Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:17 am

Suspirando profundamente, com modos e gestos típicos, ele respondeu:
- Você já está me dando nos nervos!
Não sei porquê, mas vou tentar te ajudar.
Levanta daí! Vamos! - insistiu, puxando-a com delicadeza pelo braço.
Raquel, confusa, desorientada, não reagia e se deixou levar.
Eles caminharam até um telefone público próximo dali e ele ofereceu:
- Tome! Ligue e vamos acabar logo com isso.
Eu não sou babá e não posso ficar aqui pajeando ninguém a madrugada toda!
Mesmo me simpatizando com você.
- Eu não sei... - atordoada não conseguia ligar.
- Vamos, Raquel! - exigia inquieto.
Não me faça perder tempo!
Vendo que a moça estava atormentada, ele resolveu:
- Vai, me fala o número que eu ligo para você.
- Eu não tenho certeza, acho que... tinha os quatro números do meu ramal e...
O rapaz teve que fazer três ligações até conseguir acertar o número do telefone do apartamento de Alexandre que, ao se identificar, assonorentado, acreditou tratar-se de um trote e desligou.
- Puxa! Que cara grosseiro! - reclamou o moço.
Vou tentar outra vez, mas, se ele desligar...!
- O nome dele é Alexandre - informou com a voz fraca.
- Alo! É da casa do Alexandre? - perguntou ligeiro.
Por estranhar os trejeitos de entoar a voz, Alexandre admitiu, novamente exibindo insatisfação:
- É! Porquê?
- Não desliga. Não é trote, viu?!
A Raquel vai falar com você.
- Escuta aqui - gritou Alexandre nervoso , vou...
- Alexandre...? - perguntou Raquel com voz suave e chorosa.
- Raquel?! - estranhou o amigo, sobressaltando-se.
Onde você está? Quem está com você?!
- Alexandre...
Raquel não conseguia parar de chorar, mas, entre os soluços, murmurou:
- Alexandre, me ajuda...!
- Onde você está?! - perguntou o amigo, quase gritando, enquanto ouvia o choro sem obter respostas.
- Dá aqui, Raquel - pediu o rapaz que a ajudava.
Eu falo com ele.
E pegando o fone, disse:
- Alo?
- Quem está falando? - perguntou Alexandre.
- Ah, meu bem! Não interessa!
Olha, são três da madrugada.
Esse lugar é uma "barra".
Vem pegar a Raquelzinha, vem!
Antes que ela se dê mal.
Ela está muito nervosa, credo!
Tá falando em morrer!!!
O irmão a tocou de casa e ela também tá machucada.
O problema é: ela tá bem aqui no "meu ponto", me atrapalhando, né!
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Ave sem Ninho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:17 am

Procurando conter seu desespero, Alexandre perguntou com voz mais calma:
- Onde vocês estão?
Após saber o endereço, ele saiu às pressas para o local.
Minutos depois, Alexandre chegou à referida praça e, ao parar o carro, ficou desconfiado, pois o lugar era muito sinistro.
Mas antes mesmo de descer do veículo, ele sofreu assédios daqueles que se encontravam ali por ficar olhando à procura de sua amiga, até que ouviu:
- Saiam! Saiam, meninas!
Esse aí é amigo da minha colega, não é freguês!
Alexandre reconheceu Raquel que, bem fragilizada, era conduzida por aquele rapaz.
Saindo rapidamente do carro, sem se importar com mais nada, Alexandre só viu Raquel.
Aproximando-se, ele a envolveu com carinho, perguntando:
- Raquel! O que aconteceu?
- É melhor vocês irem.
Vão! Vão! - pediu o moço que ajudava.
Alexandre, conduziu Raquel e a colocou dentro do carro.
Virando-se para o rapaz, agradeceu meio sem jeito, tendo em vista a situação.
- Obrigado. Obrigado por tudo...
- De nada. Mas... como é?
Vai ficar só nisso?
Gastei com a ligação.
Não foi, Raquel? - perguntou curvando-se ao olhar para a moça que já estava dentro do carro.
Alexandre muito preocupado e querendo sair o quanto antes dali, rapidamente tirou de seu bolso certo valor em dinheiro e entregou ao rapaz.
Agradeceu novamente e se foi.
No caminho para o seu apartamento, ficou em silêncio enquanto percebia que lágrimas contínuas rolavam no rosto de Raquel, que parecia em choque, com o olhar perdido, imersa em seus próprios pensamentos.
Estacionando o carro na garagem do prédio, ele desceu, contornou o veículo e abriu a porta para que ela o acompanhasse.
A amiga estava em profundo abalo emocional.
Percebendo seu estado, pediu gentilmente:
- Vem, Raquel. Vamos subir.
Ela desceu como que maquinalmente do carro, obedecendo-o.
Chegando ao apartamento, Alexandre verificou que estava toda molhada e muito gelada.
Ele não sabia o que fazer, estava nervoso e preocupado.
Colocando-a sentada no sofá, tomou o lugar ao lado e, segurando-lhe a pequena mão gelada entre as suas, perguntou com voz mansa:
- O que aconteceu, Raquel?
Ela fez um gesto singular com os ombros como quem não soubesse responder.
Alexandre a abraçou, só que ela ficou petrificada, sem reacção e com olhar perdido.
- Raquel, o que houve? - tornou o amigo ao afastá-la de si.
Mas ainda segurando em seus braços, pediu:
- diga alguma coisa, por favor.
Ela olhou-o nos olhos e Alexandre só pôde observar as lágrimas compridas que rolavam seguidas, mas ela não dizia nada.
- Tudo bem. Tudo bem - disse, com voz branda e pensando no que deveria fazer.
Olha, é melhor descansar.
Você está muito gelada, molhada.
Vem aqui.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:17 am

Ele a conduziu até a suíte e tirando um robe do armário, falou:
- Vou fazer alguma coisa quente para você beber.
Tire essa roupa molhada e vista esse roupão.
Deite-se e... Vou ver o que faço, tá? - avisou um tanto atrapalhado pelo imprevisto.
Raquel não respondeu nada.
Alexandre saiu, fechou a porta do quarto e, somente após preparar um chocolate quente, retornou.
Batendo à porta, ele não ouviu resposta e perguntou firme:
- Raquel, eu posso entrar?
Sem ouvir qualquer argumentação, vagarosamente Alexandre abriu a porta da suíte e, para sua surpresa, Raquel ainda estava sentada na cama do mesmo jeito que a deixara.
- Raquel... - murmurou desalentado e sensibilizado.
Deixando a bandeja que levava sobre uma cómoda, aproximou-se e pediu:
- Raquel, ouça bem - segurando-lhe o rosto, ele a fez olhá-lo e continuou: -, está sendo difícil para nós dois.
Estou preocupado, nervoso, e não sei o que fazer ainda por ter sido surpreendido com você neste estado.
Não estou insensível, estou sendo racional.
Vamos minimizar os problemas, certo?
Então, por favor, antes que fique doente, tire essas roupas molhadas.
Você está fria demais e...
- Preciso ir ao banheiro - murmurou com voz baixa e vacilante, interrompendo-o.
- Óptimo. É aqui - disse indicando.
Aproveita, toma um banho bem quente e...
- Não... - recusou impensadamente.
- Tudo bem, não toma, mas vista isso, certo?
Ah! Ou melhor - argumentou ele que, lembrando-se e abrindo uma gaveta, pegou dizendo: - aqui tem esta camiseta e este agasalho.
Estão limpos.
Ficarão grandes em você, mas é o melhor que posso oferecer.
Por favor... - pediu com brandura oferecendo-lhe as roupas.
Raquel, estendendo a mão pálida e trémula, pegou e o amigo disse com jeitinho:
- Toma um banho bem quente, vai.
No armário do banheiro tem toalhas limpas e secas. Pode usar.
Ao ver Raquel se levantar, ele pegou a bandeja novamente e saiu da suíte, dizendo:
- Vou esquentar esse chocolate.
Já deve estar frio.
Raquel não disse nada e Alexandre saiu.
Após poucos minutos, do outro cómodo, ao aguçar os ouvidos, ele pôde escutar o barulho do chuveiro ligado.
Alexandre estava muito preocupado com o que poderia ter acontecido.
Raquel estava agindo estranhamente.
O que ele poderia fazer?
Em poucos segundos passou a ter dúvidas sobre o facto de ajudá-la ou não.
Os companheiros espirituais que Raquel trazia consigo e que, havia algum tempo, a envolviam com pensamentos tristes de maus presságios, começaram a passar suas vibrações para o rapaz que, imediatamente, após os primeiros sentimentos que o amarguraram, rogou por socorro.
"Deus, me ajude", pensou.
"Eu queria tanto a Raquel comigo, agora...
O que está acontecendo? Preciso de forças.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:18 am

Eu a amo, mas a situação é confusa, complicada e eu estou com medo de ter problemas.
Ajude-me, por favor."
Mesmo preocupado, Alexandre sentiu-se mais confiante.
Atento, ao perceber que Raquel saíra do banho, foi até o quarto levando o chocolate quente.
- Raquel, eu posso entrar? - perguntou junto à porta da suíte.
- Entre - respondeu a jovem com voz fraca.
A moça estava sentada sobre a cama trazendo o semblante desolado e o mesmo olhar perdido.
Ao vê-la com sua camiseta e seu agasalho, Alexandre teve a iniciativa de lhe dar uma blusa e meias de lã, uma vez que estava muito frio.
- Toma, vista este suéter - aconselhou com brandura.
Examinando-a com o olhar ficou comovido com o estado de Raquel, que fazia tudo mecanicamente.
Sem se constranger pegou as meias e pôs-se a colocá-las nos pés da amiga.
Levantando-se, pegou a pequena bandeja que sustentava a xícara com o chocolate quente e pediu:
- Beba isso para esquentar.
Ela não dizia nenhuma palavra.
Ele tirou a toalha que envolvia os cabelos da moça, ainda molhados, e, de joelhos sobre a cama, passou a secá-los, penteando-os com terna delicadeza.
Raquel pouco se importava com o que acontecia.
Estava muito estranha.
Ao vê-la terminar de beber o leite, tirou-lhe a xícara das mãos e a fez deitar.
Raquel só obedecia.
Ao cobri-la, Alexandre ficou de joelhos no chão ao lado da cama afagando-lhe os cabelos e o rosto.
Depois de alguns minutos, disse com extrema generosidade:
- Procure dormir.
Tocando levemente no pequeno hematoma que Raquel tinha na face, avisou:
Lamento não ter nenhum remédio para isso.
Quando amanhecer, eu vou até a farmácia comprar alguma coisa.
Ante o silêncio, avisou:
- Estarei lá na sala.
Vou deixar a porta aberta.
Qualquer coisa, você me chama.
Forçado pelas circunstâncias, Alexandre apanhou algumas cobertas no armário, foi para a sala e ajeitou-se no sofá.
Insone, pois as preocupações roubavam-lhe qualquer conciliação com o sono, observou o dia clarear lentamente.
Quando não conseguiu mais ficar deitado, levantou-se e preparou o desjejum, tentando não fazer tanto barulho pensando em não acordar a amiga.
Após algum tempo, inquieto, pois não percebia nenhum movimento da moça, foi até o quarto.
Aproximando-se vagarosamente, verificou que Raquel estava deitada de lado, encolhida, na mesma posição que a deixou.
Seu olhar estava perdido e o avermelhado denunciava que também não havia dormido.
Ajoelhando-se ao lado da cama, acariciou-lhe os cabelos e o rosto, depois propôs:
- Quer levantar? Preparei algo para você comer.
Maquinalmente ela se sentou sem encará-lo e, para deixá-la mais à vontade, Alexandre avisou mais animado:
- Aguardo você na cozinha, tá?
Alguns minutos depois Raquel saiu do quarto e o rapaz a recebeu na sala, conduziu-a até a cozinha, fazendo-a se sentar.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 09, 2017 9:18 am

- Desculpe-me, não sei fazer café.
Mas aqui tem chá, leite, chocolate em pó, biscoitos, torradas... - avisou descontraidamente, tentando deixá-la mais à vontade.
- Estou sem fome - falou tímida e desalentada.
Tranquilizando a animação de segundos antes, agora estava insatisfeito.
Ele ficou sério, sentou-se a seu lado e explicou:
- Raquel, você precisa se alimentar.
Tome ao menos esse chá bem adoçado, certo? - disse colocando-lhe a bebida fumegante na xícara.
A custo, Raquel ingeriu somente o chá, enquanto ele fazia sua refeição quase normalmente.
A situação era preocupante, Alexandre não conseguia relaxar por mais que tentasse.
Após terminarem, Raquel se levantou e, sem dizer nada, automaticamente ia levando a louça até a pia quando Alexandre a deteve:
- Agora não. Isso pode ficar para depois.
Vamos nos sentar ali na sala.
Acredito que temos muito que conversar.
Após se acomodarem no outro recinto, o amigo tomou a iniciativa e falou:
- Raquel, quando chegamos aqui de madrugada, fiquei atento ao seu estado, às circunstâncias, e vi que não era um momento propício para nós conversarmos.
Sei que ainda está abalada, mas acredito que pode me contar o que aconteceu.
Ela estava muito abatida e amargurada.
Eles se entreolhavam e o silêncio reinou por alguns segundos.
A respiração curta e rápida da moça mostrava alteração de seu equilíbrio emocional e, por isso, murmurou vacilante:
- Estou com medo...
Lágrimas copiosas rolaram em seu rosto.
Ele se sentou ao seu lado e, tentando abraçá-la, foi repelido com um gesto delicado.
Nesse instante Raquel, colocando os pés sobre o sofá, abraçou os próprios joelhos e pôs o rosto entre os braços, chorando por alguns minutos.
- Raquel - chamou o amigo mais firme e equilibrado.
Diga-me o que aconteceu.
- Ontem - começou tímida e com voz hesitante - depois que você me deixou em casa, entrei e ouvi a Alice me caluniando para o Marcos.
Ela disse que nos viu juntos no shopping e nos seguiu até aqui.
- E daí? - perguntou ele diante da pausa.
- Meu irmão ficou uma fera e me mandou ir embora da casa dele.
- Só por causa disso?!
- Não... - respondeu Raquel, soluçando agora pelo choro que iniciava.
A Alice disse para o Marcos que...
- Quê...? - questionou ansioso não suportando a longa pausa.
Com a voz abafada, pausada e muito constrangida, ela revelou aflita:
- ... que eu estou grávida e... e o filho é seu.
Alexandre abaixou a cabeça e quase riu, não se incomodando com a seriedade do assunto.
Mais sério, argumentou:
- Raquel, não se preocupe com isso.
"A verdade é filha do tempo", em breve Marcos saberá que é mentira.
- A Alice disse que você estava me convencendo a tirar a criança.
Ela falou ao meu irmão que eu já fiz isso antes, que sou uma garota de programa - chorou mais ainda em virtude de sua sensibilidade natural.
- Raquel, pelo amor de Deus! - alertou com subtileza tentando animá-la.
Em vez de ficar chorando, você tem mais é que se dar por feliz, pois saiu da casa deles.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:18 am

- Não é bem assim! - replicou fragilizada.
- Como não é assim?
Além do mais, seu irmão é muito ignorante para agir dessa forma e por esse motivo.
Aproximando-se da colega, ele tocou-lhe na face machucada com jeitinho ao perguntar:
- Foi ele quem fez isso no seu rosto?
O Marcos bateu em você?
- Não. Eu fui roubada.
Saí da casa dele e não sabia para onde ir.
Fiquei andando e... Nem sei direito como aconteceu.
- Machucaram você, além disso? - expressou-se bem preocupado.
- Não - murmurou com leveza na voz.
- Não mesmo?! insistiu ele desconfiado.
- Não.
- Como você foi parar naquela praça?
- Andando.
- Andando?! - admirou-se o rapaz.
Raquel chorava ainda e, tentando consolá-la, Alexandre propôs:
- Vamos resolver uma coisa de cada vez.
Você vai ficar aqui comigo e necessita de algumas coisas.
Olhando-a e acreditando que Raquel estava adoravelmente linda em suas roupas, que lhe vestiam bem grande, ele falou voltando à realidade:
- Vou buscar um remédio para passar em seu rosto.
Depois preciso providenciar um colchão para eu pôr no outro quarto e, ainda, irei até a casa do seu irmão para pegar suas roupas.
- Não vou ficar aqui.
Não é certo... - avisou tímida.
Quase friamente, para fazê-la raciocinar, ele perguntou:
- Então onde você quer ficar, Raquel?
Ela abaixou a cabeça e não disse nada.
A situação era constrangedora e Raquel sentia-se humilhada.
Lágrimas copiosas corriam-lhe na face.
Quando o amigo, comovido e carinhoso, tentou tocar-lhe o ombro, como um carinho em sinal de apoio, ela se afastou vagarosamente acanhada e Alexandre respeitou sua vontade.
Levantando-se e não se deixando abater pelas circunstâncias, Alexandre decidiu:
- Tenho de aproveitar que hoje é sábado para resolver o que lhe disse.
Depois cuidamos de outras coisas.
Vendo-a ainda abraçada aos próprios joelhos, porém mais calma, perguntou:
- Você acha que pode ficar sozinha?
- Posso.
Pensando rápido, ele se lembrou que alguém de sua família poderia telefonar e, ao ser atendido por Raquel, não iria entender o que estava acontecendo, por isso pediu:
- Vou me trocar para sair e, quando eu estiver fora...
Só peço uma coisa: não atenda o telefone.
Se precisar de algo, ligue para o meu celular.
Vou deixar o número anotado aqui - avisou, ao fazer a anotação num pequeno bloco deixado ao lado do telefone.
Você precisa de algo?
Quer que eu lhe traga alguma coisa da rua?
- Não. Obrigada.
Alexandre foi para o quarto, trocou-se e saiu.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:18 am

Após ir a uma farmácia, retornou encontrando Raquel deitada e encolhida no sofá da sala.
Com o medicamento em mãos, passou um pouco da pomada no rosto machucado de Raquel, pegou uma manta e a cobriu, oferecendo-lhe também um travesseiro para que se ajeitasse melhor.
- Quer que ligue a televisão? - perguntou solícito.
Raquel fez um gesto singular, como quem diz:
"tanto faz".
Ele pegou o controle remoto, ligou o aparelho, deixando-o em seguida ao alcance dela.
Depois informou:
- Naquele saquinho, lá no banheiro da suíte, tem uma escova de dentes que eu comprei para você.
Há creme dental no armário.
Vou sair para providenciar algumas coisas que vamos precisar.
Talvez eu demore um pouco. Se precisar, não hesite, ligue-me.
Lembre-se de que não vou telefonar.
Depois conversamos sobre isso.
Alexandre se aproximou, fazendo-lhe um suave carinho, quando observou que Raquel parecia encolher-se.
Despedindo-se, ele saiu rápido.
Seus pensamentos estavam tumultuados.
Ele queria Raquel consigo, sim.
Gostava muito dela, só que a situação era problemática.
Conquistá-la seria difícil, não era bem isso o que planeara.
Pouco mais tarde, parando o carro em frente da casa do irmão de Raquel, Alexandre ficou pensativo.
Como seria recebido?
Ele nem conhecia Marcos! O que diria?
Seu coração batia acelerado pelo nervosismo.
- Não importa o que aconteça.
Não vou pensar mais nisso - disse em voz alta falando sozinho.
Vou lá e... Vamos ver.
Ao atendê-lo, Alice demonstrava-se desconfiada e até assustada.
Ao tê-la próxima ao portão, após cumprimentá-la cordialmente, Alexandre, sem oferecer trégua, foi bem directo e ponderado, nem mesmo a cumprimentou:
- Alice, eu vim aqui buscar as coisas de Raquel.
Ela está em minha casa e ficará lá.
- As coisas dela?...
- Sim, Alice. As roupas, os sapatos...
Sei lá mais o quê.
Creio que você deve saber melhor que eu, certo?
- Sim. Claro - concordou amedrontada.
Alice exibia-se nervosa, não imaginava que Alexandre fosse capaz de fazer aquilo.
Marcos estava em casa e ela não queria que o marido visse Alexandre, pelo facto de ter inventado que Raquel esperava um filho dele.
Temia que tudo fosse esclarecido nesse encontro.
- Você pode esperar aqui?
Volto logo - pediu Alice acanhada.
- Sim. Eu espero. Obrigado.
Alice entrou.
Marcos, entretido com um jogo que assistia, a princípio não deu muita importância à movimentação da esposa.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:18 am

Entretanto, depois de muito vaivém, eles se inquietou, perguntando:
- O que você está fazendo, Alice?
- Nada.
- Como nada?
E olhando pela janela, por entre as cortinas, ele viu Alexandre parado em seu portão.
- Quem é?!
- Espere, Marcos, deixe que eu resolva isso.
- Quem é esse moço, Alice?
- Fique calmo. Ele veio buscar as coisas da Raquel.
Não vamos procurar encrencas, certo?
Deixe sua irmã viver com quem ela quiser e assumir a vida que escolheu.
Marcos ficou surpreso, sentindo-se gelar ao ouvir aquilo.
"Então Raquel tinha mesmo alguém", pensou atordoado.
"Ela me enganou mesmo."
Até acreditou que sua irmã iria para a casa de uma amiga, mas não.
Um homem, como Alice contou, e ele mesmo via, foi quem veio buscar as suas coisas.
- Fique aqui, Marcos - pediu a esposa.
Eu já volto. Só vou levar isso aqui.
Quando Alice entregava as sacolas nas mãos de Alexandre, Marcos não suportou ficar aguardando.
Ele estava indignado.
Caminhando até o portão vagarosamente, Alexandre o notou e ao ver Marcos mais próximo cumprimentou-o dizendo:
- Boa tarde. Desculpe-me incomodá-los numa tarde tão fria, mas já estou indo.
Virando-se para Alice, agradeceu:
- Obrigado, Alice.
- Quem é você?! - perguntou Marcos, irritado.
- Perdoe-me por não ter me apresentado.
Meu nome é Alexandre.
Você deve ser o Marcos, irmão da Raquel. Prazer...
Alexandre ficou com a mão estendida, pois Marcos não lhe retribuiu o cumprimento.
Sem jeito, resolveu:
- Bem, preciso ir.
Encarando o casal, ainda avisou:
- Não se preocupem com a Raquel, ela ficará bem.
Agora ela está muito abalada emocionalmente, em choque mesmo.
Mas vou cuidar dela.
E olhando bem nos olhos de Marcos, admitiu sem se constranger:
- Eu gosto muito da Raquel.
- Então assuma o filho também! - gritou Marcos.
Não a obrigue a abortar.
Alexandre esboçou um sorriso satisfeito e irónico, respondendo:
- Eu assumiria com o maior orgulho, com o maior prazer, se a Raquel estivesse grávida, sabia?
Mas, infelizmente, nunca tivemos nada.
Mais sério e encarando-os, afirmou convicto:
- Não que eu não quisesse.
Não consigo me aproximar da Raquel, parece que há algum problema, ela não se permite...
- Cale a boca e suma daqui! - gritou Marcos indignado.
- Primeiro você vai me ouvir, Marcos! - impôs Alexandre, tomando uma posição austera e imperturbável.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:19 am

Impressionando Marcos a ponto de emudecê-lo, ao impostar um tom grave e firme na voz baixa, continuou rápido e determinado:
- Nunca tive nada com a sua irmã, além de uma grande amizade.
Nem sequer a beijei.
Não namoramos ou ficamos, nem tivemos qualquer tipo de relacionamento íntimo.
Não consigo me aproximar dela até agora, não por eu não tentar ou desejar.
Adoro a sua irmã, mas a Raquel me esconde algo, ela não se permite e ainda não consegui descobrir o motivo.
Mas eu a respeito muito, tanto, que saberei esperar.
Contudo, tenho certeza que você, Marcos, sabe do que se trata, sabe do que estou falando, não é?!
Pois alguém que vive em aflição extrema simplesmente por receber um toque de carinho e nem se deixa abraçar, como sua irmã faz, só ficaria grávida por consequência de uma violência!
Sou um homem experiente, Marcos!
Ninguém me engana mais!
No tempo certo, tudo ficará esclarecido.
Farei tudo pela Raquel, tudo! Sabe porquê, Marcos?
Por causa da pureza, da lealdade e honestidade que vejo nos sentimentos de sua irmã.
Dificilmente encontramos pessoas nobres assim.
Eu acredito que você saiba o motivo que a leva a ser tão arisca, tão frágil e amedrontada, por isso deve saber, lá no íntimo, que essa história de gravidez é uma mentira!
Alexandre, agora menos tenso após o desabafo, fez um ar de riso quase debochado e falou:
- Um dia, ficarei feliz em lhe dar essa notícia.
Lamento não ser agora.
- Canalha! - reagiu Marcos enfurecido e ofendido.
E enquanto Alice o segurava, ele ainda gritou:
- Diga à Raquel que se ela aparecer na minha frente eu a mato! Ordinária!
Alexandre não se intimidou e prosseguiu, como se quisesse irritá-lo ainda mais:
- É sério. Ficarei feliz mesmo.
Só que agora não é o momento.
Porém, como eu gosto de tudo certinho, vou me programar bem para que esse filho seja recebido com muita atenção e carinho, para que ele e a mãe tenham tudo de melhor.
A Raquel é adorável, será maravilhoso ter um filho com ela.
- Suma daqui!!!
- Não vou sumir, não - disse Alexandre ao sair caminhando vagarosamente na direcção de seu carro -, volto a fim de convidá-lo para o casamento.
Ao entrar no veículo, ainda desfechou:
- Cuidado com o que você inventa, viu, Alice.
Isso ainda vai fazê-la se dar muito mal.
Imensamente irritada pelo desaforo, pelo modo rápido, simples, cínico e provocante de desmascará-la, Alice quase gritou:
- Se houver um casamento, não se esqueça de levar a filha da Raquel para junto de vocês!
Alexandre se foi.
A princípio não deu importância, acreditando se tratar de mais uma mentira de Alice.
O casal entrou e Marcos começou a duvidar da esposa:
- Ninguém falaria daquele jeito se devesse alguma coisa!
Ele disse que nunca teve nada com a Raquel.
Falou muita coisa e de um modo bem seguro - comentou desconfiado.
- Você não vê que isso foi combinado?! Ele está mentindo!
- Alice, se essa história for mentira sua...!
- Analise comigo: quem a Raquel foi procurar para ajudá-la?
O tal Alexandre, lógico!
Por que ela não foi pedir ajuda para uma amiga?
E quando você perguntou se ela havia ido ao apartamento dele, Raquel não negou.
Raciocine, Marcos!
O marido sentia que algo estava errado, mas todas as evidências apontavam contra Raquel.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:19 am

Capítulo 8 - Confidências necessárias

A caminho de seu apartamento, às vezes, Alexandre ria sozinho, perguntando-se onde tinha arrumado modos tão corajosos e cínicos para falar daquele jeito.
Em outras circunstâncias talvez tentasse ofender com palavras bruscas para esclarecer aquela situação, querendo tirar satisfações com Alice pelo que ela inventara.
Entretanto, a ideia de estar com Raquel o agradava.
Ele a amava, tinha certeza disso.
Por um instante, Alexandre se lembrou das últimas palavras de Alice sobre levar a filha de Raquel para junto deles.
Por que ela dissera aquilo?
Se fosse mentira, Alice deveria saber que ele falaria com Raquel e, mais uma vez, seria desmascarada.
Deveria ser mentira mesmo.
Raquel lhe dissera que nunca tivera um namorado.
Alexandre sentia um frio invadir-lhe o ser.
A insegurança por ignorar os factos lhe causava temores que chegavam a abalar seu equilíbrio emocional, antes inalterável por ser muito racional.
No apartamento, ao entrar, não viu Raquel.
Não a chamou, acreditando que estivesse dormindo.
Reparou que tudo estava muito arrumado.
Por não ser muito ordeiro, sempre largava suas coisas pela sala, que agora estava bem ajeitada.
Indo até a cozinha, comprovou que alguém passara por ali colocando ordem, pois tudo estava muito limpinho.
Chegando à porta da suíte, que estava entreaberta, ele a chamou baixinho, espiando ao mesmo tempo:
Raquel...?
Deitada em sua cama, ela se mexeu, voltando-se em sua direcção.
Em seu olhar havia uma expectativa aflitiva em saber o que tinha acontecido.
Alexandre entrou e se sentou na cama, ao lado da amiga, perguntando:
- Você está bem?
- Estou - respondeu com voz branda, mas seus olhos estavam vermelhos, denunciando que havia chorado.
- Eu trouxe suas coisas.
Bem, trouxe o que Alice me entregou.
Se faltar algo, não se preocupe, deixe para ela.
Que faça bom proveito.
Depois compramos o que lhe faltar.
Sentando-se para vê-lo melhor, podia-se notar que sua aparência exibia uma angústia intraduzível em palavras, ela sofria fatigada e amedrontada.
Frágil, avisou tímida:
- Alexandre, eu não estou me sentindo bem.
- O que você tem? - perguntou preocupado, franzindo o semblante.
- Não sei... - sussurrou.
- Como assim?
- Parece que dói o corpo todo, algo que incomoda muito. Sinto-me tonta...
- Raquel, você está abalada.
Podemos dizer que é normal, tendo em vista o que sofreu.
Aproximando-se, tentou envolvê-la em um abraço.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:19 am

- Não, por favor... - pediu meiga e sussurrando, afastando-se lentamente com lágrimas correndo-lhe pela face.
- Por quê? - perguntou em tom deprimido e brando.
Em razão do silêncio, expressou-se com subtil generosidade:
- Não vou lhe fazer mal algum. Confie em mim.
Só vou lhe dar um abraço. Vem cá...
Aproximando-se cautelosamente, puxando-a para si, abraçou-a enquanto avisava:
- Vou cuidar de você.
Não quero vê-la sofrer mais, viu?
Alexandre afagava-lhe suavemente os cabelos, quando percebeu que ela estava tensa, amedrontada e trémula.
Acreditando que lhe fazia sofrer mais com aquele carinho, afastou-a de si, percebendo que ela escondia o rosto choroso.
- O que foi, Raquel? - tornou carinhoso.
Ela não respondeu e se afastou ainda mais.
Secando o rosto com as mãos, ao se recompor um pouco, perguntou acanhada:
- Você viu meu irmão?
Alexandre pensou rápido.
Não poderia contar à Raquel tudo o que dissera para Marcos.
Apesar de não ter mentido para o irmão dela em nenhum momento, tinha que reconhecer que se excedera.
Para Raquel, aquilo era prematuro demais, ela não aceitaria.
Sem se estender, ele respondeu:
- Sim, eu o vi - disse breve.
- Falou com ele?
- Falei. Disse quem eu era e avisei que cuidaria bem de você.
Que ele não se preocupasse.
- E Marcos? Pediu que eu voltasse?!
- Olha, ele não me pareceu muito bem e...
- Preciso falar com meu irmão.
Lembrando-se da ameaça de Marcos, Alexandre aconselhou:
- Aguarde um pouco. Agora não creio que seja um bom momento.
- Vocês discutiram? - perguntou encarando-o nos olhos.
- Bem... Não.
Por ele não conseguir ser convincente, ela insistiu:
- Não, mesmo?
- Bem, eu tive que lhe dizer algumas coisas porque...
Suspirando fundo, Alexandre falou:
- Olha, nem me lembro como tudo começou, só sei que acabei falando que não há filho nenhum, que você não está grávida e nós nem namorados somos, mas temos uma grande amizade e respeito.
Alexandre abaixou a cabeça, não conseguia encará-la, lembrando-se de tudo o que tinha dito para Marcos, pois num impulso revelou quanto prazer teria em lhe dar a notícia de uma gravidez, sobre o convite do casamento e tudo mais.
- E ele? - perguntou a moça, trazendo-o à realidade.
- Não sei... Ele estava nervoso.
Acho que nem me ouviu.
- E a Alice, ela estava perto?
- Sim, estava.
Mais uma vez ela tentou jogar seus venenos...
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:19 am

Raquel empalideceu ao deduzir o que sua cunhada poderia ter dito.
Um novo tremor a dominou pela nítida e extrema aflição.
- O que foi, Raquel? - perguntou Alexandre, surpreso com o seu estado.
- O que ela disse? - indagou, já em choro, quase perdendo o controle.
O amigo, confuso, sem entender aquela súbita alteração, não sabia o que dizer, e ela insistiu, com desespero na voz fraca:
- Diga! O que ela falou?
- Por que tanto pânico, Raquel?
Alice é venenosa.
- Fale, por favor - implorou em meio aos soluços compulsivos.
- Eu estava saindo - explicou atordoado, sem saber como detalhar - já entrando no carro, Alice disse algo sobre sua filha.
Eu nem consegui entender direito, nem sei se foi isso mesmo.
Não ligue para as calúnias que ela inventa...
- Não...! Ela não poderia... - murmurou melancólica e em desespero.
Alexandre deteve as palavras e ficou olhando-a deixar o corpo cair, deitando-se novamente e escondendo o rosto no travesseiro ao chorar muito.
O amigo ficou ao seu lado por longo tempo afagando-lhe os cabelos.
Raquel estava inconformada.
Ele se levantou, preparou uma água com açúcar e levou para ela.
- Raquel, sente-se. Tome isso.
Ela parecia não ouvi-lo.
Segurando em seu rosto, forçando-a a olhá-lo, Alexandre ia argumentar quando percebeu sua temperatura muito alta.
Tirando-lhe os cabelos da testa, ele sentiu que Raquel ardia em febre.
Após sair em busca de um medicamento que, ao encontrá-lo, gotejou na água, voltou e insistiu para que ela bebesse.
- Eu acho que a garoa fria te fez mal.
Nossa! Você está com muita febre.
Raquel demonstrava-se atordoada, aquela notícia e a febre a deixaram confusa.
Parecendo mais calma, ela reclamou baixinho ao fechar os olhos deixando-se largada:
- Estou com frio...
Alexandre a cobriu, sentou-se na cama a seu lado, pegou suas mãos pequenas e frágeis, que estavam suadas e bem frias, colocando-as entre as suas para aquecê-las.
Preocupado com o estado da amiga, ficou ali sentado por longo tempo pensando no que Alice falou e na reacção de Raquel.
Ele não deveria saber de muita coisa.
Quando Raquel parecia estar em profundo sono, a deixou e foi preparar algo para comer.
Após fazer uma refeição, para se distrair e tirar da mente alguns pensamentos que o incomodavam, começou a pôr em ordem um dos quartos, armando uma cama para se acomodar.
De repente o telefone tocou.
- Droga! - reclamou ao sair correndo e atirar-se no sofá para atender o quanto antes, pois se lembrou que Raquel poderia acordar com o toque do outro aparelho que era extensão e ficava na cabeceira de sua cama.
- Alo! Oi, mãe, tudo bem?
- O que houve, filho?
Você está muito sumido.
Pensei que viesse aqui hoje.
- Ah! Não deu.
Arrumei algumas coisas para fazer e estou entretido até agora.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:20 am

- O que está fazendo de tão interessante assim?
- Arrumando um quarto aqui.
Sabe, está muito bagunçado.
Estou com uns livros aqui que quero catalogar.
Então, aproveitei que estava frio para me entreter com isso.
- Você vem aqui amanhã?
- É...
- Se não vier, eu peço para seu pai me levar aí.
Fiz algo que você adora!
Embaraçado, rapidamente decidiu:
- Amanhã eu passo por aí, mãe. Não tem problema.
- Vem para almoçar.
- Olha, acho que não vou terminar isso aqui hoje, sabe?
Quando vamos organizar um lugar, antes, desorganizamos tudo.
Façamos o seguinte: se eu terminar cedo, eu vou almoçar, mas antes eu telefono.
Não se preocupe.
- Está bem, eu aguardo.
- Certo.
Quando Alexandre pensou que sua mãe fosse se despedir, ela reparou:
- Alex, o que você tem?
- Eu?!...
- Eu o conheço, Alexandre!
Não me esconda nada. Você está bem?
- Claro! Ora mãe, o que é isso?
Estou óptimo!
A mãe fez silêncio por alguns instantes, depois resolveu:
- Amanhã a gente conversa. Tchau, filho.
- Tchau, mãe. Até amanhã.
Dá um beijo na Rosana e outro no pai, por mim.
Apesar de seus trinta e dois anos, Alexandre, por ser muito amoroso, deixava sua família participar de sua vida.
Até porque, devido aos problemas de saúde, todos se importavam com ele.
"Será difícil tentar explicar tudo isso para minha mãe", pensava ele.
"Como vou fazer?
Quando eu disser que coloquei uma moça para morar comigo aqui, não quero nem estar na minha pele!
Ela vai falar tanto!
Além do mais, a Raquel está muito frágil e abalada para ser apresentada à minha família, principalmente para minha mãe, tão exigente!
Talvez só a Rosana entenda e..."
Um grito o fez voltar à realidade.
- Raquel! - exclamou correndo na direcção do quarto.
Sentada na cama, ela estava ofegante.
Seus olhos brilhantes denunciavam seu estado febril.
Os cabelos humedeceram com o suor e se colavam ao rosto e no pescoço da jovem.
Com a respiração alterada, coração acelerado, ela tentava balbuciar algo e não conseguia.
- Raquel, calma. Estou aqui.
Está tudo bem - dizia Alexandre com brandura ao tirar-lhe os cabelos de seu rosto.
- Não! Ele... Ele... - tentava dizer ofegante.
- Deve ter sido um sonho.
Já passou, Raquel.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:20 am

- Não! Minha filha...
Alexandre sentiu-se gelar.
Algo o decepcionava. Raquel deveria ter mentido justo para ele que não tolerava ser enganado.
Fazendo-se firme, perguntou quase friamente:
- O que tem sua filha?
- Ele vai maltratá-la... - respondeu fitando-o com olhos vidrados, como que em delírio.
- Calma, Raquel.
Não vai acontecer nada.
Ela soluçou por algum tempo até parecer acordar para a realidade e serenar um pouco.
Alexandre estava nervoso.
Aquele dia estava sendo difícil demais.
Após alguns minutos, ele perguntou:
- Você está bem?
Abatida, ela afirmou que sim com um aceno de cabeça e ele aconselhou:
- Faça o seguinte: pegue suas roupas e tome um banho.
Você precisa comer algo.
Praticamente não se alimentou hoje.
Já é noite, sabia?
Atordoada, obedecendo a tudo maquinalmente, a bela jovem tentou se levantar, mas precisou da ajuda do amigo, que a amparou quando a viu cambalear.
Vendo-a mais firme, ele a deixou ir em direcção do banheiro e falou:
- Vou fazer o mesmo.
Pegarei minhas roupas e vou tomar um banho.
Fique à vontade, não tenha pressa.
Vou usar o outro banheiro.
Depois a gente janta, tá?
Alexandre saiu da suíte com o coração oprimido, amargurado, e não conseguia esconder suas emoções.
Algo acontecera e ele precisava saber ou não teria paz, odiava mentiras e traições.
Mais tarde um pouco, após fazerem uma refeição que o rapaz mesmo preparou, arrumaram a cozinha e ele perguntou:
- Você está melhor?
- Sim, estou - respondeu com voz suave e mais tranquila.
- Venha cá ver o que fiz - ele a chamou não se contendo.
Levando-a até o outro quarto, mostrou:
- Montei essa cama de solteiro que tinha aqui há algum tempo.
É a que eu usava antes de mandar fazer aqueles móveis lá da suíte.
Não a usei mais porque seria desaforo abandonar aquela cama enorme por essa aqui, não é? - contou sorrindo.
Raquel não dizia nada e ele, levantando a colcha sobre os lençóis, continuou:
- Veja o colchão que eu comprei.
Parece ser bom.
Enquanto fui lá na casa do seu irmão, o entregaram para o zelador e eu o peguei agora há pouco.
- Por favor, Alexandre, deixe-me dormir aqui.
Não quero incomodá-lo, tirando-o do conforto que tem.
- Não! De jeito nenhum - afirmou cortês.
- Será só por alguns dias.
Vou arrumar um lugar para ficar, logo, logo.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:20 am

- Se é só por alguns dias, continue lá.
- Não vou me sentir bem incomodando tanto.
Colocando-se em frente de Raquel, falou brandamente:
- Você não me incomoda.
Pode ficar o quanto quiser e deixe-me, como bom anfitrião, fazer o que for possível para acomodá-la bem, por favor.
Raquel abaixou a cabeça sem saber o que dizer.
Sentia-se constrangida e era forçada pela situação a aceitar a proposta.
Pegando-a delicadamente pela mão, ele pediu:
- Venha aqui na sala comigo. Precisamos conversar.
Sentando-se ao lado da amiga, ele perguntou, colocando-lhe a mão na testa:
- E a febre, cedeu?
- Sim. Só sinto um pouco de moleza, mas já estou bem melhor.
- Acho que ficou resfriada devido à roupa molhada naquele frio.
Ela não disse nada e Alexandre, respirando fundo, tomando coragem e buscando forças, falou brandamente, porém determinado, procurando esclarecer a situação, uma vez que a inquietude e a insegurança abalavam seus sentimentos:
- Raquel, precisamos conversar.
Eu sei que toda essa situação está sendo muito difícil para você.
Primeiro, quero que fique bem claro uma coisa:
eu vou ajudá-la, aconteça o que acontecer, pois se for leal comigo serei sempre fiel a você. Confie em mim.
Mas, por favor, diga-me a verdade, seja ela qual for.
Não esconda nada. Não gosto de surpresas.
Não gosto de estar envolvido em assuntos ignorando detalhes.
Após pequena pausa, olhando-a firme nos olhos, ele continuou:
- Quero saber de tudo, mas tudo mesmo.
É provável que minha família não vá entender muito bem o que aconteceu e o que está acontecendo, principalmente minha mãe.
Na certa enfrentaremos dificuldades.
Ninguém vai interferir nas minhas decisões, sou totalmente independente.
Entretanto, quero que eles venham saber de tudo, se for preciso, por mim e não por intermédio de outros, como fofoca.
Por isso, conte-me tudo o que aconteceu.
Olhando-o fixamente, ela perguntou constrangida:
- O que a Alice falou?
- Não importa o que ela falou, uma vez que vou ouvir a verdade de você.
Os pensamentos mais conflituantes a invadiam.
Estava insegura e envergonhada.
Vendo Alexandre como único que não a decepcionara e nada exigia dela, teria que lhe contar toda a verdade.
Ele merecia saber.
Então, Raquel começou:
- Para que entenda, precisarei te contar toda minha vida, não sei se vou conseguir.
Sentando-se mais próximo da amiga, ele pegou sua mão, colocou entre as suas e disse:
- Vai conseguir, sim.
Eu estou aqui para apoiá-la no que for preciso.
Um longo silêncio se fez até que Raquel, bem acanhada, iniciou:
- Há tempos, quando eu tinha uns oito ou nove anos, percebia algo diferente com o tratamento que recebia.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:20 am

De modo estranho, ele tentava me agradar...
A respiração da moça estava alterada, seu coração batia forte e ela fugiu ao olhar de Alexandre, recolhendo a mão que ele segurava sem conseguir arrumar palavras para continuar.
Diante da pausa, ele perguntou:
- Ele quem?
Imediatamente as lágrimas rolaram na face angelical de Raquel, mas ela não se deteve e sussurrou:
- Meu tio.
- Como ele a tratava diferente? - perguntou gentil, mas resoluto.
- Percebi que ele me acariciava... - chorando aflita e constrangida, ela se reprimia, sem saber como explicar, e o amigo argumentou tentando ajudá-la:
- Seu tio te acariciava com certa malícia, ele era ousado, tocava em você de modo incomum, é isso?
Abaixando a cabeça por estar ainda mais envergonhada, admitiu em voz baixa:
- É isso.
Após pequena pausa, Raquel prosseguiu:
- Eu fui criada no interior, em uma fazenda.
Não tinha muita malícia nem compreendia o que estava acontecendo.
Na época falei para minha mãe, que me pediu para não contar nada a ninguém, e eu a obedeci.
Dias depois, eu a vi brigando com esse meu tio.
- Ele era irmão do seu pai?
- Sim, era. Daí ele parou de ficar perto de mim, mas ainda me olhava diferente.
Não muito tempo depois, às vezes, mesmo perto dos outros, ele me punha para sentar em seu colo...
No meio da agitação ou da conversa, ninguém percebia que ele me acariciava...
Eu queria me levantar, mas ele me segurava e dizia que eu era arisca.
Mas não era isso.
O tempo foi passando e eu, quanto mais crescia, mais fugia dele.
Então, quando eu tinha quinze anos, meu pai sofreu um acidente.
Foi assim: meu pai pegou carona com um amigo que dirigia imprudentemente e, por excesso de velocidade, o homem bateu com o carro.
Meu pai quebrou o pescoço e teve traumatismo craniano.
Ele nunca mais ficaria normal.
Na época desse acidente, todos nós ficamos abalados.
Meus avós, minha mãe e meus irmãos foram para o hospital, na capital, pois meu pai exigia tratamentos especiais que, na cidade próxima da fazenda, não havia.
Esse meu tio não foi com eles...
Ele tinha mulher, três filhas e morava na fazenda mesmo, só que em outra casa, não muito próxima da Casa-Grande, onde nós morávamos.
Raquel, agora extremamente sensível, fez uma pausa e caiu num choro compulsivo.
Entre os soluços persistentes, ela encontrou forças para continuar narrando:
- Esse tio... Ele disse que dormiria na Casa Grande para tomar conta...
Alexandre ficou nervoso, bem que desconfiara; agora diante do relato já imaginava o que acontecera, mas não podia mostrar para Raquel sua alteração pela indignação.
Deveria manter-se equilibrado para ouvi-la e ampará-la.
A fim de fazê-la terminar de narrar aquele sofrimento o quanto antes, percebendo sua dificuldade e constrangimento para relatar os factos, ele perguntou cauteloso:
- Não havia mais ninguém lá?
Nenhum empregado?
- Na Casa-Grande, não.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:21 am

Entre os soluços ela revelou:
- Ele se aproveitou de mim, me bateu, me machucou muito...
Após outra crise de choro intenso, ela continuou:
- Disse que, se eu contasse para alguém, iria ser pior...
Dois dias depois, quando minha mãe voltou, eu soube que meu pai estava em estado grave e, quando vi o desespero de minha mãe, não tive coragem de contar nada.
Não pude mais dormir bem, eu tinha sonhos ruins, pesadelos horríveis.
Acordava em desespero... Gritava...
Todos pensavam que era por causa do meu pai.
Ninguém imaginava que...
Alexandre chegava a suar frio ao ouvir o relato, forçando-se imensamente para não exibir sua ira, sua aversão à prática hedionda daquele homem.
Vez ou outra, ele esfregava o rosto, circunvagando o olhar pela sala para tentar espairecer por alguns segundos.
Mesmo chorando, entre soluços insistentes, Raquel continuou:
- Esse meu tio tinha o perfil de um homem íntegro, digno e de moral inabalável.
Ninguém poderia duvidar dele.
Quando perguntaram por que eu tinha aqueles machucados, ele disse que eu havia caído das pedras da cachoeirinha que tem na fazenda, lugar onde eu gostava de ficar.
Ninguém questionou.
Não havia motivo para duvidar dele.
O tempo foi passando e ele nunca mais tentou nada, pois não houve oportunidade.
Eu não ficava mais sozinha nem perto dele.
Suspirando um pouco e tentando se recompor, ela prosseguiu logo depois:
- Eu criei um objectivo.
Queria estudar, pois sempre achei que aquela não era vida para mim.
Eu não gostava daquele "fim de mundo".
Mas meu avô sempre foi contra o estudo.
Principalmente para as mulheres.
Como eu digo, ele é o "czar" da família.
Vive gritando e berrando, quando exige algo.
Para eu continuar estudando depois do primeiro grau foi muito difícil.
Ele não queria.
A custo, minha mãe conseguiu convencê-lo.
- A cidade não ficava perto e, para estudar, eu teria que ir a cavalo.
Não sei se você sabe, mas isso é comum no interior.
Esse meu tio tinha uma camionete e sempre fazia entregas ou recebimento de produtos e mercadorias na cidade.
Aí aconteceu que, um dia, sem mais nem menos, quando eu cheguei, meu avô foi logo tirando o cinto e me batendo.
Eu nem mesmo sabia por quê.
Fiquei de cama depois da surra.
Mais tarde, minha mãe me contou que meu tio disse ter me visto com um namoradinho na cidade, e isso foi o suficiente para meu avô me espancar daquele jeito.
- Meu pai, praticamente inerte sobre a cama, nem imaginava o que estava acontecendo.
Minha mãe se intimidava e não dizia nada.
Nessa época, meu irmão, o Marcos, por ter brigado com meu avô inúmeras vezes, decidiu ir embora da fazenda.
Ele havia estudado, pois anos antes já tinha nos deixado, e se especializou em torneiro-mecânico, o que o ajudou a arrumar um emprego.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:21 am

Marcos pegou Alice e os meninos e partiu.
Pouco nos dava notícias.
Meus outros irmãos acreditaram no que meu tio falou e não me defenderam, nem foram conversar comigo para saber, por mim, o que aconteceu.
Nós não fomos criados de maneira unida, meus irmãos não me davam muita atenção.
Nesse instante a voz sensível de Raquel embargou e ela quase chorou novamente, mas prosseguiu:
- Porém, aconteceu o mesmo outras vezes, pois meu tio inventou a mesma coisa e meu avô novamente me bateu, ou melhor, me espancou.
Alexandre a interrompeu e perguntou curioso:
- E era verdade?
Você tinha um namoradinho?
- Não! Eu nunca namorei - afirmou com sua simplicidade natural.
Acontece que minha família é um tanto preconceituosa, racista, e havia um rapazinho, bem moreno, que parecia gostar de mim, eu acho.
Estudávamos juntos e, quando saíamos da escola, sempre conversávamos um pouco, mas, eu juro, nunca tivemos nada!
Não por ele ser negro, é que eu tinha planos.
Iria estudar, arrumar um emprego e deixar aquela vida miserável e aquele lugar maldito.
Eu queria fazer como o Marcos.
Lágrimas rolaram, ela continuou, mas começava a ficar aflita novamente:
- Quando eu tinha dezassete anos e voltava da escola, com a sua camionete meu tio assustou o cavalo, que me derrubou e depois correu em galope.
Caída no chão, fiquei atordoada, confusa.
Meu tio se aproximou, me pegou pelo braço e me levou para o carro.
Soluços e lágrimas embargavam sua voz e seu olhar exprimia uma revolta triste sem igual, breve pausa se fez e ela continuou com voz vacilante:
- Ele travou a porta automática e eu não consegui sair.
Ele me bateu e fiquei tonta, não consegui reagir, acho que desfaleci.
Acordei num casebre abandonado, no interior da fazenda mesmo e... amarrada.
Fiquei presa lá por uns três dias, eu acho...
Raquel não aguentou, caiu em choro compulsivo e Alexandre a envolveu num abraço.
Não suportando a amargura que sentia, ele chorou junto, sem deixá-la perceber.
Com a voz abafada, escondendo o rosto no peito do amigo, Raquel, às pressas, desesperada, relatou com extremo pavor, aflição:
- Eu tentei lutar... Juro que tentei!!!
Ele me amarrou, fez o que queria e foi embora, me deixando lá.
Voltava no dia seguinte e... no outro, e fazia o mesmo...!
Nova crise de choro a dominou por alguns segundos.
Ele beijou-lhe os cabelos, pedindo baixinho:
- Calma, está tudo bem agora - Alexandre tremia e chorava também.
- Ele me levava água e algum alimento - prosseguiu.
A água eu bebia, mas não conseguia comer e ele me batia por isso.
Consegui me soltar...
Quase não achei o caminho de casa.
Andei muito... o dia todo.
Afastando-se de Alexandre, ela continuou apesar do choro:
- Cheguei a custo na Casa-Grande.
Todos já sabiam, por meu tio, que eu havia fugido com o tal namoradinho e ainda previu que, no momento em que eu me desse mal, voltaria para casa.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:21 am

Raquel começou a falar rápido e em desespero, com muita emoção:
- Aos gritos, eu contei toda a verdade!
Contei o que meu tio tinha feito comigo!
Que me violentou!!! Mas ninguém acreditou!
Ninguém! Imagine, ele, um homem tão íntegro e com três filhas da minha idade!
Minha tia, esposa dele, disse que eu queria destruir seu lar e afirmou que já havia me visto com namorado.
Ela acabou inventando muitas outras coisas sobre eu me encontrar às escondidas...
Meu avô me espancou como nunca.
Fiquei mais machucada do que já estava...
Isso tudo foi na frente de todos da fazenda.
- E sua mãe? - interferiu Alexandre comovido.
- Minha mãe ficou em choque. Ela parecia incrédula.
Não reagiu, não disse nada.
Somente mais tarde eu entendi porquê.
Meu avô me expulsou de casa.
Já era noite e, quando eu caminhava pela estrada sem saber o que fazer, o capataz e sua esposa, que ficaram penalizados, me recolheram para sua casa só por aquela noite, sem que meu avô soubesse.
Na manhã seguinte, bem cedo, ele me deixou em uma cidade vizinha.
Eu não tinha nada.
Muito mal a roupa do corpo.
Fiquei perambulando... não sabia o que fazer.
Estava machucada, com muita dor...
Quando a noite chegou, juntei-me a uma mulher que era indigente.
Ela me ofereceu abrigo em suas cobertas, só que eu não poderia chorar.
Amélia se incomodava e brigava.
O tempo foi passando.
Essa indigente acabou se acostumando comigo; apesar de seus modos rudes, grosseiros, era a única pessoa que me protegia contra aqueles que queriam mexer comigo.
Mas exigia que a ajudasse e nós tínhamos que buscar alimento até no lixão da cidade, além de sermos pedintes também, porém eu não conseguia muita coisa ao mendigar por causa da minha aparência.
Diziam que eu tinha que ir trabalhar, que era nova e bonita, mas quem é que me oferecia emprego?
Ninguém queria saber da minha história nem de me ajudar.
Com o passar dos dias, percebi que estava grávida...
Raquel entrou em nova crise de choro e, quando o amigo tentou abraçá-la, ela não permitiu.
Com a voz embargada, continuou a narração angustiosa:
- Eu quis morrer! Precisava de ajuda!
Precisava da minha mãe!
Queria vê-la novamente e foi então que me lembrei de procurar por ela na igreja, pois, aos domingos, bem cedinho, ela sempre estava lá.
Eu não poderia aparecer, muitos na cidade me conheciam.
Contei para Amélia e ela me ajudou.
Conseguimos carona até a cidade onde eu morava e eu me escondi enquanto Amélia aguardava o final da missa, pois eu já havia lhe apontado, a distância, minha mãe.
E foi com o propósito de mendigar que ela se aproximou de minha mãe e disse:
"Tenho notícias da Raquel".
Furtivamente, minha mãe seguiu Amélia, que a levou até onde eu estava.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 10, 2017 9:21 am

Nunca tinha visto minha mãe daquele jeito, ela ficou assustada demais quando me viu.
Depois que perguntou onde eu estava, ela tirou de sua bolsa uma carta que Marcos havia lhe escrito, a qual acabara de pegar na cidade.
Tirou a carta, deu-me o envelope e pediu que eu procurasse por ele naquele endereço.
Não queria magoá-la, mas tive que contar que estava grávida.
Ela ficou em choque, pálida. Incrédula!
Imediatamente pediu que eu jurasse que estava dizendo a verdade sobre ter sido o meu tio que fizera aquilo comigo. Eu jurei.
- Foi então que ela se afastou de mim, olhou-me de um jeito muito estranho que jamais vou esquecer.
Empalidecida, com os olhos arregalados, ela disse friamente, sem piedade:
- "Seu tio é seu pai."
Fiquei paralisada. Passei muito mal.
Achei até que ia desmaiar.
Minha mãe parou de chorar e ficou me olhando.
Sem dizer nenhuma palavra, ela foi se afastando mecanicamente andando para trás.
Eu queria falar, queria perguntar, mas não conseguia.
Nesse instante, Raquel parou de falar, secou as lágrimas que rolavam, ergueu os olhos para Alexandre que perguntou em tom de compaixão:
- O que aconteceu depois? Ela não te ajudou?
- Não - respondeu exaurida de forças, parecendo desalentada como se vivenciasse novamente aquela situação.
Minha mãe nunca me ajudou.
Amélia, apesar de seus modos um tanto rudes, foi a única criatura que ficou do meu lado e me abraçou, tirando-me dali.
Nós voltamos para a outra cidade.
Eu fiquei atordoada, debilitada de reacções e fazia tudo de modo meio automático.
Não queria acreditar no que acontecia.
Só me alimentava porque Amélia insistia, praticamente exigia.
A única coisa que fiz foi guardar com a vida o envelope com o endereço do meu irmão.
Dias depois, o inverno chegou rigoroso e, numa noite fria, muito fria em que nevava, policiais passaram socorrendo para um albergue os desabrigados.
Deitada num canto escondido, eu estava com muito frio e me encostava em Amélia.
Nessa noite eu a achei muito quieta, não me preocupei, porque ela bebia, sabe como é...
Um policial se aproximou, cutucou-me e chamou para entrar num caminhão.
Quando fomos ver, Amélia estava morta.
Chorei como se tivesse perdido a minha mãe.
Amélia morrera de frio, talvez.
Entrei em verdadeiro desespero.
Eu não tinha mais ninguém.
Amélia agia como minha mãe.
Às vezes eu penso que ela fez mais por mim do que...
Ela me defendia de ataques.
A rua é muito dura, ninguém imagina como...
Alexandre, a essa altura, segurava a própria cabeça com as mãos, apoiando os cotovelos nos joelhos.
Estava perplexo, triste, incrédulo, e não sabia o que fazer ou dizer.
Raquel, agora sem tanta emoção, continuou:
- Fui levada para um albergue.
No dia seguinte, ao passar pela triagem, viram que eu estava grávida.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:06 am

Foi então que uma assistente social me encaminhou para um abrigo de gestantes desamparadas.
Nesse lugar, fui bem tratada.
Havia médicos, freiras e voluntárias, gentis e educados.
Psicólogos, com certa frequência, tentavam conversar comigo.
Mas eu não conseguia falar nada, nem me lembro direito como foi esse período.
Muito mal informei meu primeiro nome.
A única coisa que disse foi que não queria aquele filho.
- Quando a criança nasceu...
Sua voz embargou e ela quase não conseguiu continuar, mas por fim falou, desesperada:
- Eu queria morrer! Eu me odiava!
Aliás, quase morri no parto porque tive complicações.
Depois, soube que era uma menina porque a irmã Clarice me falou.
Eu me recusava a pegá-la, mal olhava para ela... - confessou parecendo arrependida.
Muitos conversavam comigo, mas a partir daí eu emudeci completamente.
Assim que me recuperei, pois estava muito fraca, abandonei o lugar sem olhar para trás e deixei lá a minha filhinha.
Raquel chorou exibindo um grande remorso que parecia castigá-la.
- Procurei meu irmão.
Marcos estava preocupado.
Por carta, minha mãe lhe contou quase tudo e disse que eu o procuraria.
Só que demorei muito tempo desde quando ela havia lhe dito e, quando apareci, eu estava sem o bebé.
Meu irmão me recebeu.
Ele sempre quis saber onde deixei a criança.
Alexandre ergueu a cabeça e perguntou:
- Você sabe onde está sua filha?
Lágrimas rolaram no rosto de Raquel, mas ela não respondeu, e ele insistiu:
- Você sabe, Raquel, onde ela está?
Novo choro se fez.
Ele a abraçou mesmo sentindo-a amedrontada e tornou a perguntar com generosidade na voz:
- Sabe onde fica esse albergue? Sabe onde ela está?
Raquel se afastou do abraço, respondendo chorando:
- Sim...
- Você nunca a procurou? - quis saber compadecido.
- Sim, mas eu não contei para o Marcos.
Há poucos meses, antes de ir morar com ele agora, entrei em contacto telefónico com o abrigo.
Lembrei que a irmã Clarice me disse para chamá-la de Bruna Maria.
Então, todos a conheciam como Bruna Maria, a filha de Raquel.
Quando liguei, pedi informações, me falaram que ela havia sido levada para um orfanato.
Anotei o endereço, telefonei, mas me disseram que só poderiam dar maiores informações pessoalmente.
Eu não tive coragem de ir até lá, eu...
Depois de pequena pausa, Alexandre perguntou:
- E quando você voltou sem sua menina, como foi, seu irmão a tratou bem?
- Sim, sempre.
Precisei de médicos e ele me forneceu tudo, até que eu me recuperasse bem.
Fiz tratamentos psicológicos...
Eu tinha medos, entrava em pânico, sofri muito com os pesadelos.
Marcos me ajudava em tudo.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:07 am

Ele me arrumou emprego na recepção de uma fábrica, principalmente para me ajudar a entrar em contacto com as pessoas.
Depois de um tempo, a fábrica fechou e eu arrumei serviço em outro lugar.
Então, voltei a estudar e fiz alguns cursos.
Minha mãe mandou a documentação que eu precisava e eu fui me refazendo em todos os sentidos.
Só não queria falar na minha filha.
Nesse período, Alice fazia da minha vida um inferno.
Ela nunca me suportou, mesmo quando morávamos na fazenda.
Marcos me ajudou a alugar uma casa pequena e até pagava parte do aluguel para mim.
Foi aí que comecei a ficar independente.
Numa conversa com meu irmão, descobri que minha mãe jamais lhe disse que meu tio era meu pai.
Nem o que ele havia feito comigo e que minha filha era filha dele.
Marcos pensava que a filha que eu tive era do tal namorado.
Então, contei a meu irmão o que nosso tio havia feito, só não revelei que ele era meu pai.
Depois de tudo isso, quando abriu concurso para operadores de computação na empresa aérea, eu consegui uma das vagas e me tornei mais independente devido ao salário melhor, pois passei a me sustentar sozinha.
Marcos perdeu o emprego que tinha e arrumou esse outro onde está até hoje e... o resto você sabe.
Olhando firme para Alexandre, encarando-o nos olhos, ela afirmou com sua peculiar voz delicada, mas demonstrando imensa dor em seus sentimentos:
- Essa é toda a verdade, Alexandre.
É a primeira vez que eu a conto assim, na íntegra, como agora.
Você é a primeira pessoa a saber de tudo isso.
Como vê, não é uma história que eu possa sair por aí relatando.
Tenho muita vergonha.
Você nem imagina o que passei, como sofri, nem imagina...
O silêncio reinou por longos minutos.
O rapaz estava atordoado, perplexo e estático com toda aquela revelação.
Ele jamais poderia imaginar que tudo aquilo pudesse ter acontecido com Raquel.
Por amá-la, aquilo também lhe doía muito.
Agora entendia algumas reacções estranhas que percebia nela, compreendia seus sentimentos, suas aflições e fragilidade.
Alexandre a encarou, fitando-a por longo tempo, sem dizer nada.
Raquel, visivelmente fragilizada, não lhe fugia ao olhar, como quem aguardasse uma resposta e ele se explicou com voz terna, triste e piedoso:
- Perdoe-me por tê-la feito contar tudo isso.
Mas eu precisava saber.
De seus tristes olhos, ele viu brotar lágrimas que não demoraram a rolar em sua linda face sofrida.
Alexandre, observando-a, não conseguiu controlar seus sentimentos e, ao perceber seus olhos se aquecerem, tentou reagir, mas sua emoção foi mais forte e ele chorou sem se constranger.
Raquel tremia talvez aflita de medo pelas traumáticas recordações com um misto de vergonha.
Ele se aproximou, envolveu-a em um abraço sem se importar com seu choro compulsivo que se fez repentinamente.
Ajeitando-a como quem aninha uma criança no colo, ele a embalou por algum tempo, confortando-a.
Afagando-lhe os cabelos sem dizer nada, vez e outra ele a beijava na testa.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:07 am

Ao sentir sua fragilidade, seu pavor, ele percebeu que a amiga nunca tivera um carinho, ela parecia um bichinho coagido, buscando conforto no seu fraco coração e abrigo no bálsamo de sua amizade ao esconder o rosto em seu peito.
Pelo longo tempo, que nem Alexandre percebeu passar, Raquel adormecera em seus braços.
- Deus - rogou -, dê-me força e saúde.
Raquel precisa de mim e eu dela.
Não será fácil, principalmente com a minha família.
Ajude-me, Pai. Ajude-me.
Alexandre sentiu-se mais sereno e Raquel ainda dormia em seus braços.
Cuidadoso, ele a pegou no colo e a levou para o quarto sem acordá-la.
Colocou-a sobre a cama, cobriu-a e acariciou-lhe a face por algum tempo, fitando-a pensativo.
"Como Raquel é bonita!", pensava ele admirando-a.
"Por que tudo aquilo tinha que acontecer?
Tem que haver uma explicação.
Confio tanto em Deus.
Ele não pode ser injusto."
Alexandre gostava cada vez mais de Raquel.
Principalmente agora por sua lealdade em contar-lhe toda a verdade mais dolorida que ela queria esquecer.
Não seriam as dificuldades do seu passado, tampouco a filha que tivera, que serviriam de empecilho para ele naquele momento.
Determinou-se a ajudá-la e só não ficaria com ela se ela não o quisesse.
Com carinho, ele a beijou na testa e foi se deitar.
Por tanta emoção, Alexandre estava cansado e adormeceu logo.
Minutos depois, pela emancipação que ocorre durante o sono, ele se viu no plano espiritual envolvido por aquela generosa entidade que sempre lhe acolhia no estado de sono.
Alexandre não era adepto de nenhuma religião, mas possuía uma fé inabalável em Deus.
Seu carácter íntegro, seu coração bondoso o inclinavam a consolidar bases espirituais em nível superior.
Nem sempre havia sido assim.
Tempos antes Alexandre era um rapaz vaidoso, que se orgulhava de sua aparência, de suas dádivas naturais, da inteligência que possuía.
Sendo de uma família financeiramente bem estruturada, nunca tivera grandes dificuldades, não sabia o que era isso.
Nunca levou a sério nenhuma namorada, mesmo porque as moças que se interessavam por ele não se davam valor ou respeito.
Ele também não se preocupava em ter uma qualidade religiosa de vida.
Com o tempo, conheceu sua ex-noiva e, por gostar muito da moça, começou a ficar mais responsável.
Nessa época, acreditou que era sério.
Sandra era importante para ele.
Estava apaixonado por ela.
Mas a decepção com a traição que sofrera levou-o a tentar o suicídio, que quase se consumou.
Alexandre vivenciou uma terrível experiência que jamais poderia esquecer e nunca conseguira, com palavras, descrever.
Algo mudou nele.
Tudo o fez despertar para a vida, despertar para Deus.
Mas ainda lhe faltava algo.
Passou a ser mais calmo porque seu problema cardíaco exigia isso.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:07 am

Começou a lembrar de Deus, não só nos momentos de insegurança como também para agradecê-Lo pela segunda ou terceira oportunidade de vida que ele acredita ter.
Poderia ter desencarnado com a parada cardíaca ou com as tentativas de suicídio, mas não.
Alexandre realmente fora envolvido, principalmente agora, pela sua fé, sua gratidão ao Pai e por sempre se religar a Ele através da conversação que soava como uma prece.
Mas ainda havia algo a fazer.
Alexandre precisava ter conhecimento.
Talvez ele não tivesse sofrido tanto se buscasse Deus em seu coração há mais tempo, porém agora, após passar por dificuldades incríveis, estava refeito, pronto para o entendimento das verdades sublimes e, consequentemente, para as provas com o trabalho redentor.
Esse era o momento.
Com carinho inenarrável, próprio de entidades superiores de elevada envergadura, aquele ser que sempre o socorria quando ele, pelos pensamentos elevados em prece, buscava Deus, punha-se novamente a enternecê-lo nos braços, tal qual a mãe que agasalha em seu aconchego o filho querido que lhe pede amparo.
Acariciando Alexandre, que ainda estava um tanto adormecido naquela emancipação, essa criatura o observava com ternura e amor.
- Alexandre - chamava-o.
Sou eu, filho.
Como que assonorentado, ele sorriu ao vislumbrar tão grande beleza.
- Meu querido, sei o quanto seu coração está dolorido.
Sei também do seu amor verdadeiro, das suas dúvidas, dos seus medos.
Enfrentará situações difíceis, mas continue com fé.
Busque, Alexandre, busque o conhecimento dos factos.
Procure entender o porquê da vida.
Nada é por acaso, meu filho.
Quando entender e aceitar, estará pronto para trabalhar e, só assim, será verdadeiramente feliz.
Alexandre a fitava, até que tranquilamente argumentou:
- Eu a amo tanto - disse referindo-se a Raquel.
Não quero vê-la sofrer. Preciso protegê-la.
- Você vai conseguir entender a vida, se aceitar os ensinamentos de Jesus.
- Quero ficar com ela...
- Terá que conquistá-la, filho. Eis o seu desafio.
Mas somente a tarefa produtiva pode oferecer recompensas.
Ensine-a sobre o porquê da vida, dê-lhe razões para ocupar a mente de forma produtiva e oportunidade para o trabalho útil.
E, para isso, terá que aprender primeiro.
Eu insisto, procure conhecer os ensinamentos de Jesus.
Nesse momento, até que tudo se tranquilize, vamos envolvê-la.
No entanto, Raquel terá que vencer as dificuldades por si mesma, despertando sua fé e acreditando na justiça de Deus.
Raquel não crê. Não como deveria.
E, por ter descido seu nível de pensamento a ponto de se deixar envolver por criaturas espirituais tão ignorantes, ela mesma, pelas próprias forças, tem que reverter esse quadro.
Você pode e deve ajudá-la, afinal, foi a isso que se propôs diante de quaisquer dificuldades que pudessem ocorrer nesta experiência encarnatória.
No entanto, somente ela poderá se erguer.
- Às vezes tenho medo... Tenho dúvidas.
- Você sempre terá amparo, meu filho, enquanto estiver agindo correctamente.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:07 am

- E meus pais? Minha família?
- Isso é algo que você terá que resolver.
Aja sempre com bons propósitos.
Tenha fé e não seja insolente, não precisa disso, não é?
Beijando-lhe na testa com imenso carinho e como despedida, ainda argumentou:
- Precisa de repouso, filho querido.
Cuide de sua saúde.
E passando-lhe a delicada mão sobre o rosto de Alexandre, completou:
- Agora adormeça, você está protegido e amparado por causa da sua fé.
Eu o amo muito.
Adormecido e recolocado em seu leito para a devida recomposição, Alexandre teve um sono tranquilo e reconfortante.
Na manhã seguinte, ele acordou cedo e, sentindo-se muito bem, ficou algum tempo em sua cama pensando em tudo o que acontecera com Raquel.
Alexandre não se recordava de nenhum sonho.
Lembrou-se então que prometera para sua mãe que iria almoçar com ela.
Mas, e Raquel?
Ele precisava falar com sua amiga e explicar que tinha de conversar com sua família, mas ela não poderia se sentir um incómodo.
O rapaz pulou da cama sem se importar com o frio, sentia-se animado e disposto.
Às vezes ele era abatido por algumas lembranças sobre as dificuldades que Raquel relatara.
Quanto sofrimento!
Como ela deveria padecer moralmente pelo que lhe ocorrera.
Que constrangimento! Que humilhação!
Como poderia haver homens tão indecentes, tão cafajestes, capazes disso?
Alexandre estava indignado, tanto que se pegava, vez ou outra, com um nó na garganta que o fazia chorar.
Queria apagar das lembranças de Raquel aquele sofrimento.
Mas como poderia? Ele próprio não parava de pensar.
De repente, acreditou ter ouvido um barulho e foi ver o que era.
- Raquel? - chamou ao se aproximar da porta do quarto.
- Alexandre...! - exclamou a moça com a voz chorosa.
- O que foi?
O que aconteceu? - perguntou ao entrar ligeiro na suíte e se sentar na cama ao lado dela.
O choro não a deixava falar.
Levantando-se, o amigo abriu a janela do quarto fechando o vidro para o frio não invadir o recinto e puxou parcialmente as cortinas para que a luz entrasse.
Ao retornar, observou que ela já se refazia.
- Veja, já amanheceu.
Acho que estava sonhando. Não é nada.
Esse sentimento já vai passar.
Com ternura na voz, pediu:
- Levante, tome um banho, vamos nos alimentar e... - afastando-lhe os cabelos lindamente desalinhados, falou:
- Espero por você na cozinha, tá?
Raquel disse que sim e ele a deixou só.
Após tomarem a primeira refeição, Alexandre falou:
- Raquel, ontem eu pedi para que não atendesse o telefone, pelo facto de ninguém saber que você está aqui e, diante de tanto para realizar e esclarecer, me fariam muitas perguntas às quais eu nem teria respostas, no momento.
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