Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:19 am

Com a ajuda de todos vocês, tudo aconteceu.
Hoje estamos aqui e muito bem.
Não somos ricos como antes, mas não somos miseráveis.
Graças aos esforços de todos, vivemos confortavelmente, comemos bem e as alegrias diárias aconteceram.
Seja a alegria de ver um dos netos andar, falar...
Seja a Ingrid ligando e contando as novidades.
Aprendemos a sentir alegria por pequenas conquistas e isso me faz feliz.
É, gente... alegria e felicidade, é preciso fazer acontecer, começar a sorrir e comemorar.
Tenho vocês comigo ao meu lado.
Tenho os netos, tão amados, com saúde e alegria.
Comecei a sentir felicidade em tudo.
Sou feliz ao ver a Mónica reclamando do professor da faculdade, da colega que é folgada e não ajuda a fazer um trabalho - riu.
Isso mostra que ela tem condições mentais e financeiras para fazer uma faculdade.
Sou feliz por ver o Felipe e o Tiago brigando por um brinquedo, caindo por terem corrido, rindo ao assistirem um desenho...
Sou feliz por ver a amizade entre a Cleide e a Vera e dou risada ao imaginar o que falam de mim - riu novamente.
Afinal, sou sogra.
Ai, dona Vitória!
Nunca falamos mal da senhora - disse Vera de um jeito engraçado.
Ao contrário - completou Cleide.
Sempre admiramos a senhora.
Vitória sorriu de modo singular com expressão de quem duvidava e falou:
Fui muito exigente com vocês duas.
Não gostava da conversinha de vocês quando o Márcio e o Nilton vieram trabalhar aqui.
Tinha ciúmes dos filhos, dona Vitória? - disse Antero em tom de brincadeira.
Não! É porque o serviço das duas não rendia.
Todos riram e Antero comentou:
De facto, temos muito a agradecer.
A saúde, a união e o amor que nos une...
Sabe, meus filhos, demorei muitos anos para aprender e muito mais para pôr em prática a receita do viver bem, que aprendi em O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Não podemos ter uma vida sem direcção, sem propósitos, sem metas alicerçadas no amor, na justiça, no respeito e na fidelidade.
Para conseguirmos atingir as metas, precisamos aprender a fazer escolhas honestas, sábias, sem nos ferir, sem magoar os outros.
E isso nem sempre é fácil, pois quando fazemos escolhas sempre temos perdas.
Somos seres humanos e todo ser humano erra porque é complexo, porque tem sentimentos, tem preferência, porque tem ambição e se engana.
Apesar de tudo, precisamos ser ousados, precisamos tentar, precisamos experimentar, pois as experiências nos trazem alegrias, frustrações, riscos, risos, lágrimas insegurança, sonho, medo, dor, sucesso ou fracasso.
Tudo isso nos traz sabedoria quando aprendemos com essas experiências, daí não erramos mais, ou erramos menos do que antes.
Haverá momentos de arrependimento, de choro, de fraqueza e também aprendemos com eles.
Aprendemos a analisar tudo para evitar novas amarguras futuras.
Se não aprendermos, voltaremos a experimentar a mesma dor, a mesma angústia até crescermos, até evoluirmos.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:19 am

Por que nos diz tudo isso, mãe? - perguntou Márcio.
Porque depois de pensar muito, entendi que na maioria das vezes nós podemos ser autores da nossa própria história no teatro da vida.
Tudo o que nos acontece é efeito do que já fizemos hoje ou em uma vida passada.
Mas isso não significa que precisamos nos acomodar no sofrimento.
Se eu fosse preguiçosa e não pegasse no batente, se me acomodasse e não passasse madrugadas costurando, lavando e passando, eu e a Natália não compraríamos nem a primeira máquina para começar a oficina de costura.
Se eu fosse implicante, teimosa e ranzinza, não me daria bem com a Natália, implicaria e faria intrigas com ela e com o Antero quando eu a via cochilando de dia, encolhida no sofá com a TV ligada.
Ao ver isso, pensei que ela estava cansada e com sono, pois a Mónica não dormia bem à noite e, quantas vezes, eu a vi com a menina no colo, andando pela casa para deixar o Antero dormir.
Quantas vezes ela poderia ter falado mal de mim para o meu filho, quando me via nervosa com o Isidoro, ou regulando o dinheiro que eu ganhava fazendo faxina - sorriu.
Virando-se para a nora, explicou:
Eu regulava aquele dinheiro, Natália, porque pensava que poderia acontecer alguma emergência do tipo precisarmos comprar um remédio ou pior:
não ter serviço no fim do mês. Eu pensava nisso.
Eu sabia disso, dona Vitória - sorriu generosa.
Sim, mas... é bom falar.
Eu devia ter falado isso naquela época.
Longa pausa e contou:
Nesses anos todos, algumas vezes eu fui a um Centro Espírita aqui perto e assisti às palestras, recebi passes...
Ouvi falar de reforma íntima e comecei a pensar muito nisso.
Demorei a entender, e pior, a praticar a reforma íntima.
Entendi que reforma íntima é o mesmo que moldar a nossa personalidade.
Nós podemos moldar o nosso jeito de ser para melhor ou pior.
Depende de nós.
Se decidirmos mudar para melhor, então precisamos enriquecer nosso prazer pela vida harmoniosa, expandir e desenvolver a arte de pensar positivo, ver tudo com amor e sem críticas destrutivas.
Se decidirmos pela escolha de uma vida melhor, precisamos nos tornar mais saudáveis emocional e mentalmente.
E isso requer treino, repetições de exercício intelectual e emocional para o bom, para o bem.
Eu não entendi - comentou Vera com simplicidade.
Como podemos nos treinar, nos exercitar intelectual e emocionalmente para sermos melhores?
É simples, mas não pense que por ser simples seja fácil.
Quantas vezes me peguei desejando todo o mal para a Marta pelo que ela me fez.
Quantas vezes me surpreendi desejando a ruína do Isidoro pela traição, por tudo o que nos fez, pelas necessidades que nos fez passar.
Foi difícil, no começo, eu fingia ser verdade desejar-lhes todo amor, todo o bem, todo o sucesso.
Pois entendi que o rancor e a raiva me corroíam e me faziam mal.
O rancor e a raiva não me deixavam ter paz nem sucesso.
Entendi isso quando, no Centro Espírita, uma mulher deu uma palestra tomando por exemplo a experiência de alguém que, como eu, tinha sido traída e perdido tudo por culpa de outro.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:19 am

Daí que, essa pessoa, começou a adoecer.
A raiva e o rancor foram lhe corroendo aos poucos pela falta de entendimento, de perdão, de amor, de aceitação.
Então ela começou a deixar-se corroer.
Primeiro tirou o apêndice, depois a vesícula.
Coisas simples, mas grandes sinais de alerta dizendo que seu corpo precisava de amor.
Só que para trazer o amor ao corpo, é preciso ter amor na mente, é preciso ter perdão no coração.
Então a pessoa continuou deixando-se corroer e teve problemas cardíacos.
Só sei que terminou experimentando um câncer que a definhou e a levou para o plano espiritual.
Aí! Que horror! - comentou Cleide.
Hoje os médicos confirmam que a mágoa, a raiva, o rancor, o ódio levam a pessoa às doenças como depressão, câncer, pânico e muitas outras - disse Antero.
Já li artigos médicos a respeito dos danos causados pela falta de amor.
Isso é a pura verdade - tornou Vitória.
A oradora contou que, ao desencarnar, a pessoa reclamou de tudo o que sofreu e ainda sofria como se estivesse viva.
Então, seu mentor explicou que a culpa por tudo aquilo era dela mesma.
Mas ela não aceitou e ainda protestou.
Disse que sofreu tudo aquilo, que teve raiva e todos os outros sentimentos de contrariedade quando perdeu tudo, inclusive a paz.
Mas o mentor não concordou e disse que, em vez de reclamar e odiar, essa pessoa deveria ter voltado sua mente para o trabalho, pensado em amor, no desejo do bem, se empenhado em fazer algo produtivo e não se acomodado.
Disse que sua raiva, suas mágoas e seu rancor eram energias criadoras destrutivas e, por serem energias destrutivas, só criavam coisas ruins como doenças diversas.
Não importa se você precisava passar ou não por determinada situação, o que importa é que é possível usar toda a experiência para a própria evolução através de práticas e aplicações saudáveis, a começar pela mente.
Nossa! Que interessante - admirou-se Cleide.
Foi por isso que eu parei de reclamar e comecei a me treinar a ter bons pensamentos para o Isidoro e para a Marta.
Depois, com o tempo, até me esqueci deles porque, em meio a tanta coisa acontecendo, nós prosperamos e eu tinha preocupações saudáveis.
Um instante e continuou:
Estou contando tudo isso para dizer que decidi escrever o meu futuro.
Nem sempre acerto.
Hoje mesmo já me arrependi por ter tido o impulso de dizer para a Marta tudo o que eu disse, mas...
Tentarei corrigir o que dá, o que está ao meu alcance.
Sabe... Como disse, não é fácil mudar nosso modo de pensar e agir, não é fácil fazer essa tal de reforma íntima e mudar nossos vícios funestos.
Porém, é possível e necessário fazer isso hoje ou em outra oportunidade de vida.
E para isso é preciso treinar, insistir e exercitar os pensamentos, as palavras e as acções.
Penso que muita gente já levou para o túmulo diversas doenças mentais e físicas, desesperos insuportáveis oriundos de suas raivas, rancores e ansiedades que geraram conflitos íntimos e problemas.
Isso só aconteceu porque não souberam ou não insistiram em entrar dentro delas mesmas, após o silêncio de uma prece tranquila e, com serenidade, pensar friamente se suas opiniões duras, se seus caprichos fúteis, se sua vontade inútil de controlar pessoas e situações estão correctos.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:20 am

E depois disso, pedir a Deus orientação, iluminação para aprender a agir e pensar de forma mais saudável a ela e aos outros.
Depois, exercitar, treinar no dia a dia e em cada momento a bondade e a sabedoria em tudo o que for pensar e fazer.
Sabe... é no silêncio dos sentimentos e dos pensamento que entramos em contacto com Deus.
Após longa pausa a voz de Antero ecoou convicta:
É muito profundo o que a senhora falou.
Agindo assim conseguiremos habilidade para administrar pensamentos e emoções.
E com o tempo, como em tudo o que exercitamos, vamos adquirir o domínio da vida, o domínio dos sentimentos, o domínio de nós mesmos com sabedoria e paz verdadeiras.
E com a paz verdadeira, meus filhos, não sofremos, não nos deprimimos, não ficamos ansiosos nem doentes.
A não ser as doenças realmente necessárias para a nossa evolução, ou seja, as doenças programadas para essa existência.
É preciso viver e incorporar em nós o "orar e vigiar" que Jesus ensinou.
Não adianta só pedir a Deus que o ajude, se você mesmo não se ajuda - completou Vitória.
Hoje em dia fala-se muito sobre qualidade de vida.
Eu penso que qualidade de vida não é só casa, moradia, saneamento básico, escola, educação, trabalho, espaço físico.
Podemos ter tudo isso e mais, com abundância, mas vivermos na miséria emocional, intensa e desconfortável, que nos trará péssima qualidade de vida íntima.
Hoje, depois de todas as experiências que vivi, acredito que as condições adequadas para se ter qualidade de vida se conquistam quando rompemos com as emoções de orgulho, da ambição e da vaidade, além dos sentimentos infelizes do rancor, do ódio, da contrariedade.
Uma boa vida se constrói com relações sociais saudáveis, contemplando o que é belo, não criticando os outros e ajudando o próximo no que for possível sem se escravizar ou se prejudicar.
É bom viver satisfeito com você mesmo, por sentir amor pelos outros.
É muito importante não agredir ninguém jogando lixo na rua, jogando papel de bala pela janela do carro em vez de guardá-lo para jogar fora quando chegar em casa, no lixo, que é o lugar certo.
Não agredir os outros com olhares duros, voz áspera.
Não agredir os outros ao sentar em qualquer transporte público de modo espaçoso e folgado.
Não agredir os outros com comentários ou brincadeiras de mau gosto que ofendem e magoam.
A tranquilidade e a paz estão em pequenos gestos de educação que não precisam de exageros.
São pequenas coisas que fazemos que nos deixam felizes.
Já ouvi dizer que a felicidade não é deste mundo - comentou Márcio.
Mas ninguém nunca disse que este mundo é só de infelicidade.
Se o mundo não é de felicidade nem de infelicidade, devemos, no mínimo, procurar a paz interior.
E essa paz verdadeira só encontramos quando nos conhecemos, quando enxergamos o quanto somos orgulhosos, arrogantes, críticos, agressivos, rancorosos e mudamos isso em nós mesmos.
Essa mudança não vai ocorrer da noite para o dia, mas vai acontecer desde que nos empenhemos, nos exercitemos para o bem.
Só assim a paz verdadeira acontecerá em nós e, consequentemente, a felicidade interior virá pela consciência tranquila por termos feito o melhor que podíamos.
Os filhos silenciaram e Vitória ainda falou:
O motivo da infelicidade, da falta de prosperidade e das doenças são todos os nossos pensamentos e desejos negativos, incluindo as reclamações.
Seja reclamação do que for.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:20 am

Eu disse a vocês que quando fazemos escolhas sempre temos perdas.
Então vamos escolher ser compreensivos para perdermos o sentimento de rancor; vamos escolher amar para perdermos o ódio; vamos escolher o riso para perdermos a tristeza; vamos escolher elogiar para perdermos as críticas; vamos escolher as alegrias para perdermos as frustrações; vamos escolher o trabalho para perdermos o fracasso; vamos escolher a fé para perdermos a insegurança; vamos escolher a prece para perdermos os vícios dos pensamentos negativos.
Longo silêncio onde todos reflectiram e Márcio, de modo mais brando, questionou:
A senhora está nos dizendo tudo isso por quê?
Como eu disse no começo, não podemos ter uma vida sem direcção, sem propósitos, sem metas alicerçadas no amor e na justiça.
Penso que é justo para a nossa consciência, para vivermos sem remorso futuramente, nessa ou em outra vida, que ajudemos o pai e a tia de vocês, sem nos sacrificarmos e sem nos escravizarmos, porém, com amor.
E se não for possível ter amor, que ajudemos mostrando a nós mesmos o quanto somos dignos e honestos para connosco.
A situação deles é difícil e acho que não podemos ficar na plateia, assistindo à cena tão triste, quando podemos fazer alguma coisa.
Precisamos tomar uma atitude.
Afinal, mesmo tendo feito o que fizeram, foram eles que despertaram em nós a força e a capacidade que tivemos e ainda temos para conseguir tudo o que conseguimos e termos uma vida melhor, verdadeiramente melhor.
Um minuto e ainda disse:
Lembrando de O Evangelho Segundo o Espiritismo, no Capítulo V, item vinte e sete, eu li:
"Não digais, ao verdes um irmão ferido:
'É a justiça de Deus, e é necessário que siga o seu curso', mas dizei, ao contrário:
'Vejamos que meios nosso Pai Misericordioso me concedeu, para aliviar o sofrimento de meu irmão.
Vejamos se o meu conforto moral, meu amparo material, meus conselhos, poderão ajudá-lo a transpor esta prova com mais força, paciência e resignação.
Vejamos mesmo se Deus não me pôs nas mãos os meios de fazer cessar este sofrimento; se não me deu, como prova também, ou talvez como expiação, o poder de cortar o mal e substituí-lo pela bênção da paz'".
Vitória calou-se os observando.
Diante do intervalo, Nilton prontificou-se:
Estou de acordo e quero ver o que posso fazer para ajudá-los.
Concordo com a mãe.
Eu também - disse Antero.
Márcio, que acabava de se convencer, demorou a se manifestar e disse:
Está certo.
Preciso trabalhar mais o que sinto pelo pai e pela tia, mas...
Não vou ficar de braços cruzados nesse momento.
Vocês três também concordam? - perguntou Vitória dirigindo-se para as noras.
Elas se entreolharam e aprovaram a decisão.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 8:57 am

CAPÍTULO 12 - A VOLTA DE ALDO

Uma simples e pequena casa, bem próxima à residência de Antero, foi alugada para que Isidoro e Marta pudessem ficar mais perto dos cuidados que necessitavam receber.
As três noras providenciaram os móveis e os electrodomésticos básicos para lhes proporcionar melhores condições, enquanto Vitória procurava por médicos e tudo mais que pudesse lhe trazer instrução e apoio ao tratamento de sua irmã e do ex-marido.
Sabe... - contou Cleide.
Foi tão bom ajudar a dona Vitória nessa empreitada com o ex-marido.
Fazia tempo que eu queria trocar a geladeira e a TV, mas não encontrava razão.
Agora estou com uma geladeira novinha e o Márcio até comprou uma televisão maior.
O mesmo aconteceu comigo - disse Vera.
Estou com fogão e micro-ondas novinhos e da mesma cor da geladeira.
Antes, você lembra, era cada um de uma cor.
Cada um colaborou com um tipo de utensílio.
Natália havia doado cama, colchão e um jogo de sofá e comentou:
É preciso que o velho saia para o novo poder entrar.
Isso vale para o material e o sentimental.
Precisamos nos livrar de sentimentos velhos para que novos sentimentos bons e elevados surjam em nosso coração.
Isidoro e Marta, muito doentes, se mudaram para a casa alugada e passaram a receber cuidados e medicamentos necessários.
Eles viviam em médicos e hospitais com frequência e, às vezes, permaneciam internados.
Com excepção de Natália, as outras noras de Vitória tinham receio de contrair o vírus da Aids por falta de instrução.
Por essa razão, faziam poucas visitas a Isidoro e Marta e não deixavam os filhos pequenos irem até lá.
A depressão tomou conta de Marta ao saber que não havia cura nem contenção do vírus, pois naquela época não existiam os medicamentos anti-retrovirais nem os coquetéis que ajudam no controle da doença, melhorando a qualidade de vida dos portadores de HIV.
Chorosa e arrependida por todo seu passado, certo dia Marta se abraçou à irmã e disse com palavras entrecortadas pela emoção:
Obrigada por tudo, Vitória.
Nunca pensei que fosse capaz de me tratar assim depois do que fiz a você.
Ficarei em débito...
Fique tranquila. Não me deve nada.
O arrependimento, certamente, fará de você uma pessoa melhor.
Acredito que nunca mais vai errar.
Não vou mesmo.
Estou morrendo...
Hoje, mais do que nunca, acredito que a morte não existe.
O corpo e tudo o que é material, um dia vai se deteriorar, mas o espírito não.
O espírito nunca morre.
Como pode crer nisso?
Que utilidade teria para você, ou mesmo para mim, tudo o que vivemos nesta vida?
Seria justo Deus condenar você ao inferno pelo que fez?
Penso que não.
Para Deus é mais fácil dar a todos os filhos oportunidades de muitas vidas, através das reencarnações e, com isso, fazer com que aprendam.
Veja o que aconteceu com meus filhos.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 8:57 am

Antero, Márcio e Nilton estão próximos a mim, ajudando e fazendo tudo certo.
João Alberto e Angélica estão longe, se desviaram de mim por não concordarem comigo, por medo do trabalho.
Eles procuraram o caminho mais fácil.
A Ingrid também está longe, só que por necessidade.
Amo a todos eles de um modo que não posso explicar.
Quero o bem de todos.
Não quero que o João Alberto e a Angélica sofram, e se um dia precisarem de mim e voltarem, eu vou recebê-los e amá-los como amo os outros.
Entendo que estão distantes porque ainda são imaturos e esse desvio fará com que aprendam com os percalços da vida, pois não quiseram meus conselhos.
Se eu, que sou imperfeita, amo e estou disposta a ajudar meus filhos, mesmo aqueles que estão distantes por vontade própria, imagine Deus, que tem muito mais amor e bondade do que eu.
Essa vida é muito curta para acertarmos as contas de tudo o que fizemos de errado.
Precisamos de muitas outras oportunidades para aprendermos e nos corrigirmos.
Eu... preciso contar uma coisa e...
Não sei se vai me perdoar também por isso.
Vitória, em silêncio, olhou-a esperando que continuasse.
O pai estava muito doente e, para ajudar no tratamento, nossos irmãos escreveram e pediram ajuda.
Eu disse que não podíamos ajudar e...
Aconselhei que vendessem o sítio e ainda...
Ainda, o quê? - perguntou diante da pausa.
Fui até lá incentivei a venderem o sítio o mais rápido possível e... e darem a minha parte e a sua.
Disse que traria o dinheiro pro Rio de Janeiro e lhe daria.
Por um instante, Vitória pensou em ficar contrariada, não por não ter recebido o dinheiro, mas sim pelo facto de a irmã não ter deixado todo o valor para o tratamento de seu pai.
Mas não se manifestou.
Respirou fundo e, serena, perguntou:
O pai fez o tratamento?
Ficou bem?
Não. O pai morreu.
O pai morreu?! - enervou-se.
O pai e a mãe morreram - chorou.
Marta?! Porque não me avisou?! Eram...
Se eu dissesse que o pai morreu e que, em seguida a mãe também ficou muito doente e depois morreu...
Se em qualquer tempo eu lhe contasse isso, você iria entrar em contacto com nossa família e saberia do dinheiro - chorou copiosamente.
A irmã ficou contrariada, mas de que adiantaria brigar e esbracejar?
Apiedou-se de Marta.
Sabia que ela era muito pobre espiritualmente e só poderia ter agido daquele jeito mesmo.
Vitória, sem criticá-la mais, perguntou:
E nossos irmãos? Como estão?
Não sei. Isso faz mais de cinco anos.
Cada um tomou um rumo.
Devem estar trabalhando nos sítios e fazendas da região.
Vitória não podia dizer nada.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 8:57 am

Se Marta errou, ela também errou.
Havia abandonado a família, não procurou nem deu mais notícias.
Sentiu infinita tristeza, mas não havia, no momento, o que fazer.
Quem sabe um dia...
Aquele Natal foi um dos melhores na vida de Vitória.
Haviam enfeitado a casa de Antero, a árvore de Natal estava linda e o principal, a família estava reunida.
Ingrid, o marido e os gémeos estavam no Rio de Janeiro e ficariam com Vitória até o Ano-Novo.
A harmonia, a paz e a alegria reinaram de forma impressionante.
Isidoro e Marta, constrangidos, não queriam passar esse dia tão importante, que é a comemoração do nascimento do Mestre Jesus, junto com todos.
Porém, Antero insistiu e os levou para sua casa, onde ficaram acomodados em um canto, só acompanhando com o olhar a animação de todos, reflectindo, talvez, o quanto desperdiçaram a vida com a ambição e os prazeres vis.
Logo após o Ano-Novo, Vitória viajou e passou alguns dias na casa de Ingrid e do genro, que a tratavam muito bem, gerando ciúme nas noras e filhos que ficaram no Rio de Janeiro.
Eles achavam que seu retorno estava demorando muito.
Assim que voltou, Vitória e os filhos conversavam sobre a possibilidade de ela ir até Minas Gerais a fim de saber do resto de sua família.
Se a senhora vai viver melhor tendo notícia deles...
É bom ir, sim - concordou Márcio.
Eu gostaria que o Antero fosse junto.
Primeiro porque preciso de uma companhia e depois, porque eu espero que ele conheça a família do pai dele.
Afinal, ele tem tia, primos, talvez avós, não sei.
É importante não nos desligarmos do passado em algumas situações.
Vocês precisam ficar, tomar conta de tudo e...
Tem o Isidoro e a Marta que não saem do hospital.
Cada dia o pai está pior - comentou Nilton.
Vamos fazer o melhor por eles - tornou Vitória.
Pode ir tranquila, mãe.
Cuidaremos de tudo por aqui.
Os planos de Vitória e Antero precisaram ser adiados.
Com baixíssima imunidade, acometido de várias doenças, após ficar internado por vários dias, Isidoro teve falência múltipla de órgãos.
Também internada, Marta entrou em crise emocional.
Acometida de grave depressão, entrava em desespero e temia a morte.
Após o enterro do ex-marido, Vitória permaneceu o quanto pôde ao lado da irmã, que segurava sua mão implorando, em crise emocional, o perdão por tudo o que lhe havia feito.
Embora Vitória lhe dissesse que a perdoara, que nada tinha contra ela, Marta precisava sempre ouvir novamente a frase, e a outra repetia.
Passado pouco mais de um mês, Marta também faleceu.
Muito abalada, Vitória entristeceu-se.
Não quis ir à empresa por vários dias e quase não se interessava por nada.
Mãe, a senhora não pode ficar assim.
Está deprimida, triste...
Até emagreceu. Precisa reagir - disse Antero.
Quando penso em toda a minha vida, em todo o caminho que percorri, em tudo o que vi acontecer à minha volta e me lembro do resultado que sobrou para a minha irmã e o Isidoro, entristeço-me.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 8:58 am

Sinto uma coisa amarga.
A senhora sempre foi forte, corajosa, não vai desanimar agora.
Às vezes penso em que mais serei útil.
Vocês não precisam mais de mim.
Estão mais do que crescidos e criados.
Precisamos do seu exemplo de perseverança, de amor.
Cada coisa que acontece, fico observando sua reacção de sabedoria e aprendo muito.
Tenho orgulho da senhora, mãe.
Orgulho do que me ensinou, do que ensina a mim e a minha filha.
Hoje em dia, se os filhos soubessem aproveitar melhor as experiências de seus pais, eles também, provavelmente seriam melhores, mais prudentes.
Ora, Antero!
Você tem uma filha óptima!
E ela é assim por causa do que a senhora ensinou.
Agora que está namorando...
Vitória riu e perguntou:
Então você já sabe?
É... - sorriu.
Senti um frio na barriga e precisei concordar.
A senhora sabe a quanto tempo ela namora?
Em meio a um sorriso, ela respondeu:
Desde o segundo ano de faculdade - riu gostoso.
Então eu fui o último a saber mesmo.
Não sabia que era enganado há tanto tempo - riu junto.
Ele é um bom rapaz, meu filho. Não se preocupe.
Como sabe?
A senhora já o conhece?
Claro!
Como assim, mãe?
Nem a Natália conhece!
A Mónica me apresentou o moço quando teve uma gincana, numa festa que me levou lá na faculdade.
Ao ver o filho franzir o semblante, brincou:
Deixe de ser antiquado, Antero.
Ela disse que vai trazer o rapaz aqui.
Que bom! Vai gostar dele.
Quero ver a senhora mais alegre para recebê-lo, então.
Certo. Até ele vir, estarei bem. Isso vai passar.
É só um período de luto. Tudo na vida passa.
Mónica apresentou oficialmente o namorado Flávio, um rapaz educado e simpático, que logo se entrosou bem com todos e passou a frequentar a casa de Antero.
Quando Vitória novamente tecia planos de ir a Minas Gerais com o filho, eis que Angélica procurou pela mãe.
O Perseu quer se separar!
Mãe, estou perdida!
Não sei o que fazer.
Estou com quarenta e quatro anos, mãe!
O que vai ser da minha vida?
Sua vida será o que você fizer dela a partir de agora, pois antes você não fez nada por si mesma.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 8:58 am

Se o Perseu está se separando, então ele não gosta mais de você.
Não insista em receber migalhas de consideração desse homem que nunca a respeitou.
Levante a cabeça, Angélica!
Olhe para cima! Você é forte!
Capacitada para trabalhar, para fazer alguma coisa na sua vida enquanto é tempo.
Não seja tola!
Não consigo me ver divorciada... - chorou.
Você não consegue é se ver trabalhando e lutando para viver bem.
Com um tom amável na voz, disse a verdade:
Filha... você sempre foi acomodada, queria tudo nas mãos.
Não quis estudar, nunca trabalhou...
Algumas coisas na nossa vida têm de ser feitas por nós mesmos.
Precisamos ser úteis ao mundo.
Estou confusa. Desesperada.
O Danilo, meu filho, está do lado do pai - chorou.
Mesmo com a voz embargada e entre soluços, contou:
Ele diz que sou uma inútil, que tem vergonha de mim, que sou desleixada comigo...
Está triste porque acha que tudo isso o que ele disse é verdade, não é?
Mãe!...
Mude isso, Angélica!
Tem coisa que só você mesma poderá fazer por você.
Eu não esperava isso.
O Perseu planeou tudo.
Disse que comprou uma casa pequena e pôs no meu nome.
Graças a Deus você vai ter onde morar sem ter de pagar aluguel!
Quando seu pai me deixou, fiquei em uma casa alugada que, sem demora, ele deixou de pagar.
Quase precisamos ir para debaixo de uma ponte.
Um instante e aconselhou:
Filha, reaja! Arrume um emprego.
Vá trabalhar. Cuide-se.
Comece a arrumar sua vida pelo mais próximo de você.
Comece por você mesma.
Cuide da aparência, dos cabelos, da pele, das suas roupas. Emagreça.
Você está precisando.
Não tenho ânimo para mais nada.
Vai ter que ter.
Vou trabalhar onde? Do quê?
Estamos precisando de costureira.
Sei que não costura, mas pode aprender.
Mãe?! Quer dizer que...
Dona de uma empresa de confecções, a senhora quer me dar emprego de costureira?
Sua empresa é grande e está indo muito bem, pelo que sei.
E quero que continue indo melhor ainda.
Por isso, não vou dar a você um cargo que não mereça.
Você nunca trabalhou, nunca fez nada, como é que quer cuidar de alguma coisa sem ter conhecimento?
Sem ter experiência?
Jamais farei isso com minha empresa, com você ou com seus irmãos, que dependem dela.
Eu comecei costurando.
A Natália começou costurando.
Não é vergonha alguma começar do começo, aprender todos os passos de um trabalho.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 8:58 am

Mas mãe... Sou sua filha!
Se preciso de ajuda, se preciso de trabalho num momento como esse, preciso, acima de tudo, de algo que me ponha pra cima!
Não quero ser humilhada!
Não existe atalho para a perfeição.
Não se pode pular etapas na evolução.
Ao subir uma escada, no máximo, podemos até pular um degrau, embora corramos o perigo de nos desequilibrar.
Mas não podemos pular mais do que isso ou caímos feio.
Na vida, todo crescimento é assim.
Você já estará pulando um degrau se começar a trabalhar na minha empresa como costureira, pois nem sabe costurar.
Não pegou, como eu e a Natália, o período mais difícil e inseguro do começo da confecção, quando, às vezes, não ganhávamos quase nada, por ter de pagar as máquinas, melhorar os equipamentos, não ter serviço garantido, não conhecer determinados cortes...
Você já estará dando um salto imenso.
Para não se desequilibrar e cair, se quiser mudar, melhorar, vai ter de trabalhar como costureira, junto com as outras, cumprindo horário e usando uniforme.
Do contrário, terá de viver com a pensão que seu marido lhe pagar, quando ele pagar, e nada poderei fazer por você.
Angélica ficou decepcionada.
Acreditou que receberia apoio para sua fraqueza, mas não.
A mãe, apesar do coração fragmentado, estava treinando-a para o crescimento.
Ainda tentando buscar apoio pediu, ao comentar:
O Danilo, agora com vinte e dois anos, não quer ficar comigo.
Disse que vai acompanhar o pai.
Não ficarei bem sozinha.
Será que eu poderia morar aqui com a senhora?
Nem se for no começo... Eu...
Sinto muito, filha. Mas não posso permitir.
Primeiro porque esta casa é do seu irmão e da Natália.
Eu já moro aqui nos fundos e procuro não incomodá-los.
Não interfiro na vida deles.
Não dou palpite em nada.
Acho que você aqui comigo seria alguém a mais para tirar a liberdade deles.
Eles já estão acostumados comigo, pois desde o começo de casados estou com eles, não é justo que você venha para cá.
Mas não vou interferir em nada.
Isso é o que pensa agora.
No começo, talvez não, mas depois...
Quem pode garantir?
Seu irmão e sua cunhada precisam ter a vida deles, sem intrusos, sem incómodos.
Um instante e comentou:
Lembra-se quando, no começo de casada e logo depois que o Danilo nasceu, você e o Perseu tinham motivos para não gostar das minhas visitas?
A filha não respondeu e Vitória completou:
Cada um tem seu motivo para, depois de casado, desejar uma vida só entre si.
Isso é a nova família.
Precisamos respeitar isso, apesar de, nenhum dos dois, terem dito nada sobre esse assunto.
O ideal é você ficar em seu cantinho e procurar ser uma pessoa melhor do que já é.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 8:58 am

Terá uma casa só sua e isso será óptimo para você.
Angélica ficou decepcionada, não esperava aquilo.
Cabisbaixa, perguntou:
Nem mesmo sei costurar.
Como vou aprender?
Isso é fácil. Muito fácil.
Eu mesma vou lhe ensinar - sorriu, aproximou-se se sentando mais perto e a abraçou como há muito não fazia.
Com os dias, o divórcio inevitável de Angélica aconteceu.
Ela foi morar sozinha na casa comprada pelo marido e, mesmo a contragosto, começou a aprender a costurar para trabalhar com as confecções.
Não demorou muito para Mónica e Flávio decidirem ficar noivos, apesar de Antero achar que a filha era muito nova.
Flávio levou sua família:
pai, mãe e uma irmã, para conhecerem a família de sua namorada em um almoço na casa de Antero e Natália.
Na ocasião, marcariam a data do noivado.
Com muita alegria, todos se conheceram.
Sempre, no decorrer de sua vida, oprimida por circunstâncias inesperadas, Vitória procurou manter-se e mostrar-se equilibrada, sem exageros, seja no que fosse.
Mas não conseguiu quando se viu cercada de tamanha emoção inexplicável ao conhecer Aldo, pai de Flávio.
Ao serem apresentados, Vitória perdeu a voz.
Em seu rosto, o largo sorriso que se abriu, fechou-se pouco a pouco e sentiu-se mal.
Vó, o que foi? - preocupou-se a neta.
Levem-na para sentar no sofá - pediu Aldo que segurava sua mão no momento.
No instante seguinte, Antero perguntou:
Mãe, o que foi?
Nada - murmurou.
Já está passando.
Acho que foi queda de pressão.
Dona Vitória, a senhora sempre foi forte.
Tem uma saúde invejável.
Estou assustada - comentou Natália surpresa.
Não foi nada. Já disse.
Respirou fundo, sentou-se de modo mais erecto e sorriu para disfarçar.
Acho que ela já está melhor - opinou Cristina, mãe de Flávio.
Vitória olhou novamente para Aldo e percebeu nova sensação indefinível que, sem saber, ele também experimentou.
Seus olhos se cruzaram e permaneceram fixos por longos minutos infindáveis.
Tratava-se de um homem magro, alto, pele morena clara, meio bronzeada.
Seus olhos amendoados irradiavam um brilho sem igual, um brilho reconhecido.
Ela reparou que ele teria a idade de um de seus filhos.
A idade de Márcio, talvez.
O que Vitória experimentava não se tratava de sensação desprezível, ou uma lembrança e comparação vaga, pelo facto daquele homem ter o mesmo nome de seu irmão, falecido havia muitos anos.
O irmão com quem mais se dava bem, que amava incondicionalmente e que, talvez, fosse o único que estivesse ao seu lado todos esses anos, caso as águas turbulentas do rio não o tivessem afogado.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 8:59 am

A atracção foi recíproca e inexplicável.
Aldo acomodou-se ao lado de Vitória e a olhou como se tivesse contemplando sua mãe, falecida há anos.
Afagou-lhe as costas com educada delicadeza e sorrindo, comentou:
Dona Vitória parece melhor.
Ele pegou em suas mãos frias, colocou-a entre as dele e sorriu.
Os demais ficaram olhando sem entender.
Ela, sem jeito, sorriu e quis levantar.
Recolhendo as mãos, disse:
Deixe-me dar um abraço no Flávio.
Nem cumprimentei esse menino hoje.
Levantando-se, envolveu o rapaz com ternura e afagou seu rosto após um beijo carinhoso.
Todo o clima de expectativa foi desfeito e a atenção, antes voltada para ela, dispersou-se em conversa animada.
Não demorou muito e Aldo comentou que seu pai era da região do norte de Minas Gerais e, embora ele também tenha nascido lá, desde a faculdade morava no Rio de Janeiro.
Também sou dessa região.
Estou no Rio desde meus dezassete anos.
Assim que me casei, vim para cá contou ela.
Não resistindo, revelou:
Tive um irmão com o seu nome e... - sorriu sem jeito.
Não sei por que, mas acho que ele, se estivesse vivo, seria muito parecido com você.
Talvez esteja estranhando por eu olhá-lo tanto, mas é que não consigo parar de me lembrar do meu irmão.
É que todo mineiro é muito parecido - disse Aldo em tom de brincadeira.
Puxei minha mãe. Que Deus a tenha.
Era morena clara assim como a senhora.
Meu pai, bem diferente, é bem branco, aloirado.
Você tem irmão? - quis saber.
Tenho dois irmãos mais novos.
Eles vivem lá em Minas com meu pai, ajudando a cuidar das fazendas, dos negócios.
São casados e gostam de lá. Já eu não.
Sou bem diferente deles.
Não quis saber da vida no campo.
Só vou pra lá para passear quando tiro férias.
São fazendas de gado?
Sim. Tem gado leiteiro e, nos últimos anos, meu pai vem trabalhando com granito, talhado de pedras, pedreiras de terras consideradas sem valor, que adquiriu.
Hoje em dia essas pedreiras dão muito dinheiro - disse Cristina.
Meu sogro sempre teve olho apurado para grandes negócios.
No lugar onde dizem que não dá nada, ele arruma algo para produzir.
O senhor Vinícius é esperto! - riu.
Quem? - perguntou Vitória de súbito, pensando ter ouvido mal.
Senhor Vinícius, meu pai.
Novamente aquela sensação estranha.
Um torpor, um mal-estar que ela quase não conseguiu disfarçar.
Eu gosto de lá - comentou Flávio.
Por isso decidi fazer Agronomia.
Meu sonho é ir para Minas e trabalhar com terra.
Ainda bem que a Mónica também quer isso.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 8:59 am

Quando nos casarmos temos destino certo.
Antero olhou para sua mulher, depois para a filha com semblante indefinido.
Nem haviam marcado a data do noivado e falavam em morar tão longe após o casamento.
Aquilo não poderia ser verdade.
Sua filha, sua filhinha, como ele a via, mal tinha completado vinte e dois anos.
Como poderia ser isso?
Mas Vitória quase não prestava atenção naquela conversa.
Seus ouvidos tamparam e ela ficou presa às ideias perturbadoras de sua imaginação.
Vinícius...
Esse nome trouxe-lhe de volta um passado amplo de assuntos não resolvidos.
Por outro lado, não acreditava que o pai de Aldo fosse o Vinícius que conheceu, que amou, que abandonou de maneira tão cruel.
Não podia crer que fosse o Vinícius de sua infância, o Vinícius eterno de seus pensamentos.
Não! Impossível!
Mesmo procurando afugentar aquelas ideias, o medo de deparar com aquela possibilidade era uma sombra em seu coração, agora oprimido, pois o abandonou quando a treva da ilusão a cobriu com um carinho falso.
Queria saber mais, precisava de detalhes.
Quem sabe se perguntasse o nome da mãe de Vinícius poderia ter certeza de quem se tratava.
Mas não podia.
Pela primeira vez a memória lhe traía cruelmente.
Esqueceu-se do nome da mulher que tinha amizade com sua mãe e os ajudava quando ela era pequena.
Como era mesmo o nome daquela mulher?
Provavelmente a ansiedade e o nervosismo eram a causa do esquecimento.
Ou talvez a idade começasse a se manifestar.
Não. A idade, não.
Ela só tinha sessenta e quatro anos.
Era mais activa, lúcida e consciente do que alguns de seus filhos.
Imagine só, dona Vitória!
Não seria óptimo?! - perguntou Flávio enquanto ela não tinha a menor ideia do que estavam falando.
Hein?!
Vó, o Flávio está falando com a senhora faz uma hora! - riu a neta.
Acabei me distraindo - disfarçou.
O que você disse mesmo, meu bem?
Já pensou se nós nos casássemos lá em Minas, na fazenda do meu vô?
Nossa! Seria muito lindo!
Casamento em fazenda é muito bonito - comentou, mesmo aérea ao assunto.
Poderíamos fazer tudo ao ar livre, não é mesmo? - planeou Mónica animada.
Minha avó e seu vô poderiam entrar como nossos padrinhos. O que acha?
Ai! Que lindo!
Já pensou como seria emocionante? - animou-se Cristina tocando a mão da senhora que estava ao seu lado.
Acho que o senhor Vinícius vai adorar a ideia!
É o seu primeiro neto a se casar.
Ele está tão empolgado.
A conversa prosseguiu entre eles, mas Vitória não tinha o que dizer.
Apenas sorria para mostrar-se participativa.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 8:59 am

CAPÍTULO 13 - CONFIDÊNCIAS DE UM VICIADO

Bem mais tarde, recolhida no silêncio de sua sala de estar, sentada sobre as pernas, com olhar perdido, sem assistir ao programa que passava na TV ligada com som quase inaudível, Vitória ainda tinha a mente inquieta pensando na possibilidade de o pai de Aldo ser o Vinícius que conheceu.
Que mundo era aquele?
Será que tudo aquilo que lhe aconteceu, tão longe, estava ali ao lado, tão perto?
O destino, irónico, sagaz, provavelmente esperou quarenta e sete anos para colocá-la diante de seu passado, com a história interrompida pelos seus desejos e ambições.
Quantos anos e a figura daquele rapaz, na beirada do rio, ainda estava viva, tão perfeita em sua memória como se tudo tivesse acontecido ontem.
Mas poderia não ser ele.
Poderia ser coincidência.
Não haveria razão para Vinícius colocar o nome do próprio filho de Aldo.
Por que ele faria isso?
Os pensamentos constantes naquela possibilidade começavam a irritá-la.
Rememorava o riso gostoso de Vinícius e podia até escutar a sua voz em sua mente, como se tivesse acabado de ouvi-lo falar.
Seu rosto alegre, cabelos lisos e alinhados, dentes alvos, pele clara, mãos fortes, alto...
Lembrava-se de cada detalhe como se o estivesse contemplando.
Se o pai de Aldo for ele, como encará-lo?
O que dizer?
Como se explicar?
Dizer o que, sobre ter fugido do compromisso aceito?
Afinal, após um beijo de amor que jamais esqueceu, fizeram a promessa, firmaram um compromisso e queriam se casar, ficar juntos.
Levou a mão à boca e tocou os lábios com a ponta de dois dedos, contornando-os com suavidade.
Jamais se esqueceu daquele beijo, que trazia o gosto e a emoção de um verdadeiro amor.
Em seguida, tocou o próprio rosto.
Achou-se velha e enrugada.
Não era mais aquela menina de pele firme e bem-disposta, muitas vezes travessa, magrela e risonha que ele conheceu.
Aliás, provavelmente Vinícius nem a reconhecesse mais.
É provável que o tempo, que aqueles quarenta e sete anos, tivesse varrido as lembranças e até mesmo seu nome da memória dele.
Nesse momento lembrou-se daquele benzedeiro, o senhor Elídio, que lhe disse que seu irmão Aldo ia ajudá-la a encontrar o passado.
Se Aldo, futuro sogro de Mónica, fosse a reencarnação de seu irmão Aldo, então seu pai seria Vinícius, sim. Só podia.
Naquele instante, seus pensamentos foram interrompidos quando a voz macia de Natália a chamou.
Vitória se levantou, foi até a porta, abriu-a e deixou a nora entrar.
Trouxe um chá de camomila para a senhora.
Obrigada, filha.
Venha, vamos sentar ali no sofá.
Acomodaram-se em lugares onde ficavam uma de frente para a outra.
Vitória destampou o pires sobre a caneca e, vagarosamente, bebericou o chá ainda quente, fumegante.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 8:59 am

Natália olhou por algum tempo a televisão quase sem som, depois comentou:
Fiquei preocupada com a senhora.
Nunca, nesses anos, a vi reclamar de uma dor qualquer, muito menos passar mal.
Não adiantava reclamar das minhas dores.
Vocês não são curandeiros - riu da própria ironia.
Ai, dona Vitória - riu junto.
Quando eu tinha alguma dor, tomava remédio, quando tinha.
Não adiantava eu reclamar para vocês - tornou procurando brincar.
Depois falou:
O que senti agora há pouco lá na sua casa, não foi nada.
Fiquei preocupada.
Vim aqui para conversar com a senhora sobre irmos ao médico.
Meus exames anuais, de rotina, já foram feitos.
Estou bem. Estou óptima.
Se estivesse totalmente bem, não teria ficado tonta e tão pálida daquele jeito.
A sogra calou-se, bebericou o chá novamente, depois decidiu comentar:
Acho que passei mal por causa do Aldo, pai do Flávio.
Por quê? - surpreendeu-se a nora.
Não é só o nome, ele também é muito parecido com o meu irmão.
O Aldo, meu irmão, tinha dezasseis anos quando morreu.
O pai do Flávio deve ter mais ou menos a idade do meu filho Márcio, eu acho.
É. Ele, o senhor Aldo, deve ter cerca de quarenta e um... quarenta e dois anos.
O Márcio tem quarenta e dois.
Tenho certeza de que, se meu irmão estivesse vivo ele seria igual ao pai do namorado da Mónica.
Cheguei a pensar que ele é a reencarnação do meu irmão.
Será?
Não obtendo resposta, comentou:
Quando a senhora falou do seu irmão que faleceu, eu fiquei olhando para ele e...
De facto, a senhora é muito parecida com ele. Reparou?
Meu irmão também era muito parecido comigo.
Um instante e desabafou:
Fiquei intrigada com o facto de o pai dele ser da mesma região onde vivi e ter o mesmo nome...
Por quê? Como assim?
Vitória contou novamente, agora em detalhes, sobre seu amigo de infância, primeiro namorado, seu único amor.
Foi isso, Natália. Imagine só, depois de tantos anos eu dar de cara com o Vinícius, avô do Flávio, noivo da minha neta.
Passo mal ao pensar nisso.
Seria muita coincidência.
Não acho provável, não.
E se for?
Sem esperar que a outra respondesse, argumentou:
Natália, pense bem, e se for ele?
O Vinícius, magoado por tudo o que eu lhe fiz, pode dar um parecer contrário a essa união do neto com a minha neta, não pode?
Dona Vitória, estamos quase no século vinte e um.
Não teria cabimento, nos dias de hoje, o avô interferir nos sentimentos do neto.
O que me intriga é o porquê de o Vinícius colocar o nome do filho de Aldo, seu amigo de infância.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 9:00 am

Seria uma espécie de homenagem ao amigo que ele viu morrer?
E se não for o seu Vinícius, amigo e namorado da juventude?
Se não for ele, óptimo.
A senhora teria vontade de procurar por ele?
Gostaria de saber onde está esse seu grande amor?
Eu não disse que ele foi meu grande amor.
Dona Vitória, sei que pode até ficar zangada comigo, mas...
Depois do que me contou e do jeito como a senhora contou, não pode negar que foi e é apaixonada por esse Vinícius.
Ora, Natália!
Me respeite. Já tenho idade e...
Interrompendo-a de imediato, perguntou:
E?... O quê?
Não estou faltando com respeito ao dizer a verdade.
Agora, estabelecida, com os filhos criados, viúva e independente, a senhora não tem satisfação a dar a ninguém.
É uma empresária, tem sua vida própria e, quer queira ou não, mora aqui connosco porque quer, porque para nós é muito bom e cómodo.
Senão, poderia ter sua vida ainda mais independente e até, se quisesse, viver de renda em um apartamento pequeno, longe dos filhos.
Não invente moda, menina.
Estou com sessenta e quatro anos e pronta para ir para um asilo e não para um apartamento e morar sozinha.
Sabe tão bem quanto eu que isso não é verdade.
Breve pausa e perguntou:
Por que fala assim?
Quer fugir do assunto?
Está com medo de responder à minha pergunta?
Que pergunta, Natália?
A senhora não tem vontade de saber onde e como está esse Vinícius que conheceu?
A sogra não respondeu e Natália prosseguiu:
Faz algum tempo, a senhora e o Antero planearam ir até onde morou, saber dos irmãos, apresentar o Antero para a tia e primos e até avós, se estiverem vivos.
Por que não aproveitar e procurar pelo Vinícius?
Ainda não fomos porque surgiram vários imprevistos e porque, também, não me empenhei para essa viagem.
Às vezes acho que temo encontrar, além de meus irmãos, o Vinícius.
Deus sabe o quanto eu temi encontrá-lo quando fui até o sítio de meus pais com o Isidoro e os meninos pequenos.
Como eu já disse, hoje é diferente.
A senhora está livre e desimpedida.
Não tem a quem dar satisfações.
Não me preocupo em dar satisfações aos outros.
Penso em como reagir diante dele.
Como vai ser? O que digo?
Será que ele ainda está vivo?
Deixe acontecer.
E se ele não quiser me ver?
E se olhar na minha cara e me ofender, depois de tudo o que lhe fiz?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 9:00 am

E se não acontecer nada disso?
E se ele disser que ainda a espera?
Vitória sorriu sem jeito e escondeu o olhar ao virar o rosto.
Talvez não quisesse que a outra visse o brilho imediato que resplandeceu em seus olhos.
Logo respondeu:
Estou velha, não percebeu?
Já não sou mais a menina que ele conheceu.
Ainda bem, porque ele também não deve ser aquele rapaz bonito, forte, que a senhora conheceu.
Já pensou se ele ainda fosse jovem e a senhora não? - sorriu.
Natália, minha querida...
Essa conversa não está me agradando.
Pode ser, mas nem por isso a senhora vai deixar de pensar nesse assunto.
Eu descobri que conversar a respeito de algo que fica rondando nossos pensamentos alivia a tensão e faz bem ao coração.
Não fique oprimida, constrangida com essa história.
Fale a respeito. Eu posso ouvi-la quando quiser.
Vitória sorriu.
Terminou de beber o chá e, ao ver a nora se levantar, pegou a caneca e o pires e disse:
Vou passar uma água pra você levar.
Os preparativos para o noivado de Mónica e Flávio ocupavam a mente de todos, deixando-os repletos de afazeres.
Vitória, acompanhando tudo, sentindo-se feliz com a emoção que via brotar cada dia mais na animação da neta, encontrava espaço para pensar na possibilidade de o avô de Flávio ser quem imaginava que fosse.
Lamentava ainda não se lembrar do nome da mãe de Vinícius.
Chegava a ter ideia vaga daquela senhora de pele muito clara e sempre sorridente que, junto com o marido, trabalhava no sítio do senhor Batista, vizinho de seu pai, cujas terras eram mais produtivas.
Havia momentos que o nome parecia perto demais, tão perto que saltaria de seus lábios num impulso a qualquer momento.
Vitória chegava a sentir uma tristeza vaga, uma angústia inquietante.
Era difícil traduzir aqueles sentimentos em palavras.
Contudo, algo inesperado aconteceu.
Um telefonema tirou sua atenção daquela expectativa.
Dona Vitória - chamou a empregada de Natália -, ligaram perguntando pela senhora.
Queriam saber se era mãe de alguém com o nome de João Alberto e se seu marido se chamava Isidoro.
Como assim? Quem ligou?
Era de um hospital.
Anotei o número e disse que depois a senhora retornaria a ligação, pois eu não sabia informar.
Toma, está aqui estendeu-lhe um pequeno papel com a anotação.
Com o coração aos saltos, Vitória telefonou.
João Alberto estava internado e após anotar o endereço, ela pediu a Nilton que a levasse até o hospital.
E foi em companhia de Vera, a nora mais nova que se entrelaçou em seu braço, que Vitória entrou em uma grande enfermaria que, visivelmente, tinha condições bem precárias.
Ela quase não reconheceu seu filho, que estava bem mais velho.
Uma assistente social explicou que foi muito difícil entrar em contacto com a família.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 9:00 am

João Alberto estava com a mente parcialmente destruída pelo uso de drogas e era difícil tirar dele informações corretas.
Conseguia dizer o nome do pai, da mãe, mas não se lembrava de outras informações precisas como endereços e telefones.
Só quando ele se lembrou do nome completo do irmão Antero, foi possível localizá-lo pela lista telefónica.
Aos quarenta e cinco anos, João Alberto parecia bem mais velho do que a própria mãe.
Muito calvo, trazia nas laterais da cabeça cabelos endurecidos, esbranquiçados, muito feios, parecendo usar uma espécie de peruca de palhaço.
Barba grande, esfiapada e maltratada, olhos caídos e um deles quase fechado por problemas nos nervos da pálpebra.
No rosto e em todo o corpo, feridas abertas pela baixa imunidade cuja origem era a péssima alimentação e uso de entorpecentes.
As mãos feias estavam com as unhas crescidas e sujas, praticamente não paravam de tremer, com movimentos estranhamente repetitivos como se levasse choques.
Tanto os braços quanto as pernas estavam presos com amarras para protegê-lo de si mesmo.
Esquelético, João Alberto apresentava uma fragilidade sem igual.
Por complicações vasculares, uma perna havia sofrido trombose e precisou ser amputada na altura do joelho.
Ele mal abria os olhos e talvez nem reconhecesse a própria mãe.
Apertando, sem perceber, o braço de Vera, que a segurava com firmeza, Vitória experimentou o coração apertado, oprimido como nunca, e sentiu as lágrimas quentes correrem por suas faces ressequidas e tristes.
Aproximando-se, soltou-se do braço da nora e tocou o filho com carinho.
Afagou-lhe o rosto que segurou, em seguida, entre as mãos, curvou-se ao se esticar e beijou-lhe a testa.
Ele está com complicações respiratórias - explicou o médico que se aproximou.
Ainda está sob o efeito de medicamentos pela cirurgia na perna.
Meu filho parece outra pessoa, doutor.
Hoje, infelizmente, ele é outra pessoa.
São os efeitos das drogas que causaram isso.
João Alberto abriu os olhos e parecia alucinado.
Olhou para Vitória e ficou indiferente.
Começou a falar coisas que não tinham o menor sentido.
Em dado momento gritou, debateu-se e mostrava-se bastante desequilibrado mentalmente.
Depois, parou e pareceu dormir de novo.
Meu Deus... - murmurou a mãe chorando.
O cérebro dele está corroído pelas drogas.
Por isso ele não está lúcido nem organizando as ideias - disse Vera em tom piedoso.
É isso mesmo.
Os danos nas paredes nasais e a perfuração do septo nasal, mostram que ele é usuário de cocaína.
E essa e outras substâncias provocam inúmeros efeitos no cérebro e podem produzir vasoconstrição e causar lesões.
Consequentemente, o cérebro deixa de exercer suas funções normais e essas promovem alterações em todo o sistema orgânico, a começar pela confusão mental, pelas debilidades mentais e daí por diante.
Ele está tão fraco, tão... Doutor, o que vai ser do meu filho?
O estado dele é bastante delicado.
Não posso lhe dar um parecer.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Abr 28, 2017 9:01 am

O médico fez uma anotação no prontuário do paciente, pediu licença e foi cuidar de outro caso.
Vitória e Vera permaneceram paradas ali por longo tempo sem nada poderem fazer.
Bem mais tarde, Vitória, decidida, informou aos outros filhos:
Vou providenciar a transferência do João Alberto para um hospital decente.
Mãe, a senhora não tem noção do quanto custaria a internação do João Alberto em um hospital particular - disse Márcio descontente.
Do quanto custaria, não.
Eu não tenho noção do quanto vai custar.
Mas ele será transferido o quanto antes para um hospital particular - determinou a mãe.
Só quero saber se vocês podem me ajudar nisso.
Se não puderem vou procurar outras pessoas para me orientar como fazer.
Onde arrumaremos dinheiro para isso? - tornou Márcio.
De onde sempre arrumamos! - foi firme.
Não concordo em tirar das nossas economias ou da empresa qualquer valor para cuidarmos do João Alberto.
A senhora se esqueceu de tudo o que ele fez quando o pai nos abandonou?
Se não está satisfeito, Márcio, deixe a empresa.
Pois as proprietárias somos eu e a Natália.
Você está lá por sua competência, porém, lembre-se de que simplesmente ocupa um cargo.
Não tem direito de dizer o que eu devo ou não fazer.
Se tem capacidade de ir para outro lugar e aprender com a vida, óptimo, vá.
Pois o seu irmão não tem a mesma capacidade sua.
É a ele a quem preciso ajudar, pois você tem condições.
Lembre-se de que não é meu sócio.
O que recebe é como funcionário e, diga-se de passagem, seu salário é muito bom, embora eu deva admitir que é bom no que faz.
Mãe, calma. Não é bem assim.
Como não é assim, Antero?! - vociferou.
A senhora não está sendo justa! - exclamou Márcio.
Ah, não?! É justo eu desprezar seu irmão que hoje está incapacitado e colocá-lo na rua e ficar com vocês, que têm condições de se cuidarem sozinhos?
Acha, por acaso, que eu ficaria feliz, satisfeita e realizada, sabendo que tenho um filho dependente químico, mutilado, debilitado mentalmente e jogado na rua, na sarjeta?!
Acredita nisso, por acaso?!
Breve pausa e disse mais calma e com autoridade:
Se fosse você eu faria o mesmo.
Márcio, indignado, levantou-se, deu alguns passos negligentes para longe da mesa, olhou pela janela e retornou.
Ainda em pé, comentou em tom baixo:
Vai pô-lo em hospital particular.
Daqui há pouco vai querer colocá-lo em uma clínica de reabilitação.
Eu não havia pensado nisso ainda.
Vou amadurecer essa ideia - respondeu firme.
O que quero agora é ver como posso transferir o João Alberto de onde ele está.
Vou ajudar a senhora.
Entrarei em contacto com o nosso plano de saúde para me informar sobre o que fazer - propôs-se Nilton, sempre compreensivo.
Natália, por ser minha sócia, quero ver com você a retirada da parte que me cabe daquela conta poupança que temos da empresa.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:22 am

Sem problemas, dona Vitória.
Quando a senhora quiser.
Obrigada, filha.
Eu sabia que poderia contar com você.
Quanto aos outros filhos ou noras, não tenho muito a dar satisfações, não é mesmo? - perguntou em tom mais brando.
Porém, não obteve resposta.
Mais tarde, longe da mãe, Márcio reclamava:
Isso não é justo, Antero.
O João Alberto nunca ligou para nós.
Ele e o pai gastaram tudo o que era nosso.
Você foi o mais prejudicado, pois o pai torrou sua herança.
Deveria falar com a mãe.
A princípio eu não tinha opinião.
Na verdade, nem sabia o que fazer.
Depois pensei e me coloquei no lugar da mãe.
Se fosse meu filho, eu também não o abandonaria, não o deixaria à míngua em um hospital público.
O que você faria se o João Alberto fosse seu filho, Márcio? perguntou Nilton.
Se fosse o Felipe, você o deixaria no hospital que está?
Depois da alta iria abandoná-lo à própria sorte?
Com meu filho é diferente! - expressou-se de modo arrogante.
Meu filho não será como ele.
Quem pode garantir isso?
Márcio enervou-se, não respondeu e se retirou.
Valendo-se das economias que tinha, Vitória providenciou hospital mais adequado para o filho e o transferiu.
Não pôde ser um hospital melhor porque o custo era muito alto.
Não sabemos quanto tempo ele vai ficar internado - comentou com Natália.
É um bom hospital, dona Vitória.
Melhor do que o outro. Nem se compara.
João Alberto permaneceu internado.
O noivado de Mónica se aproximava.
Vitória dividia-se entre visitar o filho e ajudar a neta, bastante agitada, com o grande acontecimento.
Em meio a tanta movimentação, Vitória não falava o quanto estava nervosa e ansiosa para saber sobre o avô de Flávio.
Quando acompanhava a neta, muitas vezes se encontrava com Aldo, pai de Flávio, e sentia aquela sensação estranha de uma felicidade ou alegria íntima, que vinha lá do cerne de sua alma, coisa que não conseguia explicar.
Quase tudo preparado para o noivado e quando teve oportunidade, Vitória procurou pelo filho Antero e disse:
Estou pensando...
Ou melhor, estou decidida a ir morar em um apartamento.
Como assim, mãe?!
O que há de errado aqui em casa?!
Sem esperar que a sogra se manifestasse, Natália exclamou insatisfeita:
Isso mesmo! O que há de errado aqui?!
Aconteceu alguma coisa que não percebemos?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:23 am

Não. Não aconteceu nada.
Vocês sempre me trataram muito bem.
Não tenho qualquer queixa.
É o seguinte:
o João Alberto vai receber alta.
Ele precisará de ajuda, de cuidado, e não é certo vir para cá.
Também não é justo deixá-lo sozinho em algum canto.
Ele precisará de mim e farei o que for possível para ajudar meu filho.
Poderá trazê-lo para cá e cuidar dele aqui.
Temos espaço, quintal e podemos construir mais um cómodo na edícula onde a senhora mora e o João Alberto terá um quarto mais amplo.
Não vai precisar sair daqui, de jeito nenhum - disse o filho.
Isso não é justo com vocês.
Acredito que, por causa da dependência química, o João Alberto vai dar trabalho.
Por isso penso que um apartamento seja o ideal.
Não, mãe. De jeito nenhum.
Por pior que seja a situação, a senhora é minha mãe e o João Alberto meu irmão.
Somos uma família. Não quero os dois longe.
Até porque, quero ajudar.
Vitória deu-se por vencida.
Em seu íntimo, desejava mesmo ter Antero e Natália bem próximos.
E provavelmente também contaria com a colaboração de Nilton e Vera.
Só Márcio e Cleide talvez se distanciassem da empreitada em ajuda a João Alberto.
Antero providenciou pedreiro e construiu mais um cómodo onde fez o quarto do irmão.
Quando ele recebeu alta, foi levado para casa.
Percebia-se que João Alberto tinha grande dificuldade de raciocínio, embora soubesse o que se passava com ele.
Sua fraqueza física e mental o deixava dependente inteiramente dos outros e principalmente da cadeira de rodas.
Vitória cortou-lhe os cabelos bem curtos, fez-lhe a barba e o filho ganhou outra aparência, apesar de um abatimento e um envelhecimento evidentes provocados pelo uso de drogas.
Nos primeiros dias, João Alberto quase não falava com ninguém e baixava o olhar, sem encarar os outros.
Estava em profunda depressão por conta da falta de droga.
Tinha tremores e movimentos repetitivos, insónia e momentos de choro intenso.
Em alguns momentos, experimentava crises de raiva e se pudesse, se tivesse forças, seria violento.
A princípio, ficou agressivo com as palavras.
A abstinência, o efeito da falta das drogas o castigavam impiedosamente.
Algumas vezes, quando uma espécie de lucidez vaga se apoderava dele, passava a confidenciar com sua mãe, que o ouvia atentamente.
Tudo começou na escola, com um simples cigarro de maconha.
Todos os meus amigos diziam que aquilo não viciava, que eu nunca iria me viciar.
Mas na verdade, não se sabe.
Nunca se sabe, pois tem gente que já fumou maconha, cheirou cocaína e não se viciou.
Tem gente que usa uma vez e não se vicia, mas se esquece de que o uso contínuo, mesmo para quem não se viciou, torna alguém dependente.
Assim como tem gente que ingere bebida alcoólica e nunca se vicia no álcool, não se torna alcoólatra, mas se continuar bebendo, o corpo, o organismo vai pedir mais.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:23 am

Como a gente não sabe se algo pode nos viciar ou não, o melhor é nunca usar, principalmente uma coisa tão perigosa como as drogas.
É que a gente acha que o vício só acontecerá com o amigo, com o vizinho.
Eu não! Eu nunca serei viciado!
Posso parar quando eu quiser!
Era assim que eu pensava.
Então fumei um cigarrinho de maconha e fiquei legal.
Foi o maior barato.
Experimentei um prazer, uma confiança no que fazia e falava.
Além do que, eu era aceito pelo grupo.
Aceito pela turma.
Me tornava um deles.
Quando o efeito acabava eu voltava a ser o mesmo cara comum, medíocre e sem graça de antes e não queria isso, não queria ficar daquele jeito comum.
Lembro que quando era adolescente, odiava o Antero.
Ele parecia o seu preferido.
O pai ficava me pressionando, dizendo o quanto eu deveria ser melhor do que ele e eu queria me empenhar.
Quando usava drogas me sentia realmente melhor do que ele.
Por que não veio conversar comigo sobre isso, filho?
Na minha cabeça, se eu fosse conversar com a senhora, seria um fraco, um dependente de seus conselhos.
Também achava que a senhora não iria me entender.
Daria bronca, gritaria, me acharia um incapacitado.
Então ficava com a auto-estima lá embaixo, frustrado, inconformado, contrariado.
Daí aparecia a droga como uma saída pois, ao usar, aqueles medos e frustrações desapareciam.
Em minhas ideias, quando estava sob o efeito do entorpecente, os meus problemas pareciam insignificantes ou deixavam de existir.
Só que, quando passava o efeito, eu estava péssimo.
Daí vinha a vontade de usar de novo para me livrar do mal-estar, das sensações ruins, dos pensamentos negativos.
As drogas me proporcionavam um prazer, um bem-estar indescritível, só que, cada vez mais era preciso aumentar a dose, pois os efeitos de prazer e tudo mais, não eram os mesmos.
Tudo o que é bom a gente quer repetir e foi assim que aconteceu comigo.
Era bom, dava prazer e eu queria de novo.
Eu não admitia que estava me tornando dependente.
Sempre dizia a mim mesmo e aos amigos que usava aquilo por recreação, por lazer, e poderia parar quando quisesse.
Mas não era verdade.
Ao ficar sem a droga, sentia uma inquietação, uma irritação sem igual.
Chegava a ficar agressivo, nem conseguia pensar direito.
Tinha uma inquietação, uma ansiedade, e ao usar as drogas, tudo passava.
Era como encontrar um jeito de fugir dos problemas e das dificuldades.
Só que, no fim, quando acabava, o prazer se transformava em dor, dor no corpo e na alma.
Comecei a ir de uma droga para outra.
Virou uma ideia fixa, só pensava em como conseguir mais daquilo.
Daí que, com o tempo, a mente não se foca mais no trabalho, nas obrigações...
A gente fica nem aí para as coisas importantes da vida como família e trabalho.
O importante é, naquela hora, naquele momento, conseguir alguma coisa que traga alívio e prazer.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:23 am

Breve instante e continuou:
Foi indo, foi indo e começaram as dores no corpo, as tonturas, as náuseas...
Até a claridade incomodava, às vezes, de forma insuportável.
Mas não importava, eu queria mais. Precisava de mais.
O emprego se foi - prosseguiu lamentando -, a família se foi...
Então fiquei vulnerável e me submeti a qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, para conseguir um pouco de pó, e, mais tarde, entrei no crack, uma pedra que alivia aquelas sensações horríveis.
A gente começa a vender as coisas materiais, depois o próprio corpo e...
Cheguei a furtar, a roubar, a praticar crimes...
Fiz de tudo para conseguir qualquer coisa e depois fugia para um beco escuro para fumar, cheirar ou injectar.
Quantas vezes me lembrei de como era bonito, forte e tudo aquilo foi consumido pelas drogas.
Minha inteligência... Minha mente também foi consumida - riu de modo irónico.
Mas eu sempre achava que poderia parar a qualquer momento e retomar minha vida.
Havia dias que ao acordar não sabia onde estava nem o que tinha feito, nem o que tinham feito comigo.
Chegava a esquecer meu nome.
Virei indigente, pedinte em faróis...
As drogas foram consumindo minha saúde, minha mente - repetia.
Pensei em morrer, em acabar com tudo.
Anos e anos daquele jeito. Foi horrível.
Não sei como, mas fui atropelado.
Acordei num hospital.
Confuso, só entendi que alguém me disse que iriam cortar minha perna por causa da trombose.
João Alberto silenciou.
Lágrimas correram de forma amarga por seu rosto pálido, quase cadavérico.
Vitória não sabia muito bem o que dizer.
A princípio seu impulso foi o de brigar com o filho por não conseguir compreender como ele se deixou iludir pelas drogas.
Ele era uma pessoa instruída e sabia, mesmo que na teoria, que as drogas, sejam as consideradas lícitas como o álcool e o cigarro, ou ilícitas como a maconha, a cocaína, o crack, a heroína, o ecstasy e outras, faziam indescritível mal à saúde, viciavam e se tornariam um flagelo.
Mas não disse isso. Não adiantaria.
João Alberto descobriu, pela pior maneira, aquela verdade.
Estou no fundo do poço, mãe. Não sei o que fazer.
Tem hora que eu quero morrer.
Vitória o abraçou com carinho e o afagou com generosidade.
Com o coração apertado e triste, disse baixinho:
Agora que está consciente da situação e, pelo que entendi, quer se livrar disso tudo, fica mais fácil.
Você está com sua família.
Eu cuidarei de você, meu filho.
Ambos choraram.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:23 am

CAPÍTULO 14 - MACONHA, COCAÍNA, CRACK, OUTRAS DROGAS E SEUS EFEITOS

A festa de noivado de Mónica e Flávio aconteceu em um salão alugado, decorado e arranjado para os familiares e alguns amigos.
A jovem estava muito animada.
Nas mesas alegremente arrumadas, os convidados se acomodavam.
Vitória quase não pôde comparecer por causa de João Alberto que estava em crise de abstinência e muito deprimido, dizendo sentir dores e sensações físicas horríveis por todo o corpo, junto a um medo irracional.
Nilton e Angélica concordaram em se revezarem para cuidar do irmão a fim de Vitória se distrair e participar da festa da neta, a quem era muito apegada.
Com tantas coisas acontecendo, Vitória quase não mais se lembrava da possibilidade de se reencontrar com Vinícius.
Porém, assim que chegou ao salão de festas, Mónica, animada, levou-a para conhecer o avô de Flávio.
Ao deparar com aquele homem alto, de pele alva e rosada, olhos vivos, cabelos grisalhos, ralos e teimosos, ela não teve dúvidas.
Era Vinícius, seu amigo de infância, seu primeiro namorado, o rapaz que, mesmo amando, ela abandonou sem dar nenhuma satisfação e traiu sua confiança.
Havia pensado tanto naquele encontro que conseguiu ficar firme ao se aproximar.
Por um momento acreditou que ele não fosse reconhecê-la.
Afinal, depois de tantos anos...
O senhor alto e magro estava sorridente ao estender a mão àquela senhora até que a olhou por alguns longos segundos, enquanto apertava sua mão.
Seu sorriso se fechou ao ouvir o nome dito por Mónica:
Esta é minha avó, Vitória.
Ela também é mineira e nasceu próximo à região onde o senhor mora.
Vitória ficou atónita e decidiu perguntar num murmúrio:
Você está bem, Vinícius?
Para ele não houve dúvidas.
Aquela era Vitória.
A menina que tanto amou e por quem muito sofreu.
Estou bem - respondeu no mesmo tom. - Você...
Não estou acreditando.
Tudo bem, papai? - perguntou Aldo, estranhando aquela reacção. - O senhor...
Largando a mão de Vitória, Vinícius forçou um sorriso com o canto da boca que rapidamente se desfez e respondeu virando-se:
Tudo bem.
Mas... Como assim?
Vocês se conhecem? - tornou Aldo desconfiado.
Nós nos conhecemos, sim. Há muitos anos... muitos.
Se me dão licença... - disse Vinícius sentindo-se perturbado e se afastando, indo em direcção de uma mesa.
Dona Vitória, o que houve? - tornou Aldo.
Mesmo sentindo-se contrariada, respondeu, procurando fugir do assunto:
Conheço seu pai.
Nós nos conhecemos muito bem.
Somos da mesma região.
Só que, na juventude, nos desentendemos e não resolvemos isso até hoje.
Foi algo grave, vovó?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

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