Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:08 am

Mas é o seguinte:
minha mãe é exigente, preocupa-se muito comigo.
Isso não tem jeito de mudar, até já me acostumei.
Ela vai querer saber quem você é, de onde veio, por que está aqui, como estamos envolvidos.
Só que, tudo isso, ela vai querer saber de uma vez só.
- Espere, Alexandre - interrompeu Raquel - talvez você nem precise dizer.
Quero sair daqui o quanto antes.
Vou arrumar uma casa e...
- Como? Como você vai arrumar uma casa? - perguntou friamente, porém muito educado.
Você tem alguma reserva em dinheiro?
Tem móveis e utensílios necessários e básicos?
Perdoe-me a franqueza, Raquel. Sejamos racionais.
Pelo que vejo vai precisar ficar aqui por um bom tempo.
Não que isso me incomode! De jeito algum!
Aliás, devo lembrá-la que essa proposta eu já lhe fiz tempos atrás, certo?
E não mudei de ideia.
- Vou incomodá-lo...
- Não! Não vai.
Eu só tenho que tomar algumas providências para que não experimentemos surpresas desagradáveis.
Já imaginou: minha mãe ou minha irmã entrando aqui, num domingo de manhã, e nos pegando tomando café?
O que vão pensar?
Sou maior de idade, sou independente financeiramente, mas ligo-me a eles no lado moral, por isso seria um desrespeito eu trazer uma "mulher qualquer" para minha casa e expor minhas irmãs ou meus pais a se depararem com uma cena dessas.
Jamais fiz ou farei isso.
Emocionalmente, preciso de minha família.
Eles são importantes para mim.
Devo-lhes certas satisfações porque os amo muito.
Nem para minha irmã, Rosana, de quem nunca escondi nada, falei sobre você.
Aconteça o que for, garanto que a Rô vai nos dar a maior força.
- Eles não vão entender, Alexandre. Ninguém entenderia!
- Você não é "uma qualquer", entendeu?
Quando eu disse para vir morar aqui comigo, Raquel, foi por apreciar sua índole, sua moral.
Mas eu pensei em avisá-los antes, evitando alguma surpresa.
Mesmo que não gostassem da minha decisão estariam cientes de que você moraria comigo por algum tempo, e pronto!
Eu já tinha isso em mente!
O que mudou é o facto de você estar aqui, eu não tê-los avisados por falta de tempo, pois tudo foi muito rápido e, a qualquer hora, eles poderem chegar aqui sem saber o que está acontecendo.
Não quero que você se sinta constrangida, nem que eles a julguem mal.
Tenho certeza que você entraria em pânico numa situação desse tipo por se sentir humilhada, ou coisa assim, entende?
Vou falar com eles.
Ou melhor, vou avisá-los que está morando comigo.
Se vão entender ou não, se vão aceitar ou não essa situação, é problema deles.
Tenho que fazer a minha parte.
- Por que está fazendo isso, Alexandre? - ela perguntou.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:08 am

Seus olhos se encontraram e ele, sinceramente, falou decidido:
- Porque eu gosto muito de você, Raquel.
- Você não pode... - murmurou ela.
- Por quê? - questionou seguro de si, inalterável.
- Não quero que se magoe comigo.
- Como é que você me magoaria?
Por acaso pretende me trair?
Mentir para mim?
Ofender-me com agressões ou palavras?
Somente essas coisas me decepcionariam muito.
Raquel tinha um nó na garganta.
Com a voz trémula, argumentou acanhada:
- Não quero que se apegue a mim...
Não quero que se apaixone, jamais poderei corresponder à nobreza dos seus sentimentos.
Olhando com firmeza e austeridade, ele afirmou:
- Raquel, quero que uma coisa fique bem clara:
jamais eu farei algo para você ou por você com algum interesse próprio ou segundas intenções.
Quem pensar isso estará me ofendendo.
Não faço isso nem por você, nem por ninguém, entendeu?
Se eu a ajudar, será por vontade própria e não para ter algo em troca.
Se você acredita que eu tenho algum sentimento nobre, deve reconhecer que a nobreza de um amor fica evidente pela falta de interesses que escravizam.
Tomando coragem, admitiu imperturbável:
- Não vou negar que gosto muito de você, Raquel.
Não posso mentir para você, que foi tão sincera comigo.
Um dia, se descobrir que gosta de mim e quiser ficar comigo, será por sua livre escolha, jamais irei pressioná-la e aproveitar-me da situação por precisar da minha ajuda.
Isso seria agredi-la.
Quando estiver bem estabilizada, se quiser, sinta-se à vontade para ir embora daqui, entretanto só gostaria que continuássemos amigos, se essa também for sua vontade.
Alexandre silenciou.
Ela ficou parada e quase incrédula.
Não sabia o que pensar.
Como poderia haver alguém como ele?
Como ele poderia querê-la consigo, enfrentando dificuldades com a própria família, em troca de nada?
Raquel sentiu nos olhos de Alexandre uma ternura sem igual e, acima de tudo, um grande respeito.
Seus olhos brilhantes se concentravam na imagem do rapaz, que agora se nublava por causa das emoções.
Sem alternativa e constrangida ela chorou muito.
Entendendo seus sentimentos, ele a deixou expressar as emoções o quanto foi necessário.
Alexandre era capaz de compreender sua dor, seu desespero, em meio a tantas dificuldades.
As decepções, os maus-tratos, as baixezas das atitudes alheias e tudo mais, machucavam o coração sensível de Raquel, que não conseguia alívio, não conseguia esquecer.
Vendo-a mais recomposta, ele perguntou:
- Você está melhor?
Ela respondeu com um balançar de cabeça e Alexandre propôs mais animado:
- Lave o rosto e arrume-se. Nós vamos sair um pouco.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:08 am

- Eu não quero... - avisou com voz fraca.
Sorrindo docemente para vê-la disposta, avisou procurando brincar:
- Se não quer, vai morrer de fome.
Porque não tem comida pronta e eu ia levá-la para almoçar.
Pizzaria não funciona no horário do almoço.
Procurando sorrir agora, ela falou:
- Eu sei cozinhar.
Posso preparar algo.
- Com o quê? Já olhou a despensa?
Após rir, explicou:
- Sabe, eu não dou muita importância para a comida, sozinho eu nunca me preocupo.
Bem, isso é algo que precisamos resolver e eu quero a sua ajuda.
Agora, vamos! Vá se arrumar para sairmos, tá?
Vamos dar uma volta, depois almoçamos.
Mais tarde eu a deixo aqui e vou até a casa dos meus pais para conversar, certo?
Raquel concordou e foi se aprontar.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:08 am

Capitulo 9 - Sequelas de um trauma

Bem mais tarde, ao retornarem para o apartamento, durante o trajecto Alexandre percebeu que Raquel, apesar de mais animada, ainda não se sentia à vontade com ele.
Muito falante, o rapaz não oferecia trégua ao silêncio.
- Assim que chegarmos em casa, eu a deixarei lá e vou até a casa dos meus pais.
Você acha que pode ficar bem?
- Claro.
Após pequena pausa, ela revelou triste e tímida:
- Alexandre, estou inconformada com a ideia de morar com você.
Tudo foi muito rápido. Sinto-me envergonhada...
- Ora, meu amor, por quê? - perguntou ele com expressão carinhosa, que não se deu conta, a princípio, percebendo somente depois o que havia falado.
Disfarçando, continuou como se nada tivesse dito, só que procurava ser ponderado e vigilante.
- Sabe, Raquel, eu penso que muitas vezes a maldade está nos olhos daqueles que a vêem.
Tem uma passagem de Jesus em que Ele diz:
"A luz do corpo são os olhos.
Se seus olhos forem bons, todo o seu corpo será luz.
Se seus olhos forem maus, todo o seu corpo será tenebroso".
Existem pessoas que só conseguem enxergar malícia, maldade.
Essas são criaturas com o coração tenebroso e sem valor.
Não devemos nos preocupar com elas, temos coisas mais importantes para fazer.
- Não consigo parar de me preocupar.
- Não pare de se preocupar, somente mude o foco, mude o objectivo da sua preocupação.
Pense:
o que você tem de fazer primeiro na sua vida agora?
- Não sei direito.
- Que tal tirar os documentos que roubaram?
- É mesmo - sorriu ao lembrar.
- Então, mãos à obra!
Verifique o que você vai precisar, onde terá de ir...
Isso é importante e é uma preocupação saudável.
- Vai dar tanto trabalho - lamentou a moça.
- Que nada! Pense diferente.
Tenho certeza de que você não gostava da foto que tinha na sua identidade, ou que a assinatura não saiu como deveria.
É a oportunidade que tem para mudar tudo isso.
Então, fique feliz com esse trabalho.
Raquel sorriu ao perceber que Alexandre tirava, de qualquer dificuldade, um bom proveito e com humor.
Dirigindo, vez ou outra ele a olhava sorrindo, enamorado com o jeitinho de Raquel.
Ao chegar bem próximo do prédio em que morava, ele exibiu primeiro um semblante sério, depois, vendo que não teria alternativa, sorriu pela situação que iria enfrentar.
- Teremos que ser calmos, rápidos, práticos e objectivos!
- Por quê?
- Está vendo aquele carro, ali? - perguntou, apontando.
É o carro do meu pai.
Eles têm as chaves do meu apartamento e já subiram.
Raquel estremeceu.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:09 am

Pálida, não sabia como reagir, nem o que fazer.
Alexandre, mais ponderado e racional, avisou:
- A essa altura devem ter olhado todo o apartamento.
Viram acama montada no outro quarto, viram as suas roupas...
Minha mãe é ágil nisso.
Raquel parecia ter empalidecido mais ainda, sentia-se tonta e ensurdecia.
Alexandre, equilibrado, disfarçava suas preocupações.
Ele queria falar com seus pais sobre Raquel, mas longe de sua casa e sem a presença dela, a fim de não constrangê-la, pois sabia que sua mãe faria inúmeras perguntas à "queima-roupa".
Após estacionar o carro na garagem, indo em direcção de Raquel, olhou-a nos olhos brilhantes, que exibiam preocupação, e falou firme:
- Aconteça o que acontecer, não tome nenhuma decisão precipitada.
Não se desespere.
Estarei do seu lado, entendeu?
Raquel parecia aterrorizada, nem imaginava o que a esperava.
- Vamos subir? - pediu ele.
Ao entrarem no apartamento, Alexandre jogou propositadamente as chaves do carro sobre um console, anunciando a sua chegada.
Indo ao encontro de seus pais, ele os beijou, cumprimentando-os, em seguida apresentou a amiga:
- Essa é a Raquel!
Ela os cumprimentou com extrema timidez.
Todos se sentaram e Raquel não parava de tremer, sentia-se sufocada e passava mal.
A fisionomia da mãe de Alexandre denunciava que ela já havia olhado por todo o apartamento e, com certeza, encontrado as coisas de Raquel.
Essa surpresa a incomodava, fazendo-a sisuda ao conversar com o filho.
- Fiquei preocupada, Alexandre.
Disse que iria almoçar connosco!
- Eu disse que avisaria se fosse, mãe - respondeu resoluto.
- Você não telefonou.
Então eu liguei para cá e ninguém atendeu.
- Eu saí com a Raquel, nós fomos almoçar fora.
Dona Virgínia olhou firme para a moça medindo-a com seriedade.
Sem vencer a timidez, Raquel fugia ao olhar, procurando socorrer-se em Alexandre.
Ela esfregava as mãos suadas e não conseguia se acalmar, sua aflição podia ser percebida.
A senhora, virando-se para o filho, comentou:
- Liguei para o seu celular e a ligação só caía na caixa postal.
- Ah! Veja - disse consultando o aparelho - esqueci de ligá-lo.
- Então foi isso! - interferiu o pai, senhor Claudionor, mais ponderado e observador, pois já percebera o desespero da jovem.
Você sabe como sua mãe é, fica preocupada e faz uma tempestade por nada.
Num belo domingo de frio, quando eu poderia tirar uma soneca depois do almoço, ela fez questão de me arrastar até aqui.
- Querem um refrigerante? - perguntou Alexandre, levantando-se e indo em direcção da cozinha.
- Não. Almoçamos quase agora - respondeu a mãe.
- Você aceita, Raquel? - perguntou ele.
- Não. Obrigada - falou baixinho.
Voltando-se para a moça, a mãe de Alexandre argumentou:
- O Alex ainda não nos falou de você.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:09 am

Interferindo no assunto que se iniciara, Alexandre respondeu:
- Eu não tive oportunidade, mãe.
Aliás, hoje eu ia lá para falar sobre isso.
- Não estou entendendo, filho - disse a mãe.
O que você quer dizer?
Raquel ia passar mal.
Sentia-se gelar e um suor frio umedecia seu rosto e suas mãos.
Seus lábios ficaram brancos e Alexandre percebeu que algo estava errado com ela.
A passos rápidos, ele foi até perto da amiga e, sentando ao lado, segurou seu rosto pálido e frio, perguntando:
- O que foi, Raquel?!
Não está se sentindo bem?!
Ela não conseguia falar e ensurdecia, parecendo largar o corpo, cerrou os olhos.
Amparando-a em si, estapeando-lhe o rosto delicado vagarosamente, ele a chamava exibindo carinho, apesar da preocupação:
- Raquel?... Abra os olhos. Raquel?
Dona Virgínia ficou assustada, sem saber o que fazer.
O pai de Alexandre foi até a cozinha e retornou com um copo com água, dizendo:
- Dê-lhe isso.
- Ela não vai conseguir beber, pai.
Percebendo que Raquel não reagia, ele decidiu:
Vou levá-la para o quarto.
É melhor que se deite.
- Para o quarto?! - exclamou a mãe em voz baixa, que o rapaz nem pode ouvir.
Tomando-a nos braços, Alexandre a levou para a suíte, colocando-a na cama.
Sua mãe parecia confusa e indignada com o que via.
Seu pai se preocupou e foi atrás deles, procurando ajudar em alguma coisa.
Deitada, após alguns minutos, Raquel começou a se mexer vagarosamente, enquanto sua cor tornou a voltar.
O senhor Claudionor tirou-lhe os sapatos e ainda a cobriu com uma manta.
Alexandre, preocupado, ficou ao seu lado esperando que melhorasse, fazia-lhe um carinho vez ou outra.
Ao ver que Raquel tomava consciência, mais calmo, Alexandre falou:
- Fique tranquila, Raquel.
Está tudo bem agora.
- Onde estou? - perguntou desorientada e com leveza na voz.
- No meu quarto - tornou Alexandre.
- Beba isso, filha - pediu o senhor Claudionor, oferecendo-lhe o copo com água.
Homem experiente, examinou-a com o olhar já reconhecendo sua fragilidade e delicadeza.
- Logo vai ficar melhor, você ficou nervosa.
Raquel pareceu só molhar os lábios, que agora começavam a ficar rosados.
- Obrigada senhor... - agradeceu ainda estonteada.
- Raquel, preste atenção - disse Alexandre firme.
Está tudo bem. Fique aqui e se recupere.
Eu vou ali na sala.
Preciso conversar com meus pais.
Acredito que você teve um mal súbito de origem emocional.
Não é nada sério, mas qualquer coisa é só me chamar.
E voltando-se para seu pai, ele pediu:
Pai, vem comigo, por favor.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:09 am

Alexandre não percebeu, mas o homem, sem que Raquel visse, nas costas do filho, deu um largo sorriso e esfregou as mãos, como quem prevê encrencas.
Ao chegar à sala, sua mãe o recebeu dizendo:
- Alexandre, você tem que me dar uma explicação!
O que está acontecendo aqui?!
Não adianta querer apresentá-la como sua namorada.
Antes de chegarem eu encontrei bolsas com roupas dela lá no seu armário!
Vocês estão vivendo juntos?
- Não.
- Como não? Não minta!
- Não estou mentindo, mãe.
A Raquel está com problemas, não tem onde morar e vai ficar aqui por uns tempos, só isso.
- Ficar aqui?!
- Calma, Virgínia.
Nosso filho deve saber o que está fazendo.
Inconformada, a mãe tornou firme:
- Que moça aceitaria ficar morando na casa de um rapaz sozinho?
De súbito, ela lembrou:
E ela desmaiou, porquê?
Por acaso está grávida?
- Ora, mãe!...
- Está? E, se estiver, tem certeza que é seu?
- Mãe, por favor!
- Alexandre! Onde você está com a cabeça?!
Você sempre foi ajuizado e agora vai andar com qualquer uma?!
Encarando sua mãe, ele revidou firme:
- Raquel não é "qualquer uma" revidou, agora bem firme, encarando sua mãe.
E quando eu acreditei ter encontrado uma "moça de família", como você dizia, fui traído, agredido, difamado e ainda quase morri!
- Isso é um absurdo! - dizia a mulher, andando de um lado para o outro.
Meu filho coloca para dentro de casa "uma qualquer"!
Alexandre não suportou, respondendo veemente e firme:
- Primeiro: esse apartamento é meu e eu me sustento.
Segundo: eu, infelizmente, não tenho nada com a Raquel.
Terceiro: não admito ser recriminado dentro da minha própria casa.
Sou bem crescido, mãe.
Ainda não percebeu?
- Você merece coisa melhor!
- Eu não tenho nada com ela!
Dá para entender?! - gritou Alexandre irritado.
- Calma, Alexandre - interferiu o pai.
Não fique assim. Não adianta.
O rapaz começou a ficar alterado.
Ele percebia seu coração acelerar descompassado.
Sentando-se no sofá, esfregou o rosto com as mãos, pois se sentia gelar.
Enquanto dona Virgínia não parava de falar.
Aproximando-se, o senhor Claudionor perguntou-lhe em voz baixa:
- Você está bem?
- Estou, pai.
Eu estou bem - respondeu o filho quase sussurrando.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:09 am

Sua mãe nem percebeu, o outro assunto era mais interessante para ela.
- Virgínia, por favor, abaixe o volume da voz - pediu o marido, mais ponderado.
A mulher considerou e o esposo tornou ainda mais calmo:
À primeira vista essa situação também me surpreendeu.
Mas eu não sei o que está acontecendo, não posso opinar.
Não temos o direito de deixar o Alex mais irritado.
Será melhor irmos embora e deixar essa conversa para outro dia.
- Como você pode ser tão frio?
- Não sou frio, sou cauteloso, Virgínia.
A moça está fragilizada e você não dá nenhuma oportunidade para que nosso filho se explique.
Em uma coisa o Alex tem toda razão:
ele já é bem crescido e você não percebeu.
- Essa moça não pode ficar aqui! - insistiu a mãe.
Alexandre se levantou quase enfurecido e perguntou com voz baixa, pausada e forte, em grave tom, encarando sua mãe:
- Quem é que vai tirar a Raquel daqui?! Você?
Incrédula, sua mãe se calou boquiaberta.
- Acalmem-se vocês dois - interferiu o pai, firme.
Isso está indo longe demais.
E virando-se para a esposa, decidiu:
Virgínia, vamos embora.
O Alex já está muito alterado por hoje e você precisa se tranquilizar.
Desse jeito vocês nunca vão se entender.
- Isso é um absurdo! - exclamou a mulher, agora chorando, saindo do apartamento sem se despedir do filho.
Alexandre baixou o olhar, sentou-se no sofá e ficou calado.
Aquela situação o deixou magoado, não queria que aquilo acontecesse.
Sentia-se mal.
O senhor Claudionor se aproximou e disse bem calmo:
- Outra hora, quando tudo se acalmar, conversaremos melhor, certo, filho?
- Certo - murmurou Alexandre, parecendo exausto.
Em seguida argumentou:
Pai, não pense que estou sendo irresponsável.
A Raquel está passando por uma situação difícil e eu quero ajudá-la.
Eu não poria dentro da minha casa uma moça inconsequente, volúvel e leviana. Acredite.
O pai pensou e perguntou, com modos simples:
- Ela está grávida?
- Não... - respondeu agora, quase rindo porém angustiado.
- Você gosta dela, filho?
- Gosto muito, pai.
Só que, infelizmente, não temos nada.
Nunca se quer a beijei.
Nem namorados somos...
Infelizmente, pois eu a quero muito, mesmo.
- Vocês não se envolveram, porquê?
- Agora não é um bom momento para eu explicar e...
Sabe, a história é longa.
Outra hora eu conto tudo.
- Só mais uma coisa.
Preciso saber, pois me preocupo com você, com sua segurança.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:10 am

- Pode perguntar, pai.
- Ela é casada ou teve algum companheiro de quem está fugindo?
Alexandre sorriu e respondeu:
- Não. Ela não tem família aqui.
Brigou com o irmão, por causa da cunhada, e teve que sair da casa deles.
A Raquel trabalha comigo, eu a conheço bem.
Acredite se quiser, mas ela nunca teve namorado, não tenho motivo para me preocupar com isso.
- Apesar de ser bem jovem, é difícil de acreditar que não teve um namorado.
Ela é muito bonita.
Bonita e delicada - comentou o pai sorrindo.
E, quando ia se retirando, ao beijar o filho, este ainda falou:
- Obrigado, pai.
Mas pode acreditar - sorriu.
- Você deve saber o que está fazendo, Alex.
O rapaz caminhou até a porta e observou o pai ir embora.
Ao vê-lo partir, ele entrou e foi atrás de seus remédios, pois acreditou que precisasse deles.
E Raquel, como estaria?
Indo até o quarto, entrou chamando por ela.
Raquel saía do banheiro com uma toalha que segurava, secando o rosto.
- Raquel, o que você tem? Está pálida!
- O almoço voltou...
Sentando-se na cama, ela falou desolada:
- Eu escutei quase tudo.
Desculpe-me, mas não teve como não ouvir.
- Eu sei.
Alexandre, que também se sentou, jogou-se para trás e ficou olhando para o tecto, sem saber o que fazer.
Aos poucos o sono o arrebatou.
Ao vê-lo dormindo, Raquel não quis incomodá-lo.
Cobriu-o com uma manta, foi para a sala onde se encolheu no sofá e, por algum tempo, ficou chorando em silêncio.
Bem mais tarde, recomposto, mas ainda chateado, Alexandre se levantou e eles ficaram na sala conversando e procurando se distrair com a televisão.
O rapaz, não suportando a curiosidade que lhe assaltava a mente, perguntou:
- Raquel, desculpe-me tocar nesse assunto novamente, mas... você tem vinte e um anos e...
- Vinte e dois.
Completei vinte e dois na semana passada - ela respondeu, interrompendo-o.
- Você fez aniversário e não me falou nada?!
Só por vingança, não vou avisá-la sobre o meu - brincou sorrindo e surpreso.
- Não fui acostumada a comemorações no dia do meu aniversário - revelou com meio sorriso.
Sempre foi uma data comum lá em casa.
Ninguém nunca se importou.
Ele lamentou em pensamento o modo como ela havia sido criada, mas não disse nada.
Aos poucos percebia que Raquel tivera uma vida sem carinho, sem compreensão e com muitos maus-tratos.
Isso era uma pena, pois via em Raquel uma pessoa meiga e atenciosa.
Abandonando aqueles pensamentos, perguntou o que era de seu interesse:
- Com quantos anos sua filha está?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 11, 2017 9:10 am

- Três. Na véspera do Natal ela completará quatro anos.
- Falar sobre ela a magoa? - tornou após breve pausa.
- Não - respondeu com modos simples.
Se bem que não estou acostumada a conversar sobre isso.
Mas não fico triste quando penso na Bruna,
- Se você tivesse a oportunidade de vê-la, aproveitaria?
Ela ficou em silêncio, reflectiu, depois respondeu:
- Tenho medo.
- Do quê?
- Não sei, Alexandre.
Às vezes penso muito nisso.
Desejo vê-la e...
Quando isso acontece com intensidade, tenho sonhos ruins.
- Que sonhos?
- Eu a vejo no casebre, sendo agredida por ele... - revelou deprimida.
- Já pensou em procurá-la e saber como ela está?
- Sim, muitas vezes.
Mas não sei como vou encará-la, eu...
Não sei se tenho forças, coragem.
Actualmente não estou conseguindo nem suprir as minhas necessidades, se a tiver comigo então...
- Ela tem boa saúde?
- Não sei. Às vezes imagino que não, por ser filha do avô.
Alexandre acreditou que sua posição de arrimo a obrigava responder às suas perguntas.
Ao perceber que a amiga se entristecia, mudou de assunto, mas começou a se determinar a aproximar Raquel da filha.
- Amanhã, lá no serviço, não se manifeste.
Finja que nada aconteceu.
Nem olhe para Alice.
- Nem sei como vou me comportar.
Você viu hoje, aqui com seus pais?
Além da maior vergonha, eu o deixei numa situação difícil.
- Aquilo ia acontecer de qualquer forma.
Não tem problema.
- Sua mãe está magoada.
- Ora! Eu também.
Por que ela não foi mais ponderada para ouvir e acreditar em mim?
Após pequena pausa, ele prosseguiu com o outro assunto:
- Mas, sabe, lá no serviço, aja normalmente.
Vão fazer perguntas.
Talvez a Alice faça fofocas ou nos vejam chegando juntos...
- E se alguém fizer perguntas?
- Quando queremos as coisas não vamos pedir a ninguém, certo?
Então não temos satisfações a dar.
Se alguém perguntar, diga:
"Estamos morando juntos. Por quê?".
A pessoa vai ficar sem graça e não terá mais o que falar.
- Que situação chata!
- Ora! Por quê?
Se prepare, pois é isso o que vou dizer, tá?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:50 am

E não vejo a hora!
Raquel arregalou os olhos e ele riu gostosamente, se divertindo com a situação.
Ainda afirmou:
- Sou capaz de dizer que vamos nos casar só para ver a cara do pessoal.
- Não! Ficou louco?!!!
- Ah! Fiquei, sim! - afirmou ele sorrindo, desfechando com uma gargalhada e completando:
- Aos loucos ninguém pede satisfação.
Pode ter certeza de que não vão nos incomodar se eu falar assim.
- Não faça isso, Alexandre.
Já estou tão constrangida por estar aqui com você e... - pediu preocupada.
Está sendo difícil me acostumar e encarar a todos, por favor.
- Isso é só no começo. Depois passa.
Raquel estava inquieta, enquanto ele a olhava sorrindo e com ternura.
Na manhã seguinte, ela achou estranho sair de casa com Alexandre.
Chegando ao serviço, ela exibia-se nervosa ao pensar que teria de assumir uma vida incomum que os outros julgavam e que eles tinham.
Pela manhã tudo fora normal.
Na hora do almoço, Alexandre esperou-a para que fossem juntos, mas outra colega, sem pretensões, convidou-se para fazer companhia.
Essa moça não sabia o que estava acontecendo.
E no restaurante, enquanto almoçavam, a colega perguntou:
- O que houve com seu rosto?
Você caiu, Raquel?
- Fui roubada - contou cabisbaixa.
- Quando?!
- Sexta-feira.
- Como?
Alexandre percebeu o embaraço de Raquel, que olhou para ele pedindo socorro, e interferiu:
- Ela ia para casa, dois pivetes puxaram sua bolsa e um deles bateu-lhe com algo que não pôde nem ver.
- Nossa! Também, hoje em dia não temos sossego em lugar algum.
Sabe, eu também já fui roubada.
Puxa! Que sensação horrível!
Fiquei tão traumatizada que não queria sair mais de casa.
Eu pensava que ia acontecer de novo.
Ai, que horror!
Você também está assim, não é?
- É. Dá um medo...
Fiquei muito abalada, sim.
- Ah! Então foi por isso que pegou carona com você, não foi, Alexandre?
Os olhos de Raquel se alteraram e em seu brilho via-se a preocupação da moça ao saber que a colega os viu chegarem juntos.
Alexandre, prazerosamente, como se aguardasse por aquela pergunta, alardeou sem se constranger:
- Não. A Raquel não pegou carona por causa disso.
Sabe o que é, Laura, eu e a Raquel estamos morando juntos.
A partir de agora você vai nos ver sempre próximos.
Estampando um sorriso que não conseguia conter, Alexandre ficou observando o susto que a colega levou com a notícia, quase se engasgando com a comida.
Raquel enrubesceu e não conseguiu dizer nada.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:50 am

- Juntos?! Você e a Raquel?!
- Sim, claro! Por quê? - indagou Alexandre, com ar irónico.
- Ora, Alexandre, desculpe a sinceridade - disse sorrindo e atrapalhada -, mas acreditávamos que você seria inconquistável!
E, voltando-se para a colega, completou:
Você, hein, Raquel!
Quem diria que, tão recatada, conseguiria conquistar o Alexandre.
- Talvez seja por isso mesmo, por ela ser recatada - revidou ele.
Esta nada respondeu nem mesmo sabia como agir.
Alexandre rapidamente mudou o rumo do assunto e a conversa continuou por mais tempo até terminarem a refeição.
Depois, quando se viu sozinha com o amigo, Raquel advertiu sussurrando:
- Ficou louco?
Você não deveria ter dito isso.
- O que eu falei de errado?
Nós não estamos morando juntos?
Ao vê-la sem resposta e tímida, ele esclareceu:
- Raquel, se você ficar oferecendo explicações e dizer que não há nada entre nós, que só estamos nos ajudando, ninguém vai acreditar e vão ficar falando mais ainda.
Assim como fiz, assumindo tudo, de uma vez, o pessoal vai fazer menos alarido.
Acredite em mim.
Ela não gostou da atitude do colega, não estava preparada para aquilo, mas não disse nada.
Mais tarde, Alice e Rita conversavam a respeito da situação.
- Viu só? - reclamava Rita, inconformada.
Sua ideia atirou Raquel nos braços do Alexandre.
- Calma, Rita. Você não perde por esperar.
Eu já disse o que precisava dizer ao Alexandre.
Talvez ele não tenha me levado a sério, mas quando souber da verdade...
E para isso você terá de colaborar.
- O que você disse a ele?
- A Raquel tem uma filha e...
- Filha?! A Raquel?!
- Viu? Até você pensava que a moça fosse santa?
Percebe agora que ela engana todo mundo?
- Vem cá e me conta essa história, direitinho! - pediu Rita interessada.
Do seu jeito e com a sua versão, Alice contou para a colega o que ocorrera com Raquel, deixando dúvidas sobre a sua moral.
- Então ela vem dizendo que a menina é filha do tio.
Se for, o que eu duvido muito, só se ela o seduziu.
Ele é um homem tão digno, íntegro!
Ninguém pode duvidar dele.
Sabe, a Raquel foi burra, ela poderia acusar qualquer um, menos aquele homem.
Eu o conheci.
Acho que nem em sonho ele faria algo desse tipo.
- E aí? O que podemos fazer?
- Calma, Rita.
Primeiro, vamos deixar a Raquel bem irritada.
Ele disse que fará qualquer coisa por ela.
É agora que vamos ver se ele é capaz de suportá-la dentro de casa, com as crises emocionais, com os pesadelos.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:50 am

Eu já vi isso acontecer.
Quando Raquel fica nervosa, acorda aos gritos.
Fica inquieta e chorosa.
Alice riu sarcasticamente e alertou:
- Depois, se ela perder o emprego...
- Nossa!
- Claro, Rita!
Pense comigo, ela vai infernizar a vida do Alexandre.
Ele vai se encher dela.
Assim, quando ela arrumar outro lugar para trabalhar, logicamente vai arrumar outro lugar para morar e o caminho estará livre para você.
Temos que fazer o Alexandre ficar envergonhado por estar com ela.
- Como?
- Quem é que quer uma mulher com uma filha?
Independente e livre como ele sempre foi, ao se ver com encargos...
- E como faremos isso?
- Siga as minhas instruções e seja paciente.
Só que precisaremos da ajuda do Vagner.
As duas confabularam por longo tempo.
A insegurança de Raquel contava pontos positivos para Alice e Rita.
Raquel sempre se sentia temerosa, esperando que alguém a criticasse.
Alexandre, por outro lado, parecia gostar daquela situação.
Na primeira noite em que eles saíram juntos do serviço, eles foram ao mercado para suprir a despensa do apartamento, pois estavam necessitando de algumas coisas.
Juntos, ao fazer as compras, Raquel sentia-se mais à vontade, sorria e correspondia a algumas brincadeiras de Alexandre, que não ficava quieto.
Ele estava encantado.
Intimamente sentia-se satisfeito e feliz por tê-la consigo, imaginando, em seus pensamentos, como se fossem casados.
Aliás, quem os via pensava que fossem marido e mulher.
Chegando em casa guardaram as compras e jantaram.
Sem ter mais o que fazer se sentaram no sofá e se entreolhavam sem dizer nada.
O rapaz exibia-se satisfeito e não conseguia tirar o sorriso do rosto, enquanto ela se sentia encabulada ainda.
Algum tempo depois a moça quebrou o silêncio e lembrou:
- Não seria bom você ligar para sua mãe?
Creio que ela se sentiria melhor, não acha?
Alexandre concordou e, ao telefonar, foi atendido por sua irmã Rosana.
- Alex? E aí?
- Tudo bem! E você?
- Estou jóia! - respondeu a irmã, com ar de riso ao perguntar:
- Quanto a você deve estar bem mesmo!
Melhor do que eu, não é, seu safado?!
Alexandre ficou embaraçado por ter Raquel a seu lado e respondeu com meias palavras:
- Não, Rô. Não é nada disso.
- Meu!!! - exclamou rindo ao se divertir:
- A mãe tá uma fera! Você nem imagina.
- Sábado vou aí e te conto tudo - respondeu sem jeito.
- Se você não vier, vou até aí acordá-los!!!
Entendeu? Quero saber dessa história, direitinho.
Seu safado! Mentiroso! - tornou Rosana.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:51 am

- Eu?!... - perguntou Alexandre não suportando e rindo.
- Você mesmo! Disse que não queria mais ninguém na sua vida e eu, idiota, acreditei.
Alexandre ouvia e sorria se divertindo com os comentários de sua irmã mais nova.
Rosana ria também e o acusava, pois sabia que ele não poderia responder:
- Seu sem-vergonha! Cachorrão! Safado!
Até chorei por sua causa, por sua desilusão, e agora, que está aí numa boa, nem me diz nada, fui a última a saber.
A tristeza você divide, mas a alegria não quer dividir não, né? Canalha!
Alexandre gargalhou, pois não podia revidar.
Depois respondeu:
- Você não sabe de nada, Rô.
Cale a boca, vai!
- Ah! Sei sim!
O pai até falou que ela é bonita!!!
- É mesmo? Mas façamos o seguinte:
sábado eu vou aí e a gente conversa, tá?
Sem esperar pela resposta, perguntou:
- E a mãe, está aí?
- Não. Ela e o pai saíram à tardinha para ir na casa do tio Rómulo.
Até agora não voltaram.
Você sabe como é, quando eles vão lá...
- Ah! Eu sei. Então deixa.
Outra hora eu falo com ela.
- Se ela deixar.
Porque normalmente é só ela quem fala.
- Está bem, Rosana. Um beijo!
- Outro. E manda um beijo para a Raquel também!
O irmão se surpreendeu e perguntou:
- Já sabe do nome, é?
- Ô!!! Não parei de ouvi-lo desde que chegaram de sua casa.
- A mãe está chateada?
- Ela ficou magoada por causa da surpresa pela forma como falou com ela.
Mas, você sabe, isso passa.
Daqui a pouco ela esquece.
Ela é mãezona e tem um coração enorme.
- Está certo, então, Rô. Outra hora eu ligo.
E, pode deixar, vou mandar seu beijo para ela.
Após desligar, Alexandre disse:
- Minha irmã te mandou um beijo.
Raquel ficou sem jeito.
Ele começou a fitá-la com suave expressão no semblante que o fazia quase sorrir.
Enrubescida e encabulada, a colega perguntou baixinho:
- O que foi?
Ele alargou o sorriso e respondeu:
- Estou imaginando como será sua filha.
- Como assim?
- Acho que a Bruna Maria deve ser muito parecida com você.
Pausa se fez e ele concluiu:
Traços finos, suaves... Delicada.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:51 am

Raquel abaixou a cabeça e ele falou sorrindo:
- Envergonhada.
- Pare, Alexandre - pediu Raquel com modos simples.
- Deve ser tão gostoso ter um filho ou filha - disse, agora parecendo sonhar.
Acho que quando temos uma criança de quem cuidamos, orientamos, ensinamos, nos preocupamos...
Amamos, estamos transmitindo a ela a nossa herança moral.
- Como assim?
- Eu penso que a herança genética pouco importa, mas o que transmitimos a alguém de bom, de útil, de amor é o que podemos chamar de herança moral, isso será perpétuo.
Os bons princípios, a auto-estima, o respeito a si próprio e aos outros são coisas importantes e marcantes para a evolução de alguém.
- Você seria um bom pai.
- Eu vou ser!
Gosto muito de crianças e pretendo ter filhos.
Raquel esboçou leve sorriso forçado e abaixou o olhar.
- E você, Raquel, gosta de crianças?
- Gosto - respondeu, cabisbaixa.
Ajudei a cuidar de meus sobrinhos quando eles eram pequenos...
Alexandre não se intimidou e prosseguiu:
- Por isso eu estava imaginando agora como sua menina deve ser uma gracinha!
Poucos segundos e ele tornou:
Não quer vê-la, Raquel?
Ao perceber a amiga escondendo os olhos que estavam embaçados pelas lágrimas que quase rolaram, Alexandre foi para o sofá em que ela estava e colocou-se a seu lado.
Curvando-se, tentando olhar em seus olhos, falou com ternura:
- Desculpe-me, Raquel. Não fique assim.
Com a voz embargada, ela respondeu:
- Eu tenho vergonha, Alexandre. Não me acostumo...
- Como assim? - perguntou o amigo, generoso.
Secando as lágrimas com as mãos, ela respondeu com a voz pausada pelo choro:
- Solteira... com uma filha, resultado de um...
Um soluço a fez parar, depois continuou:
- Agora, morando de favor com um homem que mal conheço, que humilhação!
Alexandre tentou abraçá-la ao puxá-la para perto de si, mas Raquel ofereceu resistência e o empurrou.
Respeitando sua vontade, ele não a forçou, mas acariciou-lhe o cabelo e, tentando confortá-la, falou:
- Raquel, um filho, vindo por quais meios for, é uma bênção.
- Não... não é assim...
- Como, não?
Sua filha deve ser uma menina linda.
Deve ser uma criaturinha delicada, frágil e que necessita da sua atenção, do seu carinho, do seu toque, contacto.
Como deveria ser gostoso poder abraçá-la...
E sorrindo, ele admitiu:
- Deve ser bom pegá-la no colo, fazê-la rir, beijar, morder devagarzinho...
- Eu me arrependo... - respondeu chorosa perdendo as palavras.
- Por tê-la deixado no orfanato?
- Sim. Mas quando eu penso...
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:51 am

- Se você se arrepende por tê-la deixado, você é uma criatura maravilhosa e, por ser assim, sua filhinha merece tê-la como mãe.
Vejo que não fica pensando em como a concebeu.
Isso significa que a Bruna é só sua. Você a quer bem?
- Como assim?
- Sente algo bom por ela?
Quer que a Bruna seja feliz?
Sem titubear, Raquel respondeu:
- Lógico!
Encarando o amigo nos olhos, ela completou:
Não quero que ela tenha a vida que tive!
- Então ela precisa de você, Raquel.
Só assim será verdadeiramente amada.
Poderá ensiná-la, orientá-la.
É tão importante termos uma boa mãe.
Você mesma sabe disso.
Lágrimas copiosas desciam pela face de Raquel sem que ela pronunciasse palavra alguma.
Seus pensamentos eram de arrependimento por ter abandonado a filha.
Agora as palavras de Alexandre a faziam desejar a filhinha consigo, mas tinha medo pelo futuro incerto.
Percebendo que a amiga estava atordoada e com o coração oprimido, instintivamente ele a puxou para um abraço.
Raquel não o repeliu, mas estava chorando, trémula de medo.
Alexandre percebeu que ela era carente, nunca fora acostumada ao contacto carinhoso que socorre e conforta o coração.
Afastou-a de si e beijou-lhe o rosto, momento em que ela abaixou a cabeça.
Abordando outro assunto para distraí-la, ele avisou:
- A Rosana quer conhecê-la, Raquel.
- Ai, meu Deus! Estou tão envergonhada.
Todos pensam que estamos vivendo juntos.
- Ora! E não estamos? - perguntou rindo com gosto.
- Estamos, mas...
Não é assim como estão pensando.
Preciso, o quanto antes, arrumar uma casa, e...
- Como? - riu novamente.
- Ora, Alexandre, não me confunda - disse mais à vontade.
- Raquel, fique tranquila.
"Dê tempo ao tempo."
Você nem existe para alugar uma casa.
- Como assim, "eu não existo"?
- Dê-me sua identidade!
- Ah, eu vou tirar outra.
- Mas agora, já, nesse exacto momento, você não tem.
Isso significa que não adianta pensar em uma casa sem antes ter o principal.
- O principal mesmo é o dinheiro.
- Viu? Então primeiro cuide de tirar seus documentos, depois faça uma reserva em dinheiro e a casa fica na fila.
- Falando em dinheiro, amanhã acertamos as despesas das compras.
- Você não ficou sem o cartão do banco?
- Não. Não costumo andar com cartão nem cheque.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:51 am

Estão aí, naquela pasta que a Alice colocou entre as minhas coisas.
É uma pasta de documentos.
- Que sorte! - ele exclamou.
- Então, amanhã acertamos as despesas...
- Raquel, se falar isso novamente... - interrompeu-a franzindo o semblante de brincadeira.
A semana foi passando calmamente.
No sábado, Alexandre decidiu ir até a casa de seus pais.
- Vamos comigo, Raquel?
- Só se for carregada! - exclamou imediatamente descontraída.
No mesmo instante, Alexandre correu em sua direcção e a agarrou com força, levantando-a do chão, ao mesmo tempo que fazia um barulho com a garganta, como se rosnasse, tentando brincar como se fosse carregá-la no colo.
Sem esperar, Raquel deu um grito horrorizado.
Empurrando-o com toda sua força, entrou em desespero, acreditando estar sendo atacada.
Alexandre a largou rápido, dizendo:
- Calma, Raquel! É brincadeira.
Perdoe-me, pelo amor de Deus.
A moça empalideceu pelo susto, seus joelhos dobraram, ela se sentou sobre as pernas e em seguida no chão, chorando muito.
Ajoelhando-se ao seu lado, Alexandre não sabia o que fazer.
- Você está se sentindo bem? - perguntou preocupado.
Raquel não conseguia falar, seus lábios estavam brancos e ela ensurdecia.
- Vem, levanta, sente-se aqui.
Não conseguia reagir.
Ao tentar levantar, seus joelhos se dobravam e o amigo teve que segurá-la.
Alexandre a pegou e acomodou-a no sofá.
- Abaixe a cabeça.
Segurando-lhe na nuca, pediu:
- Force para levantar. Sua pressão deve ter caído.
Ele também se sentia mal, mas não disse nada, procurando ficar firme para ajudá-la.
Indo até a cozinha, tomou seu medicamento sem que ela percebesse e voltou em seguida para a sala, levando um copo com água açucarada para ela.
Ao pegar o copo, suas pequenas mãos tremiam e mal conseguia segurá-lo, devolvendo-o após poucos goles.
O restante Alexandre virou e tomou quase num só gole, largando-se, em seguida, no sofá ao lado da amiga.
Raquel nem percebeu, ela estava muito abalada.
Debruçando-se sobre o braço do sofá, ela escondeu o rosto entre os seus braços e procurou se acalmar.
Ao se recompor ele se aproximou e perguntou:
- Você está melhor?
- Estou.
E com voz fraca, pediu:
- Por favor, me desculpe, Alexandre.
Devo ter-lhe assustado também.
- Sou eu quem lhe devo desculpas.
Eu estava brincando, tentei...
Perdoe-me, não pensei que fosse assustá-la.
Estou acostumado a brincar assim com minhas irmãs e...
- Tudo bem. Já passou - sorriu meiga.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:52 am

Mas ao percebê-lo pálido, preocupou-se:
- Você está bem?
- Estou, sim.
- Não sei como aconteceu.
Tudo foi tão rápido, instintivo.
Alexandre, arrependido por ter brincado daquela forma, apiedou-se ao lembrar do estado de pavor que ela exibiu em desespero aflitivo, que parecia custar a passar.
Comovido ele tentou abraçá-la, mas ela o recusou:
- Por favor... - sussurrou.
Levantando-se e tentando fazê-la reagir, perguntou sorrindo:
- Não quer mesmo ir comigo à casa dos meus pais?
Raquel, usando seu senso de humor pela primeira vez com o amigo, perguntou:
- Você tem um revólver em casa?
- Por quê? - respondeu desconfiado, tentando entender a brincadeira.
- Porque eu ia responder: só vou lá morta.
- Por isso não! - avisou sorrindo.
Estamos no sexto andar.
A queda é boa e ainda me poupa de carregá-la lá para baixo.
Eles estavam mais tranquilos e ele perguntou:
- Vai ficar bem aqui sozinha?
- Sim, eu vou.
Não se preocupe - afirmou com sorriso doce.
- Ligue o rádio ou assista à televisão.
Se ocupe com alguma coisa.
Precisando, ligue-me.
Sorrindo, lembrou:
- Ah! Por favor, atenda o telefone, viu?
- Sim, senhor! - brincou mais à vontade.
Antes de sair, Alexandre se aproximou e, ao se despedir, deu-lhe um beijo no rosto.
Ela se sentiu surpresa, mas não disse nada, fora rápido demais.
Ao vê-lo partir, sentindo-se só, ficou preocupada e confusa.
De imediato uma saudade lhe apertava o coração.
Seus pensamentos lutavam com o preconceito no qual fora acostumada, com a situação humilhante em que se reconhecia e com a nobre sinceridade de Alexandre, que a fazia acreditar no amor verdadeiro e incondicional.
Raquel haveria de vencer seus medos e passar a deixar fluir suas emoções.
Mas como? Só conhecera o desprezo, a solidão e as agressões que lhe cravaram profundas marcas dolorosas.
Seu coração, apesar de tudo, era repleto de bondade.
Ela não tivera a oportunidade de sonhar e conhecer alguém que a amasse realmente, que, com generosidade e ternura, traduzisse seus sentimentos em carinho, delicadeza e atenção.
Após a saída de Alexandre, sensibilizada, Raquel chorou por não conseguir vencer os traumas que lhe castigavam os mais íntimos resquícios das lembranças, vivos a todo instante.
Já na casa de seus pais, Alexandre foi recebido com muito entusiasmo, como sempre, por sua irmã mais nova.
Apreensivo, cumprimentou sua mãe, que agora parecia não estar tão nervosa como da última vez em que a viu.
Após conversarem um pouco, dona Virgínia perguntou sobre sua amiga:
- E a Raquel?
- Está bem.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:52 am

Eu a convidei para vir até aqui, mas ela não quis - respondeu cinicamente, aguardando a reacção de sua mãe.
Rosana, que estava próxima, escondeu o rosto, que estampava um riso.
Demonstrando-se calma, a mãe argumentou:
- Até agora, Alex, não consigo entender.
Virando-se para sua irmã, que se entretinha com algo desnecessário naquele momento só para ficar ali, Alexandre pediu gentilmente para ficar mais à vontade com a mãe ao conversar:
- Rô, eu precisava falar um pouco com a mãe, pode nos dar um tempo?
Depois a gente conversa.
- Já estou saindo! - avisou a moça, sem ressentimento.
Na cozinha, sentando-se em frente de sua mãe, Alexandre explicou:
- Mãe, a Raquel trabalha comigo há quase dois anos.
Ela sempre foi uma moça quieta e bem comportada.
É difícil encontrar alguém assim.
Dona Virgínia ouvia atenta, sem o interromper, apesar dos pensamentos intrigantes que lhe ocorreram, e o filho continuou:
- Sabe, acho que a Raquel foi a única moça que não quis me conquistar lá na empresa, porque o resto...
Breve pausa e ele continuou:
- Bem, aconteceu assim:
a família dela mora em uma fazenda no Rio Grande do Sul.
Aqui, ela morava com o irmão e a cunhada.
A Raquel, nos últimos tempos, não vinha se dando muito bem com a cunhada.
Eu a conheço também, ela trabalha lá com a gente e é uma pessoa terrível.
Houve uma discussão e a Raquel precisou sair da casa deles.
A cunhada inventou certas calúnias sobre ela e...
Bem, eu acabei levando a Raquel para morar comigo até ela arrumar um lugar para ficar.
Nós somos só bons amigos. Sempre fomos.
Eu quero ajudá-la, e é sem interesse algum. Acredite.
Não somos namorados, não somos nada.
Pra você ter uma ideia, nunca sequer nos beijamos.
- Ora, Alex!
Segurando o rosto de sua mãe, ele tornou a dizer, olhando-a nos olhos:
- Nós nunca nos beijamos.
Eu não mentiria para você.
Por que faria isso?
Seria até mais fácil eu dizer que estamos vivendo juntos.
Mas não. Isso é, junto nós estamos, mas não temos nada.
Eu respeito muito a Raquel e a quero muito bem.
- Ela não está grávida?
- Ora, mãe! Que absurdo!
Claro que não!
De onde tirou esta ideia?
- Então por que passou tão mal a ponto de desmaiar?
- Raquel é muito sensível, frágil e também não está de acordo com essa situação.
Sua criação não foi liberal, ela veio do interior.
Não pense que ela está feliz ou à vontade por estar lá em casa.
Está é muito constrangida, aflita principalmente depois de tudo o que aconteceu entre ela e o irmão, de quem ela gosta tanto.
Além disso, ela foi roubada, uma situação dessa sempre é traumatizante, lhe bateram e até machucaram seu rosto.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:52 am

Acho que pôde ver.
- Quantos anos ela tem?
- Vinte e dois.
- Alex, você não está mentindo para mim?
- Não, mãe - afirmou categórico ao encará-la.
- E se de repente essa menina fica grávida?
E se ela disser que o filho é seu?
Ele riu e falou:
- Hoje em dia existem exames excelentes para confirmar a paternidade.
Mas esse não será o problema, tenho certeza.
E outra... Quer saber a verdade mesmo?
Para ser sincero, estou gostando muito da Raquel.
Gostando mesmo! - falava baixo, mas com inflexão firme.
Você entrou lá em casa e eu sei que examinou meu apartamento, por isso deve ter visto, no outro quarto, a cama armada em que estou dormindo.
Não temos nada, e sabe por quê?
Porque é ela quem não quer.
Há tempos eu gosto da Raquel e...
Por mim...
Alexandre deteve as palavras suspirando profundamente ao exibir certa decepção.
Reflectindo um pouco e demonstrando seus mais íntimos sentimentos, concluiu:
- Como eu disse, não temos nada, infelizmente.
- Como assim? Como é que ela não o quer?
- Eu me sinto muito atraído pela Raquel.
Não é pelo facto de ela ser bonita, é seu olhar, seu jeito meigo, seu modo recatado de ser.
Não sei se você vai entender...
Acontece que ela não se permite, ela...
- Como assim? Por que alguém iria recusá-lo, Alex?
Você é jovem, bonito...
- Mãe, mãe, não é nada disso.
Acontece que ela não é uma moça fácil, tem boa moral e não sai com rapazes como muitas outras.
Pronto! É isso.
- Será, Alex?
O filho olhou para ela sentindo que seria difícil fazê-la entender.
Até que conseguira muito por tê-la feito ouvir tanto.
- Vamos fazer o seguinte, mãe:
procure conhecê-la e tirar as suas próprias conclusões.
Após poucos instantes, mais animado, argumentou:
- Pronto! Agora que já expliquei tudo, deixe-me ver a Rosana, preciso falar com ela.
Dona Virgínia ficou intrigada e insatisfeita com aquela situação, mas decidiu não brigar mais com o filho, isso iria afastá-lo dela.
Ao entrar no quarto de sua irmã, Alexandre foi logo lhe atirando uma almofada e dizendo, descontraído e animado, brincando como sempre fazia:
- Safada! Sem-vergonha!
Você sabia que ela estava do meu lado e começou a falar aquilo tudo, né!
Rosana se encolheu e caiu na gargalhada, enquanto o irmão se atirou sobre sua cama rindo junto.
- Conte-me, como ela é?!
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:53 am

Ele, abraçando um travesseiro, com o olhar brilhante e perdido, parecendo sonhar ao esboçar um sorriso, respondeu com uma única palavra:
- Linda!
- Loira? Morena? Baixa? Alta?
- Adivinha?
- Morena?
- Errou - respondeu animado e logo continuou:
Seus cabelos são loiro-escuros.
- Ela tem muito cabelo ou é como esse "cabelo de milho" que eu tenho?
O irmão riu e falou:
- Os cabelos são longos e um pouco ondulados nas pontas, muito bonitos!
- O que mais? - perguntou Rosana, sorridente e interessada.
- Ela não é muito alta.
Deve ter 1,60... Ah! É baixinha...
Rosana atirou-lhe uma almofada, dizendo:
- Cachorro! Tá me chamando de baixinha, é?
Ele riu e continuou:
- É delicada, doce, recatada, fala baixo, tem um sorriso bonito...
Lindo! Seus olhos são castanhos bem claros, cor de mel ou de amêndoas.
- Ah!... Eu quero conhecê-la!... - disse Rosana, com modos manhosos, rolando sobre algumas almofadas que estavam num canto.
- Você vai conhecê-la - avisou sorrindo.
- O que mais?
Você falou das qualidades, diga o que você não gosta.
Ou ainda não encontrou nada?
Alexandre parou e reflectia, quando a irmã falou:
- Você está com uma cara de safado!
- Já sei do que eu não gosto!
- Do quê?
- De não poder me aproximar dela, de não poder abraçá-la quando quero e como quero.
Você sabe o quanto sou "grudento".
- Deixe de ser mentiroso!
Vivendo juntos, lá, sozinhos...
Quer que eu engula essa história também?
- Só estamos dividindo o apartamento, Rô, nada mais.
- Nada?!!! Você?! Impossível!
- Não temos nada, Rô.
Mais uma vez vou repetir:
Eu nunca a beijei, nunca tive nada com ela... - sussurrando a seguir:
Infelizmente.
- Por que, Alex? Ela é casada?
- Não, Rô. Não é, não!
Respirando fundo, pediu:
- Não diga nada para a mãe.
Eu não disse tudo para ela. Foi assim...
Após contar que Raquel brigou com o irmão e teve de ir morar com ele por falta de alternativas, Alexandre revelou:
- Fora isso, ela passou por alguns problemas, bem graves, e isso a inibe de qualquer contacto...
Intimidade...
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Ave sem Ninho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:53 am

Mais séria Rosana perguntou:
- Verdade? Vocês não ficaram?
Nem namoram?
- Não - respondeu firme, encarando-a sério.
- Que problemas graves foram esses, Alex? - preocupou-se.
- Imagine o pior.
Nesse instante, os olhos do irmão marejaram com lágrimas que quase rolaram.
Ele se deitou e ficou olhando para o tecto para impedir o choro.
Rosana se levantou de onde estava, sentou-se ao seu lado e o abraçou, dizendo:
- Alex, por que você está assim?
- Rô, fecha a porta, por favor.
Preciso desabafar com alguém, estou tão mal.
Alexandre confiava em sua irmã.
Em poucos minutos lhe contou tudo sobre Raquel.
Abraçada ao irmão, muito comovida, ela chorou sem que ele percebesse.
Fazendo-lhe um carinho no rosto, Rosana perguntou:
- Você está gostando muito dela, não é? - perguntou delicada.
- Eu a amo, muito.
Nunca senti isso tão forte - confessou lamentando.
- Alex, não fique assim.
- Não consigo conquistá-la.
Poucas vezes eu a abracei.
Na maioria ela se nega, me repele.
Se eu a beijar, Raquel é bem capaz de gritar e sair correndo.
Você ouviu o que lhe contei sobre a brincadeira infeliz que fiz hoje de manhã, não esperava que ela fosse reagir daquele jeito.
Como ela sofre, Rô! Que trauma!
- Não fique assim.
Vamos dar um jeito nisso.
Temos muitas coisas a seu favor.
- O quê?
Rosana sorriu e disse cinicamente:
- Se ela não tem onde morar, deixe-a começar a pagar as contas junto com você, aí ela não fará nenhuma economia e ficará mais tempo lá.
- Que absurdo, Rosana!
- Absurdo nada! Sem dinheiro, sem casa!
Sem casa, ela continua com você.
Assim teremos mais tempo para agir, certo?
- Você é louca!
- Ah! Sou sim!
E você é certinho demais para o meu gosto.
Precisa de alguém como eu para ter equilíbrio.
Alexandre riu e ela avisou:
- Conte comigo! Vou ajudá-lo no que for preciso.
Eu entendo, o que a Raquel passou foi muito cruel.
Psicologicamente falando, isso só poderá ser vencido com a sua atenção, com a sua paciência... com o seu amor.
- Isso ela terá.
- Eu sei. Você é maravilhoso, Alex.
- Pare com isso.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:53 am

Lembrando-se Alexandre revelou:
- Estou pensando em fazê-la entrar em contacto com a filha.
- Hum!... Não sei se isso seria bom agora.
É melhor você esperar.
- Você acha?
- Não. Tenho certeza!
Pense comigo: Raquel não me parece disposta ainda a encarar a menina.
Ela não sabe se verá a filha, a irmã ou seu sofrimento no passado.
Aguarde, Alex. Seja paciente.
Às vezes você é muito precipitado.
Agora - disse Rosana bem animada, estampando um sorriso e dando-lhe um beijo como a chantageá-lo -, dê-me um sorriso que só você sabe dar e me leve para conhecê-la, vai.
Alexandre sorriu largamente, levantou-se e disse, tomando a iniciativa de já ir saindo do quarto:
- Vamos!
- Espere! Deixe-me pôr um ténis!
Alexandre saiu às pressas do quarto e, a fim de deixá-la agitada, falou:
- No dez estou indo embora. Um, dois, três...
No caminho, Rosana instruía seu irmão de como deveria fazer para conquistá-la:
- Não seja daqueles caras pegajosos, que vivem agarrando.
Isso enjoa. Trate-a com gentileza.
Quando chegar ou sair de casa, dê-lhe um beijinho no rosto, acostume-a como fazemos lá em casa.
Alexandre ria e não dizia nada.
Quando estiver com ela em casa, comporte-se normalmente.
Faça-a se sentir à vontade com você.
Dependa dela e faça-a se acostumar com seus hábitos, mas procure entendê-la também, toda mudança é difícil.
O irmão achava graça por Rosana, bem mais nova, o aconselhar e ajudar com a nova situação.
- Ah! E nada de ficar parado, feito bobo, olhando para ela.
Raquel ficará constrangida e não vai querer ficar perto de você.
E lembre-se: não seja "grudento", viu?!
E assim foi por todo o caminho até estacionarem diante do prédio.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:54 am

Capitulo 10 - Rosana a nova amiga

Chegando ao apartamento de Alexandre, Rosana, muito espirituosa, reparou com ar de espanto:
- Não estamos no apartamento errado!?
- Por quê? - perguntou o irmão, com simplicidade.
Sussurrando com um jeito engraçado e ar de deboche, ela falou:
- Tudo está tão arrumado!...
Tem certeza que é o seu?
Alexandre, que era acostumado a brincar, deu-lhe um leve tapa na cabeça, empurrando-a suavemente e dizendo baixinho:
- Cale a boca! Entre logo.
Já na sala, nem sinal de Raquel.
Espiaram na cozinha, e nada!
Lembrando-se do susto que lhe dera pela manhã, ele logo se preocupou e foi até a suíte, seguido por sua irmã.
Ao encontrar a porta entreaberta, acabou de empurrá-la ao chamar baixinho:
- Raquel...?
A moça estava deitada e encolhida sob algumas cobertas.
Lentamente ela se voltou para a porta e viu Rosana, alegre, que entrou animada.
Raquel se sentou rapidamente, ajeitando-se.
Rosana, mostrando-se muito à vontade, se sentou na cama, abraçou e beijou Raquel como se a conhecesse de longa data.
Raquel exibia constrangimento pela situação e principalmente ao receber, no rosto, um beijo de Alexandre, que a cumprimentou pela sua chegada, agindo naturalmente ao se curvar e perguntar:
- Tudo bem?
Raquel enrubesceu, mas Rosana agia muito natural, comportando-se como se estivesse acostumada, procurando não deixá-la envergonhada.
Observando-a melhor, Alexandre perguntou:
- Você está bem, Raquel? Está pálida.
- Estou com uma dor de cabeça horrível - avisou quase sussurrando.
- Tomou alguma coisa? - perguntou ele preocupado.
- Não. Não encontrei.
Alexandre foi até o armário onde guardava a caixa de medicamentos, procurou, mas também não encontrou.
- Puxa! Acabou mesmo.
- Vá comprar, Alex! - sugeriu Rosana.
Eu fico aqui com ela.
Virando-se para Raquel, Rosana pediu:
- Você deita. Não se incomode comigo.
- Não...
- Que, "não", o quê! - exclamava com seu jeito irreverente.
Pegando as pernas de Raquel, Rosana a colocou sobre a cama e puxou as cobertas, dizendo:
- Eu sei o que é estar com dor de cabeça e ter que ficar aturando os outros.
Segurando-a pelos ombros, a fez se deitar.
Tudo foi muito rápido e a nova amiga nem pôde reagir.
Alexandre, que olhava da porta, achou graça, sorriu satisfeito e saiu para comprar o remédio.
Ele sabia que, com Rosana, Raquel estaria bem.
Rosana sentou-se na cama de casal e, colocando um travesseiro sobre as pernas cruzadas, pediu, ao estapeá-lo:
- Coloque sua cabeça aqui.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 12, 2017 9:54 am

Vou te fazer uma massagem nas têmporas. Será óptimo.
- Não precisa - argumentou Raquel, envergonhada.
- Deixe de ser boba, Raquel.
Aproveita, não é sempre que me dou ao luxo de ser boazinha.
Elas riram e Rosana, puxando Raquel, a fez deitar na posição adequada.
A irmã de Alexandre ficou longos minutos massageando as têmporas da moça, que acabou adormecendo.
Olhando-a por algum tempo, Rosana lembrou-se do que seu irmão contara e ficou comovida ao observar Raquel.
A irmã de Alexandre não podia acreditar!
Uma moça como ela?
Se agora era frágil, imaginava como deveria ser anos antes.
Rosana decidiu que iria fazer de tudo para ajudá-los, afinal ela gostava muito de seu irmão.
Alexandre merecia ser feliz!
Além de ser uma pessoa maravilhosa, ele já havia sofrido muito.
Ela sabia que depois de tudo o que aconteceu com seu irmão, ele jamais havia confiado em alguém e não acreditava que pudessem existir pessoas fiéis.
Agora, com Raquel seria bem diferente.
Ela o respeitaria... Eles precisavam um do outro.
Nesse instante, Alexandre entrou sorrateiramente e sua irmã, levando o dedo aos lábios, fez sinal pedindo silêncio.
Com muito cuidado, ela ajeitou Raquel, que estava com a cabeça sobre o travesseiro em seu colo, e, saindo daquela posição, Rosana se levantou.
Gesticulando ao irmão para irem até a sala, saíram do quarto.
- E aí? - perguntou Alexandre, ao se ver mais à vontade.
- Ela adormeceu.
Encarando-o, Rosana falou:
- Fiquei olhando para ela e lembrando do que me contou.
Sabe que me deu uma coisa... - emocionou-se.
Estou com o coração dolorido e uma vontade de chorar.
- Não é fácil, Rô.
Inúmeras vezes eu me pego pensando nisso.
Se eu um dia encontrar esse homem, eu o mato! - afirmou Alexandre, exibindo indignação.
- Não, Alexandre.
Um cara desse é imundo, você não merece sujar suas mãos nele.
Deixe-o. Ele é vítima dele mesmo.
- Lá vem você... - resmungou o irmão.
- Pense, Alexandre.
Você acha que um camarada desse não vai pagar pelo que causou a outro?
- Raquel era praticamente uma menina, indefesa!
Você viu como ela é frágil?
Esse cara é um animal!!!
- Nascemos, morremos, mas sobrevivemos, meu irmão.
Um dia, pode estar certo, esse homem vai reparar ou experimentar o que fez o outro sofrer.
E não acredite que ele é o único.
Como eu já li em algum lugar, acredito que "hoje sofremos o efeito do que causamos ontem, e amanhã seremos, ou sofreremos, o que causarmos hoje".
Por que você acha que alguém nasce sem a mão?
Lembra-se, Jesus falou que:
"Se sua mão te faz tropeçar, corte-a e lança-a longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que vá todo o teu corpo para o inferno".
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

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