Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 21, 2017 11:22 am

Raquel estranhou, mas não argumentou fugindo-lhe o olhar.
Como se nada tivesse acontecido, Alexandre comentou:
- Estou pensando em chamar um projectista para fazermos o quarto da Bruna.
O que você acha?
- Já?!
- Temos que lembrar que isso não é tão rápido.
Na próxima semana já vamos vê-la.
- Meu coração está tão apertado - confessou Raquel temerosa.
- Eu sei.
Após alguns minutos, ele completou:
- Ela deve ser a sua cara.
- Por que você sempre diz isso, Alex?
Ele respondeu com sorriso e olhar meigos, mas sem palavras.
Enternecido, carinhosamente afastou-lhe o cabelo do rosto fazendo um afago.
Aquele instante parecia mágico para ele.
Com o olhar perdido em Raquel, Alexandre se lembrou do quanto a queria perto de si, sem o medo de perdê-la.
Agora, casados, sentia-se mais seguro.
Suas almas se deixavam invadir por vibrações divinas, algo único e puro, chamado Amor!
Que doce harmonia reinou naqueles breves minutos que pareciam eternos!
Órfãos do egoísmo, nada exigiam um do outro, cultivando e reforçando somente os preciosos talentos da compreensão, da paciência e do amor incondicional, verdadeiro...
Com o sorriso nos lábios e nos olhos um brilho que expressava intraduzíveis emoções sublimes, Alexandre acariciou-lhe o rosto, dizendo baixinho:
- Eu te amo, muito.... e ouviu:
- Eu também amo você.
Raquel se aproximou e ele se surpreendeu ao sentir seu abraço apertado em que procurava aquecer-se nele.
Alexandre a envolveu com carinho e aninhou-a nos braços como quis.
O coração de Raquel batia forte, mas ela não dizia nada.
Ficaram assim por algum tempo, em silêncio, até que o telefone tocou.
Alexandre ajudou-a a se sentar melhor e se levantou para atender.
Raquel sentiu-se diferente, como que frustrada, desejando que ele ficasse ali.
Pouco tempo depois, animado, ele a procurou, dizendo:
- Vamos lá na casa da minha mãe?
A Vilma está lá!
Na semana que se iniciou, Alexandre voltou ao trabalho assumindo sua mesma função.
No serviço todos o cumprimentaram pelo casamento e ficaram curiosos em saber sobre o seu problema cardíaco.
Por muitas vezes, precisou contar todo o ocorrido.
O senhor Samuel, director imediato de Alexandre, chamou-o em particular e já na sala dele contou novamente o que lhe ocorrera.
- E no meio de tudo isso você ainda teve que se casar?
Você é suicida mesmo, hein! - brincou o director rindo com gosto.
Alexandre sorriu e explicou à sua maneira:
- Minha situação com a Raquel era irregular perante as leis.
Vivíamos juntos e não havia motivos para não nos casarmos legalmente.
Esse susto me fez pensar muito a respeito disso.
- A Raquel não é aquela moça que trabalhava aqui?
- Sim. É ela mesma.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 21, 2017 11:22 am

- Sempre gostei muito dela.
É uma moça bem-comportada.
Não tínhamos comentários sobre sua vida.
Estranhei quando soube que o Valmor a demitiu, não vi motivo.
Ela cumpria seu dever, era elegante, educada e muito quieta.
Aliás, eu nem sabia que vocês viviam juntos.
- Procurávamos ser discretos - disse Alexandre com um sorriso cínico.
- E para quando é o herdeiro? - perguntou o homem em tom de brincadeira.
Alexandre não conseguiu se conter e orgulhosamente anunciou:
- O próximo eu não sei, mas já temos uma filha de três anos.
- Já?! Então, realmente estava mais que na hora de vocês regularizarem a situação.
E ela, está trabalhando?
- Não.
- Em breve ela arrumará coisa melhor.
Após pequena pausa, o director disse:
- Vamos ao que interessa.
O caso é o seguinte: o seu gerente, o Luiz, volta de férias na próxima semana.
Estamos com um grande projecto e um remanejamento no quadro.
Queremos que você seja líder desse projecto e...
- Puxa! Que susto! - disse Alexandre rindo.
- Por quê?
- Pensei que fosse ser despedido.
Depois de tanto tempo em "férias".
O homem sorriu e falou:
- Filho, o seu sector é um inferno!
Principalmente sem você, temos que admitir isso.
Ninguém quer aquela encrenca e até entendemos porque você teve problemas cardíacos!
Ambos riram e o director continuou a explicar os planos.
Por causa do excesso de trabalho, Alexandre começou a sair um pouco além do horário, pois tinha muito que organizar.
Na sexta-feira, lembrou-se que havia prometido à esposa que iria acompanhá-la ao Centro Espírita e não queria decepcioná-la.
- Débora - pediu Alexandre a uma funcionária que trabalhava sob sua supervisão - hoje eu vou sair no horário.
Mas mantenha-me informado de tudo, tá?
- O "pessoal do suporte" terminará a inclusão daqui a uma hora.
- Óptimo! Nesse tempo já estarei em casa.
Ligue-me para contar as novidades.
Quero ir planeando essa implantação para, quando chegar na segunda, instalarmos tudo de uma vez - informava Alexandre preocupado com o serviço.
Passada mais de uma hora desse episódio, Alexandre chegou em casa e Raquel já estava pronta e esperando-o.
- Oi! - cumprimentou o marido dando-lhe um beijo rápido e completando:
Já sei, estou atrasado!
Quieta, ela estava diferente, bem séria, mas o encarava.
Então ele perguntou:
- Acho que nem dá tempo de tomar um banho, né?
- Temos que pegar a Rosana, ainda - informou Raquel, com modos frios.
Eu não gosto de chegar atrasada.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 21, 2017 11:22 am

Estranhando aquele comportamento, ele perguntou com modos brandos:
- O que houve, Raquel?
Aconteceu alguma coisa?
- Não. Nada - respondeu friamente se voltando para algo, tentando disfarçar.
- Como, nada?
- Telefonaram para você do serviço - avisou interrompendo-o.
- Ah!... Então espere mais um pouquinho.
Tenho que telefonar.
Já sei o que é.
Ligando para Débora, Alexandre ouviu o que lhe interessava, depois respondeu à colega de serviço:
- Lembra do que falei durante o almoço?
Eu já sabia que isso ia acontecer.
Agora é o seguinte, eles terão que dar um jeito.
Não depende de nós.
Débora disse mais alguma coisa e ele respondeu:
- Eu já sei. Não estressa! É assim mesmo.
Após pequena pausa concluiu:
- Débora, segunda-feira conversamos.
Creio que isso é só.
Mais alguns segundos ficou ouvindo em silêncio e, por fim, retribuiu:
- Tchau! Obrigado. Outro!
Raquel, que parada à porta ouvia a conversa, sentia-se esquentar.
Enrubescida de raiva, não disse nada, mas Alexandre percebeu que seus modos, antes delicados e generosos, estavam automáticos e frios.
O ciúme a envolvia sem que admitisse.
Emburrada, Raquel pegou no braço do marido como se fosse sua propriedade.
Não admitiria que ele tivesse outra mulher - pensava.
Poderiam estar casados só no papel, mas ela era sua esposa e, quando ele a pedira em casamento, a proposta de que vivessem daquela forma partira dele.
Após pegarem Rosana, a cunhada percebeu que a esposa de seu irmão estava diferente.
Perguntando o que estava acontecendo, Raquel informou que não havia nada.
Já no Centro, novamente Raquel agarrou novamente no braço de Alexandre que não entendia nada e deixava acontecer.
A palestra evangélica daquela noite fora:
"A indissolubilidade do casamento, traição e divórcio".
Ao saírem do Centro, Raquel somente falou sentida e em voz baixa para o marido:
- Foi óptimo você ter vindo hoje.
Essa palestra foi pra você!
Alexandre olhou para sua irmã e, sem entender nada, gesticulou com os ombros de forma singular e seguiu de braços dados com a esposa.
Eles levaram Rosana para casa e, chegando no apartamento, Raquel agia do mesmo modo, sem sorriso e sem palavras.
Após um banho e o jantar, Alexandre foi brincar com jogos em seu computador; decidira não perguntar nem dizer mais nada ou tentar saber o que se passava, pois ela, sem conversar com ele, foi assistir televisão mesmo não prestando atenção no que via.
Vencido pelo sono, o marido foi até a sala e avisou:
- Amanhã temos que levantar cedo.
Você não vai dormir agora?
- Não - respondeu ela. - Pode ir.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 21, 2017 11:22 am

- O que houve, Raquel?
Você não é assim - perguntou calmo.
- Nada. Não houve nada - murmurou ela sem expressão.
Contrariado com aquela atitude da esposa, ele pediu:
- Vê se não demora pra ir dormir.
Amanhã temos que sair cedo daqui.
Ela não disse mais nada e o marido foi se deitar.
Bem mais tarde, Alexandre acordou e Raquel não estava no quarto.
- O que foi dessa vez?! - perguntou quase irritado.
Levantando-se, foi até a sala à procura da esposa e encontrou o televisor desligado e Raquel encolhida dormindo no sofá.
Alexandre acendeu a luz e a chamou com jeito brando:
- Raquel, acorda.
Ela se mexeu e ele completou ao vê-la despertar:
- O que está acontecendo?
Vamos conversar, Raquel. O que foi?
A esposa se sentou e disse após alguns segundos:
- Quem é Débora?
Por ser uma pessoa lógica e racional, Alexandre rapidamente entendeu que tudo aquilo era por causa do telefonema.
Raquel estava com ciúme.
Paciente, perguntou com jeitinho:
- Você não vai me dizer que toda essa cena, que vejo desde a hora que cheguei, é por causa daquele telefonema, vai?
Ela o encarou firme e tornou a perguntar, agora veemente:
- Você ainda não respondeu.
Quem é Débora?
- Ela trabalha comigo.
Por quê? - explicou com muita calma.
- Ela ligou pra cá umas três vezes antes de você chegar e não quis dizer o que era.
- Raquel, você está com ciúme - disse segurando o sorriso e sentindo-se até satisfeito.
- Não estou com ciúme!
Só acho que você deveria me respeitar.
- O que eu fiz de errado, Raquel? - perguntou com humildade.
- Você almoçou com ela, não foi?!
- Sim. Por quê? - tornou novamente demonstrando submissão.
Raquel se irritou e levantou dizendo:
- Se antes você almoçava com uma e com outra, tudo bem.
Mas agora é um homem casado. Isso não fica bem!
- Raquel, não há nada de mais.
Pare com isso.
- Foi você quem começou! - retrucou aumentando o volume da voz.
- Ah! Como eu que comecei? - indagou ainda tranquilo, quase irónico.
- Você saiu com essa tal de Débora, deu o telefone da sua casa, ainda liga daqui e diz, na minha frente, que na segunda-feira conversa com ela!
Mais sério agora, percebendo que Raquel já passava dos limites e perdia o bom senso, ele pediu gentil:
- Raquel fale mais baixo.
Não estamos brigando.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 21, 2017 11:22 am

Em seguida continuou explicando com baixo volume na voz:
A Débora me ligou por causa de assuntos do serviço.
- Por que antes de desligar você agradeceu e disse "Outro"? "Outro" o quê?
Contrariado, mas mantendo a paciência, Alexandre explicou:
- Ela me desejou bom fim de semana e me disse:
"Um abraço!".
Eu devo ter dito: "Obrigado", "Outro".
Creio que foi isso.
Após esse esclarecimento, Alexandre mais sério, pediu:
- Vamos parar com essa história.
Agora é tarde. Vamos dormir, tá?
- Vou ficar aqui! - afirmou resistente.
Ponderado, mas impondo na voz certa insatisfação, ele pediu novamente:
- Raquel, vá dormir lá dentro, por favor.
- Já disse, vou ficar aqui!
Não vou dormir naquele quarto com você!
Ele se sentiu esquentar.
A esposa agora, realmente, esgotara-lhe toda a paciência.
Alterado, perdeu o controle e irritou-se dizendo:
- Ah! Você vai dormir lá, sim!
Agora nervoso, dominado por uma atitude inesperada, até para ele mesmo, Alexandre segurou firme no pulso de Raquel e a levou para o quarto.
Forçando-a se sentar na cama, fechou a porta e, voltando-se para ela, falou bem baixo, porém tom firme e demonstrando-se magoado:
- Como pode me acusar de traição assim?!
Pensa que eu sou o quê?!
Vamos parar com essa história porque eu não sou moleque.
Se tiver alguém aqui agindo como tal, é você!
Nesse instante a esposa deixou-se dominar por um sentimento que jamais tivera.
Furiosa e insana, Raquel se levantou e deu-lhe um tapa, que foi detido rapidamente antes de acertá-lo, pois Alexandre segurou seu pulso por algum tempo no alto, usando certa força ao apertá-lo sem perceber.
Incrédulo, olhou-a firme nos olhos e a empurrou com força sobre a cama.
Raquel ficou assustada, ela mesma não se reconhecia.
Com a respiração ofegante, olhos brilhando e queixo trémulo, ela o encarava sem entender a si própria; estava atordoada.
Alexandre, sério e decepcionado, impostou a voz com veemência e falou vagarosamente, em baixo volume, olhando-a firme nos olhos:
- Nunca mais faça isso. Entendeu?
Nunca mais.
Eu posso tolerar tudo de você, Raquel, menos uma agressão, uma mentira e uma traição.
Casei-me disposto a tudo, mas a tudo que fosse bom para mim e para você, também.
Além do mais, Raquel, sua atitude diante desse simples telefonema foi a de uma criança, e eu pensava ter me casado com uma mulher.
O único pedido que te fiz, como marido, foi que dormíssemos na mesma cama, nada mais.
Ele fez breve pausa e depois, ainda olhando-a com firmeza, continuou:
- Não traí você, nem em pensamento.
Não quero e não vou traí-la, apesar de ter uma grande razão para isso, você sabe.
Nesse momento, Raquel murmurou:
- Podemos pedir anulação do casamento se...
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 21, 2017 11:23 am

Interrompendo-a, o marido quase gritou, dizendo:
- Pró inferno a anulação!
Você não sabe o que está dizendo!
Ela começou a chorar e, com a voz abafada, justificou:
- Eu não sei por que agi assim. Perdoe-me, por favor.
Firme e ponderado, ele prosseguiu:
- Como eu ia dizendo.
O único pedido que te fiz foi para que dormisse aqui, mas antes disso eu falei que jamais iria forçá-la a nada que não quisesse.
Por isso, Raquel, se eu sou tão repugnante assim para você, pode ir dormir na sala ou onde você quiser, pois por nada desse mundo vou deixar de dormir na nossa cama.
Ela entrou em crise de choro.
Encolhendo-se, Raquel escondia o rosto, abafando os soluços involuntários e compulsivos.
Alexandre, incrédulo e magoado com o acontecido, sentou-se na cama, apoiou a fronte nas mãos e os cotovelos nos joelhos aguardando que ela decidisse algo.
Passados longos minutos, Raquel o segurou pela blusa do pijama e o fez olhar para ela.
Encarando-o com humildade, ainda com os olhos húmidos, a face rubra e a voz rouca, entrecortada por soluços, ela pediu:
- Pelo amor de Deus, me desculpe, Alexandre.
Eu não sei por que fiz aquilo.
Você é a última pessoa no mundo a quem eu queria magoar.
Alexandre ficou olhando para ela e permaneceu em silêncio.
Tudo o que precisava, já havia dito.
Puxando o esposo em sua direcção, tentando mover seu braço forte sobre si, Raquel parecia implorar por um abraço.
A princípio ele permaneceu sério, firme, inamovível, mas não resistindo ao desejo que o dominava, Alexandre se curvou, ajeitou-se ao seu lado, tomou-a em seus braços envolvendo-a, acariciou-a com extremo carinho e a beijou apaixonado, por longo tempo, como sempre quis.
Percebendo seu medo, pois em dado momento Raquel o segurou espalmando a mão em seu peito, ele se deteve, olhou-a por alguns segundos e abraçando-a ainda ficou imóvel.
Depois, escondeu o rosto em seu ombro, apertando-a contra si.
Alexandre experimentava uma amargura que nunca sentira.
Afastando-se pediu brandamente:
- Vamos dormir.
Precisamos acordar cedo.
- Você me perdoa? - perguntou a esposa com voz chorosa.
Alexandre se aproximou, segurou seu rosto, beijou-lhe e disse:
- Eu te amo, Raquel.
Não posso viver sem você.
Quero que, antes de qualquer coisa, sejamos amigos.
Após pequena pausa, continuou:
- Confie em mim.
Quando tiver dúvidas, venha me questionar, eu sempre estarei disposto a ouvi-la, mas sem agressões com palavras ou gestos.
- Eu não sei o que me deu.
Como eu pude...
Encarando-o, pediu novamente parecendo implorar:
- Desculpe-me?
- Claro! - respondeu com voz terna e um sorriso piedoso.
Raquel ficou olhando-o e acariciou-lhe o rosto sem dizer mais nada.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 21, 2017 11:23 am

Capitulo 19 - Três corações entrelaçados

O dia seguinte anunciou-se com lindos raios solares, cuja claridade parecia diferente, envolvendo a todos de maneira muito especial.
Após duas horas de viagem, Raquel e Alexandre chegaram ao educandário onde Bruna Maria estava.
Eles conheceram o lugar, que fora apresentado por uma freira bem gentil e, em seguida, foram conduzidos até um pátio bem arborizado nas laterais e revestido no centro por lindíssimo gramado salpicado de florzinhas miúdas.
A freira e uma assistente social faziam companhia ao casal que, de longe, passaram a ver outra irmã trazendo pela mão uma pequena garotinha.
- É ela?! - perguntou Raquel ansiosa.
- É sim - confirmou a freira sorridente.
A esposa, sem perceber, apertava o braço do marido e ele, sorridente, afagava-lhe a mão.
Em dado momento, Raquel, soltando-se do braço forte de Alexandre, apressou-se em direcção da filha para encurtar a distância que parecia longa.
A pequena garotinha de lindos cabelos dourados, compridos e com belos cachinhos, que balançavam ao andar, trazia uma doce alegria no rostinho tranquilo.
A freira que a conduzia soltou-lhe a mão e Bruna correu na direcção da mãe.
Raquel, com lágrimas a correr pela face, ajoelhou-se à espera de um abraço.
Próxima, a menina parou sorrindo, afagou-lhe o rosto com sua pequena mãozinha e disse com voz doce e delicada:
- Você é minha mãe?
Eu sabia que ia vir me buscar, mamãe.
A tia me disse.
Raquel a abraçou forte, apertando a filha contra si, enquanto chorava muito.
A menina começou a chorar também e a mãe teve que procurar se conter para não assustá-la.
- Tudo bem, filhinha.
Não chore, não.
Chorei porque estou feliz - dizia com sua doçura peculiar.
Raquel a olhava sem se cansar, passando-lhe a mão no rosto e nos bracinhos como quem não acreditasse naquele momento.
- Você está bem, filhinha?
- To! Eu sabia que você vinha.
- E! Quem disse? - perguntou Raquel.
- A tia.
Em seguida a menina questionou:
- Por que você não veio antes?
- Porque a mamãe não pôde. Tive problemas.
Um dia conversaremos sobre isso, tá bom, filhinha? - respondeu a mãe que já esperava por essa cobrança.
Agora, meu bem, vamos aproveitar esse momento, tá certo?
Bruna, com seu sorriso ingénuo e delicado, perguntou olhando na direcção de Alexandre, sem que Raquel esperasse:
- Mamãe, e o papai, não vai me abraçar?
Ao ouvir isso, Alexandre apressou-se na direcção de ambas, ajoelhando, como Raquel, ao lado da pequenina.
Ele também não conseguia conter as lágrimas.
Estendendo-lhe os braços, a menina falou meigamente:
- Você é igualzinho no sonho.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 21, 2017 11:23 am

A emoção não os deixou prestar atenção no que Bruna falara.
Em pranto, Alexandre abraçou a filhinha, enchendo-a de beijos e carinho.
Liberto das amarras da própria consciência, ele, emocionado, recebia agora a filha verdadeira que, num passado distante, não reconhecera.
O sentimento intraduzível do encontro oportuno agora era registado com ideais sublimes.
Eles jamais esqueceriam tanto júbilo.
Poucas palavras foram trocadas, porém não se pode dizer o mesmo quanto às emoções.
Seus corações se entrelaçaram na mesma harmonia, felicidade e esperança.
O horário se escoara rápido.
Bruna Maria chorou ao ter que deixá-los, mas recebeu promessas de visitas.
Raquel ficou aborrecida pela separação.
Abraçada ao marido, ela não se importava com os demais e chorava.
Irmã Eunice, que conhecia toda a vida de Bruna Maria, em dado momento comentou, na frente do casal, com a assistente social que acompanhava o caso:
- Como Deus coloca Suas mãos na hora certa.
Sempre rezamos para que Bruna Maria encontrasse uma família e, quando ela foi levada pelo casal Ribeiro, não queria ir.
Dizia que gostava deles, mas sempre nos falava que seus pais viriam buscá-la em breve.
Alexandre ficou atento à conversa, interessando-se, e a assistente social completou:
- É verdade! Quando perguntamos quem disse que os pais viriam buscá-la, ela respondia que tinha sido um anjinho.
A freira riu e comentou:
- A Bruna, por muitas vezes, nos descreveu o senhor.
Ela dizia que se parecia com a mãe, mas tinha os olhos da cor dos seus.
- De onde ela tirava essas ideias? - perguntou Alexandre.
- Ela dizia que sonhava.
A cada manhã, quando sonhava com o senhor, Bruna acordava contente e animada, pois comentava que havia conversado com o pai e ele dissera que viria até aqui, para que esperasse só mais um pouco e fosse uma menina boazinha.
Sabe, sempre acreditamos que era coisa da cabecinha dela.
Conhecemos as crianças muito bem.
Mas confesso que estou impressionada, ela o descreveu direitinho.
A assistente social ainda completou:
- Há pouco tempo, depois que foi retirada do casal Ribeiro, pois tivemos de interferir, Bruna estava triste, muito quietinha, então eu fui conversar com ela.
Pensei que estava assim por causa da adopção.
Daí, perguntei o que era, foi quando ela me respondeu que estava triste porque não estava mais sonhando com o pai.
Disse que ele estava doente.
Alexandre ficou surpreso, mas sorriu e revelou:
- Mas eu fiquei doente mesmo.
- Ficou?! - indagou a freira, surpresa.
- Ficou, sim - respondeu a assistente na vez de Alexandre.
- O que o senhor teve? - tornou a irmã.
- Tive um problema cardíaco e precisei ficar internado.
- Eu soube disso quando peguei o caso, dias após conversar com a Bruna - disse a assistente.
Fiquei impressionada!
Agora mais ainda por vê-la recebê-los tão bem e se identificando tão rapidamente com vocês.
Isso é difícil.
É como se os conhecesse há tempos.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 21, 2017 11:23 am

Raquel ficou calada, não sabia o que dizer.
Depois de conversarem mais, agendando novas visitas, o casal se retirou contrariado por ter que respeitar as normas e deixar Bruna ali.
Na viagem de volta, Raquel não dizia nada.
Às vezes sorria de leve e com o olhar perdido, parecendo estar recordando os poucos momentos que tivera com a filha.
O marido só a observava, permanecendo em silêncio também.
Pouco eles conversaram.
Chegando ao apartamento, Alexandre sentou-se no sofá ao lado de Raquel e disse:
- Não falei que a Bruna se parecia com você?!
Após rir, comentou orgulhoso:
- Mas tem os meus olhos! Viu?!
Repleta de fortes emoções, Raquel não conseguiu se conter e o abraçou forte, não tendo palavras que expressassem seus sentimentos.
Mais tarde, quando estavam deitados, a esposa o fitou e disse:
- Obrigada por tudo, Alex.
Eu amo você.
Alexandre sorriu e estendeu-lhe o braço, puxando-a para junto de si.
Raquel o beijou, acomodou-se em seu ombro, abraçando-o pela cintura, e após minutos adormeceu.
Alexandre não conseguiu pegar no sono.
Ele estava emocionado e se sentia feliz só por ter aquele simples gesto de carinho da esposa.
Por ter reconhecido a filha.
No dia seguinte, na casa de seus pais, Alexandre contava para todos:
- Bruna é a cópia da Raquel, mas tem os meus olhos!
- Vocês tiraram fotos, não foi? - perguntou dona Virgínia.
- Sabe, mãe, levamos a máquina, só que... Puxa!
Foi tanta emoção que esquecemos - explicou o filho embaraçado e arrependido.
Exagerada em suas expressões para brincar com o irmão, Rosana exclamou:
- Egoísta! Cachorro! Traidor!!!
Como você faz isso com a gente?!
- Estou ansioso! Quero conhecê-la! - disse o senhor Claudionor.
A conversa seguiu e Raquel teve que satisfazer algumas curiosidades da sogra, ambas ficaram conversando e tecendo planos, enquanto Rosana, alegando não se sentir bem, foi para seu quarto, e Alexandre a seguiu.
Ao entrar no quarto da irmã, ele perguntou:
- O que foi, Rô?
Dor de cabeça outra vez?
- É... Estou tão enjoada ultimamente.
Sabe, não venho me sentindo muito bem.
- Precisa ir ao médico, Rô.
Isso não é normal.
O irmão riu e perguntou, com jeito maroto:
Huuum! Enjoo, é?!...
Não seria, por acaso, o meu sobrinho o causador desse mal-estar?
Rosana riu gostosamente e respondeu:
- Que pena! Não é, não!
Já pensou se fosse?
- Nem brinca, Rô. A mãe morre!
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 21, 2017 11:24 am

- Morre nada.
O chilique seria só no momento da notícia. Depois...
- É melhor você procurar um médico.
- Isso passa, Alex.
É por causa da temporada de provas. Foi muita pressão.
Tem dia que dá vontade de matar um professor que tenho lá, sabe!
Mas nem vale a pena relembrar.
Após a explicação ela mudou de assunto perguntando:
- E você, como está?
- Ah! Nem te contei!
A Raquel teve uma crise de ciúme.
Ele revelou à irmã, sua confidente.
- Jura?! - perguntou a moça interessada.
- Ela atendeu uma ligação que era pra mim, era do serviço, só que a mulher não falou direito quem era e a Raquel ficou "louca da vida" comigo.
- Ah! Que legal! - vibrou Rosana animada.
Alexandre fechou o sorriso e revelou:
- Na hora não foi tão legal assim.
A Raquel foi dormir na sala.
Eu fui falar com ela e...
Sabe, no começo eu até estava achando graça, mas depois ela começou a perder o bom senso.
Acabei brigando e até tive que falar alto.
Ele deteve as palavras e a irmã perguntou:
- O que foi, Alex?
Você não a maltratou, né?
- Puxa, Rô. Fiquei tão nervoso!
Ela me acusava ostensivamente.
Tive que dizer algumas coisas e acabei chamando-a de criança.
Pensativo, ele completou:
- Eu não esperava aquela reacção da Raquel.
Confesso que me surpreendi e até agora estou incrédulo.
- O que ela fez?
Alexandre encarou Rosana e revelou:
- Você acredita que a Raquel tentou me dar um tapa no rosto?
- Um tapa?! A Raquel?! - exclamou perplexa e boquiaberta.
- A Raquel, sim. Sabe, Rô, parecia que não era ela.
- Meu Deus! Eu nem acredito nisso - espantava-se a irmã incrédula, parecendo assombrada.
A Raquel só poderia estar envolvida.
- Sei lá - continuou Alexandre.
Isso não pode ser desculpa.
Creio que todo mundo precisa ter bom senso e ser responsável pelo que está fazendo.
Ela se transformou.
- Acertou você?
- Não. Quando ela ergueu a mão fui rápido e segurei seu braço...
Depois fiquei até com medo, porque me deu uma coisa na hora...
Hoje eu fui olhar e vi que apertei tanto seu pulso que ficou até marcado.
No momento em que segurei seu braço eu a encarei firme e me senti irracional.
Depois a joguei, com um empurrão, sobre a cama e falei um monte de coisa.
Puxa, Rô, me senti tão mal... - confessou o irmão em tom de lamento.
- E ela?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:30 am

- Primeiro falou em anular o casamento.
Daí eu dei um grito...
Nem sei o que falei direito.
Por fim, acabamos nos entendendo.
Preocupada, Rosana lembrou:
- Agora fica mais fácil, Alex.
Vão a um psicólogo.
Vocês precisam de ajuda profissional.
- Eu sei. Mas sabe por que estou adiando?
Sem esperar pela resposta ele completou:
- Para não restar nenhuma complicação que possa prejudicar a guarda da Bruna.
Podem querer dizer que ela não tem equilíbrio emocional por estar fazendo terapia.
Sei lá... Tenho medo de que qualquer coisa a prejudique.
- Só não gostei de ela erguer a mão para agredi-lo.
Raquel não é disso, - argumentou Rosana pensativa.
- Também eu fui muito duro com ela.
- Mesmo assim, Alex.
Qualquer tipo de agressão inclina para a falta de respeito.
- Eu sei. Pensei nisso também.
Eu disse a ela que não vou tolerar isso novamente, que posso aceitar tudo, menos agressão, mentira e traição.
- E ela?
- Chorou pra caramba!
Alexandre, agora descontraído, expressou um sorriso de satisfação e contou:
- Sabe que, depois, ela estava encolhida sobre a cama, eu sentado e bem quieto, estava magoado, decepcionado.
Aí, sem que eu esperasse, a Raquel me pediu desculpas e me puxou para beijá-la.
- Sério?!
- Sério! - confirmou o irmão com ar de felicidade.
- E você?!!!
- Ah! Eu a abracei e a beijei como nunca tinha feito antes.
Só parei quando a percebi nervosa, tensa.
Tive que respeitar seus limites.
Mas foi tão...
E nessa noite, devido a toda a emoção que viveu por ver nossa filha, já estávamos deitados e ela veio me agradecer.
Eu estendi-lhe o braço e, sem que eu esperasse, ela me beijou, acomodou-se em meu ombro e dormimos abraçados.
Rosana abraçou o irmão com carinho procurando lhe passar incentivo, ao dizer:
- Vai dar tudo certo, Alex! É questão de tempo.
Aconteça o que acontecer, nunca traia sua mulher.
Jamais faça isso.
- Não, Rô, nunca pensei em traição.
Mesmo tendo fortes motivos pra isso, não é nada fácil suportar, mas não vou traí-la.
Eu nunca acreditei que fosse me casar, mas sempre pensei que, se um dia o fizesse, jamais trairia minha esposa.
- Isso mesmo.
Não há coisa pior do que ter a consciência pesando quando se dorme ao lado de alguém.
O marido ou a esposa que faz isso se exibe como criatura pobre de espírito e de baixa moral.
Para mim, traição é uma coisa repugnante.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:30 am

Alexandre sorriu e falou:
- Fique tranquila, além de amar a Raquel, eu me amo, também.
As pessoas que traem é porque não encontram ou não têm, por si mesmas, respeito, amor e dignidade.
A irmã o abraçou com carinho.
Realmente Alexandre e Rosana eram grandes confidentes.
Era bela a amizade que reinava entre eles.
Rosana, com seu coração bondoso, procurava orientá-lo sempre para o bem e apoiá-lo em todas as ocasiões.
Com o tempo o quarto de Bruna estava sendo preparado no apartamento de seus pais e a menina já fizera algumas visitas com a permissão do juiz.
Raquel estava maravilhada e experimentara uma alegria que jamais pensara em ter.
Ao dividir com Alexandre as alegrias e as esperanças que tivera com Bruna Maria, Raquel se aproximava do marido sem perceber.
Deixando-se ficar em seus braços, recebia seus carinhos sem aquela tensão que antes apresentava.
Eles escreveram para a mãe de Raquel, e ela avisou que estava bem e havia se casado com um homem muito bom.
Contou à mãe que havia superado muitas dificuldades, mas agora sua vida era maravilhosa.
Raquel falou sobre Bruna Maria e que graças à ajuda de Alexandre passara a olhar a menina como sua filha, como parte dela mesma, sendo a filhinha alguém que necessitava do seu amor, do seu afecto e da sua atenção.
Ela reconheceu que a pequena querida era uma dádiva sagrada que Deus lhe confiara aos cuidados.
Arrependida pelo acto do abandono no passado, aceitara a ajuda de Alexandre e de seu pai, senhor Claudionor, que cuidavam de tudo para que recuperasse a filha.
Alexandre intitulava-se pai de Bruna Maria e que ninguém dissesse o contrário, pois ele assumira sua paternidade.
Raquel ainda disse à mãe que Deus olhara por ela e que todas aquelas experiências de dor e sofrimento que vivenciara no passado estavam sendo substituídas por alegria e amor verdadeiro.
Ela lamentava a ausência da mãe, reclamando da distância e da saudade.
Dona Tereza, ao ler a longa carta, interrompia seu feito pelas fortes emoções e para olhar, inúmeras vezes, a foto de Raquel, Bruna e Alexandre.
A mulher agradecia a Deus por sua filha estar tão bem, ao mesmo tempo que deixava o orgulho dominá-la, pois, tinha em sua mente o êxito da filha como uma forma de vingança àqueles a quem não queria bem.
Dona Tereza possuía um coração repleto de mágoa e ódio, transformando-se agora em uma criatura cruel, tal qual aqueles que, de alguma forma, lhe ofenderam no passado.
Mais uma vez a mulher procurou pelo sogro que, na cadeira de rodas, fora deixado na larga varanda da Casa-Grande, praticamente abandonado à visão da linha do horizonte e aos próprios pensamentos, que começavam a lhe cobrar algumas atitudes que praticara no passado.
- Boleslau! - chamou a nora com voz irónica.
Veja, meu sogro, olhe a foto da minha Raquel!
Esse ao lado é o marido. Um homem de verdade!
Após pequena pausa, em que segurava ainda a fotografia na frente do homem, ela continuou:
- E sabe quem é essa guria aqui?
Bonitinha, loirinha e de olhos azuis?
É a Bruna Maria.
Essa menininha linda é tua bisneta e também tua neta!
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:31 am

Ela nasceu aos nove meses após tu expulsar a Raquel desta casa maldita, depois que teu filho imundo a brutalizou!
Ela silenciou, depois prosseguiu:
- Eu me lembro muito bem do tal namoradinho, com quem vocês disseram que a Raquel tinha fugido e se deixado bolinar.
Ele era um negro! Bah!!!
Ele era um piá, era só coleguinha de escola da Raquel, ajudava-a com compras quando ela ia buscar algo para mim, carregava as coisas e isso até gerou um ciúme nos irmãos.
Mas, sabe, meu sogro - continuava Tereza com voz irónica - não sou entendida, não, mas se essa guriazinha fosse filha daquele negrinho, ela não seria assim, não.
Tu não achas?! Chê!!!
Andando vagarosamente em torno da cadeira de rodas, propositadamente, Tereza batia o salto nas tábuas do assoalho de madeira provocando um som irritante que marcava o compasso de seu caminhar, às vezes sobre tábuas que rangiam estridentes como um gemido.
Tereza, agora, falou sem expressões graves na voz:
- Sabe, Boleslau, o teu filho, Ladislau, é um verme.
Raquel é filha dele, tu sabias?
O homem arregalou os olhos claros e tentou murmurar algo, mas Tereza não se importou.
Continuando:
- Após ter traído o meu marido Casimiro, eu quis morrer!
Quando eu soube que tinha engravidado do irmão dele, não tirei a criança porque, em confissão, o vigário da paróquia me disse que esse era um pecado maior do que o da traição.
Da forma como ele falou, eu tive medo e deixei a Raquel nascer.
Só que, pela segunda vez, enganei o Casimiro, dizendo que aquela criança era dele, que nasceu de sete meses.
Meu esposo, em vida, nunca soube.
Em sua cadeira de rodas, o sogro ficou perplexo, assombrado com o que ouvia, mas não conseguia se manifestar.
Boleslau estava preso, à mercê do que a nora lhe propunha com ofensa e maus-tratos.
Tereza parou.
Com o olhar perdido no horizonte, trazia a visão embaçada pelas lágrimas que se formavam, pois narrava ao sogro revelando, pela primeira vez, toda a sua verdade.
- Certa vez - continuou Tereza - Raquel era guria ainda e me reclamou dos carinhos estranhos do tio, que era seu pai.
Fui falar com ele e deixei, naquela conversa, uma suposta indicação de que Raquel poderia ser sua filha.
Ele nunca me perguntou a verdade, era um covarde!!!
Mas eu sei que Ladislau entendeu.
Porém, Boleslau, o crápula e asqueroso do teu filho não teve moral, não foi homem, pois só um animal faria o que ele fez!
Barbaridade!!!
Quando Raquel, naquele dia, chegou aqui, bem aqui ó! - disse ela apontando para os degraus que desciam da varanda ao terreiro - toda machucada e chorando, dizendo o que aquele verme tinha feito com ela, tu não acreditaste!
Miserável! Velho desgraçado!
Tu bateste "de couro" na minha filha e a tocou daqui como um cão, chê!!!
Fiquei tão desesperada e em choque que não sabia o que fazer.
Nem tive a iniciativa de ir junto com ela, o que deveria ter feito.
Tereza não percebeu, mas o sogro trazia lágrimas correndo em seu rosto enrugado e torcido.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:31 am

Como um desabafo, ela continuou:
- Tempos depois, tu nem sabes, Raquel me procurou e contou que estava morando nas ruas e que achava que estava grávida.
Pensei que eu fosse morrer.
Passei mal e me afastei de Raquel.
Bah! Miserável que fui! - recriminou-se.
Mais uma vez eu não tive coragem de ajudar minha filha.
Eu a entreguei à crueldade do mundo.
Sabe-se lá o que aconteceu depois.
O silêncio se fez por longos minutos, mas logo Tereza continuou:
- Sabe por que tudo isso aconteceu, velho miserável?
Foi porque tu criaste o teu filho ensinando-o a valorizar a masculinidade, ensinou-o que para ser homem deveria bolinar e dominar uma mulher.
Foi tu, velho desgraçado, que ensinaste aquele verme a ser sujo, imundo, nojento! - gritou Tereza impiedosa.
A nora silenciou um pouco e, observando as lágrimas que corriam no rosto de seu sogro, falou impiedosa:
- Chora, desgraçado!
Arrependa-te de tudo o que fez pra mim e pra minha filha.
Foi esse o resultado de tudo o que tu ensinaste pro teu filho!
Além de conquistar a mulher do irmão, ainda violentou a própria filha.
Tereza estava furiosa e cuspiu no chão com semblante enojado.
Com mágoa no olhar, ela ainda lembrou:
- Um dia, o Tadeu, meu filho, estava com o piá dele no colo, o guri menor, e perguntando onde ficava "isso" e "aquilo", depois disse ao guri que tinha que ser macho! Chê!!!
E tinha que mostrar que era homem!
Num minuto de loucura, eu levantei e dei um tapa na boca do Tadeu na frente de todo mundo!
Por ser criado pra me respeitar, Tadeu não falou nada.
E eu disse que o homem que "fez o que fez" com a irmã dele tinha sido criado daquele jeito para mostrar que era macho!
Aquilo que estava fazendo não iria firmar o carácter do guri.
Ele estava era pondo em dúvida se o piá era homem ou não. Barbaridade!
Sabe, Boleslau, eu não posso só culpar aquele verme por tudo o que ele fez para minha filha, eu culpo também a ti, que o educou.
Deus foi tão justo que deu à minha Raquel uma filha perfeita e, como castigo, o imundo do Ladislau perdeu as três gurias dele naquele acidente em que perdeu uma perna e metade da outra, mas viveu para saber que matou as gurias.
Agora, como uma louca, a mulher dele o inferniza o tempo todo dizendo que é ele o assassino das filhas.
Tereza riu e anunciou:
- A minha neta tem um pai de verdade, agora.
Minha filha tem um marido digno! Homem mesmo!
Tanto que assumiu a filha do outro.
A família dele a trata bem!
Eu sei disso porque o Marcos me contou.
Ele disse que a família do marido a trata tão bem que nunca viu igual.
Encarando o sogro, ela ainda disse com olhar vingativo:
- Deus é tão bom que te prendeu nessa cadeira só para me ouvir pelo resto da tua vida, porque tudo o que tu me fizeste padecer, tu não vai lembrar só quando morrer e for pro inferno, não.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:31 am

Vai começar a lembrar desde já e começar a pagar agora enquanto vive aí.
E lembre-se, velho, que aquela guria que tu espancaste tantas vezes e deixaste sem tecto, a Raquel, é a única filha de Ladislau e tem o direito de metade desta fazenda, e ainda a outra parte que eu tenho o direito de herdar para os meus filhos.
Ela herdará mais da metade, mais do que os irmãos, chê!
Tereza, quando mais nova, chegou a apanhar de seu sogro por não cumprir suas exigências com algumas tarefas ou até costumes da família.
Era comum o forte e autoritário Boleslau agredir os filhos, a mulher, as noras e os empregados com brutalidade.
Seria difícil Tereza perdoá-lo, pois se sentia muito magoada.
Apesar de tudo, nada justificava aquela tortura emocional que ela, erroneamente, praticava contra o ancião, agora indefeso.
Um erro não justifica o outro e Deus não nos faz porta-vozes da Sua Justiça.
Tudo acontecia muito rápido; Alice e Valmor já enfrentavam sérios problemas.
Ele havia sido demitido e Alice, não satisfeita em ter que praticamente sustentar a casa sozinha, reclamava constantemente da situação.
A idade do companheiro estava sendo um empecilho para ele arrumar novo emprego, e eles ainda tinham que se dispor para as audiências do processo de divórcio que Marcos e a esposa de Valmor reivindicaram.
Nilson ainda estava preso.
Somente o pai ia visitá-lo, Alice nunca se dera a esse trabalho.
Marcos sentia que o filho estava arrependido do feito, uma vez que na prisão enfrentava todo tipo de humilhação e maus-tratos.
Agora Nilson reconhecia a importância de se ter uma boa conduta e moral.
O pai aproveitava os períodos de visita para lhe falar sobre a honestidade e o valor de uma vida digna.
Nilson prometera-lhe que agiria melhor quando saísse dali.
Marcos, por sua vez, dava-lhe todo o apoio a seu alcance.
Chegara o mês de dezembro e todos, muito alegres, se preparavam não só para as festas de fim de ano, mas também para o primeiro aniversário que Bruna passaria com a família.
Pelo facto de a menina fazer aniversário na véspera do Natal, foi decidido que sua festa seria feita um dia antes, na casa dos pais de Alexandre, onde tudo estava sendo preparado com primor, pois se comemorassem no dia correto provavelmente poucos amiguinhos compareceriam devido à reunião de família nesse dia comemorativo.
Dona Virgínia, sempre propensa a emotividade para agradar os netos, não agia diferente com Bruna, e se encarregara de convidar as crianças vizinhas, filhos e netos dos amigos.
No dia tão esperado, tudo estava muito animado.
Alexandre tinha que ir, vez ou outra, até o portão receber os convidados que chegavam.
Para sua surpresa, em uma das vezes em que isso se dera, Sandra, sua ex-noiva, surgiu repentinamente logo atrás de um convidado e, após entrar, disse:
- Há muito eu quero falar com você. É importante.
Raquel precisava de Alexandre para algum detalhe e, percebendo sua demora ao ir receber algum convidado, decidiu ir atrás dele.
De longe viu o marido com uma moça, mas só ao se aproximar reconheceu que era Sandra, a ex-noiva, e só ela falava, ficando ao lado de Alexandre, Raquel ouviu:
- Essa é sua mulher?
- O que está acontecendo aqui? - perguntou Raquel séria, mas com modos simples e educados.
Alexandre mantinha-se sisudo e em total silêncio.
Mas, voltando-se para Raquel, Sandra se apresentou estendendo-lhe a mão e dizendo:
- Olá, Raquel. Meu nome é Sandra.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:32 am

Desculpe-me, mas há algum tempo eu venho tentando falar com o Alex.
Para mim, isso é muito importante, tenho muito para esclarecer.
Pronunciando-se pela primeira vez, Alexandre determinou com voz grave:
- Quero que vá embora daqui.
Não temos nada para conversar.
Após alguns segundos, ele disse em voz baixa e pausada.
- Só não a coloco para fora porque não quero estragar o aniversário da minha filha.
Por isso, exijo, gentilmente, que vá embora!
- Não posso tirar a sua razão.
Depois de tudo o que fiz, você tem todo o direito de me desprezar.
- Fora daqui...! - sussurrou Alexandre intimando.
Raquel, ponderada, interferiu firme falando baixinho para não atrair a atenção dos outros:
- Alexandre, calma!
Virando-se para a ex-noiva do marido, Raquel pediu com delicadeza:
- Sandra, por favor, não sou contra que conversem, mas será melhor que esse esclarecimento ou ajuste de contas aconteça em outro momento, não agora.
Veja, temos muitos convidados, não ficaria bem.
Eu acredito que você é educada, tem bom senso e pode me entender.
Prometo que terá essa oportunidade, mas num outro dia, por favor.
Sandra, sem mais nenhuma palavra, sorriu com simpatia para Raquel, ao dizer:
- Eu a entendo, sim. Obrigada, Raquel.
Desculpe-me, não havia pensado nisso devido a minha ansiedade em conversar com ele.
Sandra se foi após se despedir.
Alexandre fechou o portão, que ficava nos altos muros daquela residência, encostou-se nele, virou-se para a esposa e perguntou:
- O que será que fiz para essa criatura?!
Já não basta!
- Você está bem?
- Estou óptimo. Isso não vai estragar este dia.
Alexandre a abraçou e eles voltaram para a festa, que estava muito divertida com os enfeites, brinquedos e os animadores contratados.
À noite, Bruna Maria estava exausta e os pais mais ainda.
Raquel escondia seus pensamentos do marido, mas estava ansiosa para saber o motivo que levava Sandra a procurá-lo com tanta insistência.
Pensou em entrar em contacto com a moça, mas o que diria?
Raquel resolveu não procurar detalhes desnecessários naquela hora, afinal, ela e Alexandre estavam bem e não precisavam de problemas.
Ficaria tranquila e, quando tivesse oportunidade, tentaria conversar com Rosana a respeito daquilo.
Logicamente a cunhada saberia orientá-la.
Após cuidar da filha, e vê-la dormir tranquilamente, ela procurou pelo marido, que saíra do banho há tempos e se largara sobre a cama de qualquer jeito.
O quarto na penumbra e o cansaço definitivamente facilitaram seu sono rápido e pesado.
Com sua voz suave Raquel o chamou:
- Alexandre, deita direito, meu amor.
Ele resmungou, sem se mexer, e continuou como estava.
- Deita direito, bem. Você está torto.
Entorpecido pelo sono, mediante o pedido da esposa, ele tentou se ajeitar, mas parou.
Raquel não poderia se deitar, o marido estava atravessado na cama.
Ela se lembrou que não dormiria em outro lugar, uma vez que já tinham discutido por isso, e Alexandre podia acordar de madrugada sem entender o que havia acontecido.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:32 am

Mesmo sem ter muita força, Raquel tentou arrastá-lo.
- Alexandre, deita direito, meu amor - pediu com carinho, tentando virá-lo.
Sem muito êxito, ela sorriu, o afagou com ternura e o beijou.
Cobrindo-o com uma manta leve, fechou a porta do quarto, apagou o abajur e deitou-se na beirada bem estreita que lhe restou na cama ao lado dele, e, vez ou outra, tentava empurrá-lo com o próprio corpo para acomodar-se melhor.
Com um dos suaves empurrões da esposa, dormindo mesmo, o marido se virou, a abraçou firme e começou a beijá-la, acariciando-a e puxando-a para si.
Raquel aflita não tinha forças para empurrá-lo; tentava chamar seu nome, mas era sufocada por seus beijos e carinhos fortes com que tentava tirar-lhe a camisola.
Depois de longos minutos:
- Não!!! - gritou horrorizada na primeira oportunidade.
Alexandre despertou num susto!
Quando se deu conta do que estava fazendo, não acreditou.
Não sabia se explicar.
Acendendo o abajur, olhou-a melhor e viu seu estado.
Sem dizer nada, delicado e gentil, tentou ajeitar-lhe a roupa, mas ela não deixou esquivando-se ao sentar e abraçar os joelhos depois de puxar a manta para se esconder, enquanto chorava.
O marido percebeu que ela estava apavorada e tremia amedrontada, chegando ao limite máximo de sua aflição.
Ouvindo seu choro abalado, devido ao rosto escondido sobre os braços que seguravam os joelhos, magoado consigo mesmo, ele acariciou-lhe os cabelos e tentou explicar constrangido e generoso:
- Perdoe-me, Raquel.
Por favor. Eu estava sonhando.
Perdoe-me pediu sensível parecendo implorar.
Levantando-se, foi até ao toalete, lavou o rosto para despertar e retornou.
Vendo-a menos nervosa e recomposta, sentou ao seu lado, acariciou-lhe o rosto, momento em que Raquel o encarou e pediu:
- Desculpe-me. Imagino o quanto é difícil para você...
- Não, Raquel, sou eu quem deve desculpas.
Eu estava cansado e sonhava enquanto dormia um sono profundo.
Eu não te forçaria, por nada desse mundo!
Perdoe-me. Eu dormia pesado, talvez...
Raquel recostou-se em seu ombro.
Surpreso e carinhoso ele a abraçou com ternura e ainda podia sentir o seu tremor.
Generoso a fez se deitar direito, cobriu-a e beijou-lhe a face, deitando novamente ao seu lado, mas remoendo os pensamentos, contrariado consigo mesmo.
Na manhã seguinte, eles se assustaram com a chegada de Bruna, que acordou, alegre e sorridente, pulando entre eles por cima das cobertas.
Alexandre e Raquel acordaram como nunca, felizes!
Nem se lembraram do que aconteceu antes de dormir.
- Vamos, papai! Vamos!
Você me prometeu que hoje iríamos nadar na piscina da casa do vovô.
Ontem não podia porque eu estava arrumadinha.
- Hoje não vou negar nada a você.
É seu aniversário.
Mas ainda é tão cedo! - dizia ele com voz carinhosa.
Ainda está frio...
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:32 am

- Ah! Vamos, papai!
Vamos pular pra esquentar!
- Não, para esquentar vamos fazer um sanduíche!
Quando Raquel pensou:
"Que sanduíche?".
Ela só viu Alexandre enrolando Bruna nas cobertas e mordendo-lhe de brincadeira, fazendo um barulho como se estivesse rosnando.
A menina se divertia e, de tanto rir, não se conteve e os três ficaram molhados.
- Bruna! Olha só! - reclamou Raquel ao ver seu colchão.
Eles se levantaram e, após arrumar o que precisava, Raquel lembrou-se que deveria ir, o quanto antes, ajudar a sogra com a preparação da ceia de Natal.
Conforme combinado, todos estariam reunidos na casa dos pais de Alexandre.
- Vamos, gente!
Precisamos ir ajudar o pessoal - pediu Raquel.
- Que bom! Mais festa! - alegrava-se a pequena Bruna, que não largava de Alexandre.
O sol radioso convidava a todos para um banho de piscina, mas as mulheres se reuniam ocupadas com alguns preparativos e não podiam se dar a esse prazer.
Marcos e Elói foram convidados e estavam lá.
Dona Virgínia, próxima da nora, perguntava ansiosa:
- Raquel, o Alex disse que sua mãe escreveu?
- É verdade! Fiquei tão feliz!
- Por que vocês não a chamaram para vir passar o Natal aqui?
- Nós convidamos, sim. Mas ela não aceitou.
Deu algumas desculpas e não quis vir.
Não sei o que prende minha mãe àquele lugar.
- Você vai visitá-la?
A nora parou, pensativa, e respondeu sem animação:
- Sinceramente não gostaria de voltar lá.
- Mas é sua mãe, Raquel.
Ela precisa ver você, a netinha, conhecer o Alex.
- Eu sei. Mas primeiro eu quero esgotar todas as tentativas de trazê-la para cá.
Nesse instante, Alexandre chegou na cozinha e abraçou a esposa pelas costas, beijando-lhe o rosto com carinho.
- Você está molhado, gelado! Alex! - reclamou Raquel sorrindo e brincando, encolhendo-se levemente com agrado.
O senhor Claudionor, que chegou junto com o filho, trocou olhares com a esposa e desviou sua atenção, estampando um leve sorriso maroto.
Pouco depois, quando encontrou o filho estendido sob o sol, o pai ofereceu-lhe um copo com suco e puxou conversa:
- Como está lá na empresa?
- Tudo bem - respondeu Alexandre, que não conseguia encará-lo por causa do sol.
- Vem, sente-se aqui - pediu o pai estapeando uma cadeira ao lado de onde havia se sentado.
O rapaz aceitou o convite e ele perguntou:
- Não quer deixar aquele trabalho e vir comigo para novos empreendimentos?
- Você vai expandir a agência de turismo, pai?
- Pretendo. Mas só se tiver você ao lado.
- Bem, depende - respondeu Alexandre.
- Do quê?
- Não queria mudar de estado.
Veja, você já mandou o Valter para o Rio de Janeiro.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

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- Oras! - retrucou o homem sorrindo.
Não fui eu, não!
Lembre-se que tudo aquilo foi ideia dele e que, cá pra nós, foi óptimo!
- E você fica daqui só coordenando tudo e recebendo, né?! - argumentou o filho sorrindo e brincando ao falar.
- Já dei muito duro, Alex.
Agora é a vez de vocês.
- Já pensei em largar aquela empresa aérea.
Tem dia que quase fico louco.
Agora estamos sem gerente e isso se deu no meio de um novo projecto.
Um cara lá foi demitido e...
Alexandre deteve o que ia dizer e procurou, com o olhar, ver onde Marcos estava para poder prosseguir o assunto.
Certificando-se de sua distância, quando ouviu o barulho que vinha do salão de jogos, continuou:
- Sabe o cara amante da mulher do Marcos?
- Sei.
- Foi demitido e o gerente do meu sector, requisitado para substituí-lo.
Agora tudo ficou nas "minhas costas". Não estou gostando.
Tenho que ficar além do horário, telefonam-me, em casa, com frequência.
Quase não tenho sossego.
Eu quero um pouco de tranquilidade para poder ficar com a Bruna e a Raquel.
Alexandre parou, suspirou fundo e completou:
- Agora que a Bruna já está com a gente e estamos mais tranquilos com tudo isso, estou pensando em deixar esse emprego.
Mas não sei ainda.
Vou ver se tiro férias, primeiro, quero pensar bem.
- Hoje não é um dia ideal para falarmos sobre isso - disse o pai.
Deixe passar as festas e vamos nos sentar para conversar.
Chamaremos o Valter e, juntos, estudaremos essas mudanças.
- Tudo bem.
Sem demora o senhor Claudionor admirou:
- Alex, eu fiquei impressionado com a rapidez com que a Bruna se adaptou a vocês e a nós.
Tenho que confessar que fiquei temeroso por ela não ter aceitado muito bem o casal que tentou adoptá-la, pensei que teríamos muito trabalho com essa adaptação.
O filho sorriu, afirmando:
- Cada vez mais eu acredito nos laços espirituais que possuímos uns com os outros, pai.
Somente isso explica essa aceitação, essa adaptação tão perfeita entre nós.
Tudo foi muito simples.
Eu a sinto como minha filha.
Bruna é minha filha!
Não sei se você é capaz de entender.
O homem sorriu verificando que o filho se esquecera que, aos olhos do mundo, ele era um "pai adoptivo" também.
- Em nenhum momento eu posso dizer que estou arrependido afirmou Alexandre.
Em nenhum instante eu senti a Bruna insatisfeita ou infeliz.
Quanto ao génio, a personalidade, ela é semelhante à Raquel, muito doce, delicada.
Só que bem peralta, alegre!
Parece a Rô quando era pequena - sorriu.
- Ela não pergunta por que ficou esse tempo no orfanato?
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Ave sem Ninho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:33 am

- Perguntou, sim.
A Raquel disse que, no começo, assim que ela nasceu, teve dificuldades, que era muito pobre e nem tinha onde morar e precisou deixá-la com aquelas tias até melhorar de vida.
- Ela não perguntou sobre você?
Onde você estava?
- Nós explicamos que tivemos alguns problemas e que, quando ela crescesse mais nós lhe contaríamos, pois poderia entender melhor.
Depois disso, até agora, Bruna não nos fez mais nenhuma pergunta.
- Você vai contar que não é pai dela?
- A Raquel quer contar. Eu não.
Prefiro que acredite que sou seu pai.
- Não tem medo de que alguém revele isso a ela e você venha a ter problemas mais tarde?
- Dependendo do tipo de pai que eu seja, creio que não terei problemas, principalmente pelo facto de observar que a Bruna tem uma personalidade dócil, generosa, compreensiva.
Alexandre lembrou, sorriu e comentou:
- Quando eu soube que era adoptivo, fiquei triste por ter sido rejeitado, mas feliz por ter você como meu pai.
A forma como me criou, os exemplos que me ensinou tiveram um valor imenso e não fez diferença.
Acabei ficando com raiva da tia Jacira que me contou, de repente, como se quisesse me ver sofrer.
Tem gente que parece fazer certas coisas por sentir prazer na maldade, por inveja.
- Eu lembro. Você tinha oito anos.
Fiquei tão furioso que não conversei com ela por uns cinco anos.
Sua mãe chorou como uma condenada.
Pense bem, filho.
Eu sei que você pode dizer que conheceu a Raquel há alguns anos, que a engravidou, que ela se afastou de você porque soube que tinha uma noiva, teve a menina sozinha e só agora você resolveu assumir.
A maioria da nossa família pode acreditar, mas...
Alexandre sorriu, abaixou a cabeça, e perguntou:
- Você está sabendo dessa história, né?
O pai sorriu também e perguntou:
- Quem foi que inventou essa história, você ou a Rosana?
- Nenhum de nós!
- Como não? Seus tios vieram me falar que você e a Raquel namoraram algum tempo atrás e que ela engravidou.
Raquel sumiu porque soube que você estava noivo e quando sua noiva descobriu a traição, ficou revoltada.
Para se vingar, Sandra o difamou para todo mundo.
Agora, depois de conhecer melhor a Raquel, passou a amá-la, decidiu se casar e resolveu assumir a filha.
Por isso, ontem a Sandra veio aqui tirar satisfações.
O pai riu e completou:
- Ainda disseram que a Bruna tem alguns traços seus e a cor dos olhos não pode negar.
Fiquei sem saber o que falar, pois não fui avisado de nada.
- Já estou sabendo disso, mas não fui eu nem a Rô os autores disso.
- Quem foi, então, o autor desse enredo?
- A mãe e a Vilma.
Elas disseram que todos estavam fazendo muitas perguntas e, para acabar de vez com os boatos, tiveram essa "grande ideia".
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:33 am

O que pude fazer foi ficar quieto.
Até porque isso será bom para a Bruna.
Os amiguinhos ou os primos, principalmente os de segundo grau, não vão ficar implicando com isso.
Depois de alguns segundos, Alexandre reconheceu:
Sabe que eu gostei da história.
- Tomem cuidado. Sejam precavidos.
Existem pessoas maldosas que não gostam de ver o bem-estar das outras.
- Eu sei, pai. Mas teremos tempo para pensar.
É um assunto muito delicado.
Após alguns minutos, o senhor Claudionor perguntou:
- Eu vi você brincando com a Raquel e abraçando-a.
Desculpe minha curiosidade, mas como vocês estão?
Alexandre deu um leve sorriso e comentou:
- Ela está melhor, mas... - detendo as palavras, ficou sério.
- Está arrependido, Alex? - perguntou o pai ao observá-lo.
- Não - confessou o filho tranquilamente.
Não estou arrependido de nada.
Não tenho amante, não procurei outra mulher nem vou procurar, pai.
Adoro a Raquel e me amo, também.
Aquele que trai nunca dorme tranquilo.
Quando começo algo vou até o fim, sou "cabeça-dura", você sabe.
Vou ajudar a Raquel, principalmente por amá-la e ter certeza de que nunca serei traído.
Tenho trauma e asco à traição.
- Eu sei - sorriu o pai reconhecendo.
Mas é que a situação é um tanto delicada e complexa... você é homem e... vai precisar ter determinação, paciência. Tenho medo que... e o - senhor Claudionor deteve as palavras e Alexandre, ponderado, perguntou:
- Pai, se isso ocorresse com a mãe, você iria ajudá-la?
Ficaria do seu lado?
Ou iria se afastar dela e até procurar outra companheira?
- Claro que ficaria com ela! - respondeu ele sem titubear.
Não sou só marido da Virgínia, sou seu amigo, parceiro.
Alexandre só sorriu e o pai compreendeu o que ele quis dizer.
Sem demora o filho avisou, deixando-o mais a par da situação:
- Na próxima semana vamos a um psicólogo.
- Já marcaram?
- Sim, já. A Rosana nos falou de um colega do primo do Ricardo, mas eu não gostei e depois ela me indicou uma associação de psicólogos espíritas.
Liguei pra lá e consegui o telefone do psicólogo, marquei e até já fui conversar com ele.
- Já?! - admirou-se o pai.
- Sim, eu já.
A Raquel ficou com vergonha e não quis ir.
Depois, quando voltei e lhe contei como foi, ela se arrependeu e aceitou, disse que iremos juntos da próxima vez.
- Que bom! Fico feliz por vocês.
- Estou confiante, pai. Vai dar certo.
Às vezes, vejo que, mesmo sem ter orientação ou coisa assim, já obtive certo progresso.
Mas diante de certas circunstâncias... ela fica inflexível, temerosa.
Respeito seus limites, mas com jeitinho, cauteloso, vou me aproximando.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:33 am

Às vezes tenho sucesso, outras vezes me decepciono...
Mas não desisto.
- É!... Realmente eu eduquei um homem digno.
Tenho orgulho de você, filho - reconheceu o pai admirado.
- Tenha orgulho de você, também, pai.
Sou o que sou graças ao que aprendi com você.
Segui seus exemplos.
A mando dos priminhos, Bruna chegou de repente e, com um brinquedo, começou a espirrar água em ambos.
As outras crianças correram e saíram para se esconder.
A distância, Raquel viu, se aproximou e com modos simples repreendeu a filha:
- Bruna! Não faça isso com o vovô.
O marido se levantou e disse sorridente:
- Ah! Quer dizer que com o papai pode?! - exclamou Alexandre que se levantou e, ao falar brincando, agarrou a esposa, que estava com roupas comuns para jogá-la na piscina.
Com o gesto rápido do marido, junto com um ruído alto que ele fez com a garganta, como se rosnasse, Raquel se surpreendeu e gritou como quem aterrorizada.
Em pânico, segurando-o com tamanha força a ponto de arranhá-lo com as unhas:
- Não!!! Não!!! - pediu ela apavorada, após o grito de medo.
Alexandre se surpreendeu, colocou-a no chão e disse, com voz piedosa:
- Raquel, calma. Está tudo bem. Sou eu.
Com o olhar demonstrando espanto, ela o fitava ainda trémula pelo susto e começou a chorar.
Abraçando-a, ele tornou sensível:
- Calma, bem. Estou aqui.
Está tudo bem.
Raquel estava pálida, seus joelhos começaram a se dobrar lentamente.
Ela não tinha forças para se manter em pé.
O senhor Claudionor, já ao lado do casal, entendeu o que acontecera e não sabia o que fazer para ajudar.
Apenas aproximou Bruna de si.
Abraçada ao marido, agora, Raquel disse com voz fraca:
- Não estou me sentindo bem.
Alexandre a envolveu, pegou-a no colo e a levou para dentro da casa.
Bruna, sem compreender o que estava acontecendo, passou a chorar também por ver a mãe reagir daquela forma.
Abaixando-se rapidamente, o pai de Alexandre pegou a pequena Bruna no colo, procurando confortá-la.
- Não foi nada, filhinha - dizia o avô carinhoso afagando-a.
O papai só brincou e a mamãe se assustou, viu?
Não chora, não.
Raquel, em pranto, abraçada ao marido, era levada para dentro de casa.
Quando dona Virgínia e Vilma, que saíam às pressas para ver o que tinha acontecido, encontraram com Alexandre, este já entrava em casa com Raquel no colo.
- O que aconteceu, Alex?! - perguntou sua mãe.
- Nada, mãe - ele respondeu rápido.
Quando elas iam atrás do casal, o avô, com a neta no colo, as chamou:
- Vilma, Virgínia, deixem os dois, cuidem da Bruna, que está assustada.
Alexandre levou sua mulher para um dos quartos, a fez se sentar e ficou a seu lado abraçado a ela.
Há tempos Raquel não chorava assim e talvez o fizera, não tanto pelo susto, mas contrariada consigo mesma por não estar conseguindo deter a exibição daquela reacção.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:33 am

Dona Virgínia chegou trazendo um copo com água açucarada que o filho pegou-lhe das mãos e gentilmente ajudou Raquel a tomar.
Ao vê-la mais tranquila, Alexandre, ainda a seu lado, falou:
- Desculpe-me, Raquel. Foi sem pensar.
Ela se recostou em seu ombro, procurando amparo.
- Não foi culpa sua.
Sou eu... - respondeu sussurrando.
Dona Virgínia deixou os dois a sós ao se retirar.
- Foi minha culpa, Raquel.
Como se não bastasse o que fiz ontem...
Você já estava assustada por ontem e...
Perdoe-me, por favor.
Alexandre, arrependido, a olhava com carinho e começou a reflectir percebendo que, a cada dia, Raquel não lhe fugia mais aos contactos como antes.
Mesmo se apavorando por um instante e chorando, ela o abraçou forte, reconheceu seu apoio, aceitando-o naturalmente.
Assim como fizera na noite anterior.
O marido preocupou-se e avisou:
- Vou lá buscar a Bruna.
É melhor que ela a veja, pois se assustou muito.
Ao voltar com a filhinha no colo, a colocou nos braços da mãe.
Raquel procurou sorrir e desfazer a última imagem que a menina tivera.
- Não chora, mamãe.
- Não estou mais chorando, filhinha.
- O papai só brincou, mamãe.
- Eu sei, meu amor - afirmou sorrindo e beijando-a.
Emocionado, Alexandre abraçou as duas como se fossem seu maior tesouro.
Apesar dos desafios, sentia-se feliz e agradecia a Deus por tê-las em sua vida, completando-o.
Mais tarde tudo continuou normal.
Raquel parecia melhor, mas pouco se alimentou no almoço e disfarçou a inapetência por causa da sua atenção que se voltava para as crianças.
Alexandre percebeu, mas não disse nada.
À noite, pouco antes da ceia, outros parentes chegaram e todos estavam animados.
Principalmente Rosana, empolgada com a presença dos futuros sogros, quase não tinha tempo para dar atenção à própria família.
Vilma não se reunia aos demais, ficava sempre atrás das crianças, olhando-as para que não se machucassem, pois agora elas estavam em número maior devido aos priminhos que chegaram bem animados.
Os homens formavam pequenos grupos conversando e rindo muito.
Dona Virgínia, a certa distância, conversava com uma cunhada, mas observava que Raquel estava muito quieta, com semblante abatido.
Pedindo licença, ela se aproximou da nora e perguntou:
- Raquel, você está bem?
- Estou com uma dor de cabeça horrível - sussurrou encabulada e sorrindo forçadamente.
- Por que não falou?
Vem cá que vou lhe dar um remédio.
Seguindo a sogra, Raquel foi até a cozinha para tomar o medicamento.
Após reflectir um pouco, a sogra decidiu perguntar:
- É só isso mesmo, Raquel?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:34 am

- É sim, dona Virgínia - tornou recatada.
- Acho que não. Foi por causa daquilo, né?
O Alex a assustou.
Com seu jeito meigo, Raquel defendeu o marido:
- Não foi culpa dele.
O Alex só estava brincando. É que...
- Procure ajuda, filha.
Você não precisa viver com esse fantasma.
Os olhos da moça se encheram de lágrimas, que quase transbordaram.
A sogra a abraçou com carinho e ainda disse:
- Raquel, Raquel! Como gosto de você, menina!
Eu a quero como minha filha!
A nora a apertou contra si e não conteve as lágrimas teimosas que rolaram.
Valter, que chegou na cozinha, brincou alegre:
- Hoje não é dia pra chorar!
O que é isso? Vamos! Vamos!
Eles voltaram para onde todos estavam reunidos e esqueceram aquele momento.
As horas foram passando e Raquel não se sentia bem.
Algo estava errado com ela.
Alexandre demorou a perceber que a esposa empalidecia.
Aproximando-se dela, perguntou sutilmente, generoso e preocupado:
- O que você tem, Raquel?
- Bem - pediu sussurrando - me leva pro quarto.
Sem alarido, ele a levou para a suíte, onde Raquel entrou às pressas procurando o banheiro, sem conseguir conter o vómito.
Alexandre a segurou, prendeu-lhe os cabelos, depois a ajudou a lavar o rosto e a levou para se deitar.
A esposa se largara sobre a cama, com a face pálida e com os olhos fechados sem se importar com nada.
- O que foi, Raquel? - perguntou preocupado.
- Não sei - balbuciou ela desanimada.
Discretamente Alexandre chamou sua mãe, contando-lhe o que estava acontecendo.
Mas os demais, sentindo a falta deles, começaram a tomar conhecimento de que a esposa de Alexandre não estava bem.
- Vou levá-la ao médico - decidiu ele.
- Não - pedia Raquel que mal conseguia falar.
- Leve-a sim, filho - aconselhava o senhor Claudionor.
É o melhor a se fazer.
- Eu vou com você! - decidiu Vilma.
- Não, Vilma - respondeu o irmão - fica aqui e olha a Bruna pra mim, por favor.
- Eu vou - disse dona Virgínia.
- Não, mãe. Não é necessário - resolveu Alexandre, que já começava ficar irritado.
Calma, gente! Também não é assim!
Eu vou sozinho, não há nada em que vocês possam me ajudar.
Além do que, temos convidados aqui.
Não deve ser nada muito sério.
Decidido, o marido pegou Raquel, colocou-a no carro e a levou para o hospital.
Após ver o irmão sair, Rosana comentou arrependida:
- Eu deveria ter ido com eles.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Maio 22, 2017 9:34 am

- Daqui a pouco eles voltam - disse sua futura sogra que, rindo, completou:
- Você quer apostar que ela está grávida?
Rosana riu e não disse nada.
Mais tarde, de seu apartamento, Alexandre telefonou para sua mãe, confirmando:
- A Raquel está bem. Não foi nada sério.
Provavelmente o susto a deixou com dor de cabeça e o remédio que tomou com o estômago vazio a fez passar mal.
Fiquem com a Bruna pra nós.
Amanhã cedo eu passo aí para pegá-la.
Alexandre riu, ao ouvir dona Virgínia dizer:
- A mãe do Ricardo está perguntando se a Raquel está grávida, porque esse é o típico sintoma.
- Diga a ela que ainda não.
Após desligar, ele foi ver como Raquel estava.
Alexandre entrou no quarto vagarosamente sem fazer ruído.
Cuidadoso deixou o quarto na penumbra, se deitou ao lado da mulher e procurou ficar quieto a fim de não incomodá-la.
Faltavam poucos minutos para o dia vinte e cinco de dezembro e eles ficariam ali, sem comemorar.
De repente, os fogos de artifício que estouravam anunciando meia-noite fizeram Raquel se sentar na cama, aos gritos.
- Calma, Raquel! - pedia o marido que se assustara com aquela reacção.
Está tudo bem. Calma, querida - dizia ele carinhoso, afagando-lhe a face e procurando envolvê-la.
- Não!!! Minha filha, não! - gritava aflita.
- Acorda, Raquel - pedia Alexandre com generosidade, pois a esposa parecia estar sonhando.
Estamos em casa. A Bruna está bem. Calma!
Raquel o empurrou.
Ela estava apavorada e ele a soltou, insistindo ao repetir:
- Calma. Está tudo bem.
Estamos em nosso quarto, meu amor.
- Bruna! Onde está minha filha?!!! - gritou desesperada.
- Ela está na casa dos meus pais.
Ela está bem.
Calma, Raquel argumentava com voz ponderada, procurando lhe passar segurança.
A esposa estava ofegante e, agora, parecendo entrar em pânico, chorava como se não entendesse o que estava acontecendo, misturando seu pesadelo com a realidade.
Ele foi abraçá-la, mas Raquel o empurrou.
Alexandre não suportava mais aquela situação.
Ele decidiu não envolvê-la mais, respeitando a sua vontade, no entanto, não sabia o que fazer.
Lágrimas copiosas deslizavam no rosto do marido que, para não entrar em desespero, sentou-se, silenciou, fechou os olhos e se socorreu em uma prece pedindo a Deus que lhe desse forças e acabasse com aquela aflição de sua esposa.
Segurando-o pela camisa, em desespero, Raquel pediu:
- Alexandre, ajude-me pelo amor de Deus!
Vendo-a num choro compulsivo, o marido a envolveu cuidadosamente com carinho e a aninhou nos braços.
Ele estava aborrecido, desejoso de que aquilo tudo terminasse.
Como fora traumatizante para ela aquela experiência brutal.
Como estava sendo-lhe difícil recompor o ânimo, a sua fé na vida e nas pessoas.
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