DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:37 pm

Não sei até hoje o porquê, mas me senti muito à vontade com ele.
Balancei a cabeça, dizendo que sim.
Ele começou a falar:
- Como é o teu nome?
- Meu nome é Marta...
- Muito prazer!
Meu nome é José Lourenço, mas todos me chamam de gaúcho, nasci no Rio Grande do Sul.
Sou casado, tenho quatro filhos.
Três guris e uma guria.
Ela tem quinze anos, deve ser essa a tua idade também, não é?
- Não, vou fazer dezoito.
Ele sorriu:
- Não parece! És muito menina!
Mas isso não importa.
Amo a minha família.
A minha mulher é uma prenda.
Quando me casei, já era caminhoneiro.
Por mais que ame a minha família, amo muito mais a minha liberdade.
Adoro viver na estrada!
Já percorri quase todo esse Brasil.
Meu caminhão carrega qualquer tipo de carga.
Vou de um lugar para outro.
Este Brasil é muito bonito!
A vida também é!
Não sei o que levaria uma pessoa a não mais querer viver. Tu sabes?
Percebendo que ele estava tentando descobrir alguma coisa e confiando nele respondi:
- Sei... A desilusão, a traição, o sofrimento.
- Isso tudo faz parte da vida.
Todos passam por esses problemas, mas nem todos querem morrer por isso.
Na vida tudo passa.
O sofrimento, com o passar do tempo, vai ficando cada vez mais distante.
Quando menos esperamos, outra coisa acontece que nos faz esquecer a anterior.
Essa é a vida!
Por isso, nada é desculpa para não se querer viver. Nada!
- O senhor está dizendo isso porque tem quatro filhos, ninguém os roubou...
- Roubar?! Se alguém fizesse isso, eu mataria!
- Pois foi isso que me fizeram.
Roubaram o meu filho!
Por isso estou desesperada.
Ele diminuiu a marcha.
Quase gritou:
- Roubaram? Como?
Isso não pode ser verdade.
- É verdade, sim...
Roubaram o meu João...
- Queres me contar como foi isso?
Não posso acreditar que alguém faria uma maldade dessa.
- Contei tudo o que havia se passado, ele ouviu em silêncio.
Quando terminei de falar, ele disse:
- Agora, estou quase entendendo a tua atitude, mas acredito que estás tomando um caminho errado.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:38 pm

Não deves querer te matar, mas, ao contrário, fazer tudo para encontrar o teu filho e denunciar aqueles que fizeram esse crime.
Deves voltar para tua casa.
Conversar com teus familiares e depois ir à polícia.
Esse é o caminho. Nunca se matar!
Deves viver para o dia em que tiveres novamente teu filho em teus braços.
- Não sei se a polícia vai fazer isso.
- Eles têm que fazer.
Esse tal de Paulo é um criminoso!
- Estava realmente nervoso.
Eu apenas pensava em tudo o que ele havia dito.
Realmente, tinha razão.
Eu não podia morrer, tinha que viver e, de alguma maneira, recuperar meu filho.
- O senhor tem razão.
Vou fazer tudo o que for possível para recuperar o meu filho!
O senhor foi um anjo que Deus me mandou!
- Ele soltou uma gargalhada:
- Anjo eu? Deves estar louca.
Posso ser tudo, menos um anjo!
- É um anjo, sim.
Eu estava desesperada.
Não acreditava em nada.
Com tudo o que me disse, voltei à realidade.
Vou viver! Nunca mais vou querer morrer!
Vou encontrar meu filho!
Não sei como ou quando, mas o encontrarei!
- Se as minhas palavras serviram para fazer com que mudasses de ideia, já estou feliz.
Se por isso me consideras um anjo, que seja, sou um anjo.
- Ele ria enquanto dizia isso.
Eu, realmente, estava dizendo a verdade.
Naquele momento, ele era mesmo um anjo que Deus mandou.
Viajamos o dia inteiro.
Já estava começando a escurecer, quando ele parou o caminhão, estranhei:
- Por que parou?
- Logo vai escurecer, estou cansado.
Vou preparar alguma coisa para comermos, depois vamos dormir, amanhã de madrugada seguiremos viagem.
- Fiquei muito assustada, até aí ele havia sido muito bom.
Conseguira até me fazer rir algumas vezes.
Mas, comer, dormir, onde?
Não havia nada por ali, a não ser mato e estrada.
Ele percebeu o meu espanto. Sorrindo, perguntou:
- Que é isso?
Estás com medo do quê?
- O senhor falou em comer e dormir, só não sei como poderemos fazer isso.
Não está pretendendo fazer alguma maldade comigo, está?
- Ele me olhou como se estivesse me vendo pela primeira vez.
Ficou furioso e, gritando, falou:
- Meu Deus do céu!
Quem estás pensando que sou?
Meu nome é Zé Lourenço!
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:38 pm

Sou gaúcho e cabra macho tche!
Tu és ainda uma guria, podias até ser minha filha!
Nunca que eu ia te fazer qualquer mal.
Por esta imensa estrada posso ter quantas mulheres quiser!
Nunca ia precisar de uma guria como tu.
Posso não ser aquele anjo, mas também não sou nenhum diabo!
Só vamos comer e dormir, nada mais!
Desce daí e vem me ajudar.
- Confesso que, naquele momento, senti muita vergonha.
Como pude imaginar aquilo?
Ele salvou a minha vida, deu-me uma nova esperança, tratou-me com carinho, realmente como se fosse sua filha.
Cabisbaixa, desci do caminhão, segui-o.
Ele abriu um compartimento, foi tirando panela colher, faca, prato e uma lata com carvão que acendeu em seguida..
Abriu outro compartimento, tirou arroz, farinha e um pedaço de toucinho.
Na panela, colocou pedaços de toucinho, alho, cebola, pimenta e sal.
De um garrafão, tirou água e encheu a panela.
As brasas estavam fortes.
Em menos de meia hora, a água secou.
Durante todo esse tempo, não disse uma palavra.
Percebi que estava mesmo muito bravo.
Cada vez eu sentia mais o quanto o havia ofendido.
Um pouco sem graça, disse:
- Seu Zé Lourenço, quero lhe pedir desculpas.
Nunca podia ter duvidado de sua amizade.
Salvou a minha vida...
- Ele me olhou por alguns minutos, sem dizer nada.
Aos poucos, seu rosto foi se transformando e logo expressou um sorriso:
- Está bem, tu tens motivos para duvidar e temer as pessoas.
Foi traída por alguém em quem mais confiava.
Não me conheces. Também tive minha dose de culpa.
Devia ter te avisado que o caminhoneiro, de vez em quando, faz a sua própria comida e que no caminhão sempre tem tudo o que é preciso para isso.
Existem muitas estradas como esta, sem uma viva alma por perto, onde não tem lugar para se comer.
Desculpe e fica calma, tudo passou, vais agora comer um arroz como nunca comeste em tua vida.
- Também sorri.
Ele pegou um prato e colocou arroz dentro.
Comi e, para ser sincera, nunca poderia imaginar que aquele arroz feito daquela maneira pudesse ser tão bom.
Não sei se era por estar com muita fome, mas me pareceu o manjar dos deuses.
Tentei outras vezes fazer igual, mas nunca consegui que ficasse bom daquela maneira.
Quando terminamos de comer, ele perguntou:
- Gostaste?
- Sim! Muito!
Está maravilhoso!
- Fico feliz que tenhas gostado.
Agora, vamos tentar dormir?
Amanhã bem cedo, seguiremos a viagem.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:38 pm

Estás longe da tua casa e eu muito mais da minha.
Tu vais para o Norte, eu para o Sul, por isso dentro de alguns dias teremos que nos separar.
Mas não te preocupes, tenho muitos amigos caminhoneiros, arrumarei algum para te levar ao teu destino.
- Temos que nos separar?
Precisa mesmo?
- Infelizmente, sim, estou há muito tempo longe de casa.
Estou voltando, mas deixa o teu endereço, quando estiver passando pelo Piauí, vou te visitar.
Já que sou teu anjo, não posso ficar sem ter notícias tuas.
Deu uma gargalhada. Eu também.
Eu estava triste e com medo por ele ir embora.
Sentia que, enquanto estivesse ao seu lado, nada de mal me aconteceria.
- Tenho medo de ficar sozinha.
- Já te disse que não precisas te preocupar.
Encontrarei alguém que vai te deixar em casa.
Sou conhecido e respeitado, ninguém vai ousar mexer em um fio do teu cabelo.
Fique tranquila.
- Se o senhor está dizendo...
- Podes ficar sossegada.
Agora, vou colocar uma rede aqui fora, fica presa nessa árvore e no caminhão.
Vou dormir aqui, tu dormirás na boleia.
- Vai dormir aqui fora?
- Vou, a noite está quente.
Estou acostumado. Vai para dentro.
Amanhã, vamos acordar cedo.
À tarde, quando estiver escurecendo, pretendo chegar a uma cidade, onde tem a pensão de um amigo.
Passaremos a noite lá.
Ali também é um lugar de encontro de caminhoneiros.
Vou encontrar alguém para te levar.
- O senhor é quem sabe.
Está bem, vou para o caminhão.
Subi na boleia, acomodei-me, dormi como uma criança.
Na manhã seguinte, ele me acordou.
Lavamos a boca e o rosto com um pouco da água do garrafão.
Seguimos viagem. Conversamos muito.
Ele falou de sua mulher e filhos.
Falei da minha família e da certeza que um dia ia encontrar o meu filho.
Em dado momento, o gaúcho disse:
- Sabes, Marta?
Estou aqui pensando em como é esta vida.
- Por que isso agora?
- Depois de tudo o que me contaste, de até ter me considerado um anjo, chego a pensar que a nossa vida é como um jogo de dominó. Conheces?
- Conheço, eu, meus primos e irmãos jogávamos sempre.
- Pois estou achando que a nossa vida é como esse jogo.
Ela vai de um lado para outro, dependendo da pedra que aparece.
- Confesso que naquele dia não entendi muito bem o que ele quis dizer, mas hoje, depois de muito tempo passado, compreendo e acredito que ele tinha toda razão, quando disse aquilo.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:38 pm

A nossa vida é mesmo um jogo. Hoje, com você aqui ao meu lado, fico pensando:
quantas voltas a vida deu para nos reunir novamente?
Mas vou continuar a minha história.
Como ele dissera na noite anterior, quando estava escurecendo, entramos em uma cidade.
Após uns dez minutos, ele estacionou o caminhão em uma esquina.
Descemos, ele pegou minha maleta e me entregou, depois pegou um saco que colocou nas costas.
Começamos a caminhar.
Dessa vez, eu não senti medo.
Caminhamos por duas quadras, entramos em uma rua, onde havia vários caminhões estacionados.
Ele parou em frente de uma casa grande, pintada de branco com as janelas de verde.
Entramos. Lá dentro, havia uma sala muito grande, onde muitos homens estavam sentados e comendo.
Um deles se aproximou, sorrindo:
- Gaúcho! Você voltou?
- Isso mesmo!
Como vai tudo por aqui?
- Na mesma vida de sempre.
Entre. Quem é essa moça?
- Enquanto entrávamos, o gaúcho dizia:
- Esta guria é uma amiga.
Estamos cansados e com muita fome, disse a ela que aqui tem a melhor comida do mundo.
- Seja bem-vinda, moça.
Depois que comer a minha comida, vai ver que ele não exagerou, é mesmo a melhor do mundo.
- Eu estava envergonhada no meio de todos aqueles homens que se levantaram para nos receber.
O gaúcho era mesmo muito conhecido.
Foi abraçado por todos.
Ele também parecia muito feliz por encontrar os amigos.
O dono da pensão disse:
- Tenho um bom quarto para os dois, fica ali naquele corredor, é o número vinte e dois.
- Ao ouvir aquilo, o gaúcho falou, bravo:
- Que é isso, amigo?
Estás me estranhando?
Esta guria está só me acompanhando na viagem!
Quero um quarto só para ela.
Não estás vendo que ela é ainda uma menina?
- O homem percebeu que não devia ter dito aquilo:
- Desculpe, gaúcho.
Sabe como é! Eu pensei...
- Pensaste demais!
Será que um homem não pode estar acompanhado sem segundas intenções?
- Já pedi desculpas!
Moça, vem comigo, vou lhe mostrar o seu quarto.
- Eu olhei para o gaúcho, que fez um sinal para que eu o acompanhasse.
Um pouco sem graça, o segui.
- Ali naquela porta é o banheiro, se quiser pode tomar banho.
O seu quarto é aquele ali. O gaúcho vai ficar naquele em frente ao seu.
Desculpe, moça, por aquilo que disse lá dentro.
Eu não sabia o que dizer.
Não podia acreditar que estava em uma situação como aquela.
Apenas sorri e entrei no quarto.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:39 pm

Era um quarto simples, com duas camas de solteiro, um guarda-roupa e, na janela, havia uma cortina branca estampada com flores vermelhas.
Larguei a maleta no chão, sentei na cama, fiquei olhando tudo e pensando:
Como vim parar em um lugar igual a este?
Como me encontro agora no meio de pessoas estranhas?
Será que vou conseguir chegar em casa?
Desesperada, comecei a chorar novamente.
Chorava muito, queria parar, mas não conseguia, os soluços saíam lá do fundo do meu coração, pensei:
Por que tudo isso está acontecendo comigo?
Que mal eu fiz a Deus para que ele permitisse tudo isso?
Estou sozinha, com pessoas estranhas!
Perdi meu filho e o homem a quem amava e em quem confiava.
Por que, meu Deus? Por quê? Eu não mereço...
- Chorei nem sei por quanto tempo.
As lágrimas secaram. Passei as mãos pelo rosto e pela cabeça.
Peguei a maleta, tirei de dentro dela uma saia, uma blusa e roupas de baixo.
Na pressa de ir embora, não peguei muita roupa.
Me esqueci de pegar dinheiro.
Não tinha um centavo, pensei:
Quando o gaúcho for embora, sem dinheiro, como vou conseguir chegar em casa?
- Ia entrar em desespero novamente, mas desta vez me contive e pensei:
Não adianta! Vou ter que seguir o meu caminho.
Quando saí de casa, viajei todos aqueles dias, não tive medo, pois estava ao lado de pessoas conhecidas.
Além do que, tinha um motivo.
Estava indo ao encontro do meu amor, e agora?
Que motivo tenho?
Nenhum, a não ser encontrar o meu filho.
Vou encontrar! Não sei quando, mas vou!
Vou continuar seguindo o meu caminho, seja tudo o que Deus quiser.
Agora, neste momento, estou com fome e precisando muito de um banho.
Peguei a minha roupa, abri a porta devagar, olhei o corredor, estava deserto.
Entrei rápido no banheiro.
Ele era pequeno e apertado.
Tranquei a porta.
Havia um caldeirão com água quente e uma bacia grande.
Eu já estava acostumada com aquilo.
No hotel da Geni, também era assim.
Sempre que a bacia e a água eram usadas, em seguida era trocada a bacia e colocada nova água.
Tomei um banho também rápido, pois não estava me sentindo bem naquele lugar.
Sequei-me com uma toalha, vesti minha roupa e saí correndo para o quarto.
Queria sair daquele lugar o mais rápido possível.
No quarto, terminei de secar meus cabelos.
Apesar de tudo, agora estava me sentindo muito melhor do que antes.
Fiquei lá dentro por alguns minutos, quando ouvi uma batida na porta.
Assustei-me:
- Quem é?
- Sou eu, o gaúcho!
Estás pronta para jantar?
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:39 pm

- Estou!
- Então, venha!
Abri a porta, ele me recebeu com aquele sorriso que agora eu já conhecia:
- Parece que estás muito bem!
O banho também parece que te fez bem.
- Estou muito bem, obrigada.
Nem sei como agradecer tanta bondade.
- Não tens nada para agradecer, não me disseste que eu era um anjo?
Só estou cumprindo o meu dever de guardião. Vamos?
Ele era sensacional, cada vez o admirava mais.
Estendi minha mão e segurei a dele.
Caminhamos em direcção à sala de jantar.
Sentamos, havia na mesa muita comida e, principalmente, muita carne.
O gaúcho, notando meu espanto ao ver toda aquela comida, disse:
- Estás achando que é muita comida?
- Estou.
- Pois não é!
Quando eu começar a comer, verás que não é muita.
Esta comida é muito boa, tu também comerás mais do que de costume.
Realmente, ele tinha razão, a comida era deliciosa.
Ele comeu e bebeu vinho.
- Viu, guria?
Não te disse que ias comer além do que estavas acostumada?
Agora, vai para o teu quarto e não saias de lá.
Daqui a pouco, irão chegar algumas moças para divertir os caminhoneiros.
Vai ter muito barulho, mas precisamos tentar dormir.
Entendi o que ele estava dizendo, eu já conhecia aquele tipo de moça a que ele se referia, pois muitas frequentavam o hotel da Geni, naquelas festas dos sábados à noite.
Eu conversava muito com elas.
Sabia que por detrás daquelas roupas extravagantes, alegria e rostos pintados, todas tinham a sua história e eram seres maravilhosos, que sonhavam encontrar um homem que as levasse para o altar.
O que elas queriam mesmo era ter uma casa, marido e filhos.
Não disse nada ao gaúcho, apenas balancei a cabeça, confirmando.
Ele se levantou, eu o acompanhei.
Levou-me de volta ao meu quarto.
Entrei, fechei a porta e deitei naquela cama.
Meu corpo cansado se acomodou perfeitamente.
Ali, sozinha, lembrei-me de você, quando o colocava para dormir.
Meus olhos novamente se encheram de lágrimas e meu coração começou a doer.
O desespero retornou.
Pensei: Não posso me conformar com a ideia de nunca mais ter o meu menino nos braços.
Nunca mais poder niná-lo para que durma!
Onde estará agora?
Será que está com frio ou fome?
Estará também sentindo a minha falta?
Meu Deus! Minha Nossa Senhora!
A Senhora também foi mãe!
Como pôde permitir que isso acontecesse comigo?
A Senhora me conhece!
Sabe que não mereço!
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:39 pm

Porquê? Porquê?
Ali, deitada naquela cama, com o coração em pedaços, com o peso do mundo inteiro em minhas costas, chorei muito.
Não sei por quanto tempo, mas, cansada, adormeci.
Sonhei que estava em um lugar com muitas crianças e que passava por entre elas, procurando por você.
Olhava rostinho por rostinho, mas não conseguia encontrar o seu.
Também no sonho eu estava desesperada...
Também no sonho eu chorava...
Agora, Eunice, ou melhor, Marta, relembrando de tudo, estava emocionada.
Lágrimas novamente corriam por seu rosto.
Walther tornou a se levantar, deu a volta e a abraçou com muito carinho e disse:
- Minha mãe...
Como suspeitei, assim que soube de tudo, a senhora sofreu muito, mas agora estou aqui!
Conseguiu me encontrar.
Nunca mais vamos nos separar! Fique calma...
Sabe que esse coração que sofreu tanto não está bem...
Agora nada de mal pode lhe acontecer...
Precisamos resgatar todo o seu sofrimento...
Ela correspondeu ao abraço e, beijando seu rosto, disse:
- Não se preocupe, meu filho, estou bem e ninguém morre de felicidade!
Só estou emocionada por relembrar tudo aquilo.
Mas estou muito bem.
Sempre esperei por este dia.
Sabia que chegaria e, graças a Deus, chegou...
- Foi também o que mais desejei desde que tomei conhecimento de que a senhora existia.
- Por isso, preciso lhe contar tudo.
Naquela manhã, saímos bem cedo.
Viajamos mais três ou quatro dias, não me lembro muito bem.
A estrada era solitária, não encontramos nenhuma cidade grande, onde houvesse uma pensão ou qualquer coisa parecida.
Comemos comida que ele preparava e dormimos, eu no caminhão, ele na rede.
Conversamos muito, ele era muito alegre e falador, chegamos até a cantar.
Eu sabia que ele queria me distrair, por isso fingi que estava bem, mas, na realidade, não estava, não conseguia esquecer você por um minuto nem ao Paulo.
Na última noite, ele me disse:
- Amanhã, vamos chegar a uma cidade, onde tem um posto de gasolina grande.
Lá também é uma parada obrigatória para os caminhoneiros.
Ali teremos que nos despedir.
- Por quê?
- Dali, irei para o Sul e tu, para o Norte, mas, como já te disse, não precisas te preocupar.
Já estás bem perto da tua casa, mais umas seis horas, chegarás.
Vou encontrar alguém que te levará em segurança.
- Sabe que estou com medo...
- Sei, mas não tem motivo algum para isso.
- Nunca mais vamos nos encontrar?
- Claro que sim!
Estou sempre por aqui, vais me dar o teu endereço e eu vou até tua casa quando estiver passando por lá.
- Vai mesmo?
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:39 pm

- Claro que sim!
Sou teu anjo, não sou?
Fiquei mais calma ao saber que estava perto de casa, sabia que não ia ser fácil ser recebida de volta, mas não tinha outra coisa para fazer.
Não tinha para onde ir.
Precisava contar para a minha família o que o Paulo tinha feito, precisava encontrar uma maneira de recuperar você.
Chegamos ao posto que ele havia dito.
Havia muitos caminhões estacionados.
Perguntei:
- Por que tem tantos caminhões aqui?
- Porque daqui a estrada se divide para muitas direcções.
Deste ponto, pode-se seguir para qualquer parte.
Há também quartos.
Por isso te disse que encontrarei alguém para te levar.
Ele estacionou, descemos.
Eu estava cansada, meu corpo todo doía, mas sabia que já estava perto de terminar.
Logo eu estaria em casa.
No posto, havia um pequeno restaurante.
Estávamos com fome, pois havíamos comido muito mal nos últimos dias.
Gaúcho me mostrou uma mesa e nós nos sentamos.
Um rapaz se aproximou e nos deu o cardápio.
Escolhemos a comida.
Gaúcho pediu uma cerveja:
- Hoje, posso beber, porque vou sair só amanhã.
Saindo bem cedo, quando for à tarde, antes de escurecer, já estarás em tua casa.
Tens que me prometer que nunca mais vais tentar te matar.
- Pode ficar tranquilo, nunca mais pensarei nisso!
Como você disse, a nossa vida é como se fosse um jogo.
De agora em diante, vou me lembrar sempre disso e só vou jogar com as pedras que vierem parar em minhas mãos.
- Boa, guria. É assim que se fala.
Um dia, a gente tem que ter pedras boas e assim também poderemos ganhar. Não é?
- Espero que sim...
- Podes esperar!
Um dia, quando as pedras boas chegarem em tuas mãos, vais te lembrar do que estou dizendo hoje!
- Acredita mesmo nisso, gaúcho?
- Claro que sim!
As pedras são distribuídas por alguém.
Esse alguém não pode só nos mandar pedras ruins!
Um dia, nem se for por distracção, mandará pedras boas!
- Quando terminou de falar, soltou uma grande gargalhada.
Eu também achei engraçado o modo como ele disse tudo aquilo.
Bom amigo...
Como ele previu, estou hoje me lembrando de suas palavras...
Hoje estou com pedras boas nas minhas mãos...
Hoje estou muito feliz...
- Minha mãe, esse homem era um sábio!
Tem certeza de que ele não tinha religião?
- Era um sábio, sim, e um verdadeiro anjo...
Ele disse várias vezes que não tinha religião, que só acreditava em Deus.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:40 pm

- Embora não tivesse religião, acredito que foi mesmo um anjo mandado por Deus.
Que aconteceu depois?
Após terminarmos o almoço, pediu que eu esperasse, e foi em direcção a alguns homens que conversavam.
Fiquei olhando de longe, abraçou e foi abraçado.
Conversou por alguns minutos.
Depois voltou e disse:
- Conversei com os caminhoneiros meus amigos, guria.
O único que vai para os teu lados é o Gilmar.
Ele disse que vai te levar sem problemas.
Só que vai sair amanhã bem cedo.
Hoje, como quase todos, bebeu demais.
Achei bom, porque sei que também estás cansada.
Agora que já comeste, vou arrumar um quarto para que possas passar esta noite.
Venha comigo!
Pegou a minha mão, me levantando.
Juntos, fomos até um senhor.
Gaúcho disse:
- Seu Jeremias, estamos cansados, precisamos descansar.
Antes que penses demais, precisamos de dois quartos.
O homem me olhou e depois para ele:
- Tem certeza, Gaúcho?
- Claro que sim!
Quero dois quartos!
- Está bem, não precisa ficar nervoso!
Só tem um problema, não tenho dois quartos vagos, só tem um, o menor de todos.
- Está muito bom.
Ela fica com o quarto, eu durmo no caminhão.
- Você é quem sabe.
Não posso fazer nada.
Eu estava cansada, mas sabia que ele estava muito mais que eu, pois havia dirigido muitas horas seguidas:
- Não preciso dormir no quarto, Gaúcho.
Você está muito cansado.
Dirigiu muitas horas!
- Que é isso, guria?
Já estou acostumado!
Tu ficas com o quarto e não se fala mais nisso.
Percebi que não adiantava dizer mais nada.
Ele estava decidido e eu, muito cansada para discutir.
Olhei para o homem, ele me mostrou o quarto que ficava ali mesmo, do lado da cozinha.
Enquanto eu me dirigia para lá, o gaúcho disse:
- Vou até o caminhão pegar a tua maleta.
Poderás tomar um banho e descansar.
Olhou para o homem e perguntou:
- Ela pode usar o banheiro, não pode?
- Claro que sim!
Venha, moça, vou lhe mostrar o quarto.
Enquanto o gaúcho foi para o caminhão, eu acompanhei o homem.
Entrei no quarto que, além de pequeno, não sei se por estar perto da cozinha, cheirava muito mal.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:40 pm

Mas eu não estava em condições de escolher.
Ademais estava mesmo muito cansada.
Sentei na cama, fiquei olhando em volta e pensando:
Ainda bem que estou perto de casa!
Só mais um dia!
Gaúcho bateu à porta.
Pedi que entrasse.
Ele, como sempre, estava sorrindo:
- Aqui está a tua maleta.
Puxa, guria! Este lugar é horrível!
Ainda bem que escolhi o caminhão.
- Está muito bom.
Nem sei como agradecer.
- Já disse que não precisas agradecer.
Estou fazendo porque quero, tu não estás me obrigando a nada.
Além do mais, sou teu anjo da guarda, não sou?
- É sim! E não poderia ser melhor!
- Agora, descansa, já estás quase chegando em casa.
Sabes que vais ter que reunir forças para enfrentar teus pais...
- Sei disso, mas vou conseguir convencê-los.
Ele saiu do quarto.
Abri a maleta, minhas roupas estavam todas sujas.
Durante a viagem, fui trocando e, na pressa, não tinha pegado muitas.
Só tinha agora, limpas, uma saia estampada e uma blusa branca abotoada na frente.
Com as roupas nas mãos, dirigi-me ao banheiro que o homem havia me mostrado antes de abrir a porta do quarto.
Entrei no banheiro.
Este era pior do que o outro, mas era melhor que nada.
Tomei um banho rápido, pois, como da outra vez, não estava à vontade no meio de tantos homens.
Entrei no quarto, deitei-me e adormeci sem perceber.
Não sonhei, talvez estivesse muito cansada para isso.
Ouvi uma batida na porta e o gaúcho me chamando:
- Guria! Está na hora de te levantares...
O Gilmar já está tomando café e vai sair logo.
Não é bom que o deixes esperando.
Abri os olhos, percebi onde estava.
Sentei na cama, dizendo:
- Vou estar pronta dentro de alguns minutos.
- Vou te esperar para tomarmos café juntos.
Assim que fores embora, irei também.
Ao ouvir aquilo, senti um aperto no coração.
Eu já havia me acostumado com sua presença.
Sabia que era um bom amigo e que nunca o esqueceria.
Ele se afastou, levantei e rapidamente me vesti.
Saí do quarto, fui até o banheiro.
Lavei meu rosto, penteei meus cabelos, saí.
Vi o Gaúcho que estava sentado ao lado de um outro homem.
Aproximei-me:
- Bom dia!
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:40 pm

O gaúcho respondeu:
- Bom dia, guria, este é o Gilmar.
Vai te levar até bem perto da tua casa, na estrada.
- Muito prazer, senhor.
- O prazer é todo meu, mas você é muito bonita!
- Obrigada.
- Gilmar! Podes parar!
Já te disse que ela é como se fosse minha filha!
Se acontecer alguma coisa com ela, vai te ver comigo!
- Pode ficar tranquilo gaúcho, não vai acontecer nada!
Vou levar essa moça direitinho.
Olhei com mais atenção para Gilmar.
Ele era um pouco mais jovem que o gaúcho.
Tinha cabelos pretos e um sorriso franco.
Senti que estaria bem em sua companhia.
Sentei e tomei o meu café.
Quando terminamos, nos levantamos.
O gaúcho me acompanhou até o caminhão do Gilmar.
Ele foi na frente para verificar se as cordas que seguravam a carga e os pneus estavam em ordem.
O gaúcho me disse:
- Agora, vamos nos despedir.
Quero que me dês teu endereço!
- Não sei escrever!
- Eu sei, sabes ao menos me dizer onde é?
- Claro que sei!
Expliquei onde ficava o sítio da minha família.
Ele anotou em um papel, me deu um outro com um endereço:
- Este é o meu endereço, se algum dia precisar, podes me procurar.
Moro em Porto Alegre, no Rio do Grande Sul.
Peguei o papel, dobrei e guardei no bolso da saia, junto com meu registo de nascimento.
Ele perguntou:
- Tens algum dinheiro?
- Não, na pressa esqueci de pegar...
- Não tenho muito, mas podes levar este...
- Não precisa!
Não disse que já estou chegando?
- Estás chegando, mas vais ter que comer alguma coisa durante a viagem.
Não quero que peças ao Gilmar.
Além do mais não estou te dando, é apenas um empréstimo.
Vou te visitar e espero receber de volta.
- Se for assim, vou aceitar.
Também não quero pedir ao Gilmar.
Ele já está fazendo muito em me levar.
Peguei o dinheiro, coloquei no mesmo bolso.
Ele pegou a minha mão e, apertando, disse:
- Agora que estás indo embora, vou te dizer que, ao te ajudar, também me ajudaste.
Estou com a minha vida toda enrolada.
Minhas últimas viagens não têm sido boas.
Vendo-te assim, desprotegida, percebi que minha família e, principalmente minha filha, ficam muito sozinhas.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:41 pm

Nunca estou presente.
Vendo o quanto precisas de alguém, resolvi que já trabalhei muito, já consegui um bom pé de meia.
Não vou parar de ser caminhoneiro, pois é a minha vida.
Não sei fazer outra coisa, mas de agora em diante só farei viagens curtas.
Estarei sempre perto de casa.
- Então, não vai voltar para me ver?
- Essa viagem eu farei, nem que seja só uma vez.
Vai com Deus, guria.
Sê feliz e espera as boas pedras que virão, com certeza.
- Obrigada, gaúcho.
Estarei esperando por você em casa.
- Quando eu chegar, quero ter boas notícias a respeito do teu filho.
- Também espero.
Não me contive e me atirei em seus braços e nós nos abraçamos com muito carinho.
Eu sentia que estava perdendo um amigo, que me ajudou sem saber quem eu era e sem querer nada em troca.
Ouvimos uma voz. Nós nos voltamos.
Era Gilmar que dizia:
- Pessoal, a conversa está muito boa, mas está na hora de irmos embora.
- Nós nos separamos, ele beijou a minha testa e se afastou.
Subi no caminhão, abanei a mão, não conseguia evitar as lágrimas que corriam sem parar.
Ele também abanava a mão.
Embora não estivesse chorando, percebi que seus olhos estavam tristes.
Eu começaria uma nova etapa da minha viagem, mas sabia que estava perto de chegar em casa.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:41 pm

ANJOS NO CAMINHO
Marta enxugou os olhos com as mãos, pois lágrimas caíam.
Walther estava emocionado, ouvindo aquela história:
- Que grande homem é esse gaúcho!
A senhora ainda tem o endereço dele?
- Sim. Nunca me desfiz dele.
Está guardado em uma caixa no guarda-roupa.
- Poderia me mostrar?
- Claro que sim.
Depois, eu mostro para você.
- Está bem, mas se estava tão perto de casa, por que não chegou lá?
- Porque a gente se propõe, mas Deus dispõe.
Eu não sabia, mas naquele tempo minha vida estava dando uma nova virada.
Chego mesmo a pensar que realmente existe uma força maior, que nos dirige para o nosso verdadeiro caminho.
- Agora estou também quase acreditando nisso.
Desde que cheguei a este país, algumas pessoas me falaram sobre isso, a princípio não acreditei, mas agora estou sendo levado a crer.
- É isso mesmo, meu filho.
Se voltar ao seu passado, verá que, como todas as pessoas, teve bons e maus momentos.
Verá, também, que tanto nos bons, como nos maus momentos, uma ajuda sempre veio, através de uma ideia ou de alguém.
Walther ficou olhando para um ponto distante.
Rapidamente repassou sua vida.
Percebeu que o que Marta estava dizendo era verdade.
Agora mesmo, se não houvesse atropelado Laura, somente passaria por aquela estrada e estaria longe, sem saber o que havia acontecido com sua mãe.
- Mas é preciso acontecer sempre uma coisa ruim?
Precisa sempre ser através do sofrimento?
Dos desencontros?
- Não sei...
- Por favor, continue!
Estou realmente muito curioso.
Depois que o Gilmar colocou o caminhão na estrada e o gaúcho desapareceu, fiquei olhando o caminho.
Gilmar era diferente do gaúcho, não falava, dirigia com os olhos voltados para a estrada.
Ao perceber isso, encostei-me bem perto da janela e fiquei apreciando a paisagem.
Ele só falava o necessário.
No princípio, estranhei, mas, depois, agradeci, pois também não estava com vontade de conversar.
Tinha muito em que pensar.
Primeiro, precisava chegar a casa e convencer meu pai a me receber de volta.
Depois, precisava encontrar uma maneira de recuperar você.
No íntimo, eu sabia que isso era quase impossível, pois você agora era filho deles e estava muito longe.
Mesmo que chegasse até você, como provaria que era meu filho?
Viajamos em silêncio.
Por volta do meio-dia, paramos em um pequeno posto de gasolina.
Eu estava com fome, Gilmar disse:
- Esta vai ser a última parada, vamos comer, mas não vamos nos demorar.
- Está bem, preciso mesmo comer algo, estou com fome.
Ele não respondeu, abriu a porta e desceu.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 7:42 pm

Eu fiz o mesmo.
Entramos em um pequeno bar.
Não tinha muita coisa para se comer, apenas alguns pedaços de carne seca boiando em um molho de uma aparência ruim, mas eu estava com fome.
Comi um pedaço envolvido em farinha.
Não era o suficiente, mas sabia que logo mais estaria em casa e poderia comer uma comida de verdade.
Quando terminei de comer, tirei do bolso o dinheiro que o gaúcho havia me dado.
Ao ver o meu gesto, Gilmar, furioso, disse:
- Nada disso!
Pode guardar o seu dinheiro!
Vou pagar toda a despesa!
- Obrigada, mas não precisa.
Tenho dinheiro.
- Já disse, guarde esse dinheiro!
Percebi que não adiantava discutir.
Guardei o dinheiro de volta no bolso.
Voltamos para o caminhão e seguimos viagem.
Já eram quase três horas da tarde, eu contava os minutos que faltavam para chegar a casa.
O sol estava muito quente, eu, muito empoeirada.
Mais uma vez, Gilmar falou:
- Daqui até onde você mora faltam mais ou menos duas horas.
- Isso é mesmo muito bom, não vejo a hora de chegar.
- Desde que o gaúcho me falou a seu respeito, estou com algumas dúvidas.
- Que dúvidas?
- Por quanto tempo você e ele estiveram juntos na estrada?
- Por cinco ou seis dias.
- Onde dormiram?
- Na estrada mesmo e em uma pensão.
- Ele me disse que não aconteceu nada, que você é uma moça de respeito, não aconteceu mesmo?
- Aconteceu o quê?
- Não se faça de tonta!
Vocês dormiram juntos, não dormiram?
- Não! Ele me tratou como se fosse sua filha!
Parou o caminhão bruscamente.
Olhou-me com raiva, disse gritando:
- Acha mesmo que vou acreditar em uma mentira como essa?
- Não é mentira!
Respondi assustada, pois notei que a expressão do seu rosto havia mudado.
- Ele lhe deu carona sem cobrar nada?
Amedrontada e muito assustada, respondi:
- Isso mesmo...
- Pois comigo vai ser diferente!
Você é muito bonita!
Agora que estamos chegando, já está na hora de me pagar!
Segurou-me pelos braços, tentando desabotoar minha blusa.
Fiquei desesperada, não queria nada com aquele homem.
Comecei a gritar, mas não adiantava.
Não havia alma viva por ali.
No meu desespero, quando ele tentou me beijar, mordi seus lábios, abri a porta, desci e saí correndo.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:08 pm

Corri muito, sem olhar para trás.
Meu coração batia forte, mas eu não parava de correr.
As lágrimas desciam em abundância por meu rosto.
Estava cansada, quase não conseguia respirar, mas não parava.
Sentia que ele me seguia.
Estava apavorada.
De repente, não consegui correr mais.
Minhas pernas se recusavam a obedecer.
Ajoelhei, sem fôlego.
Ouvi a buzina do caminhão.
Olhei e, aliviada, percebi que ele estava desviando, seguindo em outra direcção.
Respirei fundo e sentei no chão para descansar.
Minha maleta havia ficado no caminhão.
Mas não me importava, a única coisa importante, naquele momento, era que ele havia ido embora.
Quando senti que já havia descansado o suficiente, levantei.
Olhei à minha volta. Só enxerguei a estrada.
Não havia nenhuma casa. Comecei a andar.
O sol estava quente, eu sentia sede, mas não podia parar.
Tinha que chegar a casa, sabia que aquele era o caminho que precisava seguir.
Não sei por quanto tempo andei.
Mas não conseguia mais continuar.
Vi uma casa, estava aí no começo da estradinha.
Um homem capinava.
Gritei com as forças que ainda me sobravam.
Ele não ouviu.
Fui andando em sua direcção, precisava descansar, beber um pouco de água.
Sentia que as minhas forças não dariam para chegar até ele, mas, mesmo assim, continuei.
Outra vez meus joelhos se dobraram, outra vez fui obrigada a parar.
Só que, dessa vez, ele viu.
Eu estava do outro lado do riacho.
Ao me ver, começou a gritar:
- Nice! Nice!
Nice, venha cá!
Tem uma moça aqui!
Desfaleci, não vi mais nada.
Walther não se conteve.
Levantou, perguntando:
- Que tipo de homem era esse Gilmar?
Um canalha?
- Também senti muito ódio, mas hoje não.
Como dizia o gaúcho, ele foi só uma pedra ruim colocada em meu caminho para mudar a minha vida.
- Não sei se posso acreditar!
Era só uma pessoa sem carácter!
Nada além disso!
- Pode ser, mas, de qualquer maneira, mudou a minha vida.
Por causa dele, estou aqui hoje, rodeada de crianças, dando a elas todo o amor que não consegui dar a você.
- Pensando dessa maneira, talvez a senhora tenha razão...
Walther tornou a sentar, olhou para Laura, que não dizia nada, apenas deixava as lágrimas caírem.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:08 pm

Marta seguiu os olhos dele.
Percebeu que a filha chorava:
- Desculpe, minha filha, nunca lhe contei, pois não achei necessário.
- Não se preocupe, mamãe, estou só muito triste com tudo o que lhe aconteceu, mas foi assim que veio para cá e conheceu meu pai?
- Foi sim, quando abri os olhos, vi uma moça sentada ao lado da cama em que eu estava deitada.
Ela sorriu ao perceber que eu acordava.
Ofereceu-me uma caneca.
Ainda assustada, olhei para ela e para a caneca, perguntei:
- Que tem aí dentro?
- Pode beber sem medo, é chá de erva-santa, vai acalmá-la, mas beba devagar, parece que faz muito tempo que não toma água.
Ela era muito bonita, tinha olhos grandes que me transmitiram bondade e sinceridade.
Peguei a caneca e bebi devagar.
Devolvi a caneca.
Ela perguntou:
- Que aconteceu?
Parece que foi atacada.
Ao seu lado estava um homem, o mesmo que eu havia visto e por quem gritara.
Os dois eram ainda muito jovens.
Senti que estava protegida, contei tudo o que havia acontecido com o Gilmar.
Disse, também, que minha casa ficava por aqueles lados.
Disse que precisava encontrar o caminho até ela.
Ouviram-me em silêncio.
Quando terminei de falar, ela disse:
- Agora, procure esquecer tudo isso, já passou.
Não pode ir embora agora, está anoitecendo, durma aqui esta noite, amanhã bem cedo o Zé António vai tentar descobrir onde fica a sua casa.
Olhei pela janela.
Realmente, estava anoitecendo.
Estava muito cansada, não discuti, não sei se foi por causa do chá, adormeci em seguida.
No dia seguinte, acordei com o choro de uma criança.
Abri os olhos, a moça estava trocando a fralda de uma criança.
Imediatamente, lembrei-me do que havia acontecido no dia anterior.
Sentei na cama e disse, curiosa:
- Bom dia!
Não vi essa criança ontem.
- Bom dia! Dormiu bem?
Você não viu nada, estava cansada e assustada demais para isso.
- Dormi muito bem, preciso agradecer o que a senhora e seu marido fizeram para me ajudar...
- Não tem que agradecer nada, somos todos filhos do bom Deus, portanto, somos todos irmãos...
Ela terminou de trocar a criança e a colocou no peito para mamar.
A criança começou a mamar com muita força.
Olhei à minha volta, percebi que ela e o marido deviam ter dormido em uma rede que se encontrava em um canto do quarto.
Ao lado da cama em que eu estava sentada, outras duas crianças ainda dormiam.
Havia uma mesa sobre a qual ela havia trocado a criança, um fogão a lenha, feito de tijolos e com algumas barras de ferro que serviam para segurar as panelas, um armário onde eram guardadas as louças e os mantimentos.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:08 pm

Do outro lado, havia uma máquina de costura.
Tudo muito pobre.
Eu também tinha sido criada em uma casa pobre, mas nunca havia visto pobreza igual àquela.
Ela percebeu que eu olhava tudo. Disse:
- Está admirando a casa?
- Estou. Ontem não vi nada.
- Deve estar achando tudo muito pobre.
Não respondi e fiquei envergonhada.
Como ela notou o que eu estava pensando?
Continuou:
- Foi tudo o que conseguimos em seis anos de casados.
Nós trabalhávamos em um engenho de açúcar.
Meu marido conseguiu comprar este sítio, faz pouco tempo que nos mudamos para cá.
Mas eu não reclamo, gosto muito do meu marido e sei que ele sente o mesmo.
Tenho mais dois filhos, o maior com quatro anos, se chama José António, como o pai; o menor com dois, Manoel António, mas a gente o chama de Manezinho.
E esta é a Laura, está com dois meses.
Ao ouvirem aquilo, Walther se levantou.
Laura, esquecendo que a perna estava imobilizada, tentou se levantar e ficou em pé por alguns segundos.
Ele a segurou antes que caísse.
Ela perguntou, quase gritando:
- Mamãe! A senhora está dizendo que não é minha verdadeira mãe?
Está dizendo que sou filha de outra mulher?
- Desculpe, minha filha, nunca disse nada, pois, na realidade, amo você e aos seus irmãos como se fossem realmente meus filhos.
- Isso agora não tem importância, mamãe!
Estou muito feliz por saber que não sou sua filha verdadeira!
- Meu Deus!
Com tudo o que aconteceu, esqueci-me do sofrimento que passaram sem necessidade.
Devia ter dito logo no começo que não eram irmãos.
Walther abraçou Laura, agora com muito amor, sem culpa.
- Quer dizer que podemos nos casar?
Quer dizer que não somos irmãos?
Marta sorria ao ver a felicidade estampada no rosto dos filhos:
- Não são irmãos, podem se casar quando quiserem.
Eles se soltaram, Walther deu a volta novamente em redor da mesa, só que desta vez abraçou a mãe com mais carinho ainda, por toda a felicidade que sentia:
- Minha mãe!
Obrigada por toda a felicidade que está me dando neste momento.
- Eu é quem estou feliz por vocês, nada me fará mais feliz que ver os meus dois filhos unidos e felizes.
Deus é mesmo muito bom!
Obrigada por estas pedras boas que está me mandando agora.
Obrigada pela felicidade que estou sentindo neste momento...
Marta se levantou, foi ao encontro de Laura, abraçou-a com muito amor e carinho:
- Minha filha, sei que será muito feliz ao lado dele, já demonstrou que é um bom homem e que a ama de verdade.
Sempre ouvi dizer que "casamento e mortalha no céu se talham."
Vocês estavam destinados um para o outro!
Que Deus os abençoe.
Os dois, abraçados, sorriam sem parar.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:09 pm

Walther pegou um banquinho, colocou-o ao lado da cadeira em que Laura estava sentada, dizendo:
- Agora, vamos continuar ouvindo sua história, só que abraçados.
Não quero ficar longe dela nem por mais um minuto.
Não pode imaginar como sofri, quando pensei que ela era minha irmã, sofria mais ainda por não conseguir deixar de a querer como minha mulher.
Não sabia como seria a minha vida sem ela ao meu lado.
Marta se desculpou mais uma vez:
- Eu devia ter contado logo que me falaram que se amavam, mas depois de ter descoberto que era meu filho, aquilo que esperei toda a minha vida, voltei ao passado e realmente esqueci.
Desculpem...
- Não faz mal, agora que sabemos, está tudo bem.
Eu amei essa menina assim que a vi!
Acredito que estive esperando por ela toda a minha vida.
Laura, enquanto o ouvia falar, chorava e ria ao mesmo tempo.
Walther continuou:
- Agora que essa parte importante foi esclarecida, a senhora pode continuar?
Ainda estou curioso para saber por que mudou de nome e por que não foi para casa.
- Vou continuar.
Tentei me levantar, mas senti uma tontura, voltei a deitar.
Eunice se assustou:
- Que você tem? Está pálida.
- Não sei, estou tonta e sem forças, não consigo me levantar.
- Você está muito fraca.
Ontem, ficou muito tempo no sol e sem beber água.
Não se preocupe, fique aí.
Vou lhe trazer um pouco de café com leite.
Depois que comer, vai se sentir melhor.
Tentei novamente me levantar, mas não consegui.
Ela foi até o fogão, voltou com uma caneca e tentou me entregar, mas não consegui segurar.
Ela estava com você ainda mamando.
Colocou você na cama de solteiro junto com os meninos que ainda dormiam.
Abraçou-me por trás e me ajudou a levantar.
Com muita paciência, fez com que eu bebesse um pouco do café com leite.
Eu não conseguia beber.
Tomei apenas alguns goles.
Deite-me novamente.
Depois ela colocou a mão na minha testa, dizendo:
- Está com muita febre.
Vou lhe fazer um outro chá.
- Preciso levantar.
Tenho que ir para casa.
- Não vai conseguir assim como está.
Fique calma, volto já.
- Saiu, foi para o quintal, logo depois voltou, acompanhada por Zé António, dizendo:
- Ela não está bem.
Não está podendo nem se levantar, mas quer ir embora.
- Não tem que se levantar.
Pode ficar deitada, não precisa ir embora hoje.
Sua casa não vai sair do lugar.
Senti que, mesmo que quisesse, não conseguiria levantar, apenas sorri e fiquei tranquila.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:09 pm

Sentia que estava entre amigos e que nada demais me aconteceria.
Voltei a dormir.
Fiquei doente por mais dois dias.
Eunice cuidava da casa, das crianças e, agora eu também estava sendo tratada por ela.
Conversávamos muito.
Contei tudo o que havia se passado na minha vida.
Ela ouviu, depois, disse:
- Todos passamos por momentos difíceis.
Quando isso acontece, ficamos com medo de não suportar, mas tudo passa.
Você está sofrendo muito, mas Deus é nosso pai, não dá uma cruz maior do que aquela que a gente possa carregar.
Ela era assim, muito optimista e com uma fé que nunca vi igual.
Ela me dizia essas coisas, mas eu não conseguia entender por que tudo aquilo estava acontecendo.
No terceiro dia, ao acordar, percebi que estava sozinha em casa.
Levantei, saí para o quintal.
Vi Eunice e Zé António sentados à beira do riacho, as crianças brincavam perto deles.
Percebi que conversavam.
Voltei para casa, resolvi que já estava bem o bastante para ir para casa, só não sabia como fazer.
Não tinha ideia da distância em que ela estava.
Tinha muito medo de pedir ajuda a outro motorista.
A minha experiência com o Gilmar havia sido muito triste.
Estava sentada na cama, pensando em como faria.
Eunice e Zé António entraram:
- Bom dia! Já acordou?
- Bom dia, Nice.
Acordei e estou muito bem, penso que está na hora de voltar para casa.
- É sobre isso mesmo que queremos falar com você.
- Sei... Querem que eu vá embora...
- Nada disso, ao contrário, queremos que fique!
Precisamos de sua ajuda.
- Ajuda? Ficar?
Como? Por quê?
Zé António continuou:
- Precisamos falar seriamente.
Comprei estas terras do Zé Venâncio, um amigo que estava indo para São Paulo.
Precisava de dinheiro, vendeu-me por um preço muito bom.
Tinha um pouco guardado, aproveitei.
Isso já faz quase um ano.
Há alguns dias, ele me escreveu, dizendo que está muito bem, ganhando muito dinheiro no ramo de construção.
Sabendo que sou um bom pedreiro, quer que eu o vá encontrar e trabalhar com ele.
Garantiu que, em pouco tempo, ganharei o bastante para montar uma casa e levar a Nice e as crianças.
Disse que viveremos muito melhor do que aqui.
Fiquei olhando para ele, sem entender o que eu tinha a ver com tudo aquilo.
Ele continuou:
- Estou com muita vontade de ir.
Quero dar uma vida melhor para meus filhos.
Em uma cidade grande, as crianças vão poder ir à escola.
- Acredito que vai ser muito bom, só não estou entendendo em que posso ajudar.
- Desejo muito ir, mas não tenho coragem de deixar a Nice e as crianças sozinhas.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:09 pm

Já percebeu que moramos distante da cidade, não temos nem um animal para nos conduzir até lá.
Eu já tinha me conformado por não poder ir, mas quando você chegou, contou sua história, percebemos que talvez quisesse ficar aqui por um tempo.
Não sabe se seu pai vai aceitá-la de volta.
Fiquei pensando, enquanto ele continuava falando:
- Com você ao lado da Nice, irei tranquilo, não vai ser por muito tempo.
Logo virei buscar todos e, se quiser, poderá ir também.
Quando terminou de falar, os dois ficaram me olhando, ansiosos por saberem minha resposta.
Eu estava confusa, acabara de conhecer aquelas pessoas e queriam que eu ficasse com eles.
Entretanto, ajudaram-me, deram-me abrigo e comida em um momento que precisei.
Não sabia o que fazer.
Eunice percebeu, disse:
- Sei que mal nos conhece e por isso deve estar preocupada, não queremos que fique sem pensar.
Gostei de você assim que a vi.
Sinto que, ao seu lado, poderei ficar tranquila, esperando a volta do Zé António, mas, se não quiser, pode falar.
Não vamos condená-la.
Eu estava atordoada, não sabia o que fazer.
Contudo, o Zé António tinha razão.
Eu não sabia se meu pai ia me aceitar de volta.
Ali eu tinha um abrigo, quase uma família, tinha também as crianças, que me dariam a impressão de que estava com você, meu filho.
- Está bem, ficarei só até você voltar; depois vou tentar ir para casa.
- Se quiser pode fazer isso, mas em uma cidade grande e com dinheiro, terá mais facilidade para tentar recuperar seu filho.
Do modo como o meu amigo disse, logo terei muito dinheiro e uma casa.
Ajudarei em tudo o que for possível.
- Está bem, eu fico.
Eunice me abraçou, agradecida.
Eu retribuí o abraço.
Também tinha gostado dela assim que a vi.
Isso é uma coisa que ainda não entendi.
Por que gostamos de algumas pessoas assim que as conhecemos e de outras não?
Walther a interrompeu:
- Se o Isaías, a vó Zu ou o Lula estivessem aqui, diriam que é por causa das reencarnações, que são nossos amigos ou inimigos.
- Acredita nisso?
- Não sei, mas estou quase acreditando, muita coisa está acontecendo comigo.
Por favor, continue.
- Em menos de quinze dias, Zé António partiu.
Eu e Eunice ficamos sozinhas com as crianças.
Não teríamos problemas, pois, além da cabra que fornecia leite, havia também galinhas espalhadas pelo terreiro, uma roça de batata, mandioca e milho que os dois plantaram.
Antes de partir, Zé comprou uma saca de arroz, feijão e farinha.
Reservei o dinheiro que o gaúcho me deu para comprar alguma coisa que faltasse.
Ele disse que assim que recebesse o primeiro salário, mandaria pelo correio.
Tudo certo, ele partiu.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:09 pm

Eunice chorou, após se despedir do marido, mas sabia que a separação seria por pouco tempo, e que aquilo seria bom para seu futuro e o de seus filhos.
Ele ficou sem dar notícias mais de um mês.
Um dia, estávamos as duas na roça, quando um homem chegou em uma bicicleta.
Estranhamos, mas logo percebemos que era o carteiro.
Ele se apresentou, dizendo:
- Tenho esta carta para dona Eunice Bezerra de Souza.
- Nós nos olhamos.
Sabíamos que era notícia do Zé.
Eunice pegou a carta. O carteiro continuou:
- Meu nome é Mário.
Sou o único carteiro da cidade.
Vim até aqui trazer esta carta e avisar que a dona Eunice vai ter que ir até o correio levando este papel, porque chegou também uma quantia em dinheiro, mas só pode ser retirado lá.
Tornamos a nos olhar.
Não conseguimos esconder a nossa alegria.
- Vamos logo!
- Não se esqueça de levar um documento, vai ter que assinar.
Na hora, não entendi o porquê de a Eunice dizer:
- Só temos o registo de nascimento.
- Vai servir. Vai dar tudo certo.
- Muito obrigada por ter vindo aqui nesta distância.
- Não precisa agradecer, além de ser o meu trabalho, estou feliz que a notícia agradou as senhoras.
- Nem pode imaginar o quanto.
Ele sorriu, montou na bicicleta e foi embora.
Eunice rasgou o envelope, dentro tinha uma carta.
Ela começou a ler em voz alta.
"Querida Eunice:
Sabe que não sei escrever direito, por isso pedi para o meu amigo escrever.
Aqui tudo é muito diferente do que a gente pensou.
A cidade grande é muito complicada.
Não tem tanto dinheiro como o Zé Venâncio disse, além disso faz muito frio.
Estou trabalhando de pedreiro em um prédio de dez andares.
Nunca vi um tão grande.
O salário é pouco, mas como preparo a minha comida e durmo no alojamento da obra e fiz muita hora extra, do meu primeiro pagamento sobrou um pouco que estou mandando para você.
Estive pensando e acho que aqui o nosso futuro não vai ser muito melhor que aí.
Aí ao menos a gente tem um pedaço de chão.
Aqui, vai ser muito difícil conseguir um.
Com esse dinheiro que estou mandando, você vai poder tratar dos meninos.
O que sobrar você guarda.
Resolvi que vou ficar aqui só até conseguir um bom dinheiro.
Quando eu voltar, vou comprar uma carroça e um cavalo para a gente poder ir até a cidade.
Vou também comprar material de construção e arrumar a nossa casa e aí a gente vai ser muito feliz.
Estou com muitas saudades suas e dos meninos.
Mas sei que não vai ser por muito tempo.
A Marta ainda continua aí com você?
Atrás do envelope, tem o endereço para você me escrever e contar como tudo vai por aí.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:10 pm

Sem mais, um beijo cheio de saudade.
Zé António.
Quando ela terminou de ler, vi que estava chorando.
Não falei nada.
Estava imaginando o que ela sentia.
Eu sabia como era triste ficar longe de quem se ama.
Eu sentia muita saudade de você, meu filho.
Apesar da saudade, ficamos alegres, não só pelo dinheiro, mas por saber que ele havia cumprido o prometido.
Com o papel na mão, Eunice disse:
- Precisamos ir até a cidade receber o dinheiro, mas não podemos deixar as crianças sozinhas.
Estou pensando que você poderia ir no meu lugar, Marta.
- Como, ir no seu lugar?
Vai ter que mostrar algum documento!
- Foi por isso que disse ao carteiro que só tínhamos o registo de nascimento.
Não sei você, mas eu só tenho o meu registo de nascimento, nele não tem fotografia, você vai até lá e se apresenta como se fosse eu, não gosto de ir à cidade, muito menos de andar, prefiro ficar aqui.
- Para pegar dinheiro no correio, acho que vou ter que assinar o seu nome e eu não sei escrever!
- Não sabe?!
- Não! Só sei assinar mais ou menos o meu nome, mais nada.
- Então, vai ter que treinar.
Venha até aqui na mesa.
Rasgou um saco de papel que vinha com as compras, pegou um lápis, escreveu alguma coisa e me fez copiar várias vezes, até que eu soubesse fazer sem olhar.
Quando achou que estava bom, disse:
- Pronto! Agora é ir, assinar onde mandarem e pegar o dinheiro.
- Acha que vai dar certo?
- Claro que vai!
Ninguém me conhece e você vai apresentar o meu registo.
Sei que o Zé mandou a gente economizar e guardar o que sobrar, mas, quando pegar o dinheiro, passe na venda e compre um bom pedaço de carne.
Merecemos, não é?
Não consegui discordar dela.
Além disso, não vi nada de mal.
Fiz o que ela pediu.
Ela nunca tinha ido à cidade, nem eu.
Por isso, ninguém ia desconfiar.
Como não tinha condução, tive que andar mais ou menos uns quarenta minutos.
Enquanto caminhava, achei que ela estava com a razão quando disse que não gostava de andar, só não me disse que era tão longe.
Fui directo ao correio, apresentei o papel e o registo de nascimento.
Recebi o dinheiro e, como ela havia pedido, comprei carne, banha e sal.
Voltei para casa.
Quando cheguei, ela perguntou:
- Deu tudo certo, Marta?
- Claro que deu, aproveitei para conhecer a cidade, entrei na igreja, rezei, pedindo a Deus que nos abençoasse e que iluminasse o meu caminho, quando você for embora encontrar o seu marido.
- Parece que o Zé não quer mais levar a gente para lá.
Mas, se for para a gente ir, já decidiu se vai com a gente?
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:10 pm

- Ainda não sei...
Estive pensando, meu pai estava muito nervoso quando me expulsou, não sei se vai me aceitar, mas preciso tentar.
Quando o Zé voltar, antes de irem embora, vou até em casa.
Se ele me receber, vou ficar lá, mas se não quiser me aceitar de volta, vou com vocês e seja tudo o que Deus quiser.
- Não pense mais nisso, hoje vamos ter um óptimo jantar!
As crianças bem que estão precisando de um bom pedaço de carne. Vamos cozinhar?
Ela era uma pessoa espectacular, estava sempre rindo e de bem com a vida.
Só ficava triste quando pensava no marido e na distância que os separava.
Naquela noite, jantamos como há muito não fazíamos.
As crianças também comeram à vontade.
Quando terminamos de comer e colocamos as crianças para dormir, ela disse:
- Enquanto você foi para a cidade, fiquei pensando que não pode continuar sem saber ler nem escrever, Marta!
- Acha isso importante?
- Claro que é!
Resolvi que vou ensinar você, não sei muito, mas lhe ensinarei tudo o que sei.
Devo ter guardada em algum lugar uma cartilha com a qual eu aprendi.
- Acha que vou conseguir, Nice?
- Tenho certeza. Você é muito esperta!
Quando entender as letras, vai ver como é bom saber ler.
- Se você acredita, vou tentar.
- Hoje não, porque daqui a pouco vai escurecer e com lamparina não dá para ler, mas amanhã vamos começar.
Assim, quando o Zé mandar outra carta, não vou precisar ler em voz alta.
Você mesma vai ler.
Ela estava muito animada, bem mais do que eu.
Não achava que ler fosse importante.
No dia seguinte, depois de cuidarmos das crianças, fomos para a roça, fazíamos isso todos os dias.
Era importante regar, deixar tudo sem mato para que a batata, o milho e a mandioca crescessem bem.
Depois do almoço, ela pegou a cartilha, deu-me um lápis, um pedaço de papel e começou a me ensinar.
Encontrei muita dificuldade, não sei se por que não era mais criança ou por não achar necessário.
Mas ela não desistiu, continuou me ensinando.
Todos os dias, após o almoço, eu tinha que estudar.
Aos poucos, fui conseguindo juntar as letras e formar algumas palavras.
Fazia aquilo para agradar a Eunice, não por sentir vontade.
Durante cinco meses, uma carta e dinheiro chegavam.
Eu ia até a cidade buscar o dinheiro no correio.
Era também o dia em que a gente comia carne.
Na cidade, algumas pessoas já me conheciam como Eunice.
Sabiam que eu morava naquele sítio do Morrinho.
Eunice tinha um bom dinheiro guardado.
Em sua última carta, Zé disse que pensava em voltar mais ou menos em três meses.
Eunice ficou muito feliz.
Ela sabia que não iria mais embora, mas sabia também que nada era pior do que ficar sem o seu marido.
Marta parou de falar.
Lágrimas voltaram a descer de seus olhos.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:10 pm

Walther perguntou:
- Que aconteceu, mãe?
Do que se lembrou agora que a faz chorar?
Ela secou os olhos com as mãos. Disse:
- Realmente, foi tudo muito triste.
Mais uma vez, Deus colocou em minhas mãos pedras ruins, uma prova muito difícil...
- Que aconteceu?
- Vou continuar, minha filha.
O que vou contar agora tem muito a ver com você.
- Conte logo, por favor!
- Como acontecia todos os dias, naquela manhã fomos até a roça, que ficava a uns vinte metros da casa, lá perto do riacho.
Enquanto Eunice carregava você no colo, o Zezinho ia agarrado na sua saia.
Eu levava o Manezinho em um caixote, onde você sempre ficava.
Você tinha sete meses, ainda não andava.
Colocamos o caixote embaixo daquela árvore perto da água, onde seus irmãos brincavam.
De dentro da roça, eu e a Eunice ficávamos sempre olhando os três.
Ali havíamos capinado para que pudéssemos ver o que faziam.
Eunice entrou na roça.
Eu fui com um regador pegar água no riacho para molhar a roça.
Estava voltando com o regador cheio, quando vi a Eunice dar um grito e um pulo.
Em seguida, ela sentou, gritando muito.
Larguei o regador e corri para ela.
Os seus irmãos, que brincavam perto de onde você estava, também ouviram e correram para ela.
Ao chegar perto, ela disse:
- Foi uma cobra, Marta!
Foi uma cobra que me picou!
Tire as crianças daqui!
- Entrei em desespero:
- Como cobra? Nunca vimos uma cobra por aqui!
- Não sei, mas eu senti e vi quando ela fugia por ali!
Era preta e vermelha!
Tire os meninos daqui!
Ai! Está doendo muito...
Olhei para ver se ainda via a cobra, mas não a vi.
Peguei os meninos e levei para junto da caixa em que você estava.
Lá não havia cobra alguma, pois o lugar era limpo de mato.
Disse para seus irmãos:
- Vocês dois fiquem aí parados, junto da Laura.
Não saiam antes que eu mande. Não se mexam!
Voltei para junto da Eunice, que chorava.
Parecia que estava sentindo muita dor:
- Que vamos fazer, Nice?
Você precisa ser socorrida!
- Como? Não sei se vou poder andar até a cidade!
- Eu vou correndo e trago ajuda!
- Não pode deixar as crianças sozinhas.
A cobra pode voltar!
Não acho que estou em condições de cuidar deles.
- Não posso levá-los comigo.
Vou demorar muito para chegar até a vila!
- Preciso da sua ajuda para me levantar, vamos para dentro da casa.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

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