Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:41 am

Ele se aproximou, segurou-a pelos braços finos e a sacudiu, repreendendo-a ao falar entre os dentes:
Não me responda!
Você me deve satisfação!
Me solta! - exigiu num impulso com misto de medo e raiva, agitando o corpo para se ver livre.
Soltando--se, apressou-se para se afastar, mas Odilon correu atrás da esposa e a segurou pelo vestido que descosturou nas costas.
Vitória foi rápida e apanhou uma enxada.
Usando o cabo como porrete, virou-se e bateu com toda força que tinha na cabeça do marido.
Como se não bastasse, desferiu mais dois golpes com a mesma intensidade, fazendo-o cair de joelhos.
Rubra, ofegante, muito assustada e temerosa, falou firme:
Teve sorte de eu usar só o cabo.
Da próxima vez que for me bater vou descer é a parte de ferro na sua cabeça e abrir ela com quantas vezes eu bater.
Entendeu?
O marido estava tonto e com a mão sobre o inchaço que começava a crescer.
Sentia muita dor e mal ouvia o que ela dizia.
Não esperava aquela reacção da esposa.
Sempre que falava e a espezinhava nunca houve um revide.
Vitória, nervosa, deu-lhe as costas e entrou sob efeito de tremores, surpresa com a própria reacção.
Na cozinha, mexia nas coisas sem saber direito o que fazer.
Só sabia que não admitiria ser agredida fisicamente por homem nenhum.
Odilon entrou.
Seu rosto alvo estava vermelho como nunca.
Enraivecido, porém temeroso, perguntou mais brando:
Onde está aquele dinheiro?
Já disse. Está guardado.
Aquilo foi presente do seu pai para nós dois. Não é só seu.
Por isso, se eu não souber para o que você quer, tenho o direito de guardar.
Sua...
Tentou dizer em tom ameaçador, mas foi interrompido:
Cale a boca! - gritou, erguendo uma concha de, feijão como se o enfrentasse.
Não fale mais assim comigo!
Se eu engravidei você também é culpado.
A única diferença de nós dois é que eu fui mais esperta.
Não tirei a criança como as outras coitadas que você enganou e engravidou e sua mãe deu um jeito.
Pensa que eu não sei?!
Agora é o seguinte:
você vai me tratar como gente.
Vai ser educado ou eu vou lá no seu trabalho e conto pro doutor Bonifácio quem realmente você é!
Conto tudo! E se fizer mais alguma coisa contra mim, não se esqueça que dorme do meu lado enquanto estou acordada.
E o que quer que eu faça contra você, vou dizer que fui me defender.
Viu?! Eu tenho o sono leve e durmo com uma faca debaixo do travesseiro.
Não me tente.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:41 am

Você me paga, Vitória!
Vai me pagar caro por isso! - falou enfurecido.
Esfregando a fronte que ainda doía, foi para outro cómodo.
Com o passar dos meses Vitória deu à luz um menino.
O parto foi normal e muito sofrido.
Ela ficou alguns dias internada, o que na época era comum e, ao receber alta, foi para casa na companhia do marido.
Odilon se encantou pelo filho, embora não desse a devida atenção para a esposa.
O quanto antes o registou com o nome de Antero Magalhães Neto, o que deixou o avô orgulhoso ao saber da notícia, e Vitória contrariada, pois desejava outro nome para o filho.
Dalila foi quem se prontificou a ajudar a amiga que considerava muito e isso fez com que Odilon fosse mais simpático com ela.
A mulher, mais experiente, cuidou de Vitória, do umbigo do nené, da roupa e até do preparo da alimentação.
Isso nos primeiros dias até que Odilon providenciasse uma empregada.
Ele sabia que o doutor Bonifácio e a esposa planeavam visitar a nova mãe e o bebé.
Havia feito de tudo para adiar aquele encontro, porém seu chefe estava decidido.
Por dias o marido ficou orientando Vitória para se comportar direito, falar correctamente, comportar-se de modo adequado e conversar o mínimo possível, mas não foi isso o que a esposa fez.
Chamando a empregada antes do findar da tarde, Vitória a orientou exactamente como queria e como deveria agir.
Aprendeu como receber quando viu Maria de Lourdes ter visitas importantes.
Até o prefeito da cidade, amigo chegado, frequentava a casa da patroa e ela lembrava-se muito bem de como a mulher orientava as empregadas e preparava tudo.
Já havia pedido a amiga Dalila que gentilmente preparasse um bolo bem gostoso como só ela sabia fazer.
A vizinha tinha a mão boa e haveria de caprichar.
Animada, ela fez um grande bolo de laranja no qual deitou baba de moça e algumas frutas secas miúdas por cima para decorar.
Além disso, preparou alguns biscoitos de amido de milho.
Mas Vitória não achou que fosse suficiente e pediu à empregada para preparar uma torta muito boa, que ela orientou o preparo bem de perto.
Doutor Bonifácio chegou acompanhado da esposa Dulce e, para a surpresa de Odilon, Isidoro, sobrinho do casal, estava junto.
Foi com extrema simpatia e educação que todos foram recebidos pela jovem dona de casa, o que gerou preocupação no esposo que a queria calada.
Com jeito carismático, Vitória cativou Dulce, que fez questão de conhecer toda a residência e viu o capricho da anfitriã nos pequenos detalhes dentro e fora da casa e principalmente com o pequeno Antero.
A senhora se encantou com o menino quando o viu sendo amamentado e adormecendo em seguida.
Admirou-se por ele não dar trabalho.
Quando se reuniram na sala de jantar, ela observou:
Não nos contou que, além de bonita, sua esposa é muito agradável, simpática e prendada.
Até uma horta ela fez no quintal.
Também fiquei admirada com o jardim.
Quanto capricho!
Odilon corou.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:42 am

Não sabia o que responder, principalmente quando o doutor Bonifácio comentou:
Quando eu soube que iam se casar, sugeri a seu marido que continuasse morando em minha propriedade que, além de grande, tem adequação boa para alguns funcionários.
É certo que a edícula não é tão grande quanto essa casa, porém vocês estariam junto a conhecidos e Vitória teria mais assistência.
Sabe que considero Odilon como um filho.
Isidoro, o sobrinho enciumado, olhou de modo insatisfeito enquanto bebericava o saboroso café feito pela dona da casa.
Dulce insistiu muito que a anfitriã fosse visitá-la assim que terminasse a dieta.
Fez até questão de que a jovem telefonasse ou pedisse para o marido avisar o dia da visita, pois iria mandar o motorista da família pegá-la.
Vitória garantiu que iria, o que deixou a senhora bem feliz.
Após todos irem, Odilon quis chamar a atenção da esposa por ela ter feito exactamente o contrário do que ele lhe pediu.
No entanto, no fundo, ele ficou satisfeito com a boa impressão que a mulher causou.
Foi assim que Vitória cativou Dulce, que a queria com frequência em sua casa.
A senhora mimava o pequeno Antero como se fosse seu neto e tratava Vitória como filha.
Vitória conheceu João Alberto, filho único do casal.
Tratava-se de um rapaz magro, bem esquelético, sério e quase sisudo.
Seu rosto parecia não ter vida, não ter expressão.
Um deprimido nato.
Vivia trancafiado no quarto cujas paredes eram forradas de livros.
Os pais justificavam seu comportamento pela doença incurável e de difícil tratamento.
Meses se passaram e Vitória tornou-se verdadeira amiga da família, parecia mais querida que o próprio Odilon.
Como padrinhos do pequeno Antero, claro que Dulce e o marido passaram a ter extrema consideração, carinho e estima pelo garotinho, como se fosse neto.
Estando sempre na casa da comadre, Vitória tentou se aproximar de João Alberto, o que era difícil pela hostilidade que o rapaz demonstrava.
Contudo, conseguiu transpor a barreira da aversão, fazendo-se valer dos momentos em que ele se inclinava aos gracejos do pequeno Antero.
Certo dia, no amplo jardim da grande residência dos Bonifácio, Vitória, sentada no gramado, tomava os primeiros raios de sol em companhia do filho.
Dando seu último olhar à criancinha, que estava sentada sobre uma manta distraída com um pequeno brinquedo, ela fechou os olhos e estendeu o rosto para cima.
Alguns instantes e captou a forma magra de um homem enrijecido que interrompeu a luz em sua face.
Sobressaltando-se, tentou não demonstrar surpresa.
Ao vê-lo com olhar fixo em sua figura, procurou ser simpática e sorriu, embora estivesse com uma ponta de estranha preocupação.
Posso me sentar em sua companhia? - perguntou a voz seca e marcante que quase nunca se ouvia.
Sim. Claro que sim, João Alberto.
Acomodando-se quase ao seu lado, ali ele ficou longos minutos em silêncio sob os brandos raios de sol.
Vitória procurou ser amável e impostando doçura na voz, tentou puxar assunto:
O dia está tão lindo. Não está?
A quem você pensa que engana?
O que disse?
Você e seu marido são dois embusteiros, enganadores que mostram amizade para disfarçar a ambição.
Estão é de olho no dinheiro do meu pai.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:42 am

Não pode nos acusar de...
Interrompendo-a, enfrentou-a com um olhar feroz e completou:
Não posso acusá-los de mentirosos?
Falsos? Trambiqueiros?
Isso é pouco para o que vocês são.
E incluo a esses títulos o meu primo Isidoro.
Só porque meus pais não têm herdeiros, não têm filhos além de mim para deixar todos os bens, vocês os cercam como urubus, esperando o meu fim.
Mas não pensem que vão conseguir tudo muito fácil, não.
Ninguém vai tirar a minha fortuna! Ninguém!
Por instantes, um súbito medo tomou conta de Vitória.
Ela percebeu João Alberto muito alterado, nervoso, apresentando tremor nas mãos e na voz.
Pegando o filho no colo, apertou-o ao peito e lentamente levantou-se.
Percebendo que ela iria se retirar, o rapaz ainda disse:
Não se esqueça: tudo o que é do meu pai, é meu e não vou dividir com ninguém nem depois de morto.
Acreditando que ele encontrava-se em grande desequilíbrio emocional, ela nada disse e se afastou a passos rápidos ainda ouvindo-o gritar:
Gananciosa! Não vou deixar nada do que é meu para você!
Ao chegar em sua casa naquele dia, Vitória só ouvia as palavras de João Alberto ecoando em sua mente.
Com um nó na garganta, ficou fechada em si mesma até que o marido chegou.
Por sorte, Odilon não havia bebido e ela não teria com ele o mesmo trabalho de sempre.
Bem mais tarde, após terminarem o jantar decidiu contar o acontecido.
O João Alberto disse isso? - surpreendeu-se o marido.
Disse. Ele estava muito estranho.
Tremia, cuspia ao falar. Foi tão assustador!
O doutor Bonifácio vem dizendo, nos últimos dias, que ele não está muito bom.
Até achou que alguns remédios estão lhe fazendo mal pra cabeça.
Vai ver ele andou dizendo essas coisas também para o pai.
Não interessa o que ele diga.
O importante é o doutor Bonifácio não perder a confiança em mim, em nós. Entendeu?
Então você quer mesmo ser o herdeiro dele?
E você, não?! - questionou o marido em tom quase agressivo.
Levantando-se, andou poucos passos e parou atrás da esposa e massageou-lhe levemente os ombros ao falar, estampando suave sorriso:
Você é muito esperta e é isso o que me agrada.
Tão gananciosa quanto eu, é capaz de tudo para ter a fortuna do doutor Bonifácio.
Afastando-se, contou:
Quando me vi obrigado a me casar com você, juro que fiquei revoltado, contrariado mesmo.
Só que as coisas foram mudando quando observei sua capacidade de persuasão, de conquistar a dona Dulce e o marido com seu jeito simples, cativante, gentil.
Por sua causa e após o nascimento de Antero Neto, as coisas vêm mudando para mim lá na empresa.
Sei o quanto é ambiciosa, Vitória.
Sei o quanto odeia a pobreza e repudia a ideia de voltar a ter aquela vida miserável que tinha.
Juntos conquistaremos nossos objectivos.
E quais são esses objectivos?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:42 am

Riqueza! Viver bem!
Ter dinheiro e a melhor condição de vida que alguém pode ter.
Odilon a abraçou pelas costas, beijou-lhe o rosto.
Afastando-se sorrindo, foi para o outro cómodo.
Só que Odilon não sabia que, acima e além de seus planos, imperava o planeamento reencarnatório.
E Vitória ignorava, conscientemente, que "O homem atrai os espíritos em razão de suas tendências, quer esteja só ou constitua um todo colectivo, como uma sociedade, uma cidade ou um povo".
Essa é a resposta à questão 518 de O Livro dos Espíritos.
A internação de João Alberto, para o que deveria ser uma simples cirurgia de apêndice, foi mais longa do que se esperava.
Isso fez com que o doutor Bonifácio deixasse sua empresa nas mãos de Odilon, que o substituía em tudo.
Esse facto aproximou ainda mais Vitória e o marido daquela família.
Deixando o filho Antero sob os cuidados da amiga e vizinha Dalila, ela ficou na companhia de dona Dulce, que sofria pelo estado severo em que se encontrava João Alberto após a cirurgia.
Já foi feito de tudo, Vitória.
Essa é uma doença tão triste...
Se não fosse a hemofilia, meu filho estaria bem.
Estamos perdendo as esperanças a cada internação, a cada problema de saúde que ele apresenta.
Agora, não há o que se faça para estancar o sangue após a cirurgia.
Sempre ouvi falar que o João Alberto é doente, mas não sei exactamente o que ele tem.
Ele é hemofílico.
Percebendo que a outra não sabia do que se tratava, a senhora explicou:
Hemofilia é quando o sangue possui alterações que são hereditárias.
Essas alterações provocam problemas na coagulação.
É assim: o nosso sangue possui várias substâncias e, entre elas, as proteínas para a coagulação, que ajudam a estancar as hemorragias.
O corpo do hemofílico, em caso de ferimento, demora mais para formar um coágulo e, quando esse se forma, não é capaz de fazer o sangue parar de escorrer pelo local da lesão.
Por isso, qualquer ferimento ou cirurgia é um grande problema.
A pessoa com hemofilia sangra mais rápido que as outras? - quis saber Vitória.
Não. Quando o hemofílico se machuca, ele não sangra mais rápido, ele fica sangrando durante um tempo bem maior e pode recomeçar a sangrar, pela mesma lesão, vários dias depois do ferimento ou cirurgia.
É a mãe que passa a hemofilia para o filho, embora não sofra a doença.
Perdi outros três filhos por conta da hemofilia.
Logo no primeiro ano de vida, principalmente quando estavam aprendendo a andar, apareciam as gigantescas manchas roxas ou equimoses, pois pequenas batidas em um membro provocavam sangramento interno.
Depois, com os anos, tudo se agravava.
Os principais sintomas eram as dores fortes, restrição de movimento, febre...
O pior era quando aconteciam os sangramentos dentro das juntas e dos músculos.
A vida normal é impossível, uma simples caminhada, uma corridinha... um desequilíbrio que faz a pessoa bater um braço ou uma coxa em uma parede produz hemorragia interna, nos músculos, nas articulações.
Os joelhos, tornozelos, quadris, cotovelos, principalmente, desgastam primeiro as cartilagens e depois provocam lesões ósseas ocasionando fortes dores.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:42 am

Existem também, nos casos mais graves, as hemorragias espontâneas, repentinas e sem causa aparente, muitas vezes em orifícios naturais como nariz, boca...
Pobre do meu filho... - continuou lamentando.
Sempre amparado, vigiado, protegido, nunca teve uma vida normal.
Um simples tombo de joelhos era caso de médico, receber sangue dos outros...
Um simples tratamento dentário é um problema sério.
Agora, uma cirurgia de apêndice, simples para muitas pessoas, pode matá-lo chorou.
E foi o que aconteceu.
João Alberto não resistiu ao pós-operatório e faleceu.
Odilon não poderia dizer que ficou satisfeito, embora a esposa soubesse disso.
O caminho agora estava livre para que o doutor Bonifácio deixasse a empresa praticamente em suas mãos.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:43 am

CAPITULO 7 - AMOR É QUESTÃO DE TREINO

Com o passar do tempo, lentamente Odilon foi acometido de fadiga sem explicação e emagreceu a olhos vistos.
Você precisa é ir ao médico, homem - dizia Vitória preocupada.
Agora não posso.
Tenho coisas muito importantes para fazer.
Não se preocupe comigo.
Isso não é nada. Talvez uma gripe.
Gripe que não sara nunca - tornou ela.
Fui à farmácia e o farmacêutico me receitou alguns medicamentos, injecções... tomarei a segunda hoje.
Além de uma fórmula que até já aumentou meu apetite.
Era assim que ele procurava ajuda médica.
Até que, certo dia, em conversa com a amiga Dalila, Vitória comentou:
Preciso ir lá naquela mulher que vende ovos caipiras.
Os ovos para as gemadas do Odilon acabaram e...
Vitória, você reparou que o seu Odilon ficou assim fraco, magro... desde quando o filho do patrão dele morreu?
A outra ficou pensativa e Dalila ainda supôs:
Menina!... Isso é caso de encosto.
Encosto?
É! Você nunca ouviu dizer que quem morre insatisfeito ou gosta muito de alguém, depois de morto, fica junto da outra pessoa atrapalhando?
Vai ver seu marido é fraco para isso.
Vitória já tinha ouvido muitas histórias a respeito de assuntos assim.
Nasceu e cresceu no interior e o povo da região gostava muito de contar histórias desse tipo, além de casos de assombrações.
Ai, Dalila... Credo em cruz!
O João Alberto voltar para perturbar meu marido...
Por que ele faria isso?
Você me disse outro dia que o tal doutor Bonifácio tem seu marido como filho e...
Agora que o João Alberto morreu, ele deve estar com ciúme.
Afinal, como defunto, ele não vai aproveitar nada da riqueza do pai.
Pare com isso!
Essa história até me fez arrepiar.
Se eu fosse você, procurava um bom benzedeiro.
Você conhece algum?
Conheço, sim.
O Valdeci - referiu-se ao filho - era danado pra pegar quebranto e olho grande quando pequeno.
Eu vivia levando ele lá no seu Elídio.
Ele é um homem muito bom.
Benze que é uma beleza!
Mas eu acho que o Odilon não vai querer ir junto.
Nem precisa falar com ele que você vai lá.
Leva uma camisa dele. Isso já basta.
Assim foi feito.
Em companhia da amiga, Vitória procurou o referido senhor que a recebeu com bondade e atenção.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:43 am

Elídio concentrou-se e pronunciou palavras em volume tão baixo que ela não pôde entender.
Molhando a ponta dos dedos em uma bacia de alumínio que estava cheia até a metade com água limpa, borrifou gotas em sua testa como se fizesse o sinal da cruz.
Depois, olhou para a bacia, cuja água tremia e falou de modo sereno:
Seu marido tá muito doente, mia fia.
Precisa procurar depressa home de branco... médico pra se curar ou...
Num sei, não. Num sei, não.
Ele é teimoso, tem ambição, muita ambição.
E você também, né, mia fia?
Eu só queria uma vida melhor do que a que fui criada.
Mas mia fia ia tê vida mio do que a que cresceu.
Só num teve paciência de esperá.
E agora, a vida de mia fia vai dá uma volta grande, uma volta muito, muito grande pra pode arrumá o que precisa e continuá dispois no caminho onde parou.
Eu não estou entendendo.
Mas vai entendê.
Vai entendê... - disse o homem sem dentes com mediunidade aflorada, que a olhou como se penetrasse em sua alma.
Primeiro mia fia vai levá o companheiro pro médico.
Meu marido tem um patrão que confia muito nele.
Esse homem tinha um filho...
Vitória contou sobre a suspeita de João Alberto, em espírito, ser um possível perseguidor de Odilon.
Esse moço que morreu não gostava de ocês.
A mia fia, ambiciosa, né?
Se meteu em encrenca que não precisava.
O moço que morreu precisa de muita oração, muita prece.
Sempre que puder, vai na igreja e reza pra esse moço.
Mas reza lá na igreja e manda rezá missa pra ele.
Vejo três inimigos do passado.
Esse moço que morreu, o seu marido e mais alguém que ainda não sei quem é.
Eles viveram na época de duelo.
O moço que morreu sofreu muito porque sangrou até morrer e, revoltado, não se conformou.
As marcas do ódio foi tão forte que veio doente pela falta de perdão.
Nessa vida, o corpo dele vivia sangrando porque não perdoou, porque odiou morrer como morreu.
Por isso precisou morrer de novo se esvaindo em sangue para ver se aprendia...
Mas não aprendeu.
Ele ainda quer o dinheiro que acha que é dele.
Vitória apavorou-se.
Não havia comentado sobre a hemofilia.
Só tinha dito que João Alberto faleceu após uma cirurgia para retirar o apêndice.
Apesar da grande surpresa, ficou calada e o homem continuou:
No passado duelaram por herança.
Hoje o duelo continua.
Se afasta dessa família, mia fia.
Se afasta o quanto antes puder.
Essa dinherama toda que os três corre atrás num vai ficá pra ninguém.
Ocê não precisa se envolver nisso.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:43 am

Breve pausa e comentou:
Mas vejo que a menina é teimosa, num é?
Não estou entendendo.
O que o senhor quer dizer?
Que a menina devia torná a vê seus pais assim que pudé e retomá a vida de onde parou.
Vai precisa fazê isso agora ou um dia.
E enquanto não se envolve em coisa, coisa que ainda não se envolveu.
E milhó deixa a ambição de lado e viver em paz.
Ocê tem um irmão que já se foi.
Ele gosta muito de ocê.
Se não retomá a vida de onde parou, é esse irmão quem vai ajudar ocê a fazê isso.
Ele vai voltar só pra te juntá com seu passado.
E é com esse fio seu que tá aqui que o seu irmão vai achá um jeito de ajudá ocê.
Aquelas palavras não faziam sentido naquele momento, só que, um dia, Vitória se lembraria delas.
Um instante e o homem disse:
Agora chega. Já disse o que podia e o que não podia, também.
Vo benzê ocê, seu menino e a camisa de seu marido.
Após os benzimentos, Elídio concluiu:
Pronto. Só num esquece que seu marido precisa de um médico urgente.
Ao voltar para casa, Vitória comentou o ocorrido com Dalila, que aconselhou:
Se o seu Elídio disse pra procurar um médico, então faça isso depressa.
Esse homem não falha.
E quanto ao que ele me falou?
Não entendi nada.
Pra dizer a verdade, nem eu.
Pensou um pouco e perguntou:
Você deixou de resolver alguma coisa lá na sua cidade ou com seus pais?
Não - quase sussurrou.
Por um instante lembrou-se de Vinícius e seu rosto pareceu iluminado.
Quase sorriu.
Em seguida, afugentou o pensamento e afirmou:
Não tenho nada que me prenda ao passado.
Em todo caso, Vitória, fala pro seu Odilon ir ao médico, viu?
À noitinha, quando o esposo chegou, mesmo temerosa, Vitória decidiu contar a ele sobre o benzedeiro, falando a respeito das orientações para procurar um médico.
Ela omitiu o que o homem falou a respeito de João Alberto e sobre ela voltar a rever os pais.
Aquilo a incomodou muito.
Odilon, sério, concordou:
Realmente, não estou me sentindo muito bem nos últimos tempos.
Quando tomo os remédios que o farmacêutico me dá, melhoro, fico bom, mas depois de algum tempo...
A tontura volta, os suores, um mal-estar que me deixa prostrado, sem apetite...
Você está tão magro...
Estou com tanto trabalho.
Não posso me dar ao luxo de faltar por conta... talvez de uma gripe.
Não acho que você esteja com gripe, não.
Mas também não sei o que é.
Conversaram um pouco a respeito.
Embora Odilon concordasse estar com algum problema de saúde, não estava convencido sobre a necessidade de procurar um médico e adiou o quanto pôde.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Abr 24, 2017 8:43 am

Porém, não muito tempo depois, precisou ser internado e submetido a diversos exames.
Diante de resultados assustadores, o médico chamou Vitória informando que ela e o filho precisariam realizar exames a fim de descobrir se não estavam contaminados com o Bacilo de Koch.
Bacilo de Koch, doutor?
O que é isso?
É o nome também dado a Mycobacterium Tuberculosis, ou simplesmente tuberculose.
É o que seu marido tem, e na forma mais grave da doença.
Mas o Odilon não está tossindo e...
Poucas pessoas sabem que vários outros órgãos também são infectáveis pela tuberculose.
Ela é, sem dúvida, muito mais comum nos pulmões.
No entanto, órgãos como pele, fígado, cérebro, ossos, rins, linfonodos e outros, também podem ser infectados.
Nós temos um sistema imunológico, ou seja, o sistema que defende nosso organismo de vírus, fungos, bactérias e uma série de doenças e quando esse sistema imunológico está bom, está adequado, ele elimina do organismo o Bacilo de Koch, ou seja, o bacilo da tuberculose, ou permite que esse bacilo fique completamente adormecido por anos ou, muitas vezes, por toda uma vida, sem nunca se manifestar.
Essa bactéria ou bacilo, pode ficar alojada em qualquer parte do corpo como cérebro, rins, intestinos, pulmões à espera de uma queda do sistema imune.
Então, quando essas nossas defesas naturais ficam fracas, esse bacilo se multiplica.
Quando a tuberculose ataca outros órgãos, ela provoca perda de apetite, suores nocturnos, aumento de temperatura, fraqueza, igual quando ataca os pulmões.
A única diferença é que não há tosse ou sintomas respiratórios incómodos, e é por isso, muitas vezes, que a pessoa demora a procurar um médico.
Pelo que entendi meu marido não tem tuberculose nos pulmões. É isso?
É. Ele não tem tuberculose nos pulmões.
Como eu disse, infelizmente ele está com a forma mais grave.
A tuberculose atingiu o cérebro e evoluiu para uma meningite tuberculosa, com formações de tuberculomas cerebrais.
Deus do céu!
O que é isso?! - perguntou assustada.
É uma espécie de tumores no Sistema Nervoso Central.
Vou explicar, mas não sei se a senhora vai entender - disse o médico com pouca paciência.
O nosso pulmão é envolvido por uma membrana fina chamada pleura, o nosso coração é envolvido por uma membrana fina chamada pericárdio.
Não sei se a senhora sabe do que estou falando.
Sei. Já matei e limpei galinha, sei do que está falando.
Certo. Melhor assim.
Então, assim como outros órgãos são envolvidos por membranas, o nosso Sistema Nervoso Central - cérebro e medula - é envolvido por uma membrana chamada meninge.
A meninge serve como barreira de protecção contra agente infeccioso.
Então, meningite é o nome dado à inflamação das meninges.
A meningite é causada por agentes infecciosos como bactérias e vírus:
sífilis, fungos, herpes zoster vírus da catapora , herpes simplex, caxumba e outros, incluindo a bactéria da tuberculose.
E isso tem cura, doutor? - perguntou Vitória com olhos lacrimosos.
O caso dele é muito grave.
Seu marido andou se medicando por conta própria e isso causa uma multirresistência, hoje, ao tratamento.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:01 am

Isso origina no paciente infecções severas, levando todo o organismo a um estado de inflamação geral causado por agentes infecciosos; no caso, as bactérias.
Em outras palavras, se a infecção não for contida rapidamente, essas bactérias terão acesso à circulação sanguínea e se espalharão pelo corpo, levando seu marido a óbito.
Óbito?... - perguntou como se não entendesse.
Sim. Óbito. Ele não vai resistir.
Mesmo vendo-a em choque, o médico alertou:
A tuberculose é transmissível e por isso será preciso que a senhora e seu filho façam exames.
O alívio chegou quando se comprovou que Vitória e Antero Neto não desenvolviam a doença e estavam imunes à tuberculose.
No entanto, Odilon, como previsto pelo médico, não resistiu e faleceu.
Após o longo velório e o enterro, Vitória estava exausta.
Definitivamente, os pais de Odilon e a única irmã não a consideravam.
Eles vieram para o Rio de Janeiro e ficaram por um dia em sua casa.
Mal conversaram com ela.
Depois do enterro, decidiram que iriam para a casa da irmã do senhor Antero Magalhães, deixando-a sozinha com o filho.
Assim que Antero Neto adormeceu, Vitória sentiu-se vazia, quase abandonada.
Lamentou a morte de Odilon.
Sentiria sua falta, mas acabou admitindo para si que não o amava.
Preocupava-se pelo que ia ser de sua vida com o filho, do que iria viver, nada mais.
Ficava apavorada com a ideia de retornar para o sítio de seu pai e viver como antes.
Esperto como o sogro era, temia que o homem não deixasse qualquer herança para seu filho.
A raiva dominou-a por alguns instantes.
Tão nova, com somente dezoito anos e um filho com menos de um ano para criar e a vida lhe dando esse golpe.
Sentando-se no sofá, recostou-se.
Quando pensou no que fazer da vida, lágrimas quentes vieram a seus olhos e chorou.
Nesse instante ouviu o bater de palmas fortes no portão.
Levantou-se ligeira, nem pôde se dar ao luxo do descanso para as pernas doloridas.
Ao atender, reconheceu de longe a figura de dona Dulce, doutor Bonifácio e o sobrinho Isidoro.
Naquele instante, pensou em secar o rosto, mas não.
Decidiu que as lágrimas poderiam mostrar aos amigos o tamanho de seu sofrimento.
Por favor... Entrem. Eu...
Vitória, minha filha...
Somente agora o Isidoro nos contou que seus sogros foram para a casa de parentes e a deixaram sozinha.
Eles ficaram muito tristes aqui, pois tudo fazia lembrar o Odilon - mentiu.
Minha sogra, depois do enterro, não ia aguentar ficar aqui.
Abraços trocados, ela ouviu do doutor Bonifácio:
Minha visão não está muito boa para dirigir, por isso pedi ao Isidoro que nos trouxesse.
Foi bom eu vir - afirmou o rapaz.
Também estava preocupado com você e com o nené.
Por favor, sentem-se.
Vou preparar um café - disse a anfitriã ao chegarem à sala.
Não, Vitória. De jeito nenhum.
Não queremos lhe dar trabalho.
Você está cansada. Ficou no hospital dias!
Agora precisa é de alguém que cuide de você e do Anterinho.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:02 am

O que pretende fazer, minha filha? - interessou-se o doutor Bonifácio.
Rápida com as ideias, a jovem Vitória viu a chance de ser amparada e não precisar voltar para a sua terra onde, certamente, não seria bem tratada nem teria boa vida.
Não sei ainda.
Esta casa está grande demais e muito vazia.
Cada canto me faz lembrar do meu marido.
Meu sogro quer que eu volte com eles - Mentiu novamente.
Mas não sei.
Gostei tanto dessa cidade, de tudo o que posso dar ao meu filho, como escola, diversão...
Estou tão confusa...
Seus olhos lacrimejaram e virou o rosto como se quisesse esconder a tristeza.
Ooooh... filha... - sussurrou a senhora, sentando-se ao seu lado e abraçando-a com carinho.
O senhor, comovido com a cena, propôs ansioso:
Vitória, queremos que vá para a nossa casa.
Sabemos como é grande a dor de uma perda como essa.
Odilon também era como um filho para mim.
Ele há de gostar de vê-la, com o Anterinho, sob nosso tecto, com nossos cuidados.
Nem mesmo tive tempo de conversar direito com meu amigo, Antero Magalhães...
Ele estava muito abalado.
Porém, seu sogro precisa entender que nos dias de hoje é preciso pensar melhor no futuro do neto.
Como você lembrou, seu filho precisa de uma boa escola.
Não seria saudável para a educação do menino viver enfurnado em uma fazenda em meio ao gado e aos peões.
Isidoro ficou muito mais surpreso do que Vitória, após ouvir tudo aquilo.
O silêncio gerou expectativa enquanto nos olhos da jovem tremeluziam lágrimas de emoção.
Não a emoção de se ver querida por aqueles senhores tão generosos e amigos verdadeiros, mas sim a emoção de ter seus desejos realizados.
Tirando a cabeça do ombro da senhora, que ainda a envolvia com um abraço, Vitória amornou a voz e praticamente sussurrou:
Estou feliz com o convite.
Nem sei o que dizer...
Diga, sim! - empolgou-se dona Dulce.
Será uma alegria imensa, mesmo diante da tristeza de perdermos o Odilon.
Viverá em nossa casa como uma filha.
Se é assim... Eu vou - aceitou e sorriu meio sem jeito. .
Abraçando-a, a senhora se emocionou.
Naquela mesma noite, Vitória e o filho foram para a casa do senhor Bonifácio.
Com o passar dos dias, ela pegou poucas coisas que lhe interessavam na casa onde morou com o marido e o restante doou para a amiga Dalila.
A jovem Vitória soube aproveitar as oportunidades que surgiram.
Dulce fez questão de contratar uma babá para ajudar Vitória com o pequeno Antero Neto, principalmente quando ela decidiu voltar a estudar.
O senhor Antero Magalhães, ao saber que a nora e o neto estavam bem amparados pelos amigos, nada disse.
Sentiu-se até aliviado do encargo.
De certa forma, a culpava pelo destino triste do filho.
O que ele não sabia é que Odilon havia contraído a doença pela vida boémia e leviana que teve.
O tempo seguia seu curso enquanto Vitória, além de ser boa mãe, era muito dedicada e agradecida a Dulce, que a tratava como filha, e ela como sua mãe.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:02 am

O destino incumbiu-se de unir duas almas verdadeiramente amigas.
Certo dia, em conversa, a senhora perguntou:
Filha, não sente saudade de seus pais?
Nunca fala neles.
Às vezes sinto saudades, sim.
Queria saber como eles estão.
A verdade é que eu não queria voltar até aquele sítio.
O sítio é do seu pai?
É sim. Só que é muito precário.
Vivi na total pobreza mesmo.
Na mais terrível miséria, por muitos anos.
Passei muitas necessidades... - lágrimas brotaram em seus olhos e lentamente correram mornas em sua face pálida e fria.
Ela as aparou com as mãos e prosseguiu:
Minha mãe só sabia pôr filho no mundo.
Cuidar, amar, dar assistência... nunca.
Tomávamos banho uma vez por semana, quando tomávamos e... se é que podia chamar aquilo de banho.
Coloquei um calçado nos pés pela primeira vez quando tinha quatorze anos.
Era até estranho andar com aquela coisa.
Vivia doente, com verminose...
Passei muita fome e ainda precisava olhar meus irmãos mais novos.
Vim saber o que era higiene, limpeza, quando fui ajudar na casa do senhor Antero Magalhães.
As empregadas da casa me mandavam tomar banho com sabão e bucha.
Acabaram com meus piolhos... - chorou.
A dona Veridiana, minha sogra, me levou ao médico para me medicar contra as lombrigas.
Cuidaram tanto de mim que...
Foi tão estranho e tão gostoso... tão agradável me ver limpa, perfumada, com roupa cheirosa.
Eu trocava de roupa todos os dias.
Comia três vezes por dia!
Dormia em cama com lençóis limpos e dormia sozinha.
Por isso agradei meus patrões em tudo.
Procurei ser a melhor empregada da casa e odiava quando tinha de voltar para a casa dos meus pais.
No começo eu voltava todo dia.
Com o tempo, a própria dona Veridiana percebeu que as condições do sítio me incomodavam.
Às vezes, eu voltava com piolho de novo, não tomava banho e meus irmãos sujavam minhas roupas.
Daí que a filha dela, a Maria de Lourdes, teve nené.
Comecei a ajudar e depois fui morar na casa dela na cidade e fiquei mais tempo longe do sítio.
Porém, a distância nunca me fez esquecer as dores sem remédio, o frio sem cobertor, a fome sem comida e as tantas e tantas noites em clamor por sentir tudo isso junto.
Por isso, dona Dulce - falou olhando profundamente nos olhos da senhora -, por isso eu não quero voltar pra lá nem mesmo para ver meus pais e irmãos.
Tenho medo de que alguma força maior, algum motivo mais forte, me prenda ali para nunca mais sair.
Talvez, pensar assim como eu penso, seja algo bem errado.
Só que ninguém pode me condenar por não querer viver acomodada na miséria, vivendo como vivi.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:02 am

A senhora deve saber... deve ter percebido que meu casamento com o Odilon também não foi muito bom e...
Parece que só encontro dificuldades.
E eu quero mudar isso.
Quero ser uma pessoa melhor, quero ter uma vida melhor.
A mulher ficou pensativa, comovida, mas não disse nada.
Sentiu grande carinho por Vitória e era capaz de entender seu modo de pensar.
Levantando-se, Dulce foi até a biblioteca da casa e, sem demora, retornou com um livro entre as mãos.
Acomodando-se ao lado de Vitória, abriu o volume e disse em voz mansa:
Esse livro é O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Foi por causa dele, e por causa de tudo o que aprendi nele, que eu não enlouqueci cada vez que um filho meu ia embora.
No capítulo V - Bem-aventurados os Aflitos - item 4 e 5 - fala sobre as Causas actuais das aflições.
Depois, nos itens de 6 a 10, fala sobre o Esquecimento do passado.
Abrindo o livro no item 4 do capítulo V, apontando, pediu:
Leia daqui até o item 11.
"Causas Actuais das Aflições" - leu Vitória em voz alta e seguiu:
"As dificuldades da vida são de duas espécies, ou se quisermos, têm duas origens bem diversas, que é importante separar:
umas têm suas causas na vida presente; outras fora desta vida".
Pensou um pouco e perguntou:
Como assim: as dificuldades têm origem fora desta vida?
Deus seria muito injusto se nos deixasse viver somente uma vida.
Ele seria benevolente com alguns e cruéis com outros.
Temos várias oportunidades de vida, minha filha.
Somente isso explica as causas de tanto sofrimento, de tanta dor para alguns.
Como lerá neste livro, só a imprevidência, o orgulho, a ambição e outros desvios de conduta de uma pessoa podem levá-la ao sofrimento.
Muita gente sofre hoje também por falta de organizar a própria vida, por não ser perseverante, por preguiça, por mau comportamento, por leviandade, por não controlar os próprios desejos, não conter as compulsões.
Muitos casamentos ou uniões causam dor e sofrimento com o tempo por serem resultado de interesses, vaidade e nenhum sentimento de amor verdadeiro.
As pessoas que não tem moderação, não se controlam e cometem excessos.
No futuro, desta ou de outra vida, podem ser vítimas de si mesmas por conta das doenças ou mutilações, se não se harmonizarem.
Existem pais, vítimas da ingratidão e da falta de respeito, que estão colhendo o fruto da vaidade, do orgulho, do egoísmo que deixaram crescer em seus filhos quando não lhes deram limites, não lhes deram princípios nem educação.
Quantos pais estão infelizes por seus filhos mutilados, viciados, presos e, muitas vezes, são eles os principais culpados por não ensinarem e exigir educação e respeito dessas criaturas quando ainda era tempo.
Breve pausa em que parou para reflectir e continuou:
Esses itens que pedi para você ler com calma e muita atenção fazem qualquer um pensar e se questionar quanto aos males que lhes acontece.
Esses são, sem dúvida, consequências de tudo o que a pessoa fez de errado nesta ou em outra vida.
Aprendemos, com isso, que o sofrimento é por nossa própria culpa.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:03 am

Mas... Não foi o meu caso.
Não fiz nada de errado, nunca, para nascer naquela miséria.
Não fez nesta vida.
Mas não sabe da sua existência anterior a esta encarnação.
Uma experiência ruim, como nascer na miséria, pode ser uma prova pedida por você mesma antes de nascer, para testar a sua perseverança, a sua força.
É tão somente um desafio para medir a sua capacidade, como espírito em evolução, de vencer as dificuldades.
Observe que tem gente que nasce na pobreza e morre mais miserável ainda.
Outros nascem bem e morrem pobres indigentes.
No entanto, há os que nascem na miséria, vencem as dificuldades e terminam com boa ou óptima qualidade de vida para si e seus familiares.
Tem criança que morre cedo e só conheceu o sofrimento, a miséria e a dor.
Por que isso acontece? - interrompeu.
Eu sempre me questionei a respeito.
Minha mãe teve filhos que morreram com pouca idade, passando necessidades...
Eles só nasceram para sofrer.
A vida deles, a existência deles pareceu inútil.
Não. Uma existência nunca é inútil, por mais breve que seja.
O que esses meus irmãos que morreram podem ter feito para viver tão pouco?
Tirado a oportunidade de vida de alguém com tão pouca idade, através da imposição da miséria, da pobreza, por exemplo.
Como assim?
Quando homens de um governo usam métodos ilícitos, ilegais, por conta dos cargos públicos que ocupam, consequentemente alguém em algum lugar é extremamente prejudicado.
Os desvios de verbas públicas, por exemplo, provocam fome, danos na saúde, na educação...
Eles não desviam somente as verbas, o dinheiro.
Esses homens públicos, e também os que estão ligados a eles, favorecendo-os de alguma forma, prejudicam a qualidade de vida decente, e por causa disso muitos morrem por falta de comida, água tratada, saneamento básico, remédios, moradia adequada e tantas outras coisas.
Os esgotos que vemos correr a céu aberto, a falta de alimento, a seca no nordeste, a falta de profissionais formados e bem pagos na área da saúde e educação, e muitos mais, é por causa do desvio de dinheiro público para esses homens do governo e os que a eles se juntam para roubar os pagadores de impostos.
A má ou péssima condição de vida da sua família foi sim por falta de planeamento de seus pais, mas eles não planearam porque não aprenderam.
Se não aprenderam, foi por culpa do governo que não os orientou, não estava presente através de algum meio, não ofereceu alimento nem escola para que se instruíssem.
Então, apesar da vida de marajás que levam, apesar das boas condições que têm hoje, sofrerão a cobrança das Leis de Deus por tudo o que fizeram de errado.
Essa cobrança será directamente na consciência e eles, certamente, vão se atrair para uma próxima encarnação em condições tão miseráveis quanto aquelas que causaram.
É um pouco difícil acreditar que tive outra vida antes desta.
Não me lembro de nada.
É a falta de lembrança que muitos alegam para não crerem em uma vida passada.
Porém, não podemos negar que não recordamos de acontecimentos da nossa infância, ou mesmo de dias, meses atrás.
E olha que estou falando desta vida.
O esquecimento de uma vida passada é uma bênção.
Eu gostaria de lembrar de uma vida passada.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:03 am

Será, Vitória?
Tem coisa desta vida que provavelmente não queremos falar ou lembrar.
Se pudéssemos, provocaríamos uma amnésia em nós mesmos.
Nascemos no meio em que precisamos, entre as pessoas certas para a nossa evolução.
E por que renascemos no meio em que precisamos e com o esquecimento do passado?
Para corrigirmos as faltas naturalmente e não para que façamos o que é certo por medo.
Temos um Deus de amor e não que impõe terror.
Mesmo esquecendo do passado temos instintos e tendências para acertar, para corrigir o que quer que tenhamos feito de errado.
Apesar disso, muitos de nós continuamos a fazer coisas erradas - tornou a mais nova.
Isso pode acontecer.
Porém, aquele que erra terá de corrigir cada um dos erros, cada uma das falhas que cometeu.
Se não o fizer, não será feliz com a própria consciência, não terá paz em seu íntimo.
Lembre-se que Jesus falou:
"Até que o céu e a Terra passem, nenhum jota ou til se omitirá da Lei, sem que tudo seja cumprido".
Sabe, filha, todos nós sentimos falta de algo.
Esse algo é a felicidade verdadeira, é a paz verdadeira.
Inconscientemente, buscamos por isso, apesar de cometermos erros.
Somente quando buscamos harmonizar situações, somente quando paramos de errar, de mentir, de prejudicar, trair, incomodar, manipular, é que nos sentiremos mais aliviados, mais próximos de Deus.
Parar de errar já é um grande passo de evolução, pois isso não é fácil.
É em uma parte adormecida da nossa consciência que fica registrado tudo o que fizemos em nossas encarnações.
E é lá, nessa partezinha tão importante do nosso ser, que fica também o nosso desejo imenso, ininterrupto de alcançar a paz, a felicidade verdadeira.
Portanto, evolução é lei.
Por essa razão, quando não harmonizamos nossos feitos, não corrigimos nossas falhas, não amamos nosso irmão, sentimos um vazio, uma saudade, uma falta de um não sei o quê, que nada em nossa vida vai preencher.
Daí, temos que lembrar que a prática do bem deve ser aprendida e treinada para que incorporemos isso em nós.
Amar fraternalmente é questão de aprender e se habituar.
Amor é questão de treino, depois vira hábito.
Vendo-a pensativa, completou:
Leia atentamente os itens que lhe indiquei neste capítulo.
Eles serão muito importantes para o resto de sua vida.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:03 am

CAPÍTULO 8 - REVENDO A FAMÍLIA

Com o passar do tempo, turbilhões de ilusões rasgavam novamente as ideias de Vitória, que havia se esquecido até da proveitosa conversa com Dulce e das grandiosas reflexões que chegou a ter com a leitura de O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Foi por cálculo de interesses e vaidade que se aproximou de Odilon e fez de tudo para se casar com ele.
A união sem afeição, sem amor ou carinho, gerou apenas hostilidade e ofensas verbais que não ultrapassavam o limite das ameaças que ela fazia ao marido, quando dizia que iria contar tudo ao doutor Bonifácio.
No entanto, sentia-se amargurada por ter um marido distante, que vivia farreando, bebendo e traindo-a com outras mulheres.
Contudo, Vitória parecia ter se esquecido disso quando começou a notar o interesse de Isidoro na herança que Odilon havia deixado para ela e o pequeno Antero.
Vitória, mostrando-se preocupada e quase triste, comentava com Isidoro que, ainda em vida, seu sogro havia feito a partilha de bens para seus dois filhos: Odilon e Maria de Lourdes.
E que ela não tinha a menor aptidão para lidar com negociação de gado, terras, e não sabia o que fazer.
Aliás, nem sabia direito o que seu filho teria a receber.
Temia, inclusive, que a irmã de seu marido, juntamente com o pai, subtraíssem, de alguma forma, os bens que seriam de direito dela e de Antero Neto.
Sabendo ser o herdeiro da indústria têxtil de seu tio, o doutor Bonifácio, Isidoro, ambicioso, passou a se interessar pela oportunidade de ser o tutor de Antero Neto e administrar os bens que ela possuía.
Isso ocorreria caso ele se casasse com a viúva de Odilon e se tornasse padrasto do menino.
Poderiam jurar amor e consideração até para eles próprios; porém, foi pensando nos ganhos pessoais que Vitória e Isidoro se uniram, disfarçando os mais íntimos interesses.
Uma festa na residência do doutor Bonifácio marcou o casamento realizado em cerimónia simples, onde só a pequena família do noivo e poucos amigos compareceram.
Com o passar dos dias, Isidoro e Vitória decidiram se mudar para uma casa tão bela quanto a de seu tio, que também não ficava longe dali.
Não demorou e, com o consentimento da esposa, Isidoro cuidou de assumir o controlo de todos os bens do primeiro casamento de Vitória.
Em menos de seis meses de casada, Vitória ficou grávida do primeiro filho de Isidoro.
Para agradar seu tio, como homenagem ao primo, Isidoro deu ao filho o nome de João Alberto, espírito rebelde, ganancioso, que não se conformava com as perdas materiais sofridas no passado e voltava para ter novamente tudo o que acreditava ser seu:
a herança pela qual matou e morreu, por seguidas reencarnações.
Um espírito endurecido, que se nega à compreensão, ao entendimento e amor, dificilmente muda de opinião tão rápido.
Infelizmente, João Alberto precisaria sofrer as consequências de seus actos para entender a necessidade do perdão.
Apesar de ter tido uma mãe como Dulce, que lhe ensinou princípios morais e espirituais por intermédio da filosofia da Doutrina Espírita, João Alberto não quis se curvar e aprender.
E foi ali, como desejava, na cidade maravilhosa, que Vitória teve quase tudo o que queria.
Uma casa grande e imponente, rodeada por belo jardim que se iluminava ao anoitecer, roubando o brilho do luar.
Empregados que a serviam e ajudavam a cuidar dos filhos.
Um marido que, às vistas dos outros, era perfeito, pois dava-lhe tudo:
conforto, dinheiro, passeios, presentes...
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:03 am

Mas não dava a protecção de seu aconchego, a protecção através de seus carinhos num abraço quente e apertado, onde ela se sentiria segura pela demonstração de amor, afecto e ligação ao companheiro fiel e sempre presente.
Isso, Vitória não tinha.
Por essa razão, vez ou outra, um ódio enorme a invadia, com tamanha fúria, que ela chegava ao ponto de gritar, brigar, ofender e até agredir Isidoro quando ele voltava das longas farras cheirando a perfume barato, sujo de batom e alterado pelo efeito do álcool.
Um sentimento ruim dominava Vitória.
Era uma energia pesada, incómoda, que a foi deprimindo até que chegasse a um estado melancólico de extrema tristeza.
Uma dor na alma que a prostrava.
Ela ignorava, mas tratava-se das vibrações pesadas de mulheres de péssima moral, espíritos de extrema inferioridade, com as quais o marido se envolvia.
Vibrações essas totalmente incompatíveis com ela.
Tudo era tão inferior e denso que começava a afectar sua saúde física, além da emocional.
Não lhe falta nada, Vitória!
Do que reclama?! O que mais quer?!
Você não me respeita!
Se envolve com toda vagabunda que encontra!
Imagino que seus amigos me apontem como a mulher traída!
A idiota que fica em casa cuidando dos seus seis filhos!
Êpa! Seis não! Cinco!
Nós dois tivemos cinco filhos!
O sexto é só seu - riu irónico.
É meu, sim!
Mas não se esqueça que toda a herança deixada pelo Odilon, você transformou em bens para você!
Foi com a venda da fazenda, do gado e tudo mais que fez crescer seu património!
Você roubou tudo o que o Odilon deixou para mim e até para o Antero!
Não podia ter feito isso! Foi ilegal!
Com um sorriso cínico e um jeito irónico ao menear a cabeça, ele falou em tom de zombaria:
Você é minha mulher e não sabia o que fazer com o que ele deixou.
Quanto ao seu filho...
Bem, mande ele me processar quando crescer.
E vê se cala a sua boca porque quero dormir.
A noitada foi óptima e preciso descansar.
São apenas... - consultou o relógio e disse:
...sete horas da manhã de sábado.
Quero descansar porque hoje à noite tem mais.
Dizendo isso, arremessou o paletó sobre uma cadeira, tirou os sapatos com o próprio pé, jogando-os a esmo e atirou-se sobre a cama com a mesma roupa que havia chegado.
Vitória não sabia o que fazer.
Sentia-se presa às infâmias, aos actos torpes e baixos do marido.
Com apenas vinte e cinco anos, era mãe de seis lindas crianças:
Antero Neto com oito anos, filho do primeiro casamento e os demais:
João Alberto, com seis; Angélica, com cinco; Ingrid, com três; Márcio, com dois; e o pequeno Nilton com somente um aninho.
Às vezes pensava em se desquitar de Isidoro, era esse o regime de separação da época.
No entanto, além de parecer algo vergonhoso, temia que o marido a deixasse sem bens e com seis filhos.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:04 am

Ele era esperto e bem capaz disso.
Já bastava a venda ilícita da parte herdada pelo pequeno Antero Neto, a quem Isidoro não tratava como filho.
Quantas vezes pensava em desabafar com Dulce, que passou a chamar de tia, após o casamento.
Mas não se sentia tão à vontade para falar de assuntos tão íntimos.
Nos últimos tempos, não passava um dia sequer sem se lembrar da conversa que teve com a senhora, quando ela lhe deu para ler sobre as Causas Actuais das Aflições, em O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Chegou a pegar o Evangelho que ganhou da nobre senhora, leu e releu várias vezes, principalmente o texto:
"Que todos os que têm o coração ferido pelas dificuldades e decepções da vida, interroguem friamente a própria consciência.
Que remontem passo a passo à fonte dos males que os afligem, e verão se, na maioria das vezes, não podem dizer:
'Se eu tivesse ou não tivesse feito tal coisa, não estaria nesta situação'".
Amargurada, deprimida e infeliz, percebia a cada dia que não encontrava felicidade na abundância material, nos empregados que a serviam, no marido de muita influência na sociedade carioca, na grande mansão em que morava.
Era certo que amava os filhos e era somente neles que encontrava uma ponta de alegria para viver.
Começava a entender que toda criatura se pune por aquilo que fez de errado.
Começou a admitir que sua união com Odilon, assim como seu casamento com Isidoro, foram infelizes e desastrosos porque buscou a ganância, a vaidade, o interesse antes do amor, da harmonia e do benquerer.
Sabia que tanto Odilon quanto Isidoro eram boémios.
Viviam em farras regadas a mulheres e bebidas.
Acreditou que fossem mudar após o casamento, mas não.
Descobriu que ninguém muda por causa de outra pessoa, por causa de compromisso ou por causa de um filho.
A pessoa só muda, só se desprende dos costumes e vícios de baixo valor moral quando entende e aprende o que é certo ou errado, e, junto a isso, tem o verdadeiro e intenso desejo de mudar, de evoluir.
Quantos suspiros saturados de contrariedade Vitória deu pensando em como seria sua vida se não tivesse forçado um casamento com Odilon, se não tivesse aguçado os interesses mesquinhos e gananciosos de Isidoro ao falar sobre a herança de seu filho mais velho, propositadamente, para atraí-lo.
Agora se sentia ultrajada, humilhada, pois, apesar de tudo o que tinha, faltava-lhe um amigo, um companheiro fiel na versão de marido.
Em dado momento de sua vida, quase exaurida de forças, pensou que não era diferente das prostitutas que saíam com seu marido, querendo dinheiro em troca de sexo.
Pois, apesar de estar em casa, cuidando dos filhos e do lar, ela ainda o servia sexualmente, temendo que ele fosse embora e a deixasse sem dinheiro e sem as boas condições de vida.
Não queria perder as mordomias e era por isso que se sujeitava a tudo e a tanto.
Isso, em seus pensamentos, seria o mesmo que se prostituir, pois não o amava.
O que teria sido de sua vida se não tivesse feito o que fez para ficar com Odilon?
O que teria sido de sua vida se, após a viuvez, tivesse voltado para o interior de Minas Gerais e cuidado de seu filho?
Quem sabe, se tivesse se afeiçoado a seus sogros e à cunhada, aprendido a amá-los e a respeitá-los como deveria, aprendido a administrar os bens de Antero Neto com a ajuda do avô...
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:04 am

Quem sabe... tudo seria mais tranquilo, mais harmonioso e não seria tratada como uma desprezível criatura que fica em casa à espera de um homem que a sustente, sujeitando-se a tudo de vil que ele tinha para lhe oferecer.
Esses pensamentos não saíam de sua cabeça, até que um dia lembrou-se do senhor Elídio, médium que a atendeu e a alertou sobre se afastar da família do doutor Bonifácio.
Somente agora começou a entender o que aquele homem havia falado.
Afastar-se de Dulce e do marido, não era o objectivo.
Ela deveria ter saído com seu filho e se afastado de Isidoro, voltado para sua cidade a fim de levar uma vida mais calma.
Sim, era isso o que o senhor Elídio, com tanta simplicidade, havia sugerido que fizesse.
Recordando-se de Dalila, a amiga que há anos não via, sorriu.
Quanta saudade.
Seria capaz, após tanto tempo, de encontrar a casa de Dalila?
Após dar ordens aos empregados, Vitória se arrumou, pegou o carro e saiu.
Rodou pelas ruas do bairro onde morou e não foi difícil encontrar a casa em que residiu, que estava praticamente do mesmo jeito.
Ao lado, a casa de Dalila, reformada e ainda faltando a pintura final.
Estacionou, desceu e tocou a campainha ao chegar ao portão.
Não demorou e um rapazinho veio atender.
Vitória sorriu ao reconhecer o filho da amiga.
Você é o Valdeci, não é?
Sim, senhora - afirmou educado.
Sou Vitória. Morei aqui do lado - apontou, quando você era um menino.
Nossa! Como cresceu!
O rapazinho sorriu tímido e ela perguntou empolgada:
E sua mãe? A Dalila está?
Nesse momento escutou a voz da amiga que gritou:
Não estou acreditando!!! Você sumiu, muié!
Abraçaram-se com força durante minutos e não seguraram as lágrimas de emoção.
Pareço boba, não pareço? - perguntou Dalila, secando o rosto, agora mais enrugado pelos anos corridos.
Se você é boba, eu também sou.
Chorei junto - riu a outra.
Venha! Entre!
Sentadas à mesa simples, enquanto tomavam café, conversaram muito e Vitória contou tudo o que lhe havia acontecido.
Então esse carrão é seu?
E você até dirige?
É... É meu - disse sem empolgação.
Muita coisa mudou. Só que...
Não sou feliz, Dalila.
Apesar do dinheiro, não tive sorte no casamento.
Lembra-se do senhor Elídio, aquele homem que benze e que você me levou lá?
Lógico que lembro.
Eu queria ir até lá onde ele mora.
Ele me falou coisas que só fizeram sentido agora nos últimos tempos.
Que pena... O seu Elídio morreu.
Morreu?! - decepcionou-se e silenciou pensativa.
Ele era muito bom.
Orientava a gente direitinho, né?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:04 am

Como eu fui boba.
Não entendi o que ele me disse.
Deveria ter voltado para minha terra quando fiquei viúva.
Tendo um pai que tem fazenda e tudo mais, eu teria voltado.
Nesse momento, Vitória se lembrou das mentiras que contou a amiga.
Constrangeu-se, mas não podia voltar atrás, ficaria envergonhada se revelasse a verdade.
É. Eu deveria ter voltado para a minha cidade.
Estou tão infeliz, Dalila, que cheguei a pensar em desquite.
Nossa! - admirou-se a outra.
Sabendo tratar-se de uma decisão muito difícil e delicada, aconselhou:
E se você tirasse umas férias? É isso, Vitória!
Aproveite as férias escolares e vá visitar seus pais, seus irmãos.
Faça uma viagem. Só você e seus filhos.
Deixe seu marido sentir um pouquinho de saudade.
Será que isso adianta?
Breve pausa e contou:
Estou arrasada. Ele me trai...
Sai com prostitutas... - chorou.
Isso é humilhante. Me sinto suja, usada...
Não tem coisa pior para uma mulher do que ser traída.
Oh, Vitória... - apiedou-se imaginando a dificuldade da amiga e o quanto se sentia ultrajada.
Isso é bem complicado. Já que ele é assim...
Melhor tomar cuidado com a sua saúde para não pegar alguma doença.
Não é?
A outra não respondeu e Dalila ainda disse:
Já ouvi dizer que a traição traz muita energia ruim para a saúde da esposa ou do marido traído.
Provocam estados alterados da emoção.
Melancolia, a tal depressão e outras coisas, além da chance de doenças no corpo.
Você não pode se arriscar. Tem que reagir.
Mesmo ficando com ele, não pode se sujeitar a isso.
É mesmo. Também acho.
Mas não é fácil a gente se negar ao marido - chorou.
Se ele tem outras, não precisa de você.
Tenha orgulho próprio, muié!
Não se sujeite a esse tipo de humilhação, não!
Pense na sua saúde física e mental.
Está assim tão triste, tão melancólica, deprimida por causa do que esse homem traz pra você.
Junto com ele, deve ter um monte de espíritos vagabundos, do nível das prostitutas que ele sai e isso, esses espíritos e energias negativas, é o que ele leva pra cama de vocês quando estão juntos.
Isso é o que lhe faz tão mal.
Com toda sua simplicidade, Dalila falava o que era certo.
Vitória ficou pensativa e comentou:
Preciso mesmo tomar uma atitude.
Ter uma postura firme com o Isidoro.
Faça uma viagem e esfrie a cabeça.
Pense no que é bom para você e seus filhos.
Ficaram juntas conversando um pouco mais.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:04 am

Porém, além da ideia de viajar e visitar seus pais, falaram muito sobre o que seria melhor fazer no que dizia respeito à traição.
Com o tempo, nada melhorava.
Vitória tomou uma postura firme quanto a sua vida sexual com Isidoro.
Apesar de dividirem o mesmo quarto e o mesmo leito, decidiu que, enquanto desconfiasse que ele tinha uma vida dupla, saía com outras mulheres, não mais se relacionaria sexualmente com ele.
E ainda o ameaçou, dizendo que, se ele forçasse qualquer situação, contaria tudo para o doutor Bonifácio, o tio que ele tanto temia e respeitava.
Contrariado, Isidoro, embora educado e cortês com outras pessoas, em casa era rústico e grosseiro com ela, mesmo perto dos empregados.
Parecia que a cada dia o clima era pior.
Os anos de convivência aumentavam a liberdade com as ofensas e humilhações verbais.
Vitória corroía-se de ódio, principalmente quando o esposo feria seus sentimentos com palavras e frases de desconsideração, dizendo que ela era desprovida de inteligência, sem beleza, ignorante, entre outros ultrajes e afrontas que lhe machucavam a alma.
Por sua vez, a esposa, cansada de tantos maus-tratos, chegava a desejar a morte do marido.
Queria vê-lo doente, acamado, sofrendo intensamente.
Quantas vezes Vitória desejou pôr um fim em tudo aquilo.
Matar o marido e em seguida se matar.
Ou então, matar-se somente, como sendo esse um último apelo para que Isidoro se arrependesse de tudo o que fizera.
Quem deseja morrer, na verdade, não quer tal tragédia, e sim o contrário.
Quem quer morrer, deseja vida, uma vida diferente e melhor, mas, sim, vida e não morte.
Ela pensava muito nas conversas que teve com Dulce.
Sabia que a senhora havia percebido seu sofrimento, apesar de nada lhe contar.
Mas não falava no assunto e procurava, através de uma conversa salutar, orientar Vitória com bons pensamentos.
Uma vez Dulce falou:
"Aquele que pensa em se matar para acabar com os problemas, está muito enganado, pois a morte não existe e esse acto só vai aumentar seus comprometimentos e dores".
Isso levou Vitória à profunda reflexão.
Pensava muito nos filhos que sofreriam demais por sua ausência.
Foi no aniversário de trinta e um anos que Vitória recebeu o seu pior presente de todos os tempos.
Dulce faleceu de causa natural.
Aos oitenta e quatro anos, a senhora descansava em uma poltrona após a refeição do meio do dia, adormeceu e não mais despertou.
Foi um grande golpe.
Porém, os filhos adolescentes e pré-adolescentes, davam-lhe muito trabalho e por isso sua atenção era ocupada com as obrigações de mãe, o que a distraía para que não sentisse tanto a dor da perda.
João Alberto, sempre nervoso, irritava-se com facilidade e era comum vê-lo maltratar os irmãos, chegando à agressão física.
Antero sabia se defender bem, mas os menores não, e acabavam machucados.
Isidoro demonstrava nitidamente sua preferência por João Alberto, dizendo que homem tinha de ser como ele, não levar desaforo para casa.
O pai não lhe dava limites e o incentivava a ter um comportamento rebelde em qualquer situação.
João Alberto era intolerante, respondão e malcriado até com a própria mãe, apesar de Vitória castigá-lo sempre que merecia.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:05 am

Não sei mais o que faço com o João Alberto, Isidoro.
Estou cansada de receber reclamações da professora.
Ele ficou de castigo outra vez na escola.
Esse menino não respeita nem a mim!
É porque ele não vai ser marica nem submisso de ninguém.
Ele é meu filho!
E quanto a você, como é que uma ignorante quer ter autoridade sobre ele? - riu debochado e atacou:
O menino está com vergonha da mãe que tem.
Feia, ignorante, gorda...
O marido havia bebido e ela viu que não tinha condições de conversar.
A raiva envenenava-lhe a alma e o coração.
Vitória não era feia, não era ignorante como o marido acusava, tão menos gorda.
Estava com leve sobrepeso e suas formas, logicamente, mais femininas e arredondadas.
João Alberto, por sua vez, via-se fortalecido pelas opiniões erróneas do pai e, quanto mais velho ficava, menos respeito tinha pelas pessoas.
Certa vez, indignada com o filho e sem saber o que mais fazer para corrigi-lo, Vitória deu-lhe uma surra, coisa que nunca havia feito com nenhum dos filhos, e jurou nunca mais fazê-lo novamente.
Os tapas haviam doído mais nela do que nele.
Não só em sua mão, que ficou vermelha e doendo, mas sim em sua alma.
Quando Isidoro ficou sabendo, trancou a esposa no quarto e a agrediu.
Embora ela também revidasse, sua força não foi suficiente e acabou bem machucada.
Vingativa, esperou que o marido dormisse, apanhou uma frigideira e, com ambas as mãos, levantou o utensílio batendo-o com toda força que tinha no rosto do esposo por várias vezes.
Muito machucado e sangrando, ele precisou de socorro médico, onde alegou ter sido assaltado, pois a mulher havia-lhe dito, em tom ameaçador antes de levá-lo ao hospital que "se quiser me fazer algum mal, você vai precisar fugir depois.
Não se esqueça de que moramos na mesma casa e que você dorme bem enquanto eu tenho o sono muito leve.
Nunca mais levante a mão para mim".
Depois disso, Isidoro passou a dormir em outro aposento.
Eles mal conversavam.
Nessa época, Vitória passou a pensar muito em sua família no interior de Minas Gerais.
Como estariam seus pais e irmãos?
A última vez que os viu foi quando ela e o marido deixaram Antero Neto e João Alberto, bem pequenos, aos cuidados de Dulce e foram até lá assinar documentos para a venda da fazenda que Odilon havia deixado.
Foi muito rápido.
Viu os pais em uma praça da cidade, onde se encontraram por acaso.
Mal os cumprimentou.
Chegou a ver lágrimas brotando nos olhos de sua mãe.
Envergonhada, apresentou seu marido e logo se foram.
Começou a lembrar de Dalila, na sugestão oferecida pela amiga.
Embora mal conversasse com o marido, foi em um jantar que avisou:
Vou visitar minha família.
Quero que meus pais e meus irmãos conheçam meus filhos.
Eu não vou. Não quero ir - afirmou João Alberto convicto.
Você vai. Está decidido - impôs a mãe.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:05 am

Porém o mais improvável aconteceu:
Por que não? - disse Isidoro.
Vamos todos!
Como é?! - perguntou a mulher muito surpresa.
Todos irão visitar seus pais.
As crianças não os conhecem e eu mal os vi uma vez.
Nem me lembro dos meus sogros direito.
Decidido, Isidoro planeou a viagem em um período de férias e assim foi feito.
O sítio de José e Rosa continuava praticamente o mesmo.
A casa onde moravam tinha melhorado, pois os filhos crescidos empregaram-se em fazendas e sítios vizinhos e com o dinheiro ajeitaram a moradia.
A casa estava maior, havia luz eléctrica, embora de pouca qualidade, mas mesmo assim ainda era pequena e sem condições de dar hospedagem para Vitória e sua família.
Ela se surpreendeu, seus irmãos haviam crescido e estavam muito mudados.
Era capaz de não reconhecê-los se os encontrasse na rua.
Elizeu, aos vinte e seis anos, estava casado e era pai de um menino.
Isaías, calado, mal a encarava, praticamente não conversava.
Marta, aos vinte e dois, era bem alegre, bonita, seus olhos verdes faiscavam espertos.
Francisca, de vinte anos, mais contida do que a irmã, já era noiva e planeava se casar com o peão domador de cavalos que trabalhava na fazenda vizinha.
Emílio e António, muito envergonhados, mal apareciam para conversar.
Jacira, de dezasseis anos, um ano mais velha do que o sobrinho Antero Neto, era sorridente e curiosa.
Foi ela quem mais se deu bem com os filhos de Vitória, levando-os para passear pelo sítio e até o rio, onde todos, com excepção de João Alberto, adoraram nadar e brincar por bastante tempo.
Ficaram o dia todo na casa de José e Rosa, que praticamente não conversavam, não tinham assunto e isso era muito difícil.
Ela observou que os pais estavam acabados, desgastados pela vida difícil, mas não disse nada.
Vitória sentiu o coração apertado.
Não sabia o que buscava ali, não sabia o que fazer.
Ela não parecia pertencer mais àquela família.
Vestia-se diferente, pensava diferente, falava diferente.
Até o sotaque havia perdido.
No fim da tarde, antes de voltarem para a cidade, ela chamou a mãe em um canto da casa e lhe deu um grande maço de dinheiro, o que para Rosa era uma verdadeira fortuna.
Precisou insistir para que a senhora aceitasse e sentiu-se aliviada quando a mãe pegou o montante.
Vitória sentiu algo como um alívio pela sensação de culpa que carregava por praticamente abandoná-los e não se importar com eles todos aqueles anos.
Passaram a noite no pequeno hotel da cidade e planejavam viajar de volta no ônibus que sairia após o almoço.
Na manhã seguinte, Vitória foi surpreendida na recepção pela chegada de sua irmã Marta, que estava ali à sua procura.
Após ouvir suas queixas e seus desejos de prosperar, precisou reflectir em seu pedido:
Por favor, Vitória, me leve para o Rio de Janeiro com você.
Quero estudar, trabalhar, melhorar de vida.
Aqui, você sabe, não tenho nenhuma chance.


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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Abr 25, 2017 11:05 am

Isidoro olhou a cunhada, sorriu e sem esperar qualquer parecer da esposa, aceitou:
Claro! Por que não?
Marta pode ficar em nossa casa e até ajudá-la com as crianças.
Ela não esperava essa generosidade do marido, até porque, desde que chegaram ali, dele só ouviu reclamações.
Vitória sorriu e deu um suspiro carregado de alegria.
Abraçou a irmã e perguntou:
O pai e a mãe sabem que você veio pedir isso pra mim?
Sabem. Eu falei.
O Elizeu até me trouxe com o jipe lá de onde ele trabalha pra eu chegar depressa.
Se é assim... - falou a irmã - ...pode vir comigo.
Vou providenciar a passagem de Marta para que volte com a gente - decidiu Isidoro sem se incomodar.
Assim foi feito.
Na longa e cansativa viagem, Marta ficou ao lado da irmã.
Conversaram o tempo todo e Vitória acreditou ver em Marta uma nova amiga e companheira para seus dias tão angustiantes.
Quem sabe a presença de Marta em sua casa trouxesse mais alegria em sua vida.


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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

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