Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:43 am

Tratava-se de um poema de Casimiro de Abreu.
Após lê-lo, ela comentou:
Que lindo!
Até lembrei da gente quando era criança.
Foi exactamente do que me lembrei.
Eu estava estudando literatura, língua portuguesa quando deparei com esse poema.
É tão bonito. Fiquei lendo e lendo...
Quando estou longe, dá uma saudade daqui, saudade da nossa infância...
Eu não tenho saudade da minha infância.
Passei muita dificuldade e... - calou-se.
Mas quando a gente passa dificuldade e não conhece o que é bom, a gente não sente falta.
Eu sentia fome, frio... nunca tinha remédio para qualquer dor que eu sentisse...
Era feia, suja...
Nem quero lembrar disso, muito menos ter saudade.
Olhando-o nos olhos, foi verdadeira:
Sabe, Vinícius, eu não quero nunca mais viver de novo como eu vivia.
Não quero nunca mais viver na miséria, ser pobre, nem ficar sozinha.
E não vai, não.
Eu vou proteger você.
Aproximando-se, ele a abraçou com carinho e a embalou nos braços.
Vitória sentiu-se feliz pela promessa, mas não estava à vontade e constrangeu-se do abraço.
Após segundos se afastou.
Um vento cortante veio lentamente pelo ar.
Ela sorriu, esfregou o braço com uma mão, pois a outra segurava a caixinha e olhou para o horizonte de onde vinha feixes de luz alaranjados que banhavam as pedras e copas das árvores dando-lhes um tom incrivelmente dourado de fim de tarde.
Já vai escurecer.
Precisamos ir.
Aproximando-se, com olhar carinhoso encarou-a.
Com a mão vacilante, quase trémula, tocou sua face com leveza, pedindo baixinho:
Então me dá um beijo de despedida.
Vitória se entregou ao carinho e o beijou com amor.
Afastando-se, falou com jeito tímido, baixando o olhar:
Agora preciso ir.
Posso ver você amanhã?
Não sei... - titubeou.
Se a gente não se encontrar amanhã... só no fim do ano.
Não tenho tanto dinheiro assim para a passagem de ônibus.
Viajar fica caro.
Só se a gente se ver de manhã.
Combinado! - respondeu satisfeito.
Até amanhã.
Até amanhã, Vitória.
Ela caminhou alguns metros e olhou para trás.
Ao vê-lo sorridente, parado e observando-a, acenou e o rapaz correspondeu.
Logo à frente, virou-se de novo e lá estava ele contemplando-a sorrindo.
Acenaram-se.
Depois disso, a moça correu para não ser pega pela escuridão do início da noite.
Jamais esqueceriam aquele último olhar.
Passando pela porteira, Vitória foi para perto do moirão, abaixou-se e pegou sua bolsa, seguindo em direcção à casa de seus pais.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:44 am

Recebida pelos irmãos, bem surpresos por vê-la ali, a jovem explicou:
O seu Odilon me trouxe até aqui.
Hoje era minha folga, só que a dona Maria de Lourdes precisou de mim e... - contou tudo do jeito que lhe era conveniente.
A mãe não gostou, mas nada disse.
O amanhecer iniciou-se com um sol radiante.
Vitória era admirada pelos irmãos, como sempre.
Estava bonita, bem tratada e vistosa.
Suas roupas eram bonitas e de qualidade.
Sua postura, seus modos e jeito de falar eram bem mais elegantes.
E isso tudo aprendeu convivendo com pessoas de um nível melhor, bem diferentes de seus pais e irmãos.
Desde que passou a trabalhar e morar na casa de Maria de Lourdes, a patroa e a mãe dela, começaram a ajudar sua família com tudo o que lhes sobrava, principalmente mantimentos e roupas.
Mesmo assim, Vitória parecia não se sentir parte da família; ela não se encaixava mais junto a eles.
Em alguns momentos, sentia vergonha da mãe, tão acabada e de aparência imensamente sofrida.
Rosa havia perdido praticamente todos os dentes e sempre que sorria, envergonhada, levava a mão à boca.
Seu rosto era de tal forma encarquilhado de rugas que estava extremamente quadriculado e queimado de sol.
Seu modo de falar e de se comportar eram constrangedores para Vitória, que agora sabia o que era educação.
Cada vez que ia visitá-los, todos a ficavam olhando com extrema atenção, como se nunca a tivessem visto, reparando em cada detalhe de seu comportamento.
No desjejum ela não se sentiu bem ao tomar café em uma caneca de alumínio amassada e desbotada.
Sentiu certo nojo.
Tudo naquela casa parecia sujo, descuidado.
Tomou café puro e recusou o pão oferecido.
Marta, sua irmã de seis anos, a seguia de um lado para o outro fazendo perguntas e admirando suas roupas e, muitas vezes, isso a incomodava.
Vitória não dava muita importância aos irmãos que a rodeavam e queriam agradá-la de alguma forma.
Estava inquieta, pensando em como iria se livrar deles, afinal, queria encontrar-se com Vinícius.
Mas não esperava o que estava por acontecer.
Não demorou e o carro de Odilon parou em frente à casa de seus pais.
Sem demora, o rapaz desceu e, sorridente, ficou em meio às crianças que se juntaram curiosas.
O senhor aqui? - surpreendeu-se a jovem ao ser atraída pelo ronco do motor.
Olá, Vitória! Bom dia! - cumprimentou.
Bom dia.
Desculpe-me vir tão cedo é que...
Minha irmã e meu cunhado precisaram voltar para a cidade, pois o Joaquim teve febre alta a noite inteira.
Ela pediu para eu vir buscá-la.
É que... - ia reclamar, mas calou-se.
Sei que deveria vir mais tarde, porém depois do almoço não seria conveniente para mim - tornou o moço.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:44 am

Logo, Odilon olhou para o lado ao ver um vulto que lhe chamou a atenção.
Era Rosa.
A mulher ofereceu um tímido bom-dia e foi para junto da filha.
Vitória constrangeu-se.
Não sabia o que fazer.
Nem mesmo apresentou a mãe.
Não sabia se Odilon a conhecia.
Apresentar aquela mulher feia e mal-arrumada como sua mãe e aquela penca de criança como irmãos a deixou envergonhada.
Preferiu não dizer nada e terminar logo com aquilo.
Virando-se, entrou na casa e, sem demora, retornou com sua bolsa.
A distância, despediu-se rapidamente de sua mãe e mais depressa ainda de seus irmãos, indo para junto do carro de Odilon, que tirou o chapéu e fez um aceno de cabeça, fez um cumprimento geral e se acomodou no banco do motorista, inclinando-se para abrir a porta do outro lado para a jovem entrar.
No carro, se foram.
Vitória ainda viu seus irmãos menores correndo atrás do carro e envergonhou-se mais ainda.
Sentiu raiva. Desejava sumir.
Só então se lembrou de Vinícius.
Certamente ele esperaria por ela a manhã toda até cansar.
Lamentava, mas não teria o que fazer.
Chegou até a pensar que deveria pedir para Odilon parar o carro na estrada, perto do rio e correr até o lugar marcado para encontrar Vinícius e avisá-lo.
Mas não teria o que dizer, o que explicar.
O início da viagem de volta foi feito em silêncio por ela.
Odilon tentava puxar algum assunto que não ia em frente.
Até que ele parou o carro, colocou o braço sobre o encosto do banco onde ela estava sentada e, sorridente, olhou-a por algum tempo.
Muito surpresa, Vitória olhou para o lado enquanto segurava, apertada ao peito, a bolsa que levava e, quase assustada, perguntou:
Porque parou, seu Odilon?
Para saber porque você está tão quieta.
Eu?... Ora... - gaguejou.
O rapaz respirou fundo, sorriu e voltou-se para ela aproximando-se ao dizer:
Gostei muito de você, Vitória.
Acho que é a primeira moça que não se mostra atraída por mim.
É uma jovem bonita, interessante e...
Oh... seu Odilon, não venha com essa conversa mole pra cima de mim, não.
A irmã do senhor já me explicou o que o senhor quer.
Então, me leva embora, por favor.
Ele gargalhou ao vê-la assustada, falando daquele jeito.
Voltando a prestar atenção nos bonitos traços da jovem, ele acariciou suavemente algumas mechas de seus cabelos, escorregando-as entre os dedos e, ao vê-la se afastar, recostando na porta do carro, segurando firmemente a bolsa ao peito, falou com voz tranquila:
Calma, Vitória.
Não vou lhe fazer nenhum mal.
Num impulso, ela abriu a porta do carro e correu.
Vitória! Volte aqui! - gritou ao vê-la correr.
Sem alternativa, Odilon desceu do carro e correu atrás da jovem e só a alcançou quando ela caiu entre algumas rochas.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:44 am

Apiedado ao vê-la com os joelhos sangrando, abaixou-se e a segurou, lamentando:
Veja o que você fez.
Não precisava nada disso.
Venha. Deixe-me ajudá-la.
Pegando-a por um braço e pela cintura, ajudou-a a se levantar.
Ao olhá-la, viu-a com olhos assustados, quase chorando.
Para tranquilizá-la, sorriu e brincou:
Menina boba.
Não vou lhe fazer mal algum.
O senhor me assustou - murmurou ainda temerosa.
Achou que eu fosse lhe fazer algum mal? - por não ouvir qualquer resposta, riu alto.
Ajudando-a a chegar até o carro, abriu a porta e a fez se sentar no banco do passageiro com os pés para fora do veículo.
Observando-a melhor reparou o inchaço em um dos tornozelos.
Como é que vamos resolver isso, hein?
Joelhos sangrando, tornozelo inchado...
Deixe-me ver sua mão.
A palma da mão direita da jovem também estava machucada.
Ele ficou preocupado em como explicar para sua irmã sobre aqueles machucados.
Decerto Vitória contaria que caiu por ter corrido dele. E agora?
Tem um rio lá embaixo . murmurou ela.
O senhor pode parar o carro lá perto.
Eu tenho uma toalha aqui na minha bolsa que posso molhar e limpar meus joelhos.
Óptima ideia.
Sente-se direito.
Ajudando-a a acomodar-se no banco, ele fechou a porta, deu volta e pegou a direcção do rio, levando o veículo a alguns quilómetros dali onde ela indicou.
Chegando lá, Odilon parou o carro o mais próximo que pôde da margem.
Vitória desceu.
Mancando, andou até uma pedra enquanto ele se propôs em molhar uma toalha para passar nos machucados.
Veja seu vestido.
Está rasgado e sujo.
O que vamos dizer para minha irmã?
Ela viu-se tentada a dizer que tinha outro vestido na bolsa, mas não quis.
Como iria se trocar?
Além do mais, estava com raiva, queria vê-lo muito preocupado e sofrendo para justificar aquela situação com a irmã.
Afinal, era o jeito de se vingar pelo susto que passou.
Após limpar os ferimentos da jovem, Odilon retornou ao rio e foi novamente ajoelhar-se próximo a uma pedra a fim de molhar a toalha novamente e passar em seu rosto suado.
Ao olhá-lo abaixado, Vitória riu com maldade, desejando vê-lo cair na água e molhar-se todo.
Ele retornou para perto dela e, bem sério, perguntou:
Você está bem?
Estou. Só meu tornozelo está inchado e doendo muito.
Ele abaixou, pegou em seu pé, tentou movê-lo e parou quando ela sentiu dor.
O que vamos dizer para minha irmã?
Ela o encarou e pareceu desafiá-lo ao responder:
Vamos dizer a verdade, uai.
Ficou louca?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Abr 22, 2017 9:44 am

Você foi muito precipitada quando saiu correndo.
Eu não fiz nada!
O que vão pensar de mim?
São bem capazes de querer que me case com você.
Por um instante, sem que ele visse, Vitória sorriu.
Aquela ideia lhe pareceu boa.
Embora não sentisse nada por ele, Odilon parecia um bom rapaz.
Tinha dinheiro, estudo, desejava progredir e não queria viver naquele campo empoeirado, perto de lavouras e animais.
Era um moço bonito, um bom partido.
Talvez não fosse difícil gostar dele.
Fechou o sorriso e perguntou séria:
Como é que o senhor quer que eu explique meu pé virado, joelhos ralados, a mão machucada e o sapato perdido?
Você perdeu o sapato?!
Perdi e nem sei onde.
Oh! Deus! - falou olhando para cima, procurando solução.
Vamos, seu Odilon.
Vamos logo embora daqui.
Não sem antes termos uma boa história.
Uma boa mentira, o senhor quer dizer!
O moço olhou-a sério por alguns instantes, respirou fundo e pôs-se a caminhar a passos lentos e sem rumo, quase em círculos.
Ao vê-lo verdadeiramente inquieto e preocupado, Vitória o chamou:
Seu Odilon!
Paciente, ele se aproximou, sorriu e pediu:
Pode me chamar só de Odilon.
Está bem - sorriu.
Odilon, eu posso dizer que caí lá em casa, antes de o senhor chegar pra me buscar.
A dona Maria de Lourdes não vai perguntar pra ninguém.
Até porque ela só vai ver minha mãe daqui a um mês.
Até lá, ela já esqueceu.
Faria isso por mim, Vitória? - perguntou algo incrédulo.
Faço, sim.
E se você for até ali longe, eu posso trocar esse vestido e jogar fora, porque tenho outro na minha bolsa.
Ela nem vai saber.
Espera aí!
Você tem outro vestido nessa bolsa?
Tenho sim.
Ele sorriu e disse, parecendo brincar:
Já estou indo até ali longe...
Espere! Desabotoa esses primeiros botões daqui de trás pra mim.
Eu não vou conseguir sozinha.
Ele voltou, desabotoou os minúsculos botõezinhos e foi para longe a fim de Vitória trocar-se.
Ao terminar, ela o chamou pedindo:
Abotoa esses outros aqui.
Ele fechou o vestido e disse:
Pronto. Podemos ir - sorriu.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:41 am

Olhando-a, reparou:
E os sapatos?
Você tem outro par aí nessa bolsa?
Não. Mas não se preocupe.
Eu digo que minhas irmãs foram brincar com eles e quando você chegou não sabiam onde estavam.
Digo que estava com pressa e por isso vim descalça.
Vitóooooria! - segurando-lhe o rosto, beijou-lhe a testa e afirmou:
Você é um génio!
Deveria ser advogada!
Daríamos uma óptima dupla.
Abrindo a porta do carro, pediu ajudando-a:
Venha. Sente-se.
Já é quase hora do almoço.
A Maria de Lourdes deve estar preocupada.
Dando a volta, sentou-se ao volante e tentou ligar o carro, mas não conseguiu dar a partida.
Não... Não pode ser...
Isso não está acontecendo.
O que foi?
O carro não quer pegar.
Será que quebrou?
Não pode ser!
Não diga isso - respondeu insistindo em dar partida, só que em vão.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:42 am

CAPÍTULO 4 - REVOLTADA COM A VIDA

Definitivamente o carro de Odilon não dava partida.
Ele não entendia nada de mecânica ou de parte eléctrica de carros, mesmo assim, abriu o capô e mexeu em alguns fios e peças pensando algum ter se desligado sozinho.
O sol estava bem quente e, devido ao calor, Vitória saiu do veículo e foi para debaixo de uma árvore, onde estava mais fresco.
Muito tempo havia se passado.
Odilon já havia tirado o paletó, a camisa e estava usando uma camiseta branca sem mangas.
Tinha tirado também os sapatos e as meias, bem como enrolado as barras da calça.
Algumas vezes, foi até o rio, bebeu água e lavou o rosto suado.
Não sabia o que fazer.
Estavam longe de tudo e de todos.
Vitória não poderia caminhar, seu pé estava bastante inchado.
Ele não queria deixá-la ali.
Era um lugar distante e sabia haver animais que poderiam atacá-la, onças pequenas eram sempre vistas na região.
Sem saber o que fazer, o rapaz foi para junto dela, sentou-se ao seu lado, passou as costas do braço na testa, suspirou e disse:
Vamos ficar de olho lá na estrada.
Se virmos a poeira subir, eu corro e vou ali em cima pedir ajuda.
Tô ficando muito preocupada.
Por quê? - olhou à espera da resposta.
Olha pro céu.
Vai chover e ninguém mais vai passar hoje por essa estrada.
Não diga uma coisa dessas.
Pois acredite.
Vai chover feio!
Estou com fome.
Tomei café bem cedo - ele comentou.
E eu que mal tomei um leite...
Será que não tem nenhuma mangueira carregada por aqui?
Não é época de manga.
Estamos na temporada de flor.
Com muita sorte encontrará um embuseiro.
E a dor no seu pé? Melhorou?
Ainda tá inchado.
Dói?
Um pouco. Quando piso é pior.
Odilon se levantou, pegou a toalha que havia na bolsa da jovem, cortou duas tiras e amarrou em seu pé para dar firmeza.
Olhando para o céu, que escurecia, achou melhor acreditar na previsão de Vitória.
Foi até o carro e, com dificuldade, levantou a capota, fechando-o.
Nesse momento, um vento cortante começou a levantar poeira.
Ajudando-a, ele a levou para o carro que, apesar de fechado, deixava o vento passar pelas gretas, provocando assobios assombrosos.
Não demorou e o céu escureceu de verdade.
Parecia noite.
A chuva chegou violenta.
Raios de potentes clarões cortavam o céu e os trovões rosnavam furiosos.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:42 am

Vitória encolheu-se no banco, sentando de lado sobre as pernas.
Recostando-se no encosto, abraçou os próprios braços e fechou os olhos bem apertados.
Meu Deus! O que é isso?! - perguntou o rapaz incrédulo ao observar a tempestade.
Ela nada disse e continuou na mesma posição.
O moço havia vestido a camisa e, embora estivesse com um pouco de frio, pegou o paletó e cobriu Vitória quase que totalmente.
Foi nesse momento que ela abriu os olhos e ofereceu leve sorriso.
Odilon não havia levado seu relógio e, passado algum tempo, não sabia se era dia ou noite.
A chuva ofereceu breve trégua, apesar disso, o céu estava bastante escuro.
Olhando, ele percebeu que havia entrado muita água no carro e o assoalho estava cheio até a borda das portas, não havia onde pôr os pés no chão em lugar seco.
Algum tempo e murmurou:
Vitória?
Ao vê-la olhar, disse:
Pensei que estivesse dormindo.
Não.
Olha... O chão está cheio de água e eu não tenho onde pôr os pés.
Vamos passar para o banco de trás e assim eu dobro os bancos da frente e apoio meus pés sobre eles.
Esfriou muito de repente e...
Podemos ficar mais juntos e nos aquecer.
Pelo visto passaremos a noite aqui.
Ela concordou.
Passaram para o banco de trás.
Ele colocou os pés onde queria e a puxou para si.
Abraçando-a e cobrindo-a com o paletó, ficaram mais aquecidos.
À noite, a tempestade castigou ainda mais a região.
Odilon temia que a capota do carro fosse arrancada pelo vento e eles não tivessem mais protecção.
A posição era incómoda e não dormiram.
Somente silenciaram abraçados para se aquecerem.
Em raros momentos, cochilaram.
O cantar dos pássaros iniciou-se junto à primeira claridade da manhã.
O rapaz remexeu-se com Vitória em seus braços.
Por um instante, não se lembrou o porquê de estar ali.
Mal-acomodado, tinha o corpo todo dolorido.
Observando-a, a viu tão serena que parecia nem respirar.
Ele sorriu. Vitória era bonita.
Encantou-se pela menina pobre e empregada de sua irmã.
Nada que havia planeado ou sonhado para si.
Era estranho. Apreciava moças mais maduras e independentes, algo raro naquela época.
Vitória era esperta, inteligente.
Pena não ter tido oportunidade de estudar mais e conhecer melhor a vida.
Se bem que era muito jovem, teria muito tempo pela frente.
Só lhe faltava oportunidade.
O rapaz, ainda com leve sorriso no rosto, afagou o rosto da moça com carinho, tirando-lhe alguns fios de cabelos da face tranquila.
Ela não se mexeu e ele a apertou contra o peito, beijando-lhe o alto da cabeça.
Vitória despertou parecendo voltar de um sono profundo e sem se lembrar imediatamente de nada.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:42 am

Ao se ver nos braços de Odilon, afastou-se e sentou-se direito.
Ai... As minhas costas... - ele reclamou em voz baixa.
Acho que é porque dormi em cima de você - comentou ela.
Finalmente a chuva passou.
Precisamos dar um jeito de pedir ajuda.
Se chovesse pouco ia ter muita lama na estrada.
Mas não. A chuva forte leva a lama embora. Ainda bem.
Daqui a pouco os primeiros carros com leite vão passar e a gente pede ajuda.
E o seu pé?
Será que dá para você caminhar?
Acho que sim.
Odilon saiu do carro, espreguiçou-se e olhou em volta.
Atrás de uma montanha o sol lançava suas luzes no céu alaranjado, mas ainda não se mostrava totalmente no céu quase escuro.
Vitória desceu e olhou para o rio, dizendo:
Eu tava com muito medo da água subir e levar o carro pro rio.
Olha até onde ela chegou.
O rapaz observou que as rodas de seu carro estavam afundadas em uma espécie de areia trazida pelas águas do rio que haviam subido.
E só agora você me fala que a água sobe até aqui e que podia levar o carro com a gente dentro?! - esbravejou.
Se eu falasse antes você ia querer ficar no tempo.
Poderíamos ter morrido, menina!
Ela riu sem dar importância àquela possibilidade.
À medida que olhava em volta e via a vegetação deitada pela força da água, Odilon tinha mais ideia do risco que correram e se assustava ainda mais.
Acho bom a gente subir e ficar lá na estrada até vir alguém.
Ainda não consigo apoiar direito o pé no chão.
Poderia me ajudar?
Sim, claro. Porém... deixe-me ir até o rio.
Quero lavar o rosto para ver se acordo.
O rapaz foi até as pedras do rio, sumindo por alguns instantes.
Muito depois, Odilon retornou, enlaçou um braço de Vitória em seu ombro e foram morro acima até a estrada.
Procuraram um lugar próximo a uma árvore e lá se sentaram à espera de socorro.
As horas foram passando e nada.
Estou morrendo de fome - reclamou ele.
Eu também.
Alguns segundos e comentou:
É estranho não passar ninguém até agora.
Já era para os carros de bois estarem rangendo por aqui.
Só se a ponte caiu - opinou preocupado.
Odilon andou de um lado para outro na estrada, mas não viu ninguém.
Arriscou-se entrar na mata em busca de algum fruto e retornou com algumas goiabas e amoras silvestres.
Só encontrei isso - disse oferecendo os frutos a moça.
Acho que estão verdes.
Mesmo assim, dá pra comer.
Os frutos maduros devem ter caído com a tempestade.
Vitória pegou a goiaba e começou a comer.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:43 am

Algum tempo e contou:
Eu tive um sonho estranho.
Parece que eu via a gente no carro.
Estava meio dormindo e meio acordada, não sei...
Só que, de repente, vi meu irmão Aldo me pedindo ajuda.
Ele estava assustado.
Era algo como se fosse uma força muito grande, igual ao vento que puxava o Aldo.
Quis ajudar, mas nada podia fazer.
Ainda era madrugada quando sonhei e fiquei assustada, com medo.
Deu um nó na garganta, uma dor no peito...
Até agora estou esquisita.
Quase não dormi e o pouquinho que fechei os olhos, sonhei isso.
Nesse momento, ela teve vontade de chorar, mas não deixou que as lágrimas rolassem.
Odilon não sabia quem era Aldo e pouco deu atenção ao relato.
Estava preocupado em saírem dali e em como tirar seu carro de perto do rio.
Com o passar das horas, o desespero tomava conta de ambos, mas eles não diziam nada.
Ninguém passava por ali e não tinha como saírem do lugar.
Odilon novamente entrou na mata à procura de algo para comerem e de novo trouxe goiabas e nada mais.
No fim da tarde, ao cair da noite, voltaram para o carro.
Era o único lugar onde poderiam se proteger, embora mal-acomodados.
Naquela noite choveu mais uma vez, mas não de forma tão intensa quanto na anterior.
Vitória não se sentia bem, algo a incomodava.
Deixando-se abraçar por Odilon, sentia-se melhor, mais aquecida e protegida.
Na manhã seguinte, voltaram para a estrada.
Já era quase meio-dia quando o rapaz decidiu que a deixaria ali para sair e pedir ajuda.
Mas não precisou.
Quando as esperanças por socorro haviam se acabado, um homem montado a cavalo chegou lentamente até ali, parando ao ver Odilon, muito ansioso, no meio do caminho acenando com ambos os braços.
Ao vê-lo apear do cavalo, disse:
Graças a Deus!
Sem demora, apresentou-se, narrou o ocorrido e pediu ajuda.
O homem contou que a tempestade foi tão violenta que levou a ponte e somente poucas horas antes haviam arrumado parte dela, possibilitando a passagem de pessoas a pé e a cavalo.
Sabendo que não poderia levar ambos em seu cavalo e que não seria bom um deles ficar ali sozinho, o homem prometeu mandar ajuda assim que chegasse ao vilarejo.
Observando-os e lembrando que estavam ali desde a manhã anterior, o senhor tirou um pedaço de carne seca de seu bornal, pegou uma faca longa e afiada e entregou a Odilon, dizendo:
Só tenho esse jabá pra dar pro'cês e... fique com essa peixeira.
Aqui dá muito bicho que ataca.
Tem onça, porco-do-mato...
É bom o moço se proteger.
Vô indo para ajuda chegar mais rapidinho.
O rapaz e a jovem agradeceram e o homem se foi.
Horas depois, chegou até ali uma carroça que os socorreu até a fazenda do pai do rapaz.
Após um banho e depois de se alimentar, Vitória adormeceu no quarto que providenciaram para ela.
Estava exausta, com o corpo dolorido e o pé tão inchado que não conseguia apoiar sem sentir forte dor.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:43 am

Algum tempo depois, despertou confusa e assustada.
Novamente havia sonhado com Aldo.
Sentia muito frio e puxou as cobertas, se encolhendo para tentar se aquecer melhor.
Foi quando dona Veridiana entrou no quarto e, piedosa, sentou-se na beirada da cama da jovem.
Você está bem, minha filha?
Abrindo os olhos lentamente, murmurou com voz rouca:
Tô sim.
Ainda é bem cedo.
Daqui a pouco a Dita - referiu-se à empregada - vai trazer pro'cê um leitinho quente e uns biscoitinhos.
Remexendo-se no leito, perguntou por não entender:
Como assim, ainda é cedo?
Você dormiu a noite inteira, nem se mexeu.
Estava cansada por demais. Já é de manhã.
Foi ontem que chegaram aqui.
Mas não carece de levantar, não.
Aquieta mais um pouco.
E a dona Maria de Lourdes sabe que estou aqui?
Sabe, sim. Seus pais, também.
Quando vocês não chegaram, minha filha mandou um empregado vir aqui saber de vocês.
Ficamos preocupados e meu marido mandou um peão até o sítio de seu pai e disseram que tinham saído de lá no dia anterior.
O Antero - referiu-se ao marido - mandou procurarem vocês por todo canto.
Até que o peão da outra fazenda encontrou vocês, que tinham se desviado muito do caminho.
O carro do seu Odilon quebrou.
Isso nós sabemos.
Queremos é entender porque saíram da estrada que vai do sítio de seu pai pra cidade.
Vitória nada disse e abaixou o olhar.
Temia inventar alguma história diferente da contada por Odilon.
Vitória - tornou a senhora -, por que foram lá pra'quele lugar no rio?
Por que tomaram aquele rumo?
Nesse momento uma empregada bateu à porta pedindo:
Com licença, dona Veridiana ao vê-la olhar, disse -, seu Antero tá chamando a senhora lá na sala.
A mulher se levantou, foi em direcção à porta e pediu:
Dita, traz um leitinho quente e uns biscoitos pra Vitória.
Vou ver o que o Antero quer.
Isso foi um alívio para a jovem.
Não teria de responder aquelas perguntas, pelo menos naquele instante.
Isso a faria ganhar tempo e pensar no que dizer.
Precisava conversar com Odilon o quanto antes.
Já na sala, Odilon se explicava:
Eu já disse ao papai.
Saí da estrada porque estava com sede! - dizia irritado.
O sol estava escaldante!
Fui até o rio, bebi água e quando voltei para o carro ele não pegou. Foi isso!
Você falou com a menina?! - perguntou o senhor Antero à esposa.
Ela acabou de acordar.
Estava falando com ela quando me chamou.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:43 am

Então vamos lá saber por ela se foi exactamente isso o que aconteceu - propôs Odilon nervoso.
Filho... primeiro vocês saem da estrada, vão pro rio e depois dormem duas noites no carro, longe de todo mundo e...
Quer que a gente pense o quê?
Essa menina pode ficar grávida e acabar com a sua vida - argumentou a mãe.
Ora, mamãe! Como é que ela pode ficar grávida se não aconteceu nada?! - falava nervoso.
Seja esperto, Odilon!
A menina pode engravidar de outro e dizer que o filho é seu.
De jeito nenhum! - protestou.
Vamos lá agorinha mesmo e ela vai dizer, na minha frente, que não aconteceu nada. Vamos!
Virando-se para a esposa, o senhor Antero Magalhães perguntou:
Você contou pra menina sobre o irmão?
Não, homem. Não deu tempo.
Que irmão? O que aconteceu? - interessou-se Odilon.
O irmão dela morreu.
Foi enterrado ontem - explicou o pai a grosso modo.
Como assim? - tornou o filho.
Depois que vocês saíram de lá do sítio do pai dela o irmão saiu com um amigo.
Eles foram para o rio e o menino foi levado pela correnteza e se afogou - contou a mãe.
Odilon sentiu-se mal com a história e lembrou-se de Vitória ter falado sobre um sonho com o irmão que pedia ajuda.
Mas não se lembrava nem do nome do menino.
Vamos fazer assim - determinou o senhor Antero -, vamos lá ouvir dessa moça o que aconteceu.
Não quero que ela saia daqui inventando coisa e acabe com sua vida.
Só depois você conta sobre o irmão - olhou para a esposa fazendo-a entender que era ela quem deveria dar a desagradável notícia.
Mas... Antero...
Vamos fazer isso, mulher, ou ela vai começar a chorar e ganhar tempo.
Sou homem experiente e sei do que essa gente pobre é capaz.
Odilon e seus pais foram até o quarto onde Vitória estava.
O rapaz a cumprimentou e o senhor, muito sisudo e austero, não se deu ao trabalho.
Bem directo, Odilon foi esperto e perguntou:
Vitória, preciso que confirme aos meus pais que eu estava com muita sede e foi por isso que me desviei e fui até o rio.
Depois o carro quebrou e não ligou mais.
Não foi isso?
Sim, senhor. Foi sim.
Quero também que diga agora se aconteceu alguma coisa entre você e meu filho - impôs o homem firme.
Quero saber se ele a respeitou.
Não aconteceu nada, não.
O seu Odilon é muito respeitador.
Não quero que saia daqui inventando história, só porque passou duas noites em companhia do meu filho, menina!
Nossa família tem um nome a zelar e tem muita gente esperta que quer se aproveitar da situação.
Vitória nunca se sentiu tão humilhada como naquele momento.
Era por ser pobre que estava ouvindo tudo aquilo.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:43 am

Se tivesse uma família com posses, provavelmente aquele homem gostaria de unir os patrimónios, mas não.
Pronto! Estão satisfeitos? - perguntou Odilon contrariado com o jeito do pai.
O senhor olhou-o de cima a baixo, depois observou a jovem como se a medisse.
Em seguida, virou as costas e saiu do quarto em silêncio.
Vitória, quero que entenda que estamos preocupados pelo seu bem.
Não queremos que fique falada.
Você entende? - indagou a senhora tentando ser mais branda.
Sim, dona Veridiana. Eu entendo.
Pode ficar tranquila, seu filho me respeitou.
E como foi que você se machucou assim?
Joelhos, mãos, torção no pé...
Os olhos de Odilon se arregalaram, porém Vitória foi rápida e explicou:
Uma das vezes que fui até o rio, pisei em uma pedra sabão e escorreguei.
Machuquei os joelhos, torci o pé e bati com as mãos.
O seu Odilon precisou me ajudar a sair das pedras, não foi?
Sim, foi isso - confirmou ele.
Após alguns segundos em que trocou olhar com o filho, a mulher contou:
Vocês ficaram sumidos por dois dias e duas noites e...
Aconteceu algo muito triste, Vitória.
A jovem não se manifestou e a senhora prosseguiu:
No dia em que meu filho a pegou para levá-la até a casa da Maria de Lourdes...
Assim que saíram do sítio de seu pai, chegou lá um amigo do seu irmão Aldo e o moço o convidou para ir nadar no rio.
Contaram que eles costumavam nadar lá embaixo, depois da represa e...
Começou a chover forte na cabeceira do rio.
As águas violentas chegaram onde eles estavam antes da chuva e o Aldo foi arrastado.
O colega não pôde fazer nada.
Principalmente depois que a tempestade veio com força.
A moça sentiu-se gelar.
Conhecia bem o lugar e sabia do que a mulher estava falando.
Realmente era comum chover na cabeceira do rio e as águas chegarem com grande força e impulso, carregando barrancos e árvores arrancadas, galhos e animais desprevenidos.
Não seria a primeira vez que aquele rio carregava alguém.
Mesmo tomada de um súbito terror, perguntou amedrontada pela resposta:
E o meu irmão?
Ele... Sinto muito, filha - lamentou a senhora que se sentou na cama ao seu lado.
Meu irmão... meu irmão morreu?
O corpo dele foi encontrado na cidade vizinha.
Fizeram um velório curto e ontem à tarde ele foi enterrado.
Acho que foi no mesmo instante em que chegaram aqui.
Eu não poderia lhe contar.
Vitória encolheu-se e apoiou-se no travesseiro, cobrindo o rosto com as mãos para abafar o choro.
Levantando-se, a senhora decidiu:
Vou apanhar um copo com água pra ela.
Apiedado, Odilon disse:
Sinto muito, Vitória.
Eu não acredito... Não o Aldo... - chorou.
Aquele foi um dia extremamente triste.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:44 am

A jovem não quis se alimentar e praticamente passou o dia deitada e chorando vez por outra ao se lembrar do irmão, a quem era muito apegada.
No dia imediato, dona Veridiana decidiu que Vitória deveria ir para a casa de seus pais e pediu que um empregado a levasse para lá.
Mesmo a contragosto, Vitória ficou uma semana na casa de seus pais recuperando-se e ajudando a cuidar de sua mãe, que não se conformava com a morte do filho.
Sentiu-se aliviada ao receber o recado de que Maria de Lourdes mandaria buscá-la naquela semana.
E assim aconteceu.
Primeiro, ela voltou à fazenda do senhor Antero Magalhães e depois, para a casa de sua filha, na cidade.
Ainda sentia uma grande tristeza apertar seu peito ao lembrar-se de Aldo.
Porém, tinha os pensamentos revoltados por aquela vida pobre e de trabalhos duros.
Passou a odiar a miséria, a pobreza e estava decidida a investir em uma vida melhor.
Ao retomar suas funções como babá de Joaquim e outras tarefas na casa de Maria de Lourdes, perceberam-na mais séria, menos submissa.
Ninguém disse nada.
Pensaram que a tristeza pela morte do irmão a havia abalado muito.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:44 am

CAPÍTULO 5 - CASAMENTO FORÇADO

Era quase fim de ano e Maria de Lourdes estava eufórica ao planejar uma viagem de férias para o Rio de Janeiro.
Pretendia passar um mês e meio na cidade maravilhosa e, com a ajuda do irmão, estava alugando uma casa de temporada.
Lógico que Vitória precisaria acompanhá-la para cuidar de Joaquim, principalmente porque a patroa estava grávida de três meses e o marido não queria vê-la fazer esforço ou carregar peso.
Tobias, marido de Maria de Lourdes, não poderia acompanhá-la por toda a temporada no Rio, precisava cuidar dos negócios que tinha em Minas Gerais.
Por isso, ficaria lá por uma semana, depois retornaria e só voltaria no fim das férias para levá-la para casa.
Vitória não ficou satisfeita.
Tinha planos de se encontrar com Vinícius naquelas férias.
Nunca mais se viram desde aquele dia antes da morte de seu irmão.
Por outro lado, estava empolgada pela oportunidade de conhecer o Rio de Janeiro e suas belezas.
Após longa e cansativa viagem, chegaram à casa na qual passariam a temporada de férias.
Exigente, Maria de Lourdes reclamava ao irmão:
Pensei que fosse uma casa maior.
Acha esta casa pequena?!
É só por uma temporada, minha irmã.
É para as férias e não para morar.
Vitória, com Joaquim nos braços, criticava em pensamento:
"Pequena! Pequena nada.
Mulher snobe e orgulhosa de besta.
Chama de pequena uma casa que tem quatro quartos, sala, copa, cozinha...
Queria ver ela morar onde nasci e dividir aquilo com pai, mãe e nove irmãos".
E a empregada que pedi para me ajudar aqui nesta temporada?
A Vitória tem de olhar o Quinzinho e não vai dar conta de tudo - tornou a outra.
Ela vem amanhã - disse Odilon.
Ai! Quero ir logo para a praia.
Faz muito tempo que não vejo o mar - disse Maria de Lourdes.
Você não conhece o mar, não é babá?
Ela sabia que não.
Só perguntou aquilo e daquela forma para humilhar a jovem, que respondeu murmurando:
Não senhora.
Vitória virou-se e, embalando Joaquim, foi para outro cómodo.
Não queria mais ser constrangida.
Chegando à sala, a jovem parou e ficou olhando um aparelho bonito de cor cinza-opaco com alguns botões e forma arredondada.
Poucos minutos e a voz de Odilon explicou:
Isso é um moderno rádio.
E o que é um rádio? - perguntou baixinho.
O rapaz foi até o chão, pegou o fio que saía do aparelho e ligou.
Após alguns minutos, o som surgiu.
Vitória, surpresa, afastou-se um pouco e abraçou Joaquim firme nas costinhas como se quisesse protegê-lo daquela coisa estranha.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:44 am

Odilon riu alto e explicou:
Isso é um rádio moderno.
E como essas pessoas falam aí dentro? - quis saber ainda surpresa.
Não são as pessoas que estão lá dentro.
São as vozes delas. É assim... - logo explicou.
Para Vitória aquilo era algo mágico, formidável.
Ficou longo tempo olhando para o aparelho, deslumbrada.
Com o passar dos dias, Tobias retornou para Minas Gerais deixando todos no Rio.
Vitória ficou maravilhada com o mar, não conseguia deixar de sorrir diante de tamanha beleza.
Naquele dia, a patroa não se sentia bem.
Estava enjoada e com muita dor de cabeça.
Por isso ficou deitada a manhã toda.
Odilon apareceu com a intenção de levá-las ao Jardim Botânico, mas a irmã não se sentia em condições.
Por essa razão, ele levou Vitória e o sobrinho.
Passaram um dia gostoso.
Brincaram e correram com o garotinho, que terminou a tarde dormindo de tanto cansaço.
Ao fazer o caminho de volta, Vitória começou a olhar para Odilon e ter ideias.
Ele era um rapaz bem-sucedido, rico, com futuro garantido, e ela alguém que merecia ser mais feliz, ter mais condições.
Não gostaria de ficar o resto da vida servindo aos outros como empregada e ver sua vida sendo prejudicada pelas necessidades dos patrões.
Afinal, Maria de Lourdes não reconhecia sua dedicação nem seu trabalho.
Pagava-lhe uma miséria.
Só tinha folga uma vez por mês e quando a patroa dava-lhe permissão.
Imaginou-se após a chegada do próximo bebé e não gostou do que previu.
Certamente a mulher não iria contratar uma outra empregada e ela viraria escrava para dar conta de duas crianças, das roupas sujas e comida para os pequenos.
Quem sabe Odilon não fosse seu bilhete da sorte?
Essa ideia era agradável, agora.
Precisava, então, arrumar um jeito de fazê-lo olhar para ela.
Procurando ser gentil, sorriu ao falar propositadamente:
Bem que o senhor me disse que o Rio era lindo.
Não me chame de senhor, eu já disse.
Sorriu novamente com doçura ao responder:
Está bem: você. Havia me esquecido.
Eu disse que a cidade era mesmo maravilhosa, não disse?
Conhece tudo por aqui?
Tudo! E tudo é lindo - enfatizou.
Se eu pudesse iria de novo ao Pão de Açúcar.
Por que não?!
Posso levá-la novamente com o maior prazer.
Vitória silenciou.
Fez um olhar tristonho e ele reparou enquanto dirigia.
O que foi? Algo errado?
É que... - calou-se propositadamente para causar curiosidade.
O que foi, Vitória? Pode falar.
Não quero reclamar de nada.
Essa viagem está sendo muito boa.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:44 am

Se não fosse a dona Maria de Lourdes eu nunca teria condições de vir a esta cidade.
Mas é que...
Mas, o quê? Pode dizer.
Todas as vezes que saímos, seja para ir à praia, ao Pão de Açúcar, ao Jardim Botânico e outros lugares, eu não consigo aproveitar direito.
Sempre tenho de ficar cuidando do Quinzinho.
O rapaz pensou e reconheceu que era verdade, mas não teria como levar Vitória sozinha para um passeio.
O que diria para sua irmã?
Eu a entendo.
Mas não sei como posso ajudar.
Eu sei.
Breve instante e confessou:
Sabe, Odilon, nunca deixei de pensar naquilo que me falou, sobre eu estudar, ser alguém...
Seria uma grande traição à minha irmã se eu a levasse trabalhar para a família do senhor Bonifácio.
Principalmente agora que a Maria de Lourdes está grávida novamente.
É, mas... Se eu não fizer tudo certo, como ela quer, estarei na rua no dia seguinte.
Ela não vai ter dó de mim, não.
Se eu tivesse contado a verdade, naquele dia em que o carro parou e eu corri... estaria na rua.
Não esqueceu daquilo, não foi?
Nem você - respondeu de imediato.
Odilon sorriu.
Era seu costume sair com alguma empregada e depois agir como se nada tivesse acontecido.
Quando sua mãe descobria, demitia a funcionária com naturalidade.
Não havia direitos trabalhistas naquela época, nem leis sobre assédio no ambiente de trabalho.
Ele estava interessado em Vitória a fim de, mais uma vez, testar seu poder de conquista, usá-la e depois descartá-la como fez com as outras.
Enquanto ela estava interessada nele a fim de deixar aquela vida pequenina, crescer e se estabilizar.
Estava decidida e cheia de coragem.
Enquanto dirigia, repentinamente o rapaz sorriu e falou:
Tive uma ideia!
Que ideia?
Prepare tudo para sairmos amanhã com o Joaquim.
Vamos aproveitar que minha irmã não está bem - riu com gosto e completou -, ela nunca está bem nos últimos dias!...
Então, sairemos só nós três. Depois...
Ficaremos só nós dois e vou fazê-la se divertir como nunca.
Como assim? Não entendi. E o Quinzinho?
Confie em mim. Você vai entender.
Ah! Se vai - riu.
No dia imediato, e nos outros que se seguiram, valendo-se da boa vontade de uma empregada que trabalhava e morava nos fundos da casa do doutor Bonifácio para tomar conta do pequeno Joaquim, Odilon teve a chance de passar o dia inteiro com Vitória, levando-a para os mais belos lugares que conhecia e conquistando-a como queria.
Enquanto ela se entregava à sedução sem qualquer preocupação.
Por conta do mal-estar que sentia, Maria de Lourdes nunca podia acompanhá-los e dava graças a Deus de não ter o pequeno filho por perto, pois o garotinho estava em uma idade que não parava quieto e soltava gritinhos por onde passava correndo.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:45 am

Os dias se adiantaram, deixando a patroa com saudades de casa, e o marido voltou, como previsto, para levá-los embora, o que não deixou Vitória nada feliz.
Odilon os acompanhou na viagem de regresso.
Vitória, antes morena pálida, agora enrubescida de sol, com a pele lindamente dourada como quando criança, parecia outra pessoa: mais bonita e saudável.
Ela não era mais aquela moça fechada, tímida, cuidadora de criança, recatada e submissa bordadeira.
Não! Definitivamente aquela viagem e suas novas experiências a transformaram.
Sentia-se mulher.
Assim que chegaram, enjoada não pelos sintomas da gravidez e sim para ver atendidos seus caprichos e chamamento de atenção, Maria de Lourdes decidiu ficar alguns dias na fazenda de seus pais e pediu para que Vitória fosse para a casa dos seus.
Afinal, quando voltasse para sua residência na cidade, ia querer a babá definitivamente servindo-a.
Chegando ao sítio de seu pai, levada por um empregado da fazenda, Vitória desceu do veículo como se chegasse de um mundo evoluído a outro bem primitivo.
A pobreza ainda imperava naquele sítio.
As crianças pareciam brotar nuas e seminuas da casa miserável, todas descalças, malcheirosas, magras e feias.
Nem pareciam seus irmãos.
Rosa surgiu e, sorrindo sem os dentes, levava a mão à boca ao vê-la.
Seu rosto sofrido estava mais velho e maltratado, feio.
Ao olhá-la bem, Vitória percebeu que a mãe estava grávida mais uma vez.
Parada em frente à casa, nem viu o empregado se despedir e ir embora.
Se tivesse visto, talvez voltasse com ele.
Suas malas no chão, seu vestido bonito e florido feito de organdi, leve e esvoaçante, com um laço amarrado atrás, o aroma do perfume gostoso que ganhou de Odilon, sua nova aparência, seu jeito, sua fala, seus modos mais educados...
Tudo isso não combinava com aquele lugar nem com sua família.
Nem parecia ter nascido ali.
Foi nesse momento que percebeu que seu orgulho não a deixava sorrir.
Seus irmãos se aproximaram gritando alegres.
Alguns pegaram suas duas malas e uma bolsa e arrastaram para dentro de casa enquanto outros, os menores, alisavam seus braços e a saia de seu vestido, como quem acarinhava um animal gracioso.
De repente, uma palavra e uma frase agressiva:
Não! Parem!
Tirem as mãos da minha roupa ou vão me sujar toda.
Estava irritada como nunca.
Não queria estar ali.
Aquilo era uma ofensa.
Sem entusiasmo, nervosa, precisou entrar.
O retorno para a casa onde trabalhava na cidade foi um alívio.
Com o passar do tempo a confirmação do que mais desejava.
Procurando pela patroa, fez-se humilde e com ar inseguro e ingénuo, contou:
Dona Maria de Lourdes.
Ao vê-la olhá-la, prosseguiu:
Estou grávida de seu irmão, seu Odilon.
A mulher reagiu odiosa e agressiva.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:45 am

Gritou, ofendeu, xingou, empurrou Vitória e quando foi estapeá-la, a jovem segurou seu braço erguido com força e falou em tom brando, claro e firme:
Quem você pensa que é para me tratar assim?
Também casou embuchada.
Pensa que todo mundo acreditou que o Quinzinho nasceu de sete meses sendo grande, gordo e com olho aberto?
Sou tão vagabunda quanto você, cunhada.
Sou menor de idade e o Odilon vai ter que reparar o erro.
Nunca mais tente me agredir com tapas ou palavras, sua safada, sem-vergonha.
Seu orgulho, suas exigências mostram sua incapacidade.
Não é nem capaz de cuidar do próprio filho, pois além de duas empregadas que tem em casa, precisa de mim para dar carinho pro menino.
Sua sorte é eu gostar de verdade dele.
Maria de Lourdes ficou incrédula.
Jamais imaginou que aquela menina tímida e humilde pudesse ter tal reacção.
Para completar, Vitória desfechou:
Não pense que vou tirar essa criança como as outras empregadas de sua mãe fizeram.
Vou ter esse nené e o pai vai ter de casar comigo.
Além de um escândalo, sou capaz de acabar com a vida dele.
Se ele não me assumir e assumir o filho, nunca vou deixar vocês em paz.
Odilon, mesmo a contragosto, viu-se obrigado a se casar com Vitória.
Temia um escândalo, principalmente quando a jovem ameaçou ir até o Rio de Janeiro e contar ao doutor Bonifácio que ele a abandonou grávida de um filho dele.
O homem, por ser muito correto, certamente não iria querer uma pessoa irresponsável trabalhando em sua empresa e tão próximo de sua família.
O rapaz aceitou a imposição do casamento e enquanto aguardava o correr dos proclamas, ela voltou para o sítio de seus pais, local onde não tinha nenhum luxo ou regalia.
Ali ficou meio amuada, pois o pai não olhava em seu rosto e a mãe mal conversava.
Somente os irmãos pareciam não se importar.
Sempre que podia, para fugir da casa miserável e da companhia da família, Vitória ia para as pedras perto do rio, sentava-se sob a copa frondosa de uma árvore e, ouvindo o infinito murmurinho das águas, era capaz de ficar ali o dia inteiro.
Lembrava-se muito de seu irmão Aldo e, às vezes, chorava um pouquinho quando a saudade lhe apertava o peito.
Queria ter Aldo ali, sempre foram amigos.
Aliás, ela só reconhecia a ele como irmão, os outros nunca lhe importaram muito.
Poucas vezes chegava a reflectir se o que fazia era certo ou não.
Achou-se esperta pelas artimanhas e astúcias que usou para fazer Odilon prender-se a ela e não parecia envergonhada ou arrependida.
Tudo estava acontecendo exactamente como desejava.
Com os ombros rectos e altivos, cabeça erguida ao sustentar suave e delicado véu, Vitória entrou na igreja usando um simples vestido branco, longo e sem volume, cuja calda seguia seus pés.
De braços dados com o pai, que de longe se via não estar à vontade na roupa fina que lhe arranjaram, pois nem mesmo de sapatos estava acostumado a andar, a jovem parecia sozinha naquele ato heróico em busca de estabilidade e de uma vida melhor.
Ao ver Odilon esperando-a no altar, Vitória lançou-lhe luminoso sorriso e sentiu-se feliz como jamais esteve em sua vida.
Uma festa considerada simples, na fazenda de Antero Magalhães, brindou o jovem casal, que no dia seguinte viajou para o Rio de Janeiro.
Uma casa alugada e mobilada às pressas seria o novo lar de Vitória e Odilon.
As paredes ainda cheiravam a tinta.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Abr 23, 2017 10:45 am

Não havia cortinas nem tapetes e os móveis novos eram tão poucos que o simples caminhar e falar provocavam ecos no ambiente.
Mesmo assim, era uma casa grande e muito, muito melhor do que aquela em que viveu com os pais.
O jardim era amplo e em algumas roseiras floriam vários botões.
Não estavam tão perto da praia, mas quando a brisa soprava naquela direcção, podia-se sentir o cheiro do mar.
Ao chegarem, o marido colocou as malas no meio da sala e suspirou fundo com um profundo pesar pela vida nova que era obrigado a abraçar.
Por sua vez, ela sorriu admirada e encantada com tudo novo e por saber que aquilo era seu.
Sem esperar por Odilon, ela foi em cada cómodo, abriu as janelas e apreciou a vista através dos muros baixos que a deixavam ver a rua larga e outros quintais.
Chegando à cozinha, abriu a última porta, olhou rapidamente os fundos do terreno e voltou exclamando surpresa:
Uma geladeira!
Eu terei uma geladeira em minha casa!
Ai! Não acredito!
Retornando ao quarto do casal, viu o marido remexendo as malas e tirando uma roupa que alisava com a mão, como se pudesse tirar as rugas do tecido.
O que está fazendo? - ela indagou com expressão curiosa.
Odilon não respondeu e ao vê-lo separar uma camisa de linho, Vitória disse:
Dá isso aqui que eu passo pra você.
Onde tem um ferro de passar?
Lá fora.
Ela o seguiu quando o marido foi para a cozinha, atravessou o quintal e chegou até uma área em que havia uma cobertura, na qual ficavam o tanque de lavar roupa e um pequeno quarto.
Ali estavam guardados uma tábua de passar e um ferro, ambos ainda embalados em caixas de papelão.
Ele abriu a caixa, montou a tábua enquanto ela desembrulhava o ferro pesado e olhava-o com curiosidade.
Liga aqui - disse o marido pegando o ferro de passar de suas mãos e conectando-o à rede eléctrica.
Enquanto a esposa passava as roupas que ele separou, Odilon tomou banho.
Ao chegar ao quarto do casal e vê-lo arrumado e perfumado para sair, ela perguntou:
Onde você vai?
Não lhe interessa - respondeu bruto, sem encará-la.
Mas... E eu?
Tem as malas para desfazer, coisas para colocar no lugar...
Olhei o fogão e... nem o gás está ligado.
Não sei o que fazer e...
Problema seu!!! - berrou assustando-a.
Queria se casar, não queria?!
Queria boa vida?!
Deu o golpe da barriga e conseguiu enganar o trouxa aqui, não foi?!!
Agora se vire sozinha!
Você é menor, fui obrigado a me casar por medo de um escândalo, medo de que prejudicasse minha carreira...
Mas não sou obrigado a me submeter a você e aos seus caprichos.
Vou continuar curtindo minha vida!
Viver minha juventude!
Mulher e filho não vão me prender a cabresto algum!
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:39 am

Olhando-a firme e ao vê-la extremamente surpresa, desfechou:
Você é uma miserável e infeliz que pensou em acabar com minha vida, mas não conseguiu, não!
Virando as costas, Odilon saiu do quarto sem olhar para trás.
Na garagem, pegou o carro e saiu.
Vitória, trémula e assustada, sentiu-se mal.
Suas pernas estremeceram.
Deixando-se cair sentada sobre o leito, abraçou a coluna de madeira envernizada da cama e encostou o rosto.
Abraçou com tanta força e ficou ali por tanto tempo que só se deu conta quando sentiu a mão e o braço dormentes pela falta de circulação.
Ela nunca se esqueceria desse dia.
Sonhou em começar uma vida nova, uma vida repleta de alegria, tranquilidade e amor.
Mas não. Viu-se tão rebaixada e vil quanto uma mulher qualquer de vida fácil, repleta de vergonha por suas práticas libidinosas.
Percebeu que não significava nada para seu marido e que dele só poderia esperar o desprezo e a humilhação.
Mas ela não era uma criatura passiva.
Apesar de tamanha decepção, apesar da angústia que apertava-lhe o peito, respirou fundo, secou o rosto com as mãos pálidas e frias, ergueu-se e foi ver o que poderia fazer para começar a nova vida enquanto pensava em uma maneira de conquistar seu marido de volta.
Foi em cada cómodo e decidiu ver qual seria a prioridade.
Haviam feito a refeição do meio do dia na última parada de carro antes de chegarem ao Rio de Janeiro.
Precisava preparar algo para comer, mas a despensa não tinha nada, estava vazia.
Nos armários, só havia algumas panelas novas ainda com selo e o mesmo acontecia com os outros utensílios.
Lembrou-se de ter visto seu sogro, Antero Magalhães, entregar para Odilon um considerável maço de dinheiro como presente de casamento e viu o marido guardá-lo em uma bolsa que colocou dentro de alguma mala.
Por não vê-lo mexer nessa bolsa quando chegaram, provavelmente o dinheiro ainda estaria ali.
Sendo presente de casamento, o dinheiro também era dela e deveria usá-lo para suas necessidades.
Revirando as malas, no fundo falso de uma delas encontrou o montante.
Queria guardá-lo, escondê-lo de Odilon.
Andou por vários lugares da casa pensando onde esconder.
Até que, olhando uma das poltronas da sala, teve uma ideia.
Com dificuldade, virou o sofá e, olhando embaixo, tirou cuidadosamente o tecido que servia de forro e escondeu a maior parte do dinheiro, prendendo-o nas molas.
Fechou novamente o forro e voltou o móvel do mesmo jeito que estava.
Ao contemplá-lo, sorriu satisfeita.
Pegou as notas que havia separado e as guardou em uma carteira de documentos que o marido havia lhe comprado em uma das paradas.
E agora? O que fazer?
Primeiro decidiu se trocar.
Estava cansada da viagem.
Após separar um vestido que repassou foi para o banheiro e sorriu ao ver um chuveiro.
Odiava tomar banho de bacia ou de canequinha.
A água sempre esfriava rápido e não se sentia tão limpa.
Nem na casa de Maria de Lourdes havia chuveiro eléctrico.
Sabia como usar, pois conheceu o aparelho quando viajou com a patroa para o Rio.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:40 am

Após tomar um banho trocou-se, penteou-se e se sentiu bem melhor.
Pegou a carteira, foi até o portão e olhou para os lados.
Alguns meninos descalços passaram correndo e gritando enquanto rolavam pneus apostando corrida.
Ela estranhou, nunca tinha visto tal brincadeira.
Chamou a um deles, mas o garoto não olhou.
A brincadeira era mais importante.
Um senhor passou e desejou-lhe boa tarde e ela respondeu timidamente.
Pensou em perguntar-lhe onde ficava a venda ou armazém mais próximo, mas não o fez, teve vergonha.
Até que uma voz feminina fez-se ouvir suave:
Boa tarde!
Boa tarde - retribuiu sorrindo.
Você é a nova moradora daqui? - perguntou a vizinha por cima do muro baixo.
Sim, sou. Cheguei hoje.
Que bom ter gente nessa casa.
Ela ficou bom tempo sem alugar.
A mulher saiu do muro, deu a volta pelo portão e chegou em frente à casa da jovem.
Meu nome é Dalila - disse estendendo-lhe a mão.
A outra fez o mesmo e se apresentou:
O meu é Vitória.
O forte sotaque fez a vizinha perguntar:
Você é de Minas Gerais?
Sim. Sou do norte de Minas.
Logo vi pelo seu jeito de falar.
Observando a carteira em sua mão, indagou:
Está de saída?
Bem... Nós chegamos hoje e... - Pensou rápido.
Envergonhou-se da verdade e mentiu:
Meu marido precisou ir até a empresa onde trabalha e não pôde me ajudar... não conheço nada por aqui.
Preciso comprar alguns mantimentos e não sei onde fica a venda.
Ah!... Isso é fácil.
Tem o empório do seu Manoel, um português ranzinza e mão de vaca que nem te conto.
Ele é bem unha de fome.
Só que lá tem de tudo.
Fica ali embaixo, no fim da rua.
Quer que eu vá lá com você?
Faria isso por mim?! - alegrou-se.
Lógico!
Olhou-a e reparou:
Não vai levar nenhuma sacola?
É que... Não tenho.
Espera aí. Vou pegar uma pra emprestar pra você.
Dalila voltou rápido e ambas foram ao empório.
Ao retornar, a mulher entrou na casa de Vitória e reparou que era tudo novo.
Eu vi seu marido trazendo gente aqui para arrumar a casa, pintar e depois trazer os móveis.
Mas nunca conversei com ele.
Meu marido arrumou um bom emprego.
Ficou algum tempo aqui no Rio e depois voltou para me pegar.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:40 am

E tu morava sozinha lá em Minas, mulhé?
Não. Quando ele veio para o Rio, fiquei na fazenda de meu pai.
Quase todo mês o Odilon ia me visitar.
E agora que o emprego deu certo e estamos esperando nosso primeiro filho, ele não quis me deixar lá - sorriu.
Não quis ficar longe de mim. Sabe como é.
Ai, que bom! Tu tá esperando nené, é?
De quanto tempo?
Enquanto conversavam e se conheciam, Vitória colocava o que comprou sobre a mesa da cozinha e se atrapalhava para organizar as coisas e Dalila tentava ajudar.
A nova amiga, mais experiente, ligou a geladeira na tomada e, ao ver que o fogão ainda não estava conectado ao gás, providenciou a instalação.
Não demorou muito e Dalila deixou tudo funcionando.
Acho que vou fazer uma sopa para o jantar decidiu Vitória.
A outra ajudou a descascar os legumes e depois a lavar os utensílios nunca usados.
Conversaram muito.
Dalila foi quem mais falou, pois a outra não tinha muita coisa para contar.
Antes de escurecer, a vizinha se foi e Vitória voltou a remoer a angústia quando se lembrou do jeito que o marido a tratou ao chegarem.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:41 am

CAPÍTULO 6 - O NASCIMENTO DE ANTERO NETO

A pós preparar o jantar, Vitória arrastou as malas para o quarto do casal e começou a arrumar as roupas nos armários.
Enquanto isso, seus pensamentos eram rasgados pela sombra do medo e da fraqueza.
Temia não suportar viver ali e ter de voltar à vida miserável e cruel que conheceu tão bem.
Ao lembrar da pobreza, da fome, das más condições, erguia-se nela uma força tenaz, capaz de fazê-la reagir e preparar-se para enfrentar até o desconhecido daquela nova vida e os possíveis maus tratos que viriam da parte do marido, contrariado pelo rumo de sua vida.
Ao terminar de organizar as roupas principais, verificou que teria muitas peças para passar, porém decidiu deixá-las arrumadas em um canto para fazer isso em outro momento.
Depois estendeu a cama com o único jogo de lençol que havia ganhado de Maria de Lourdes.
E, após colocar as fronhas, ajeitou os travesseiros, dispondo-os de modo caprichoso no leito.
Tirou um cobertor novo de dentro de uma caixa e, apesar de saber que ali não fazia frio, dobrou-o graciosamente sobre a cama, enfeitando-a.
Ela só queria que ficasse bonito.
Caprichosa, olhou, sorriu e respirou fundo, com satisfação de ter cumprido bem seu trabalho até ali.
Afinal, agora arrumava a própria casa.
Indo até a cozinha, pegou a toalha de linho que tinha trazido e estendeu sobre a mesa, colocando os pratos e os talheres bem ajeitados ao lado.
Lembrando-se de ter visto flores no jardim, foi até lá e colheu três rosas.
Colocou-as em um copo com água e as arrumou sobre a mesa da cozinha onde deveriam jantar.
O tempo foi passando.
Não possuíam relógio ainda.
Mas calculou ser bem tarde, pois havia muito estava escuro.
Sentia fome e não sabia o que fazer para enganar o estômago.
Nem havia um rádio para ouvir.
Tinha gostado daquele aparelho quando conheceu um.
O cansaço da viagem agora a abatia.
Deveria ser bem tarde e Odilon não chegava.
Decidiu jantar, e foi o que fez.
Estava deitada no sofá da sala cochilando quando o marido chegou.
Embriagado, falava grogue e andava trôpego.
Suas roupas estavam desalinhadas, diferente de quando saiu.
O paletó aberto, a camisa fora da calça e o chapéu mal equilibrado na fronte.
Ao tentar ajudá-lo, ele a empurrou, disse alguns desaforos, todos referentes ao casamento forçado que ela planeou com a gravidez, magoando-a ainda mais.
Depois, bamboleou até o quarto e, esmorecido, deixou-se cair sobre a cama com sapato e tudo.
Ela tirou-lhe os sapatos, o paletó e os suspensórios alçados nos ombros.
Procurou ajeitá-lo da melhor maneira que conseguiu e o cobriu.
De madrugada, o marido passou muito mal pelo excesso de bebida alcoólica.
E ela, sem saber direito o que fazer, coou um café forte e amargo e deu para ele beber.
Vitória nada dizia.
Não havia o que falar.
E quantas vezes depois a mesma cena se repetiu, as mesmas ofensas ouviria e o mesmo trabalho teria.
Com o passar dos dias, parou em frente à casa um caminhão de entregas com algumas caixas contendo considerável quantidade de mantimentos que Odilon havia comprado.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:41 am

Vitória sorriu alegre.
Nunca tinha visto tanta fartura.
Assim que os entregadores se foram, ela organizou os armários da cozinha, que ficaram lotados.
Não precisaria mais sair para comprar quantidades pequenas e carregar em sacolas, o que era muito pesado.
Dalila apareceu para visitá-la e levar um pedaço de bolo quente.
Vitória preparou um café gostoso, adoçado com açúcar refinado e serviu a bebida fumegante, que escorreu brilhosa do bule para as xícaras.
Que café gostoso tu preparou, menina!
Acho que é por conta do açúcar branco e fininho.
Na fazenda de meu pai... - pensou e mentiu - a gente usava rapadura porque meu pai gostava.
Já na casa do meu sogro, na outra fazenda, eles usavam açúcar cristalizado.
Eu uso o cristal mesmo. É mais barato.
Se comprar o açúcar fino, meu menino vai acabar com tudo.
Você não sabe como é moleque...
Você é nascida no Rio de Janeiro, Dalila?
Não, muié! - riu gostoso.
Sou da Paraíba! Tu não percebeu, não?
Não - sorriu.
Conversaram mais um pouco até acabarem de tomar o café e comerem o bolo.
A amiga se foi e Vitória voltou a cuidar de seus afazeres.
Ela estava empenhada em uma pequena horta no fundo do quintal e preparava a terra com o adubo que algumas crianças da vizinhança, junto com Valdeci, filho de Dalila, trouxeram.
Também havia feito amizade com outros vizinhos que Odilon, calado e orgulhoso, não fez nem questão de conhecer, conversar ou cumprimentar.
Aliás, ele não conversava nem com a esposa.
Fazia pouco da organização da casa, não reparava nos dotes caprichosos de Vitória e quando precisava falar com ela, era rude e sempre procurava humilhá-la.
Nem por isso ela desanimava.
Cuidava muito bem da casa, de todos os afazeres domésticos com primor e disfarçava a tristeza pelos maus-tratos com um generoso sorriso.
Entretanto, muitas vezes, quando sozinha, chorou sem deixar as marcas da angústia em seu rosto, só no coração.
Com os dias, Odilon a procurou e, irritadiço, perguntou ao encontrá-la no quintal, perto da horta:
Onde está aquele dinheiro que meu pai me deu antes de virmos para o Rio?!
Onde você colocou tudo aquilo?!
Estava no fundo de uma das malas!!! Onde está?!
Eu gastei um pouco e o resto guardei.
Apesar de aparentar serenidade na face corada e de linhas rectas, estava temerosa por vê-lo furioso.
Como assim, gastou um pouco e guardou o resto?!
Ficou louca?! Sabe o quanto tinha ali?!
Você é burra o suficiente para não ter ideia de quanto vale tudo aquilo!
O que fez com aquele dinheiro?!! - berrou.
Eu sei lidar com dinheiro, sim.
Com que você acha que comprei mantimentos para fazer a comida assim que chegamos?
Só dias depois que chegamos é que você fez uma boa compra.
Acha que ganhamos aquela comida dos vizinhos?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

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