DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:10 pm

Ajudei-a a levantar-se, mas doía muito.
Ela, mesmo não querendo, gemia.
Eu estava em pânico.
Com muito custo, consegui levá-la e deitá-la na cama.
Não sabia o que fazer, mas sabia que alguma coisa tinha que ser feita.
Falei devagar, tentando esconder dela o meu desespero:
- Já sei o que vou fazer.
Vou buscar as crianças, coloco a Laura de volta no berço, levo os meninos comigo e vou o mais depressa possível até a cidade buscar socorro.
- É muito longe!
Os meninos não vão conseguir andar.
- Eu carrego os dois!
- Não vai conseguir...
- Claro que vou!
Preciso trazer ajuda!
Só tenho que preparar uma mamadeira para a Laura, depois, vou correndo.
Voltei correndo ao lugar em que os tinha deixado.
Trouxe os três para dentro da casa.
Preparei a mamadeira, enquanto ouvia os gemidos da Eunice.
Coloquei você no berço, dei a mamadeira, começou a mamar.
Eu sabia que, antes mesmo de terminar, já estaria dormindo.
Embora continuasse mamando na Eunice, agora já tomava, de vez em quando, leite de cabra.
A Eunice dizia que era pra você ficar mais forte.
Após tê-la acomodado, voltei-me para ela, dizendo:
- Agora, eu vou, Nice, fique calma, logo vou trazer alguém aqui para ajudá-la.
Estava saindo quando ela me chamou.
Voltei. Ela, chorando, disse:
- Marta, não sabemos que tipo de cobra me picou, nem se era venenosa...
Receio que, quando voltar, não estarei mais aqui...
Por isso, preciso que me prometa uma coisa...
- Não vou prometer nada!
Quando chegar ajuda, você vai estar aqui e vai ficar tudo bem!
- Não temos certeza, por isso tem que me prometer que se alguma coisa acontecer comigo, não vai nunca abandonar meus filhos, ao menos até o Zé António voltar...
- Não vai lhe acontecer nada!
Você vai estar aqui quando ele voltar!
- Prometa, por favor...
Ela segurava minha mão com muita força e pedia com lágrimas.
Para me ver livre e poder ir embora, disse:
- Está bem, Nice!
Não vai lhe acontecer nada, mas, se acontecer, eu prometo que cuido das suas crianças.
Agora, preciso ir. Estamos perdendo tempo.
Volto logo. Tente ficar acordada.
Ela largou minha mão, sorriu.
Peguei os meninos, coloquei um em cada lado da cintura, saí correndo.
Corri até chegar à estrada, mas eles, embora fossem ainda pequenos, pesavam e, como podem ver, sou pequena.
Na estrada, corri por mais alguns metros, mas logo comecei a ficar cansada.
Fui obrigada a diminuir meus passos.
Estava desesperada, sabia da gravidade da situação, mas não conseguia andar mais depressa.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:11 pm

Continuei andando, mas, muitas vezes, fui obrigada a parar e descansar, pois minhas pernas não obedeciam.
O Manezinho chorava, o Zezinho queria voltar para casa.
Eu dizia que não podia, que precisávamos buscar o doutor para cuidar da mamãe.
Eles pareciam entender a situação, eu continuava.
Naquele dia, levei mais de duas horas para fazer o percurso que, normalmente, eu levava quarenta minutos.
Durante o caminho, eu ia rezando muito, pedindo a Jesus e Nossa Senhora para que nada de mau acontecesse com a Eunice.
Finalmente, cheguei à praça da cidade.
Fui directo procurar o hospital, que não era como o de hoje.
Havia só um grande galpão, cuidado por quatro freiras.
O doutor Morais, recém-formado, era o único médico da cidade.
Entrei depressa, muito cansada e, chorando, não conseguia falar.
Uma das freiras me viu e perguntou:
- Que aconteceu?
Por que está chorando desse modo?
Não conseguia responder e falei com a voz trémula e baixa:
- Minha amiga!
Uma cobra!
- Não estou entendendo nada.
Tente se acalmar para poder falar direito.
Tirou as crianças dos meus braços e me fez sentar em um banco:
- Agora me conte o que aconteceu...
Ainda cansada e apavorada, contei tudo o que havia acontecido.
Quando terminei de falar, ela disse:
- Quanto tempo faz que ela foi picada?
Que tipo de cobra era?
- Não sei que cobra era!
Não sei quanto tempo se passou!
Só sei que ela está lá, precisando de ajuda...
- Está bem, vou chamar o doutor Morais, ele saberá o que fazer.
Fique aqui esperando.
Ele acabou de sair, não deve nem ter chegado em casa.
- Por favor, não demore.
Ela saiu e eu voltei a rezar.
Naquele momento, não podia fazer outra coisa.
Rezei muito, pedi, implorei, fiz até promessa.
Depois de um tempo que me pareceu uma eternidade, ela voltou, acompanhada pelo doutor Moraes.
Quando viu o meu estado, disse:
- Sabe ao menos como era a cobra?
Você a viu?
- Não sei, parece que era preta e vermelha.
- Preta e vermelha?
Percebi que ele ficou nervoso:
- Que foi, doutor?
- Pode ser uma coral.
- Que tem isso?
- Se for uma coral, receio que não poderemos fazer muita coisa por sua amiga...
- Não diga isso, doutor! Por favor...
- A minha charrete está aí fora, vamos o mais rápido possível.
Pegou as duas crianças, a freira me ajudou a subir, saímos correndo.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:11 pm

Sentei com as crianças no colo.
Ele fez com que o cavalo corresse muito.
Chegamos. Parou a charrete.
Descemos e corremos para casa.
Quando estávamos chegando, ouvi você chorando, desesperada, Laura.
Corri mais ainda.
A Eunice estava deitada no chão, ao lado do berço.
Deve ter tentado atendê-la, quando começou a chorar, mas não conseguiu e caiu.
Corremos para ela.
Doutor Morais a recolocou na cama, enquanto eu pegava você no colo para que parasse de chorar.
Ela ainda estava viva, mas desmaiada e, pela expressão do rosto dele, percebi que nada iria adiantar.
Recomecei a chorar.
Ele examinou o local da picada, dizendo:
- Deve ter sido mesmo uma coral e para ela não temos antídoto.
Sinto muito, mas acredito que ela não vai resistir...
- Não pode ser!
O senhor tem que fazer alguma coisa! E médico!
- Sou médico! Não sou Deus!
- Fui a culpada!
Se tivesse corrido mais, teria chegado a tempo...
- Não se culpe!
Nada iria adiantar.
Eunice abriu os olhos, olhou-me.
Disse bem baixinho:
- Não se esqueça da promessa que me fez...
- Não vou esquecer, nunca, mas você vai ficar boa.
Sorriu e tornou a fechar os olhos.
Daí a alguns minutos, o doutor disse:
- Terminou... Ela se foi...
- Eu ouvi, mas não entendi nem queria entender.
Fiquei olhando para ele e para ela.
Você, Laura, chorou em meus braços.
Voltei à realidade, pois tudo aquilo me parecia um sonho.
- Que o senhor está dizendo?
- Que ela se foi, não podemos fazer mais nada.
Embora eu não quisesse, fui obrigada a entender e aceitar.
- Meu Deus, o que vou fazer agora?
Por que isso tinha que acontecer?
O doutor deixou que eu chorasse.
Quando achou que já era o bastante, disse:
- Agora, precisamos cuidar do enterro.
- Enterro?
Como vou fazer sem ela?
- Vai continuar cuidando dos seus filhos.
Ela se foi, mas as crianças continuam aqui e precisam muito de você.
Onde está o seu marido?
Ao ouvir aquilo, lembrei-me da promessa que havia feito.
Fiquei com medo que, se ele soubesse que eu não era a mãe, me tirasse as crianças.
Rápido, respondi:
- Ele está em São Paulo, mas vai voltar logo.
- Acredita que vai poder ficar aqui sozinha até ele voltar?
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:11 pm

- Vou... Vou sim...
- Qual era o nome dela?
É sua parente?
Naquele momento, com medo de perder as crianças e sabendo que o Zé voltaria logo, respondi:
- O nome dela é Marta.
Ela apareceu aqui um dia e foi ficando.
Não é minha parente, mas eu gosto muito dela.
- Sabe onde mora a família?
- Não...
- Tem algum documento dela?
- Tenho só o registo de nascimento.
- Entregue-me, vou levar para a cidade, depois alguém virá buscá-la.
Eu estava meio tonta, parecia que tudo aquilo era um sonho.
Peguei o meu registro de nascimento e dei a ele.
Foi embora, dizendo:
- Vai ter que ficar aqui com ela até eu voltar com alguém.
Acha que pode?
- Posso, sim...
Preciso alimentar as crianças...
- Faça isso, voltarei logo.
- Está bem...
Ele saiu, eu fiquei ali parada, olhando para Eunice que parecia dormir.
Não estava querendo aceitar a realidade.
Comecei a falar:
- Você está muito bonita...
Quando o Zé António voltar, vai ficar feliz por vê-la.
Ele também está com muita saudade.
- Você, Laura, começou a chorar novamente, trazendo-me de volta à realidade.
Tornei a olhar para Eunice, só que desta vez não tive como me enganar.
Ela estava morta mesmo e eu, com vocês três.
Eu, que havia rezado tanto, naquele momento me revoltei e gritei:
- Deus! Como deixou isso acontecer?
Ela não podia ter morrido!
Tem três crianças!
Por que não me levou no lugar dela?
Eu, que não tenho mais nada.
Já me tirou tudo!
E, agora, a minha amiga. Minha irmã!
Deus! Onde o Senhor está?
Não ouvi resposta alguma.
Com você no colo e chorando muito, fui até o fogão e preparei sua mamadeira.
Os meninos também estavam com fome.
Aqueci um pouco de comida e dei para eles.
Não consegui comer nada, tinha como um caroço na garganta.
Estava sentindo muita tristeza.
Meu coração estava doendo por aquela perda.
Marta parou de falar.
Não conseguia continuar.
Lágrimas corriam por seu rosto.
Laura também chorava e Walther fazia um esforço imenso para não demonstrar seus sentimentos.
O momento era de muita emoção.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 08, 2017 7:11 pm

Laura disse baixinho:
- Pobre mãe, que pena não a ter conhecido...
- Deve sentir mesmo, minha filha...
Ela era uma pessoa especial...
Sentiria muito orgulho de você e de seus irmãos...
- Da senhora também, pois cumpriu a sua promessa.
Além de cuidar muito bem de mim e de meus irmãos, cuidou e ainda cuida de muitas crianças.
- Sim, mas para isso tive que cometer um crime...
- Crime? Que crime?
Sem entender muito bem o que fazia, naquele momento eu tomei uma falsa identidade.
Permiti que sua mãe fosse enterrada com o meu nome.
Para todos os efeitos, passei a ocupar o lugar dela.
- Foi obrigada!
Tinha que cumprir a promessa!
Precisava nos proteger!
- Tudo isso é verdade, hoje eu sei, mas eu poderia ter dito a verdade.
Ninguém iria me tirar vocês.
Walther levantou da cadeira, foi até a porta e ficou olhando para o céu.
Elas perceberam. Marta perguntou:
- Meu filho, que aconteceu?
Por que se levantou?
Não quer ouvir o resto da história?
- Quero! Só estou pensando como foi inútil toda a procura do Paulo.
Por que ele nunca teve a ideia de procurar nos cartórios das cidades vizinhas?
Fatalmente, chegaria até aqui e encontraria um atestado de óbito.
O que mais me intriga é que eu também pensei em várias formas de a encontrar, mas por nenhum instante essa ideia passou por minha cabeça.
- Talvez tenha sido porque vocês nunca me sentiram morta.
Por isso não procuraram o atestado.
Ele voltou a se sentar:
- A senhora deve ter razão, realmente, sempre que a julgava morta, eu afastava esse pensamento.
Todavia, se tivéssemos encontrado o atestado, nunca mais a procuraríamos e eu, provavelmente, não estaria hoje aqui.
Só vim na esperança de encontrá-la.
Mas, por favor, continue.
Marta continuou:
- Eunice estava ali deitada com os olhos fechados.
Aproximei-me dizendo:
- Não quero aceitar...
Você não pode ter morrido dessa forma....
Que vou fazer?
Como vou cuidar sozinha das crianças?
Naquele momento, em meu desespero, pareceu vê-la ao meu lado, dizendo:
- Deus não dá uma cruz mais pesada do que aquela que a gente possa carregar.
Ao me lembrar do que ela sempre dizia, senti como se uma brisa suave me envolvesse.
Ela continuava ali deitada, parecendo que dormia.
Pensei: Não adianta mesmo eu ficar com medo e me lastimar.
O que tenho a fazer agora é deixá-la bem bonita.
Vou pegar seu vestido azul, aquele de que tanto gostava.
Levantei, peguei o vestido.
Vocês três dormiram logo depois que dei o almoço.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:22 pm

Peguei um balde, fui até o riacho, trouxe água.
Coloquei em cima do fogão para que esquentasse.
Dei um banho nela, vesti o vestido azul, penteei seus cabelos.
Ela ficou linda.
Nada mais poderia fazer por aquela amiga que eu conhecia há tão pouco tempo, mas que era muito querida.
Agora, você está pronta para encontrar com Deus.
Pode ir tranquila, não vou deixar seus filhos sozinhos até que o Zé António chegue.
Ele vai saber o que fazer.
- Fiquei ali olhando e conversando com ela, até que o doutor Morais voltou, acompanhado por quatro homens.
Um era o delegado e os outros, seus auxiliares.
Entraram, enrolaram o corpo de Eunice em um lençol branco que trouxeram.
Ela foi levada até uma carroça que estava parada do outro lado do riacho.
Naquele tempo não tinha ainda essa pequena ponte.
Existia só um tronco de árvore por onde se passava.
Eu os acompanhei.
- A senhora quer ir junto?
- Para onde vão levá-la?
- Para o cemitério, será enterrada imediatamente.
- Não sei o que fazer, não posso deixar as crianças sozinhas, se as levar, como voltarei depois com os três?
- A senhora é quem sabe, infelizmente, poderei levá-la, mas, como sabe, não posso ficar muito tempo longe do Posto de Saúde.
Não poderei trazê-la de volta.
- Obrigada, doutor. Mas não posso ir.
Afinal, acredito que será melhor para as crianças não presenciarem o enterro.
Eles são ainda muito pequenos.
Vou ficar aqui, ela já deve estar na companhia de Nossa Senhora.
- Está bem, tome cuidado com essa cobra, ela ainda deve estar por aí.
Estremeci:
- O senhor acha mesmo?
- Claro que sim.
Fique atenta, quando estiver andando por esses matos.
Com a casa, não precisa se preocupar, pois ela também tem medo de gente.
Mas fique sempre atenta e cuidado com as crianças para que não entrem na roça sozinhas.
Quando não estiver em casa, deixe a porta e a janela trancada.
- Está bem, vou fazer isso.
Foram embora, abanei a mão para minha amiga, irmã, que estava indo para sempre.
Quando sumiram na estrada, voltei para casa.
Vocês continuavam dormindo.
Olhei para os três, pensando:
Dormem como anjos que são, não imaginam a grande perda que estão sofrendo neste momento.
Preciso pensar no que vou fazer daqui para a frente.
Tomei um gole de café, não tinha comido nada, também não tinha vontade alguma de comer.
Fiquei com a caneca em minha mão, olhando tudo em minha volta.
Sem saber por onde começar.
Não sei, meus filhos, mas parece que eu estava sendo guiada por uma força qualquer.
Meu olhar foi até o armário, onde estava a cartilha.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:22 pm

Ao vê-la, tive uma ideia:
Vou escrever para o Zé António, pedindo que volte!
Peguei a cartilha e um papel de saco.
Comecei a treinar, pois em uma das vezes que fui ao correio, comprei envelopes e um caderno, onde a Eunice escrevia e mandava cartas para o marido.
Só que eu não havia aprendido o suficiente, conhecia as letras, conseguia formar uma ou outra palavra, mas não sabia como escrever uma carta.
Nunca me arrependi tanto como naquele momento por não ter prestado mais atenção às aulas que ela me dava.
Bem devagar, fui juntando uma letra com outra, formei algumas palavras.
Aos poucos, consegui escrever.
Zé António, volta logo. A Nice morreu.
Escrevi só isso, não conseguia nem sabia escrever mais.
Nem sei se escrevi certo, mas era tudo o que podia fazer.
Copiei, de uma das cartas que o Zé António havia mandado, o nome dele e o endereço.
Coloquei a carta dentro do envelope.
Pensei: Pronto, agora já é um começo, quando ele chegar, vamos ver o que a gente vai fazer.
No mesmo instante, desesperei-me novamente.
Pronto nada!
Como vou levar esta carta até o correio?
Não posso deixar as crianças sozinhas!
Meu Deus! Parece que tudo está dando errado.
Por que está fazendo isso comigo? Por quê?
Mais uma vez me revoltei contra Deus.
Ele estava sendo implacável comigo.
Tudo de ruim estava acontecendo, eu estava de mãos atadas, sem poder fazer nada.
Depois de maldizer muito, pensei:
Não tem jeito, vou ter que esperar até quando o carteiro vier trazer outra carta do Zé António.
Aí eu dou esta carta pra ele colocar no correio.
É isso mesmo!
Só preciso esperar, enquanto o carteiro não chega vou continuar cuidando das crianças.
Naquela noite não conseguia dormir.
Tratei das crianças, eram muito pequenas para perceberem a ausência da mãe e já estavam acostumadas comigo.
O Zezinho, por ser maior, foi o único que sentiu a falta dela.
Quando perguntou, eu respondi que ela tinha ido encontrar com o papai, mas logo os dois voltariam juntos.
Ele ficou um pouco triste, mas era criança, adormeceu.
Eu fiquei olhando para ele, imaginando que era você, meu filho.
Meu querido João, que eu não sabia onde estava, mas ele e os irmãos estavam ali e precisavam da minha protecção.
Chorei muito ao lembrar tudo o que havia acontecido.
Foi tão rápido que eu nem estava acreditando que era verdade.
Pensava que, a qualquer momento, veria a Eunice sorrindo e brincando como sempre.
Meu coração se apertava, não entendia por que Deus havia permitido que uma coisa como aquela acontecesse.
Não podia ter feito aquilo com ela e com aquelas crianças que não tinham culpa de nada nesta vida.
Nem eu! Nunca fiz mal algum!
Por que tudo aquilo estava acontecendo comigo?
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:23 pm

Mais uma vez me revoltei:
Não! Deus não existe!
É tudo mentira o que sempre aprendi a respeito Dele!
Revoltada e com lágrimas nos olhos, adormeci.
No dia seguinte acordei, senti a realidade.
Estava sozinha mesmo!
Ia começar a me lamentar, quando olhei para o meu lado.
Vocês dormiam como anjos.
Sabia que logo acordariam e precisavam ser alimentados.
Levantei, tinha muita coisa para fazer.
Precisava alimentar e trocar as crianças, ainda tinha que cuidar da roça.
Já estava acostumada, fazia aquilo todos os dias, só que sempre ao lado da Eunice, mas agora eu estava sozinha.
Não sabia se ia conseguir.
Levantei, avivei o fogo, coloquei uma chaleira com água para ferver.
Saí para o quintal.
O dia estava lindo.
Pensei: Tudo continua, a vida continua.
Também tenho que continuar...
Pensei em Eunice e na promessa que havia feito.
Vou cumprir, minha amiga... Vou cumprir...
Seus filhos nunca vão ser abandonados.
Assim que o Zé António voltar, ele vai encontrar uma solução.
Se for preciso, vou continuar aqui até que eles cresçam.
As crianças logo acordaram.
Troquei-as e alimentei-as, brinquei com elas como fazia todos os dias.
A vida seguia normal, só faltava Eunice.
Sempre que me lembrava dela, sentia vontade de chorar, mas como se houvesse alguém invisível me ajudando, logo um de vocês fazia qualquer coisa que chamava minha atenção e eu, sem perceber, mudava o meu pensamento.
Fiquei com medo de que a cobra voltasse.
Todos os dias, quando saía de casa, trancava bem a porta e a janela.
Andava sempre com um pedaço de madeira na mão ou no chão, bem perto, ao alcance da minha mão.
Se a cobra aparecesse, eu a mataria sem dó.
Quando voltava para casa, antes de levar as crianças para dentro, eu entrava e olhava tudo.
Assim que entrava, tornava a fechar a porta.
Nunca mais vi a cobra.
Não sei para onde ela foi.
Fazia vinte e poucos dias que Eunice havia morrido e eu, escrito a carta.
Um dia, após ter dado almoço para as crianças, estava fora da casa tomando um pouco de café.
Vi a bicicleta do carteiro se aproximando.
Meu coração bateu mais forte.
Finalmente, ele apareceu!
Agora, vou poder mandar a carta!
O Zé vai voltar.
Entrei em casa, peguei a carta e saí correndo para encontrá-lo.
Ao me ver, abanou a mão.
Atravessei correndo o tronco sobre o riacho e o encontrei.
Ele desceu da bicicleta, dizendo:
- Tenho outra carta para a senhora e o dinheiro também está lá no correio.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:23 pm

Peguei a carta, dizendo:
- Obrigada, mas não pode imaginar o quanto estou feliz por ver o senhor.
Preciso de um favor seu!
- Pode pedir, farei tudo para ajudar a senhora.
Ia entregar a carta, quando olhei para aquela que ele me entregou.
Não sabia ler direito, mas o nome do Zé António eu havia decorado e aquele que estava na carta não era o dele.
Falei:
- Esta carta não é do Zé António! De quem é?
Ele pegou a carta, olhou o remetente. Disse:
- Não é mesmo!
Quem mandou foi um tal de Zé Venâncio.
- Zé Venâncio?
Por que o Zé António não escreveu?
Peguei a carta novamente em minhas mãos.
Estava muito nervosa.
Entreguei a carta de volta:
- Por favor, seu Mário, não sei ler direito, assim nervosa como estou é que não vou conseguir mesmo!
Pode me fazer o favor de ler?
Ele pegou o envelope, rasgou, tirou de dentro um papel.
Começou a ler.
Dona Eunice:
Com muito pesar, estou lhe enviando esta carta.
A notícia que tenho não é muito boa, mas sou obrigado a lhe contar.
O Zé António caiu do alto da construção, foi socorrido logo, mas não resistiu.
Sinto muito, mas ele morreu.
Estou mandando para o correio o último salário e o pouco de dinheiro que ele tinha guardado no alojamento.
Se a senhora quiser, pode me escrever para o endereço que está no envelope, farei tudo o que puder para ajudá-la.
Sem mais, enviando os meus sentimentos.
José Venâncio.
Ele terminou de ler, devolveu-me a carta.
Como eu, também estava abismado:
- Sinto muito, dona Eunice.
Como isso foi acontecer?
Que vai fazer agora?
Com a carta na mão, comecei a chorar:
- Não sei! Não sei!
Por que nada em minha vida dá certo?
Vendo que eu chorava, desesperada, ele disse:
- Dona Eunice, não fique assim...
Deus sempre protege seus filhos!
Ele vai dar um jeito de ajudar a senhora...
- Deus? Que Deus?
Ele não existe!
Se existir, não sabe que eu existo!
Nunca esteve ao meu lado e nem me protegeu!
Até agora, só tirou tudo o que eu tinha!
- Não é assim, ele lhe deu seus filhos!
- Meus filhos?
Ia dizer a ele que não eram meus filhos, mas me calei.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:23 pm

Percebi que aquele não era o momento para contar a verdade.
Estava desorientada, mas me lembrei da promessa que havia feito.
Ele continuou:
- Sim, seus filhos.
São crianças lindas e precisam da sua protecção.
Sei que está nervosa e assustada, mas Ele dará um jeito.
Acredite nisso!
- Que jeito? Não tem jeito!
- Não se preocupe, no fim tudo dá sempre certo. Confie.
- Não sei o que vou fazer...
Não sei como será a minha vida daqui pra frente...
- Não se preocupe, Deus nunca dá uma cruz maior do que aquela que a gente possa carregar...
Ao ouvi-lo dizer aquilo, lembrei-me de Eunice.
Não sabia quantas vezes eu a tinha ouvido dizer aquilo.
Novamente, senti como se uma brisa suave me envolvesse.
Ele continuou:
- Nunca estamos sozinhos, dona Eunice, sempre que estamos em aflição alguém aparece ou alguma coisa acontece para ajudar a gente...
É sempre a presença de Deus ao nosso lado.
Ele manda ajuda de uma maneira ou de outra.
Agora, também estará protegida... Acredite...
Não sei o por que, mas aquelas palavras me faziam bem.
No mesmo instante, lembrei-me do gaúcho que surgiu em minha vida, num momento em que julguei tudo perdido, depois foi a própria Eunice e seu marido.
Enxuguei meu rosto com as mãos:
Não sei se o que está dizendo é certo, mas também não tenho outra coisa para fazer.
Só esperar que essa ajuda chegue.
Como o senhor disse, tenho ainda minhas crianças e vou cuidar delas para sempre.
- Assim é que se fala.
Vai dar tudo certo, a senhora vai ver.
Sorri, ele se despediu, montou na bicicleta e foi se afastando.
Fiquei ali parada, olhando-o ir embora.
De repente, percebi que parou a bicicleta, deu a volta e veio em minha direcção:
- Dona Eunice!
Como vai fazer para ir até a cidade receber o dinheiro?
Não pode deixar as crianças sozinhas nem levar os três...
- Não sei... Não sei.
Como vou fazer?
Não tinha pensado nisso!
Não vai dar para eu ir.
- Já sei! Sabe que não posso vir para cá todos os dias, mas, quando chegar à cidade, vou ver se consigo uma maneira de ajudar.
Não se preocupe, vou encontrar uma solução. Até logo!
Ele foi embora.
Fiquei ali parada, pensando em tudo o que havia acontecido e sem saber o que fazer.
Por mais que pensasse, não conseguia entender o que estava acontecendo.
Deus havia me tirado meu filho e agora me deixava ali com três crianças para que eu cuidasse.
Por que ele deixou aquelas três crianças sem pai e mãe?
Um pai e uma mãe que os amavam muito, que fariam tudo para a felicidade deles.
Voltei o meu olhar para a carta.
Vi aquelas letras escritas.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:23 pm

É só um simples papel, mas está modificando a minha vida.
Não sei se realmente Deus existe.
Só sei que não adianta ficar me lamentando.
Como disse o seu Mário, alguma solução vai ter que surgir.
Preciso cumprir a minha promessa e agora vai ser para sempre, até que as crianças cresçam e possam cuidar de suas vidas.
Prometi e vou cumprir.
Eu pensava aquilo para me conformar, mas, no íntimo, sabia que seria muito difícil conseguir.
Comecei a chorar novamente.
Estava ajoelhada no chão, chorando, quando ouvi o Zezinho me chamando:
- Mãe! A Laurinha tá chorando.
Ao ouvir aquilo, o meu corpo estremeceu.
Ele estava me chamando de mãe!
Senti uma emoção muito grande.
Era verdade, ele era o meu filho!
Ele e os outros dois.
Dali pra frente, seriam os meus filhos e eu lutaria por eles.
Voltei correndo para casa.
Estava sofrendo com muitos problemas, mas as crianças não tinham culpa de nada que estava acontecendo.
Precisavam da minha presença, e eu estaria ali, sempre pronta.
Era o mínimo que podia fazer em troca do que Eunice e o marido tinham feito para me ajudar.
Além disso, eu já as amava como se realmente fossem minhas.
O carteiro não voltou.
Soube mais tarde que ele não conseguiu ninguém para me ajudar.
Não me preocupei, pois, no momento, não precisava de dinheiro.
Ainda tinha muito arroz, feijão e farinha.
O leite da cabra era suficiente para as crianças.
Sabia onde ficava o ninho de cada galinha, por isso ovos também não faltavam.
A minha vida voltou ao normal.
Às vezes, quando me lembrava que estava ali, sozinha, longe de tudo, ficava com medo, mas logo passava.
Dois meses se passaram, eu já havia me acostumado com aquela vida.
Tudo corria bem.
Em uma noite, você, Laura, não dormiu bem.
Estava com muita febre.
Fiz um chá, mas fiquei apavorada porque a febre não baixava.
Fiz tudo o que sabia para que você, parasse de chorar e dormisse, mas não consegui.
Quando amanheceu, você ainda ardia em febre e chorava.
Entrei novamente em desespero.
Como ia fazer para socorrê-la?
Precisava levá-la a um médico, mas como?
Naquela distância e com os dois pequenos.
Lembrei-me de Eunice, como eu não tinha conseguido socorrê-la, porque não corri o suficiente.
Novamente, entrei em desespero, novamente me revoltei com aquele Deus que só me fazia sofrer.
Logo eu, que me julgava uma boa pessoa, que nunca fiz mal a ninguém!
Embora eu já não tivesse tanta certeza se Ele existia mesmo, realmente, era a minha única esperança.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:24 pm

Com você chorando em meus braços, e chorando também, comecei a falar:
- Meu Deus!
Não sei se o Senhor realmente existe, mas, neste momento, precisa existir!
Ajude-me! Dê-me uma ideia para eu conseguir levar minha menina até o médico.
Já me tirou tanto!
Levou meu filho para longe...
Levou a Eunice e o Zé António.
Colocou essas crianças em minhas mãos!
Por favor, ajude-me!
Não permita que minha menina morra! Pedi muito.
Mas sabia que nada poderia acontecer, a não ser novamente tentar chegar até a cidade a tempo.
Sabia que, desta vez, seria pior, pois teria que levar os três.
Resolvi que tentaria.
Talvez, dessa vez, eu conseguisse chegar a tempo.
Estava trocando sua fralda, quando ouvi uma voz:
- Ó de casa!
Tem alguém aí?
Meu coração estremeceu, era a voz de uma mulher.
Corri para fora.
Uma freira estava lá abanando-se.
Ao me ver disse:
- Desculpe, estava passando pela estrada, está muito quente, será que pode me dar um pouco de água?
Sem responder, ajoelhei, peguei suas mãos e comecei a beijar, dizendo:
Obrigada, meu Deus! Muito obrigada.
Ela se espantou com minha atitude:
- Que está acontecendo?
Só preciso beber um pouco de água!
Percebi o que estava fazendo:
- Desculpe, irmã, é que a minha filha está muito doente, eu preciso levá-la até o médico e não tenho condução.
- Onde está a menina?
- Ali dentro da casa, venha, por favor.
Ela entrou, pegou você nos braços, colocou a mão em sua testa, dizendo:
- Ela está mesmo com muita febre.
Vamos levá-la, minha charrete está aí fora, perto do riacho.
Mas antes, por favor, dê-me um pouco de água...
Dei uma caneca com água e enquanto ela bebia, terminei de trocar você.
Peguei os meninos, fomos até a charrete.
Acomodei-os no banco de trás.
Sentei-me no banco da frente, com você nos braços, ao lado dela.
Fomos embora.
Ela fez com que o cavalo corresse o mais rápido que conseguia.
Percebeu que eu estava muito nervosa, disse:
- Não fique assim, não deve ser nada grave!
A menina vai ficar bem.
- Assim espero.
- Meu nome é Cecília.
Eu e mais três irmãs moramos na cidade.
Tomamos conta do posto de saúde.
Minhas irmãs cuidam dos doentes.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:24 pm

Eu, embora não devesse, pois sou uma irmã de caridade, não gosto de ver pessoas sofrendo e com dor, por isso ando o dia inteiro com a charrete, vou de fazenda em fazenda, em busca de dinheiro para mantermos o posto.
- Foi muita sorte minha, hoje, ter passado por aqui.
- Não foi sorte não! Foi Deus.
- Por que está dizendo isso?
- Passo quase sempre por aqui.
Muitas vezes, vi a sua casa, mas nunca parei.
Estou sempre muito apressada.
Hoje, não sei por que senti, quando estava passando por aqui, muita sede.
Só pode ter sido Deus, atendendo a suas preces.
Fiquei pensando, depois, disse:
- Deve ter sido isso mesmo.
No momento em que chegou, eu estava rezando, pedindo a Ele que me ajudasse de alguma maneira ou que me desse uma ideia de como fazer para socorrer a minha menina.
- Viu? Não falei que foi Deus?
Ele nunca nos abandona!
É um pai maravilhoso!
Naquele momento, lembrei-me daquilo que Mário, o carteiro, havia me dito:
Quando estamos em desespero, Deus sempre manda alguém ou faz com que alguma coisa aconteça para nos ajudar.
Após me lembrar disso, falei:
- Muitas vezes, duvidei da bondade de Deus.
Cheguei até a acreditar que Ele não existia.
- Existe sim, minha filha.
Está em toda parte e com todos nós.
Foi Ele quem me fez parar e entrar em sua casa.
Ele é um pai maravilhoso!
Nunca mais duvide disso.
- Não quero duvidar, mas minha menina vai morrer!
- Não vai, não!
Se Ele me fez parar, foi justamente para evitar que ela morra.
Ela vai ficar bem.
Ela falava com tanta fé que me contagiou.
Também comecei a acreditar que você não morreria.
Chegamos à cidade, fomos directo ao posto.
O doutor Morais a examinou.
Quando terminou, disse:
- Não precisa se preocupar, mãe.
Ela não tem nada grave, é apenas uma inflamação na garganta.
Vou dar uma injecção e um remédio para levar.
Em poucos dias, estará bem.
É uma menina saudável. Vai resistir.
Mais tranquila, sentindo-me protegida, disse:
- Obrigada, doutor. Se não fosse a irmã Cecília, não sei o que teria acontecido...
- Tem razão.
A irmã Cecília é uma óptima pessoa, parece que está sempre na hora e no lugar certo.
Mas... A senhora não é aquela que mora lá no Morrinho?
A que perdeu a amiga picada pela cobra?
- Eu mesma!
- Muitas vezes pensei na senhora, lá sozinha.
Como tem passado?
- Estou bem, só tive esse problema com a minha filha, mas, de certa maneira, vai tudo bem.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:24 pm

- Seu marido já voltou?
- Não, recebi uma carta me avisando que ele morreu...
- Morreu? Como?
- Estava trabalhando na construção de um prédio, caiu lá do alto.
- Que pretende fazer?
- Criar os meus filhos.
- Parece que é uma mulher muito corajosa.
- Parece, mas não sou...
Às vezes, sinto muito medo...
Tenho medo de não conseguir...
- Vai conseguir, sim.
Disso tenho certeza!
Irmã Cecília entrou, sorridente:
- Não lhe disse que a menina ia ficar bem?
Deus nunca nos abandona.
Se o doutor já terminou com a menina, podemos ir embora.
- Só vou aplicar uma injecção e dar um remédio.
Dona Eunice, depois disso, poderá ir embora, e não se esqueça de dar o remédio na hora certa.
- Não vou esquecer, doutor.
Outra vez, muito obrigada.
Ele aplicou a injecção.
Você chorou muito, Laura, mas logo depois dormiu.
Irmã Cecília me levou de volta.
No caminho, disse:
- Agora não vai ficar sozinha por muito tempo.
Sempre que passar pela estrada, irei visitá-la.
- Isso vai me deixar feliz e tranquila. Obrigada.
Com a roupa que ela usava, quase não podia se ver nada do seu corpo, a não ser o rosto.
Seus olhos eram de um azul muito forte.
- A senhora não nasceu aqui no Nordeste, nasceu?
- Não, nasci em Santa Catarina, meus pais são imigrantes alemães.
- Como veio parar aqui?
- Minha congregação se dedica aos doentes.
Eu e minhas irmãs fomos mandadas para esta cidade.
Aprendemos, assim que entramos para o convento, que devemos obedecer às ordens sem reclamar.
Quando fui mandada para cá, confesso que fiquei com medo, mas logo me acostumei.
Percebi que aqui teria muito trabalho e poderia ajudar pessoas que realmente precisavam.
Já estou aqui há quase dez anos e pretendo ficar para sempre.
Quando chegamos, não tinha socorro médico algum na cidade.
Eu e minhas irmãs conseguimos montar esse pequeno posto.
Mas, um dia, ele será maior e melhor.
Ao menos é o que desejo.
- Vai conseguir!
Tenho certeza!
- Eu também tenho.
Deus não vai abandonar todas essas pessoas que moram por aqui.
Continuamos seguindo em direcção ao meu sítio.
Em dado momento, ela disse:
- Gostei muito de você.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:24 pm

Já percebi o amor que tem por seus filhos, admiro a sua coragem de continuar vivendo ali sozinha.
- Não tem outro remédio.
Não tenho para onde ir.
- Se tivesse ao menos uma charrete ou carroça, não teria mais tanta dificuldade para ir até a cidade.
Se eu tivesse dinheiro, eu mesma compraria uma para você.
- Dinheiro! Tenho dinheiro! Esqueci!
- Que dinheiro?
- Eu estava guardando todo o dinheiro que meu marido mandava.
Quando recebi a carta dizendo que ele havia morrido, veio também um dinheiro que está no correio!
Não fui receber, porque não tinha como deixar nem levar as crianças.
Mas o dinheiro esta lá.
- Sabe quanto é?
- Não, mas parece que é uma boa quantia.
- Quem sabe vai dar para comprar uma charrete ou uma carroça.
- Não sei nem sei quanto custa!
- Hoje não dá mais tempo, já está tarde, mas amanhã bem cedo eu volto e levo você novamente até a cidade.
Vai levar todo o dinheiro que tem em casa.
Juntando com o que tem no correio, talvez dê para comprar uma charrete!
Vou procurar saber se alguém está querendo vender e o preço.
- A senhora acredita mesmo que vou conseguir comprar?
- Não sei, vamos ver.
- A senhora é mesmo outro anjo que caiu em minha vida!
Ela deu uma gargalhada:
- Outro anjo? Por quê?
Já teve outros?
- Sim, primeiro foi o gaúcho, um motorista de caminhão, depois foi a Eunice e o Zé António que me acolheram no sítio.
Ela parou a charrete:
- Que está dizendo?
Você não é a Eunice?
Percebi que havia falado demais.
Comecei a chorar.
Ela continuou:
- Não chore! Responda a minha pergunta.
Você não é a Eunice?
Não é a mãe das crianças?
Vendo que não tinha outra solução, contei como tudo tinha acontecido.
Quando terminei de falar, ela disse:
- Sabe que o que fez não foi certo, não sabe?
- Sei, sim, mas não tinha outro jeito!
Eu tinha prometido!
Fiquei com medo de não poder ficar com as crianças!
Era só até o Zé António voltar.
- Está bem, pode parar de chorar.
Não vou contar para ninguém.
Para todos os efeitos, você é a mãe das crianças e, se depender do que me contou, continuará sendo.
Temos agora que pensar em um modo de conseguir uma condução para tornar a sua vida mais fácil.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:24 pm

Sorri, fiquei aliviada, pois alguém mais sabia toda a verdade e agora eu tinha uma amiga que, com certeza, iria me ajudar.
Ela colocou novamente o cavalo em movimento.
Chegamos a casa, sorrindo, disse:
- Amanhã voltarei para levá-la ao correio.
Despediu-se, sorrindo, e me chamando de Eunice.
Você, Laura, continuava dormindo.
Seus irmãos estavam cansados, já era mais de uma hora da tarde e ninguém havia comido nada.
Coloquei-a no berço.
Dei um bom banho nos dois.
Preparei uma alimentação rápida, vocês comeram e eu me alimentei.
Em seguida, coloquei-os para dormir.
Saí, sentei em um pequeno banco que havia aí fora.
Olhei para o céu e como sempre, estava azul, com poucas nuvens e o sol brilhava.
Lembrei-me da oração que havia feito a Deus, pedindo um caminho, uma ideia.
Percebi, naquele momento, que Ele realmente existia e que nunca me abandonara.
Colocou em meu caminho irmã Cecília, uma mulher maravilhosa que, eu sabia, iria me ajudar muito.
Passei o resto do dia pensando em como havia sido a minha vida.
Menina pobre, criada sob o jugo de um pai rigoroso, depois, encontrei o amor através do Paulo, na felicidade que senti, meu filho, quando o peguei em meus braços e na tristeza e no sofrimento quando o perdi.
Não entendia por que tudo aquilo tinha acontecido.
Não entendia por que estava agora com três crianças que precisavam dos meus cuidados e de quem, com certeza, eu cuidaria.
Aquele céu lindo, aquele campo verde, tudo aquilo deveria ser obra de um Deus poderoso, um Deus que, agora eu tinha certeza, sempre esteve e continuaria ao meu lado.
Hoje, tendo você aqui na minha frente, vendo que o meu menino se transformou em um homem bonito, um homem que viajou muitos quilómetros para me encontrar e, com a ajuda desse mesmo Deus me encontrou, só posso agradecer por tudo que passei, e dizer, com todo o meu coração:
Esse Deus realmente existe!
É um Pai amoroso e divino.
Eunice respirou fundo.
Seus olhos brilhavam de felicidade e tranquilidade.
Laura, como Walther, estava emocionada.
Olhou para Marta, dizendo:
- Obrigada, minha mãe, por tudo o que fez por nós três...
Obrigada por ter sido sempre uma mãe maravilhosa...
- Não, minha filha...
Não deve me agradecer, vocês foram a minha salvação, vocês me deram vontade de continuar vivendo, eu, que não tinha mais nada na vida...
Walther estava admirado com a força daquela mulher tão pequena de estatura, mas com um coração muito grande, um coração que tinha lugar para abrigar a muitos.
Não sabia o que dizer, ficou calado, apenas observando.
Após alguns segundos, perguntou:
- Minha mãe, como se tornou mãe de tantos outros?
- Foi a vida, meu filho.
Foram as pedras que Deus colocou em meu caminho.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:25 pm

Hoje, acredito que tudo acontece sempre como tem que ser.
Os momentos de crise e sofrimento nos obrigam sempre a tomar decisões.
Descobri, também, que sempre temos só dois caminhos para seguir.
Quando temos um problema, podemos ficar chorando, lamentando-nos ou levantar a cabeça e seguir em frente.
Assim foi a minha vida.
Várias vezes, eu tive que decidir que caminho tomar.
Vou continuar a minha história.
Acredito que entenderão melhor.
Na manhã seguinte, Irmã Cecília chegou cedo.
Vinha sorridente e alegre, como sempre:
- Bom dia! Está pronta para irmos ao correio?
- Estou sim, as crianças também.
Aqui está o dinheiro que eu tinha guardado.
- Isso é muito bom!
Estive conversando com algumas pessoas.
Parece que o seu Pedro da Olaria vai embora e tem alguns animais para vender.
Não sei o preço, mas assim que pegarmos o dinheiro no correio, vamos até lá falar com ele.
Quem sabe, não é?
- Tomara que dê certo, preciso muito de uma condução, nunca mais quero passar o que passei ontem, o mesmo desespero.
- Como está a menina?
- Está muito bem, dormiu a noite toda, nem parece que esteve tão doente.
- Criança é assim mesmo, recupera-se, de qualquer doença.
Mas chega de conversa, vamos embora?
Sempre rindo, ajudou-me a colocar as crianças na charrete.
Na cidade, após retirar o dinheiro, fomos até a olaria falar com o senhor Pedro.
Irmã Cecília falou com ele.
Tinha uma carroça e um cavalo, queria vender os dois.
Não me lembro agora a quantia que eu tinha, nem o que ele pediu, mas me lembro que, ao ouvir o valor que ele queria, percebi que não conseguiria comprar.
Irmã Cecília não se deu por vencida.
Disse a ele que eu morava distante e que tinha as três crianças, contou o que havia acontecido no dia anterior, por isso eu precisava muito de uma condução.
Ele ouviu, ela continuou falando, até que ele concordou.
Venderia pelo dinheiro que eu tinha.
Ao ouvir aquilo, fiquei muito feliz.
Irmã Cecília se voltou para o meu lado dizendo:
- Não lhe disse que Deus é pai?
- Também acho.
Só tem mais um problema.
Nunca mexi com cavalo ou carroça, não sei conduzir...
- Isso não é problema, em pouco tempo vai aprender.
- Não precisa se preocupar, moça.
O cavalo é manso.
Está acostumado a pegar no pesado.
Não vai dar trabalho, não.
- Já sei o que fazer.
Vou amarrar a minha charrete na carroça e você vai dirigindo.
Durante o caminho, irei ensinando.
Até chegarmos ao sítio, já terá aprendido.
- Será?
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:25 pm

- Claro que será!
Você é inteligente!
Aprenderá com facilidade.
Seu Pedro, pode nos ensinar como se faz para atrelar o cavalo à carroça?
- A senhora não atrela na charrete?
- Sim, mas na carroça não é diferente?
- Tem só uma pequena diferença, venham, vou ensinar.
Ensinou-nos.
Amarrou a charrete atrás da carroça.
Saímos, com ela ao meu lado, enquanto eu dirigia.
Ela foi me ensinando, não demorei muito para aprender.
Quando chegamos em casa, não acreditei que possuía agora uma condução.
Não teria mais problemas, caso uma das crianças ficasse doente novamente.
Mais uma vez, agradeci a Deus por toda a ajuda que estava me dando.
Daquele dia em diante, ela vinha uma ou duas vezes por semana nos visitar.
Sempre trazia um pouco de alimento, principalmente carne, pois sabia que eu não tinha dinheiro para comprar.
Tornou-se verdadeiramente meu anjo da guarda.
Em uma de suas visitas, enquanto tomávamos café e conversávamos, ela olhou para a máquina de costura, perguntou:
- Você sabe costurar?
- Não, quem costurava era a Nice.
- Quer aprender?
Poderá fazer roupas para as crianças e para você.
- Claro que quero!
A senhora vai me ensinar?
- Não respondeu, foi até a máquina, começou a mexer.
Quando examinou bem, disse:
- Está muito boa.
Vou lhe ensinar com uma condição!
- Qual?
- Nas minhas andanças, recebo muitas roupas dos filhos dos fazendeiros, às vezes são quase novas, outras estão descosturadas, sem botões, algumas até rasgadas.
Tenho uma porção delas em casa.
Separei para consertar antes de distribuir, mas nunca tenho tempo.
Acha que pode fazer esse serviço?
- Não sei, mas, se me ensinar, vou fazer com prazer.
Nada que eu fizer poderá pagar o muito que fez e tem feito por nós.
- Não estou pedindo para fazer isso como pagamento.
O que fiz está feito, é a minha obrigação, sou uma irmã de caridade, além do mais, gosto muito de você e das crianças.
Estou pedindo só porque não me sobra muito tempo para esse trabalho.
- Vou fazer, com muito prazer.
Ela passou algumas tardes me ensinando.
Como ela disse, eu era inteligente, aprendi logo.
Daquele dia em diante, trazia-me, todas as sextas-feiras, roupas que recolhia durante a semana.
Eu consertava, lavava e passava.
Ela deixava umas e levava outras.
Durante mais de um ano, tudo caminhou bem, vocês cresciam saudáveis.
Irmã Cecília não nos deixou faltar nada.
Agora, eu só não consertava as roupas, mas também fazia algumas peças com retalhos de tecido que ela trazia.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:25 pm

Com a carroça, eu ia para a cidade, sempre que precisava.
Posso dizer que vivi um período muito bom, sem problema algum.
Laura a interrompeu:
- Eu me lembro dela, mas nunca soube dessa história.
- Tem razão, mas isso aconteceu porque, aos poucos, a nossa amizade foi se tornando tão grande que nem nos lembrávamos mais de como havia começado.
Walther perguntou:
- Como a senhora começou a cuidar das outras crianças?
- Ah, meu filho.
Acho que foi a vida, destino ou o próprio Deus, que, hoje sei, encaminha a nossa vida para onde ela deve ir.
Todos os meses, eu levava as crianças até o posto de saúde, para tomar vacinas ou pegar algumas vitaminas.
Em uma sexta-feira, quando a Irmã Cecília veio trazer e levar as roupas, disse:
- Na sexta-feira que vem a senhora não precisa vir até aqui.
Vou levar as crianças ao posto, aproveito para pegar as roupas e deixo as que estiverem prontas.
- Está bem, vamos fazer assim.
Antes de passar no posto, passe lá em casa, estarei esperando-a.
Tudo combinado.
Na sexta-feira, assim que cheguei à cidade e antes de ir ao posto, passei pela casa das irmãs.
Bati palmas, mas ninguém veio me atender.
Estranhei, pois havia combinado com a Irmã Cecília.
Não entendia por que ela não estava em casa.
Bati algumas vezes.
Como ninguém atendeu, resolvi ir ao posto para ver se alguém sabia dela.
Ao entrar, eu a vi, conversando com quatro crianças.
A mais velha, que tinha nove anos, segurava e abraçava os menores com muita força.
As crianças, muito magrinhas e sujas, estavam descalças.
Em seus pequenos rostinhos, a única coisa que se via muito bem eram os olhos.
Aproximei-me:
- Ainda bem que encontrei a senhora, Irmã.
Estava preocupada.
- Desculpe, Eunice, mas surgiu um problema inesperado.
- Que aconteceu?
- Hoje, pela manhã, chegou aqui na cidade uma mulher com estas quatro crianças.
Ela estava muito doente, veio directo aqui para o posto.
Foi feito o que se podia, mas não adiantou, ela morreu.
- Nossa! Que tristeza!
Essas crianças?
- Sim, são dela, a menina disse que não tem pai, que a mãe veio com eles, fugindo da seca.
- Meu Deus! E agora?
- É isto que estou tentando dizer para a menina.
Aqui na cidade, todos são muito pobres.
Essas crianças não podem ficar abandonadas por aí, são ainda muito pequenas, posso tentar arrumar uma casa para ficarem, mas não todas juntas.
Vou tentar conseguir um lugar para cada uma, só que ela não quer aceitar.
A menina, chorando, disse:
- Não vou mesmo.
Prometi pra minha mãe que ia tomar conta deles e que nunca a gente ia se separar.
Vou embora daqui com eles...
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 7:25 pm

A menina chorava muito, mas em seus olhos percebi que havia muita determinação.
Segurei na sua mão, perguntando:
- Como é o seu nome?
- Marinalva...
- É um nome muito bonito.
Não precisa chorar.
Você fez uma promessa para sua mãe, e as promessas precisam ser cumpridas.
Não se preocupe com nada, só pense que, quando fazemos uma promessa, Deus nos ajuda a cumprir...
- Minha mãe sempre disse isso.
Que Deus não abandona a gente nunca, mas Ele abandonou...
Levou minha mãe...
- Não abandonou, não!
Sua mãe teve que ir embora, mas ele deixou a Irmã Cecília.
Ela vai encontrar uma solução. Não é, Irmã?
- Irmã Cecília não estava entendendo nada.
Sabia que ia ser muito difícil encontrar um lugar onde todos pudessem continuar juntos.
Mesmo assim, respondeu:
- É, sim, vamos encontrar uma solução... Mas como?
- Eu sei!
- Sabe, Eunice? Qual é?
- Vou levar todos para minha casa.
- Não pode! Já tem três para cuidar!
- Onde comem três, podem perfeitamente comer sete.
Deus não vai deixar faltar nada.
Sei como é importante se cumprir uma promessa.
Como a senhora sabe, há muito tempo fiz uma, Deus me mandou a senhora para me ajudar a cumprir.
Agora, chegou a minha vez de ajudar esta linda menina a cumprir a dela.
A menina me olhou e começou a chorar mais forte.
Chorava tanto que seu corpinho magro estremecia:
- A senhora vai mesmo levar a gente pra sua casa?
Todos nós?
- Vou, sim. A casa é pobre, não sei ainda onde vão dormir, mas vamos dar um jeito.
Lá não vai faltar comida e muito carinho. Que acha?
- A gente está acostumado com a pobreza e até com a fome, a gente não come muito, não...
Sem que esperasse, ela se jogou em meus braços.
Abracei-a com muito carinho.
Ela me conquistou assim que a vi.
Irmã Cecília, muito preocupada, disse:
- Quer mesmo ficar com todos?
São pequenos, vão lhe dar muito trabalho.
- Vou ficar com eles, sim.
Tenho certeza. O que é o trabalho?
- Sendo assim, que Deus seja louvado!
Vamos embora.
Ajudou-me a levar as crianças até a carroça, dizendo:
- Não posso ir com vocês.
Tenho algumas coisas para fazer, mas amanhã bem cedo estarei lá para ver se tudo está bem.
- Tudo vai estar bem, Irmã.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 7:05 pm

Só tem uma coisa.
Dessas roupas que trouxe esta semana, vou tirar algumas para eles.
Tenho pouca roupa e nenhuma que sirva para a Marinalva.
- Ora, Eunice!
Pegue todas que precisar.
Tem comida para eles?
- Tenho sim, não se preocupe, tudo vai ficar bem.
Separei as roupas, peguei aquelas que achei que serviriam para Marinalva e as crianças e fomos embora.
Eu estava me sentindo muito bem.
Sabia que não ia ser fácil cuidar de sete crianças, mas já havia aprendido que Deus daria um jeito e nada nos iria faltar.
Em casa, pendurei duas redes, onde dormiria eu e a Marinalva.
Os pequenos dormiriam nas camas de casal e de solteiro.
Dormiriam desconfortáveis, mas muito melhor do que nos lugares em que haviam dormido ultimamente.
Walther a interrompeu:
- A senhora foi muito corajosa e bondosa também.
Não se tratava de coragem ou bondade, eu não podia separar aquelas crianças que já haviam sofrido muito e, agora, o pior, tinham perdido a mãe.
Marinalva também demonstrou que não ia se separar dos irmãos.
Eu não podia deixar que elas saíssem pelo mundo sem destino.
Sabia como isso era difícil.
- Deu certo?
- Sim, ela já era grande, ajudou-me muito.
Preparei arroz, feijão e um pedaço de carne e farinha.
Dava dó de ver o modo como elas ficaram quando viram toda aquela comida.
Devia fazer muitos dias que não comiam.
Antes da comida, fiz com que todos tomassem banho no riacho e colocassem roupas limpas.
Comemos e elas me pareceram cada vez mais bonitas.
No dia seguinte, logo cedo, como havia prometido, Irmã Cecília chegou, trazendo muitas roupas e alimentos.
Quando chegou, eu estava terminando de fritar uns bolinhos de farinha e ovo que as crianças comeriam com café e leite.
Ela entrou, carregando as sacolas:
- Bom dia, Eunice!
Vim tomar o seu café e trazer algumas coisas.
Está tudo bem por aqui?
- Bom dia, Irmã. Entre.
Está tudo muito bem.
Mas, quantas coisas!
Onde conseguiu?
- Percorri, ontem à tarde, algumas casas, contando o que você havia feito e dizendo que ia precisar de ajuda para alimentar todas essas crianças.
As pessoas me deram tudo isso.
- Muito obrigada.
A senhora é mesmo um anjo!
Ela deu aquela gargalhada gostosa:
- Um anjo que não gosta de ver doentes?
Falta muito para eu ser um anjo.
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Ave sem Ninho

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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 7:05 pm

- Para nós, foi e continua sendo um anjo maravilhoso.
- Está bem, mas dê logo esse café.
Tomamos o café.
Daquele dia em diante, a minha vida mudou.
As crianças davam mesmo muito trabalho.
Estavam com dois, três, quatro anos.
Aquela idade em que são muito peraltas, descobrindo o mundo e sem medo de nada.
Precisava ficar com vinte olhos em cima delas para que não se machucassem.
Elas brincavam muito.
Aos poucos, seus rostinhos foram enchendo, a cor voltou.
Em pouco tempo, estavam saudáveis e felizes.
No início, choravam por falta da mãe, mas, aos poucos, foram se acostumando.
Marinalva fazia tudo o que podia para me ajudar.
Ela era maravilhosa e sabia como conseguir o que queria.
- Onde ela está hoje?
- Quando fez quinze anos, a Irmã Cecília arrumou um colégio na capital, onde ela foi estudar.
Formou-se, arrumou um bom emprego, casou-se e vive muito bem.
Já me deu dois netos.
Escreve-me sempre, uma ou duas vezes por ano vem me visitar.
Todos os meses manda dinheiro.
E um dos meus orgulhos.
- A senhora deve ter muitos.
- Sim, muitos... Vou continuar.
Tudo corria muito bem, fazia cinco meses mais ou menos que eu estava com as crianças, quando a Irmã Cecília, um dia, chegou bem cedo.
Trazia em sua companhia uma mocinha.
Ao vê-la, percebi, por sua barriga, que estava esperando criança.
Irmã Cecília, com aqueles belos olhos azuis que brilhavam muito, disse:
- Esta é a Valdete.
Como já percebeu, está precisando da nossa ajuda.
Seus pais a expulsaram de casa.
Olhei para a menina e me vi, quando também fui expulsa de casa por meu pai.
Meu coração se apertou, não perguntei nada.
Apenas sorri, dizendo:
- Seja bem-vinda, minha filha.
Aqui não vai lhe faltar nada, nem ao seu filho.
Poderá ficar até a criança nascer, depois, se quiser, poderá ir embora ou continuar aqui.
A menina não disse nada, apenas chorou, tentou se ajoelhar e beijar minhas mãos, mas não permiti:
- Vou ficar sim, obrigada, senhora.
Ficou. Após seis meses, ao acordar pela manhã, percebi que ela não estava em casa.
Deixou apenas um bilhete e a menina que havia nascido vinte dias antes.
Deus me mandou mais uma criança que eu iria criar e amar.
Depois dessa, veio outra e mais outra.
Desde o início, por todos os anos passados, muitas mães e crianças passaram por aqui.
Estão espalhados por este Brasil e alguns até no exterior.
A Irmã Cecília se encarregou de me trazer as crianças e as mães abandonadas.
Como também de comentar com as pessoas e, principalmente, com os fazendeiros aquilo que eu estava fazendo.
Em pouco tempo, conseguiu material de construção e alguns empregados das fazendas, juntos, reformaram a minha casa, aumentaram a quantidade de quartos.
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Ave sem Ninho

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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 7:05 pm

Providenciaram móveis novos que nos deram muito mais conforto.
Irmã Cecília me ensinou também a ler, escrever e a falar.
Agora, eu quis aprender, sabia como era importante.
- A senhora é uma santa, por isso todos a respeitam e a conhecem na cidade.
- Não, meu filho. Não sou santa.
Apenas dancei conforme a música foi cantada.
Joguei conforme as pedras que me foram dadas.
Por aqui passaram crianças de todas as idades.
Através de cada uma, acompanhei o seu crescimento.
Através dos olhos delas, eu via você crescendo, tornando-se homem.
Cada olho era como se fosse uma janela.
Costumo dizer que sou como uma casa grande, com muitas janelas.
Walther se levantou, disse, quase gritando:
- Que a senhora disse!?
- Sou uma casa grande, com muitas janelas.
- Não vai acreditar!
Quando saí à sua procura, eu sonhava sempre que a senhora estava em uma casa com muitas janelas.
Fiquei o tempo todo procurando por essa casa.
Nunca a encontrei.
Eunice começou a rir, enquanto dizia:
- Como não? Está diante dela.
Foi Deus quem guiou o seu caminho para chegar até aqui.
Walther foi até ela e a abraçou, dizendo:
- Só pode ter sido...
Só pode ter sido...
Obrigado, meu Deus, por ter feito isso.
Obrigado, minha mãe, por existir e ser tão maravilhosa.
Mãe, ao lhe contar tudo o que havia acontecido, deixei de mencionar algumas coisas por não ter certeza ainda se era mesmo a minha mãe.
A Marta por quem Paulo procurou a vida toda.
A carta que ele me deixou está lá no jipe.
Vou buscá-la. Garanto que vai ter muitas surpresas e felicidade ao lê-la.
- Gostaria muito de ler.
Apesar de tudo o que passei tenha sido por causa dele, nunca o esqueci. Ele foi o único homem que amei na vida.
- Está bem.
Vou buscar a carta. Volto logo.
Ele saiu correndo.
Voltou em seguida, trazendo a caixa que continha todas as suas fotos pelas quais Paulo pôde acompanhar seu crescimento.
Entregou a Marta:
- Nesta caixa, vai encontrar toda a minha vida, através de fotografias.
Aqui está também a carta que Paulo me deixou.
Nela vai saber como foi a vida dele depois que se separaram.
Marta pegou a caixa, foi para seu quarto.
Laura sorriu para Walther:
- Ela está muito feliz.
- Sim, mas não mais que eu!
Quando vim para este país, nunca pensei que teria tantas surpresas.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 7:05 pm

ESCOLHAS E RESGATES
Eles não perceberam, mas desde que Marta começou a contar sua história, duas pessoas invisíveis aos seus olhos acompanhavam tudo e, nesse momento, sorriam, felizes, concordando com a cabeça.
Uma delas era a Irmã Cecília, a outra, Paulo, que, desde o início, muitas vezes, chorou e tentou abraçar Marta, principalmente assim que a viu:
- Marta! Minha Marta querida!
Como procurei por você todos esses anos!
Como você está bonita!
Por onde andou?
Que lhe aconteceu?
Tentou abraçá-la, mas foi impedido por Irmã Cecília, que disse:
- Não se aproxime dela.
A sua presença pode lhe fazer mal.
Vamos ficar aqui, ouvindo o que ela vai contar. Você saberá de tudo.
- Como minha presença pode lhe fazer mal?
Eu a amo! Sempre amei.
- Sei do amor que sente por ele-
Sei que não deseja lhe fazer mal algum, acontece que ela, hoje, ainda está usando um corpo físico, você, não.
As energias são diferentes.
Tenha calma, vamos ouvir.
Paulo não discutiu.
Ele também queria saber o que havia acontecido com Marta, desde que ela o deixara.
Agora, já sabia como tudo havia acontecido e por que ela não voltara para casa.
Ao mesmo tempo em que se sentia feliz por rever, finalmente juntos, o filho e a mulher que sempre amou, sofria por saber que ele havia sido a causa de tanto sofrimento.
Quando acordou após a sua morte e tomou conhecimento de que havia morrido e de que precisava de repouso até que seu novo corpo pudesse se ambientar à nova vida, acreditou, finalmente, naquilo que havia aprendido sobre a vida eterna do espírito. Era verdade.
Sentia seu corpo como se ainda vivesse na Terra, mas não estava mais doente, nem sentia mais falta de ar.
Estava exactamente como quando morreu, cabelos brancos, envelhecido, só que com muita saúde.
Quando Irmã Cecília veio convidá-lo para fazer uma viagem, nunca imaginou que fosse para finalmente encontrar sua amada Marta, nem que presenciaria o encontro dela com o filho que ele miseravelmente havia lhe roubado.
Agora, ali, diante da felicidade dos dois, não se conteve, começou a chorar com muita dor e arrependimento.
Irmã Cecília também estava feliz, pois, finalmente, sua amiga, quase irmã, havia encontrado a felicidade tão merecida.
Estava junto de seu filho amado, por quem sofrera a vida toda, mas, mesmo com esse sofrimento, não se furtou de ajudar muitos que precisavam.
Abraçou Paulo, dizendo:
- Agora, vamos embora.
Já sabe como tudo se passou, já sabe que a vida pode dar muitas voltas, mas, no final o que resta é sempre paz, felicidade e amor profundo de Deus por todos nós.
- Sei, finalmente, mas não consigo me perdoar.
Ela é uma santa!
Não deveria ter passado por tudo isso.
Eu, só eu, fui o culpado por todo o seu sofrimento.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 7:06 pm

- Por que diz isso?
- Apesar de tudo que a fiz sofrer, dedicou sua vida a crianças.
Criou muitas como se fossem suas.
Deu amor e carinho.
Só uma santa faria isso.
- Realmente, ela cumpriu muito bem quase tudo o que havia prometido antes de renascer.
- Prometido? Antes de renascer?
Que está dizendo?
- Que antes de renascermos escolhemos a vida que vamos ter e prometemos cumprir tudo.
- Li muito sobre isso.
E verdade, mesmo, que escolhemos o modo como vivemos na Terra?
- Sim, sempre que voltamos ao mundo espiritual, e já foram muitas as vezes e serão muitas mais ainda, ao tomarmos conhecimento de tudo o que fizemos durante a nossa vida na Terra, escolhemos como e onde vamos renascer.
Prometemos muito, pois lá nos sentimos seguros e protegidos, mas, ao voltarmos aqui para a Terra, na maioria das vezes não cumprimos nem cinco por cento do prometido.
- Cinco por cento? Só isso?
Custa-me acreditar.
- Como demorou muito para acreditar na vida eterna...
- Tem razão, se eu soubesse antes tudo o que sei agora, talvez não tivesse feito tantas coisas erradas como fiz.
- Se assim fosse, não haveria mérito algum.
Por isso, Deus nos dá o esquecimento de tudo.
Sempre que renascemos, voltamos com o espírito puro, pronto para aprender e decidir sobre o que faremos com a vida que nos foi dada.
Isso se chama livre-arbítrio.
- Livre-arbítrio?
Que quer dizer na realidade?
Li também sobre isso.
- Então, sabe que podemos escolher esse ou aquele caminho.
Nada pode interferir em nossa escolha.
Ele também nos torna responsáveis por essa mesma escolha.
- Embora tenha lido muito, sempre achei complicado.
Poderia explicar melhor, Irmã?
- Poderia não, Paulo, posso e vou explicar tudo, só que não vai ser aqui.
Agora, está tudo muito bem.
Marta vai ler a sua carta.
Entenderá o resto todo.
Depois disso, algumas coisas ainda acontecerão.
Enquanto ela lê, terei tempo de conversar com você e lhe mostrar como o livre-arbítrio funciona.
Vamos embora?
- Queria ficar mais um pouco ao lado deles para poder participar da felicidade que estão sentindo.
- Terá muito tempo para isso.
O importante, agora, é que entenda todo o resto. Venha.
Paulo percebeu que não adiantava insistir.
Ela sabia o que queria.
Sorriu e a acompanhou.
Segurou em sua pequena mão e os dois seguiram, voando.
Ele ainda não havia se acostumado com aquilo, deliciava-se com aquela sensação.
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Re: DEUS ESTAVA COM ELE / Elisa Masselli

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