Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:24 am

Grave?... Não. Digamos que... - não sabia o que responder e se calou.
Mónica, como que recebendo uma inspiração, tentou brincar:
Vai ver foi coisa de namoro. Não foi, vovó?
Vitória a olhou séria, penetrando-lhe a alma por segundos e respondeu com um silêncio frio no rosto austero.
Em seguida, deixou-os e foi em direcção à nora Natália.
Aldo e a futura nora se entreolharam e ele perguntou com sorriso intrigante:
Será que você acertou?
Não sei. Vou descobrir essa história, direitinho - respondeu com um jeito maroto e engraçado, saindo de perto dele.
Não demorou e encontrou a avó ao lado da mãe.
Inquieta, Mónica ficou rodeando-as até dar um jeito de se infiltrar na conversa e perguntar:
Tudo bem, vovó?
Tudo, Mónica - respondeu dissimulada e insatisfeita com o comportamento da moça.
Sua festa está muito bonita.
Vejo que suas amigas estão dançando, se divertindo muito.
Daqui a pouco vamos colocar músicas mais antigas - sorriu.
Acho que a senhora vai gostar e, quem sabe, até vai dançar um pouquinho.
A avó nada respondeu e Natália perguntou:
Onde está o seu pai? - referiu-se a Antero.
Lá perto do senhor Vinícius.
Acho que ele não está bem.
Por quê?! - quis saber Vitória num impulso.
A viagem foi longa, mal descansou e chegando aqui...
Não sei o que aconteceu quando ele viu a senhora, vovó.
O senhor Vinícius ficou tão esquisito!
Não aconteceu nada. Deixe de coisa.
Se vocês se conhecem, por que não conversaram um pouco mais?
Mal se cumprimentaram e ele empalideceu e se afastou.
Diante do silêncio, Mónica insistiu:
Ele foi seu amigo? Colega de escola?
Como se conheceram?
Conhecemos muita gente na juventude, menina.
Por que não vai aproveitar sua festa? - pareceu zangada.
Alguns instantes e Cristina se aproximou.
Com sorriso generoso, ficou ao lado de Vitória e perguntou:
A senhora não quer se sentar ali com a gente?
Não, obrigada, filha - respondeu Vitória mais tranquila e educada.
Meu sogro e a senhora se conhecem.
Poderiam conversar, matar saudade dos velhos tempos.
É mesmo, dona Vitória - concordou a nora.
Até você, Natália? disse baixinho.
Virando-se para Cristina, disse:
Talvez o Vinícius não esteja para conversa hoje.
Quem sabe um outro dia. - Breve pausa.
Eu preciso me sentar.
Vamos para uma mesa ali no canto?
Elas concordaram.
A neta pensou em fazer mais perguntas, porém Flávio a chamou e precisou ir junto a ele.
Logo, outros acontecimentos foram mais chamativos e o facto esquecido pelos outros, pois Vitória sentia-se trémula por dentro.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:24 am

Entristeceu-se ao ver a reacção de Vinícius, a última pessoa que gostaria de magoar neste mundo.
Ao vê-lo, sentiu-se como se o mundo tivesse parado, e ela resgatada de um abismo.
Uma treva de emoções encravou-se em sua alma e sentiu uma dor como nunca experimentou.
Como Vinícius deve ter reagido na época, quando ela não lhe deu satisfações e ele soube tudo o que lhe aconteceu?
Quando soube que, solteira, engravidou de outro?
Casou-se e foi morar longe?
Deve ter sofrido muito, afinal, ele a amava e ela sabia, sentia isso.
Vitória sentiu-se sem dignidade, sem princípios, sem carácter.
Experimentava uma vergonha imensurável, cruel, em meio àquela paisagem alegre e de comemoração.
A reacção de Vinícius não foi de indiferença ao vê-la, foi de desprezo.
Aquele silêncio amargo foi a resposta mais polida que convinha naquele momento.
Seus pensamentos se corroíam em tudo o que havia feito para alterar seu destino.
Pela ganância, buscou um caminho fácil.
Em vez de escolher pelo sonho de viver em paz ao lado do rapaz, do homem que amava e verdadeiramente a queria ao lado, preferiu o caminho incerto da ambição, mesmo sabendo ser humilhada, traída e desprezada.
Como se não bastasse ter-se enganado com Odilon, errou pela segunda vez buscando mais estabilidade com Isidoro, pior do que seu primeiro marido.
Por ironia, naquele momento, lembrou-se do nome da mãe de Vinícius: dona Adalgisa.
Parecia brincadeira.
Agora não adiantava mais saber.
Gostaria de ter lembrado antes para se prevenir ou se preparar mais.
Mas de que adiantaria?
Irritou-se.
Ensurdecida pelo ambiente de festa e alegria, lembrava-se da passagem de O Evangelho Segundo o Espiritismo, onde leu "Que todos os que têm o coração ferido pelas dificuldades e decepções da vida, interroguem friamente a própria consciência.
Que remontem passo a passo à fonte dos males que os afligem, e verão se, na maioria das vezes, não podem dizer:
'Se eu tivesse ou não tivesse feito tal coisa, não estaria nesta situação"'.
Maldito coração despedaçado que, só agora, depois de tantos anos, estava oprimido e amargurado pelas decisões erradas, pelos caminhos tortuosos, pela porta larga que escolheu.
Precisava, a partir de então, cuidar para não errar mais, já que o passado não poderia mudar.
De madrugada, chegou à sua casa em silêncio.
Agradeceu a Deus ao ver que João Alberto estava dormindo.
O filho costumava ficar insone e agitado.
Ao ver que Nilton também dormia, tirou os sapatos, procurou o sofá e sentou-se sobre as pernas.
Olhando através da janela, viu a sombra da árvore que tremeluzia a luz fria e pensou que deveria encarar a situação de modo sereno, sem ansiedade, pois nada lhe restava para fazer.
De certo, Vinícius cultivou grande mágoa em todos esses anos e não conseguiria mudar tamanha dor que ela causou.
Nada que dissesse ou fizesse apagaria o passado.
Suas escolhas e seu caminho provavelmente não fossem de verdadeira importância para quem, de fora, conhecesse essa história.
Mas a sombra daquele sonho de amor, para ela e para Vinícius, era de grande importância.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:24 am

Não dava para dizer que tudo aquilo havia sido inútil e inofensivo.
De certo, logo Vinícius iria embora para longe e não o veria mais.
Iria embora sem falar com ela e ele estava em seu direito.
Precisava esquecer o passado e adormecer tudo aquilo no coração, como quem faz dormir uma serpente pronta para destilar o veneno do arrependimento, cada vez que o passado batesse à porta da lembrança.
Ao clarear o dia, repleto de uma luz alegre, Nilton se levantou chegando à cozinha onde sua mãe preparava o desjejum.
O gostoso aroma do café coado à moda antiga dava ânimo ao apetite.
Um bolo assava e rodelas douradas de pães, com leve passada de margarina, descansavam sobre a mesa à espera da degustação.
Que cheiro gostoso! Bom dia, mãe!
Bom dia, Nilton. Dormiu bem?
Dormi.
Ele se sentou à mesa e ela acomodou-se à sua frente de olho no forno, enquanto perguntava ao servir-lhe o café fumegante:
O João Alberto ficou calmo?
Quando eu saí da festa e vim pra cá, ele estava um pouco agitado.
Então peguei a Angélica e fui levá-la à festa.
Sei...
Daí que levei o João comigo e percebi que, no carro, ele ficou mais calmo.
Olhando a rua...
Acho que precisa sair mais, de mais apoio psicológico.
Eu não entendo disso, Nilton.
Sei que ele é viciado, dependente químico, como dizem, mas eu não sei o que é exactamente isso.
Para quem nunca sentiu, não sabe nem tem ideia do que é.
Preciso de ajuda e orientação para ajudar seu irmão.
O tratamento, com internação em clínica, fica bem caro.
Mas eu não sei até onde é esse caro.
De repente dá para pagar.
Andei observando e...
Seu irmão chegou aqui muito fraco, extremamente debilitado e não tinha forças.
Dependia de muitos antibióticos, anti-inflamatórios, remédio contra dor, remédios para o estômago.
Agora ele está mais recuperado e à medida que se alimenta melhor, se fortalece.
Com essas reacções agressivas e mais fortes do que antes...
Eu percebi. Ele está ganhando força.
Estou ficando bastante preocupada com isso.
Hoje ele já se levantou da cadeira de rodas sozinho, já andou um pouco de muletas...
Tenho medo que, em uma de suas crises, não resista e saia de casa, procurando por drogas.
Por isso acho que é preciso o apoio psicológico.
Aqui perto tem uma igreja que oferece um grupo de apoio para dependentes químicos.
Estou pensando em ir conhecer e ver o que é possível fazer para ajudar seu irmão.
Ele precisa querer.
Não vai poder amarrá-lo e levá-lo lá à força.
O João Alberto está fragilizado, arrependido.
Já me contou cada coisa... Ele quer ajuda.
Não quer mais que seja como antes.
Se eu chegar agora com um meio de ajudá-lo, de apoiá-lo para que se livre do vício, ele vai aceitar.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:24 am

Às vezes percebo que está confuso, não fala coisa com coisa.
Não era assim. Como as drogas o consumiram falou em tom lamentável.
Dá dó dele. Era um cara tão esperto, forte... Agora...
Ver meu filho assim, acaba comigo.
Vitória apoiou os cotovelos na mesa, cobriu o rosto com as mãos e chorou um pouco.
Logo, buscou ser forte e desabafou:
Não pode imaginar como ficam os sentimentos de uma mãe que vê o filho se acabando, morrendo em vida, sendo destruído.
Quando ele me contou o que passou, o que precisou fazer para arrumar dinheiro para comprar essa desgraça... essa porcaria que só tem uma utilidade:
estragar a vida de alguém... senti um mal-estar tão grande, uma dor infinita...
Não sei se foi por culpa minha ou de seu pai que não vigiou o João Alberto.
Acho que foi culpa de nós dois.
Se todos os pais soubessem como as drogas acabam com seus filhos, como elas agem e destroem o corpo, a mente...
Quanto prejuízo...
Se soubessem o que um filho tem que fazer para consegui-la...
Se soubessem, vigiariam mais, ficariam mais atentos, mais presentes, participativos na vida de seus filhos.
É tão duro ser surpreendido pela desgraça do vício de um filho.
Vê-lo com a aparência tão horrorosa, tão doente... chorou.
Não fique assim, mãe.
Nós vamos ajudar o João.
A senhora vai ver - afagou-lhe o braço com carinho.
Foi culpa minha.
Não, não foi.
Acho que o pai colaborou muito para o João ir por esse caminho, quando o deixava fazer de tudo, não impunha limites, não o obrigava a dar satisfações do que fazia, onde ou com quem estava.
Além disso, o pai tirava toda a sua autoridade.
O Isidoro exigia muito do João Alberto, querendo que ele fosse melhor.
Nunca conversava, não havia diálogo.
Aliás, nunca houve diálogo com nenhum de vocês.
Só que vocês, diferentes do João, eram filhos mais maleáveis, mais brandos.
Não importa o que falhou na educação ou orientação do João.
Importa o que pode ser feito agora.
Importa, também, usarmos o exemplo do que aconteceu com ele para orientar e não deixar que aconteça o mesmo com meus netos.
É verdade.
Observando-a mais animada, lembrou:
Mãe, acho que o bolo já está bom.
Nossa! Eu havia esquecido!
Levantando-se foi tirar o bolo do forno.
Nos dias que se seguiram, Vitória não perdeu tempo e foi à procura de orientação.
Consulta e conselhos com psiquiatras e psicólogos, deixaram-na mais ciente do que aconteceu e acontecia com seu filho.
Levando-o para uma consulta com um psiquiatra particular, pois os da rede pública e planos de saúde provavelmente não se colocariam tão à disposição, Vitória e João Alberto procuraram orientação e ajuda.
Bom dia! Sou o doutor Francisco.
Em que posso ajudar?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:25 am

Bom dia, doutor - cumprimentou Vitória, apertando-lhe a mão.
Depois foi a vez de João Alberto, que o fez de modo mais tímido.
Doutor, estamos aqui porque meu filho é dependente químico.
Ele chegou a um ponto crítico e... precisamos de orientação.
Certo. Fale-me um pouco de você, João Alberto.
Quantos anos tem, como tudo começou e o que você espera fazer agora.
Tímido, ele quase não encarava o médico.
Torcendo as mãos, com olhar baixo, contou:
Tenho quarenta e cinco anos.
Fumei o primeiro cigarro de maconha aos quinze.
Todo mundo dizia que não viciava, que era legal, que a gente ficava numa boa.
Fiquei muito tempo na maconha.
Cada vez que discutia em casa, eu dava um jeito de dar um tapa num baseado e aqueles sentimentos ruins passavam.
Daí foi... Tinha problemas na escola, com namorada... com alguma dificuldade qualquer e... dava umas puxadas e sentia alívio, prazer.
Pensei que eu pudesse largar quando quisesse.
Acreditava que não era viciado nem iria me viciar.
Pararia quando quisesse.
Notei que, cada vez mais, precisava de mais e mais.
Quando estava na faculdade, entrei em contacto com a cocaína.
Troquei a maconha pela cocaína.
Com o tempo precisava de mais.
Tinha de aumentar a dose e diminuir o intervalo de uso.
Mesmo percebendo isso, acreditava que podia parar quando quisesse.
Depois que fui morar sozinho, tive mais liberdade para usar de tudo.
A cocaína tava ficando cara e eu sem dinheiro.
Algum tempo depois comecei a usar crack.
Uma pedra aqui, outra ali...
Achei que o efeito era melhor, porém mais curto e mais barato.
Os negócios com meu pai não iam bem e eu mudei de ramo.
Fui para São Paulo e minha vida... - sua voz embargou.
Respirou fundo e prosseguiu:
Perdi tudo, mas não a dependência do vício.
Então, fazia de tudo por qualquer droga, por dinheiro para comprar alguma coisa - lágrimas escorreram em sua face ao lembrar do que precisou praticar.
Vivi nas ruas, na prostituição.
Fui prostituto activo e passivo.
Perdi o respeito, a dignidade por mim mesmo.
Descobri que todo mundo, homem e mulher que se prostitui, é por conta do vício, das dívidas com droga.
Ninguém fica nessa vida porque quer, mas por falta de opção.
Vivi no crime até minhas forças acabarem.
Pedia dinheiro nos faróis, nos cruzamentos, para poder comprar uma pedrinha de crack que fosse.
Fiquei doente, fui atropelado, perdi a perna...
Não perdi a perna por causa do atropelamento, não.
Perdi minha perna por causa das drogas que provocaram gangrena, problemas circulatórios... - chorou.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:25 am

Minha mãe me encontrou e hoje estou aqui.
Tem dia que é difícil... Quero uma dose...
Tenho tremores horríveis por dentro e por fora.
Sinto um desespero...
Fico irritado, agressivo e isso não passa.
Entro em depressão profunda.
Sinto um pânico, um medo terrível que não sai da minha alma.
Medo não sei do quê e aí vem a vontade de usar qualquer coisa, qualquer coisa para isso passar.
Tenho sensações físicas, sinto minha pele repuxar, dor no peito...
Sinto um repuxão nos nervos do rosto, das costas, do braço, como se alguém estivesse esticando minha pele, aí vem um medo.
Tenho uma sensação de quase morto a todo instante.
Minha mente está confusa, não organizo mais as ideias...
Apesar do medo de morrer, quero morrer.
Vivo angustiado e...
Confesso que, se não fosse minha mãe, eu teria me matado.
Cheguei ao fundo do poço.
Então está na hora de subir, não é, João Alberto?
O paciente não respondeu e o doutor Francisco comentou:
É importante que todos os que decidem entrar ou sair das drogas tenham algumas informações.
Como eu falo sempre:
dizer que as drogas não prestam e mandar os filhos dizerem não às drogas, não é o suficiente.
Muita gente usa, faz apologia à maconha que...
O que é apologia, doutor? - perguntou Vitória de imediato e com simplicidade, agindo correctamente, pois estava disposta a saber ao máximo para ajudar seu filho.
Vendo que se falasse de modo formal eles provavelmente não entenderiam, o doutor Francisco explicou:
Apologia é um discurso para defender ou justificar, ser a favor de alguma coisa.
Então... Muita gente usa, para defender o uso da maconha, dizer que ela, a maconha, não vicia a todos e que não há comprovações científicas de que ela leve ao uso de outras drogas.
Eu digo, por conhecimento e experiência de mais de vinte anos só na área de psiquiatria, que a maconha pode aumentar a probabilidade do uso de outras substâncias, sim, como a cocaína, por exemplo.
E quanto a dizer que nem todos se viciam com a maconha, o problema é:
não temos como saber quem vai se viciar, quem vai ter problemas com a maconha no futuro.
Um instante e lembrou:
O chocolate, que é algo simples, totalmente lícito, vicia se a pessoa fizer uso constante.
Não posso dizer que o uso constante da maconha nunca vai viciar, mesmo aquele que não tem tendência ao vício.
Sabe-se que quanto menor a idade de quem começa a usar droga, maior a chance do vício e de grandes problemas causados por ela e isso é cientificamente confirmado.
E alguns dos problemas são:
os usuários de maconha têm sete vezes mais chances de desenvolver sintomas psicóticos; quando no organismo, ela causa diminuição da coordenação motora, diminuição e alteração da concentração, da capacidade visual e do pensamento lógico, alteração da memória etc.; deixa a boca seca, olhos avermelhados, provoca aumento dos batimentos cardíacos - taquicardia - aumento do apetite, problemas respiratórios, sonolência; alteração da menstruação nas mulheres, infertilidade nos homens, assim como a perda da capacidade de memória.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:25 am

Ainda não se sabe se esses danos são reversíveis.
Mesmo cientes disso, existem aqueles que pedem a legalização dessa droga, como em outros países.
O uso medicinal da Cannabis Sativa, ou seja, da maconha, traz o argumento de que diminui o vómito, a pressão no interior dos olhos - em doenças como o glaucoma -, pode provocar ganho de peso e isso seria relevante em doenças que emagrecem muito como é o caso de câncer e da Aids.
Mas eu gosto de lembrar que já temos remédios para isso, temos remédios para todos esses sintomas tanto do câncer como da Aids e com resultados melhores do que o da Cannabis Sativa.
Além do que, fumar maconha é mais cancerígeno do que fumar o tabaco dos cigarros e cachimbos.
A Cannabis Sativa, ao ser fumada, joga no corpo mais de quatro mil substâncias tóxicas.
Acham que realmente esse é o melhor tratamento para o paciente com câncer?
E quanto à Aids?
O uso dessa droga pode, eu disse:
pode, trazer ganho de peso com o aumento de gordura, mas não recupera os músculos, a musculatura e, ainda, como efeito, reduz a imunidade e diminui a defesa do organismo contra infecções.
Acham que realmente esse é o melhor tratamento para alguém seropositivo?
Além disso, existem os efeitos psíquicos que não são bem-vindos aos pacientes.
Além de tudo isso - insistiu -, a maconha pode causar dependência a uma pessoa seropositiva portadora do HIV ou com câncer.
Dependências física e psíquica, e hoje já temos estudos suficientes que mostram que ela modifica o funcionamento do cérebro e provoca danos irreversíveis ao organismo.
Ela provoca efeitos sobre a mente e sobre o comportamento.
Infelizmente, também falam sobre os possíveis efeitos benéficos, mas eu não sei a quem eles querem enganar.
Em alguns países, como o Canadá, o uso da maconha é liberado - disse João Alberto.
Não queira jamais comparar o nosso país, o sistema de saúde existente no Brasil, com as condições muito diferentes encontradas no Canadá e em alguns países europeus que não exactamente liberaram o uso da maconha para o consumo.
Lá, as condições são outras, a educação e a cultura da população são outras.
Os sistemas desses países garantem acesso e tratamento aos usuários que desenvolverem dependência.
Eles têm um sistema de saúde que funciona, dão suporte social, médico e psicólogo para todos.
Não é nada, nada, nem de longe, o pobre e fracassado sistema de saúde que temos aqui no Brasil.
Acha que estamos preparados para tentar uma experiência desse tipo? - silêncio.
O problema é:
se liberarmos o uso da maconha, mesmo para doentes específicos - lembrando que ela não é essencial para determinados sintomas, pois existem medicamentos próprios para tal - se liberá-la haverá mais disponibilidade.
Estatísticas indicam que o uso de uma droga pode levar a outras, sim.
Veja bem, temos muitos acidentes de carro envolvendo motoristas alcoolizados, não é o alcoólatra que todas as vezes provoca um acidente, mas sim aquele que bebe eventualmente, socialmente, por recreação.
Se a maconha for liberada, quem vai e quem não vai se viciar?
Se a maconha for liberada, sabendo-se cientificamente que ela traz alterações no comportamento humano, quem vai fazer o quê sob o efeito dessa droga?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:25 am

Fez uma pausa para que reflectissem, depois prosseguiu:
Dizem que ela não tem efeitos intensos para alguns, mas para quem?
E os demais?
Sabe-se que o excesso no uso torna a pessoa incapacitada para dirigir veículos, operar máquinas pesadas...
Como fica isso?
O uso frequente, comprovadamente, causa perda de motivação e depressão, em alguns casos.
É certo que experimentar essa droga uma vez não vai fazer da pessoa um dependente nem marginal, porém é preciso se cuidar e se orientar, e quem pode se garantir disso?
Às vezes, é preciso se proteger de si mesmo quando o assunto é droga.
Gosto de dizer que o cara que quer a liberação da maconha, com certeza, é usuário.
Portanto, o cérebro dele já está comprometido ou dependente, afectado pelo uso da maconha; o funcionamento normal está comprometido.
Ele não sabe o que está pedindo.
É igual ao alcoólatra que quer continuar bebendo e procura justificativas dizendo que uma taça de vinho faz bem durante a refeição.
Existem outros tipos de alimentos que fazem tão bem quanto o vinho e não são alcoólicos.
Se a maconha fosse coisa boa, não teria sido dada aos soldados do Vietnam para encorajá-los à violência.
Tem muita inocência junto à má fé a uma coisa tão venenosa!
Pois, como no seu caso, ela pode levar para outras drogas mais perigosas, muito mais destrutivas.
Como foi o caso da cocaína, né, doutor?
Entendo que foi ela que acabou com o meu filho.
Isso mesmo. Não é fácil libertar-se do vício da cocaína, mas é possível.
É doloroso, é sofrido.
No Brasil, actualmente, o governo não tem estrutura para isso.
Por que as drogas, como a cocaína, viciam tanto?
Eu gostaria de entender um pouco mais.
Se o senhor puder me explicar de maneira bem simples pediu Vitória.
Em nosso cérebro possuímos neurotransmissores como a dopamina, noradrenalina, serotonina, que agem normalmente em determinadas regiões e promovem, entre outros efeitos, a motivação, o ânimo e o prazer.
Quando a cocaína entra no sistema do cérebro, ela bloqueia o funcionamento normal, bloqueia os transportes dos neurotransmissores.
Em vez de o neurotransmissor seguir normalmente seu rumo até um neurónio para ser recaptado, ele tem o seu transporte inibido, bloqueado pela cocaína.
Então, ele, o neurotransmissor, fica solto, fica passeando pelo cérebro, promovendo seus efeitos.
Isso promove um excesso de neurotransmissores no cérebro, pois eles demoram a chegar ao seu destino e só o fazem quando a cocaína sai de circulação ou acaba o efeito.
Não sei se entendi muito bem.
Deixe-me exemplificar.
A dopamina, que é um neurotransmissor, é uma substância sintetizada pelas células nervosas e sua função é promover, entre outros efeitos, a motivação, enquanto passeia pelo cérebro até chegar a certas áreas e atingir certos neurónios.
Igual ao oxigénio, que precisa do sangue como meio de transporte para sair dos pulmões e chegar a uma célula em outro órgão, a dopamina precisa de um meio de transporte para ir de um lugar ao outro no cérebro.
Quando se usa cocaína, ela, a cocaína, ocupa esse meio de transporte e faz com que a dopamina fique passeando, por assim dizer.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:26 am

Se aquela dopamina não chegar no tempo certo onde ela precisa, ela vai ficar solta no cérebro, promovendo seus efeitos que são o de motivação, prazer.
Acontece que, nesse tempo em que ela fica passeando, outras dopaminas também surgirão e seu transporte também será ocupado pela cocaína, e vai acontecer um acúmulo, um excesso de dopamina e outros neurotransmissores soltos, passeando no cérebro, que não conseguem chegar ao seu destino, ou seja, não conseguem ser recaptados por um neurónio até que a cocaína saia do transporte.
Pelo facto de a dopamina provocar um efeito de motivação, muita dopamina, que não é recaptada, ou seja, que não chega ao seu destino no cérebro porque a cocaína bloqueou seu transporte, vai provocar muita motivação.
Lembrando que nós temos outros neurotransmissores que têm vários outros efeitos e proporcionam várias outras reacções, e todos eles precisam de um meio de transporte para cumprirem sua tarefa, imagine quantas sensações existirão quando o meio de transporte delas ficarem bloqueadas pela cocaína, ficando soltas, passeando pelo cérebro por longo tempo, até que a cocaína saia.
A cocaína devasta, aniquila o seu usuário, aquele que depende dela e não existe usuário frequente que não seja dependente.
Em poucos meses ou, em muitos casos, em poucas semanas, o usuário emagrece rapidamente, tem lesões no tecido e na mucosa nasal, coriza persistente, sangramento no nariz, insónia e até perfuração do septo nasal.
Quando as doses vão aumentando com a frequência do uso, nota-se palidez profunda, tremores, desmaios, suor frio, inquietação, convulsões e parada respiratória.
Depois, as primeiras lesões no cérebro vão afectando as áreas motoras e promovendo agitação intensa.
A cocaína age rápida e poderosamente, porém sua duração é, em média, de meia hora.
Por que uma pessoa quer usar cocaína ou outras drogas? - perguntou Vitória com simplicidade.
Tudo começa quando se experimenta pela primeira vez, e, essa primeira vez, normalmente é por curiosidade e de graça.
Quando se usa cocaína pela primeira vez, o efeito psicológico é de bem-estar, alegria, o humor aumenta, a auto-estima se eleva, chega-se a uma sensação de euforia e animação sem igual.
Por maior que seja o problema que se tenha na vida, ele é esquecido e insignificante para o usuário.
Aquele que é tímido torna-se falante e sociável, mesmo que a conversa seja inoportuna, vazia, sem razão de ser.
Normalmente ninguém é tão sociável, optimista, bem-humorado e se sente psicologicamente bem durante todo o tempo.
Só que, quando o efeito da cocaína passa, ocorre o efeito contrário do prazer, o oposto do bem-estar.
Chega a fadiga física e mental, vem um estado depressivo muito forte, o humor fica alterado e os problemas que se tinha antes, e que deixaram de ter importância durante o uso da droga, se potencializam quando a pessoa pensa neles.
E aí vem a vontade de usar a droga novamente para se obter o prazer de antes.
Então a pessoa se vicia? - tornou Vitória interessada.
É assim:
a cocaína age no Sistema Nervoso Periférico e também no Sistema Nervoso Central, e tem sobre este um efeito igual ao das anfetaminas, por isso se deve tomar muito cuidado com os remédios para emagrecer.
O efeito da cocaína aumenta a ansiedade, a excitabilidade, de modo rápido e intenso.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 29, 2017 9:26 am

A pessoa que usa deseja novamente as mesmas sensações de prazer, só que não vai conseguir isso com a mesma dose.
Nunca o usuário vai conseguir o mesmo efeito da dose anterior e, por isso, precisa aumentar a quantidade de droga usada e diminuir o intervalo entre um uso e outro.
Então, o cérebro vai se adaptando com o uso da droga.
Ele começa a depender da substância para funcionar normalmente, ou seja, o cérebro depende do uso da droga para provocar as sensações de bem-estar.
Veja bem, é como uma recompensa.
A pessoa usa a droga e o cérebro lhe dá a sensação de bem-estar.
É como a fome, você come e a fome passa.
Só que com as drogas ocorre o seguinte:
é preciso sempre o uso de doses maiores para se obter um efeito próximo ao efeito anterior.
Quando o usuário necessita de doses maiores para sentir bem-estar, ele já está dependente.
Aí vem o perigo da overdose.
O uso frequente vai provocar náuseas, vómitos, dores musculares, diminuição da capacidade respiratória, calafrios, perda de apetite, perda de peso, aceleração dos batimentos cardíacos, pupila dilatada, agitação psicomotora, ou seja, a pessoa se mexe ou sente necessidade frenética de ficar se mexendo, movimentando ritmicamente um membro, por exemplo.
Pesquisas mostram a predisposição a infartos. Com o tempo de uso, vai promovendo disfunções severas, graves, comprometimento dos músculos esqueléticos, pois, no cérebro, a cocaína afecta as áreas motoras produzindo agitação intensa, complicações respiratórias, bronquite, tosse persistente.
As emoções são alteradas e surgem os efeitos psicológicos, desconforto, irritabilidade, ansiedade, comportamento repetitivo sem justificativa, desconfiança de tudo e de todos, psicose paranóica, alucinações, ocasião em que o usuário passa a ver insectos, cobras, baratas, lagartixas que, em sua imaginação, podem atacá-lo, grudar em seu corpo.
Surgem o pânico e a profunda depressão.
Como a cocaína interage com os neurotransmissores, as mensagens entre os neurónios ficam imprecisas e isso altera o funcionamento normal do cérebro.
Então, para quem sabe de tudo isso, o preço que se paga é alto demais para se ter uma experiência de euforia e suposto bem-estar por conta das drogas comentou a mulher pensativa.
Quem nunca experimentou drogas e deseja fazê-lo para sentir os efeitos que dizem que ela traz, e quem já experimentou e quer repetir, é porque se sente tímido, inibido, sozinho para encarar a própria vida, com dificuldades enormes em determinados problemas emocionais e até entrando em depressão.
Por isso, o conselho para essas pessoas é que procurem um psicólogo ou psiquiatra para os devidos cuidados com tratamentos específicos.
O melhor, em todo caso, é procurar orientação e ajuda, e nunca cair nas drogas.
Elas não têm, de maneira alguma, como ajudar, muito pelo contrário disse o médico.
Se os pais soubessem como as drogas agem no cérebro e quais são verdadeiramente seus efeitos no corpo e no estado psicológico, eles saberiam orientar os filhos.
Dizer somente para não usar drogas, não é o suficiente.
Alertar que as drogas prejudicam e matam, não é o suficiente.
Os jovens, as pessoas, precisam saber e conhecer todos os passos dos efeitos e das consequências que elas proporcionam ao organismo reflectiu ela.
Normalmente os pais não têm conhecimento e só dizem para os filhos não usarem drogas continuou o médico.
Em minha opinião, a culpa disso é, muitas vezes, do governo, que não investe em informações precisas, que expliquem detalhadamente o que ocorre com usuários de drogas.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:50 am

Não informam que, muitas vezes, o jovem que quer se sentir o melhor da turma, ou aquele que está triste e deprimido com o bullying, pode se libertar da timidez, pode resolver os problemas com as agressões físicas ou morais que é o bullying de outra forma que não recorrendo às drogas.
Os programas de televisão apresentam tanta informação e induções inúteis e não se preocupam com assuntos de tamanha importância, ou, quando falam a respeito de drogas, omitem informações, não são precisos nem esclarecedores, talvez por causa de seus artistas, atores...
Induzem pessoas ao sexo promíscuo, como se trair, se prostituir, fossem as coisas mais normais do mundo para todos e ninguém fica com sentimento de culpa depois.
Ah! Isso, para os produtores de programas na TV, não! - ironizou.
Já tive aqui em meu consultório, muitos viciados, pessoas com problemas psicológicos sérios por conta da promiscuidade sexual.
Assistiram a um programa de televisão que mostrou ser normal esse tipo de comportamento e, depois que se corromperam sexualmente, não suportaram o que fizeram e se entregaram às drogas para aliviar a consciência.
As redes de TV não trazem informações úteis ao público, só fazem programas que dão audiência e trazem dinheiro para eles; o público que se dane!
É tanta falta de informação prosseguiu o doutor.
A coca é uma planta encontrada na América do Sul e Central.
O povo andino, ou pessoas que moram na Cordilheira do Andes, mascam essas folhas ou fazem chás para aliviar o Mal da Montanha, como é chamado os sintomas provocados pela altitude.
Para se fazer cocaína, as folhas de coca são prensadas em ácido sulfúrico e querosene ou gasolina, formando uma pasta.
Para se chegar ao pó branco usa-se ácido clorídrico, éter ou acetona.
Pronta, ela pode ser dissolvida em água para ser injectada ou usada em forma de pó para ser aspirada.
Esse preparo que transforma a pasta-base em pó, torna a cocaína mais cara.
O crack, bem mais barato e perigoso, é a pasta-base de cocaína misturada ao bicarbonato de sódio, algo muito simples e barato para ser fabricado.
Por causa do barulho que essas substâncias fazem ao serem queimadas nos cachimbos improvisados, elas recebem o nome de crack.
Além de mais barato, o efeito do crack é bem mais rápido e muito mais forte do que o pó de cocaína cheirado ou injectado.
Quando o crack é usado, seu efeito no cérebro ocorre em cerca de oito segundos e vicia sua vítima com apenas três ou quatro doses.
Há aqueles que se viciam na primeira fumada.
Igual à cocaína, o crack produz sensações de euforia, desinibição, poder, hiperactividade e insónia.
Com a dependência vem a irritabilidade, mania de perseguição, violência, agressão, danos permanentes no cérebro, complicações respiratórias, distúrbios cardiovasculares e outros males incontáveis.
Diante da perplexidade de Vitória, o doutor Francisco ainda comentou:
As campanhas contra as drogas em nosso país são tímidas, fracas e pobres.
Elas não orientam e querem impor medo.
Não precisamos de medo, precisamos de clareza e orientação.
Quando vejo defensores da maconha dizendo que ela não leva ao uso de outras drogas eu digo:
nunca vi alguém andar de motocicleta sem antes ter aprendido a se equilibrar em uma bicicleta.
Não me lembro de um único paciente meu, viciado em drogas pesadas, ter me dito que nunca usou maconha e ter ido directo para a cocaína, heroína e outras.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:51 am

A pessoa que diz não à maconha, diz não a outras drogas.
É importante os pais ficarem atentos, terem conhecimento e orientação, principalmente hoje em dia em que os grupos se reúnem em festas fechadas e usam drogas sintéticas com alto poder de dependência e extremamente destrutivas ao cérebro.
O ecstasy, por exemplo, também conhecido como simplesmente "E", chegou ao alcance dos jovens de classe média alta e entrou na vida deles pela porta da frente.
Fácil de ser escondido e consumido, um único comprimido proporciona prazer, alegria, disposição, conforto e aconchego.
Para quem o usa, estranhos viram amigos, desconhecidos viram namorados ou ficantes, a pessoa é capaz de praticar sexo sem qualquer preocupação, mesmo sendo uma pessoa com princípios morais equilibrados.
O ecstasy é encontrado com facilidade nas baladas, principalmente as de música Techno, também chamada de música electrónica.
É muito comum ver seus usuários elogiarem a droga, a princípio, pois dizem que ela traz sensação de paz, tendência ao pacifismo, capacidade de se comunicar melhor com discursos de amor e amizade.
A pessoa deixa de ficar na defensiva, todos se tornam seus amigos queridos e confiáveis.
Mas, no médio e longo prazos, os usuários, em sua maioria, começam a sofrer de Síndrome do Pânico ou depressão, enquanto outros desenvolvem padrões de comportamento muito diferentes dos que quando usaram a droga pela primeira vez, tornando-se agressivos, impulsivos, ansiosos e neuróticos...
Normalmente, como em todo início de uso de drogas, o usuário do ecstasy só vê o lado positivo, o lado bom desse entorpecente.
O problema é que as consequências do uso só vão aparecer algum tempo depois.
Em resumo, doutor, todas as drogas fazem mal, de um jeito ou de outro.
Sim, João Alberto.
Todas, sem excepção.
Hoje em dia é preciso tomar muito cuidado e é preciso muito, muito conhecimento.
Não é bom arriscar.
Eu entendo, doutor - comentou Vitória.
Dizer que não pode, que não se deve usar não é o suficiente, é preciso informação.
Tem gente que acaba se envolvendo com droga por curiosidade, só porque dizem que não se deve usar.
Não devemos servir de cobaias, nunca se deve fazer experimento algum sem antes saber o motivo de não se poder fazer.
A senhora está certa.
O médico fez uma anotação, depois disse:
Agora vou fazer algumas perguntas para ver que tipo de tratamento é mais indicado a você, João Alberto.
Foi então que João Alberto iniciou sua recuperação.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:51 am

CAPÍTULO 15 - PRECE DE UMA MÃE

Estavam somente no começo de uma grande batalha e a alma não pode se deixar pegar pelo abatimento.
Certamente haveria momentos de cansaço, de angústia, de desespero, de dor, e vontade de desistir, mas sabiam que se parassem, um dia precisariam recomeçar e ir até o fim.
Vitória sempre se lembrava da frase em O Evangelho Segundo o Espiritismo:
"Se eu tivesse ou não tivesse feito tal coisa, não estaria nesta situação".
Agora era a hora da escolha. Vitória sabia que, dali por diante, todos os momentos de João Alberto seriam de escolha e o filho precisaria muito dela.
E para não ficar em situação mais difícil no futuro, deveria escolher o melhor agora.
A mãe explicou aos filhos que o tratamento de João Alberto dificilmente seria possível em casa.
Os danos mentais causados pelas drogas dificultavam sua conscientização, mesmo ele querendo se livrar delas.
João Alberto precisaria ficar em uma clínica, isolado de qualquer possibilidade de contacto com drogas, sob supervisão, dia e noite, assistência psicológica, trabalhos psicoterápicos, assistência médica e outros cuidados.
O custo financeiro talvez fosse alto, mas Vitória não deixaria que isso dificultasse o tratamento do filho enquanto ela tivesse condições.
Iriam, o quanto antes, providenciar a internação de João Alberto na clínica indicada pelo psiquiatra.
Com os dias, tudo foi feito.
Ao saber que não teria contacto com o filho por muito tempo, ela sentiu o coração apertado.
Poderia vê-lo através de vidro, mas não seria vista.
Ele não saberia que ela estava ali.
Por isso, entristeceu.
Mas não desanimou nem se desencorajou.
Sabia, precisava fazer o que era certo, o que era melhor para o filho.
Ao retornar para casa com os olhos embaçados, não quis conversar com Natália nem com Antero e se recolheu.
Bem mais tarde, inesperadamente, a nora foi procurá-la com uma surpresa.
Dona Vitória... É que...
Bem... eu acho que eles não sabem o que estamos passando com o João Alberto e vieram aqui.
O que foi, Natália?
Do que você está falando?
O senhor Aldo, a Cristina e o senhor Vinícius estão lá em casa.
O senhor Vinícius disse que vai voltar para Minas amanhã e veio se despedir de nós e quer conversar com a senhora.
Vitória sentia-se exausta.
Não queria falar com ninguém.
Respirou fundo e silenciou por alguns instantes, tentando ganhar tempo.
O que diria?
O que teria para contar que ele não soubesse?
Ela sentiu uma perturbação inquietante ao pensar naquelas perguntas, uma tristeza e uma angústia guardadas por quarenta e sete anos.
Encarou a nora novamente e perguntou:
Como fazer?
Vou até lá ou ele vem aqui?
Vamos até lá, a senhora cumprimenta o seu Aldo e a Cristina, depois o chama para vir até aqui.
Assim terão privacidade. O que acha?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:51 am

Ai, Natália... - suspirou ao falar pausadamente.
Não sei o que acho. Porém... Vamos lá.
Assim foi feito.
Não demorou e, após tantos anos, com tantas perguntas sem respostas, Vinícius e Vitória estavam frente à frente na sala de estar da casa dela.
Ele olhou em volta e reparou muito na ordem, na limpeza e no aconchego da pequena residência.
Sente-se, por favor - pediu a anfitriã.
Obrigado - aceitou e acomodou-se com modos reprimidos, tímidos.
Vou fazer um café e...
Não. Por favor. Obrigado.
Diante da recusa ela ofereceu meio sorriso.
Não sabia como encará-lo nem o que mais dizer.
Acomodando-se em uma poltrona diante dele, forçou-se a olhá-lo.
Surgiram emoções estranhas.
Saudade de uma infância e da adolescência distante, de algo perdido que jamais poderiam recuperar.
Vinícius, aos sessenta e seis anos, bem diferente daquele menino travesso, gentil, risonho e ágil, trazia no olhar a dor inquietante da ausência de um amor.
Enquanto ela, a angústia do débito, do sonho acalentado e interrompido pela ambição.
Em todos esses anos, aqueles lábios não haviam mais pronunciado aquele nome e, naquele instante, o longo silêncio foi quebrado pela pergunta feita com a voz trémula:
Vitória, me conta o que você fez.
Como foi sua vida desde que nos vimos pela última vez?
Bem... Você era meu amigo.
Meu único e sincero amigo.
Mas eu... Eu errei.
Errei quando traí seu companheirismo, sua amizade e o nosso amor.
Fiz isso e me arrependi.
Mas não deixei, um dia sequer, de arcar com as responsabilidades e as consequências do meu erro, do meu engano, de tudo o que surgiu em minha vida por causa das minhas escolhas.
Um instante, entreolharam-se firmes, e ela continuou:
Sempre tive um medo muito grande de crescer e continuar naquela vida pobre e miserável.
Você sabe disso.
Então, quando percebi o interesse do Odilon por mim eu...
Vitória contou exactamente toda a verdade sobre sua vida e Vinícius ouviu-a com toda atenção.
No fim, ela afirmou olhando-o nos olhos:
Nunca esqueci você.
Levantando-se, foi até o quarto, pegou a caixinha com aspecto frágil por conta do tempo, abriu-a e mostrou a ele, dizendo:
Por centenas...
Talvez milhares de vezes eu peguei esse anel, coloquei no dedo, beijei e li o poema que me escreveu.
Li, mesmo sabendo-o de cor, eu queria sentir sua letra no papel amarelado, pois foi a única coisa que me restou de você.
Não espero que me perdoe.
Sorriu com jeito simples e envergonhado, continuando:
- também... Depois de tantos anos, só espero que me entenda.
Como amigo, como pessoa que me conhecia tão bem, só espero que compreenda minha fraqueza por causa da ambição.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:51 am

Hoje, depois de tantas experiências, se eu tivesse dezassete anos, certamente minhas decisões e escolhas seriam outras.
Pode apostar.
Vinícius respirou fundo, passou a mão no rosto e Vitória perguntou:
E você? O que aconteceu?
Por que deu o nome de Aldo ao seu filho?
Um momento e contou:
O Aldo, seu irmão, sempre foi meu melhor amigo.
Quando eu estava com ele naquele rio e... - sua voz embargou.
Deteve-se por instantes, depois prosseguiu:
Não pude fazer nada por ele.
Tentei, mas não consegui.
Naquela noite em que ficamos eu e o Odilon presos no rio, sonhei com o Aldo me pedindo ajuda - emocionou-se ela.
Não percebemos que as águas estavam subindo rápido e isso mostrava que chovia forte na cabeceira.
Estávamos depois da represa, no canal e...
Por muitos anos era como se eu sentisse a mão do Aldo passando e escorregando pela minha quando tentei segurá-lo - olhou para a mão esquerda como se pudesse sentir.
Não consegui segurá-lo. Tudo foi muito rápido.
Olhei nos olhos dele, nos fitamos e ele foi levado rápido e sumiu.
Tive medo, não consegui encontrar coragem para procurá-lo nem para ir nadando atrás dele e saí da água.
Você teria morrido se tivesse ficado na água, ali naquele canal.
Conheço bem o lugar.
A cena do Aldo tentando segurar minha mão e indo embora ficou por muitos anos na minha lembrança.
Fiquei bastante perturbado.
Pensei em você. Em como ia lhe contar tudo aquilo.
Quando soube de você e do Odilon...
Primeiro acreditei que fosse por causa do meu fracasso para salvar seu irmão.
Depois comecei a entender que aquilo que você queria eu não poderia lhe dar.
Não naquele momento.
Fiquei muitos anos remoendo tudo isso.
Até que, em Belo Horizonte, conheci a íris, que depois se tornou minha esposa.
Conversando com ela, desabafava e ela me ouvia.
Depois de algum tempo, a íris começou a me falar sobre Espiritismo, vida após a morte, Lei de Causa e Efeito, amigos eternos, evolução do espírito e muito mais.
Todos esses assuntos me confortaram.
Fizeram sentido por ter explicações lógicas.
Eu sabia que não era culpado, mas me sentia responsável por não ter conseguido salvar a vida dele, afinal, fui eu quem o chamou para ir lá.
A íris me ensinou a orar por ele.
Foi o que fiz, com pedidos de desculpas.
É provável até que seu irmão já estivesse farto das minhas preces, lamentações e pedidos de perdão - sorriu sem jeito.
Tempos depois, casei-me com a íris.
Quando ela esperava nosso primeiro filho, perguntou se eu queria pôr o nome do meu amigo, já que gostava tanto dele.
Aceitei na hora! - sorriu satisfeito.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:51 am

Fiquei tão feliz com a ideia!
Por isso meu primeiro filho se chama Aldo.
Depois veio o Gilson e, por último, o Durval.
Quando o Aldo, meu filho, era pequeno - sorriu de modo nostálgico -, ele era extremamente parecido com o seu irmão.
Não só fisicamente, mas o jeito, os pensamentos, modo de falar, as ideias...
Depois de tudo o que aprendi na Doutrina Espírita, eu gostava de pensar que era ele, que era a reencarnação do meu amigo, pois nos dávamos tão bem antes como agora.
Uma coisa me convencia de ser ele:
meu filho sempre, sempre teve pavor de água, pavor do rio.
Isso desde muito pequeno.
Ele tinha um ano e meio quando o levei pela primeira vez ao rio que cruza as terras que eram do senhor Batista.
Eu havia comprado tudo aquilo e levei a íris e o Aldo para conhecerem o lugar.
O Aldo agiu de uma forma inesperada.
Agarrou-se ao meu pescoço e gritou sem parar.
Precisei sair dali para o menino se acalmar.
Comprei aquelas terras e outras e... ...em qualquer um dos rios ou riachos o Aldo nunca entrou, mesmo depois de grande.
Outra coisa que não sei explicar é a semelhança física.
É certo que ele puxou a família da minha esposa, mas é incrivelmente parecido com o seu irmão.
Longo silêncio em que ela acenou com a cabeça concordando.
Depois ele contou:
Acho que você não sabe, fui eu quem comprou o sítio de seus pais.
Você?! - surpreendeu-se.
Fui eu, sim. Tirei as cercas e juntei tudo.
Aquelas terras não prestavam para nada.
Todos estavam enganados.
A terra podia ser imprópria para plantação, mas aquelas pedras valem um bom dinheiro.
Foi dali que arranjei fundos para comprar outras fazendas.
Como assim?
Aquelas pedras são granitos de diferentes tipos e isso tem muito valor no mercado da construção civil.
Está brincando? - riu.
Quer dizer que meu pai e meus irmãos, que sempre amaldiçoaram aquelas terras, tinham grande negócio nas mãos e não sabiam?
Nem eu sabia disso quando comprei.
O irmão da íris, que passou uns dias de férias por lá, levantou a suspeita.
Então eu fiz uma pesquisa e descobri que era granito puro.
Isso gerou um grande negócio.
Por que comprou o sítio dos meus pais?
Eles estavam precisando.
Além disso, você sabe o quanto sempre gostei daquela região.
Por isso adquiri várias propriedades.
Foi lá que encontrei uma vida calma.
Vitória sabia o quanto Vinícius estava sendo modesto.
Sua neta já havia lhe contado o quanto o pai de seu futuro sogro era bem de vida e, como presente de casamento, iria lhes dar uma fazenda no sul de Minas Gerais.
O lugar seria transformado pelo jovem casal, Mónica e Flávio, em um negócio para produção de terra fértil e adubo para venda local e até exportação.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:52 am

A promessa era de algo bem lucrativo, o que os deixou bastante animados, afinal, acabavam de se formar em Agronomia.
Depois de tanta coisa que aconteceu, nunca imaginei reencontrá-lo através da minha neta.
Nem eu.
Até pensei que você retornaria para visitar seus pais quando estavam doentes, mas... Agora entendo.
Nem soube o que eles passaram.
É... Minha irmã...
O que pretende fazer da vida agora, Vitória?
Cuidar do João Alberto.
Meu filho vai precisar muito de mim.
Os outros sabem se virar.
A não ser a Angélica, como eu lhe contei, que é do tipo que quer viver protegida e amparada.
Ainda tem muito o que aprender.
Um momento e quis saber:
E sua esposa? Fale um pouco dela.
A íris foi uma mulher muito boa.
Excelente mãe, sempre dedicada, não deixava os filhos serem cuidados e educados pelos empregados.
Ah! Isso nunca! - enfatizou.
Também foi boa esposa.
Embora bem exigente com determinadas coisas - sorriu.
Foi ela, com sua firmeza, que me ajudou.
Não me deixou esmorecer. Era toda certinha.
Não atrasava compromissos nem deveres.
Vivemos muito bem.
Ela era jovem ainda, o nosso mais velho estava com quinze anos, quando dirigia e o carro saiu da estrada.
Testemunhas dizem que foi um caminhão que a atingiu e, no acidente, a íris faleceu.
Perdi o chão. Foi um grande golpe.
Segui a vida sozinho. Eu e meus filhos.
O Aldo não gostava muito da vida no interior, veio estudar aqui no Rio e pegou gosto.
O Gilson e o Durval amam aquilo tudo.
Eles. são meus dois braços.
A vida foi boa para você.
Sim, de certa forma foi.
Se não fosse a íris ter ido tão cedo, eu não poderia reclamar.
Agora vai voltar para a sua rotina, não vai? - ela perguntou sorrindo.
Sim, vou. Amanhã volto para Minas.
Já fiquei aqui tempo demais.
Breve pausa e comentou:
Não esperava reencontrá-la depois de tantos anos e, ainda, sendo a avó da futura mulher do meu neto - riu.
Não esperava isso.
Fui muito surpreendido ao vê-la lá naquela festa e não sabia o que dizer.
Depois pensei e...
Não poderia ir embora sem antes vir aqui para conversar com você.
Não poderia ir sem as respostas que sempre quis nestes anos todos.
O que falou para o seu filho e nora quando disse que queria conversar comigo?
Eu disse a verdade.
Contei a minha parte da história.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:52 am

Levantando-se, disse:
Bem... Agora preciso ir.
Obrigado por me receber.
Eu queria muito saber a verdade, a sua parte de tudo o que aconteceu.
Levantando-se, ela respondeu:
Sou eu quem agradeço por ainda querer me ouvir.
Mesmo tendo se passado...
Quarenta e sete anos - interrompeu-a, completando ao afirmar.
É muito tempo, Vinícius - sorriu tímida, escondendo o olhar.
Só mais uma pergunta.
Pode fazer.
Por que guardou essa caixinha velha e o anel sem valor por tanto tempo?
Demorou um tempo em que o olhou na alma ao invadir seu olhar e respondeu com voz macia:
Guardei por causa de tudo o que sinto por você.
Ainda sente?
Ainda sente algo por mim?
Sim - sussurrou e abaixou o rosto para que não visse as lágrimas que surgiram.
Vinícius respirou fundo, passou a mão pelos cabelos lisos, brancos e teimosos e foi directo:
Na nossa idade não temos muito tempo a perder e...
Quer vir comigo?
Hein?!
Largue tudo e venha comigo para Minas.
Vitória sentiu um turbilhão passar por sua mente.
Ficou encantada como se aquele fosse o seu primeiro, último e único encantamento inocente na vida.
Sentiu-se a mesma menina da infância, da adolescência, de quem ele havia roubado um beijo.
Seu rosto corou e o desejo de largar tudo para segui-lo queimou-lhe o peito repleto de amor.
Seria esse o caminho a seguir?
Seria o destino do qual fugiu e agora ele lhe batia à porta naquela altura da vida?
Um segundo de sonho e alegria foi desfeito pelo peso da responsabilidade.
Lembrou-se de ser a responsável por tudo o que havia conquistado na vida e, entre suas conquistas, estava seu filho João Alberto.
Não posso, Vinícius.
Como eu quero... mas não posso.
Por que, Vitória?! - exclamou ao sussurrar.
Não temos satisfações a dar.
Somos livres.
Tenho o João Alberto.
Meu filho. Ele precisa de mim.
Ele está internado, pelo que me contou.
Creio que ficará lá por longo tempo.
Poderá retornar para visitá-lo quando quiser.
Você sabe que não será assim tão fácil.
A vida prática, no futuro, será bem diferente dos planos teóricos feitos agora.
Vinícius se aproximou e tocou-lhe carinhosamente a face com as mãos mornas.
Acarinhou-lhe por algum tempo.
Vitória fechou os olhos e ele, curvando-se, beijou seus lábios com todo amor.
Depois, envolvidos em terno abraço, ele a agasalhou no peito como se quisesse guardá-la no calor de seu coração.
Sempre a quis comigo - murmurou.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:52 am

Sempre quis ficar com você - tornou ela emocionada, abraçando-o ao recostar-se em seu peito.
Foram longos minutos eternos onde se esqueceram do mundo.
Depois, afastando-se com delicadeza, ela pediu:
Desculpe-me.
Do quê?
De tudo o que eu lhe fiz.
Nossa vida poderia ter sido bem diferente se eu não tivesse escolhido outro caminho.
Isso ninguém pode garantir - disse generoso.
Tínhamos tudo para ficarmos juntos e eu estraguei nossas vidas.
Não se culpe.
Aconteceu exactamente o que tinha de acontecer.
Vinícius segurou seu rosto com carinho, beijou-lhe novamente os lábios, depois a testa e disse:
Preciso ir.
Está certo - concordou ela, afastando-se.
Estarei esperando por você.
Quando quiser, a hora que quiser, estarei lá.
Sabe onde e como me encontrar.
Será que, nesta vida, ainda ficaremos juntos? - ela perguntou sorrindo, mesmo se sentindo triste.
Nesta, eu não sei.
Em outra... eu acredito, piamente, que sim.
Deus é bom e justo. Lembre-se disso.
Despediram-se e Vinícius se foi.
Como a vida era irónica, se tivesse ficado ao lado do homem que amou, de certo teria a vida que buscou e a estabilidade que esperava.
Vitória sentiu-se escravizada pela vida que procurou.
Escrava das circunstâncias surgidas no caminho que escolheu.
Portas fechadas, luzes apagadas, a sombra de pensamentos confusos, doloridos e uma grande luta:
a vontade forte de segui-lo contra o dever de ficar.
Um misto de amor que não sabia explicar.
Quando escolheu por Odilon, foi pela vida farta que a esperava.
Quando escolheu por Isidoro, foi para continuar vivendo com abundância.
Embora em ambas as escolhas não conseguisse a felicidade.
Agora escolhia por João Alberto, para ter o coração aliviado no dever cumprido, por amor, na tarefa de mãe.
Internado, João Alberto experimentava grandes dificuldades para livrar-se da dependência química.
Algum tempo na clínica e as primeiras visitas de contacto com a família foram permitidas.
Tem dia que eu não aguento, mãe - chorava e reclamava, debruçado sobre as pernas da mãe que, amavelmente, acariciava-lhe a face e os cabelos ralos com a ternura de um anjo.
Eu sinto coisas. Entro em desespero.
Fico confuso, tenho tremores.
Ai, mãe, como é duro.
Isso tudo vai passar, meu filho.
Esse período ruim faz parte do tratamento.
Você vai precisar se livrar da dependência química e se curar dessa doença, aqui, hoje ou amanhã em outro lugar.
Então é bom começar agora.
Quanto mais cedo, melhor, mais fácil.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:52 am

Fico apavorado.
Tenho um medo que não faz sentido.
Então ore.
Eu não sei... Não me lembro mais como se reza.
Fui a igreja tão poucas vezes...
Então me acompanha - pediu carinhosa.
Depois orou:
Senhor Pai, lance seu olhar de bondade e de amor sobre meu filho João Alberto, pois seus pensamentos precisam de Sua luz.
Ajude-o, Senhor meu Pai, a ter força de vontade, perseverança e bom ânimo nessa luta difícil.
Afasta, Pai, toda perturbação, todas as torturas
morais trazidas por irmãos espirituais que, porventura,
possam tentar influenciá-lo ao oposto do seu próprio bem.
Meu filho, João Alberto, estando fortalecido com Suas bênçãos, protegido pelos guardiões endereçados pelo Senhor, com certeza se sentirá mais forte, bem-disposto e não temerá mal algum.
Deus, revela Seu amor no coração de meu filho, dando-lhe a coragem nesta luta.
Proteja-o com seu amor que, certamente, é maior do que o meu.
Que assim seja!
Ao terminar, Vitória sentia-se emocionada e também viu lágrimas escorrerem pelo canto dos olhos do filho, ainda debruçado em seu colo.
Onde a senhora aprendeu isso?
Aprendi a orar em um livro, O Evangelho Segundo o Espiritismo, que ganhei há muito tempo de uma amiga querida.
Nele aprendi preces, aprendi a viver melhor e a fazer escolhas certas.
Eu escolhi errado, né, mãe?
Escolhi errado quando achei que as drogas não faziam mal, não iriam me deixar dependente.
O importante não é sofrer pelo passado.
O importante é fazer o correto agora.
Então, meu filho, escolha o melhor, escolha insistir no tratamento.
Veja quanta coisa boa está acontecendo.
Você reencontrou sua família, graças a Deus, todos estão apoiando seu tratamento, você está persistente nele...
A verdade é que se eu tiver uma oportunidade, vou fazer coisa errada, vou voltar ao vício.
É por isso que precisa ficar aqui.
Com nosso apoio, com a ajuda de médicos e psicólogos, vai conseguir.
Mãe... Deus vai me perdoar?
Às vezes penso...
Fiz tanta coisa errada.
Ele vai me perdoar?
Quando deixou que encontrasse sua família, Ele mostrou o amor que tem por você.
Na verdade, Deus não precisa perdoar ninguém.
É a pessoa quem necessita se perdoar.
E como é que a gente se perdoa?
Quando se arrepende e procura, depois disso, viver em harmonia não errando mais, viver de bem com a vida, de bem com as outras pessoas e procurando ensinar o que é correto, ajudando os outros de alguma forma.
É aí que a gente usa a experiência ruim para algo bom.
Olha, quer que eu traga O Evangelho Segundo o Espiritismo?
Esse livro me ajudou muito e pode ajudá-lo também.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:53 am

Se quiser, pode trazer, mas...
Mas...
Não consigo me concentrar direito na leitura.
As drogas acabaram com meu lado lógico, usei muita porcaria.
Nem organizar as ideias eu consigo direito.
Posso trazer e ler pra você.
Quer assim?
Assim eu quero.
Ele se sentou direito, encarou-a e depois a abraçou forte.
Em meio ao choro, pediu emocionado:
Desculpa, mãe. Me perdoa por tudo o que eu já fiz e pelo que ainda faço, pelas preocupações que teve comigo...
Me perdoa...
Não tenho pelo que perdoar você, não, meu filho chorou.
Sou sua mãe.
Abraçando-o, apertou-o contra o peito, emocionada.
A partir de então, em todas as visitas, Vitória lia trechos de O Evangelho Segundo o Espiritismo, explicava-os com carinho e conversava a respeito do assunto.
Ela passou a frequentar assiduamente um Centro Espírita e ingressou em cursos gratuitos para aprender mais sobre a doutrina reencarnacionista, assim poderia falar com mais conhecimento para o filho, que a ouvia como nunca.
Espiritualmente, isso trazia a João Alberto energias salutares que o revigoravam como espírito, fortalecendo seu âmago, mesmo que o corpo estivesse bem debilitado.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:54 am

CAPÍTULO 16 - REVENDO O PASSADO

Com muito carinho e alegria, Mónica e Flávio cuidavam de todos os detalhes para o casamento a ser realizado na fazenda do avô do noivo, que os ajudava financeiramente com prazer.
Enquanto isso, em visita ao médico de seu filho, Vitória ouviu:
É muito comum os dependentes químicos, durante a internação, fazerem reclamações de todos os tipos.
Eles dizem ter dores em todos os lugares do corpo e nós, com cautela, sem desespero, vamos investigando tudo direitinho.
Sim, eu sei. Quando meu filho foi internado fui avisada disso.
Disseram que, por chantagem emocional, para que eu ou os irmãos nos convencêssemos de tirá-lo da clínica de recuperação, ele inventaria de tudo, qualquer coisa.
Diria que foi maltratado, reclamaria de agressões, fome e de todos os tipos de insultos, ataques, ofensas.
Isso ele faria para sair da clínica e voltar para o vício, pois dentro da instituição, ele não teria como arrumar droga.
Isso mesmo.
No entanto, com cautela, nós sempre investigamos as queixas.
Após dez meses de internação, o João Alberto veio se queixando de dores de cabeça muito fortes.
Quando ele foi devidamente medicado, dizia ter melhorado, depois...
No entanto, diversas vezes, isso se repetiu.
A princípio, pensei no facto de ele querer remédios que provocassem sono.
Entendo. É como se ele quisesse qualquer tipo de droga. - disse Vitória.
Exactamente. Porém, após as reclamações, decidi investigar.
Por isso solicitei vários exames clínicos, laboratoriais, entre eles, uma tomografia axial do cérebro.
E então? - perguntou a mãe muito apreensiva.
O resultado, lamento informar, não foi nada bom.
As drogas afectaram o cérebro e encontramos uma lesão associada ao uso delas.
É lógico que pedirei outros exames mais específicos, mas...
O senhor contou pra ele, doutor? - perguntou aflita, com lágrimas no olhar.
Ainda não, mas não posso esconder os resultados dos pacientes.
Sim, eu sei.
Só queria conversar com a família antes.
Vejo-os unidos e dedicados.
Principalmente a senhora, que é muito empenhada no tratamento e na recuperação de seu filho.
Breve pausa e comentou:
Talvez a senhora queira estar junto quando eu for conversar com ele.
Vitória levou a mão ao rosto, não resistiu e chorou.
Como eu errei com meu filho...
Não, dona Vitória. Não pense assim.
É que o senhor não sabe da minha vida, doutor.
Eu errei com meus filhos, sim.
Não busquei harmonia e equilíbrio para criá-los e educá-los.
Sempre lutei para conseguir tudo o que quis, aprendi a falar, sentar, comer, me comportar e ensinei isso a eles.
Fiz de tudo para que tivessem dinheiro e, posso dizer que em meus dois casamentos, escolhi meus maridos sempre pensando em nunca faltar nada.
Tive fartura.
É verdade que perdi minhas mordomias quando meu segundo marido nos abandonou, mas não perdi a coragem e lutei novamente para me estabilizar e estabilizar meus filhos.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:55 am

Mas nunca, nunca ensinei a eles uma oração, uma prece, bons conceitos morais, filosóficos ou religiosos.
Pouco os levei à igreja católica...
Mesmo depois, quando conheci a Doutrina Espírita, que para mim foi bom, não os incentivei a ter uma filosofia.
Tive força para conseguir muita coisa, mas não fui atrás de informações sobre os prejuízos causados pelas drogas para orientar meu filho.
Eu disse que fazia mal, que viciava, mas isso, como o senhor mesmo falou, não é o suficiente.
A curiosidade sempre vence a falta de informação.
Lembro que quando tive um micro-ondas pela primeira vez, e isso já faz muito tempo, li no manual de instrução para nunca cozinhar ovo no micro-ondas.
O maldito manual não explicava o porquê.
Fiquei curiosa.
Por meses pensei:
por que será que não se pode cozinhar ovo no micro-ondas?
Curiosa, resolvi testar.
Peguei uma vasilha apropriada, coloquei água e um ovo de codorna.
Afinal, era um ovo pequeno e não haveria problemas.
Calculei um tempo aproximado de cozimento e liguei o aparelho.
Antes mesmo de sequer a água esquentar, o ovo explodiu.
Aquele pequeno ovo de codorna estourou e se espalhou por todo o aparelho, sujando-o todo.
Até naquelas gradinhas internas e na luz ele entrou e pintou tudo.
Nunca vi um ovo de codorna render tanto.
Foi muito, muito difícil limpar o micro-ondas e, mesmo assim, o cheiro de ovo queimado, um cheiro horrível, impregnou tudo.
Quase precisei jogar fora o aparelho.
Aprendi que dizer que não presta, que não pode, não é o suficiente.
É necessário explicar o porquê.
Se aquele maldito manual tivesse essa explicação, eu não teria passado tanta raiva e tido tanto trabalho para descobrir o porquê de não poder cozinhar ovo no micro-ondas.
E foi esse o problema do meu filho.
Eu, sendo seu manual de instrução, não expliquei por que usar drogas era perigoso.
Não lhe expliquei porque não fui atrás de informações.
Fui incompetente. Errei.
Quando calou o desabafo, o médico disse:
A senhora errou porque não sabia.
Não sei se posso chamar a isso de erro, de incompetência.
Caso soubesse dos danos causados pelas drogas, aí sim, poderia se culpar.
No entanto, ajudou e ajuda seu filho o quanto pode.
Não é omissa nem negligente.
Alguns segundos e comentou:
Já observei que seus outros filhos são diferentes do João Alberto.
Embora eu não seja espírita, e sim espiritualista, acredito que ele, talvez, tenha se forçado a passar por esse aprendizado com as drogas.
Se a senhora fosse uma péssima mãe, como se acusa, seus outros filhos teria seguido caminhos semelhantes ao dele.
O que pode ser feito agora, doutor?
Vamos tratá-lo.
A lesão causada pelas drogas, nesse caso, é irreversível e ele precisará de cuidados.
Aquela notícia esmagou o coração de Vitória.
Em sua compaixão materna, não sabia o que dizer.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:55 am

Estava disposta a fazer tudo por seu filho.
Desde então, em todas as visitas, que passaram a ser mais frequentes por permissão do médico, ela falou-lhe sobre a bondade e a grandiosidade de Deus.
Que o Pai oferece várias oportunidades para harmonizarmos o que desarmonizamos.
Não demorou e João Alberto começou a apresentar debilidades no controle e na coordenação dos movimentos, nos reflexos, na capacidade de concentração, que piorava visivelmente, na memória totalmente falha, e na fala trôpega.
Mesmo assim, Vitória o visitava diariamente, conversava e lia para ele, mesmo sabendo que o filho chegara a ponto de não entendê-la mais.
Entre as várias leituras salutares, positivas, ela incluía trechos de O Evangelho Segundo o Espiritismo ou O Livro dos Espíritos.
Tocava-o com carinho, beijava-lhe com amor.
Ajudava-o no banho, nas trocas das fraldas, na alimentação.
Ausentou-se somente três dias do hospital particular, que decidiu pagar para tratá-lo, por conta do casamento da neta.
Retornou o quanto antes.
Abandonando a empresa e deixando-a sob os cuidados dos filhos, Vitória cuidou prestimosa e incansavelmente de João Alberto por muito tempo.
Um dia antes de o filho completar quarenta e oito anos, ele faleceu, com uma hemorragia no cérebro.
Mais uma vítima das lesões provocadas pelas drogas.
Aos sessenta e sete anos, Vitória teve a perda mais dolorosa de sua vida.
Abatida, com expressão exausta e sofrida, ela teve a certeza de ter feito o melhor que pôde para ajudá-lo.
No enterro, chorou muito.
Sob os cuidados dos outros filhos e netos, foi amparada no carinho do silencioso e verdadeiro amor.
Ao retornar para casa, sentiu como se não reconhecesse o lugar.
Parecia ter feito uma longa viagem onde vagasse indefinidamente sem trazer lembranças agradáveis.
Sua tristeza pareceu entrar em uma noite sem fim e envolvê-la de tal forma que não pudesse ver o amanhecer.
Acreditava que poucos poderiam entendê-la.
Dentro de infindável amargura, não tinha mais o domínio de si, nem sobre nada.
Pálida, às vezes trémula e bem abatida, confidenciava sua dor, poucas vezes, somente para Natália.
O tempo foi passando e seu sorriso pôde ser notado brevemente em seu rosto.
A filha Ingrid, seu marido e os netos decidiram voltar a viver no Rio de Janeiro, onde Luiz passou a trabalhar e se estabilizou.
Isso trouxe nova luz no rosto frágil de Vitória, onde algumas marcas irremovíveis das experiências de vida se cravaram com firmeza.
Outra notícia a alegrou.
A tão querida neta Mónica estava grávida de seu primeiro filho.
Dona Vitória - dizia a nora animada -, a senhora vai ser bisavó.
Penso que seria bom fazer uma viagem.
Visitar a Mónica, ou até mesmo seus irmãos e... - calou-se.
Dizia aquilo para animá-la e vê-la reagir mais.
Desconfiada, Vitória perguntou:
Natália... Conheço você muito bem.
O que quer dizer? O que pretende?
Veja... A senhora está bem, seus filhos e netos estão óptimos.
Os negócios vão de vento em popa.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 30, 2017 9:55 am

Está na hora de passear um pouco.
Quem sabe... - sorriu com jeito maroto.
Quem sabe o quê?
Umas férias na fazenda do senhor Vinícius! - não conseguiu segurar o semblante de riso e riu gostoso.
Ficou boba, menina?!
Vou fazer setenta anos daqui a pouco e...
E não está morta, mamãe! - interrompeu Ingrid, que com a cunhada Natália, há dias, planeavam animá-la de alguma forma e fazê-la viver mais.
Através da cunhada, ela ficou sabendo de toda a história entre sua mãe e Vinícius.
Sabe, mamãe, acho que a senhora já fez o bastante.
Está na hora de aproveitar a vida, se divertir, se alegrar.
E como é que se faz isso quando não se tem vontade? - perguntou algo amarga.
É só começar a fazer que a vontade aparece, a diversão e a alegria vêm.
A senhora conhece Pernambuco, Porto de Galinhas?
São lugares lindos! Ou então...
Fernando de Noronha. Nossa! Lá é demais.
Esse país é enorme, temos lugares magníficos.
Mas se não quiser, pode optar por uma viagem internacional.
Quem sabe um pacote...
Pare com isso, Ingrid.
Estou bem aqui fazendo o que faço.
Dona Vitória, eu e ela só falamos isso para a senhora aproveitar mais a vida e...
Querem café? - Vitória interrompeu educada.
Não, obrigada - respondeu a nora.
Se vocês não querem, eu quero. - riu ao completar.
Só que o pó acabou e preciso sair para comprar - foi esse o jeito que encontrou para não continuar com aquele assunto.
Dizendo isso, Vitória se levantou e deixou ambas sentadas à mesa de sua cozinha.
No entanto, seu coração se apertava ao se lembrar de Vinícius.
Mas, com quase setenta anos...
Achava que não tinha idade para romance.
Seria ridícula. Seria bisavó.
O que os outros iriam dizer?
O viço de Vitória estava ofuscado, gasto pelas dificuldades.
Não havia mais tanta alegria em seus olhos, antes ardentes.
Sentia-se quase uma senhora frágil e sensível, sem grandes alegrias para externar.
Tinha uma família amável, que se ocupava dela em busca de sua sabedoria e experiência de vida.
Era do tipo que conversava muito com os filhos e netos, quando podia.
Aos últimos, gostava de contar como foi difícil a vida do tio João Alberto, por causa de seu envolvimento com drogas.
Isso os alertava, esclarecia para que não se inclinassem aos vícios.
Entretanto, em sua rotina, havia dias de um vazio cruel, mesmo com as actividades para a terceira idade na academia como natação, yoga e hidroginástica.
Também fazia aulas de pintura em tela que decidiu aprender e achava engraçado, divertia-se muito.
Mas, ao voltar para casa, lá estava o vazio à sua espera e as lembranças vinham com ele.
Em seu aniversário de setenta anos, os filhos lhe deram uma festa surpresa.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

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