Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:53 am

Mantendo-se firme, com uma postura quase agressiva, Raquel informou, sem se incomodar com os que podiam ouvir:
- Vagner, se eu estou aqui após o expediente pode ter certeza de que não é por prazer, é por necessidade.
Agora, por favor, se você ficar aqui ao lado me pressionando ou me distraindo, será, além de inconveniente, mais um problema para eu resolver.
Agradeço a carona, mas não quero. Obrigada.
Vagner enrubesceu, pois ouviu risos dos que assistiram a cena e sentiu-se humilhado.
Raquel ferira seu orgulho.
Seus olhos brilharam e seus lábios apertaram-se, tamanha raiva que experimentou naquele momento pelo comportamento arredio da colega.
Jamais fora tratado daquela forma.
Raquel não tinha esse direito.
Estava acostumado a ser recebido com prazer por outras moças quando fazia seus convites.
Envergonhado, mas mantendo-se altivo, falou:
- Está certo. Como quiser.
- Desculpe-me Vagner - tornou Raquel mais branda.
Estou nervosa com o que faço no momento e... Desculpe-me.
- Tudo bem, Raquel.
Amanhã conversaremos.
Vagner guardou imenso rancor da colega que tanto admirava.
Em seu íntimo, não poderia negar que desejava conquistá-la, no entanto, agora, quebrado o encanto, gostaria de fazê-lo, mas somente por sua honra e para subjugá-la.
Alexandre, que não pôde deixar de observar a cena, ficou quieto em seu canto, sem se deixar perceber.
Ele compreendeu Raquel e verificou o quanto Vagner era inconveniente.
Entretanto, nada disse a nenhum dos dois.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:53 am

Capítulo 3 - Reforçando os laços de amizade

Com o passar dos dias, Alice começou a trabalhar.
Sendo uma mulher inteligente, de aparência respeitável e bonita, ficou ainda mais em evidência com o auxílio de Raquel, que lhe ajudou com o empréstimo de suas melhores roupas e até acabou comprando-lhe algumas peças.
Alice, sempre caprichosa com a casa, agora, mesmo trabalhando, não era diferente.
No entanto, ela podia contar com a colaboração de Elói e Raquel, que se propunham, espontaneamente, a algumas tarefas.
Empolgada com a nova experiência de trabalho, Alice passou a comentar em casa sobre alguns assuntos interessantes em seu serviço.
Eram ocorrências novas e até engraçadas para ela, mas que a faziam esquecer as dificuldades financeiras que enfrentavam.
A ausência de queixas da esposa e os comentários que ela fazia de forma alegre sempre distraíam Marcos, os filhos e Raquel.
Isso provocava um clima harmonioso no ambiente doméstico e Marcos passou a expressar menor preocupação.
Ele se divertia com os casos que Alice contava, dava-lhe mais atenção e carinho, pois podia aproximar-se mais da esposa, que não o recebia com suas queixas tão contundentes.
Antes, era a forma de agir e falar de Alice que mudava a vibração do ambiente, interferindo no relacionamento de todos, fazendo-os ficar irritados e dispostos para divergências a qualquer momento.
- Então a cliente me fez entrar no provador, experimentar a blusa para ela ver como ficaria em sua filha, pois a moça não estava ali e a mulher afirmava que tínhamos o mesmo corpo - contava Alice muito animada, descontraída e com largo sorriso, coisa rara de se ver.
- E o gerente? - perguntou Marcos.
- Ah, sim! Antes de fazer isso eu falei com ele, claro.
E aí ele respondeu:
"Se é isso o que a cliente quer, ela manda!"
Todos acharam graça no caso, mas os filhos, Elói e Nilson, chamaram a atenção para outro assunto.
Depois, enquanto arrumava a cozinha, Alice perdia-se em pensamentos de admiração.
"Nossa! Como Marcos mudou!"
O espírito Sissa, que se afinou com Alice por compatibilidade de pensamentos, estava sempre presente junto dela para opinar e, com isso, ligar-se mais e mais a Alice, através da harmonia e da aceitação de suas ideias que chegavam, para a encarnada, como se fossem seus próprios pensamentos.
Envolvendo-a como que em um abraço, Sissa opinou de forma muito convincente, aproveitando a primeira ideia de Alice.
- Marcos mudou mesmo.
E tudo isso se deu graças ao que você tem feito, graças às velas e a tudo mais que tem oferecido em troca.
Afinal, alguém tem que cuidar do lado espiritual da família, e esse alguém é você.
Os seus desejos e a sua fé realizarão milagres se seguir novas instruções recebidas.
Terá que continuar a cumprir com o que lhe mandaram fazer ou então sua vida vai virar aquele inferno novamente.
De imediato, recebendo essas impressões, Alice se deixava envolver ao tecer os seguintes pensamentos:
"Não quero mais ser como antes.
Não quero viver como eu vivia.
Eu mudei, tenho mais valor e minha vida também.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:53 am

Realmente tudo está dando certo.
As simpatias e os 'trabalhos espirituais' funcionam mesmo.
Não há nada errado com o que eu estou fazendo.
Ninguém pode me culpar por estar querendo uma vida melhor.
Tudo mudou!
Marcos está diferente, rindo e oferecendo atenção...
Vai ver que é por causa do meu dinheiro que vai chegar no fim do mês.
Mas, se ele pensa que eu esqueci o que me falou sobre eu ser improdutiva, está muito enganado."
- Isso mesmo, minha amiga! insistia Sissa.
Valorize-se! Você é jovem, bonita!
Não merece ser escrava de um homem como ele.
"Se Marcos está pensando que vai pôr a mão no meu salário, está muito enganado.
Vou ajudar em casa, sim.
Mas vou me cuidar, preciso me produzir.
Ele vive elogiando a irmãzinha dele, pois que se vire com ela.
Agora é que percebo o quanto minha aparência é importante.
Meu emprego e meu bem-estar vão depender da minha apresentação, agora."
Alice, levando consigo Raquel, já havia ido ao referido "lugar" ensinado por sua vizinha Célia.
Lá, relatou todas as suas dificuldades e, após ouvir as orientações, aceitou levar determinadas encomendas que diziam ser para que os espíritos trabalhassem a seu favor.
O pedido era para que Marcos ficasse mais tranquilo, mais harmonioso com ela e que pudesse se estabilizar no emprego com um salário mais elevado.
O que Alice ignorava é que a estabilidade na empresa em que o marido trabalhava já estava prevista muito antes de ir à busca daquele tipo de ajuda.
Alice negava-se a reconhecer que o esposo só estava mais tranquilo em casa por ela ter mudado os seus hábitos agressivos ao falar e ter, agora, assuntos novos, produtivos e bem-humorados.
Raquel, que acompanhou a cunhada, ficou um tanto desconfiada e receosa.
Não gostou do que Alice decidiu fazer, porém, nada podia falar, uma vez que, quando tentou argumentar, ela reagiu contra suas opiniões.
Então, decidiu se calar, apesar de se sentir muito mal com tudo aquilo.
Com o passar dos dias, Marcos estava diante do director da empresa em que trabalhava se justificando, admirado:
- Mas, senhor José Luiz, eu nem sei o que dizer!
- Eu esperava ouvir de você, Marcos, um "Muito obrigado", só - respondeu o director, com ar de riso.
Entorpecido pela agradável surpresa, Marcos tornou a estampar largo sorriso, admitindo satisfação.
- Sim, claro!
Muito obrigado pela confiança.
Eu sei que esse cargo exige responsabilidade, tenho até receio de não poder corresponder.
Como o senhor vê, tudo aqui na metalúrgica está sendo informatizado e...
- Marcos - interrompeu o director -, agora, sendo o coordenador do sector, a empresa vai lhe oferecer cursos nessa área.
Você é um profissional respeitável, uma pessoa de carácter exemplar, esforçado, e, por tudo isso, tenha certeza de que não será difícil se adaptar à nova função e aprender o que será necessário.
Vai dar tudo certo!
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:54 am

Bem, a princípio, seu salário sofrerá um pequeno reajuste.
Mas, após os cursos de actualização profissional, vamos corrigir isso.
O coração de Marcos estava aos saltos.
Não cabia em si de tanta alegria.
- O senhor não imagina como estou feliz!
Nem sei se mereço esse cargo...
Obrigado, senhor José Luiz!
Muito obrigado!
- Agradeça a Deus e a você mesmo.
Foi o seu comportamento, seu empenho e sua dedicação que nos fizeram observá-lo e concluir que tinha o perfil ideal para essa colocação.
Nunca ouvimos qualquer comentário que pudesse desabonar a confiança que depositamos em você hoje.
Chegou a sua chance, rapaz!
Vamos trabalhar juntos e, vou avisando, sou exigente e gosto de estar bem informado sobre todos os detalhes.
Espero que sempre me deixe a par das novidades, uma vez que estamos sem gerente administrativo, como você sabe, e, assim sendo, os coordenadores ficarão responsáveis por me transmitir as informações, certo?
Quero ver aquele sector funcionando a todo vapor!
- Pode deixar!
Vou me empenhar ao máximo!
Ao chegar em casa, Marcos exibia felicidade total e não deixava de falar daquela novidade.
Raquel oferecia toda atenção ao irmão e Alice, muito satisfeita, não conseguia acompanhar a conversa do marido, uma vez que seus pensamentos se voltavam para a admiração aos credos adoptados, às promessas e propostas de ajuda que recebera daquela doutrina espiritualista que procurara.
Contudo, a razão maior de Alice desviar os pensamentos das palavras de Marcos era o facto de Sissa estar naquele mesmo instante passando-lhe suas sugestões:
- Está acreditando agora nas magias, minha amiga?
Viu como o mundo espiritual tem força?
Podemos fazer tudo o que você desejar.
Tudo! - dizia Sissa impregnando, com suas vibrações e seus desejos, os pensamentos de Alice.
A encarnada não podia ouvi-la, mas passava a ter ideias e pensamentos que antes não tivera, e que agora julgava que fossem somente seus.
"Que impressionante!
Como tudo está dando certo!
Célia foi amigona mesmo!
Ela tinha razão.
Eu não era feliz porque nunca tive fé.
O 'lugar lá' é bom mesmo.
Os espíritos que consultei foram óptimos.
Tenho que voltar lá.
Tudo foi tão fácil!"
A ganância passou a fazer parte dos desejos de Alice.
Influenciada por Sissa, começou a desejar cada vez mais os gozos dos bens terrenos através de aquisições "fáceis".
Em outra oportunidade, ao conversar com sua amiga Célia, Alice contava animada:
- Ah! Pedi, sim!
Quero me destacar no serviço.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 04, 2017 9:54 am

Preciso de estabilidade financeira.
Não serei só uma vendedora, você vai ver.
O gerente do meu sector me disse que nunca viu alguém tão esforçada como eu.
Houve uma pequena reunião com vários vendedores e ele até me destacou como exemplo na frente de todo mundo.
- Que virada você deu, hein, menina!
Quem te viu e quem te vê.
Tem uma coisa, Alice, não deixe só para os espíritos ajudá-la.
Você tem que fazer algo por você mesma.
Melhore o quanto puder o seu visual, procure falar baixo, pausadamente, sem euforia, com modos educados, com a maior classe.
Não fique gargalhando alto, nem à toa, seja sempre discreta, em tudo.
As pessoas educadas, graciosas, atraem a atenção dos outros.
Enquanto aqueles que querem chamar muito a atenção para si passam pelo maior ridículo.
- É verdade. Tenho que contribuir com a ajuda espiritual que estou recebendo.
Quanto à aparência, pode deixar, já estou cuidando disso.
Comprei roupas novas e boas.
Melhores do que as emprestadas pela Raquel.
- E a Raquel, foi lá com você?
- Foi, foi sim.
Mas, sabe, ela parece que não gosta muito.
Ah, Célia! Se você pudesse ir comigo... - reclamou Alice com jeito dengoso.
- Não dá menina.
Só posso ir lá à tarde.
De noite o Geraldo, meu marido, está em casa e, já viu, né, ele não quer saber disso.
As amigas conversavam mais um pouco até que o horário chamou a atenção de ambas para se recolherem.
Bem mais tarde, Alice procurava convencer a cunhada para que a acompanhasse:
- Ah, Raquel! Vem comigo, vai - pedia-lhe Alice com jeitinho.
- Puxa, Alice, não sei, não.
Eu não gostei de ter ido "àquele lugar".
Eu me senti tão mal depois.
Passei até alguns dias meio... deprimida, sei lá.
Não seria melhor irmos a uma igreja?
- Sempre fui a igrejas, e o que recebi?
Que nada, Raquel, vai ver que você ficou ruim ou deprimida por outra coisa.
Passa pela consulta e você vai ver...
Diante da insistência de Alice, Raquel acabou por acompanhá-la até o "tal lugar", mas não aceitou passar pela consulta e, mais uma vez, não se sentiu bem com o ambiente por causa do nível espiritual incompatível com a sua índole.
No dia seguinte, em seu trabalho, Raquel sentia-se um tanto atordoada e não conseguia ficar atenta ao que fazia.
- Puxa vida!
O que será que está acontecendo comigo?
- O que foi, Raquel?
Errou novamente? - perguntou Alexandre, que agora, com o último remanejamento de lugares e funções na empresa, passou a ocupar uma mesa ao lado de Raquel.
Somente uma divisória de poucas proporções os separava.
- Nossa! Parece que estou ficando boba!
Nem acredito no que estou fazendo.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:07 am

Dando um empurrão em sua cadeira giratória de rodinhas, Alexandre se colocou ao lado de Raquel e propôs ajuda:
- O que foi? - perguntou ao observar mais de perto o que ela fazia.
- Novamente me enganei com os códigos e essas reservas foram parar em outro lugar.
Quando eu cancelar, o senhor Valmor vai ficar uma fera.
- Não tem alguém com reserva para esse lugar?
Veja com os outros, quem sabe?...
- Vai ser difícil respondeu Raquel desanimada.
- Dê-me o telefone, quem sabe o Mauro tem alguma coisa para trocar com você.
Raquel estava sem iniciativa.
Desalentada, observou o colega agir em seu lugar.
Depois de alguns minutos, Alexandre, eficiente e animado, solucionou o problema.
- Obrigada, Alexandre - respondeu Raquel com sinceridade.
Você não imagina o que fez por mim.
Eu acho que é a quinta vez, em menos de um mês, que não presto atenção no que faço.
- Ligue para o "suporte" e peça para te fazer um "programinha" onde essas tabelas fiquem reservadas com as informações, daí, só no fim do dia, ou quando quiser, você regista e confirma tudo.
- Vou solicitar, sim - concordou mesmo exibindo desânimo.
Após alguns segundos com o olhar perdido, Raquel admitiu:
Também, eu era uma mera operadora e por força das circunstâncias fui mudando de sector até vir parar aqui.
Pouco entendo de programas ou sistemas.
Ainda confessou:
Mas tenho que admitir que talvez seja falta de atenção de minha parte.
Não sei dizer por que isso está acontecendo.
Sempre tive esses códigos decorados.
- Será que você não precisa de férias?
Um descanso cairia bem.
- Descanso agora seria impossível.
Raquel suspirou profundamente, demonstrando certa insatisfação pessoal com as turbulências de sua vida.
Seu olhar perdido exibia melancolia.
Parecia triste e até abatida, seu coração estava apertado e com maus presságios.
Revelando-se atencioso, apesar de discreto, o rapaz preocupou-se e perguntou:
- Está com problemas, Raquel?
Erguendo o olhar mansamente, com entoação singular na voz, ela respondeu:
- Estou morando na casa do meu irmão.
Não sei se você lembra, mas a Rita disse, há algum tempo, que ele iria morar comigo, mas não deu certo.
Houve uma mudança de planos e eu acabei indo morar com ele.
- Pelo visto não está sendo bom para você, não é?
- Não mesmo.
Ou melhor, com meu irmão eu me dou muito bem, os desafios que enfrento são com a mulher dele.
- Ah, ele é casado?
- Sim, e tem dois filhos.
Depois de pequena pausa, Raquel encarou Alexandre com olhar meigo, ofereceu um doce e singelo sorriso e, por fim, concluiu acreditando estar incomodando-o:
Bem, deixa para lá.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:08 am

Não gosto de incomodar os outros com meus problemas.
O amigo fez um gesto singular e, após sorrir também, voltou ao seu trabalho.
Rita, que os observava a certa distância, corroía-se inquieta pela curiosidade em saber sobre a ligeira aproximação dos dois.
Mais tarde, durante o café, Rita questionava a amiga:
- Qual era o assunto, então?
- Ora, Rita, eu me "enrolei" com uns códigos e ele estava me ajudando.
- E, mas outro dia eu vi quando você não quis almoçar com o Vagner e acabou voltando do almoço com o Alexandre.
- Nós nos encontramos por acaso, Rita.
Cansada de ser interrogada com tanta desconfiança, Raquel reagiu:
Nossa, Rita!
O que você quer afinal de contas?!
Eu já lhe disse que não estou interessada no Alexandre, nem em homem algum.
Irritada concluiu:
- Olha, pega o Alexandre e pendura no pescoço, tá bom?
- Credo, Raquel, eu não sabia que você era tão grossa assim!
- Todo mundo tem um limite, você não acha?
Estou cheia desse assunto!
E com um gesto, demonstrando-se enfadada, Raquel aquietou-se.
Rita, por sua vez, sabia que não poderia brigar com a amiga, pois agora, principalmente por Alexandre estar próximo da mesa de trabalho de Raquel, seria mais fácil, ela teria um motivo para se aproximar dele.
Por isso tornou-se mais branda:
- Desculpe-me, Raquel.
Eu confio em você, mas é que tem horas que...
Puxa, eu tenho um objectivo, né!
Sei que me entende.
Raquel nada disse, e Rita continuou:
Tenho que dar um jeito de me aproximar dele e, para isso, eu só posso contar com você.
- Comigo?!
- Claro, Raquel!
Primeiro porque você parece que é a única mulher aqui que não está interessada no Alexandre, segundo porque ele está bem ao seu lado.
- Não sei como posso ajudá-la, Rita.
Eu e o Alexandre mal conversamos.
Raquel sentia seu coração apertado sem saber definir o que era.
Tentando persuadir a colega, Rita passou a chantageá-la emocionalmente, pois acreditava em sua sensibilidade:
- Raquel, você é a única pessoa que pode me ajudar.
Não sei mais o que fazer.
Olha - dizia a amiga com modos dengosos -, a verdade é que eu não paro de pensar no Alexandre.
Estou apaixonada!
Sonho com ele.
Imagino que estamos juntos...
Eu adoro o Alexandre. Não sei mais o que fazer.
Não posso me revelar e dar uma de fácil, mas tenho que me aproximar dele.
- E se ele tiver namorada?
- Não tem.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:08 am

- Como você pode ter certeza disso, Rita?
- Eu sei que ele não tem ninguém.
Parece que nunca teve namorada firme.
Ele não se prende a ninguém.
- Ora, Rita, então por que insistir?
- Porque eu adoro o cara!
Você nunca se apaixonou por alguém?
- Não - admitiu com simplicidade.
- Não! Nunca?
- Nunca. Olha, Rita, veja se você não vai se humilhar.
Eu acho que, como mulher, devia se valorizar mais.
Tenha auto-estima.
- Eu estou gostando do Alexandre, Raquel.
Se você nunca se apaixonou por alguém, não sabe como é.
Ajude-me, por favor! - pediu Rita com voz piedosa.
Raquel se comoveu e, sem alternativa, concordou:
- Está bem. Mas veja lá, não quero me envolver em encrencas!
- Que encrenca, Raquel?
Você só estará me ajudando.
Após pequena pausa, Rita, com os pensamentos fervilhando de ideias, propôs:
- Convide-o para almoçar hoje, certo?
- Eu?!
- Claro! Você não quer me ajudar?
- Como? Eu não tenho cara para chegar e convidá-lo assim, sem mais nem menos!
- Mas você disse que iria me ajudar!
Contrariada e pensativa, sem esconder seu descontentamento, Raquel falou:
- Olha, Rita, não posso garantir nada. Vou ver.
- Vai ver, nada! Você tem que conseguir...
Raquel e Rita retornaram aos seus devidos lugares.
Ao ocupar sua mesa, Raquel, pensativa no desejo da amiga, não tinha coragem de sequer olhar para Alexandre, que estava ao lado.
Voltando-se para Raquel, ele a chamou dizendo:
- Raquel, o senhor Valmor a procurou duas vezes enquanto você estava fora.
- Puxa! Demorei no café, não foi?
- Demorou mesmo - concordou Alexandre sem exaltação.
A primeira vez que ele a procurou, informei que você estava no café; a segunda, disse que havia voltado, mas precisou sair novamente.
Perdoe-me, mas eu falei que você havia ido ao toalete.
- Obrigada - agradeceu Raquel, pensativa.
Já sei o que ele quer, eu tenho que entregar algumas tabelas de estatísticas comparadas com as das duas últimas férias do mesmo período do ano.
- Estão prontas? - perguntou o colega.
Raquel sorriu sem jeito e, desanimada, afirmou:
- Não. Não estou conseguindo.
Não sei o que está acontecendo comigo.
- Já disse, você está precisando de férias.
Após poucos segundos ele perguntou:
- Quantas tabelas são?
- Seis. Duas férias por ano:
deste ano e dos dois últimos.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:08 am

Animado, como sempre, Alexandre pediu:
- Dê-me três. Eu te ajudo.
Começando agora, em meia hora terminamos.
Raquel se entusiasmou, não esperava por aquele auxílio.
Rapidamente os dois trabalharam no serviço que pertencia só a ela e que estava atrasado.
No final de meia hora estava tudo pronto.
Sem perceber, Raquel abriu um largo sorriso de satisfação ao ter em mãos o trabalho que agora levaria para seu chefe.
Após retornar da entrega das referidas estatísticas para o director, ainda exibia um sorriso de satisfação.
Voltando-se para o colega, agradeceu:
- Obrigada, Alexandre.
Nossa! Nem sei como agradecê-lo.
- Eu sei! - anunciou o rapaz sorridente.
- Como? - perguntou ainda iluminada pelo sorriso.
- Pagando o almoço!
Está na hora, vamos almoçar? - convidou com modos simples e sem pretensões.
Raquel lembrou-se imediatamente de Rita e concordou:
- Claro! Só espere um minuto, pois eu tenho que chamar a Rita, combinamos de ir juntas hoje.
- Tudo bem. Chame-a logo - concordou avisando em seguida:
A história de pagar meu almoço é brincadeira, tá?
Os três saíram juntos e, como sempre, Rita atraía para si toda a atenção.
Só que aquele tipo chamativo de se apresentar passou a desagradar ao colega, que, mesmo sem demonstrar, entendeu que ele era o alvo do comportamento evidente ao qual Rita se forçava.
Em outros dias que se seguiram houve novamente a oportunidade deles se reunirem para uma refeição; como antes, Rita se colocava em destaque a fim de atrair a atenção do colega.
Após alguns dias, em uma manhã qualquer, Raquel estava triste e inquieta.
Nada parecia dar certo.
Ela estava quase chorando pela insatisfação com seu trabalho.
Percebendo o que seu comportamento, Alexandre perguntou:
- Tudo bem, Raquel?
Ela não conseguiu deter as lágrimas e, com a voz embargada, respondeu:
- Não... Essa droga não quer dar certo.
Alexandre, mais uma vez, empurrou-se em sua cadeira para perto de Raquel a fim de acompanhar algumas planilhas que estavam sobre sua mesa.
A colega procurava secar as lágrimas e esconder o rosto rubro.
Ao lado de Raquel, Alexandre passou a orientá-la sobre as anotações, e após algumas explicações...
- Entendeu? - perguntou gentilmente procurando ajudar.
Raquel olhava as planilhas e parecia nem saber o que era.
- Entendeu, Raquel? - insistiu ele.
A moça não conseguia se concentrar.
Novamente as lágrimas teimosas banhavam sua face agora rosada e ela reclamou com voz abafada:
- Esse serviço é novo.
Nunca fiz isso e... nem sei o que estou fazendo.
Não entendo nada de factura.
Alexandre, paciente e gentil, procurou explicar todo o processo de exigências para aqueles cálculos e, ao ver que Raquel ainda parecia alheia, convidou:
- Vamos tomar um café, Raquel?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:08 am

- Não. Eu tenho que...
- Desse jeito você não vai conseguir nada.
Vamos lá! Vem! – insistiu o colega, girando-lhe a cadeira e amparando-a para que se levantasse.
Procurando esconder o rosto avermelhado pelo choro, Raquel atravessou a seção seguida por Alexandre.
Ao chegarem à lanchonete que funcionava em outro andar, ele a acomodou à pequena mesa, quase escondida em um canto, e foi solicitar dois sucos.
Raquel, muito envergonhada, ainda procurava esconder o lindo rosto meigo em meio aos cabelos sedosos, perfumados e brilhantes que lhe cobriam parcialmente a face.
Alexandre sentou-se à sua frente e, apoiando os braços sobre a mesa, passou a fixar o olhar na moça que, de cabeça baixa, não o deixava ver seus olhos.
O silêncio reinou por alguns minutos e Alexandre passou a prender sua atenção na beleza física de Raquel.
Apesar de já ter percebido isso antes, agora tinha a oportunidade de observá-la melhor sem ter que se preocupar com os demais.
A simplicidade da jovem e sua meiguice ofereciam harmonia ainda maior aos seus delicados traços.
Quando Alexandre se surpreendeu em plena admiração pela moça, sentindo grande atracção por ela, respirou fundo, ergueu-se e levantou, caminhando poucos passos até o balcão, para ver se o seu pedido já estava pronto.
Preocupado, Alexandre passou as mãos pelos cabelos esfregando em seguida o rosto, procurando raciocinar:
"O que está acontecendo?", perguntava a si mesmo em pensamento.
"Não posso sentir isso.
Já me decepcionei muito em relacionamentos anteriores.
Sou experiente e não vou me deixar dominar.
Quero ajudá-la, sim, mas como seu amigo, nada mais.
Admiro a Raquel como pessoa.
Não vou me deixar envolver."
Após pegar os dois copos, voltou para a mesa onde Raquel estava mais recomposta de suas emoções.
- Espero que goste. É suco de abacaxi.
- Obrigada - agradeceu em voz baixa, concordando com um aceno de cabeça.
Arrastando o copo para perto de si, Raquel ficou observando-o, deixando seus pensamentos vagarem.
Não suportando o silêncio, Alexandre perguntou:
- Não é só o serviço que a deixa inquieta e amargurada, não é, Raquel?
Ela ergueu os olhos tristes, que novamente se rasaram de lágrimas, e afirmou positivamente.
Alexandre a encarou e admirou em pensamento:
"Como Raquel é linda!
Como é terno seu olhar e generoso o seu semblante, mesmo quando triste."
E acompanhando os contornos, observou:
"Que boca bonita!"
Rápido, surpreso consigo mesmo, procurou fugir daqueles pensamentos insistentes e quase sacudiu a cabeça para afugentá-los.
"Sou mais forte do que isso", pensava ele.
"Não vou me deixar levar por isso."
Em seguida perguntou:
- Seu maior problema é por estar na casa de seu irmão, não é?
Creio que seja isso que a incomoda e a faz perder a atenção no que está fazendo.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:09 am

- Sim, é isso - afirmou com voz vacilante.
Eu preciso sair de lá.
Acho que já estou acostumada a morar sozinha.
- Não sei se já te disse, mas eu também moro sozinho e, quando minha irmã resolve ficar alguns dias no meu apartamento, eu acho estranho.
Parece que não me acostumo mais.
Ela dorme na sala, tira a minha privacidade, entende?
Mas por que você não procura outro lugar e se torna independente novamente? É simples.
- Não, Alexandre.
Não é tão simples assim.
- Por quê?
- Eu morava numa casa de aluguel, para ajudar meu irmão, saí de lá e fui morar com ele.
Meus móveis, minhas coisas não couberam na casa dele e...
Bem, acabei vendendo tudo. Nem cama eu tenho.
Estou dormindo no sofá da sala.
Alexandre ficou perplexo, mas nada comentou, uma vez que teve medo de magoar a colega, que dificilmente falava sobre si.
E ela continuou:
- A pouca economia que eu tinha no banco, junto com o que arrecadei devido à venda de minhas coisas, entreguei ao Marcos para que ele pagasse os aluguéis em atraso.
- Você está brincando?! - perguntou Alexandre não suportando.
- Não. Pior é que não.
Agora, depois de alguns meses, a situação dele se estabilizou.
Mas eu ainda continuo ajudando com as despesas da casa.
De imediato eu não tenho para onde ir.
Para alugar outra casa preciso fazer depósito de um ou dois meses de aluguel e, em alguns casos, pedem até fiador.
Não tenho dinheiro para esse depósito e mesmo se eu o arrumasse, precisaria mobiliar a casa novamente; ajudando-os, como estou, não consigo fazer nenhuma economia.
Alexandre a ouviu e depois de reflectir um pouco decidiu opinar:
- Desculpe-me, Raquel, eu mal a conheço e...
Puxa! Fale com seu irmão.
Diga que quer voltar a morar sozinha, pois agora ele já está estabilizado.
- Marcos não quer abrir mão da minha presença em sua casa.
Diz que está feliz comigo lá, e eu acredito.
Mas o problema maior, Alexandre, nem é esse.
- Qual é então? - perguntou o rapaz, diante da pausa que se alongara.
Raquel contou tudo sobre sua cunhada e as tais simpatias e lugares frequentados.
No final acrescentou:
- Eu não quero mais ir lá. Não gosto disso.
Ela vive insistindo e eu não posso me indispor por causa disso.
Nas vezes em que me recusei acompanhá-la, Alice ficou nervosa, irritou-se e começou a bater em móveis e objectos propositadamente.
Isso durou quase uma semana.
- Contou ao seu irmão?
- Não. Não quero que ele brigue com a Alice.
Sabe, eles já tiveram momentos difíceis.
Já discutiram muito e hoje vivem mais tranquilos.
Se eu contar, serei o motivo de novas divergências.
Temo que Marcos seja fraco e faça alguma besteira.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:09 am

Sabe, Alexandre - continuou, - eu nunca acreditei nesse negócio de espírito ajudar ou atrapalhar os vivos.
Mas agora...
- Agora o quê?
- Eu não gosto de ir lá.
A Alice fica pedindo "isso ou aquilo" e depois volta para entregar o que eles solicitam.
Cada vez que eu a acompanho volto tão mal, nem sei explicar o que sinto.
Minhas coisas não dão certo, levo bronca no serviço, não consigo deixar em ordem meu trabalho e até meu dinheiro desaparece.
Às vezes sinto até um mal-estar físico e tudo aumenta à medida que vou lá para acompanhar a minha cunhada.
- Não entendo nada sobre espíritos nem sobre a ajuda que eles podem nos dar.
Nunca acreditei nisso.
Mas, de uma coisa tenho certeza, não se envolva com o que você não conhece.
Saia dessa, Raquel. Procure se afastar.
Dê um jeito de sair da casa de seu irmão.
Mas, enquanto isso, tente separar a situação.
Quando estiver no trabalho, concentre-se no que você tem a fazer aqui.
Organize-se. Em casa, pense nas soluções que terá de providenciar para ajeitar a situação.
- Não é fácil.
- Sim. Não é. Mas você tem capacidade.
Após conversarem por mais alguns minutos, retornaram para a seção e Raquel já se sentia um pouco melhor.
Alexandre, não resistindo ao impulso, convidou:
- Vamos almoçar juntos?
Assim conversaremos melhor.
Quando ele entendeu que Raquel poderia convidar a colega, pediu:
Só que, por favor, não chame a Rita.
Ela fala muito e... se tentarmos resolver um assunto conversando a respeito dele, a Rita não é uma boa companhia.
Raquel se viu numa situação difícil.
O que poderia dizer à colega para justificar não tê-la convidado para almoçar?
Alexandre, inteligente, percebeu seu embaraço e sugeriu:
- Vamos almoçar bem mais tarde, certo?
Eu vou na frente e a espero naquele lugar onde tomamos - lanche outro dia.
Raquel ofereceu um leve sorriso, lembrando-se da cena, e perguntou:
- Onde levei aquele susto?
- Lá mesmo - rindo junto, ele confirmou.
Horas depois, quando faziam um lanche, após conversarem sobre as dificuldades de Raquel, ele perguntou subitamente:
- A Rita está te usando, não é, Raquel?
A moça sentiu-se gelar.
Ela empalideceu e não sabia o que dizer ao perceber que Alexandre entendera tudo.
- Bem... - tentou justificar, mas não conseguiu prosseguir.
- Não precisa se encabular.
Desculpe-me por ser tão directo, é que não há como ignorar.
A Rita só falta se atirar sobre mim.
Dizendo isso, Alexandre riu, divertindo-se, e Raquel abaixou a cabeça envergonhada, sem saber o que falar.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:09 am

Descontraído, ele prosseguiu:
- Eu fico em uma situação difícil, entende?
Quero muito bem a vocês duas, mas como colegas.
Sinceramente, Raquel, não estou a fim de me prender a ninguém.
- Eu entendo.
Mas é que a Rita gosta de você.
Alexandre sorriu novamente e não se calou sobre o que observara:
- A Rita não gosta de mim.
Ela, como algumas outras, quer um cara bonito para lhe servir como um "cartão de visita".
Raquel sorriu diante da falta de modéstia do amigo.
Alexandre, inteligente e perceptivo, ao entender o olhar da colega, comentou:
- É verdade! Eu sei que tenho boa aparência.
Assim como você não pode negar, quando está em frente de um espelho, que é muito bonita.
Sua beleza é evidente e sua delicadeza natural ressalta tudo isso chamando a atenção de todos, não é, Raquel?
Vendo-a embaraçada, com o rosto rubro, Alexandre riu gostosamente e admitiu:
- É verdade! As pessoas geralmente se aproximam de nós e nos querem conquistar pela nossa aparência, e não pelo que somos como pessoa.
Se não tomarmos cuidado, vamos nos envolver em difíceis situações.
Estou cansado disso e creio que você também.
Acho que todos os seus namorados primeiro se aproximaram de você por sua beleza, para dizer:
"Olha, eu consegui a menina mais bonita!"
Raquel abaixou a cabeça e ele perguntou:
- Não é verdade?
- Não.
Sem graça, Alexandre se desculpou:
- Bem, então me perdoe. Talvez seu namorado seja sincero e...
- Eu não tenho namorado afirmou interrompendo-o.
- Mas já teve?
- Não.
- Nunca?! surpreendeu-se ele duvidando.
- Nunca.
- Quantos anos você tem?
- Vinte e um.
- Tenho onze anos a mais que você.
De que planeta você veio para nunca ter namorado? - brincou.
Raquel sorriu encabulada e ele tornou, deixando de ser indiscreto:
- Bem, isso não vem ao caso.
Mas eu sei que você me entende.
Já estou ficando sem jeito na companhia da Rita.
Eu sei que ela vem te pedindo e...
- Desculpe-me. Sei que sou eu quem a chamo sempre, mas...
- Não! Não se desculpe.
A sua presença não me incomoda.
A presença da Rita não me incomoda.
O que está me deixando irritado são as atitudes dela, o comportamento exagerado que ela adopta para chamar a atenção.
A Rita não se valoriza.
Raquel sentiu-se levando uma bronca.
Envergonhava-se do que fizera e agora estava sem graça.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:09 am

- Raquel - Alexandre a chamou e, após encontrar seu olhar fixo nele, segurou as mãos da moça sobre a mesa e falou mansamente:
não me leve a mal.
Não fique triste por causa disso que estou te contando como um desabafo.
Não quero perder a sua amizade nem a da Rita.
Só não quero deixar ninguém iludido nessa história.
Não sou do tipo que subjuga mulher alguma e depois "dá a volta por cima".
Esse não é o meu perfil.
Não quero me prender a ninguém, entende?
Perdoe-me se eu a entristeço, mas é que precisava esclarecer tudo isso com você.
- Eu entendo, Alexandre. Desculpe-me.
Não vai acontecer mais.
A conversa continuou, até que o horário de almoço chegou ao fim e eles voltaram para o trabalho.
Alexandre sentia-se melhor por ter esclarecido aquela situação, mas depois ficou inquieto pensando que Raquel poderia estar magoada com ele.
Mas ela experimentava um alívio por ter desabafado, principalmente com um colega tão discreto.
Naquele dia Raquel ficou até mais tarde no serviço tentando dar prosseguimento a algumas coisas que não conseguira terminar.
Alexandre, ao dar o horário de encerramento do expediente, se foi, como a maioria dos outros funcionários também.
Vagner, a certa distância, observava Raquel e, bem mais tarde, quando ela se arrumou para ir embora, a seguiu.
Preocupada com sua condução, a moça andava apressada pelo pátio onde havia poucos veículos estacionados.
A iluminação fraca a deixava nervosa, pois o lugar parecia um tanto sombrio por causa das árvores que impediam a luz de clarear como deveria.
Vagner acelerou seus passos alcançando-a e colocando-se à frente de Raquel, que gritou assustada.
- Calma, Raquel.
Sou eu - disse ele mansamente e sorrindo.
- Você não deveria fazer isso! - respondeu nervosa.
Ao procurar sair da frente do colega para seguir seu caminho, ele a impediu segurando-a e dizendo:
- Não fique assim.
Vou levá-la para casa.
Raquel esquivou o ombro que Vagner segurava e respondeu:
- Não. Obrigada.
- Ei! Espera! O que é isso?
- Por favor, Vagner.
Solte-me! Preciso ir! - impôs-se quase gritando.
Vagner a segurou com firmeza pelo braço e, estampando um sorriso, argumentou:
- Calma... As coisas não são assim.
Apavorada, Raquel sentia seu coração acelerar.
Um medo aterrorizante a dominou e ela gritou procurando reagir fisicamente:
- Solte-me! Alguém, me ajude!!!
Vagner a segurou com mais força, levando-a de encontro à parede do prédio, abraçando-a e tentando beijá-la à força.
Raquel se contorceu e gritou, momento em que o empurrou.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:10 am

Conseguindo se soltar, saiu correndo desesperada.
Mas nenhum segurança estava nas proximidades.
Vagner tentou alcançá-la, mas, ao se aproximar da portaria, desistiu.
Raquel, ofegante e assustada, passou pelo guarda que estava dentro da guarita e nem a percebeu, pois se entretinha com um programa que passava na pequena televisão que havia lá.
Ganhando a rua, ela correu até o ponto onde pegaria a condução.
Apavorada, sentiu-se mais segura ali pela presença de outras pessoas.
Raquel tentava conter seu nervosismo e as lágrimas, mas era quase impossível.
Trémula, tinha a respiração alterada.
Ninguém ousou perguntar o que estava acontecendo.
A custo conseguiu se controlar aparentemente.
Enquanto isso, Alexandre, após chegar ao seu apartamento, sentia que algo ainda o incomodava.
Acreditou que após um banho e uma alimentação se harmonizaria.
Mas isso não se sucedeu; nem conseguiu se alimentar direito.
Foi para o sofá, largando-se na frente da televisão, no entanto sua atenção não se prendia nos programas exibidos.
Seus pensamentos estavam concentrados em Raquel.
"Como ela fora se envolver em tamanha encrenca?
Jamais alguém pode se deixar prender assim."
Alexandre não conseguia desviar suas ideias de Raquel.
Uma irresistível atracção o prendia.
Ela era cativante, emotiva e meiga.
- Droga! - quase gritou nervoso.
Isso não vai acontecer novamente! - completou, jogando para longe de si uma almofada que antes prendia apertada ao peito.
Levantando-se irritado, Alexandre andou de um lado para o outro sem saber como deter aqueles pensamentos.
Ele já havia sofrido muito por se apegar e amar tanto alguém.
Prometera, então, a si mesmo que nunca mais isso iria acontecer.
Apesar disso, sem perceber, a imagem de Raquel se fazia em sua mente, não só bela, ele a achava maravilhosa, angelical, dócil e delicada.
"Como nunca tivera um namorado?", pensava.
"Por quê? Uma moça aos vinte e um anos não ter namorado!
Isso não deve ser verdade", continuava, inquieto e curioso.
"E o Vagner? Ele a estava incomodando.
Aquele cara não presta!
Raquel é tão diferente, indefesa..."
Tudo nela era agradável para Alexandre.
Gostava de poder fitá-la.
Queria tê-la naquele momento consigo.
Poder abraçá-la, beijá-la...
Raquel fora a única que, até então, não se insinuara tentando conquistá-lo.
Alexandre, deslumbrado, sonhava acordado com a linda Raquel, mas, repentinamente, negava tudo o que, sem perceber, formava-se em sua mente logo em seguida, independente de sua vontade.
- Não! Estou ficando louco - falava sozinho.
Aos trinta e dois anos não posso me deixar iludir por uma... uma menina.
Segundos depois, tornava a lutar contra si mesmo:
- Mas eu tenho que ajudá-la.
Raquel parece não ter experiência nem apoio de ninguém mais.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:10 am

Preciso conhecê-la melhor.
E passando as mãos por entre os cabelos, incomodado com os pensamentos teimosos, Alexandre atirou-se mais cedo na cama e custou muito para conciliar o sono.
Enquanto Alexandre lutava com os próprios pensamentos, Raquel, ao chegar em casa, sentia-se ainda aterrorizada, mas procurava manter as aparências.
Sem coragem, não contou a ninguém o que aconteceu, apesar de estar desfigurada ainda devido ao susto.
Alice não notou seu abalo nem seu semblante amedrontado, que exibia que algo estava errado.
Preocupada consigo mesma, a esposa de Marcos só exigia:
- Pensei que fosse minha amiga, Raquel.
Preciso ir lá hoje e sem falta!
Com voz cansada, Raquel tentava justificar:
- Alice, por favor, hoje não. Eu não estou bem.
Aconteceram muitas coisas e...
Amanhã ainda é sexta-feira e...
- Recuso aceitar um não.
Parecendo nervosa, Alice desfechou:
Você só se faz de boazinha comigo quando Marcos está por perto.
Raquel sentia-se muito mal. Tudo a incomodava.
Procurava ser forte para não se deixar dominar pelo pânico, mas estava sendo difícil.
Seu coração estava envolto por uma dor inenarrável.
Por não ser firme, arrancando das entranhas da alma forças que desconhecia ter, Raquel acompanhou a cunhada.
Bem mais tarde, ao voltarem para casa, Raquel, exaurida de forças físicas e mentais, mal tomou um banho e largou-se no sofá, lugar onde dormia.
Alice também adormeceu rapidamente.
Durante o estado de sono de Alice, o espírito Sissa, que havia algum tempo acompanhava a encarnada, aproximou-se de seu corpo adormecido e chamou:
- Ei, Alice!
Venha, minha amiga. Sou eu.
O corpo físico de Alice estava completamente adormecido e deitado em sua cama, enquanto o corpo espiritual despertava agora para o plano que os encarnados normalmente não enxergam e até ignoram.
E, nesse desdobramento, aquela alma passou a oferecer atenção ao espírito Sissa, que estava mais próxima das vibrações, desejos e pensamentos da encarnada.
- Alice! Venha, sou eu! - insistia Sissa.
- Aonde? - perguntou Alice, um tanto perturbada ainda.
- Vem comigo. É do seu interesse.
Vamos encontrar nossos amigos.
- Amigos?
- Sim. Você já os conhece.
Nós vamos visitá-los num lugar mais propício.
Por ser um espírito ignorante, sem elevação moral, Sissa não podia suprir a companheira encarnada de amparo, sustentação e bem-estar, o que proporcionava a Alice um estado confuso e perturbado.
Alice, por sua vez, em desdobramento, tinha aquela companhia espiritual pelo nível moral em que se colocava, por falta de fé, pela ignorância sobre a vida espiritual e, principalmente, pela ganância material.
Ela não fazia preces a Deus e isso tudo não a deixava favorável para receber algum envolvimento ou inspiração de seu mentor.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:10 am

Sissa levou a companheira encarnada para uma faixa vibratória inferior, onde se situava um lugar estranho, havendo ali vários espíritos de baixos valores morais e inúmeros encarnados em desdobramento pelo estado de sono.
Os encarnados podiam ser reconhecidos pelo cordão fluídico que se alongava do corpo espiritual, ou perispírito, até o corpo físico, que se encontrava em repouso.
Desencarnados com aparência sinistra preservavam tudo, "organizando" a reunião.
Depois de alguns rituais que foram feitos a fim de impressionar todos e com o intuito de prestar como que uma homenagem, demonstrar obediência e simbolizar respeito ao líder, deu-se início à reunião.
Quando todos observaram que o chefe fez menção de tomar a palavra, o silêncio foi absoluto.
Eloquente, circunvagando à sua volta, ele falou sentindo-se absoluto:
- Mais uma vez, estamos reunidos em favor da nossa força, dos nossos direitos e dos nossos domínios, mostrando que as chamadas "Falanges da Luz" nada mais são do que migalhas sob nossos pés.
Ninguém proporciona maior segurança ou maior prazer do que a força que obtemos com a nossa união.
Todos a favor de todos! - disse o líder com vibrações tenebrosas e olhar fulminante.
Sua aparência era humana, porém ele moldava sua forma perispiritual excessivamente avantajada à dos homens comuns, a fim de impressionar e impor medo.
Moldava também roupas escuras.
Destacando-se em um patamar mais alto onde todos ali reunidos podiam percebê-lo com nitidez e facilidade.
... porque ficamos anos e anos e nenhum auxílio chegou a nosso favor prosseguia ele.
Quando encarnados, a pobreza, a miséria, as doenças e as calamidades nos atingem, aflige e massacra a nós e a nossa família.
E então, qual é o socorro e o auxílio que nos vêm das "Falanges da Luz"?! - gritava, intimidando a todos com sua veemência.
Nenhuma!!! Esses miseráveis têm o prazer de nos ver sofrer e na desgraça!
Qual a ajuda que tivemos?
Sem esperar por uma resposta, continuava:
- Nenhuma! A ajuda que eles nos dão é consolação barata, dizendo que temos de aceitar a dor, o sofrimento, a angústia e o desespero.
Nossa "Organização" proporciona aos seus membros e simpatizantes a verdadeira ajuda e o total auxílio para uma vida melhor, mais farta.
Custe o que custar!
Vocês, encarnados, serão na Terra a prova da felicidade e da fartura.
Vocês terão a ajuda, o amparo, a nossa força!
Nesse instante, uma ovação dos presentes o aclamou.
Fortalecido pelo apoio, ele continuou:
- Nós, espíritos dessa "Organização", seremos fiéis e protectores!
Em meio ao murmurinho que se fez, ele indagou:
Alguém tem alguma pergunta?
Um encarnado, em meio à grande aglomeração, um tanto vexado, questionou:
- Desculpe-me, mestre, mas não estamos pecando quando desejamos a força, isto é, por intervenção de vocês conseguir o que talvez não era para ser nosso?
- Pecado?! - vociferou o líder.
Pecado é você permitir-se viver na miséria do mundo!
Nós somos donos da nossa vida!
Vamos nos ajudar uns aos outros!
Vamos nos irmanar!
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:10 am

Alice sentia-se confusa, mas nada questionou até então.
Sissa, mais animada, argumentava:
- Conseguimos nosso objectivo e haveremos de gozar a verdadeira felicidade.
- Como vão nos ajudar? perguntou Alice.
- Serei a sua "porta-voz" aqui na espiritualidade.
Nossos desejos se igualam e nossos objectivos são os mesmos.
- Como vou pagar tudo isso?
O que eles pedem?
- Nossa fé. Veja, Alice, eles têm razão.
Qual foi a justiça que se realizou a seu favor?
Lembra-se da vida miserável que levava.
- Não sei, não - duvidou a encarnada.
- Se você ficar com medo, Alice, sempre estará na miséria.
Após alguns minutos, Alice indagou:
- Como chegamos até aqui?
Vejo tudo tão bem guardado.
- Ganhamos um "passe livre" quando você foi pedir ajuda aos espíritos.
Foi assim:
você chegou lá e contou todos os seus problemas e desejos.
Como eu sou o único espírito que se preocupa com você, os trabalhadores da espiritualidade me informaram tudo o que era necessário saber enquanto você ouvia os encarnados.
Depois que você aceitou levar as encomendas solicitadas, me deram autorização para trazê-la aqui.
Nosso ingresso para entrar nesse lugar é esse desenho na palma da sua mão.
Alice estendeu a mão e pôde comprovar linhas traçadas como figuras geométricas.
- Como isso está aqui?
- Esse "ingresso" foi gravado em uma das vezes que fomos lá.
Ambas continuaram ali boa parte do tempo.
Elas aguardavam algum assistente daquele líder que viria atendê-las e oferecer informações.
Por não atender às inspirações que recebera e não ter uma opinião forte para recusar acompanhar sua cunhada, Raquel, também em desdobramento pelo estado de sono, participava daquela reunião, só que em um estado assonorentado e ainda mais confuso.
Ela recebera fluidos pesados, pois era importante que não estivesse lúcida.
Se estivesse desperta como Alice, seria bem provável que oferecesse resistência e saísse dali.
Dois espíritos que auxiliavam aquele líder sustentavam Raquel que pendia a cabeça como se estivesse desfalecida.
Não se lembraria de nada, mas recebia as vibrações e as impressões funestas de tudo e sofreria, mais tarde, com as consequências de sua invigilância.
Seu mentor pessoal não era visto, mas, junto com outros benfeitores, acompanhava de perto sua pupila, deixando tudo aquilo acontecer a fim de que Raquel aprendesse a ser firme em suas opiniões e não se deixasse envolver em situações como aquela.
Ele poderia interferir, no entanto não o fizera.
Aquela experiência traria um desconforto imenso para Raquel que, com certeza, aprenderia, a duras penas, ligar-se a Deus e fazer sua opinião imperar diante de determinadas circunstâncias duvidosas.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:11 am

Capítulo 4 - O passado angustioso

Na manhã que se fez radiosa, Raquel despertou confusa e amargurada.
Algo estava errado!
Lembrou-se do que Vagner lhe fizera e sentiu-se como que enojada com aquela recordação.
Mais do que nunca uma angústia a castigava e, como uma dor, seu peito apertava incomodando-a muito.
Na cozinha, ao encontrar com seu irmão e sua cunhada, Raquel nada comentou.
Arrumou-se logo e foi para o trabalho bem mais cedo, sem nem mesmo fazer o desjejum.
Alice também não se sentia normal, um cansaço a dominava.
Parecia que não tinha dormido.
Dores musculares se estendiam por todo o seu corpo e um mau humor passou a ser expresso.
- Que noite horrível! - reclamou Alice ao esposo.
Dormi tão mal. Tive um sono confuso... perturbado.
- O que você sonhou?
- Sei lá... Era tudo muito estranho.
Eu lembro de poucos detalhes.
i um lugar que parecia uma aldeia da Idade Média.
Só que havia várias cavernas nas rochas que nos circundavam.
Parece que vi tochas acesas e um homem grandão falando muito.
- O que ele falava? - interessou-se Marcos.
- Não sei. Ah, credo!
Não quero me lembrar disso.
Nem parece que eu dormi. Estou tão cansada.
Marcos aproximou-se da esposa, abraçou-a com carinho e lhe disse generoso:
- Calma, Alice, todo esse cansaço vai passar.
Lá na empresa tudo está indo muito bem.
Daqui a algum tempo eu creio que você poderá parar de trabalhar e aí tudo será como antes.
Você voltará a ficar em casa e tranquila.
Alice reagiu imediatamente.
Afastando-se do abraço, com o olhar expressando rancor, semblante sisudo, revidou ao que acreditou ser uma audácia de seu marido.
- Nunca! Não vou parar de trabalhar, nunca!
O que você está pensando?
Acredita que vai me dominar novamente deixando-me dependente das suas migalhas?
Pensa que eu esqueci o dia em que me chamou de improdutiva?
- O que é isso, Alice? - surpreendeu-se Marcos, com amargo desapontamento.
- Olha aqui, meu filho!
Se você está pensando que eu vou voltar a viver à sua custa, está muito enganado.
Tenho capacidade e valor, vou lhe provar isso.
Marcos ficou perplexo, incrédulo!
Aquela reacção inesperada da esposa o fez perder as palavras.
Com modos rudes e um tanto violentos com os objectos da casa, ela se arrumou, pegou sua bolsa e foi para o trabalho pensando, contrariada, nas ideias de seu marido.
Alice sentia-se indignada!
Sissa, sempre próxima, continuava a orientá-la e a envolvê-la.
- Isso mesmo!
Você não é escrava dele.
Você tem capacidade e valor, sim.
Alice não podia ouvi-la, entretanto, ininterruptamente, as impressões e os desejos daquele espírito a faziam repudiar o marido.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 05, 2017 9:11 am

Enquanto isso, na empresa onde Raquel trabalhava, mesmo sem esperar pelo início do expediente, Alexandre já se encontrava em actividade, concentrando toda sua atenção em alguma tarefa que ficara pendente.
Em dado momento, ele se surpreendeu ansioso desejando que Raquel chegasse logo.
Precisava vê-la o quanto antes.
Mas, contrariado consigo mesmo, às vezes relutava com as próprias ideias.
Suspirando profundamente, deixando-se recostar na cadeira com o corpo largado, Alexandre cerrou os olhos por alguns instantes e reflectiu:
"O que será que está acontecendo comigo?
Pareço um adolescente".
Recordando a conversa que tivera com Raquel, temeu que estivesse triste com ele, afinal ela era muito sensível.
"Será que ela está magoada comigo? Preciso saber.
Preciso ajudá-la a sair da casa de seu irmão.
Enquanto estiver morando lá não terá sossego.
Não poderá pensar em outra coisa... nem em mim.
Deus! O que estou imaginando?!"
Esfregando o rosto com as mãos, apoiou os cotovelos sobre a mesa à sua frente e, ainda com as mãos cobrindo o rosto, pediu em pensamento:
"Deus, ajude-me. Não quero sofrer novamente.
Não posso estar gostando dela. Ajude-me".
Naquele momento, Alexandre assustou-se com a aproximação de Vagner, que o cumprimentava com uma pergunta:
- E aí? Caiu da cama?
Ao encará-lo surpreso, o colega tornou mais cordial:
- Bom dia, Alexandre!
- Bom dia.
- Caiu da cama, Alexandre?
- É... Tinha algumas pendências e resolvi chegar mais cedo.
- Como está se sentindo com a mudança de lugar e mais próximo da Raquel?
- A mudança de lugar não interferiu em nada, mas o remanejamento de actividade está me fazendo penar um pouco.
- E a Raquel?
- Não sei. O que tem ela? - respondeu Alexandre com uma pergunta e começando a se sentir irritado com aquela conversa.
- Não se faça de bobo, Alexandre.
Como ela está se comportando?
Deixou de ser "durona"?
Está mais flexível com você?
Alexandre fez silêncio por alguns instantes, abaixando o olhar e pensando em uma resposta conveniente, entretanto, antes que reflectisse, Vagner insistiu:
- Cá pra nós, somos homens e... sabe como é, esse tipo de mulher misteriosa e difícil é só para fazer charme e chamar a nossa atenção.
Após breves segundos comentou:
- Ontem eu tentei "chegar" nela, mas não deu.
Não tolerando a ironia de Vagner, Alexandre procurou se conter, falando sério e quase irritado:
- Vagner, é o seguinte:
eu não estou aqui para conquistar ou seduzir ninguém.
Estou preocupado com o meu trabalho, quero aproveitar as oportunidades e, principalmente, aprender com os desafios.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:43 am

Resumindo: quero crescer profissionalmente.
Se existe gente fazendo cena de mistério, aqui não é o lugar adequado.
Raquel faz da vida dela o que quiser.
Ela não me diz respeito e, como já lhe disse, o caminho está livre.
Não estou interessado.
Se você tiver capacidade, conquiste-a.
Ofendido, Vagner revidou com palavreado vulgar, duvidando da moral de Alexandre por não estar interessado na colega.
Irritado, Alexandre levantou-se rapidamente, agarrou-o pela camisa e, quando armou o punho fechado para acertá-lo, Raquel, que acabava de chegar, foi ligeira, segurou-o pelo braço, quase se pendurando em Alexandre e colocando-se entre eles, dizendo:
- O que é isso?
O que está acontecendo aqui? - indagou assustada.
Alexandre estava furioso, ofegante e com um suor frio gotejando no rosto.
Ele trazia no olhar uma raiva incontrolável.
Raquel, ao encarar Vagner, lembrou-se do que ele lhe fizera no dia anterior e o odiou por aquilo.
Sem perceber, ela apertava o braço de Alexandre sem largá-lo.
Vagner, empalidecido e com a respiração alterada, ajeitou a roupa e temeu que ela contasse algo, isso irritaria ainda mais Alexandre que certamente reagiria.
Cabisbaixo, retirou-se sob a mira dos olhares brilhantes, fulminantes de ambos.
Como o expediente ainda não tinha começado e a cena foi rápida, ninguém percebeu o que se passou ah, pois havia poucos funcionários no sector.
Segundos depois, trémula, Raquel ainda se fazia em pé e Alexandre, agora muito pálido, atirou-se na cadeira e, ofegante, cerrou os olhos.
Aproximando-se do colega, ela o ouviu falar quase sussurrando:
- Preciso de um pouco d'água.
Raquel rapidamente trouxe-lhe um copo com água.
Assustada, ela observou quando Alexandre, trémulo, mal conseguiu abrir uma gaveta e apanhar um vidro escuro, sem rótulo, de onde tirou dois comprimidos, ingerindo-os com rapidez.
O vidro aberto tombou na gaveta, espalhando algumas cápsulas pelas mãos vacilantes do rapaz.
Calma, Raquel as ajuntou, guardando-as novamente no frasco.
Agora, fitando Alexandre por alguns minutos, vendo-o com os olhos fechados e praticamente com o corpo largado na cadeira, ela percebeu sua palidez acompanhada de um suor frio que humedecera sua face.
Depois de alguns segundos, suspirando profundamente, ele ergueu o tronco e, ainda sentado, ajeitou-se na cadeira, esfregando o rosto com as mãos e alinhando os cabelos, recompondo-se um pouco mais.
Vendo-o mais refeito, Raquel perguntou com voz suave, quase sussurrando:
- Sente-se melhor?
Alexandre, engolindo a seco, ergueu o olhar encarando-a e, forçando um sorriso, afirmou:
- Estou bem. Desculpe-me.
Ainda nervosa, mas procurando se conter ao máximo, com cautela ela perguntou:
- O que estava acontecendo, Alexandre?
Ele se sentia tonto e precisava respirar.
Tranquilo, mas exibindo ainda certo tremor nas mãos fortes, avisou:
- Raquel, eu preciso de ar.
Vou dar uma volta...
Acho que vou lá para o pátio, no estacionamento.
- Ainda faltam cinquenta minutos para o horário.
Vou com você, também estou nervosa.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:43 am

O rapaz, com o semblante sério, saiu na frente seguido por Raquel.
Pegaram o elevador e o silêncio foi absoluto.
A moça olhava-o assustada, temia que ele passasse mal, pois pouco podia fazer.
Alexandre era alto e forte.
Vez ou outra ele esfregava as mãos que traziam, além da palidez, um suor gelado.
Já no estacionamento, caminharam vagarosamente sob as árvores na calçada estreita entre os carros que se estacionavam a quarenta e cinco graus, sem dizerem nada.
Após alguns instantes, ao chegarem perto de um banco, Alexandre parou e fez um gesto para que Raquel se sentasse.
Ela assim o fez e ele se acomodou a seu lado.
Quebrando o silêncio, Raquel perguntou:
- O que aconteceu?
Você está branco feito cera.
Ainda não está bem?
- Já estou melhor.
Pouco depois, desabafou irritado:
- Desgraçado! Ele me paga.
- Você e o Vagner são amigos.
O que aconteceu para quase bater nele?
- Se não fosse você, eu iria quebrá-lo ao meio.
Após pequena pausa avisou:
- Temos que tomar cuidado ao falar com os outros, Raquel.
Tem coisa que não se diz.
Não se deve mexer com a moral de ninguém.
- O que ele falou que o deixou assim?
Fiquei preocupada. Pensei que você fosse desmaiar.
Alexandre olhou-a com ternura e procurou explicar:
- Não vou repetir o que ele me disse.
Não tenho com você liberdade para falar as mesmas palavras que aquele crápula usou.
Foi uma conversa de homem e ele...
Bem, ele me ofendeu moralmente, duvidando da minha capacidade, da minha integridade. Entende?
- Ora, Alexandre, entre amigos há brincadeiras como essas.
- Eu não tenho amigos. Não confio em ninguém.
Raquel se calou amargurada, lembrando da agressão que sofrera no dia anterior.
O colega percebeu algo estranho e perguntou:
- O que houve?
- Nada.
- Você também não gosta dele, não é?
Sem obter respostas, ao lembrar, perguntou:
- Ele me falou que "chegou" em você ontem.
O que aconteceu?
Raquel abaixou a cabeça e não se manifestou.
Curioso e interessado, Alexandre insistiu:
- Ele está "dando em cima" de você?
Raquel estava quase chorando.
Lágrimas brotavam em seus olhos, mas sua posição dificultava que Alexandre visse.
- Você está melhor? - perguntou para dissimular.
- Sim. Já estou bem - respondeu sorrindo suavemente.
- O que você sentiu?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:44 am

O que era aquilo que estava tomando?
Agora, com o semblante mais tranquilo, quase sorrindo, ele a olhou e ajeitou-se melhor, tomando-lhe as pequenas mãos e colocando-as entre as suas.
Raquel, séria, pareceu repelir a atitude quando se enrijeceu erguendo o corpo e ajeitou-se no banco puxando vagarosamente suas mãos.
Alexandre, deixando-a à vontade, percebeu a reacção, mas nada disse a respeito e comentou:
- Tenho uma história longa e...
Bem, não sei se você quer ouvir.
Ambos se entreolharam.
Alexandre parecia suplicar com o olhar a atenção da jovem.
Ele estava angustiado, magoado.
Jamais confiara a um conhecido todos os seus pesares, todos os seus sentimentos mais puros.
- Eu quero saber. Conte-me, por favor - pediu com voz suave e olhar atento.
Mais à vontade, Alexandre iniciou:
- Anos atrás, por uma grande oportunidade de emprego, eu fui trabalhar em outra cidade.
O salário era óptimo, mas a viagem diária seria cansativa, quase impossível de suportar.
Foi aí que eu e mais três colegas alugamos uma casa e passamos a morar juntos.
Ganhei um bom dinheiro.
Fiz uma excelente economia e, no final de uns quatro anos, retornamos.
Quando regressei, não consegui mais morar com meus pais. Ficou estranho.
Com a desculpa de querer morar perto do serviço, eu e os mesmos amigos alugamos um apartamento e voltamos a morar juntos.
Dividíamos as despesas e pagávamos também uma empregada para cuidar das coisas.
Nessa época, comecei a namorar firme com uma moça que já conhecia há alguns anos, pois ela morava próximo da casa dos meus pais.
A essa altura da conversa, Alexandre engoliu a seco e se deteve.
Suspirou profundamente, esfregando suavemente as mãos, e depois prosseguiu:
- Nosso namoro era sério.
Depois de alguns meses ficamos noivos...
Após breve pausa, continuou:
- Com o dinheiro que economizei, comprei um bom apartamento.
Apesar de esse imóvel ser novo, acreditamos que uma pequena reforma seria necessária para o termos a nosso gosto.
Meu pai tem uma boa situação financeira e a reforma seria o seu presente de casamento. Ele me ajudou muito.
Alexandre fez longa pausa.
Raquel o olhava firme e percebeu que seus olhos brilhavam, quase se empoçando em lágrimas, quando ele disse:
- Eu a amava muito. Muito mesmo.
Apeguei-me tanto a ela que, em tudo, pedia a sua opinião.
Eu acreditava que não poderia viver sem a Sandra.
Marcamos a data do casamento, enquanto mobiliávamos o apartamento.
Nessa época eu ainda morava com meus colegas.
Entre eles, um era muito especial.
Amigo mesmo. Seu nome era Júlio.
Raquel estava atenta e não se incomodava com as pausas, cada vez mais longas, que ele fazia.
- Um dia - tornou Alexandre, com voz grave -, percebi a Sandra muito diferente. Nervosa.
Não me importei, achei que fosse por alguma coisa da mobília que haviam entregado errado.
Sabe como é, toda noiva fica exigente e Sandra não seria diferente.
Passados uns dois dias, estávamos no apartamento em que morava junto com os colegas, mas eles não estavam.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:44 am

Sem que eu esperasse, Sandra falou: "Estou grávida".
Foi um choque! Um susto feliz!
Nesse instante, Alexandre sorriu e confessou:
Verdade. Fiquei feliz mesmo.
Eu a abracei e a beijei.
Estava contente... Realizado!
Apesar disso, percebi sua frieza e indiferença.
Sandra não estava contente.
Ela ficou nervosa com a minha reacção.
Afastando-se de mim, ela disse que não queria aquele filho.
Conversamos muito e Sandra estava irredutível.
Alexandre olhou para o céu a fim de dificultar que as lágrimas que brotaram corressem por sua face e, tentando disfarçar, virou-se respirando profundamente.
Raquel permanecia calada e ele prosseguiu:
- Nunca tinha visto minha noiva tão irritada, tão agressiva, tão cruel.
Implorei para que ela deixasse meu filho nascer.
Sandra não me respondia nada e...
Passamos um péssimo fim de semana.
Domingo à noite, não aguentei guardar comigo aquela história e acabei desabafando tudo com meu amigo, o Júlio, que ficou tão surpreso quanto eu.
Sandra estava de férias e, na segunda-feira eu queria falar com ela, mas tinha que ir trabalhar, havia algo muito importante para fazer no serviço naquele dia e tive que ir.
Após o almoço, eu estava com uma dor de cabeça insuportável.
Tomei um remédio, mas não adiantou, tive que ir embora.
Foi então que pensei em chegar em casa, ligar para ela e pedir que viesse me ver para conversarmos.
Eu não estava bem e precisava dela.
Mas, ao chegar em casa, quer dizer, ao apartamento onde eu morava com os colegas, bem mais cedo do que de costume, percebi algo diferente.
Havia uma movimentação em um dos quartos e pensei até que fosse algum ladrão.
Entrei sorrateiramente e surpreendi minha noiva e meu melhor amigo deitados juntos... Muito à-vontade...
A voz de Alexandre embargou.
Ele parecia ainda sofrer com aquela decepção.
Após longo silêncio, Raquel, sentindo seu coração apertado, perguntou:
- O que você fez?
Tomando fôlego, curvando-se, entrelaçando as mãos à frente dos joelhos e prendendo o olhar em algum ponto do chão, Alexandre falou mansamente:
- Fiquei furioso. Verdadeiramente fora de mim.
Invadi o quarto, esmurrei Júlio o quanto pude.
Sandra, enrolada em um lençol, tentou me impedir e...
Acabei dando-lhe um tapa muito forte.
Ao vê-la caída e chorando de um lado e Júlio, muito machucado, do outro, fiquei atordoado.
Só então me dei conta da situação.
Perturbado, decepcionado, ferido, saí sem rumo.
Quando dei por mim, estava diante da casa de meus pais.
Senti que algo estava errado comigo. Comecei a passar mal.
Entrei e minha irmã veio ao meu encontro.
A última coisa que me lembro é do rosto de Rosana, minha irmã, falando algo que eu não ouvi.
Acordei uns três dias depois num hospital.
Tive uma parada cardíaca.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:44 am

Se não fossem os primeiros socorros prestados por um policial que soube o que fazer, talvez eu não tivesse resistido.
- É por isso que precisou do remédio? - perguntou surpresa.
- Sim. Eu tive uma parada cardíaca, resultado de uma tensão emocional gerada por uma irrigação sanguínea insuficiente no músculo cardíaco - respondeu Alexandre sem encará-la, e na mesma posição.
Continuando em seguida:
- Nunca percebi nada. Nunca precisei de um médico.
Alexandre riu forçosamente e lembrou:
- Praticava desportos, nunca fumei e não bebo, mas tinha o coração fraco e não sabia.
Era uma inflamação das membranas das paredes do músculo cardíaco que eu ignorava ter.
Brevemente explicou:
- Para problemas cardíacos existem medicamentos, que aumentam a força das contracções cardíacas, chamados "cardiocinéticos".
Como também os "cardiotónicos", que contêm adrenalina e coramina para estimular a função do músculo cardíaco enfraquecido.
Eles agem sobre os centros nervosos que são dependentes da pulsação cardíaca.
Isso tudo regula o ritmo do coração.
Virando-se para Raquel, perguntou brandamente:
- Entendeu por que eu precisei tomar aqueles medicamentos?
Raquel afirmou com um aceno de cabeça e ele continuou:
- Um mês depois, eu estava na casa dos meus pais me recuperando ainda.
Ninguém sabia do flagrante que eu dera em Júlio e Sandra.
Os pais dela me visitavam com frequência sem entender a distância que a filha mantinha de mim diante do meu estado de saúde.
Perguntaram algumas vezes o que tinha acontecido entre nós, mas não insistiram quando silenciei, talvez por causa de minhas condições físicas.
Quanto a ela, nem sei o que dizia a eles.
Passados alguns dias, ao me ver a sós com o pai dela, criei coragem e contei tudo o que tinha acontecido, falei da traição, pois a peguei na cama com meu melhor amigo...
Nossa, pensei que o homem fosse enfartar.
Ele não me disse nada.
Transtornado, seus olhos ficaram cheios de lágrimas e ele emudeceu.
Estapeou-me as costas fortemente, parecendo ser um gesto de solidariedade, entendendo a minha situação, e depois foi embora.
- Eu já estava bem melhor nessa época, até voltaria a trabalhar na próxima semana, mas no dia seguinte a esse episódio, eu estava assistindo à televisão, tentando arrancar da lembrança a cena de traição, que era constante, quando ouvi um murmurinho e a voz de Rosana, minha irmã mais nova, um tanto irritada.
Levantei-me e fui ver do que se tratava.
Sandra falava alto, estava irritada e à minha procura; Rosana tentava detê-la.
- Quando me aproximei, ela me jogou a aliança no rosto e falou:
- "Toma! Eu odeio você!
Quero que morra!"
Com o olhar transbordando rancor, ainda disse ironicamente:
- "Sabe o filho que estou esperando?
Não é seu, é do Júlio. Você não é homem para isso.
Eu sei porque você gosta de viver com rapazes.
Estou sabendo do seu caso com o Celso e que você é 'mulher' dele".
Ensurdeci. Senti o sangue fugir do meu rosto e, novamente, acordei no hospital.
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