Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:31 am

Um motivo para viver
Eliana Machado Coelho

Pelo Espírito Schellida

Sumário

1 - Dificuldade iminente
2 - A única ajuda
3 - Reforçando os laços de amizade
4 - O passado angustioso
5 - Acusações indevidas
6 - Confiando em alguém
7 - Desorientada e sem rumo
8 - Confidências necessárias
9 - Sequelas de um trauma
10 - Rosana - a nova amiga
11 - A preocupação dos pais
13 - As primeiras brigas
13 - O reconforto em uma prece
14 - Assumindo os sentimentos
15 - Turbulência inesperada
16 - Compreensão e amor - filho adoptivo
17 - O retorno de Alexandre
18 - Vida nova
19 - Três corações entrelaçados
20 - Desabafo inesperado de Raquel
21 - Doação de órgãos
22 - O mundo dá voltas
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Ave sem Ninho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:31 am

Capítulo 1 - Dificuldade iminente

Era início de noite e Raquel, após chegar do serviço, como de costume, realizava suas actividades habituais, preparando o jantar e arrumando alguns detalhes de sua simples casa.
De repente, a jovem teve sua atenção voltada para a voz que, diante do portão, gritava seu nome.
Ah! É Marcos! - reconheceu rapidamente e foi recebê-lo comum belo sorriso estampado no rosto.
Para Raquel a visita de seu irmão era uma situação comum, muito corriqueira.
Entretanto, após entrarem na casa, antes mesmo de Marcos se acomodar em uma cadeira que puxara, Raquel teve a certeza de perceber que uma tristeza indefinível, mesclada de melancolia e preocupação, emoldurava a face de seu irmão, anuviando seu sorriso.
Sem questionar sobre o que o incomodava, Raquel ofereceu-lhe um café, serviu-se também e escolheu uma cadeira, sentando-se próxima a ele de modo a tê-lo em frente de si.
E lá na empresa, Raquel, como está?
Tudo bem, afirmou com modos simples.
É a rotina de sempre.
Não posso dizer o mesmo.
Fixando o olhar em seu irmão, serenamente aguardou que Marcos continuasse.
O que ocorreu após breve intervalo:
Nos últimos dias nem estou conseguindo dormir.
Estão mandando muita gente embora.
Cada dia é um. Vivo em constante pesadelo, pois, a cada manhã, penso que serei o próximo.
O pobre homem tinha lágrimas nos olhos e contava tudo com a voz trémula.
Após ligeira pausa, Marcos continuou:
Como se não bastasse lá em casa está um inferno.
Encarando a irmã ligeiramente e tomando suas mãos, pediu:
Desculpe-me, Raquel.
Acho que você está cansada de ouvir reclamações da Alice.
Você só está desabafando, Marcos.
Eu entendo. Afinal de contas, se você não falar comigo, vai conversar com quem? argumentou a moça tentando consolá-lo.
Marcos, por sua vez, largou as mãos de Raquel, tornou a pegar a xícara com café e, após ingerir mais um pouco da bebida, continuou comentando exibindo tristeza em seu tom de voz.
Meu casamento com Alice foi um erro.
Você bem sabe. Ela é geniosa, exigente, orgulhosa.
É terrível conviver com ela.
Nos últimos tempos vem se queixando das condições em que vivemos, reclama da falta de dinheiro, de luxo, de riqueza.
Só que, também, não move uma palha para me ajudar.
Em defesa de Alice, para procurar amenizar os sentimentos do irmão, Raquel expôs-se favorável à cunhada.
- Mas Alice cuida bem da casa e dos meninos.
Ela é muito caprichosa, Marcos.
Isso você não pode negar.
Caprichosa com a casa, sim. Isso ela sempre foi.
Mas, com os meninos, ultimamente está deixando a desejar.
Alice vive brigando com eles, gritando, xingando...
Não há coisa pior do que chegarmos em casa e deparar com uma mulher nervosa, irritada, reclamando de tudo.
Estou saturado, Raquel.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:32 am

Só quero ver hoje, quando eu chegar.
- O que tem "hoje"?
- O nosso aluguel subiu.
Não teremos como pagar.
Não tive aumento de salário e ainda corro o risco de ficar desempregado.
Como senão bastasse essa situação crítica, ainda terei que ficar ouvindo os gritos da Alice.
O que você vai fazer, Marcos?
Não sei. Há tempos não compramos roupas, não passeamos, ultimamente comemos mal e agora nem terei como pagar o aluguel.
E se mudarem para uma casa menor e em outro bairro?
Talvez o aluguer seja mais baixo.
Não tenho dinheiro para pagar o depósito do aluguel.
Além disso, Alice vai se revoltar mais do que já está.
Após ligeiros segundos de silêncio, completou:
Se não fosse por meus filhos...
Raquel se preocupou.
Levantando-se, caminhou vagarosamente pela cozinha, recordando a ajuda que recebera daquele irmão em um período muito crítico de sua vida.
Quando todas as portas se fecharam, fora Marcos quem a amparara e cuidara até de sua saúde.
Raquel era grata por tudo e, com certeza, faria o possível para ajudá-lo.
Porém, aquela situação era difícil demais, pouco poderia fazer.
Lembrando-se da pequena reserva em dinheiro que depositara em uma conta de poupança, a jovem ofereceu:
Marcos, tenho algum dinheiro guardado.
Não é muito, mas...
Ele é seu! - afirmou convicta.
E esperando um semblante mais animado por parte dele, Raquel se decepcionou quando o irmão anunciou:
- Já tenho dois meses de aluguel em atraso.
Mais um e estou na rua.
Ante a revelação desagradável, Raquel empalideceu.
Ligeira, pela ideia imediata, decidiu afirmando rápido:
- Mudem-se para minha casa.
Pronto! Está resolvido.
Você, a Alice e os meninos virão morar aqui.
Esta casa não é muito grande, mas podemos nos ajeitar, certo?
Marcos levantou a cabeça, antes pendida e, dirigindo o olhar ainda tristonho para sua irmã, mantinha-se sem palavras ou argumentos.
- Eis a solução, Marcos!
Eu continuo pagando o aluguer daqui e você só me ajuda com a alimentação e com as contas de água e luz.
Estabilizados, guardam algum dinheiro e aguardam sua situação se firmar.
- E se eu for demitido?
- Será melhor que esteja morando aqui se isso acontecer.
Vocês não vão ficar sem ter onde morar e será o tempo de arrumar um outro emprego.
- Não posso fazer isso, Raquel - afirmou insatisfeito com a proposta.
- Você tem que aceitar!
- Não quero usar você, Raquel.
Sabe como a Alice é...
Isso não vai dar certo.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:32 am

- Será por pouco tempo.
Tenho certeza de que esses "cortes", lá onde trabalha, vão parar e você não será demitido.
Quando tudo voltar ao normal, vocês arrumam outro lugar até melhor.
Diante do silêncio de Marcos, parada em frente dele, Raquel insistiu com voz generosa expressando um brilho sem igual no olhar:
- Por favor, aceite.
Deixe-me fazer algo por você.
Dê-me a oportunidade de retribuir o que já fez por mim.
Não estarei fazendo isso por paga, é por amor.
Somos um pelo outro, Marcos. Não somos?
Ele a encarou reconhecendo que Raquel era a única ajuda a seu alcance.
Com olhar melancólico e no semblante um forçado sorriso triste, Marcos pendeu com a cabeça afirmando positivamente, dizendo que aceitaria.
Raquel se emocionou e secou discretamente as lágrimas que rolaram teimosas em seu rosto.
Com a fisionomia expressando preocupação, Marcos argumentou:
- Ainda tenho que falar com Alice.
Pensativo, tornou a concluir quase desalentado:
Não será fácil, minha irmã.
Você bem conhece minha esposa.
Eu só aceito sua oferta por não ter alternativa, não é de meu agrado que se sacrifique tanto, perdendo sua privacidade, sua liberdade e ainda tendo de aturar o mau humor de Alice.
- Não pense assim, Marcos.
Não estou me sacrificando.
Sempre serei grata a você por tudo o que tenho hoje.
Sempre estarei ao seu lado.
Com o olhar enternecido e grato, Marcos aproximou-se de Raquel, beijou-lhe a fronte e agradeceu:
- Obrigado, Raquel.
Acredito que é uma fase, mesmo.
- Vai dar tudo certo.
Não se preocupe - afirmou a jovem animada, escondendo com um largo sorriso sua preocupação.
Oferecendo novo rumo à conversa, convidou:
Bem, hoje você fica para jantar comigo, não é?
- Não, Raquel, obrigado.
- Só hoje, Marcos!
- Não, obrigado. Quero chegar cedo em casa.
Tenho que conversar com Alice e...
Creio que a noite será longa.
Após Marcos se retirar, um sentimento indefinido tomou conta de Raquel.
A inapetência ganhou espaço em seus desejos, por causa dos sentimentos tristes pela incerteza com a situação de seu irmão.
Rapidamente tomou um banho e se aprontou para dormir sem jantar.
Deitada em sua cama, Raquel não conseguia adormecer; pensamentos e emoções inebriados de melancolia e insegurança passaram a lhe corroer a alma.
"Será que agi correctamente?", perguntava a si mesma em pensamento.
"Eu não tenho alternativa.
É meu irmão!", justificava, forçando-se àquelas ideias.
"Depois, Marcos foi a única pessoa que me ajudou quando mais precisei.
Não posso deixá-lo sem amparo em um momento como esse."
Os pensamentos de Raquel corriam céleres, pois ainda havia inúmeras dúvidas na decisão já tomada.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:32 am

"Será difícil conviver com Alice.
Mas, por Marcos, eu tenho de suportar.
Devo-lhe muito!", reflectia.
Após breve pausa, tornava insistente:
"Prometo, a mim mesma, tolerar Alice.
Não vou dar ouvidos às suas implicâncias.
Vou deixá-la falar e até brigar sozinha. Será por pouco tempo".
E assim Raquel passou a noite, convencendo-se de que a decisão que tomara para ajudar seu irmão, cedendo espaço em sua casa, fora a melhor.
Perseverante para que os planos positivos ocupassem seus pensamentos, sem perceber, não conciliou o sono até amanhecer.
Enquanto isso, na residência de Marcos, Alice reagia com extrema revolta à situação que já era difícil.
A mulher parecia estar envolta por uma aura de labaredas, uma vez que, levada por irresistível força, a pobre esposa não conseguia se conter e, aos gritos, expunha ao esposo seu parecer.
Eu não acredito! - dizia Alice com voz estridente, franzindo o semblante e exibindo sua insatisfação.
Morar com sua irmã pela sua incompetência!
Era só isso o que me restava.
Eu não posso aceitar uma coisa dessas, Marcos!!!
Caminhando de um lado para o outro da sala, Alice parecia alucinada tamanha era sua revolta e indignação.
O silêncio de Marcos a incomodava.
O homem estava cabisbaixo, desalentado e sem argumentos.
Em virtude da ausência de palavras do companheiro, Alice, ainda andando de um lado para o outro feito um animal enjaulado, continuou a reclamar:
O que será que fiz para pagar tanto pecado assim?!
Veja só a que ponto chegamos!
Viveremos à custa de sua irmã!
Como se não bastasse, agora nem teremos onde morar.
Depois de pequena pausa, Alice diminuiu o volume da voz reclamando de forma menos estridente:
Já levamos uma vida pobre e miserável, enquanto muitos por aí se esbaldam no luxo e no prazer, não temos nem o que vestir.
Às vezes pergunto se Deus existe mesmo, porque não suporto sofrer tanta injustiça.
Ao cabo de alguns momentos, procurando reconfortar a esposa, Marcos manifestou-se de forma esperançosa:
- É só uma fase, Alice.
Isso tudo vai passar.
Vai dar tudo certo.
Enérgica e sem poder conter-se, Alice reagiu:
- É só isso o que escuto:
"Que é uma fase!
Que tudo vai passar!"
No entanto, você nada faz para melhorarmos de vida.
Desde quando saímos do Rio Grande do Sul escuto isso.
- O que você quer que eu faça?
- Se vira!!! - respondeu Alice num grito, arremessando para longe de si o utensílio que segurava.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:33 am

- Como?! - gritou Marcos.
Só se eu assaltar um banco!
O que você quer que eu faça?
A crise é no país todo!
O governo não oferece boas condições de vida, os políticos roubam, as escolas não prestam!
De você, Alice, eu só escuto reclamações!
Estou desesperado, também!
Somente a Raquel me escuta sem me criticar, além do mais é a única que está tentando, de alguma forma, me prestar uma ajuda.
- Por que você não pede aumento?
Reclama um pouco também.
- Pró inferno, Alice!
Você e suas opiniões malditas!
Dois já foram demitidos só no meu sector, nesta semana.
Quer que eu seja o próximo?
Em meio à discussão que se fez, Alice se deixou dominar pela revolta e, impensadamente, murmurou:
- Não sei como fui me casar com um cara tão cretino como você.
Apesar do baixo volume de voz, o esposo ouviu com clareza aquela opinião infeliz.
Marcos aproximou-se de Alice e, com as mãos gélidas pelo suor frio, segurou-a com firmeza pelo braço e, sem desviar o olhar agora furioso, com a garganta ressequida falou com a voz trémula, exigindo:
O que foi que você disse?!
Sem aguardar que ela repetisse, com o semblante sisudo, encorpando a voz em tom grave e pausado, prosseguiu:
Se desejava um marido rico, deveria ter visto isso antes.
Você não é tão grande coisa assim para ser tão exigente.
Além do mais, Alice - destacou Marcos ainda com voz de desdém -, você é uma pessoa improdutiva.
Aliás, mais incompetente do que eu.
Ao menos eu trabalho.
Ganho pouco pelo que faço, mas ganho.
Quanto a você, Alice, vive dependente, à minha custa e reclamando!
Se não fosse por esse cretino aqui, morreria de fome, pois nem pra faxineira presta, ninguém a suportaria.
A esposa conservou-se muda, mas, em seus olhos espremidos, podia-se ver uma ameaça escondida.
Num gesto brusco, ela puxou o ombro e livrou-se de Marcos, que ainda lhe deu um leve empurrão.
Eles se calaram. Mas os pensamentos de Alice fervilhavam.
Marcos não tinha o direito de escarnecê-la daquela forma.
Nunca tinha se sentido tão humilhada, nem havia sido tão espezinhada como naquela hora.
Marcos haveria de sofrer, e muito, por aquela afronta.
Pois Alice prometia, com muito ódio, a si mesma, que encontraria uma maneira de se vingar de seu esposo.
As reflexões da pobre mulher passavam agora a imaginar um modo de revidar ao marido o sofrimento, a mágoa e a angústia que sentira com aquelas palavras.
Ela ainda teria o prazer da desforra.
Aquele ocorrido, por si só, criou vibrações, energias muito inferiores para o ambiente doméstico.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:33 am

Agora, os pensamentos corrosivos de Alice alimentavam e fortaleciam aquelas vibrações.
Pensamentos negativos, imagens mentais de ocorrências trágicas, assuntos amargos da vida alheia, reclamações e desânimo representam a atracção e a criação de fluidos inferiores que, consequentemente, significam padecimentos enormes em futuro breve, seja quem for o seu criador.
Longe dali, José Luiz, outro pai de família, conversava amigavelmente com sua esposa sobre o seu dia.
- Hoje tivemos outra reunião.
Creio, agora, que tudo ficará mais estável.
Os que tiveram de ser demitidos já foram.
A partir desse momento a empresa vai oferecer qualidade profissional, segurança, melhores salários e, principalmente, reconhecimento aos funcionários que continuarão lá.
- Tomara, Deus, que não dispensem mais ninguém - rogou Ivone, esposa de José Luiz, com sinceridade.
Nós sabemos, por experiência própria, como é difícil a condição de desempregado.
Fico com pena desse pessoal demitido.
Se pudéssemos ajudar...
- Mas, querida, sou um simples director. Recebo ordens!
Passei noites em claro quando me pediram para listar os empregados que não preenchiam os requisitos da empresa.
Eu nunca havia feito isso.
É muita responsabilidade.
Você sabe! Rezei tanto!
Pedi tanto a Deus que me ajudasse e me perdoasse qualquer falha...
- É, eu sei.
Mas você recebeu instrução, lá na empresa, para poder escolher, ou indicar qual o funcionário que não preenchia os requisitos, não foi?
- Ah, sim! Eles nos orientaram para indicar primeiro os que não tinham muita educação, os que eram agressivos com palavras ou actos, os que usavam palavreado inadequado ao ambiente, os que assediavam as colegas de trabalho...
- Ou os colegas! - interrompeu Ivone esboçando um sorriso intencional e depois completou:
Porque, hoje em dia, não são somente os homens que fazem assédios.
José Luiz sorriu e balançou com a cabeça concordando ao admitir:
- É verdade. Tem cada moça que...
- Tá louco!
- Nem te conto.
Elas falam de modo a se insinuar, com palavreado chulo, roupa inadequada...
Teve um dia em que eu chamei a atenção de uma auxiliar de escritório lá da contabilidade.
Sabe, eu falei com jeito, procurei ser educado...
- O que ela fez? - atalhou Ivone interessada.
- Não foi o que ela fez.
Foi pelo que usava, ou melhor, não usava.
A moça estava de mini-saia, com aquelas blusinhas... Sabe?
- Sei. Transparentes e de alcinhas.
- É. Bem, eu falei com ela que ali, principalmente por ser perto do sector de peças, onde temos muitos homens, ficaria bem outro tipo de roupa para impor mais respeito.
Seria melhor para ela mesma.
- E ela?
- Ela disse que este era um país livre.
- E você?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:33 am

- Não disse nada.
Comecei a reparar que os rapazes do sector passavam perto de onde ela se sentava e ficavam jogando conversa fora, assediando, entende?
- Ah-rã!
- Não foi por vingança à resposta que ela me deu, mas por eu observar que ela, ou melhor, o tipo de roupa que usava, provocava tumulto e era inadequada ao valor moral que a empresa gosta de preservar; sem alternativas, eu a indiquei na lista dos que deveriam ser demitidos.
Após pequena pausa, prosseguiu como num desabafo:
Já que esse é um país livre, que ela goze da liberdade, que julga ter direito, bem longe dali.
Não podemos ser contra um estilo de roupa jovial.
Minha filha também usa roupas da moda, mas há lugares adequados para essas roupas e limites para tudo.
Devemos usar o bom senso, sempre.
- Às vezes a pessoa aprende e se coloca no devido lugar só depois de sofrer um pouco.
- É verdade.
No entanto, agora com a saída de tantos empregados, principalmente daqueles que mais denegriam os níveis morais, a empresa ficará com um ambiente mais saudável.
Haverá remanejamento de cargo e grandes oportunidades àqueles que desejam crescer.
Vários cursos de actualização serão fornecidos e máquinas novas estão chegando.
- E tempo de progresso! - afirmou Ivone.
- Mesmo como um simples director, procuro agir com o máximo de justiça.
Não quero que ajam injustamente comigo.
Peço a Deus para que me ajude a decidir o melhor a ser feito.
Se tiver de ser demitido, quero ter meus valores reconhecidos, sempre.
O diálogo tranquilo do casal foi interrompido pela chegada dos dois filhos que, animados, relatavam as novidades ao mesmo tempo e, pelo visto, todos dormiriam bem tarde porque as histórias pareciam longas.
Na manhã seguinte, Raquel estampava na face pálida os resultados de uma noite sem o devido descanso físico.
Acomodada em sua cadeira diante da mesa de trabalho, a moça olhava para o amontoado de papéis parecendo não entendê-los.
- Nossa, Raquel!
Que cara! - observou uma colega de serviço admirada.
Parece que passou a noite em claro.
Com expressão de desânimo, olhar baixo e parecendo fazer grande esforço para afirmar, Raquel explicou:
- Você não está errada, Rita.
Realmente não dormi esta noite.
- Algum problema?
- Sim. Até parece que não vivemos sem eles - tornou Raquel esboçando leve sorriso forçado.
- Tome - ofereceu a colega estendendo algumas pastas para a amiga, enquanto orientava:
o senhor Valmor, para não perder o costume, quer isso "para ontem".
Seria bom que você se animasse um pouco e ficasse bem atenta, hein!
Essas tabelas não podem ir para as mãos do "homem" com falhas.
Concentre-se nelas.
Após alguns segundos, em que Raquel observava a documentação, Rita disse:
Na hora do almoço eu passo aqui para irmos juntas e assim teremos mais tempo para conversar.
- Acho que não vou almoçar hoje.
Estou repleta de serviço e ainda tenho essas malditas tabelas - avisou Raquel com semblante preocupado.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:33 am

- Ah! Vai almoçar sim! Eu passo aqui e...
- Eu também vou! interrompeu imediatamente Alexandre, colega de trabalho que se aproximou e ouviu a última afirmação de
Rita. As moças o olharam e, com largo sorriso, ele perguntou:
Posso, não é?
- O que você pode? perguntou Raquel com modos simples.
- Almoçar com vocês, oras!
- Talvez eu não vá almoçar insistiu Raquel desalentada.
- Ah! Vai sim! respondeu Rita, convicta.
Voltando-se para Alexandre, afirmou:
Combinado.
Nós nos encontramos aqui, certo?
- Certo! respondeu o rapaz, ainda sorrindo e retirando-se.
Rita, virando-se para Raquel, imediatamente mirando os olhos e entoando a voz de um jeito engraçado, reclamou:
- Ah!!! Eu mato você!
- Por quê?! assustou-se Raquel.
- Como você pode fazer pouco-caso dessa raridade, dizendo:
"Talvez eu não vá almoçar!" - arremedou Rita, entoando a voz de forma debochada.
Ficou louca, Raquel?
- Nossa, Rita! Que horror!
- Minha filha! Homem hoje em dia é coisa rara!
Ainda mais do tipo: solteiro, alto, atlético e, além de tudo, bonito.
Ai! Que olhos lindos!
Rita meneou o corpo fingindo cambalear, como se fosse desmaiar.
Raquel esboçou suave sorriso enquanto pendia com a cabeça negativamente, dizendo:
- Que exagero, Rita.
- Exagero nada. Ele é um "gato"!
Você não acha?
Demorando um pouco para responder, Raquel concordou:
- É. Alexandre é bonito, sim.
- Credo! Que falta de ânimo.
Eu, hein! Estou estranhando sua falta de empolgação.
Raquel, um pouco mais séria, chamou-a à realidade.
- Vamos trabalhar ou na hora do almoço estarei ainda "até o tecto" de serviço.
Rita, sobressaltando-se, rumou para o seu lugar deixando a colega trabalhar tranquila.
A verdade era que Alexandre, exuberante, simpático, alegre e cheio de vigor, era muito cobiçado pela grande maioria das moças que trabalhavam ali e que, tentando conquistá-lo, só conseguiam animadas conversas e um pouco de coleguismo, nada mais. Ninguém sabia nada sobre sua vida pessoal e nenhuma mulher parecia ter conseguido impressioná-lo seriamente, ao menos ali no serviço.
Alexandre, apesar de jovial e belo, no ambiente de trabalho jamais se aproveitou de suas dádivas para iludir ninguém, tampouco subjugou qualquer moça que tenha se atraído por ele.
Talvez fosse isso que deixasse suas colegas mais interessadas e curiosas.
Aquele convite para se incluir como companhia das moças na hora do almoço não foi uma surpresa, pois era hábito seu convidar, a cada dia, um colega diferente, sem distinção, para almoçar.
Bem mais tarde, chegando à seção em que Raquel trabalhava, Alexandre, na companhia de um amigo que trouxera consigo, aproximou-se da colega e chamou:
- Vamos? Onde está a Rita?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:34 am

- Ainda não chegou. Mas...
Olha... Estou tão...
Antes que Raquel argumentasse qualquer empecilho, ele alertou:
- Raquel, preste atenção:
Você me parece preocupada demais com seu trabalho.
Vejo-a pálida, com uma carinha de quem está com sono e até alheia a tudo o que está fazendo.
Aproximando-se mais, com seu jeito atencioso, pegou-a pelo braço tirando-lhe a caneta da mão e, girando sua cadeira, foi conduzindo-a agora por ambas as mãos para que se levantasse e prosseguiu:
Vamos almoçar porque, aí sim, estará mais revigorada, ficará mais atenta ao que está fazendo...
Quando Alexandre a segurou pelos ombros, brincando gentilmente como quem a conduzisse, Raquel, com o semblante sério, esquivou-se rapidamente, parecendo não gostar de ser tocada daquela forma.
Observando o gesto arredio, Alexandre, um tanto sem jeito, recuou erguendo as mãos mostrando que não a tocaria mais e disse:
- Desculpe-me, eu não...
- Sou eu quem pede desculpas, eu... disse Raquel também embaraçada, sem saber como se justificar pelo que fizera.
Vagner, o outro colega que se encontrava ao lado e presenciou a cena, achou estranha a atitude da moça, porém, somente trocou ligeiro olhar com Alexandre e nada falou.
A chegada de Rita acabou desfazendo o clima um tanto sem graça que, repentinamente, havia se criado.
Ao ver Vagner acompanhando Alexandre, a colega afirmou:
- Que bom, o Vagner vai connosco?!
- Sim. Vou.
- Então vamos logo! - pediu Alexandre animado e colocando-se à frente para saírem.
Almoçando em um lugar de pouco luxo, recolheram-se os quatro colegas a uma mesa num canto do restaurante onde conversaram bem à vontade.
Rita, muito falante, atraía para si a atenção de todos.
Com sua bela voz agradável e seu riso gostoso de ser ouvido, ela conseguia trazer alegria e animação.
Raquel, no entanto, mais recatada, sorria vez ou outra, permanecendo a maior parte do tempo em silêncio.
No momento em que ficava séria, uma tristeza indefinida poderia ser notada em seu olhar, mas a todo custo Raquel tentava disfarçar.
Sem deixar que os demais percebessem, Alexandre a espiava.
Muito observador, se deixava atrair pela quietude, um tanto misteriosa e natural, que Raquel trazia em si.
Em dado momento, já incomodado com a falta de participação da jovem Raquel naquela conversa, decidiu provocá-la:
- E você, Raquel?
O que tem para nos contar?
mediatamente todos pararam e voltaram a atenção para a moça que timidamente, pela súbita questão, pareceu quase se encolher emudecida por alguns instantes, mas que, por fim, falou:
- Bem... dissimulou com um sorriso, completando:
Não tenho nada para contar.
Alexandre e Vagner fixaram-se em Raquel observando seu jeito meigo e encabulado.´
Vagner, mais provocador, insistiu:
- Parece-me, Raquel, que seus pensamentos criaram asas e planavam longe daqui.
Não quer nos contar sobre a paisagem que vislumbrava?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:34 am

Raquel ficou surpresa.
Seu delicado rosto estava rubro.
Ela ofereceu um belo sorriso generoso que foi retribuído e falou:
- Estou repleta de serviço e...
Bem, era nisso que estava pensando.
Vagner, por sua vez, passou a ser galanteador com a colega, dissertando sobre a importância de se desligar um pouco dos assuntos preocupantes a fim de, mais descansados, podermos encontrar forças ou soluções para realizá-los melhor.
Ele queria aproximar-se mais da moça e chamar-lhe a atenção.
Rita, entretanto, na primeira oportunidade, acabou contando o que a amiga lhe confiara, em poucas palavras, enquanto estavam no toalete, minutos antes.
- O problema da Raquel é bem outro.
O irmão dela está com dificuldades e por isso vai morar com ela.
Deixará de viver só! Não é, Raquel?
Franzindo levemente o semblante, mostrando o seu desagrado, Raquel a advertiu imediatamente:
- Puxa, Rita.
Como você é indiscreta.
Se eu soubesse que iria espalhar para todo mundo...
Alexandre, para evitar um desentendimento, procurou distrair Raquel, perguntando:
- Então você mora sozinha, Raquel?
- Moro - respondeu com simplicidade, sem se alongar.
- Eu também afirmou Alexandre.
- Ah! Você mora sozinho, Alexandre? - perguntou Rita que, mais uma vez, parecia querer atrair para si toda atenção.
- Como disse.
Moro, sim - respondeu o colega sem pretensões.
Vagner, exibindo grande interesse em saber mais sobre Raquel, perguntou:
- Sabemos pouco sobre você, Raquel.
Apesar de fazer mais de um ano que trabalha connosco, desconhecemos tudo a seu respeito.
Conte-nos: De onde você é?
Onde moram seus pais?
Um tanto contrariada ainda, e também pelo facto de não gostar de expor sua vida, ela, sem demonstrar desagrado, contou em rápidas palavras:
- Sou do Rio Grande do Sul. Meus pais moram lá.
- Por que não mora com seus pais, ou, então, por que eles não vêm para cá? - tornou Vagner, curioso.
- Eles moram no campo.
Eu e meu irmão Marcos não nos adaptamos muito bem lá - explicou após profundo suspiro e bem séria, descontente pela insistência do colega.
- Mas... tentou dizer Vagner, mas foi interrompido por Alexandre que, em socorro de Raquel, lembrou:
- Gente! Estamos em cima da hora! Vamos?
Nesse instante, Rita, mais uma vez, arrumou um assunto para falar e todos voltaram a atenção para sua história.
Ao retornarem para o prédio em que trabalhavam, o assunto sobre a vida de Raquel foi esquecido.
As moças rumaram para seu sector e Raquel, ainda magoada com a colega, não fazia qualquer comentário, enquanto Rita, parecendo não notar, admirava a companhia que tiveram.
- Ai! Tomara que o Alexandre almoce connosco outras vezes.
Por não haver ninguém no toalete onde estavam, a moça rodopiou olhando para o alto, exibindo extrema admiração pelo ocorrido.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:34 am

Estou sonhando!
Com tantas por aí e o "gato" mais cobiçado vem nos chamar!
- Mirando o olhar como a tecer planos, Rita suspirou, dizendo:
Ainda conquisto esse homem!
E fitando-se no espelho, continuou:
- Sou bonita, simpática, sei me comportar...
O que você acha, Raquel?
- Tudo é possível comentou a colega sem entusiasmo.
- Você não acha que sou capaz de "ganhar" o Alexandre?
- Não sei dizer, Rita.
Eu nem o conheço.
Acho que conversei com ele uma ou duas vezes antes de irmos almoçar hoje.
Não sei dizer se ele quer ser conquistado.
Por outro lado, não duvido dos seus desejos nem da sua capacidade comentou sentindo-se amargurada.
- Não entendi, Raquel.
O que você quer dizer?
- É o seguinte:
Eu vejo que a maioria das nossas colegas vive "dando em cima" do Alexandre.
Como eu já disse, não o conheço.
No entanto, nas poucas vezes que entrei em contacto com ele, pareceu-me que é uma pessoa alegre, descontraída, inteligente, porém muito reservada.
É do tipo que não quer ser "amarrado", não quer comentar sobre sua vida íntima, entende?
Apesar de educado e gentil, manterá distância de quem quiser ou tentar invadir a sua privacidade.
- Mas é impossível um homem desse tipo não querer ficar com alguém, nem ter uma mulher, uma namorada.
Tem que haver um modo de lhe chamar a atenção.
Reflectindo alguns segundos, Rita observou subitamente:
Você parece não se atrair por ele, não é, Raquel?
Aliás, você parece não se atrair por ninguém.
Sem esperar por aquela pergunta, Raquel, um tanto embaraçada, tentou dissimular:
- É... Talvez eu não tenha encontrado a pessoa certa.
- Mas você não namora e também nunca nos falou de um antigo namorado, se é que já teve.
Diante do silêncio da colega, Rita insistiu:
Você já teve namorado, não é, Raquel?
Raquel pareceu ficar nervosa, enquanto Rita a fitava com olhos ávidos, aguardando uma resposta.
Embaraçada, sentia um suor gelado humedecer suas mãos.
Definitivamente ela não gostava de falar sobre sua vida.
Encarando a colega e tentando disfarçar o seu estremecimento, admitiu:
- Não. Não tive nenhum namorado.
Porque nunca me senti atraída por ninguém.
Impondo na voz uma energia quase arrogante, afirmou:
E não tenho intenção de me deixar atrair por homem nenhum.
Essa é uma opção à qual tenho direito.
Admirada e surpresa, Rita não conteve sua curiosidade.
Cedendo a seus impulsos indiscretos, questionou:
- Nossa, Raquel!
Bonita, elegante e simpática como é, pretende ficar sozinha?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:35 am

Sem esperar por uma resposta, continuou:
Eu sempre achei você muito... muito "fechada" para com seus admiradores, mas agora, ouvindo de você mesma que não quer nenhum homem em sua vida, fico até...
Até... Sei lá.
Acho esquisito.
Raquel, em silêncio, expressava um semblante enfadado.
Seu coração fora invadido por uma repentina tristeza que a magoava ainda mais.
Arrumando rapidamente sua bolsa, avisou:
- Tenho que ir para a seção, Rita.
Você ainda vai ficar aqui?
- Raquel, ainda estou intrigada.
Você nunca gostou de ninguém? Jovem e bonita, nunca teve um rapaz em sua vida?
A pergunta desgostou Raquel.
Ela não queria passar por aquela inquisição.
Com o coração acelerado e oprimido, olhar triste e semblante sério, pediu:
- Por favor, Rita.
Eu não gostaria de falar sobre isso.
Esse assunto não me agrada nem um pouco.
Agora vamos, já estamos atrasadas.
Dizendo isso, Raquel se retirou.
Rita, por sua vez, trazia os pensamentos fervilhando na curiosidade e na falta de respeito à privacidade da amiga.
Apesar de contrariada, ela não disse mais nada e saiu logo atrás de Raquel.
Ao chegar perto da mesa onde Raquel trabalhava, Rita, bem próxima da colega que já se encontrava sentada em sua cadeira, curvou-se e perguntou em voz baixa, quase sussurrando:
- Raquel, e se alguém gostar de você?
E se um rapaz vier falar com você?
Como hoje, por exemplo, ficou claro que o Vagner estava interessado e... sabe, né?
E se ele quiser conhecê-la melhor?
Suspirando profundamente, exibindo seu desagrado, Raquel soltou os lábios que se contraíram e afirmou:
- Não sei dizer, Rita.
Não sei nem se amanhã eu estarei viva.
Agora, no entanto, eu não quero mais falar sobre isso. Por favor.
Rita ergueu-se, pediu desculpas e saiu.
Raquel ficou aborrecida.
Magoada por ter de enfrentar aquela situação que, pelos resquícios do passado, lhe era muito amarga.
Seus olhos quase transbordavam as lágrimas quentes e teimosas que se fizeram.
Rita foi para o seu lugar intrigada com o segredo da amiga.
Mas isso só durou alguns minutos, pois suas ideias se voltaram para os planos de como conquistar seu colega de trabalho.
Ela imaginava que não seria fácil; entretanto, com a ajuda de uma colega, seria favorecida.
Por essa razão não poderia brigar com Raquel.
Teria que dar um jeito de se aproximar de Alexandre, mas não poderia deixar em evidência os seus planos.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:36 am

Capítulo 2 - A única ajuda

Alguns dias se passaram após os últimos acontecimentos, mas Alice e o esposo não conseguiam se harmonizar.
Irritada com a difícil situação financeira, a pobre mulher exibia insatisfação e longas queixas eram dissertadas com modos até furiosos no falar e no agir.
Mais uma vez o casal iniciava outra discussão.
- Eu não vou sair daqui e me submeter a tamanha humilhação de ter que ir morar na casa de sua irmã! - afirmava Alice veemente.
Se Raquel tem tanta boa vontade em ajudar, que se mude para cá e ajude você a pagar o aluguel.
Andando de um lado para o outro, sentindo a fronte como a queimar pelo excesso de preocupações e problemas, Marcos ocultava seus pensamentos, agora tenebrosos.
Alice não parava de se queixar com modos que irritariam qualquer um.
Após alguns passos negligentes até próximo da pia da cozinha, o homem desesperado pensou, ao fitar uma faca de cozinha:
"É por isso que muitas tragédias acontecem.
Não suporto mais a Alice.
Bem que eu poderia acabar com essa desgraçada agora mesmo e depois dar um jeito na minha vida."
Quase se apoderando do utensílio doméstico, que agora se transformara em uma arma, Marcos reflectia, enquanto a esposa continuava com suas reclamações:
"Alice é o motivo de todo esse inferno que vivo!", imaginava.
E com as mãos trémulas e geladas, apanhou a faca e olhou para a esposa, pensando:
"Já chega! Vou terminar com isso!"
Um tarefeiro espiritual que desempenhava a função de protecção e amparo aos queridos encarnados, conhecido como espírito protector, já envolvia com amor e bondade o pobre Marcos, que não podia vê-lo, ouvi-lo nem senti-lo.
Esse espírito fazia tudo para afastar aquela ideia de consequências trágicas.
Sentindo a dificuldade de alertar o pupilo, o tarefeiro espiritual lançou vibrações de amor e socorro a um dos filhos do casal que, mais espiritualizado e flexível ao envolvimento elevado, saiu de onde estava e foi até a cozinha.
Sem saber muito bem o que queria, Elói abriu a geladeira, encontrou uma maçã, pegou-a e se dirigiu até o pai, pedindo:
- Empresta a faca!
Surpreso, Marcos olhou para o filho e, num gesto automático, entregou-lhe o utensílio.
Elói cortou a fruta e ainda ofereceu:
- Quer? Toma!
- Não, obrigado - o pai respondeu atordoado.
Alice, ainda resmungando, não deu conta do que ocorria.
Mas Marcos, ao encarar o filho, se alertou para o que ia fazer, como se despertasse de um pesadelo para a realidade.
Seria uma loucura!
Alice não parava de reclamar.
Marcos, por sua vez, retirou-se sem dizer nenhuma palavra.
Mais tarde, depois de andar muito e tentar se distrair, ele chegou até a casa de Raquel e passou a contar o ocorrido.
- Alice não quer vir morar aqui, como eu já disse.
E só tenho mais duas semanas para resolver essa situação com o aluguel.
Os pensamentos de Raquel, ligeiros e preocupados, trabalharam na sombra de suas dúvidas.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 03, 2017 9:47 am

Deveria deixar aquela casa e ir morar com Marcos, conforme Alice propusera?
Suas coisas não caberiam na casa de seu irmão.
Teria de se desfazer delas.
Se não fosse pela dolorosa situação em curso, e por tudo o que Marcos já fizera por ela, jamais tomaria aquela decisão.
Raquel temia que seu irmão cometesse alguma loucura contra a vida de sua esposa ou contra a própria vida.
Disfarçando as preocupações que lhe fervilhavam as ideias, Raquel decidiu:
- Fique tranquilo, Marcos.
Resolveremos assim:
eu mudo para sua casa e o ajudo pagar o aluguel.
Está decidido!
- Não posso concordar com isso, Raquel.
Ninguém suporta Alice.
Acabei de contar tudo o que fiz hoje porque entrei em desequilíbrio por tanta queixa que ouvi, e você ainda quer ir lá para casa?
Só se estiver louca!
- Veja, eu conheço a Alice e, por isso, não vou me importar com o que quer que ela faça ou diga.
Estarei preparada.
- Não!
- Então quem vai lhe ajudar? - inquiriu Raquel com firmeza, encarando-o sem arrogância, mas desarmando-o de qualquer subterfúgio.
Após alguns segundos, enquanto Marcos reflectia, ela argumentou:
Acredito que tenha sido por minha causa que você se indispôs com nossa família e hoje não tem notícias de ninguém.
Papai está inválido.
O coitado nem entende o que está acontecendo. Mamãe é...
Bem, nem sei dizer se ela é submissa ou acomodada.
Vovô, por ser o "cezar" da nossa família, soberano, cruel, de extraordinária figura, jamais deixaria nossos irmãos nos
Como "Pedro, o Grande", ele seria bem capaz demandar executar o filho que se opuser às suas ordens.
Depois de breves instantes, Raquel apelou com voz mansa, envolvendo-o com sentimentos bondosos e sinceros:
- Somos um pelo outro, Marcos.
Eu só tenho a você.
Vamos morar juntos, irei para lá e vai dar tudo certo.
Marcos fitou-a longamente.
Ele estava sem alternativas e sem argumentos, por essas razões teria que concordar.
Com o passar dos dias, Raquel mudou-se para a casa de seu irmão.
E tendo a oportunidade de ficar sozinha com Marcos, ofereceu:
- Tome - dizia, estendendo-lhe um maço de notas de dinheiro.
- Onde você arrumou isso? - perguntou Marcos surpreso.
Com doce sorriso que irradiava ternura, Raquel respondeu:
- Assaltei um banco! - brincou, rindo gostosamente.
Notando que os olhos de Marcos sinalizavam espanto, esclareceu:
- É brincadeira, seu bobo.
- Eu sei, mas como o conseguiu?
- Eu tinha certa economia guardada no banco e...
Bem, o restante consegui com a venda de alguns móveis, televisão, vídeo, geladeira...
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:50 am

- Raquel!...
- Não diga nada - interrompeu-o, colocando o dedo indicador nos lábios de Marcos, sinalizando para silenciar.
Depois completou:
Quero que aceite e pague os aluguéis atrasados.
Daqui para frente será: vida nova!
- Raquel, você não deveria ter feito isso!
- Por que não?
Você não vai me deixar usar a sua geladeira?
Nem assistir a sua TV?
Marcos calou-se meio angustiado.
Algo o incomodava com aquela situação.
Era muita renúncia por parte de sua irmã.
Não queria que se sacrificasse tanto.
Com o dinheiro na mão, ele a olhou por longo tempo sem dizer nada e estampou um suave sorriso, quase forçado, no rosto pálido.
Nesse instante, Alice entrou na sala e com ar de desdém, trazendo na fala uma expressão debochada, observou:
- Que cena! Hum!... Comovente.
Não oferecendo atenção aos comentários pobres da esposa, Marcos lhe mostrou:
- Temos o dinheiro para pagar o aluguer.
A Raquel nos emprestou.
Alice fechou o sorriso irónico que segundos antes sustentava.
Não disse uma palavra.
Sua face, antes alva, cobria-se agora por um intenso rubor provocado pela ira e pela revolta.
Por índole, possuía um coração orgulhoso, repleto de ódio e de impulsos vaidosos que não a deixavam, no mínimo, agradecer o auxílio recebido.
A cena foi interrompida pela chegada de Elói, o filho mais novo do casal, que anunciava, afoito, um imprevisto:
- Mãe! Mãe!
O Nilson está brigando lá na rua, aos socos e pontapés!
Agora, com a oportunidade de se manifestar, Alice colocaria em suas palavras a insatisfação com o ocorrido minutos antes.
Ela poderia descontar naquela situação, através da imposição da voz, toda sua ira represada:
Quero que se mate! - gritou a mulher, estremecida de ódio.
Que morra de uma vez!
Será um a menos a me dar trabalho!
Marcos, sem dizer nada, saiu junto com Elói para ver o que estava acontecendo.
E Raquel, chocada com a expressão da cunhada, respirou profundamente, levantou a cabeça e saiu logo atrás do irmão.
Ela não queria ficar ali com Alice.
Pouco tempo depois, Marcos adentra em casa segurando o filho Nilson pelo braço e advertindo-o:
- Nada justifica isso!
Estou cansado de vê-lo rolando na rua como um animal.
- Ele me xingou!... Qual é?
Quer que eu seja um covarde?
- Vê se me respeita, moleque! - gritou Marcos furioso.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:51 am

Alice, que possuía o dom de interferir negativamente, opinou:
- Quer que ele seja igual a você, Marcos?
Engraçado, outro dia você disse que ele já ia fazer dezassete anos e que deveria arrumar um emprego e ir trabalhar.
Agora o chama de moleque!
Nesse instante, entre o casal, iniciou-se nova briga.
Nilson, intrometendo-se, foi punido fisicamente pelo pai, que o mandou para o quarto.
Raquel, em outro cómodo, permanecia em silêncio e aflição.
Tendo em vista as atitudes dos encarnados, os pensamentos queixosos e críticos, o palavreado carregado de sentimentos inferiores, no plano espiritual daquele lar, espíritos sofredores, de baixo valor moral, se achegavam compatíveis com as vibrações criadas pelos moradores dali.
Naquele instante, enquanto Marcos e Alice discutiam, eles possuíam verdadeiros aliados espirituais, tal qual um grupo de torcida que vibra a fim de incentivar seu escolhido.
A falta de respeito mútuo, a ausência de paciência, o excesso de reclamações, a falta de fé em Deus e de prece deixam qualquer lar à mercê da desarmonia, do desequilíbrio e de irmãos que, na espiritualidade, se aproximam e se instalam nesses ambientes.
São espíritos que, ignorantes e até maldosos, passam a influenciar, a envolver através de suas vibrações e até, muitas vezes, começam a incitar os encarnados às discórdias, aos conflitos, desejando que tragédias sejam concretizadas por eles.
Esses espíritos, como já dissemos, ignorantes e sofredores, se comprazem com tais acontecimentos funestos.
No entanto, eles só podem actuar quando o encarnado se deixa dominar por ideias incorrectas, negativas e lamuriosas, expressando também, em actos, tais sentimentos inferiores.
Logo na primeira noite na casa de seu irmão, Raquel não conseguiu dormir, passando a rolar de um lado para outro em busca do sono. Em vão.
Ao se levantar pela manhã, tomou somente uma xícara de café e se foi.
Em seguida, Alice decidiu ir buscar o pão para os filhos fazerem o desjejum e saiu reclamando:
- Agora vou virar empregada dessa "madame" aí!
Nem se incomodou em ir buscar o pão e só tomou café porque eu levantei cedo e fiz!
Ao retornar, antes de entrar em sua casa, uma vizinha, à qual Alice confiava alguns particulares, cumprimentou-a:
- Bom dia!
- Oi, Célia.
- Que cara! Aconteceu alguma coisa?
Alice, desviando poucos passos de seu portão, parou diante de Célia, que parecia querer puxar conversa.
- Só posso estar com essa cara, né?
- Quem é aquela que eu vi saindo agora há pouco da sua casa? Você recebeu visita logo cedo?
- Antes fosse visita. Essa é a minha cunhada, a Raquel. Você não se lembra dela?
- Hum!... Parece que conheço, mas...
- Pois é, Célia, "quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece".
Estamos numa situação tão difícil, menina...
Sabe, a Raquel veio morar com a gente para ajudar com as despesas.
- Mais uma boca!
Ajudará de que jeito?
- Ajudará pagando o aluguer.
A primeira ideia foi mudarmos para a casa dela.
Mas de maneira alguma eu poderia concordar com uma coisa dessas.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:51 am

Daí eu falei para o Marcos que, se ela quisesse ajudar mesmo, ela que se mudasse para cá!
E não é que o "diabo" veio mesmo! - relatava Alice, exibindo descontentamento e mau humor.
Mas ao menos eu estou na minha casa.
Aqui mando eu!
Qualquer coisa, eu boto ela pra correr!
Ai, Célia, o que eu faço? - perguntou, agora com voz chorosa.
- Já disse, mas você não acredita em simpatias - advertiu Célia.
- Se você me ensinar uma simpatia para arrumar um emprego, e se der certo, eu acredito - admitiu Alice desalentada.
- Para você arrumar um emprego?!
- Eu ouvi alguns desaforos do Marcos.
Com o olhar altivo, recordando-se novamente da agressão sofrida, Alice revelou:
Vou me vingar dele.
Quero fazê-lo engolir, e a seco, o que ele disse de mim.
Vou mostrar quem é incompetente e improdutiva. Ele me paga!
- Ah! Mas se o negócio é esse!...
Vem cá. Vem comigo.
- Mas eu tenho que levar o pão para os meninos.
- E só um minutinho!
Célia levou Alice para dentro de sua casa e pegou um caderno onde havia várias anotações sobre suas crenças.
Pouco depois, Alice voltou para sua residência e, por acreditar estar sem alternativas, passou a reunir apetrechos iniciando a manipulação do que seria necessário para conseguir o que queria.
Nesse instante, o espírito protector de Alice aproximou-se dela e envolveu-a carinhosamente, sugerindo:
- Filha, se pensa em oferecer a Deus esses apetrechos, está perdendo o seu tempo.
Deus é dono de tudo.
Se você oferece tudo isso a um espírito, cuidado!
Jesus já nos disse:
"Experimentai se os espíritos são de Deus".
Se os espíritos são de Deus, assim como o Pai Celeste, eles não querem nada disso.
Os valores e as conquistas pessoais são alcançados por merecimento, não por barganha.
Mesmo sabendo que Alice não o ouvia, aquele mentor passou-lhe sabiamente sua orientação.
Pelo envolvimento de amor, Alice, repentinamente, sentiu um medo inexplicável.
Um frio correu-lhe o corpo todo, e ela passou a pensar:
"Será que isso é certo?
Será que eu vou atrair 'coisas' ruins com isso?"
Aquele pensamento era o alerta que sinalizava que algo não estava correto.
Alice bem que deveria ter atendido aquela inspiração, porém seu desejo de vingança e sua vaidade foram mais fortes.
Ela não conseguiu se deter e continuou.
Na espiritualidade, em uma faixa vibratória na qual não poderia ver o mentor de Alice, encontrava-se Sissa, um espírito ignorante que quando encarnada praticava o mesmo que Alice, reclamações, criava brigas, era egoísta, vaidosa e orgulhosa, não procurava práticas salutares como a prece e pensamentos bons.
Sissa não era produtiva e só sabia tecer longas queixas.
Ela estava junto de Alice havia algum tempo e, naquele instante, ao ver a mulher realizando o que ela mais praticou, quando encarnada, regozijou-se satisfeita.
Aproximando-se mais de Alice, Sissa passou a envolvê-la com um verdadeiro abraço, se comprazendo com o que a encarnada fazia.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:51 am

Decidindo, então, permanecer sempre com ela, procuraria ajudá-la para que continuasse com aqueles feitos.
Foi nesse momento que um sentimento de segurança e fé, ainda que não verdadeiros ao que realizava, passou a fazer parte de Alice.
O medo experimentado pouco antes agora desaparecera.
Sabiamente seu mentor pessoal não interferiu, uma vez que sua tarefa já havia sido realizada:
o envolvimento e a inspiração relembrando o que é correto, o que Alice percebera de alguma forma, mas, infelizmente, não dera atenção.
Mentor "não é ama-seca", e todos os encarnados têm direito ao livre-arbítrio, à livre escolha.
Se no instante em que sentiu insegurança Alice tivesse parado e pedido:
"Deus, oriente-me. Ajude-me a fazer o que é correcto.
Instrua-me!", é bem certo que em seu âmago sentiria vontade de abandonar o que fazia e não se deixaria envolver por qualquer espírito sem instrução que pudesse, porventura, estar próximo.
Quantas vezes questionamos:
"Deus, por que estou infeliz e insatisfeito?
Por que me encontro em situação tão difícil?".
Ao invés disso, poderíamos nos harmonizar e, com humildade, perguntar:
"O que deixei de fazer para estar assim?
O que posso fazer para me resignar, trabalhar para o bem dos outros e evoluir, com as bênçãos de Deus e seguindo os ensinamentos de Jesus?"
Sempre existe uma entidade instruída a nos orientar no plano espiritual.
Afinarmo-nos com ela e nos afastarmos de espíritos malfeitores e ambiciosos depende de nossos pensamentos, de nossas palavras e acções condizentes com as Leis de Deus e os ensinamentos de Jesus.
Bem mais tarde, ao chegar em casa, Raquel estranhou ver aquela vela de grosso calibre acesa em lugar bem elevado na cozinha.
Após o jantar, enquanto ajudava a cunhada a arrumar a cozinha e assegurando-se de que Alice não iria se irritar com sua curiosidade, Raquel perguntou, um tanto cautelosa:
- Para que aquela vela, Alice?
- Ah! E uma simpatia que estou fazendo.
Quero arrumar um emprego, para ter algum dinheiro, manter-me ocupada e ter mais valor para o seu irmão.
- Ora, Marcos a valoriza. Mas se quer arrumar um emprego, creio que ele ficará ainda mais contente, porque a situação de vocês se estabilizará mais rapidamente.
- Não tente me adular, Raquel.
Marcos nunca me valorizou - retrucou a cunhada em tom de ironia.
- Para mim, já.
Outro dia mesmo ele comentou do seu capricho com a casa.
Sabe, Alice, meu irmão a quer muito bem.
Você e os meninos são a única família que ele tem.
Quanto a mim... bem, eu sou irmã, estarei aqui por pouco tempo.
Marcos só tem vocês.
Deixando-se envolver pelos modos mansos que Raquel naturalmente usava, mais branda, Alice perguntou:
- Não sei por que brigamos tanto.
O que será que posso fazer?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:51 am

Pensativa e cuidadosa com as palavras, Raquel arriscou:
- Sabe, quando a situação é crítica, se os sentimentos dos outros estão enervados, e se eu vejo que posso tumultuar ainda mais com uma pequena opinião, eu me calo.
Fico quietinha.
Depois, quando tudo se acalma, posso até arriscar um palpite ou esclarecimento de forma mansa.
- Ah! Isso é você.
Eu não sei ser assim, não - reagiu Alice rapidamente.
- Sabe, Alice, para tudo na vida precisamos treinar.
Tente! Quantas vezes forem necessárias.
Quando você verificar os bons resultados, a mudança estará ocorrendo naturalmente.
A cunhada ficou pensativa até que o espírito Sissa aproximou-se dela e interferiu a fim de não deixá-la branda para reflectir sobre o que é bom, pois, se isso acontecesse, Alice não mais se deixaria envolver por ela.
- Ela está querendo ditar normas para você? - perguntou Sissa como se debochasse.
Pelo visto já começou a mandar na sua vida!
Repentinamente, Alice transformou a face serena em um rosto franzido e sisudo.
Arrematando o assunto, falou quase arrogante:
- Quem quiser conviver comigo tem que me aceitar como sou.
Raquel emudeceu, sentindo seu rosto aquecer por uma sensação de vergonha e um misto de mágoa pelo que ouvia.
Como uma dor, guardou no peito aquela sensação de desapontamento, sem nada comentar.
Tinha prometido a si mesma não discutir com Alice, então não o faria, nem daria qualquer conselho ou opinião que não fossem bem-vindos.
Passaram-se alguns dias...
Marcos agora se encontrava mais tranquilo, pois, com o dinheiro oferecido por sua irmã, colocara em dia o pagamento da locação da casa.
A presença de Raquel oferecia mais serenidade; ela era agradável e contornava a situação com Alice, que quase não se alterava mais.
A nova hóspede procurava fazer de tudo para não incomodar a cunhada, e ainda ajudava no que fosse preciso, de acordo com sua disponibilidade.
Sabendo que Alice desejava trabalhar, Raquel procurou, com os conhecidos, uma oportunidade de emprego para a cunhada.
Certo dia, quando o início da noite era agraciado com um belo pôr-do-sol, por se tratar da época do ano em que o gostoso verão parece animar a todos, Raquel, bem-disposta, nem sentiu o trajecto de volta para casa, quase não percebendo que naquela hora o sol ainda podia ser visto, belo e alaranjado, bem na linha do horizonte.
A moça não via a hora de chegar em casa e contar para a cunhada a mais recente novidade.
Pouco depois...
- ... então a Rita me deu o número do telefone.
Esse gerente é cunhado dela.
Sabe, ele queria conversar um pouco sobre o perfil de quem pudesse ocupar a vaga e... bem...
Diante da pausa, Alice inquietou-se animada:
- Vamos, diga!
- Aqui está o endereço! - anunciou Raquel, exibindo largo sorriso ao estender a mão para Alice, segurando o papel em que estava a anotação.
- Ah! Eu não acredito! - gritou Alice empolgada.
- Pode acreditar - tornou Raquel muito contente.
Você está agendada para uma entrevista daqui a dois dias.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:52 am

Ligeiramente, olhando para o endereço com olhos brilhantes, Alice afirmou com convicção:
- Eu vou conseguir. Eu sei que vou conseguir.
- Claro que vai! - incentivou a cunhada.
Elas estavam felizes com aquela primeira vitória.
Marcos, que acabava de chegar, surpreendeu-se com tanta animação por parte da esposa, coisa rara de se ver.
Colocando-o a par das novidades, Alice, muito entusiasmada, voltou sua preocupação para alguns detalhes:
- E roupa! - lembrou-se.
Eu não tenho roupa para uma boa apresentação.
Afinal, é uma entrevista.
- Se você não se importar, pode usar as minhas - avisou Raquel sem pretensões.
- Mas será que servem? - preocupou-se Alice medindo com o olhar o corpo de Raquel.
- Claro que sim. Encontraremos algo.
Você não deve usar uma numeração muito maior que a minha.
Além do que tenho roupas de tecidos que cedem.
Vamos, venha ver! - chamou Raquel ansiosa e alegre, puxando Alice pelo braço.
Já no quarto, passaram a procurar o que mais convinha vestir para uma ocasião como aquela.
Roupas, sapatos, adornos para os cabelos, bolsa, brincos e até maquiagem Raquel colocava à disposição de sua cunhada.
Entre a alegre procura e a exibição de suas coisas, Raquel não pôde perceber o olhar invejoso de Alice, disfarçado com um sorriso, na decepção de quando uma ou outra peça não lhe servia bem.
Impensadamente e com ingénua felicidade, Raquel estendia sobre seu belo corpo um vestido e o admirava sob o olhar enraivecido de sua cunhada, que a jovem não podia perceber, pois ria gostosamente depois de uma brincadeira singular.
Segurando com uma mão o vestido no colo e com o outro braço apertando-o rente à sua cintura, Raquel rodopiou em frente do espelho, enquanto sorria ao ver seus longos cabelos se desalinhando e a cobrindo toda, formando um belo despenteado.
Com simplicidade, arrumou as mechas para trás, livrando o rosto dos longos fios.
Voltando-se para Alice, ofereceu a roupa, dizendo:
- Veja se serve. Eu nunca tive oportunidade de usá-lo.
Mas é lindo! Irritada pela exuberante e delicada beleza corporal de sua cunhada,
Alice estremeceu de inveja, mas respondendo com modos, pois precisava da ajuda de Raquel, disse:
- Nem adianta. Não vai servir.
- Experimente! insistiu a moça, sem pretensões.
- Não queira me comparar a você, Raquel!
Tudo lhe cai muito bem!
- Não se subestime, Alice.
Você é muito bonita, é jovem...
Atalhando-a de imediato, a outra revidou:
- Trinta e sete anos é juventude? Onde?
- Se você for ranzinza, chata e egoísta, aos dezoito anos será uma velha.
Vamos! - tornou Raquel com generosidade. - Vista isso.
O vestido, apesar de ter servido em Alice, que tinha outro biotipo e era bonita também, ficara melhor na elegante Raquel que, com seu rosto delicado, de finos traços e expressões meigas na pele macia, parecia espelhar generosidade, traduzindo uma doce simpatia e harmonia a tudo que usava.
Já escolhida a roupa e os apetrechos, Alice ficara mais tranquila, enquanto Raquel passou a ver a cunhada como uma amiga.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:52 am

Ela acreditava que todo aquele mau humor de Alice seria pela ausência de ocupação produtiva e lucrativa, principalmente.
Agora, arrumando um emprego, junto com as novas situações corriqueiras que haveriam de surgir, Alice estaria atenta para outras novidades e, consequentemente, não seria tão implicante com os acontecimentos no lar.
Os dias correram céleres.
Tudo certo. Alice conseguiu o emprego tão desejado e, maravilhada com o êxito, na primeira oportunidade procurou por Célia, avisando-a da novidade e agradecendo sua ajuda na conquista:
- Obrigada, Célia! Obrigada mesmo!
Se não fosse por você!...
Quem diria que alguém como eu, que só poderia trabalhar como faxineira, e na minha idade, encontraria um emprego como esse?
- É um grande magazine, Alice! Que sorte!
Promotora de vendas deve ganhar bem!
Você viu como simpatia funciona?
- É mesmo, né menina!
Agora o que eu preciso é dar um jeito no Marcos e no emprego dele.
- Ah! Isso é fácil.
Só que, pro Marcos firmar no emprego e pró chefe dele dar aumento, o melhor mesmo é ir num "lugar aí" que eu conheço, que é óptimo.
Após ouvir a amiga e combinarem ir ao "tal lugar", Alice foi para sua casa e contou à sua cunhada:
- Então, Raquel, foi depois dessa simpatia que apareceu essa oportunidade de emprego.
Puxa, eu nunca tinha dado importância para o lado espiritual!
Raquel ouvia atentamente, mas, no decorrer do relato, aquele tipo de assunto provocou-lhe uma sensação diferente, ruim.
Uma amargura começou a vibrar em seus sentimentos, chegando a experimentar um verdadeiro mal-estar.
Raquel acreditou que não foi a simpatia que ajudou Alice a arrumar um emprego, mas sim sua manifestação no desejo de ir trabalhar.
Se ela soubesse que a cunhada gostaria de encontrar uma ocupação, já teria lhe arranjado um serviço bem antes.
Mas ela temeu fazê-lo, pois acreditou que Alice reagiria dizendo que não havia lhe pedido nada, ou que aquilo não era de sua conta.
Repentinamente os pensamentos de Raquel se voltaram para a cunhada que lhe perguntava:
- Então Célia disse que tem um "lugar aí" que é óptimo.
Sabe, Raquel, eu queria tanto ir lá, mas...
Ah! Sabe... Ir sozinha é tão ruim.
Raquel, sem expressão alguma em seu semblante, porém um tanto apreensiva, aguardou pelo inevitável e indesejável convite:
- Ah, Raquel, vamos comigo?
Titubeando e não querendo magoar a cunhada que, nos últimos dias, se mostrava mais amigável, Raquel respondeu:
- Não sei, não, Alice.
Não gosto disso.
- Já foi a algum "lugar" assim?
- Não. Mas a ideia não me agrada.
Sabe, fui criada na Igreja Católica e...
Você sabe como minha família é ortodoxa.
Não gosto dessas coisas.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:52 am

- Ah! Vamos, vai, Raquel.
Se a gente não gostar do "lugar", não voltaremos mais e pronto.
Diante do silêncio da jovem, que não sabia impor sua vontade, Alice chantageou, dizendo:
- Você é minha amiga ou não é?
Se for, não vai me deixar ir lá sozinha.
Raquel, com um sorriso forçado, acabou concordando.
- Está bem. Mas só dessa vez, hein.
Alice se contentou, mas a moça não se sentia bem com aquilo.
No entanto, se quisesse vê-la satisfeita, teria de ceder aos seus caprichos.
No dia seguinte, em seu trabalho, Raquel via-se confusa em meio a tanto papel.
Vagner, o colega que se interessara por ela, aproximou-se dizendo:
- Como está compenetrada!
Raquel se surpreendeu e voltando-se para o lado, com a educação que lhe era própria, perguntou com singelo sorriso:
- Como? Não ouvi.
- Estou observando-a há tempos e nunca vi tanta concentração.
- Tenho que ficar atenta a essas tabelas, códigos e valores, se não... - explicou-se cortês e gentil.
Já pensou fazer reservas para a Espanha em vez da Austrália ou coisa assim?
Sem falar dos remanejamentos e das estatísticas.
Estamos nos aproximando das férias, esqueceu?
- É, eu sei.
Também estou ficando maluco por causa das férias.
Quando vim trabalhar em uma empresa aérea, não imaginava que seria assim.
Pensei que teria mais facilidade de viajar nas férias, mas descobri que é a temporada em que mais se trabalha aqui.
Raquel ameaçou voltar sua atenção ao trabalho, mas Vagner insistiu:
- Não se desgaste tanto.
Você precisa se poupar.
Diante do suave sorriso da bela jovem, ele arriscou:
- Gostaria de conversar com você, Raquel.
Eu a acho tão... misteriosa.
A moça ficou séria e ele continuou:
- Vamos sair hoje, após o expediente?
- Não. Não posso - respondeu imediatamente, sem reflectir.
- Por quê?
Só bateremos um papo, nos conheceremos, afinal, nunca fala de si.
- Desculpe-me, Vagner, mas estou tão atarefada agora que nem posso lhe dar atenção.
Agradeço o convite, no entanto não quero sair.
Estou muito cansada.
- Então vamos almoçar juntos, certo?
- Perdoe-me novamente, mas hoje não vou almoçar.
- Está bem. Fica para outro dia.
Insatisfeito, porém sem exibir seu descontentamento, Vagner deu-se por vencido.
Sem qualquer comentário, Raquel forçou um sorriso e voltou para suas actividades.
Sentiu-se incomodada com o convite, pois não o desejava.
Havia dias percebera que Vagner, vez ou outra, tentava se aproximar para conhecê-la melhor.
Bem mais tarde, quando a fome a incomodou muito, decidiu não ir almoçar, mas fazer um lanche rápido.
Sentada a uma mesa em lugar de pouco movimento, pois já passara do horário comum às refeições, Raquel apreciava um lanche enquanto reflectia contrariada por ter que acompanhar sua cunhada.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:52 am

Não queria desagradar Alice, mas aquilo não era de sua vontade.
No entanto, de uns dias para cá, Alice estava tão alegre, gentil e muito animada.
Nunca a vira assim.
- Posso?! - perguntou Alexandre, com sua voz grave, que chegou bem próximo sem ser notado.
Raquel, muito distraída e perdida em seus pensamentos, quase gritou, assustando-se tanto que estremeceu a ponto de se sobressaltar, entornando um pouco do refrigerante que estava no copo que segurava.
- Por favor, Raquel, me desculpe! - pediu o moço gentil, ligeiro e bem constrangido com a situação.
Sem jeito, deixando sobre a mesa sua bandeja, segurou no braço de Raquel, tentando acalmá-la.
- Não foi nada - respondeu a jovem tentando disfarçar o susto e secando a mesa com um guardanapo.
Mesmo exibindo-se verdadeiramente envergonhado, Alexandre não conseguiu segurar o riso que reflectia em seus lábios e nos olhos brilhantes.
Raquel também começou a rir com gosto e permitiu:
- Vamos, sente-se.
Alexandre se acomodou a sua frente e disse:
- Depois dessa, fico até sem graça.
No entanto... Desculpe-me, mas tenho que admitir que você reagiu de um jeito muito engraçado.
Pareceu receber uma descarga eléctrica.
Raquel riu novamente e Alexandre tornou menos hilário:
- Por onde voavam esses pensamentos?
Aproximei-me e você nem viu!
- Não. Não o vi, mesmo.
Eu estava tão distraída.
- Está tudo bem?
- Sim, está.
- Não parece.
Para estar fazendo um lanche a essa hora...
Deve estar repleta de serviço, como eu.
- Ah! Estou sim.
E ambos falaram juntos, como num coro:
- Férias!
Eles riram e depois continuaram o lanche entre um assunto e outro sobre o trabalho.
Raquel mais ouvia do que falava.
Ela possuía uma personalidade quieta, quase misteriosa, que se escondia por trás de sua beleza naturalmente angelical.
Após terminarem, eles voltaram juntos para o trabalho e não deixaram de ser percebidos por Rita e Vagner, que estavam atentos, cada qual com seu interesse pessoal.
Raquel sentiu-se satisfeita pela companhia agradável que tivera, pois o amigo não era indiscreto e sempre falava de coisas agradáveis.
Mais à tarde, na primeira oportunidade, Vagner procurou por Alexandre.
- E aí? Você conseguiu, hein!
- Consegui o quê? - perguntou sem entender as intenções do outro.
- Não disfarça, Alexandre.
Você está querendo "ganhar" a Raquel.
Será mais uma para sua colecção.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:53 am

Alexandre riu gostosamente, pendendo com a cabeça de forma negativa e afirmando:
- Não quero "ganhar" ninguém, cara!
Pode "atacar"! Se você está falando isso só porque nos viu chegar juntos, esquece.
Foi casual. Eu a encontrei sozinha no local em que fui fazer um lanche rápido.
- Mas eu a convidei para almoçar e ela recusou.
- Você errou.
Deveria tê-la convidado para um lanche rápido.
Raquel me disse que está repleta de serviço, como todos nós, e que não teve tempo para ir almoçar.
Vagner, com olhar desconfiado, encarava o colega com certo desdém.
Não lhe agradava a ideia de Alexandre se interessar por Raquel, pois ele havia se determinado a conquistá-la.
Ele temia pela decisão do colega, para quem não se achava páreo, pela exuberância, pela personalidade decidida, forte e marcante.
Apesar de Alexandre não ser do tipo a ficar tentando ou assediando mulher alguma.
Aliás, no que se dizia em respeito a isso, pouco se sabia sobre ele.
- Fique tranquilo, Vagner.
Não estou querendo "ganhar" a Raquel.
Admiro seu bom gosto.
Ela é muito bonita, sensata...
Mas eu não me pretendo "amarrar" em ninguém.
Desejo-lhe sorte!
- A Raquel me atrai, sabe.
Ela tem um certo enigma que me fascina.
É diferente.
Pensando por alguns minutos, Vagner perguntou:
- O que posso fazer para me aproximar?
- Pessoas quietas e misteriosas não gostam de ser abordadas.
Elas, normalmente, repelem a invasão de privacidade.
Aproxime-se dela sem ser "grudento".
Seja simpático e amigo.
Fale sobre o que ela quiser falar.
Alexandre sorriu, pois se lembrou que em sua família todos o chamavam, às vezes, de "grudento", por ele adorar um abraço e o contacto de carinho.
Vagner sorriu ao conselho do amigo e animou-se para conquistar Raquel.
No fim do expediente, apesar do horário de saída já ter se adiantado, Raquel ainda trabalhava querendo colocar em ordem as suas tarefas.
Vagner, observando-a de longe e aproveitando que havia poucos colegas na grande seção, aproximou-se da moça, anunciando:
- É hora de ir embora!
Raquel não ficou satisfeita; Vagner tirou-lhe a atenção do serviço que queria, a todo custo, terminar o quanto antes, e a presença do rapaz atrapalhava sua concentração.
- Deixe isso para amanhã, Raquel. Vá descansar.
Você não será promovida por ficar depois do expediente.
Raquel respondeu com silêncio e um leve sorriso forçado.
- Vamos. Eu a levo para casa - quase impôs Vagner.
- Não - respondeu enérgica e com impulsiva frieza.
- Não reaja assim - disse ele com voz dengosa.
Vamos vai. Eu a levo para casa.
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