lábios dos dela e carinhosamente a beijou.
Após o longo beijo, ela, num impulso, se afastou e disse:
Oh, meu Deus do céu!
O que é que eu tô fazendo? - afastou-se e virou-lhe as costas.
Não se preocupe, Vitória - disse indo em sua direcção e segurando com ternura em seu braço.
Em tom carinhoso, falou:
Eu gosto muito de você e...
E o quê, Vinícius?
Olha o que a gente fez.
Quero namorar você.
A jovem acreditou que seu coração fosse saltar pela boca e nada disse.
Mesmo assim, ele insistiu:
Você aceita namorar comigo?
A gente é novo demais. Não acha?
Uma coisa era tecer planos de ficar com ele, como havia feito.
A outra era levá-los adiante e encarar a realidade.
Aquilo era tudo o que queria, mas não estava tão segura disso agora.
Por um instante, lembrou-se que desejou intensamente ir para uma cidade grande, como o Rio de Janeiro, e fazer algo mais especial de sua vida que não somente cuidar de uma casa e filhos.
Com voz tranquila, ele a tirou daquelas reflexões:
Não acho que somos tão novos, não.
Estamos na idade.
Eu sei que tenho de estudar.
Quero ser alguém.
Mas não quero ficar sem você.
Um instante e prosseguiu, constrangido ainda:
Posso até falar com seu pai.
Ou melhor e mais certo:
posso pedir pro meu pai ir lá falar com o seu pra gente firmar compromisso.
Mas quando?
Você disse que vai embora depois de amanhã.
Quando é que seu pai irá falar com o meu? Amanhã?
Não tem cabimento seu pai pedir minha mão pra você e depois a gente só se ver nas suas próximas férias.
Então a gente espera e logo que eu voltar pra passar as férias aqui de novo, meu pai vai falar com o seu.
Ela sorriu lindamente e perguntou:
Promete mesmo?
Prometo, ó! Tenho palavra.
A moça continuou sorrindo e o rapaz falou com jeitinho:
Olha no fundo da caixinha.
Tem outra coisa pra você.
Vitória olhou no fundo da caixinha do anel e viu um papel bem dobrado.
Precisou cutucá-lo com a ponta da unha para tirá-lo de lá.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:43 am

Desdobrando-o, leu:
MEUS OITO ANOS
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
Respira a alma a inocência
Como perfumes a flor,
O mar - é lago sereno
O céu um manto azulado,
O mundo um sonho dourado,
A vida um hino d'amor!
Que aurora, que sol, que vida
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingénuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã
Em vez de mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberta ao peito,
- Pés descalços, braços nus
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher pitangas
Trepava a tirar mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava as Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

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