Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:52 am

CAPÍTULO 9 - NUNCA DESISTA DE UM SONHO

Marta ficou encantada com a beleza do Rio de Janeiro.
A irmã a levou para um passeio.
Havia caído uma chuva forte pela manhã só que, naquela hora, o tempo se abriu parcialmente e um raio de sol, bem do alto do céu que fendeu, passou pelas nuvens e lançou-se ao mar, que quebrava suas ondas de espumas brancas nas areias da praia.
A moça, que nunca tinha visto tamanho espectáculo da natureza, pareceu enfeitiçada.
Ficou ainda mais surpresa quando viu homens e mulheres, que para ela estavam quase nus, andando pelo calçadão.
Isso é normal aqui - disse Vitória sorrindo.
É roupa para banho de mar.
Quer dizer que se eu for para a água preciso usar algo assim?
Se não quiser parecer caipira, sim.
Vai precisar de um maiô.
Riram e, à medida que as novidades apareciam, a irmã explicava.
Com o tempo, Marta começou a estudar e a se familiarizar com tudo, principalmente com a vida da irmã, que se tornou sua confidente.
Isso começou assim que Vitória precisou explicar porque ela e o marido dormiam em quartos separados.
Vitória, aos trinta e sete anos, tinha os dois filhos mais velhos na faculdade quando a filha Angélica, aos dezassete anos, decidiu que não queria mais estudar.
Mesmo com toda a insistência da mãe, a garota se recusava.
Nessa época, Marta foi trabalhar com o cunhado na empresa do doutor Bonifácio, como recepcionista.
Angélica havia conhecido um rapaz, filho de um amigo de seu pai, com quem passou a namorar após o consentimento e satisfação de Isidoro.
Vitória não gostava do moço.
Não sabia explicar a razão.
Algo nele a desagradava muito.
No ano seguinte, ao completar dezoito anos, Angélica e Perseu decidiram se casar, apesar da mãe da moça não achar que ela fosse madura o suficiente para um compromisso tão sério.
Nessa época, Vitória vivia tentando apaziguar a relação entre Antero e João Alberto.
As discussões entre os irmãos se transformaram em agressões, principalmente quando João Alberto, sem escrúpulos, investia acirradamente com assédios inoportunos contra a namorada do outro.
A mãe não sabia o que fazer, uma vez que o pai apoiava os erros do filho predilecto.
João Alberto trabalhava com Isidoro na indústria têxtil durante o dia e estudava à noite na mesma faculdade do irmão.
Antero foi trabalhar em uma financeira, na qual o pai de sua namorada era director, só quando estava na metade do curso universitário.
Inteligente e dedicado, não foi difícil Antero manter-se no serviço ganhando a confiança de seus superiores.
João Alberto, por outro lado, após o falecimento do doutor Bonifácio, viu-se favorecido pela herança e não dava valor ao que possuía.
Não se esforçava e gastava sempre além da conta.
Vivia faltando ao serviço e envolvido com companhias inadequadas.
Isso preocupava muito Vitória, principalmente quando percebeu que o filho se envolvia com drogas.
O que fazer?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:52 am

Gastou horas de conversa que terminavam em discussões acaloradas.
Muitas vezes, Antero se envolvia em defesa da mãe, enquanto Isidoro dizia ser só uma fase passageira para João Alberto.
Aos quarenta anos, após voltar inesperadamente para casa, Vitória percebeu a empregada inquieta e assustada.
Perguntou se estava tudo bem, mas a moça não respondeu e saiu da sala rapidamente.
A dona da casa estranhou e chegou a sorrir, achando graça, pois a funcionária era nova, vinda do interior para trabalhar em casa de família.
Subindo as largas escadas da grande residência, indo para seu quarto, observou um feixe de luz baça vindo debaixo da porta do quarto do marido.
Isidoro não deveria estar em casa.
Curiosa, abriu vagarosamente a porta do quarto e deparou com sua irmã Marta e seu esposo, na cama, juntos.
Vitória não suportou e entrou em crise.
Gritou, esbravejou, quebrou tudo o que pôde.
Agrediu a irmã e o marido, inclusive atirou-lhe o que encontrou ao seu alcance.
Nem mesmo Isidoro conseguiu segurá-la.
Agressiva, ela o mordeu quando ele tentou acalmá-la.
Antero chegou e foi em socorro da mãe.
Enquanto a tia escapou das unhas da irmã e fugiu para o seu quarto.
Com muito custo o filho mais velho de Vitória a levou para seu quarto.
Mãe, calma! Fique calma!
Não posso acreditar!!!
Eu dei apoio, moradia, estudo e emprego pra essa sem-vergonha!
Não divido a cama com o safado, mas ele deveria respeitar a minha casa!
Não adianta ficar assim, mãe.
Isso não vai resolver nada.
E o que temos para resolver?!
Há?! Me diga?!
O que é que podemos resolver aqui?!
Tenho é que pôr essa vagabunda na rua!!!
E vai ser agora!!!
O filho não conseguiu detê-la.
Vitória saiu do quarto, atravessou o corredor e foi até o quarto da irmã.
A porta estava fechada.
Ela esmurrou, bateu e gritou.
Até que pegou uma cadeira e a quebrou de tanto jogá-la contra a porta.
Antero tentou segurá-la, mas nada a continha.
Isidoro, tentando se impor, apareceu esbracejando:
Chega de show, Vitória!
Você já deve saber que eu e a Marta estamos juntos há sete anos!
Não venha me dizer que em todo esse tempo nunca percebeu!
Cachorro, desgraçado!!! - ela gritou.
Pegando um pedaço da cadeira quebrada, investiu contra o marido e o acertou na cabeça.
Em seguida, Vitória sentiu-se esfriar.
Um torpor tomou conta dela e precisou se segurar na parede para não cair.
Essa foi a oportunidade que Isidoro teve para escapar daquela fúria.
Antero a amparou e a levou para o quarto.
Mãe! Tudo bem?
Fala comigo, mãe!
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:53 am

Ela não conseguia falar.
Sentiu-se trémula e gelada.
Seus ouvidos estavam estranhos, parecia ensurdecer enquanto uma sensação de desmaio a dominava.
Largou-se sobre a cama do rapaz e demorou alguns minutos para se sentir um pouco melhor.
Ingrid, de dezoito anos, a filha mais amorosa, chegou.
O irmão contou o ocorrido.
Incrédula e sem saber o que fazer, a jovem silenciou e somente ficou ao lado da mãe afagando-lhe o braço e o rosto.
Temendo nova reacção da irmã, Marta fez uma pequena mala e foi embora.
Isidoro, após rápidos cuidados com o ferimento na própria cabeça, também fez o mesmo.
Ao chegar e saber do ocorrido, João Alberto virou-se contra a mãe culpando-a por tudo.
Os irmãos defenderam-na, mas as palavras agressivas do filho João Alberto, que feriram ainda mais Vitória, ninguém poderia tirar.
Com o passar dos dias, muito abatida, calada e visivelmente sofrida, Vitória sentou-se na varanda de sua bela casa e ficou olhando o jardim.
Antero se aproximou, beijou-a no rosto frio e, pálido, acomodou-se em uma cadeira à sua frente e perguntou em tom amoroso:
A senhora está bem?
Ela ergueu o olhar lentamente, olhou-o nos olhos e respondeu:
Faz muitos anos que eu não sei o que é estar bem, meu filho.
Mãe... Eu sei que foi uma cena difícil de esquecer.
É difícil aceitar uma traição, mas...
A senhora e o pai estavam separados já faz tempo.
Nem dormiam juntos e...
Eu sei de tudo isso.
Seu pai nunca me respeitou.
Sempre me traiu com mulheres e foi por isso também que decidi não dormir mais com ele.
Eu não suportei mais.
Não tem coisa pior do que ser traída.
Há muito tempo já pensei em me separar definitivamente dele, mas...
Vocês pequenos, a manutenção da casa, os empregados, a sociedade e tudo mais, sempre tiveram um peso muito grande.
Uma mulher separada sempre é vista como a que não presta, a que não teve capacidade para segurar o marido.
Tomara que esse tipo de conceito mude um dia.
O que mais me dói é a traição da sua tia, minha irmã...
E ele que não respeitou a minha casa, o lar dos meus filhos...
A Marta não era só minha irmã, era minha amiga, minha confidente.
Eu até achei que ele tinha mudado.
Ficava mais tempo em casa, quase não bebia.
Tudo isso depois que minha irmã veio para cá.
Eu não percebi que ele tinha encontrado uma sem-vergonha aqui dentro e por isso não precisava mais ir pra rua.
Mãe, o pai...
Ele não é seu pai!
Nunca foi e você sabe disso!
No instante seguinte, pediu:
Desculpa, filho...
Tudo bem, mãe.
Sabe, quando não podemos mudar uma situação, o ideal é aceitar e fazer o melhor por nós mesmos.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:53 am

O que me preocupa agora são os nossos direitos, Antero.
Como assim?
O Isidoro foi embora e agora vai dilapidar o nosso património.
Vai nos deixar sem nada.
As leis, hoje, são frouxas, quando o assunto é pensão alimentícia e ele é esperto.
Com o João Alberto não me preocupo, o pai não vai desampará-lo.
Você trabalha e já consegue se virar.
A Angélica está casada e tem sua própria vida.
Mas não tenho boas previsões para a Ingrid, que está com dezoito anos e tentando uma faculdade, o Márcio, com dezassete anos e terminando o colégio e o Nilton, com dezasseis anos ainda no colégio.
O que será de mim e dos meus três caçulas?
Essa insegurança, essa dúvida é o que me mata.
Longa pausa em que viu o filho apoiar os cotovelos nos joelhos, cruzar as mãos frente ao corpo curvado e abaixar a cabeça, reflexivo.
Depois de dar profundo suspiro, Vitória questionou:
Às vezes, filho, fico pensando que minha vida, que nossa vida teria sido muito diferente se eu tivesse feito outras escolhas.
Ao me casar com o Isidoro eu estava interessada em um homem que pudesse me dar segurança e protecção.
Paguei um preço muito alto por uma falsa protecção e uma segurança que nunca encontrei.
A prova disso foi o que me aconteceu agora.
Mãe, não vai adiantar ficarmos sofrendo pelo que não aconteceu.
Ou sofrer por fazer essa ou aquela escolha.
Não aconteceu, mas vai acontecer.
Seu pai vai nos abandonar.
Não estou falando só de ele sair de casa, não.
Estou falando de abandono em todos os sentidos.
Estou falando das despesas com alimentação, casa, escola, remédios, assistência médica...
Tudo. Estou falando de tudo.
Ele vai nos abandonar em tudo. Entendeu?
Esfregando o rosto com ambas as mãos, murmurou:
Deus... Preciso que me oriente.
As previsões de Vitória estavam certas.
Não demorou e Isidoro, alegando problemas financeiros, contratou um advogado que cuidou para que a esposa e os filhos se mudassem para outra casa alugada e bem menor, com somente dois quartos, uma sala, cozinha e um banheiro.
Ela se revoltou, mas não havia o que fazer.
Ingrid e a mãe dividiam um quarto, Antero, Márcio e Nilton ficaram em outro.
João Alberto disse que iria morar com o pai, embora depois soubessem que ele tinha um apartamento só para si, em lugar privilegiado do Rio de Janeiro.
Isidoro e Marta também passaram a residir em um apartamento de valor considerável e bem confortável.
Nem por isso Isidoro mudou seu comportamento.
Marta, assim como Vitória, cuidava da casa, das roupas, enquanto o companheiro retornou à vida boémia e aos encontros extra-conjugais.
Isidoro não cumpriu o prometido no acordo de separação.
Não demorou e começou a dar pouca assistência à família, gastando tudo o que tinha com uma vida frívola e leviana.
Os filhos menores precisaram sair da escola particular para terminar os estudos em uma escola pública.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:53 am

Ingrid, que tentava entrar na faculdade, precisou adiar seus planos.
A situação ficou preocupante quando Antero chegou em casa, procurou pela mãe e contou:
Preciso falar com a senhora.
O que aconteceu agora? - perguntou com certo tom amargo na voz, pois nos últimos tempos nunca recebia uma notícia boa.
É que... Bem...
Eu e a Natália decidimos nos casar.
Filho... Adoro a Natália, ela é boa moça, tem uma família óptima, mas...
Vocês poderiam esperar mais um pouco. Não acha?
É que... Mãe...
Acho que não vai dar para esperar - constrangeu-se e abaixou a cabeça, temendo encará-la.
Ai, Antero! Não!
Não vai me dizer que a Natália está grávida! - falou firme sem acreditar no que ouvia.
Está, sim.
E agora, Antero?!
Será que você não pensa?!
Veja a nossa situação!
Além do que... Os pais dela sabem?!
Ainda não - abaixou a cabeça.
Oh, meu Deus!...
Um suspiro de desânimo e perguntou:
O que você pretende fazer?
Eu queria que a senhora fosse comigo lá falar com o pai dela.
Eu não vou abandonar a Natália, não vou fugir das responsabilidades e...
Ah! Mas não vai mesmo!
Se fosse uma das suas irmãs... - deteve as palavras.
Percebeu que não adiantaria falar mais nada.
Estava feito. Esboçou um sorriso quase forçado e perguntou:
Vocês vão ter de morar aqui, não é?
Acho que sim.
Um instante e indagou:
Mãe, a senhora acha que o pai dela pode pensar em me demitir?
Não. Penso que ele não vai querer o mal da filha.
Breve pausa e questionou:
Bem... Se é para ser feito, façamos logo tudo o que precisamos.
Um instante e perguntou:
Tem certeza de que quer se unir a Natália?
Lógico que sim, mãe! Sem dúvida.
Então que seja assim.
Só lhe peço uma coisa.
Nunca, nunca traia sua mulher.
Ame-a e a respeite. Nunca a traia.
Não existe dor maior do que a da traição.
Não deixe que ela perca os melhores anos da vida dela cuidando de você, de seus filhos, de suas coisas e depois, quando a idade chegar, você seja cafajeste o suficiente para dizer que não a quer mais.
Não deixe que ela gaste a idade, o tempo, a juventude dela ao seu lado, para depois dizer que não a quer, que gosta de outra ou saia com uma qualquer.
Não faça isso, meu filho.
Respeite sua mulher, respeite a você mesmo.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:54 am

Se um dia não se derem bem de jeito nenhum, primeiro termine com ela e a deixe bem, para só depois procurar outra. Entendeu?
Entendi, mãe.
Eu fui traída e, enquanto isso, não tive saúde física, moral ou espiritual.
Adoeci por completo.
Demorei muito para me recuperar.
Isso se deu pelas energias negativas e imundas que meu marido trazia para o nosso leito, para mim, depois de andar com vagabundas.
Precisei de muita força para superar tudo o que sentia.
Acho que nem sempre isso é possível para uma mulher.
É muita dor. É muito triste ser desrespeitada e trocada por...
Então aprenda. Nunca traia a Natália.
Seja homem para assumir totalmente seus compromissos.
Honre sua moral, seus princípios. Certo?
Certo, mãe. Vou me lembrar disso - sorriu de modo singelo.
Então, que seja assim.
Breve pausa e perguntou:
Quando é que pretende falar com o homem?
A princípio o pai da moça ficou contrariado.
Ele gostava muito de Antero, confiava no rapaz e não esperava aquilo.
Porém, não demorou e aceitou os factos.
Foi o tempo de correr os proclamas e o casamento se realizou.
A cerimónia foi simples.
Isidoro compareceu sozinho, mas não subiu ao altar.
Natália e Antero não viajaram e foram morar na casa do rapaz.
A mãe e os outros três filhos passaram a dividir um único quarto, deixando o outro para o jovem casal.
Vitória começou a lembrar dos tempos de menina.
Todos em sua casa dividiam um espaço apertado, em péssimas condições.
Não queria passar por aquilo novamente.
Ao menos, agora, cada um tinha uma cama limpa para dormir sozinho.
Um tecto que não deixava a chuva gotejar.
Não passavam frio e tinham o que comer.
Nessa época, Vitória começou a lavar e passar roupa para as vizinhas e aceitou trabalhar como diarista.
Muitas vezes ganhava coisas das patroas e isso ajudava muito em casa.
Ela e a nora se davam muito bem.
Natália, de coração generoso, era uma moça dócil e compreensiva, de fácil convivência.
Antero merecia alguém assim.
Quando via a sogra nervosa com algo que o ex-marido tinha feito, como não pagar o aluguer ou não ajudar na pensão como devia, a jovem Natália procurava acalmá-la, fazia-lhe um chá e conversava sobre assuntos amenos.
Logo se soube que a filha Angélica também estava grávida e em visita a ela, Vitória ouviu:
Ai, mãe... Agora está tudo um pouco difícil.
Só que eu acredito que o Perseu vai mudar depois que o nené nascer.
Como assim, Angélica?
Você não vai me dizer que ficou grávida para segurar seu marido.
Ou para ele ser melhor esposo?
Mãe, ele é bom, mas é que...
Onde está com a cabeça? - falou firme.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:54 am

O que está acontecendo aqui?
Ele não deixa me faltar nada, mas...
Sabe, o Perseu é como o pai. É assim...
Ele chega tarde por culpa dos amigos.
Mas não me deixa faltar nada.
O que me incomoda são os negócios complicados em que se mete, sabe como é.
Não sei, não. Não sei de nada.
Só tenho certeza de que você não fez bem em ter engravidado para tentar mudar seu marido.
Teve o exemplo de seu pai.
Ele não mudou com o primeiro nem com o último filho! Ao contrário!
O Perseu é diferente, mãe.
Não, filha. Sinto muito em decepcionar você.
Não viva de ilusão. Ele não é diferente, não.
As coisas estão muito difíceis para eu dar qualquer apoio a você ou ao nené.
Não vou precisar de apoio nenhum.
Sei o que estou fazendo! - exclamou de modo rude.
Vitória sabia que a filha gostava de viver em um mundo de fantasia.
Seria difícil trazê-la de volta à realidade.
Foi aos quarenta e dois anos que Vitória se tornou avó.
Primeiro nasceu Mónica, uma linda menininha rosada e com muito cabelo, bem parecida com Antero.
Dois meses depois, nasceu Danilo, filho de Angélica e muito parecido com a mãe.
Como avó, sentiu-se diferente.
Era como se algo tivesse mudado em seu íntimo.
Na casa de Angélica, Vitória não se sentia bem-vinda.
A família de Perseu, influenciada por Isidoro, a tratava com indiferença e um certo desprezo.
Notando que a filha parecia se inclinar à família do marido, ela raramente aparecia para visitar o neto.
Já com a pequena Mónica, era tudo muito diferente.
Ajudou a nora na dieta e com os cuidados com a menina, afinal, era uma mulher bem experiente.
Natália, pessoa bem amável, era grata pela ajuda e orientação, e demonstrava isso.
Os filhos menores de Vitória, por falta de apoio do pai, não conseguiram fazer faculdade e por isso procuraram por cursos profissionalizantes alternativos na época.
Ingrid cursou auxiliar de enfermagem.
Márcio tornou-se ferramenteiro e Nilton, técnico em equipamentos electrónicos.
Assim que começou a trabalhar em um hospital, Ingrid conheceu Luiz, um rapaz estudante de Medicina, e começaram a namorar.
Após ele se formar, ela estava com vinte e três anos e eles se casaram.
Não demorou e Luiz recebeu uma boa proposta para trabalhar em um hospital no Paraná, onde ele tinha alguns parentes.
Vitória e Ingrid choraram abraçadas.
Eram muito unidas e seria a primeira vez que a filha mais amorosa se separaria da mãe.
Isso a fez se apegar muito mais a Natália e a neta Mónica, ainda com três aninhos.
Embora o filho Antero estivesse bem empregado, os gastos da família eram grandes e Vitória não achava justo ele arcar com a maior parte das despesas da casa.
Isidoro não pagava o valor da pensão como deveria, isto é, quando pagava.
Por essa razão, ela se revoltava enfurecida e brigou com o ex-marido por várias vezes. Estava cansada de fazer faxina, enquanto Natália, por ter de tomar conta da filha pequena, ficava em casa lavando e passando roupa para fora.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:54 am

Passado um tempo de Ingrid ter se mudado para o Paraná, Vitória e a nora experimentaram pegar alguns serviços de costura para fazer em casa.
Ela contou para Natália que sabia bordar e costurar muito bem.
Que quando namorava com Odilon, pai de Antero, ficou encantada com a ideia de morar no Rio de Janeiro, ser modista e ter um ateliê.
Sempre é tempo, dona Vitória.
Nunca desista de um sonho.
Ora, menina... - riu.
Estou velha pra isso.
Não existe velhice para a alma repleta de ânimo.
A outra ouviu, mas nada disse.
Foi então que elas começaram a trabalhar com costuras rectas e se revezavam para cuidar da pequena Mónica.
Com sacrifício, os três irmãos, Antero, Márcio e Nilton, compraram um grande terreno em um bom lugar e o dividiram em partes iguais.
Continuaram todos morando na casa alugada que agora Antero e os irmãos pagavam o aluguel, pois Isidoro, que deveria dar assistência a ex-esposa com o pagamento do aluguel e de uma pensão, não dava qualquer sinal de vida.
Vitória visitava Angélica pelo menos uma vez por mês, embora percebesse que a filha não fazia questão de suas visitas.
A avó queria aproximar os priminhos da mesma idade, mas não era possível.
Ela também nunca se esqueceu de João Alberto.
Procurava-o sempre, apesar de o filho não ter qualquer manifestação de alegria ou satisfação em vê-la.
Por saber que João Alberto fazia corrida no calçadão nos fins de semana, Vitória levava a neta Mónica para passear no mesmo horário.
Ao vê-lo, fazia-o parar e puxava algum assunto.
Mas o filho não lhe dava atenção por muito tempo e prosseguia com seus exercícios físicos.
Foi com muita alegria que todos se mudaram para a casa que Antero acabara de fazer.
Nem toda construção havia terminado, faltava cimentar parte do quintal e o acabamento nos muros.
Mesmo assim, decidiram mudar para fugir do alto valor do aluguel que pagavam.
Ao sentir o cheiro de tinta, ver a casa com poucos móveis e sem cortinas, Vitória lembrou-se de quando chegou com Odilon para morarem no Rio de Janeiro.
Recordou-se de tudo como num filme em sua mente.
Foi o dia em que o marido a tratou mal pela primeira vez e sentiu-se humilhada como nunca.
Sentiu como se esmolasse protecção e guarida, quando, assustada e trémula, deixou-se cair sentada sobre a cama e abraçou a coluna de madeira envernizada.
Parecia haver passado muito tempo...
Um tempo distante demais.
Mãe! A Natália está falando com a senhora - riu Antero com seu sobressalto.
Heiri?! - respondeu ela como se acordasse naquele instante.
Aquele quarto é o da senhora e da Mónica - tornou Natália em tom generoso.
Isso até que construam um para mim no fundo do quintal. Faço questão disso.
Nunca, dona Vitória.
Lá será nossa oficina de costura.
Ou ateliê, como preferir - riu.
Precisaremos de muito espaço.
Aos trinta e dois anos, João Alberto sofreu um grave acidente de carro na Avenida Brasil, um engavetamento com vários veículos.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:54 am

O rapaz se quebrou todo.
Ao se encontrar com Isidoro no hospital, Vitória se assustou mais do que com a notícia sobre o acidente do filho.
O ex-marido estava esquelético, pálido, feio, extremamente maltratado. Fazia tempo que ela não o via.
O que aconteceu com o senhor, pai? - perguntou Antero piedoso e com simplicidade. Está doente?
Estou.
O que o senhor tem? - tornou o filho.
Os médicos não sabem.
Só sei que a cada dia estou pior.
Sofri uma pneumonia brava.
Pensei que fosse morrer.
A ex-mulher mal conversou com ele, apesar da surpresa, pois quando o viu da última vez, ele estava abatido e magro, mas não daquele jeito.
Vitória nem lhe deu muita importância.
Voltou sua preocupação para o filho acidentado.
João Alberto havia quebrado três costelas, um braço, uma perna e alguns dentes.
Precisou fazer duas cirurgias no joelho.
Mesmo assim, não havia garantia de uma total recuperação.
Ficou internado por muito tempo e precisou de ajuda quando recebeu alta.
Vitória, para ajudá-lo, praticamente se mudou para o apartamento do filho, que sempre estava nervoso, irritado e mal-humorado.
Não passou nem uma semana que ela estava lá e o pegou fazendo uso de entorpecente.
O que é isso?!!! - gritou estapeando-lhe a mão, deixando cair no chão o pequeno espelho onde havia um pó branco.
O que a senhora está fazendo?!!!
Olha o que fez!!! - irritou-se.
Estou cuidando de você!!! - esbravejou a mãe irritada.
Não quero seus cuidados!!! Não pedi sua ajuda!!!
Vai embora! Sai daqui!!!
Mesmo engessado, João Alberto se levantou de onde estava e arrumou forças para ir em direcção à mãe.
A abstinência, ou seja, a falta do uso de entorpecentes o fez reagir e parecia nem sentir dores.
Vitória o empurrou novamente para o sofá, chutou o espelho e esfregou o pé no pó, espalhando-o no carpete, deixando-o sem condições de ser consumido.
João Alberto berrou como nunca e se contorceu o quanto pôde.
As dores não o deixavam ser mais violento senão ele seria capaz de agredir a própria mãe.
O rapaz se transformou.
Parecia um animal extremamente selvagem e perigoso.
Vitória nunca pensou que pudesse ver aquilo.
Aliás, ela não sabia que aquela reacção existisse.
Tentou conversar, mas ele não a ouvia.
Por muito tempo ficou ofegante, babando e violento.
Quando pareceu que o filho tinha se acalmado, Vitória se ausentou por alguns instantes para cuidar dos afazeres e, apesar da extrema dificuldade, João Alberto conseguiu chegar até o banheiro, trancou-se e fez uso do que queria.
Assim que pôde, ele ligou para seu pai e pediu sua presença.
Mesmo com o estado de saúde abalado, Isidoro atendeu ao pedido do filho.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:55 am

Foi até o apartamento e pediu para Vitória se retirar.
Brigaram e se agrediram com palavras.
Isidoro precisou telefonar para o trabalho de Antero e pedir para ele intervir e tirar a mãe dali.
Paciente, o filho mais velho de Vitória a convenceu a voltar para casa e deixar o irmão levar a vida que escolheu.
Dessa vez, a mulher, antes forte e decidida, não aguentou.
Trancou-se no quarto e chorou como nunca havia feito na vida.
Estava tão amargurada e ferida que não poderia descrever a ninguém o tamanho de sua dor.
Tanta luta, tanto empenho, para agora ver seu filho se matar daquela forma e, pior, com o apoio do pai.
Não era isso o que queria.
Tudo poderia ser bem diferente.
Lembrou-se da conversa que teve com a amiga Dulce.
Havia muito tempo, quando contou sobre sua vida, seus anseios, frustrações, contrariedades e a senhora lhe indicou O Evangelho Segundo o Espiritismo, falando-lhe dos pais que sofriam por não dar limites e educação aos filhos, que cresciam vaidosos e orgulhosos, podendo fazer tudo na vida sem acreditar nas consequências de seus actos.
Vitória tinha consciência de não ter educado melhor João Alberto por causa de Isidoro, que lhe tirava a autoridade e dava ao filho aprovação em tudo, deformando-lhe o carácter.
Ela lamentou por não ter sido mais severa.
Lembrou-se das dificuldades em ter tantos filhos com idades tão próximas e um marido tão ausente.
Vitória gastou toda aquela noite, lentamente, pensando em seu passado, nas escolhas feitas caprichosamente por anseio de uma vida melhor.
Admitia ter forçado o destino para obter abundância.
Mentiu, enganou, foi indiferente a tudo o que deixou para trás, como pais e irmãos.
Encontrando-se consigo mesma, envergonhou-se arrependida.
Não dormiu e não queria que o sol rasgasse a madrugada, acreditando poder se esconder na noite das falhas puramente humanas.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:55 am

CAPÍTULO 10 - SUPERAÇÃO

No início da manhã, Natália surpreendeu-se com a sogra, que cuidava dos afazeres na cozinha.
Dona Vitória... É tão cedo!
Acordei você?
Não. Estou ansiosa com a chegada das máquinas novas que compramos e...
As máquinas de costura chegam hoje?
Hoje, sim. Ontem acabei de pintar a oficina lá no fundo.
Acho que a senhora nem viu, né?
Não vi mesmo. Também... tanta coisa acontecendo - falou com um tom de lamento.
Pintei de amarelo canário.
Tem que ver como ficou claro. Reflecte bem a luz.
Essa cor ficou muito boa, parece que iluminou mais o ambiente.
O Márcio instalou lâmpadas fluorescentes.
Ficou óptimo! Depois, se der, vai ver se a senhora gosta.
Vou, sim. A propósito, e as duas mulheres que você disse que queriam trabalhar com a gente?
Virão mais tarde.
Eu disse que ganharão por produção - informou a nora.
No começo a gente não vai ter muito para oferecer.
Terá de ser assim mesmo.
Não sei por que, mas... estou tão esperançosa!
Tão contente! - exclamou feliz dando uma risadinha engraçada.
Vitória sorriu ao vê-la empolgada e nada disse.
À tardinha, o brilho alaranjado do céu, rajado no horizonte, invadia as largas janelas do cómodo construído para ser a oficina.
Natália e a sogra arranjavam lugares especiais para as novas máquinas.
Ficaram boas aqui. A senhora não acha?
Acho, sim. Aqui está bom - respondeu a mulher sem empolgação.
Vendo-a com pensamentos distantes, a nora quis saber:
A senhora está assim por causa do João Alberto, não é?
Você é mãe, Natália, e pode imaginar como estou sofrendo.
O Antero me contou como o irmão estava.
Mas isso que está acontecendo não é culpa da senhora.
É minha culpa, sim.
Se eu tivesse me esforçado mais, se tivesse dado limites ao meu filho... mesmo que para isso precisasse enfrentar o Isidoro, mas não.
Nunca orientei muito bem o João Alberto e a Angélica.
Eles eram teimosos, venciam e ganhavam o que queriam pela insistência.
Ele era nervosinho e irritado, ela fazia-se de coitadinha, mimosa, dengosa...
Com isso, conseguiam o que queriam.
Breve pausa e perguntou:
Como é que posso corrigir tudo isso agora?
Estão crescidos. São adultos, maduros...
Deus dará à senhora a chance de ajudá-los, se isso for possível e necessário.
Os olhos de Vitória estavam vazios ao fitar a outra que parecia entendê-la muito bem.
Num gesto afectuoso, aproximou-se, deu um abraço apertado em Natália, ergueu-se muito erecta, suspirou e disfarçou a preocupação com singelo sorriso ao propor:
Já está tarde. Vamos entrar, tomar um banho e jantar...
Se é que sobrou janta...
Sobrou tão pouquinho do almoço - riu.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:55 am

Depois vamos dormir.
Amanhã temos que levantar bem cedo.
É mesmo. Temos muito pra fazer - concordou a nora.
Vitória e Natália prosperavam com as costuras.
Embora os planos governamentais da época prendessem e deteriorassem os valores depositados nos bancos, elas não tiveram prejuízos.
Tivemos muita sorte, Antero!
Foi tirar o dinheiro da poupança e comprar novas máquinas e materiais e o governo mandou prender o dinheiro do povo - dizia a esposa ao marido.
Podemos não ter perdido nossas economias, mas será que isso não afectará os clientes? - preocupou-se Vitória.
Penso que não. Agora negociamos directo com as lojas.
Pequenos comércios, é verdade, porém ninguém vive sem roupa, não é?
Estou temerosa por termos aberto essa pequena confecção bem agora - tornou Vitória.
Mãe, se não der certo, não deu e acabou.
Ninguém aqui vai morrer de fome por isso.
Só que teremos de apertar os cintos, não é? - tornou ela.
Não foi fácil, entretanto, Vitória e Natália enfrentaram a crise financeira, administraram bem os negócios e se destacaram no mercado em pouco tempo.
Márcio e Nilton, os filhos mais novos, casaram-se com moças que eram funcionárias na empresa de sua mãe.
Não demorou e eles deixaram seus empregos para trabalhar junto com elas.
Márcio especializou-se nos trabalhos técnicos com as máquinas dando manutenção e também cuidava do estoque, do carregamento e da entrega dos produtos.
Nilton, além de ajudar o irmão, deu início às primeiras informatizações da empresa, controlando tudo o que podia.
Faltava, entretanto, um bom administrador, função logo ocupada por Antero, que deixou seu emprego e juntou-se à família empresarial trazendo expansão e novas ideias.
Nessa época, Vitória ficou extremamente feliz ao saber que Ingrid e Luiz tiveram um casal de gémeos.
Os filhos e as noras se juntaram e lhe deram de presente passagens aéreas para que fosse conhecer de perto os dois netinhos.
Ficou mais de um mês ao lado da filha, ajudando-a em tudo.
Ao retornar, nova surpresa. Vitória seria avó novamente.
Cleide, esposa de Márcio, e Vera, esposa de Nilton, estavam grávidas.
A empresa, que havia começado no fundo do quintal, cresceu consideravelmente e agora tinha sede própria.
Fora os filhos e as noras, já contavam com mais de quinze funcionários e dois veículos para uso exclusivo da pequena indústria.
As confecções, antes femininas, abrangiam agora as infantis e as masculinas.
O improvável aconteceu.
Certo dia, uma mulher chegou à recepção da empresa e olhou em volta de forma surpresa.
Correu os olhos aguçados de canto a canto enquanto engolia em seco e admirava o que Vitória conquistou à custa de muito esforço.
Tudo era simples e de muito bom gosto.
Ela disse querer falar com Vitória, que foi chamada à recepção.
Pensando tratar-se de negócios, a empresária foi atender a contragosto, afinal, era o filho Antero que cuidava dessa parte.
A ela cabia escolher os modelos de roupas, o tipo de tecido.
Entendia muito bem de viscose, poliéster, algodão, elastano, mas não queria se envolver muito na administração.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:55 am

E pelo facto de insistirem para falar com ela, aceitou.
Chegou à recepção com ar tranquilo.
Aos sessenta e dois anos, andava erecta e altiva, caminhando com passos compassados e firmes.
Sua pele tinha bonito tom dourado, pois adquiriu o gosto de ir à praia com mais frequência.
No rosto, leves traços de expressão que não denunciavam sua idade.
O pouco sobrepeso dava-lhe formas arredondadas e curvas extremamente femininas.
Os cabelos escovados e bem tingidos, num tom que era agradável à sua aparência, estavam cortados na altura dos ombros e presos suavemente com uma tiara, dando-lhe um ar jovial e bem alegre ao rosto sereno.
Vestida com roupas produzidas em sua própria confecção, sentia-se quase orgulhosa, feliz e de bem consigo mesma pelas peças alegres e bem recortadas que lhe caíam elegantemente.
Ao chegar à recepção, trocou rápidas palavras com a assistente que apontou para uma poltrona, cuja planta ornamental não a deixava ver direito uma mulher que não reconheceu.
Quicando compassadamente o assoalho com o salto do sapato, aproximou-se da mulher e se surpreendeu ao vê-la se levantar.
Vitória parou, suspirou rápido e prendeu o fôlego ao levar a mão ao peito.
Murmurou:
Você?!
Imediatamente os olhos verdes de sua irmã Marta arderam pelo choro.
Seu rosto, antes vivo e alegre, trazia uma palidez cadavérica, seu corpo uma magreza doentia e alguns pontos de feridas cujos cabelos soltos tentavam encobrir.
Ela estendeu as mãos delgadas e trémulas em direcção da outra que a amparou, ficando séria e estática.
Marta se aproximou, abraçou-a e chorou copiosamente, agarrando-a.
Acalme-se - pediu simplesmente.
Vendo que a irmã não se continha, sugeriu: - Venha comigo.
Levando-a para o escritório dos filhos Márcio e Nilton, que não a reconheceram, Vitória pediu:
Podem me deixar a sós com ela?
Mas mãe... - intrigou-se Márcio não sabendo do que se tratava.
Sua tia quer conversar comigo.
Pode ser? - tornou em tom firme.
Os filhos se entreolharam surpresos e Nilton entendeu, sinalizando ao irmão para que as deixassem a sós.
A pedido de um deles, a secretária levou água e café para ambas.
Após alguns goles de água, Marta se acalmou e disse:
Quero que me desculpe...
Que me perdoe por tudo o que fiz a você... - chorou.
Por que veio me procurar depois de tanto tempo? - perguntou Vitória friamente.
Faz vinte e dois anos... - calou-se com um nó na garganta.
Não tenho paz e... Preciso de ajuda.
É dinheiro o que quer?
Eu e o Isidoro estamos muito doentes.
Não sabíamos a razão da nossa saúde estar tão abalada até um médico, há alguns anos, pedir exames e... - chorou.
E?...
Estamos com essa doença...
Com um vírus muito grave... - continuou a chorar.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:56 am

Vitória, apesar de não saber tantos detalhes, imaginou do que se tratava e, sem trégua, perguntou:
Vocês estão com Aids?
Marta pendeu com a cabeça positivamente e confirmou:
Estamos...
Não sei por que não estou admirada.
Lembrando da vida que o Isidoro levava - suspirou fundo e apiedou-se.
Perdemos tudo, Vitória.
Como assim?
Perdemos tudo.
Tudo o que o Isidoro herdou, todo o património, a empresa, tudo!
E o João Alberto?
Faz dez anos que meu filho sumiu e não dá notícias.
Fui até onde ele morava e me disseram que se mudou.
Ele foi morar em São Paulo.
O João Alberto só soube tirar dinheiro do nosso património e gastar.
Quando acabou, ele foi para São Paulo trabalhar com alguns amigos em uma empresa que instala som em carros.
Nem sei direito o que ele faz.
Só sei que eu e o Isidoro não temos mais nada nem ninguém.
Estamos doentes e passando fome.
Moramos em um barraco na comunidade do Morro do Macaco.
Enquanto Marta falava, Vitória lembrou-se de tudo o que um dia teve ao lado daquele homem.
Das casas, dos carros, das viagens, do conforto.
Quase não acreditava no que ouvia da irmã.
Precisamos dos remédios...
Alguns vizinhos e o pessoal do Centro Espírita nos ajudam.
O Isidoro desenvolveu um tipo de câncer e não pode andar direito.
Semana passada, os meninos do Centro Social, que fazem capoeira, me ajudaram a carregá-lo escadaria abaixo até a ambulância.
Se não fossem eles, não teria como levar o Isidoro pro hospital.
Não temos mais nada. Estamos à mingua e... - chorou um choro triste, amargo e angustiado.
A irmã levantou-se, caminhou a passos lentos pelo escritório, olhou pela janela por alguns instantes, respirou fundo e virou-se para a outra dizendo:
Quando se envolveu com meu marido, na minha casa, você não se preocupou comigo, não respeitou os meus filhos.
Quando foi embora com ele, eu e meus filhos quase passamos fome, quase fomos despejados, pois o Isidoro não pagava pensão, não pagava o aluguel.
Meus filhos mais novos não estudaram em boas escolas, tiveram que ir para escolas públicas mesmo tendo um pai com óptimas condições.
Eles não fizeram faculdade.
Tudo porque você, minha irmã, foi uma safada, uma vagabunda, que, de certo, incentivou e apoiou o cachorro do Isidoro para ele não nos dar nem sustento.
Por isso, pela falta de ajuda e apoio, eu fiz faxina, lavei e passei roupa pra fora.
Minha nora, a Natália, também passou e lavou roupa, mesmo com um barrigão enorme.
Depois virei costureira.
Foi um tempo muito difícil.
Eu e meus quatro filhos, sim, porque o João Alberto sumiu e a Angélica, ingrata, se bandeou para a família do marido, então...
Enquanto eu e meus quatro filhos passamos muitas privações, você, minha irmã, e o pai dos meus filhos, se esbaldavam na luxúria, não é mesmo?
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Abr 26, 2017 8:56 am

Você nem sabe, mas...
Uma vez eu vinha da faxina de um apartamento lá em Copacabana e vi você cheia de sacolas, indo na direcção de um homem de uniforme.
Ele pegou suas sacolas, você tirou os óculos escuros, ajeitou os cabelos... parou junto ao carro e esperou o seu motorista abrir a porta.
Naquele dia, eu estava tão cansada... - breve pausa.
Cheguei em casa e a Mónica, minha netinha, que hoje está com vinte anos e fazendo faculdade de Agronomia parou por um instante e sorriu.
Minha netinha estava com febre e muito doente.
A Natália, toda atrapalhada por ter de cuidar dela, não tinha passado as roupas que a mulher vinha buscar.
Então, cheguei cansada e enfrentei aquele ferro quente, num calor desgraçado...
Às vezes até precisava colocar o ferro quente em cima de uma lágrima que caía na tábua de passar, sem que ninguém visse.
Era bem tarde quando tomei banho e, quando fui jantar, a Natália, coitada, veio assustada na minha direcção e falou que a sopa tinha acabado.
O Márcio e o Nilton tinham chegado e não sabiam que eu e ela não tínhamos jantado e comeram tudo.
Comeram tudo, não por serem gulosos.
Comeram tudo porque esse tudo era tão pouco...
Tão pouco que... - nova pausa.
Então, nós duas dividimos um pãozinho amanhecido e tomamos chá quase sem açúcar.
Dependíamos do dinheiro daquela roupa que eu passei e da faxina daquele dia para comprar algumas coisas para a casa, pois mais da metade do salário do Antero ia para os aluguéis atrasados que o Isidoro não pagava.
O Nilton não ganhava muito bem e gastamos muito com os remédios para a Mónica, e o Márcio ficou um tempo sem emprego.
Ele saía e ficava o dia todo fora à procura de serviço...
Então, naquela hora, comendo aquele pão seco e o chá de camomila, eu lembrei de você, minha irmã.
Lembrei de você linda, arrumada, elegante, cheia de jóias e sacolas de compras entrando naquele carro e saindo com seu motorista particular.
Seu marido sempre traiu você.
Não tive culpa! - defendeu-se.
Como não?!
O Isidoro não prestava e me traía com toda vagabunda que aparecia na frente dele, mas nenhuma foi tão desgraçada e infeliz como você, que traiu a minha casa, os meus filhos... que traiu a irmã que a ajudou.
Foi você quem tirou o Isidoro do lar, das obrigações de prestar amparo e auxílio aos filhos!
Dei muito duro na vida!
Olha para as minhas mãos! - mostrou estendendo-as.
São mãos que trabalharam firme para não passar fome!
Não passar mais necessidade, além daquela que já passávamos!
Você não é diferente de mim, Vitória! - reagiu Marta.
Sua cunhada, a Maria de Lourdes, contou para mim e para toda cidade que você usou o Odilon para se arranjar na vida!
Para sair daquele lugar infeliz e deixar de passar necessidade!
Ficou grávida dele, obrigou-o a se casar e a lhe dar uma vida boa, rica!
Se eu fiz isso, ao menos procurei um homem solteiro, sem filhos, sem compromisso.
O Odilon não era casado, muito menos marido de alguma de minhas irmãs! - praticamente gritou.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:16 am

Se não quer me ajudar, não ajude e pronto!
Não precisa jogar na minha cara os meus erros!
Eu não vou lhe ajudar, mas você vai ouvir por que eu não quero ajudar.
Depois de tudo o que eu e os meus filhos passamos, por sua causa, não acho justo tirar um único centavo deles para dar àqueles que quase destruíram a nossa vida!
Àqueles que nos condenaram à miséria, àqueles que tinham luxo e dinheiro que eram nossos.
Você e o Isidoro têm exactamente aquilo que procuraram, que cultivaram.
Receberam da vida o que deram às outras pessoas.
Olhe-se no espelho e veja, a imagem que ele devolve é o reflexo do que você fez no passado.
Marta se levantou, secou o rosto e, sem dizer nada, saiu do escritório deixando Vitória sozinha.
Não demorou, Márcio e Nilton entraram curiosos.
A mãe se sentou, bebeu um gole de água e contou-lhes tudo.
Nossa! Eu nem reconheci a tia - comentou Nilton.
Nem eu - disse Márcio.
Mãe... A senhora não vai ajudá-la?
Não vai ajudar o pai?
Estou tão confusa...
Sofri muito por causa deles.
Vocês lembram das dificuldades que passamos.
Não podem ter esquecido.
Sim, mãe, lembramos, mas não podemos abandoná-los.
Estão bem doentes, pelo que percebi.
Pela aparência da tia... - comentou Nilton de coração bondoso.
Entre os dois, não sei qual não presta mais, o pai ou ela.
Nunca vou esquecer...
Eu queria fazer faculdade, queria me formar e tive de mudar meus planos e...
Certo, Márcio.
Você não fez o que queria, mas pense bem.
Está estabilizado hoje. Nós estamos.
Somos unidos, tanto na família quanto na empresa - disse o irmão.
Tudo deu tão certo para nós!
Nossa vida poderia ser melhor.
O que é para ser nosso, sempre vem para nossas mãos quando nos esforçamos.
Passamos dificuldades, sim, porém estamos bem.
O pai errou, a tia errou, mas não podemos ser iguais a eles.
Não podemos virar as costas nesse momento.
Estou triste por saber que estão doentes.
Puxa vida! É meu pai!...
Hoje não existe cura nem tratamento certo para o que eles têm.
Vitória, até então silenciosa, rodava lentamente o copo com um pouco de água entre as mãos observando os pequenos feixes de luz colorida reflectida entre os dedos.
Após longo silêncio, ergueu o olhar e pediu:
Nilton, não sei onde é a comunidade que ela me falou.
Não peguei o endereço com sua tia.
Mas acho que posso encontrar o lugar.
Não, mãe! De jeito nenhum!
A senhora não vai sair daqui para ir à favela e perguntar, de porta em porta, onde eles moram - contrariou-se Márcio.
É perigoso!
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:17 am

Talvez ela esteja de ônibus e...
Se a gente for depressa, podemos alcançá-la - sugeriu Nilton.
Não dando importância aos protestos de Márcio, Vitória se levantou e disse ao filho mais novo:
Vou pegar minha bolsa.
Encontro você no carro.
Mãe e filho chegaram à comunidade indicada por Marta e viram que era muito grande.
Seria difícil encontrar alguém ali.
Lembro que ela me falou que estavam sendo ajudados por vizinhos, pessoas de um Centro Espírita...
Que Isidoro precisou ser carregado escadaria abaixo por rapazes que faziam capoeira no Centro Social.
Escadaria aqui é o que não falta, mãe.
Vamos perguntar, alguém deve conhecer os dois.
Vitória desceu do carro e não se sentiu acuada quando olhares estranhos vinham em sua direcção.
Começou a perguntar pela irmã e pelo ex-marido, dando o máximo de informação possível para poder encontrá-los.
Procurou por muito tempo, até que um rapaz, da equipe de capoeira do referido Centro Social da comunidade, respondeu:
Sei, sim. Eu ajudei esse homem e a mulher dele na semana passada.
Ele tava mal mesmo.
Por favor, pode me dizer onde eles moram?
Vamos lá! - animou-se o moço.
Subiram longas escadarias e chegaram ao local.
Vitória agradeceu ao rapaz e chamou pelo nome de Marta, junto a pequena mureta de uma minúscula área, em frente à casa.
A porta foi aberta lentamente e a figura esquelética de Isidoro surgiu meio cambaleante.
Ele não acreditou ao ver a ex-esposa ali parada à sua frente.
Também quase não reconheceu aquele homem, seu filho, ao lado dela.
Havia muito tempo que não os via, desde o acidente de carro de João Alberto.
Isso tinha sido há cerca de dez anos.
Você aqui? - perguntou ele com voz fraca e rouca.
A Marta foi me procurar - disse bem directa.
Discutimos e...
Depois que ela foi embora me arrependi, não de tudo o que falei.
Fiquei arrependida por não ajudar, afinal, não quero e não vou ser tão miserável e infeliz, como vocês foram, e abandoná-los numa hora dessas.
Mãe... - murmurou Nilton chamando-lhe a atenção para que não ferisse Isidoro com palavras.
Mas Vitória não se importou e praticamente exigiu:
Não vai nos chamar para entrar?
Claro! Entrem.
A casa, de um único cómodo, dividido entre quarto e cozinha, era muito pobre, de total simplicidade.
A cama desarrumada mostrava que Isidoro estava deitado.
As paredes eram de alvenaria, mas não rebocadas, e havia pequenos espaços entre a colocação de tijolos que deixavam o vento e os feixes de luz passarem.
O calor ali dentro era quase insuportável e se agravava pelo tipo de telha fina de amianto.
Na cozinha, a pia era escorada por caibros.
Uma pequena mesa com três pernas ficava encostada na parede para não cair.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:17 am

Um fogão de duas bocas era abastecido por um botijão pequeno.
Quase nenhum móvel.
Poucas panelas e utensílios.
Nem geladeira tinha e só uma cadeira, sem encosto, para se sentar.
Após passar largamente os olhos em tudo o que pôde, Vitória perguntou:
Como foi que deixou tudo isso acontecer com você, Isidoro?
Foi uma fatalidade... - respondeu com voz fraca e rouca.
Não. Fatalidade não é isso.
Isso é irresponsabilidade, imprudência.
Se veio aqui pra... - uma tosse forte deteve suas palavras.
Pai, viemos aqui para tentar ajudar.
Apesar de tudo o que... - nova crise de tosse.
Sim, Isidoro. Apesar de tudo.
Não prometo luxo, mas vou tirar você e a Marta deste lixo - disse Vitória firme.
Abriu a bolsa, pegou a carteira, tirou algumas notas e estendeu-as para ele, completando:
Fique com esse dinheiro, por enquanto.
Vou conversar com nossos filhos e com as nossas noras e decidirmos, juntos, de comum acordo, o que fazer para ajudar vocês dois.
É, pai... Pegue o dinheiro - insistiu Nilton ao vê-lo titubear.
É o que podemos fazer por ora.
Voltaremos amanhã ou depois para ajudar mais.
Agora está bem tarde. Já está escurecendo e...
Isidoro pegou o dinheiro oferecido e, com olhos marejados, encarou a ex-esposa brevemente, agradecendo com jeito intimidado:
Obrigado.
Nesse momento, a porta foi aberta com rapidez e Marta entrou surpreendendo-se.
Sem saber o que dizer, parou e ficou olhando a irmã e o sobrinho, que disse:
Nós já estávamos de saída, tia.
Amanhã ou depois voltaremos.
Ela não disse uma única palavra.
Somente trocou olhar com Isidoro.
Então vamos, Nilton.
Até mais - despediu-se Vitória, simplesmente.
Vitória alçou-se no braço do filho e precisou de sua ajuda para descer as escadarias da comunidade.
Nilton ajudou-a a entrar no carro, contornou o veículo e, ao entrar e olhar para a mãe, viu-a com lágrimas nos olhos.
Mãe... Não fique assim - afagou-lhe o ombro, depois a puxou para si.
Recuperando-se, Vitória secou o rosto, respirou fundo e disse:
Sabe, filho... Quando somos jovens pensamos que somos imortais, que somos como aqueles super-heróis que não ficam doentes, que nunca se machucam, que de algum jeito sempre são ricos e nunca precisam de ninguém nem de nada, e que se saem bem em todas as situações.
A vida real, o mundo real, é bem diferente das aventuras que vemos nos filmes e desenhos animados.
Eu sei, mãe.
Mas eu não. Eu não sabia.
Quando menina, jovenzinha, só pensei em ficar bem de vida.
Não precisar trabalhar duro e deixar a vida miserável que tive.
Hoje vejo que não deu pra fugir do trabalho, não se pode fugir do destino - riu sem graça.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:17 am

Se dei outro rumo ao meu destino, se forcei situações em minha vida... não sei.
Só sei que, o que eu precisava trabalhar e viver, eu trabalhei e vivi.
Vou ajudar seu pai, sim.
Não quero nada pendente na minha vida.
Um dia li uma frase que dizia:
"Você é responsável por aquilo que cativa".
Então... sou responsável por seu pai, pois se ele se casou comigo, foi porque eu quis.
Mesmo estando separados, eu me sinto no dever de ajudá-lo.
A senhora não tem obrigação nenhuma com ele, sabe disso.
Só que eu quero. Quero estar bem com a minha consciência.
A senhora tem bom coração.
Ora! Nunca tive bom coração.
Nunca fui boa pra ninguém.
Agora... Vamos embora que já está tarde.
Naquela noite, ao chegar em casa, Vitória, no silêncio de seu quarto, pegou O Evangelho Segundo o Espiritismo e o folheou em busca de alguma reflexão.
Parou no Capítulo V e leu todo o item vinte e quatro.
Reflectiu um pouco e murmurou sozinha:
Só depois de ver a minha irmã e o Isidoro hoje, e lembrar do que eles fizeram, é que eu pude entender tudo isso.
Como diz aqui - e leu:
"Vou revelar-vos a desgraça sob uma nova forma, sob a forma bela e florida que acolheis e desejais, com todas as forças de vossas almas iludidas.
A desgraça é a alegria, o prazer, a fama, a fútil inquietação, a louca satisfação da vaidade, que asfixiam a consciência, oprimem o pensamento, confundem o homem quanto ao seu futuro.
A desgraça, enfim, é o ópio do esquecimento, que buscais com o mais ardente desejo".
E reflectiu:
É verdade "a verdadeira desgraça está mais nas consequências de uma coisa, do que na própria coisa".
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:17 am

CAPÍTULO 11 - AUTOR DA PRÓPRIA HISTÓRIA

Na manhã seguinte o dia estava esplêndido.
As luzes inquietantes do amanhecer invadiam a sala pela larga janela e tremeluziam no ambiente por conta das folhas frenéticas da árvore agitada pelo vento.
Na noite anterior, Vitória havia dito aos filhos e noras que gostaria de conversar com eles.
Pediu para Mónica, sua neta, que fosse passear com os priminhos, Felipe e Tiago, a fim de todos conversarem com tranquilidade.
O assunto sobre Isidoro e Marta roubou-lhe o sono durante a madrugada com muita reflexão, e agora estava ali, na sala, sentada no sofá com as pernas encolhidas, esperando o dia clarear completamente.
Na época em que a confecção havia saído dos fundos da casa de Antero por necessitar de mais espaço, Vitória, determinada, deixou de morar na casa com o filho e a nora.
Preferiu fazer, do que antes era a oficina de costura, um lugar aconchegante para morar de forma mais privativa e independente.
Tudo era bem arrumado, com bom gosto e conforto.
Levantando-se lentamente, foi até a janela e a abriu, deixando a brisa fresca entrar.
Na cozinha, abriu a porta que dava para o quintal e observou que não havia ninguém lá.
Então, deixou o café passando e foi tomar um banho.
Ao terminar, sentou-se na cama, esfregou a toalha mais uma vez nos cabelos húmidos, pegou uma escova e, carinhosamente, penteou-se.
Olhou seu reflexo no espelho.
Não conseguia mais se lembrar de como era seu rosto quando mais jovem.
Aliás, para ela, quase nada parecia ter mudado.
A idade e os vincos no rosto chegaram tão lentos que não percebeu a mudança, tudo parecia sempre estar ali, daquele jeito.
Olhou as mãos com a pele mais flácida, macia, enrugada e com manchas.
Observando as palmas, notou que os calos, marcas de muito trabalho duro, haviam sumido e a pele estava mais fina.
Os dedos largos sinalizavam mãos de quem tinha trabalhado muito, pois engrossaram para serem fortes e suportar a lida.
Vitória suspirou fundo.
Quando pensou em se levantar, olhou para o lado, para a mesinha de cabeceira, e viu um pequeno baú de madeira, presente da amiga Dulce, que guardava com todo carinho.
Sentou-se mais perto, pegou-o e abriu.
De dentro, tirou um pacotinho em cujo papel de presente não se via mais o desenho, agora desfigurado.
Em suas mãos, puxou o barbante que fazia um laço sem vida, colocou-o ao lado e abriu a caixinha de papelão.
Dentro, o anel de metal simples, que já estava desbotado e sem o brilho amarelado que o fazia parecer ouro.
Mas a pedrinha vermelha sem valor, ainda reluzia.
Como já tinha feito milhares de vezes no silêncio da solidão, Vitória sorriu, pegou o anel, o colocou no dedo médio da mão esquerda e a estendeu para vê-lo melhor.
Sorriu novamente.
Ainda servia, como sempre.
Aproximando-o bem devagar dos lábios, beijou-o com carinho.
Beijou-o demoradamente como milhares de vezes havia feito antes.
Depois, tirou o papel dobrado do fundo da caixinha.
Estava amarelado pelo tempo.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:18 am

Desdobrou-o com cuidado, pois percebia que as dobras cansadas e mais âmbar estavam quase rasgando.
A tinta da escrita se desmanchava, quase desaparecendo, embora ainda se pudesse ler o poema de Casimiro de Abreu.
Novamente o leu, apesar de já não precisar mais, pois já tinha decorado o texto.
Mas queria. Era o jeito de sentir Vinícius, seu único e grande amor da infância, da juventude, daqueles anos inocentes e tão bons que não voltariam nunca mais.
Quanta saudade! Saudade eterna.
Sentimento que jamais diminuiu em todos aqueles anos.
Ao contrário. Calava-se em seu peito e apertava muito, cada vez mais e mais.
E ela não desejava que fosse diferente.
Não queria esquecer Vinícius. Nunca quis.
Lembrava-se de seu rosto sereno, da sua pele rosada, de seus olhos vivos.
Parecia ouvir seu riso, as gargalhadas.
Jamais esqueceu sua voz.
Era como se ainda pudesse ouvi-lo depois de tantos anos.
Quando se deixou engravidar por Odilon, por conta dos seus planos ambiciosos, não se preocupou com a difamação, algo sério para a época.
Não se importou com seus pais, com os pais dele nem com qualquer conhecido.
O único peso de consciência e remorso que caiu sobre sua alma foi imaginar os sentimentos de Vinícius.
Nunca soube o que ele pensou...
Talvez todos os seus sonhos, dele e dela, tivessem se afogado com seu irmão Aldo.
Fechando os olhos, beijou novamente o anel e era como poder sentir na boca o gosto daquele único beijo de verdadeiro amor, com Vinícius, aquele beijo que jamais teve outro igual.
Onde ele estaria?
O que teria feito da vida?
O que teria acontecido se tivesse ficado com ele?
Seria traída como foi pelos dois maridos que teve?
Pois essa foi a maior dor de tudo o que sofreu.
Essas perguntas sempre ecoavam em sua mente, por mais ocupada e repleta com outras preocupações.
De seus sonhos com Vinícius, nada havia restado.
Todos estavam perdidos.
Reconhecia ter cometido muitos erros e por isso foi vítima de si mesma.
Mas não se perdoava, e acreditava que Deus jamais a perdoaria pelo que havia feito com Vinícius, com aquele amor único, puro e verdadeiro.
De todos os presentes que havia ganho na vida, aquele anel e aquela poesia, envoltos no simples e amarrotado papel de embrulho com a caixinha de papelão quase quebrada eram os mais valiosos, valorosos e caros.
Recordou-se de quando foi para o Rio de Janeiro, depois do nascimento de seu filho Antero, e voltou a estudar.
Procurou aprender sobre Casimiro de Abreu.
Diziam que ele não tinha linguagem rica ou estilo criativo, mas, para ela, Casimiro falava ao coração.
Cuidadosa, Vitória dobrou o papel onde estava escrita a poesia e o colocou de volta na caixinha.
Em seguida, tirou seu valoroso anel com delicadeza da mão enrugada, beijou-o novamente e o guardou.
Embrulhou a caixinha no mesmo papel de presente desbotado, amarrou o barbante que quase se desfazia e colocou tudo no pequeno porta-jóias em forma de baú, que ganhou de sua única e melhor amiga.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:18 am

Aquele baú e tudo o que havia dentro dele eram seu maior tesouro.
Logo pensou em como seria sua vida se não forçasse o destino e tivesse ficado com Vinícius.
Casada com ele, talvez não enfrentasse tanta humilhação, tanta dor.
É provável que tivesse ao seu lado um homem que realmente a amasse sem ser forçado a isso, como foi o caso de Odilon, sem interesse como foi com Isidoro.
A vida provavelmente fosse mais bondosa com ela.
Suas escolhas lhe trouxeram situações amargas e talvez desnecessárias.
Agora, como sempre fez, era o momento de continuar arcando com as consequências de suas opções. Não acreditava que teria paz no coração se abandonasse responsabilidades que eram suas.
Quando fechou o baú e colocou-o sobre a mesinha de cabeceira, viu um vulto parado e sobressaltou-se.
Desculpa! - sorriu Natália, com jeito meigo.
Não quis assustar a senhora.
Estava aí há muito tempo? - perguntou a sogra, disfarçando a surpresa.
Tempo suficiente para vê-la beijar o anel com tanto carinho e...
Desculpe-me por chegar assim tão silenciosa.
Apesar de ver o café passando, pensei que estivesse dormindo e não queria acordá-la.
É mesmo. Até esqueci que deixei o café passando.
Dona Vitória...
Sempre vi que a senhora guarda esse baú com tanto carinho.
Deve ter ganho de alguém muito especial.
Ganhei de uma grande amiga.
Dona Dulce, tia do Isidoro.
Ah... Sei.
Vendo-a curiosa, Vitória sorriu com simplicidade e decidiu contar.
O anel, ganhei do meu primeiro namorado.
Alguém de quem nunca vou esquecer e... - sua voz embargou.
Calou-se por um instante, depois falou, engolindo as emoções, buscando esconder as lágrimas tremeluzindo em seus olhos.
Eu gostei e gosto muito de quem me deu esse anel sem valor.
Traí esse rapaz para ficar com o pai do Antero.
Nunca mais soube dele.
A senhora nunca contou nada de sua vida, dona Vitória.
Gostaria tanto de conhecê-la melhor.
Tem coisa, filha, que a gente quer esquecer.
Principalmente as coisas erradas que fizemos.
Ficar lamentando não adianta.
Precisamos encarar a vida, a realidade, e cuidar de não errar mais, além de tentar corrigir o que der, pois tem coisa que não dá mais pra mexer.
Suspirando fundo, levantou-se.
Ao ver que a sogra não queria falar mais a respeito do assunto, Natália perguntou de modo alegre.
Bem... Seu café não está mais fresquinho.
Desligue a cafeteira e vamos lá em casa tomar café com a gente.
Hoje é sábado, a Mónica está em casa e eu fiz um bolo - riu gostoso.
Bem... ele se quebrou porque fui desenformar ainda quente.
Mesmo assim, é um bolo de laranja e está bem gostoso. Vamos lá?
Vamos, sim. Deixe só eu estender essa toalha lá fora.
Bem mais tarde, conforme planeado, Vitória, seus filhos e as noras se reuniram em volta da mesa da sala de jantar da casa de Antero.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:18 am

Natália serviu um suco gelado a todos e depois se acomodou ao lado do marido.
Vitória, calma, repetiu tudo o que aconteceu desde que sua irmã Marta foi procurá-la na empresa e também falou sobre seu encontro com Isidoro depois de tantos anos.
Então é isso.
O pai e a tia de vocês precisam de ajuda.
O Nilton viu as condições precárias em que eles vivem hoje.
Até nossos cachorros tem condições melhores que a deles.
A mãe tem razão - concordou Nilton.
Precisamos ajudar o pai e a tia.
Eu não gostei muito dessa ideia, não.
A senhora sabe minha opinião - comentou Márcio friamente.
O pai nunca foi um bom marido para a senhora nem um bom pai para nós, no entanto, apesar disso, sempre nos deu de tudo, boa casa, boas escolas, viagens...
Até a sem-vergonha da tia Marta chegar e acabar com a nossa família.
Não sei como consegue perdoar uma traição dessas.
Sua tia não acabou com a nossa família.
Nossa família sempre foi eu e meus filhos.
Seu pai nunca participou da nossa união e, infelizmente, o João Alberto e a Angélica também se desligaram de nós aos poucos.
Não pensem que um homem, uma mulher, mais filhos formam uma família.
Isso é mentira. Se não tiver união, respeito, carinho, amizade e amor, não se tem uma família.
Conheço gente que não tem o mesmo sangue, vive junto e forma uma família porque existem sentimentos nobres, respeito, compreensão, união.
Tive uma amiga, a Dulce, que não era nada minha e foi para mim mais do que minha mãe, mais do que minha família.
A tia Marta destruiu, acabou com o pouco de ligação que tínhamos como nosso pai - tornou Márcio.
Se não fosse por ela, bom ou ruim, estaríamos juntos dele, teríamos melhores condições de vida, poderíamos ter estudado e...
Você só está reclamando dos bens materiais que deixou de ter quando seu pai foi embora e não da falta, da ausência dele como companheiro e amigo dos filhos, porque isso vocês nunca tiveram - tornou a mãe firme.
Vai me dizer que aquela casa, os empregados, os carros, os nossos bens materiais, nossos colégios, não fizeram falta a ninguém?! - irritou-se Márcio.
Pra mim fizeram.
O silêncio reinou por algum tempo.
Vendo que Márcio relutava para entender, Vitória buscou explicações bem claras e, com sabedoria e tranquilidade, disse:
Sabe... Nunca contei muito para vocês sobre a minha vida, minhas ambições.
Hoje posso falar disso com lucidez, sem medo ou vergonha, pois só alguém que se conhece bem, só alguém que quer ser uma pessoa melhor, pode se sentir bastante segura para falar de si, não com orgulho, mas com conhecimento de seus erros e acertos, e ainda com o ideal de acertar mais.
A senhora teve força de vontade, deu muito duro e só fez o que era certo ou não teria chegado aonde chegou arrastando os filhos junto.
Filhos que poderiam ter sido um peso em sua vida.
Muitas mulheres em seu lugar poriam os filhos para serem pedintes ou os deixariam se envolver em pequenos crimes.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:18 am

Deixa a mãe falar, Márcio! - pediu Antero, inquieto.
Vitória ergueu o olhar, contemplou a todos e contou:
Nasci em uma família pobre, muito pobre.
Quando menina, não me importava muito com as dificuldades, pois não sabia o que era viver melhor.
Passei fome, frio.
Senti dores, sofri com coisas que hoje seriam simples de tratar como berebas, piolho, bicho-de-pé, viroses...
Ainda era pequena quando fui trabalhar em uma fazenda onde conheci uma vida melhor.
Daí eu quis ser rica, ter uma vida sem necessidades, sem trabalho duro.
Eu não amava o Odilon, mesmo assim me casei com ele.
Forcei o casamento com ele.
Vi que o Odilon era ambicioso e não poderia recriminá-lo, eu também era como ele.
O doutor Bonifácio e a dona Dulce tinham uma fortuna imensa e o Odilon estava de olho nela, assim como o Isidoro.
Mas o Odilon não conseguiu seus objectivos e morreu antes.
O Isidoro ficou de olho, não só na fortuna do tio, mas também em tudo o que o Odilon havia deixado para mim e para o Antero.
E eu... Bem, eu também ambiciosa, casei com o Isidoro por interesse.
Queria uma boa vida e nada mais.
Não fui feliz em nenhum dos dois casamentos.
Muito pelo contrário.
O doutor Bonifácio e a Dulce tinham um filho muito doente e igualmente ambicioso.
Ele se chamava João Alberto.
Morreu sem usufruir a fortuna que tinha.
Isidoro herdou tudo.
Casando comigo, juntamos os valores e bens materiais que tínhamos.
Éramos ricos. Ricos e infelizes.
Moramos em mansões infelizes, viajamos infelizes, tínhamos carros, motorista, empregados e éramos infelizes.
Não me lembro, nessa época de riqueza, de bonança, de ter dado um grande sorriso de satisfação, uma gargalhada de alegria verdadeira...
Não lembro de ter tido um sono tranquilo e acordado feliz por alguma expectativa boa.
Não tive um marido bom, fui traída por todas as mulheres que cruzavam o caminho dele, fui traída por prostitutas e... gente... como isso é duro de suportar.
Fiquei doente, mentalmente falando, pois uma tristeza infinita, que hoje chamam de depressão, tomou conta de mim.
Tenho certeza de que as energias inferiores daquelas mulheres baixas eram trazidas para dentro de minha casa, para a minha cama e, junto com a contrariedade que sentia, fiquei doente da pior maneira possível.
Por isso me separei do Isidoro, mesmo morando na mesma casa com ele.
Todo o dinheiro que tive, todas as jóias que tive, nunca me trouxeram alegria, muito menos felicidade.
Calou-se por instantes.
Logo prosseguiu calmamente:
Certa vez, antes de me casar com o Isidoro, a dona Dulce - sorriu como se recordasse da amiga com satisfação - me ouviu reclamar das condições que vivi quando criança.
Eu estava amargurada e desabafei com ela o que nunca tinha dito a ninguém.
Então a Dulce pegou um livro que eu nunca tinha visto antes, era O Evangelho Segundo o Espiritismo.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Abr 27, 2017 9:19 am

Ela pediu para eu ler o Capítulo V do livro.
Li e conversamos um pouco a respeito.
Eu, deixando-me dominar pela ambição, não conseguia ser madura e entender tudo aquilo.
Com o tempo, conforme as dificuldades iam surgindo, fui lendo e relendo, novamente e novamente...
Demorei muito tempo para amadurecer e entender bem o que aquele livro abençoado ensinava.
Pior é que demorou mais ainda para eu começar a pôr em prática tudo o que ele ensinava e que era bom para mim.
Longa pausa.
Ao me separar, quantas e quantas vezes me revoltei pelas dificuldades, quando um de vocês adoecia, quando o Isidoro não pagava pensão, não pagava o aluguel e o Antero arcava com todas as despesas que podia.
O que ele ganhava não era suficiente.
Quantas vezes não reclamei de ter que trabalhar naquele serviço duro na minha idade porque o safado, que gastou toda a minha herança e a do meu filho, não nos dava o que era de nosso direito e gastava tudo o que tinha com a safada que traiu a própria irmã, além de outras mulheres.
Como me carreguei de amarguras, de ódio, de rancor por conta de tudo isso.
Ela silenciou.
Os filhos e noras, sérios e atentos, nem piscavam enquanto ouviam.
Nunca a tinham visto conversar daquela forma sobre assunto tão íntimo, tão seu.
Vitória passou os olhos neles e prosseguiu:
Algumas vezes a Natália me viu nervosa por causa da revolta, da contrariedade que sentia, por causa de tudo o que eu sofria.
Então, um dia, peguei aquele livro que ganhei da minha amiga e entendi minha vida.
Tudo, exactamente tudo o que eu consegui por ambição, por conta de controlar o destino, eu havia perdido.
Comigo só ficaram os filhos amorosos que eu precisava e que precisavam de mim.
Os outros, apesar de amados, necessitavam ficar longe e aprender com o mundo, de alguma forma.
Então parei de me queixar da ingratidão.
Foi quando eu percebi que daquela ganância, do ganho fácil, nada restou e se eu quisesse ter algo na vida, viver bem como eu queria, teria de ser com meu próprio esforço.
Ter dinheiro, ser rica, ter uma mansão, só me fez ter uma vida acomodada e egoísta, e era essa a razão da minha infelicidade.
Tudo o que consegui antes, não veio do meu esforço, do meu trabalho.
Eu precisava ter ideias, sonhos e buscar, lutar e trabalhar para conseguir realizá-los.
Isso, só isso, sem ambição, poderia me trazer a alegria das vitórias conquistadas por mim, com meus esforços, e não supostas vitórias conseguidas de modo fácil.
Quando entendi isso, tudo ficou claro e as coisas começaram a acontecer naturalmente.
Certo dia - prosseguiu sem ser interrompida, - eu e a Natália pegamos algumas costuras para continuar ajudando no orçamento da casa.
Foi quando contei a ela que meu sonho, quando bem mais nova, era ter um ateliê, pois bordava e costurava muito bem.
Então ela me disse para nunca desistir de um sonho.
Eu disse que estava velha e ela respondeu que não existia velhice para a alma repleta de ânimo.
Nova pausa.
Coragem nunca me faltou.
Não me acomodei e fui à luta.
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Re: Movida pela ambição - Schellida / Eliana Machado Coelho

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