Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Página 13 de 15 Anterior  1 ... 8 ... 12, 13, 14, 15  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:43 am

Como estava sendo complicada sua reestruturação emocional e sentimental.
Alexandre, com sua moral elevada e sua nobre sensibilidade, buscava doar-se em compreensão, carinho, paciência e notável amor verdadeiro, sem queixas, mas sempre esperançoso em harmonizar aquela difícil condição, pois, acima de tudo, ele era o amigo verdadeiro que prometera apoio e amparo sincero para todas as horas.
Poucas criaturas têm tão elevados valores morais a ponto de se renunciar em favor do amor incondicional, pois é tão fácil desistir!
Os casos de violência sexual contra mulheres, crianças e adolescentes tomam vulto e se propagam no momento acalorado da descoberta, mas poucos acompanham o desespero e as condições precárias dos sentimentos feridos dessas vítimas, que custam a se recompor e, quando conseguem, é com indescritível dificuldade.
O estupro, por ser um assunto delicado, tendo em vista o grau de intimidade, não é comentado.
Todas as vítimas de furto se mostram, elas têm coragem de dizer "eu fui furtada"; todas as vítimas de agressão física se anunciam.
As vítimas de estelionato não têm muita vergonha de se revelar.
Entretanto, se essas trazem em si um trauma, um ressentimento ou até pânico pelo que sofreram, imaginem a vítima de uma violência sexual.
Inúmeros crimes existem cuja vítima se revela e comenta o ocorrido, mas a vítima do estupro se cala, silencia, carregando dentro de si os mais dolorosos sentimentos, as mais tristes lembranças de um ato tão cruel.
Pela subtileza do assunto, aqueles que com ela convivem o querem esquecer, não podem falar e, em alguns extremos, chegam a abandonar aquela criatura que carece de amor, respeito, compreensão e paciência.
A pessoa molestada se constrange, se isola, se condena, se desgasta na lembrança do experimento doloroso, no qual sofreu pela delinquência e desequilíbrio de outro.
Flagelada na humilhação, que pela delicadeza do fato se envergonha de comentar, essa criatura se aflige em conflitos íntimos e secretos.
Poucos são aqueles companheiros, amigos ou parentes que se dedicam e se dispõem a amar, compreender, acalentar e procurar a ajuda que pode trazer o equilíbrio e a renovação.
Em uma comunhão mais profunda de sentimentos elevados, pode haver aquele que, como amigo fiel, entende e auxilia sempre a recomposição estruturada no equilíbrio de uma alma querida.
Sem egoísmo, apenas o sábio amor desvelado compreende e se doa, sem exigir, recompondo a alegria e a paz, auxiliando a elevação, orientando ao trabalho no bem, tarefa útil e caridosa, que transformará e equilibrará produtivamente aquele que deseja e quer se desprender dos lastros que arrasta com tristeza e dor.
A respeito do sexo, podemos dizer que o ser humano ainda necessita de muita orientação, educação e controle.
A pretexto do prazer compulsivo, existem criaturas desequilibradas que se manifestam na imposição sexual a outro, violentando-lhe, não só o corpo, mas também a alma, os sentimentos e as emoções.
O ato de violência sexual rouba de sua vítima a tranquilidade, o alicerce no equilíbrio, na fé, na alegria, tirando-lhe o encanto e o sonho criador.
Dificilmente elas conseguem obter novamente a confiança nos outros, a afectividade no contacto e voltar a compartilhar emoções no campo do relacionamento íntimo.
Aquele que, através dessa violência, impõe essas dificuldades enormes a outro recolhe para si angustiosos momentos de aflições em futuras vivências dolorosas e infelizes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:43 am

E aquele que, na educação de um filho, ou de uma criança que lhe foi confiada aos cuidados, deixa-lhe faltar a orientação na área do campo sexual, que é o ensino do equilíbrio, controle, respeito, dignidade e moral, também é responsável pela agressividade hedionda que ele cometer através da prática do estupro e, com certeza, ver-se-á golpeado por chagas profundas em seus sentimentos e enfrentará um "calvário de aflições".
O medo é algo difícil de ser superado.
Somente o amor e o carinho podem trazer de volta a confiança verdadeira.
Antes daquela experiência reencarnatória, Alexandre prometera-lhe ser fiel e dedicado, estando preparado para sustentá-la diante dos previstos e imprevistos da existência.
E agora o fazia por perseverança, fé, amor e com resignação.
Abraçado à esposa, ele a acalentava com leve balanço, fazendo-a se acalmar.
Poucos imaginam ou podem compreender o drama que se passa na mente de alguém que sofrera tal violência.
Essa criatura necessita de amparo e carinho para trocar os conceitos violentos que sofreu por confiança e afecto, e isso pode levar um longo tempo, conforme o caso, de acordo com a sensibilidade.
O auxílio e a paciência do marido eram fundamentais e de grande valor para Raquel.
O afecto e a ternura generosa que ela recebia dos sogros e das cunhadas geravam-lhe força e incentivo para prosseguir.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:44 am

Capitulo 20 - Desabafo inesperado de Raquel

O tempo foi passando...
Rosana e Ricardo tiveram que adiar o casamento porque o noivo teve uma oportunidade muito boa em seu serviço, só que, para isso, teria de fazer uma viagem ao exterior por cerca de três meses.
A noiva não ficou satisfeita, ela não queria deixar o seu último ano de faculdade para se casar e acompanhá-lo.
Foi então que decidiram adiar o casamento para o meio do ano que se iniciava.
Nilson saíra da prisão e aguardava o julgamento em liberdade.
O rapaz estava traumatizado por tudo o que vivera nos últimos meses.
Fechado dentro de casa, ele quase não saía.
Raquel se dispôs à terapia junto com o marido que a acompanhava, auxiliando e amparando, sempre.
Certo dia, Alexandre chegou em casa e encontrou Raquel ajudando a filha com pequena montagem de colar que a menina levaria para a escola no dia seguinte.
Ele as beijou e abraçou como sempre fazia.
Porém, atraiu a atenção de Raquel para acompanhá-lo até a cozinha a fim de conversarem longe da filha.
- O que foi? - perguntou curiosa quase sussurrando.
- Fiquei sabendo de uma coisa hoje que me deixou em choque!
- O que aconteceu?!
Conta logo! - insistiu ansiosa.
- O Valmor se separou da esposa e estava morando com a Alice.
- Tá, isso eu sei.
- Ele foi demitido, não foi?
- Sim. Isso eu também sei - disse Raquel.
- Fiquei sabendo que ele tinha um plano de previdência privada e que o encerrou para comprar aquele apartamento onde mora com a Alice.
Após se separar, ele foi demitido e não arrumou outro emprego.
Depois disso não tive mais notícias dele.
Hoje eu fiquei sabendo que o Valmor teve um acidente vascular cerebral, mais conhecido como derrame.
- Nossa! - admirou lamentando chateada.
- A esposa e os filhos nem querem saber dele.
Agora, quem terá de cuidar do Valmor é a Alice.
Raquel incrédula se sentou e o marido prosseguiu:
- E mais. A Alice foi demitida hoje.
- Você está brincando?! - exclamou a moça em choque.
- Olha, meu bem, estou tão surpreso com toda essa tragédia que gostaria de estar brincando.
A aproximação da filha os fez cessar o assunto.
Mais tarde, porém, o casal ainda conversou:
- Estou com pena da Alice - disse Raquel.
- Sem emprego e sem ter onde morar, ela vai ter que depender de favor e da mísera aposentadoria que o Valmor tiver por invalidez, e ainda terá que cuidar dele, se quiser continuar morando lá.
Pelo que calculo, metade do que ele ganhar será para pagar o condomínio do apartamento.
Eu nem sei lhe dizer se, nesse caso, a ex-esposa receberá pensão dele. Acho que não.
- Como esse mundo dá voltas, Alex!
Estou horrorizada e até arrependida.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:44 am

- Por quê?
- Quando eu saí da casa do meu irmão, expulsa depois de tanta humilhação, a última coisa que eu disse para a Alice é que ela, um dia, iria se lembrar de mim porque passaria pelo mesmo que estava fazendo comigo.
- Não é sua culpa.
- Eu sei, mas... Ah, não deveria ter dito aquilo.
- Faça uma prece por ela.
Estamos aprendendo muito com o Espiritismo.
Peça a Deus que a envolva com bênçãos de paciência, optimismo e no caminho do bem.
- Eu já faço.
- É, Raquel, devemos nos "conciliar com nossos adversários enquanto estamos no caminho com eles", ensinou-nos Jesus.
Sabe, quando do comecei a pensar assim, fiquei mais calmo, tranquilo, menos estressado e tudo para mim tem melhorado muito.
Vejo as coisas de outra forma.
Isso parece que reflectiu até em melhoras físicas.
Aliás, estou óptimo!
Toda minha saúde está em harmonia.
A esposa sorriu e observou:
- Realmente, eu o vejo mais harmonioso nos últimos tempos.
Rindo completou:
- Você não quer mais "quebrar ninguém ao meio".
O marido gargalhou gostosamente e admitiu:
- Estou me controlando e sempre penso no meu coração.
Quero ter vida longa, sou um cara novo e tenho muito que fazer ainda.
Repentinamente, mudando de assunto, Alexandre perguntou:
- Sua mãe escreveu?
- Escreveu sim.
Mais uma vez ela se recusa a vir para cá.
- Você quer ver sua mãe, não é? - perguntou abraçando-a.
- Quero sim, mas não me agrada a ideia de ir até lá, - sorriu tímida.
- Por que, Raquel?
Seu avô está numa cadeira de rodas...
Após pequena pausa, completou:
- O resto você sabe.
Poderíamos ir lá só para ver sua mãe, para ela conhecer a Bruna.
Não é preciso visitar mais ninguém.
Pelo que me contou, a casa do seu tio não é próxima de onde dona Tereza está.
Raquel abaixou a cabeça e ficou pensativa.
O esposo, segurando-lhe o rosto com carinho, ergueu-o e perguntou:
Você quer ver sua mãe?
- Sim, eu quero, mas...
Alexandre tornou a abraçá-la e argumentou:
- Então vença este obstáculo de uma vez.
Talvez isso fará com que vença os outros.
Nós daremos um jeito.
O tempo foi passando e a melhora psicológica de Raquel, após a terapia que ainda realizava, podia ser notada, a princípio, pelos pesadelos que deixava de sofrer.
Em conversa com Rosana, a cunhada dizia:
- Há tempos eu não tenho aqueles sonhos horríveis.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:44 am

- Que bom Raquel! Fico feliz! - alegrou-se Rosana.
- Creio que não é só a terapia que fazemos, mas também a assistência espiritual que recebo está me ajudando muito.
- Pode acreditar que sim.
Mas não deixe fazer nem uma nem outra coisa.
Após poucos segundos, perguntou:
- Sei que estou sendo indiscreta, mas... e vocês dois, como estão?
Raquel ofereceu um sorriso forçado e revelou:
- Alexandre é uma criatura maravilhosa, Rô. Mas eu...
Nesse instante, seus olhos se embaçaram e ela abraçou-se a Rosana, que lhe afagando os cabelos, dizia:
- Ainda é cedo, Raquel. Calma.
Vocês já progrediram muito.
Com a voz embargada, Raquel desabafou:
- Já temos quase um ano de casados!
Não sei como o Alex suporta.
- Ele a ama, Raquel.
- Às vezes choro às escondidas... - confessou Raquel, com voz lamentosa, afastando-se do abraço.
- Divida com ele os seus sentimentos.
O Alex é seu amigo.
- Eu sei que é.
Nunca pensei que ele pudesse tolerar tanto.
Sabe Rô, de repente sinto uma força, creio que consigo superar meus medos, eu o abraço, o beijo, o desejo, mas, em seguida... quando ele quer continuar... não consigo... parece que eu mesma me derroto, entro em pânico e o afasto de mim.
É como se eu tivesse altos e baixos.
É um conflito imenso.
Você não imagina.
- O que o Alex diz?
Ele fica insatisfeito, se irrita?
- Não! Ele entende.
Aceita e me acalma conversando e me acariciando até que eu melhore da tensão.
O Alex é muito compreensivo.
Eu o amo tanto.
Não consigo mais viver sem ele.
Rosana sorriu satisfeita pelos sentimentos que observava na cunhada e falou com jeitinho:
- Confie nele, Raquel. É assim mesmo.
É um processo que tem de ser devagarzinho.
Vocês já progrediram muito!
Esta retribuiu o sorriso com modos tímidos.
E Rosana quis mudar o assunto para não deixá-la deprimida.
- Ah! Não falei, né?!
- O quê?
- Vamos adiar novamente o casamento.
- Por que, agora? - surpreendeu-se Raquel.
- O Ricardo quer fazer um curso lá onde está, na Suíça.
Será de grande valor para ele.
- Nem sei o que dizer, Rô - lamentou a cunhada.
- Sabe, Raquel, para dizer a verdade, estou tão frustrada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:44 am

- Não fique assim, não.
Vai passar logo, você vai ver!
- Serão mais quatro meses.
Não estou gostando.
Às vezes sinto uma coisa.
- O quê?
- Sinto o Ricardo diferente.
- Não, Rô, ele gosta muito de você!
Não pense assim.
Pela primeira vez Raquel viu Rosana triste e chorosa.
- Sabe, às vezes sinto que nunca vamos ficar juntos.
- Não diga isso!
- Já pensei em terminar com esse noivado, sabia?
- Pense bem, Rosana.
Depois de tanto tempo...
A cunhada abaixou a cabeça, suspirou profundamente e, em seguida, procurou outro assunto para fugir da melancolia.
- Fiquei sabendo que a dona Conceição, lá do Centro, foi falar com você!
- Foi sim.
Ela me convidou para ajudar na arrecadação de enxovais para os bebés e nos ajustes e consertos manuais de algumas roupinhas.
Fiquei tão feliz!
Estou indo lá duas vezes por semana, à tarde, e levo a Bruna comigo.
- Que bom, Raquel!
- Nossa, Rô, como melhorei.
Estou me sentindo tão útil!
- Isso é maravilhoso.
Aqueles que vencem suas dificuldades para ajudar os outros são os primeiros a ser socorridos.
Ainda bem que o Alex não se importa.
- Claro que não! E ainda me incentiva.
Ele não quer que eu volte a trabalhar, só que ficar em casa trancada não me faz muito bem.
Sinto-me depressiva.
Lá no Centro ocupo os pensamentos, vejo outras pessoas, me envolvo com trabalhos úteis, agradáveis.
Tudo está me fazendo muito bem.
- Mas nada acontece como mágica.
Você tem que se esforçar para melhorar e, se está se sentindo bem, é porque mudou os hábitos, os pensamentos, as atitudes e procurou uma tarefa produtiva.
Buscou conhecimento da Doutrina através das escolas, dos cursos.
- O Alex está adorando.
- Fiquei surpresa quando soube que ele estava fazendo os cursos.
Isso foi algo que sempre tentei e nunca consegui que ele fizesse.
O Alex sempre dizia que não tinha tempo.
Enquanto elas conversavam, o senhor Claudionor e dona Virgínia ouviam os planos do filho:
- Então, eu tiro férias em setembro ou outubro, pego a Raquel e vamos para o Rio Grande do Sul.
- Deixe a Bruna aqui!
- Não, né, mãe!
Será uma judiação com a outra avó se fizermos isso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:45 am

- Então eu vou junto! - anunciou a mulher.
- Não, né, Virgínia! - advertiu o marido.
Eles têm que resolver isso sozinhos.
A mãe ficou inquieta e Alexandre continuou:
- Depois, quando voltarmos, falaremos sobre aquilo novamente, pai.
- Aquilo o quê?
- Negócios, mulher! - respondeu o marido sorrindo e abraçando-a completou:
- Ô mulher curiosa!
O filho sorriu e explicou:
- É que estou pensando em sair do serviço e acompanhar o pai com outros negócios.
- Alex propôs a mãe - quando a Rô se casar, por que vocês não vêm morar aqui?
Já fiz esse convite para sua irmã, mas ela não quis porque disse que quer estudar, trabalhar...
Mas, veja, vocês têm a Bruna e ela adora esta casa!
Aqui tem quintal, lugar para ela brincar, não é como aquele apartamento fechado.
Esta casa é grande.
- É mesmo, Alex!
Devido aos negócios, seria até interessante vocês virem morar aqui.
O filho sorriu sem jeito, depois falou:
- É pai, vamos ver.
Sabe, estamos tão acostumados lá.
- Até hoje eu não me conformo de você ter saído desta casa.
Você sempre teve tudo aqui.
- Mãe, é que, para mim, foi o melhor a fazer.
Mas eu nunca abandonei vocês.
- Ele precisou aprender com o mundo e com a vida, Virgínia disse o pai.
O Alex quis usar lá fora os valores que ensinamos.
Alexandre sorriu e não disse mais nada.
Mais tarde, em seu apartamento, Alexandre dizia para a esposa:
- Vamos, Raquel.
Sua mãe ficará feliz!
Observando-a pensativa sem saber o que decidir, com jeitinho o marido insistiu, dizendo:
- Podemos fazer uma surpresa e chegar lá sem avisar.
O que você acha?
Raquel, olhando-o com expressão sentida, acabou revelando:
- Daquele lugar tenho péssimas recordações.
Não sei se consigo voltar lá.
Temo encontrar aqueles que não quero ver.
Fico pensando em como os meus irmãos vão me receber, afinal de contas, eles nem para me escrever, não é?
- Eu estarei ao seu lado todo o tempo, se aquele lugar te traz péssimas recordações, eu estarei lá para as boas lembranças.
Supere esse medo, Raquel!
Lembre-se que você vai lá para ver a sua mãe.
Alexandre pensou depois decidiu comentar:
- Sabe, Raquel, como eu conversei outro dia com o doutor Bernardo, o psicólogo, eu penso que, mesmo dizendo que não, lá no fundo, você precisa conversar com sua mãe e dizer a ela...
Sei lá... Algo que não ficou esclarecido entre vocês duas.
Nesse instante, o marido se aproximou e falou com voz baixa:
- Seu problema, Raquel, não é o de não me aceitar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:45 am

Você me aceita, mas a sua dificuldade é o contacto, é o carinho.
Como já conversamos, ninguém podia chegar perto de você, mesmo não oferecendo perigo.
Lembra? Talvez, por não ter recebido um toque carinhoso, um afago fraterno nem atenção de seus pais, e, depois, com tudo aquilo que aconteceu, refiro-me à violência íntima que sofreu, e o choque por ter descoberto que ele era seu pai e... o desprezo de seus irmãos e a brutalidade de seu avô...
Percebendo-a atenta, mas em silêncio, Alexandre prosseguiu generoso:
- Isso tudo a afastou das pessoas e foi o que gerou seu medo, seu trauma.
E o pior é que você não sabe receber um carinho porque nunca soube o que é isso.
Você nunca reclamou porque aprendeu errado e achou que deveria ser daquele jeito.
Lembro-me que estranhou como eu e minhas irmãs nos abraçamos, nos beijamos e brincamos, enquanto seus irmãos a desprezaram.
Você acha que sexo é dor, violência, é algo brutal.
Em vez de acreditar que o acto sexual, que é a relação íntima entre duas pessoas, é confiança, amor, troca de carinho com quem se ama, toque de ternura, troca de energias espirituais entre almas afins.
Por isso sempre te falei para não se envergonhar e me pedir que pare, mas me guie, me conduza ao que quer que eu faça, se permita, meu amor.
Quanto a sua família, você deve pensar, Raquel, que seu pai verdadeiro foi o senhor Casimiro, que realmente a tratou como filha.
E que sua mãe era uma pessoa amedrontada, mas a quem você deveria exigir seus direitos e apoio.
O medo impera em você por sua timidez.
Enquanto não reagir com algo que a magoe lá no fundo da alma, não vencerá seu medo.
Há uma passagem no Evangelho que diz:
"o mal impera porque os bons são tímidos".
Tudo o que aprendemos com a Doutrina Espírita resume-se no perdão e na caridade e a primeira caridade, no seu caso, é a caridade para com você mesma.
Perdoe-se, não se culpe por ser bonita, por atrair a atenção dos outros.
Orgulhe-se da moral que tem, pois teria sido fácil você se desvalorizar, se corromper e "andar" com "um ou com outro" por causa de tudo o que te aconteceu.
Você tem muita elevação, meu amor.
Perdoe-se primeiro, permita-se ser feliz, vença um medo de cada vez, reivindique seus direitos e perdoe os que não respeitaram sua vontade.
Raquel o encarou e admitiu:
- Meus sentimentos se confundem quando penso nele.
- Nele quem, Raquel? - perguntou Alexandre para fazê-la vencer-se.
Demorando alguns segundos para responder, Raquel titubeou, mas por fim falou mesmo com voz trémula:
- Fico confusa quando penso no meu tio Ladislau.
Sabendo que perdeu as filhas e a mulher está desequilibrada...
Chego a ficar com dó dele, entende?
O silêncio reinou.
Raramente Raquel falava daquele assunto delicado e doloroso sem chorar, e nunca havia pronunciado de forma serena o nome do seu agressor.
- Raquel, vem cá - chamou o marido puxando-a para um abraço e sentando-se mais próximo falou:
- Perdoar a ponto de dizer que fará tudo por aquele homem, talvez você não consiga.
Seria hipocrisia admitir isso agora.
Mas eu penso que ter coragem para olhá-lo, se tiver oportunidade, encará-lo sem fugir, sem medo, tentando não ter rancor, isso talvez a faça se sentir mais forte, mais firme.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:45 am

Talvez seja essa a maneira de vencer o que a vem atormentando.
- Sabe, Alex, pode parecer estranho, mas eu não posso dizer que, algum dia, eu quis que ele morresse ou que sofresse o que me fez sofrer.
Foi bom termos encontrado um psicólogo espírita, porque penso que outro acharia esquisita essa revelação.
Eu não o odeio, mas vivo o pânico do que sofri.
- Se você não o odeia, é porque tem um coração maravilhoso, bom.
Porque você é um espírito elevado, ciente dos propósitos dessa existência, dos trabalhos que vem abraçando.
- Mas acontece que ainda vivo aquela agressão, sinto...
Após pequena pausa, comentou:
- Eu não lembro do rosto dele.
É estranho, não é?
- Não. Não é - afirmou o marido, olhando-a atento, mas com o coração apertado por ouvi-la relatar.
- Eu amo você, Alex!
Adoro quando me afaga, desejo seu toque, mas quando nossa troca de carinho fica mais intensa, eu não suporto... vivo aquele momento violento.
É como se tudo aquilo estivesse acontecendo.
Aí fico magoada comigo por eu não corresponder a você tudo o que merece, e pelo que eu desejo também.
Queria poder esquecer, mas não consigo.
Ainda me dói muito.
Como eu disse, não tenho ódio dele nem me lembro de como ele era, isso se apagou.
Talvez, pelo conhecimento cristão que tenho, hoje sinto pena dele.
- Mas também não quer encará-lo?
- Tenho medo.
Generoso e paciente, ele perguntou:
- Medo do que, meu amor?
Quem sabe vencendo esse medo...
- Não sei bem o que temo.
Voltar àquele lugar, percorrer aquela estrada poeirenta... só vou recordar o desprezo de minha mãe, meus parentes...
Talvez recordar, ainda mais, a violência que sofri.
Naqueles sonhos horríveis eu via isso, eu via aquele lugar e ele me atacando.
Depois, algumas vezes, os poucos sonhos que ocorreram eram os mesmos, mas, de repente, era a Bruna quem estava sendo levada para aqueles maus-tratos.
- Estarei com vocês.
Isso não vai acontecer.
Eu não vou deixar.
- Eu sei, mas também não sei como iria encará-lo, se for preciso.
Não imagino o que posso sentir.
Não sei se tenho coragem.
Quero ver minha mãe, mas, se para isso tiver que encontrá-lo...
- Você tem mágoa dele, Raquel?
- Mágoa, sim. Ódio, não.
- E se você transferir essa mágoa para um sentimento de piedade, principalmente pelo facto de saber como ele está hoje, isso seria bom. Eu não creio que ele esteja sofrendo a invalidez pelo que a fez sofrer.
Essa experiência é pela própria imprudência, nessa vida, com o que fazia.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:45 am

Raquel, com semblante tristonho, lembrou:
- De repente sofri o que fiz alguém sofrer.
- Pensar nisso é viver a lei de Talião:
"Olho por olho, dente por dente".
Isso é ridículo.
Você vai me dizer que Jesus sofreu porque precisava.
- Não. Jesus é diferente!
- Raquel, pense bem, se os homens daquela época fizeram um espírito como Jesus sofrer indevidamente, o que a criatura humana não fez e faz a um espírito comum que ainda tem coisas para harmonizar!
Se ficarmos acreditando que alguém passa por uma dificuldade porque precisa sofrer aquilo, deixaremos de ter compaixão e de praticar a caridade.
Existe a "Lei de causa e efeito", sim.
Mas existe também o livre-arbítrio de muitos interferindo na tranquilidade dos outros.
Você não pode ficar pensando que sofreu isso ou aquilo porque merecia, pense que sofreu algo para ficar mais firme nos seus propósitos.
Não somos espíritos inocentes, temos conhecimento.
A esposa silenciou e Alexandre completou:
- Talvez indo lá, encarando-o, se for preciso, sem exibir sentimentos de ódio, de rancor, e sim de misericórdia e piedade, você o estará perdoando e ensinando, fazendo-o reflectir.
Creio que mostrará a si mesma que conseguiu vencer.
Ele se calou.
A esposa o abraçou forte, beijou-lhe, e perguntou:
- Ficará comigo?
- Sempre!
Sempre, meu amor!
Naquele instante o casal era envolvido por amigos espirituais que os vinham ajudando a vencer os desafios, sentir paz e encontrar no diálogo amigo a harmonia necessária para o ganho do entendimento para a evolução.
Os conhecimentos da Doutrina Espírita lhes chegavam como bênçãos ao ensinar o perdão e a caridade incondicional.
Tempos depois, dentro do carro, ao percorrer a mesma estrada poeirenta que não via há anos, Raquel estava calada.
Bruna dormia no banco de trás e, dirigindo, Alexandre, vez e outra, colocava a mão no ombro da esposa, pois percebia sua tensão.
Ao passarem entre gigantescas araucárias, eles viam, não muito longe, a bela queda-d'água que espirrava gotejos coloridos com os raios de sol, que se fazia destaque dentro da linda paisagem.
- Que lugar lindo! - admirou-se Alexandre.
Mais adiante, a única manifestação de Raquel foi:
- Veja, eu brincava ali quando pequena.
Não dá pra ver direito daqui, mas ao redor da cachoeirinha há uma lagoa e embaixo da queda-d'água, um poço tão cristalino que você chega a ver os peixes lá no fundo.
- Estamos perto? - perguntou o marido.
- Sim. Estamos.
Não demorou muito e eles pararam o carro diante de uma grande casa branca de barrado azul.
Os empregados olhavam curiosos.
Um deles se aproximou quando Alexandre desceu do carro olhando a sua volta ao perguntar:
- Por favor, a dona Tereza está?
- O senhor é...?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:46 am

- Alexandre. Genro dela.
Marido de Raquel.
Dizendo isso, ele contornou o veículo e abriu a porta para a esposa, que parecia estar paralisada e não se mexia.
O marido se curvou, pegou sua delicada mão gelada e pediu:
- Vem?
Sustentando-se nele, tentando controlar a respiração, a esposa desceu trémula.
Imediatamente ela o abraçou e, olhando à sua volta, notou que o lugar pouco havia mudado.
Nesse instante eles ouviram o grito:
- Raquel!!!
Era dona Tereza, que descia ligeiro os poucos degraus da varanda e corria ao encontro da filha.
- Mãe! - disse Raquel, soltando-se de Alexandre.
O riso misturou-se ao choro e, em meio aos beijos, elas se tocavam como se quisessem ter a certeza de que não era um sonho.
A emoção contagiou Alexandre e os empregados que estavam presentes.
Bruna acordou e Alexandre a pegou no colo, esperando ver a esposa mais tranquila.
Logo Raquel se recompôs e, pegando na mãozinha de Bruna, que já estava no chão, ela a exibiu para sua mãe.
Alexandre, com um sorriso no rosto, falou orgulhoso:
- Queremos que conheça nossa filha.
Estávamos ansiosos por esse momento.
A mulher, que estava agachada já olhando a menina, ergueu o olhar e ele lhe estendeu a mão, dizendo ao exibir um semblante alegre:
- Eu sou Alexandre.
Segurando em sua mão, dona Tereza se levantou e o abraçou com jeito meio rude, mas não conseguiu deter algumas lágrimas.
Após as fortes emoções de início, quando todos iam entrando, os irmãos de Raquel chegaram.
Parados, eles a olharam surpresos.
Como Raquel havia mudado!
Enquanto eles traziam no rosto as marcas dos árduos serviços, a irmã estava linda!
Parecia ainda mais moça.
Como que em choque, eles a olharam por algum tempo, até que dona Tereza falou:
- Não vão cumprimentar tua irmã?
Tadeu e Pedro se aproximaram de Raquel e, constrangidos, lhe estenderam a mão para um cumprimento simples.
Alexandre, extrovertido, cumprimentou-os e bem-humorado estapeou-lhes no abraço.
Ao ver a esposa temerosa, ele a abraçou para que entrassem.
Em uma sala onde uma grande mesa de madeira, contornada por cadeiras altas, centralizava o ambiente, eles se acomodaram para conversar.
Os irmãos de Raquel não diziam nada, somente dona Tereza e Alexandre conversavam muito.
Bruna, que não parava no lugar, merecia a atenção de Raquel que, vez ou outra, tinha que sair atrás da filha.
A garotinha, na volta que deu na varanda que rodeava a casa, não retornou.
Preocupada, Raquel saiu a sua procura.
Ao andar pela referida varanda, quando ia contornando a casa, ela ouviu a voz delicada da filha que vinha do outro extremo dizer:
- Meu nome é Bruna, e o seu?
Aproximando-se, quando pôde observar, Raquel viu a lateral de uma cadeira de rodas e Bruna, perguntando com sua voz doce e infantil:
- Você não fala?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:46 am

Não obtendo resposta, ainda insistiu:
- Você tá dodói?
Chegando perto, Raquel a chamou bem baixinho:
- Bruna, vem aqui, filha.
Com muito esforço o avô, senhor Boleslau, virou-se para vê-la.
Seus olhos expressivos se arregalaram quase incrédulos.
Mas Bruna Maria, em sua inocência, perguntou à mãe:
- Quem é ele, mamãe?
Raquel se aproximou um pouco mais, criando coragem, vencendo o temor.
Em meio à respiração alterada, pegou a mão da filha, ficando junto da menina e diante do avô, que nem piscava, então respondeu:
- Esse é seu bisavô, filhinha.
O nome dele é Boleslau.
Com iniciativa própria, a pequena Bruna largou a mão da mãe, ajeitou o pezinho na roda da cadeira, que estava travada, esticou-se e beijou o rosto do bisavô com doçura, até ouvir o estalo.
Fez-lhe um carinho com a pequena mãozinha e disse:
- Oi, bisavô.
Lágrimas rolaram pela face enrugada de Boleslau, e a menininha ainda disse:
- Não chora.
Virando-se para a mãe ela perguntou:
- Mamãe, por que ele está chorando?
Raquel não conteve os sentimentos; deixando que as lágrimas também corressem em seu rosto, falou:
- É a emoção, filha.
Há tempos não nos vemos.
Tenho certeza de que é a saudade.
Sem pensar, Bruna Maria falou inocentemente:
- Então dá um beijo nele para matar essa saudade, mamãe!
Raquel não resistiu e agora, chorando mais ainda, aproximou-se do velho avô e beijando-lhe ao oferecer seu melhor abraço carinhoso.
O homem chegava a soluçar de emoção, principalmente agora, se lembrando de tê-la maltratado tanto após a violência que sofrera.
A neta, de joelhos a seu lado, pegava a toalha que estava em seu colo e secava-lhe as lágrimas, dizendo:
- Não chora, vô. Tudo já passou.
São novos tempos e temos uma nova vida, uma nova oportunidade.
Após uma pausa, ela disse:
- Essa é minha filha, Bruna Maria.
Tentando esboçar um sorriso no rosto que se contraía pelo choro emotivo, falou:
- Bruna não é linda?
Porém avisou:
- Meu marido, Alexandre, veio comigo.
Ao dizer isso, Raquel se surpreendeu ao ouvir:
- Estou aqui - disse o marido se aproximando.
Com um joelho dobrado e o outro no chão, Alexandre ficou ao lado de Boleslau, pegou-lhe a mão e cumprimentou-o.
O velho não podia falar, mas seus gestos, sua face e seus olhos exibiam fortes emoções.
Ele tentava sorrir em meio ao choro.
Dona Tereza, a certa distância, os observava sem dizer nada, mas com um olhar de felicidade, vitória e orgulho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:46 am

Na manhã seguinte, bem cedo, Alexandre já se interessava em conhecer parte da fazenda junto com os cunhados, que se acostumaram rapidamente com ele, tendo em vista seu jeito descontraído e extrovertido.
Uma das empregadas que cuidava da cozinha informou a Raquel, que procurava pelo marido, pois ele se levantara antes que ela acordasse:
- Ah! Eles saíram bem cedinho.
Tava até escuro.
Dona Tereza, que chegou e ouviu a conversa, falou:
- Deixe teu marido com teus irmãos.
É bom que se acostume aqui.
Mais da metade disto tudo será teu e de teu marido também.
Acho que tu não vai querer cuidar de terra, então vai deixar para o Alexandre.
A mulher falava sem muita delicadeza, quase impondo sua opinião.
Delicada, a filha tornou cortês e humilde:
- Não podemos cuidar de nada nessa fazenda, mãe.
Talvez venhamos aqui somente para visitas, em passeio.
- Não seja tola, Raquel!
Isso aqui é teu! Bah!
- Estamos bem, mãe.
Não precisamos... - esclareceu Raquel com modos simples.
- E se teu marido quiser ficar aqui?
Isso é teu!
- Não. Alexandre tem um bom emprego.
Ele não vai querer.
Além do que, a Bruna estuda em uma boa escola e...
Não me interesso.
Não me agrada a ideia de morar aqui.
Com semblante austero, dona Tereza impunha a voz com arrogância.
Depois de exigir que a empregada se ocupasse com os afazeres de outro lugar, exclamou:
- Admiro muito esse teu marido! - dizia ela andando pela copa, fazendo seus passos ecoarem compassadamente, como de costume.
Raquel, sentada à mesa, acompanhava seu andar com o olhar demonstrando-se reprimida.
- Como tu o conheceste? - indagou a mãe.
- No serviço. Trabalhávamos juntos - respondeu a filha sem alongar o assunto.
- Como começaram a namorar? - perguntou a mãe quase inquirindo.
- Bem, mãe, a Alice infernizou as ideias do Marcos, que acabou brigando comigo e me colocou para fora de casa.
Antes disso, eu já havia dito ao Alexandre que estava com problemas com minha cunhada, pois, para ajudá-los me desfiz de todas as minhas coisas e fui morar com eles.
Quando o Marcos me mandou embora da casa dele, eu não tinha para aonde ir.
Foi então que o Alexandre me ajudou.
- Como? - tornou a mãe com sentimentos frios e um jeito seco de falar.
Raquel abaixou a cabeça, pois sabia dos costumes e preconceitos que havia na opinião de sua família.
Tímida a filha respondeu:
- Fui morar com ele.
Se não o fizesse, ficaria na rua.
Eu não tinha aonde ir.
A mãe a olhou com o semblante sisudo, exibindo-se contrariada.
Sem modos educados e até um tanto brutos perguntou:
- Tu não foste louca de ter "alguma coisa" com ele antes de se casar?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:47 am

Mesmo se sentindo magoada, humilhada e ofendida, Raquel respondeu:
- Não, mãe. Nunca tivemos nada.
Ele sempre me respeitou.
- E a Bruna, como ele soube e a aceitou?
Raquel começou a se sentir insatisfeita, não gostando da maneira como a mãe a abordava, pois a mulher o fazia como se a filha lhe devesse satisfações e Raquel acreditou que ela não tinha esse direito pelo facto de nunca tê-la orientado ou auxiliado em alguma coisa.
Raquel respirou fundo, encarou a mãe, e falou firme:
- Mãe, o Marcos me expulsou de casa e eu fiquei na rua em plena madrugada fria de inverno.
O Alexandre me acolheu em sua casa depois que eu liguei para ele.
Com o tempo, conheci a família dele.
Ele percebeu que havia algo errado comigo, eu tinha medo, pois ele queria me namorar e...
Bem, diante de tudo o que eu demonstrava sentir, tinha de haver uma explicação.
Por tudo o que ele fazia para me ajudar, eu me vi obrigada a contar.
O Alexandre sabe de tudo!
Exactamente tudo!
Inclusive que o pai da Bruna é o meu pai!
A mulher empalideceu.
Ela se sentou e mesmo sentindo-se mal perguntou:
- Tu tiveste coragem, Raquel, de contar tudo a ele?
- Precisei contar, mãe - disse Raquel, com voz piedosa e acanhada.
Desculpe-me, por favor.
É que a senhora não imagina o quanto sofro, até hoje, por causa de tudo o que passei.
Não é algo que dá para se esquecer.
Venci alguns traumas graças ao Alex.
Mas ainda tenho muito que superar.
Raquel fez breve pausa, depois revelou:
- Para meu marido me dar um simples abraço, sem que eu não tivesse medo dele, a senhora não imagina como foi difícil.
Creio que jamais poderá entender o que senti, o que sinto e o que vivo até hoje.
Dona Tereza ficou olhando para a filha sem saber o que falar.
Ela não conseguia ser amiga de Raquel.
Agora se colocava novamente em uma posição austera.
Ignorando maiores detalhes sobre a vida da filha, pois não parecia se importar com os sentimentos de Raquel, dona Tereza perguntou:
- Ele assumiu a Bruna como se fosse dele?
Isso é verdade, mesmo?
- Sim. Desde o instante em que decidimos nos casar, ele disse que a Bruna é filha dele.
O Alex não admite que digam o contrário.
Ele se apresentou a ela como pai e não pretendo, por enquanto, revelar outra coisa.
Levantando-se e falando de um jeito rude, Tereza recomendou:
- Não fique adiando, guria!
Tenha logo um filho desse homem.
Todo homem quer um filho, ele merece e isso vai prendê-lo mais.
Ele deve gostar muito de ti para tê-la aceito com todos esses encargos e sabendo de tudo o que te aconteceu.
Raquel abaixou a cabeça e não disse nada, se sentindo humilhada pela situação.
- Tu tomas remédio? - perguntou a mãe grosseiramente.
- Não - sussurrou cabisbaixa ao responder.
- Isso é bom. Arrume um filho logo, viu!
E que seja homem! Reze por isso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Maio 23, 2017 8:47 am

Bruna, que acabara de acordar, procurou pela mãe que, ao vê-la, recebeu-a com abraços, beijos e carinho.
- Mamãe, e o papai?
Sorrindo para disfarçar a mágoa daquele instante, Raquel avisou:
- Saiu cedo, mas já volta.
Ao ver a filha se entristecer, ela anunciou:
- Vamos tomar rapidinho o seu café que eu quero levá-la a um lugar bonito e gostoso, aonde eu ia e brincava muito.
- Onde? Onde, mamãe?
- Surpresa!
Risonha e animada ela propôs:
- Vamos! Vamos depressa!
Brincando com a filha e indo preparar seu desjejum, Raquel saiu da sala deixando a mãe com os próprios pensamentos.
Pouco tempo depois, após uma caminhada, Raquel saía da estradinha e pegava um trilho que, como um túnel, era ladeado de árvores frondosas que cruzavam seus galhos ao meio, mal deixando os raios de sol filtrarem.
Ouvia-se a água batendo nas pedras tal qual um murmurinho que vai aumentando de volume conforme a aproximação.
De mãos dadas, Raquel e Bruna chegaram a um lago transparente e belo cuja bonita cachoeirinha derramava sua queda-d'água sobre as pedras e encantava o lugar.
- Eba! - gritou a menina de alegria.
- Não vá muito além dessas pedras, Bruna.
Ali adiante é fundo - avisou a mãe sorridente ao vê-la feliz.
- Eu sei nadar!
O papai me ensinou!
- Eu sei, mesmo assim quero que fique aqui perto.
Após se atirar na água cristalina, a garotinha avisou, com um jeitinho todo especial, encolhendo-se com graça:
- Tá tão geladinha!
Raquel sabia que Bruna brincava em segurança, pois ela conhecia muito bem o lugar e tinha ciência de que a lagoa possuía uma larga extensão que não era funda e a profundidade aumentava vagarosamente, podendo-se perceber muito bem.
Mais à vontade, Raquel tirou as sandálias e caminhou um pouco na beirada, molhando os pés.
Chegando até um galho de árvore que, como um braço, saía de um tronco que ficava na beira do barranco, parecendo uma gangorra presa em um só lado, ela falou:
- Venha, Bruna! Pule daqui!
A filha obedeceu e fez do galho de árvore um trampolim.
Ao sentir os borrifos d'água, a mãe sorriu e se afastou para perto do gramado, onde se sentou reclinando o corpo em outro tronco de árvore.
Bruna brincava alegre e sua risada soava muito gostosa.
- Deixe-me ir embaixo da queda-d'água, mamãe?
- Agora não. Mais tarde, junto com o papai, você poderá ir.
Olhando a filha, Raquel sorria lembrando-se de como gostava daquele lugar que era o seu refúgio de paz.
Ali, ninguém a incomodava.
Quando menina, brincava e nadava naquela lagoa, que parecia ser encantada em sua imaginação, que criava diversões.
De sua infância e início de adolescência, aquela era a única coisa que oferecia saudade para Raquel.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:25 am

Recostada no tronco, ela cerrou os olhos e se entregou ao ruído alegre da filha querida e do canto dos pássaros que podia ouvir.
Sem saber dizer por quanto tempo ficou ali, talvez cochilando, de repente Raquel se sobressaltou e, olhando assustada, não viu a filha.
Levantando-se às pressas ela chamou em desespero:
- Bruna! Bruna!!!
Raquel sentiu-se gelar, apavorada em pensar no que teria acontecido.
Ela correu, caiu sobre algumas pedras, levantou-se, chamando aflita:
- Brunaaaa!!! Bruna!!! Onde você está?!!!
Foi quando ouviu a voz de Alexandre que a procurava:
- Raquel?!
Ao ver o marido, ela o agarrou sacudindo-o e gritou assustada:
- Onde está a Bruna?!!!
Onde ela está?!!!
O rosto pálido, lavado de lágrimas exibia desespero.
Alexandre segurou-a firme e generoso, avisando surpreso:
- Eu não sei. Acabei de chegar.
Onde vocês estavam?
- Ali! respondeu apontando para o lugar e contou:
- Ela estava brincando!
Eu a tinha sob minhas vistas!
Eu sentei ali e fechei os olhos, acho que cochilei...
O pai, desesperado, correu na direcção da lagoa e subiu em uma pedra alta para ter uma visão melhor.
- Bruna!
Chamou Alexandre em voz alta e grave, sem obter resposta.
- Bruna!
Raquel também gritava o nome da filha até que Alexandre a viu sair com meio corpo de trás de uma árvore, com o dedinho indicador na frente dos lábios, sorrindo e pedindo-lhe silêncio.
Alexandre desceu de onde estava, aproximou-se de Raquel dizendo mais tranquilo e em baixo tom de voz:
- Ela está ali. Calma.
A Bruna estava brincando.
- Onde?! - gritou a esposa.
Calmo, ele olhou na direcção chamando-a com firmeza:
- Bruna, vem cá, filha.
Não assuste a mamãe, não.
A menina chegou rindo e Raquel, muito nervosa pelo susto, abaixou-se, segurou seus braços, agitou-a e chorando disse:
- Nunca mais faça isso, entendeu?
Rápido, Alexandre interferiu dizendo:
- Calma. Já passou, Raquel.
Não faça isso.
Ele pegou Bruna Maria no colo que, agora triste, dobrou-se em seu ombro.
Abraçando Raquel, que ainda chorava, ele as levou para o carro que havia estacionado na estradinha.
Colocando a filha no banco de trás do veículo, falou calmo ao orientá-la:
- Bruna, isso não é coisa que se faça.
Você gostaria que eu sumisse e a deixasse sozinha?
- Não - respondeu a garotinha querendo chorar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:26 am

- A mamãe está chorando porque não quer ficar sem você.
Ela está assustada e o papai também.
Nós a amamos, filha.
- Eu tava brincando...
- Agora eu sei.
Mas na hora em que você sumiu, eu não sabia e fiquei preocupado.
Eu não quero ficar sem você.
Não faça mais isso.
Com sua vozinha meiga ela ainda explicou:
- Eu escutei seu carro e vi você de longe, a mamãe tava dormindo e aí eu me escondi pra brincar.
- Tudo bem, mas agora não vamos brincar mais assim, tá bom?
- Tá bom.
Voltando-se para a esposa, ele observou o machucado sangrando em seus joelhos.
Passando-lhe cuidadosamente uma toalha em torno dos ferimentos, perguntou calmo e generoso:
- Como fez isso, Raquel?
- Eu caí.
Após pequena pausa, Raquel pediu e murmurando, ainda assustada e aflita, querendo explicar:
- Eu quero ir embora daqui.
Quero sair dessa fazenda o quanto antes.
- Chegamos ontem, Raquel!
A viagem foi cansativa e...
Ela começou a chorar e pediu implorando-lhe ao segurar firme em sua camisa:
- Alex, pelo amor de Deus, leve-me embora deste lugar!
Erramos em ter vindo.
Entre os soluços, quase sussurrando, suplicou:
- Eu nunca te pedi nada, mas agora vou, por favor, se você me ama, vamos embora.
Não tenho o que fazer aqui.
Minha mãe não mudou, meus irmãos não mudaram, pensei que eu encontraria uma família, mas só revi conhecidos que parecem não me considerar.
Alexandre a abraçou com carinho entendendo seu pânico.
- Tudo bem, meu amor.
Nós vamos embora, sim, e o quanto antes.
Raquel se acomodou no banco e Alexandre ligou o carro para irem para a casa.
Após seguirem alguns metros, ele perguntou:
- O que vamos dizer para sua mãe?
- Que eu vim vê-la, que já fiz isso, agora tenho que ir.
Ele ficou em silêncio.
Após dirigir mais um pouco, ao virar rapidamente o carro em direcção à outra estradinha, ignorando o caminho, perguntou:
- Aonde vai dar essa estrada?
- Não! - disse Raquel quase num grito ao perceber.
- Por quê?
- Daremos uma volta enorme para chegar em casa.
Estávamos perto. Vamos voltar.
- Precisamos dar uma volta.
Olha seu estado, seu rosto está vermelho, chorando e machucada...
Vamos pensar no que diremos para sua mãe.
- Vamos voltar, Alex! - pediu novamente quase implorando.
- Só se você me disser por quê.
Veja, nem tenho onde manobrar o carro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:26 am

A esposa ficou em silêncio e ele pediu:
- Bruna, dá essa garrafinha de água que está aí no banco para a mamãe.
Voltando-se para a mulher, falou:
- Molhe a toalha e passe nos joelhos.
Ainda estão sangrando.
Ela obedeceu e ficou em silêncio.
Alexandre, puxando conversa, admirou:
- Nossa, que lugar bonito!
Daria um excelente hotel-fazenda.
Apontando à frente, perguntou:
Aquelas casas são dos empregados?
- São - respondeu um pouco mais calma.
Ao olhar o painel do carro e ver acesa uma luz que indicava problemas na parte eléctrica, Alexandre avisou:
- Eh! Caramba! Estamos com algum problema.
Não sei o que é isso, precisamos parar.
- Não! - gritou Raquel.
- Calma. O que é isso, Raquel?
Ao avistar uma casa bem mais estruturada que as outras e observando que a mesma tinha um jipe parado a poucos metros, ele decidiu e falou:
- Vamos parar ali...
Momento em que o carro desligou por completo, sem que Alexandre conseguisse dar partida no motor.
- Não! Não, por favor! - implorou Raquel aflita, em pranto, segurando no braço do marido e desesperada pedia:
- Leve-me embora! Não pare!
- Mamãe! - chamou Bruna, pois se sentia assustada com o que via.
Raquel colocou o braço para trás e procurou se controlar, fazendo-lhe um carinho, confortando-a.
Sem saber o que fazer, Alexandre falou firme e mantendo a calma:
- Raquel, eu não tenho alternativa.
Não consigo ligar o motor.
- Eu pedi para irmos embora - disse ela chorando.
- Eu sei. Desculpe-me, mas no momento...
Deixando que o carro aproveitasse o impulso da pequena descida, Alexandre controlou sua velocidade no freio até para-lo na frente da casa.
Após olhar para a filha, ele pediu baixinho para Raquel:
- Controle-se, bem.
Você vai assustá-la.
Ela tentava se conter, mas parecia empalidecer a cada minuto.
Ao ver o carro parado, Bruna passou por entre os bancos e foi para o colo da mãe.
Raquel sentia-se muito mal.
Estava gelada, sua respiração se alterara e ela fechou os olhos procurando se controlar.
Ao ver Alexandre descer, um empregado se aproximou, perguntando:
- Tá perdido, moço?
- Não. Estou com problemas no carro.
- De onde o moço vem?
- Sou genro de dona Tereza, marido da Raquel, sua filha.
Estávamos passeando e...
- Ah! Eu soube que chegaram ontem!!!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:26 am

- Foi isso mesmo - avisou Alexandre.
Aproximando-se do carro, só então o empregado reconheceu Raquel, pois antes, devido ao reflexo espelhado do vidro, ele não podia vê-la.
- Raquel?! - surpreendeu-se ao chegar perto.
Quando eu ouvi falar nem acreditei, guria!!! Bah!!!
Ela abriu a porta do carro, Alexandre deu a volta, pegou a filha pela mão e o homem, ainda admirado, olhava-a surpreso.
Raquel não queria descer do veículo, mas se viu obrigada.
- Olá, seu Afonso - cumprimentou ela acanhada, estendendo-lhe a delicada mão trémula e gelada.
O senhor tirou o chapéu, cumprimentou-a animado e com largo sorriso.
O marido, em seguida, se apresentou:
- Meu nome é Alexandre.
Sou marido de Raquel.
Indicando para a menina, completou:
- Essa é Bruna Maria, nossa filha.
O senhor Afonso ficou perplexo.
Fora ele quem abrigara Raquel na noite em que o avô a colocara para fora de casa.
Com olhar piedoso, Raquel parecia implorar, ao pedir educadamente e com voz delicada:
- Seu Afonso, por favor, poderia nos ajudar?
Só voltei aqui para ver minha mãe, mais nada.
Nosso carro apresentou um defeito e...
Eu quero sair daqui. Pelo amor de Deus!
- Barbaridade! Vou ver o que te posso fazer, filha.
Tu sabes, né...!
- Esse jipe pode rebocar meu carro até a Casa-Grande - disse Alexandre olhando para o veículo.
- Esse está quebrado.
Ninguém mais consertou desde o acidente que matou as gurias do seu Ladislau.
O senhor olhou para Raquel e avisou constrangido:
- Tem a pick-up lá atrás.
Raquel tremia e olhava para o marido, que disse:
- Pode nos emprestar a pick-up?
- Tu tens que pedir para o seu Ladislau.
Ele é o dono e tá lá dentro - tornou o homem meio sem jeito.
- Não! - decidiu Raquel.
Vamos embora a pé!
- Ficou louca, Raquel? - sussurrou.
É longe! E a Bruna?
Virando-se para o empregado, Alexandre perguntou:
- Vocês não têm
nenhum outro carro aqui?
- Tem, mas já saiu para trabalhar com os empregados ou com o leite.
Isso foi bem cedinho.
Nervoso com a situação, o rapaz decidiu resolver rápido:
- Onde está o dono dessa camionete?
Vou lá falar com ele.
- Não!!! - pediu Raquel.
Alexandre não se importou e se afastou do carro em direcção da casa, subindo os poucos degraus da varanda de dois em dois.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:26 am

Batendo palmas, ele se anunciava.
Uma mulher que parecia empregada surgiu à porta e o senhor Afonso, bem atrás do rapaz, perguntou para a mulher:
- Onde está o seu Ladislau?
- Ali, ó! - disse indicando ao homem que, de costas, estava sentado numa cadeira parecendo aguardá-los, pois, pela janela, assistia à cena que ocorrera lá fora.
Alexandre entrou e ao olhá-lo sentiu-se mal, porém procurou manter as aparências e controlar seus sentimentos.
Aproximando-se se apresentou:
- Sou Alexandre, genro de dona Tereza.
O homem ficou em silêncio e ele continuou:
Vim aqui a passeio, só para minha esposa visitar a mãe.
Estávamos dando uma volta e meu carro apresentou um problema quase aqui em frente.
Ladislau não dizia nada, só o olhava firme.
Alexandre parou de falar, suspirou fundo, andou mais alguns passos, engoliu a seco e completou:
- Preciso de um carro emprestado e pensei no jipe, mas o senhor Afonso disse que está com defeito.
Não há mais nenhum outro e não podemos voltar a pé.
Não por mim ou pela minha esposa, mas é que estamos com a nossa filha e...
Após interromper o que dizia, pela emoção que o fez embargar a voz, completou:
- Ficaria difícil, ela é pequena.
Poderia nos emprestar a sua camionete para guinchar meu carro?
Com olhar firme, quase sem piscar, Ladislau não demonstrava expressão alguma.
Ele moveu sua cadeira de rodas na direcção da porta, passando por Alexandre e seguindo até chegar na varanda, de onde podia ver melhor Raquel e a filha.
Ela, em pé, aguardava aflita a volta do marido.
Ao vê-lo, Raquel segurou Bruna na sua frente e também o encarou firme sem expressão, sem sentimento algum.
Ele se virou para Alexandre, olhou-o bem, abaixou a cabeça e disse ao empregado:
- Vá lá e pegue as chaves.
Ajude o moço no que precisar, viu?
Alexandre agradeceu e, quando ia descendo a escada, ouviu:
- É tua a... guria?! - perguntou Ladislau.
O marido de Raquel se virou e respondeu sereno quase sorrindo:
- É sim. É minha filha, sim.
Não é linda?!
Após encará-lo sem resposta, o rapaz se virou, foi na direcção da esposa e gentilmente a fez entrar no carro junto com a filha.
O veículo foi guinchado até a casa grande, onde Raquel entrou às pressas sem dizer nada.
Ao vê-los chegar daquele jeito, dona Tereza perguntou:
- Essa camionete não é do teu tio?!
A filha não respondeu, foi para o quarto.
Aflita, Raquel começou a fazer as malas.
- Raquel! Estou falando contigo, guria! - reclamou a mãe parando alguns passos após entrar no quarto.
Alexandre, que acabava de chegar, virou-se para Raquel e pediu:
- Calma. Não sei se iremos embora hoje.
Terei que levar esse carro lá na cidade para ver qual é o problema.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:27 am

Ponderada, mas nervosa, a esposa perguntou:
- Onde está a Bruna?
- Na cozinha. A Gorete fez um suco pra ela.
Decidida, Raquel avisou:
- Olha, Alex, o carro vai para a cidade, sim.
Mas iremos todos juntos.
A mãe interferiu e perguntou alterada:
- Como pegaram a camionete daquele homem?!
- Foi preciso, dona Tereza - explicou Alexandre.
Estávamos dando uma volta, meu carro apresentou um problema lá perto de onde ele mora.
Não poderíamos andar seis quilómetros com a Bruna no colo e com esse sol escaldante.
Virando-se para Raquel, a mulher disse nervosa:
- Que carregasse tua filha nas costas, mas não fosse pedir nada aquele verme! Bah!
Raquel a olhou firme e, falando baixo, impôs-se de forma a não se abalar, dizendo:
- Olha, mãe, diante das dificuldades, a primeira mão que se estender devemos aceitar.
Talvez sejam esses os desígnios de Deus.
Quase gritando, dona Tereza retrucou:
- Como tu podes falar assim comigo depois de tudo o que aquele verme te fez?!!!
Barbaridade, chê!
Tu tens que me respeitar, Raquel!
Se eu disse que não deveria pedir a ajuda dele, é porque não deveria!
Em baixo volume de voz, porém muito firme como nunca alguém vira antes, a filha perguntou, com modos frios, ao encará-la de frente:
- Quem é a senhora para me dizer o que devo ou não fazer?
A senhora não sabe o que é ajudar alguém, muito menos sabe o que é pedir por socorro.
Se não fosse ele, quem iria nos ajudar?
É cómodo só exigirmos dos outros e nos acovardarmos quando se faz necessário ajudar alguém.
A senhora nunca ajudou ninguém, nunca soube o que é proteger, nem a mim, que pouco orientou, mãe.
Mas sempre soube exigir.
Não me lembro de ter recebido um carinho seu.
Quando foi que me disse "eu te amo, Raquel"? - Nunca!
A mulher abaixou a cabeça com o semblante sisudo sem dizer nada, e a filha continuou:
- Quando é que me socorreu de um sonho ruim?
Em pouco tempo com a família do meu marido recebi mais carinho e atenção do que em todos os anos em que vivi aqui.
A senhora sempre me criou distante de meus irmãos.
Não seja tão amarga e exigente, mãe. Isso dói muito.
- Não fale assim comigo! - avisou dona Tereza austera.
Se eu estou chamando tua atenção é porque não agiu direito!
Raquel se virou para continuar a fazer as malas e a mãe exigiu, segurando-a pelo braço com gesto rude, ao dizer:
- Olhe para mim quando eu falar contigo!!!
Alexandre não gostou e reagiu ponderado:
- Espere, dona Tereza. Solte a Raquel.
As coisas não são assim, não.
- Mãe - disse Raquel ao se virar para evitar uma discussão com o marido -, fizemos o que foi preciso.
Agora temos que ir embora daqui.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:27 am

Arrogante e orgulhosa, a mulher perguntou:
- Ele te viu?
- Por que quer saber, mãe? - perguntou desconfiada.
- Só quero ter a certeza se aquele verme te viu com a filha dele.
Alexandre alteou o volume da voz e falou gravemente:
- Não fale isso nunca mais!
A Bruna é minha filha!
Raquel sentiu-se gelar e decepcionada revelou ofendida:
- Agora eu entendo por que não foi me visitar e insistiu tanto para eu vir até aqui.
A senhora queria me exibir como um troféu, símbolo de uma vitória.
- Não foi isso! - gritou a mulher.
- Mãe, a vida não é uma brincadeira, eu não sou uma brincadeira! - avisou exigente.
A senhora não esteve comigo quando eu mais precisei.
Morei nas ruas por uns cinco meses e quase morei de novo se não fosse o Alexandre.
Nesse período a senhora nem sabia onde eu estava!
Foi por não querer ser uma mãe assim como a senhora é que eu corri atrás da minha filha, para dizer que a amo e que ela pode contar comigo sempre!
Eu decidi não fazer com ela o que mais me feriu, o que mais me magoou na vida, ser abandonada por minha mãe nas piores dificuldades.
A senhora não tem o direito de me exibir!
Nem tem o direito de me exigir nada!
- Acha que eu fiquei feliz longe de ti, Raquel?!
Chorei noites e noites!
Roguei a Deus para que cuidasse de ti!
Sempre os odiei pelo que te fizeram!
- Mãe, não julgue os outros pelo que a senhora mesma foi capaz de fazer!
Falou Raquel quase num grito.
- Se eles me maltrataram, a senhora não fez diferente.
Quando cheguei aqui na porta desta casa, machucada e ferida acusando o tio Ladislau de tudo o que ele fez comigo, a senhora ficou muda!
Não disse nada em minha defesa e deixou que o vô me espancasse novamente!!!
Eu tinha dezassete anos, não sabia o que fazer, não conhecia nada da vida!
A senhora não me defendeu, nem disse nada a meu favor para se proteger!
Para não macular a sua moral!
A sua imagem!
Para que não descobrissem que você traiu seu marido com o irmão dele!
Em um tom mais brando, quase melancólico, agora com lágrimas a correr pela face, Raquel ainda lamentou:
- A senhora sempre me odiou, mãe.
Talvez por eu fazê-la lembrar da traição que foi capaz de cometer.
Eu faria dezoito anos pouco tempo depois, mas ainda era menor de idade, eu merecia e precisava de protecção, de alguém que me levasse a um médico, que procurasse a polícia, que lutasse por meus direitos, porque, mesmo se eu fosse maior de idade, eu tinha sido agredida, violentada por meu tio...
E em choro copioso ela continuou:
- que era meu pai...!
E a senhora sabia disso!
A senhora não foi diferente deles, mãe.
A senhora só pensou em si, em sua moral...
Quando eu a procurei, um pouco depois de tudo o que houve aqui, a senhora me virou as costas pela segunda vez.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:27 am

Isso foi mais cruel do que quando o vô me tocou desta casa.
Eu estava grávida e não sabia o que fazer!
Não tinha para onde ir!
E a senhora, o que fez?!
Deixou-me com a consciência mais pesada ainda por estar grávida do meu próprio pai!
Desde a primeira vez que lhe reclamei daqueles carinhos nojentos que recebia dele, poderia ter feito algo!
Poderia ter falado com seu marido, aquele que pensava que era meu pai, mas você não disse nada porque tinha medo, porque devia!
O tempo em que vivi nas ruas, recebi da Amélia, aquela indigente que a procurou na igreja, mais carinho do que todo tempo em que vivi com você!
Ela me protegeu até morrer!!!
- Não fale assim comigo! - inquiriu a mulher.
Não tem esse direito!
Alexandre assistia a tudo calado, uma vez que via sua esposa reagir, reivindicando seus direitos, deixando de ser submissa, superando seus temores.
Nesse instante, sem chorar, porém com voz branda e lamentosa, Raquel continuou:
- E qual o direito que eu tenho, mãe?
O direito de me calar?
O direito de me odiar?
O direito de querer morrer por ser tão rejeitada assim?
Encarando-a contou:
- Sabe por que não me matei quando o Marcos me expulsou de sua casa e depois quando fui despedida do emprego?
Porque ouvi do Alexandre o quanto é doloroso o suicídio.
Porque encontrei nele alguém que me amava, que me protegia, alguém que me respeitava e respeita, que me deu o valor que não recebi de minha própria família!
Como é importante uma palavra amiga, um conselho de alguém que nos ama, num momento difícil...
Não queira exigir dos outros aquilo que não é, aquilo que não tem capacidade de fazer.
Eu creio que tenha pedido a Deus por mim.
Eu acredito que tenha sentido minha falta, mãe.
Mas acho que não pensou que eu sentia a sua...
Que eu precisava muito, muito da senhora, mãe!
Por isso, não acho justo a senhora torturar alguém com a minha imagem ou com a minha presença.
Odiá-los pelo que me fizeram não é correto porque você não agiu diferente deles.
Tadeu me contou o que vem fazendo com o vô.
Desde que cheguei aqui, até agora, sinto algo estranho que não sei o que é.
O seu problema, mãe, é a mentira!
E querer impor aos outros as suas determinações, a senhora não é diferente deles, reconheça isso!
- Aquele velho miserável merece morrer!
- A senhora é Deus para julgar assim?
- Não fale desse jeito comigo, Raquel!
- Vamos parar com isso - pediu Alexandre que decidiu intervir, não suportava mais a situação.
Não viemos aqui para discutir.
Voltando-se para a sogra pediu:
- Desculpe-nos se não agradamos, mas iremos embora o quanto antes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:27 am

A aproximação de Bruna, que chegava correndo, fez com que Raquel largasse o que estava fazendo e fosse em sua direcção; encontrando-a próxima da porta, pegou a mão da filha e perguntou, ao conduzi-la novamente para fora do quarto:
- Vamos almoçar, meu bem?
Ao se ver a sós com a sogra, Alexandre aproveitou a oportunidade e calmamente falou:
- Dona Tereza, eu só quero que uma coisa fique bem clara:
Bruna é minha filha. Entendeu?!
A mulher o olhou, não disse nada e saiu do quarto.
À tardinha Alexandre, conversando com a esposa, explicava:
- Amanhã cedo nós sairemos daqui e vamos até a cidade.
Ficará mais fácil para eu chamar um guincho do seguro.
Ficaremos num hotel, é mais tranquilo.
- Eu queria ir embora hoje, Alex - avisou Raquel descontente.
- Eu sei, eu também, mas não dá.
Já está anoitecendo.
Após o jantar, Bruna se balançava em uma cadeira de vime que ficava na varanda e Raquel, a certa distância, a olhava.
Alexandre se aproximou e a abraçou perguntando:
- O que foi? Você está tão com o semblante tão triste.
Puxa, Raquel! Eu não a trouxe aqui para isso.
Se eu soubesse...
- Foi bom eu ter vindo.
Enxerguei realmente tudo como é.
Nada mudou e agora não terei mais dúvidas.
- Como assim?
- Alex, há alguma coisa errada com meus irmãos, como sempre houve.
Eles ainda me ignoram.
- Quer que eu pergunte por quê?
- Não. Vou pôr a Bruna para dormir e depois conversarei com eles.
Após poucos minutos, ela comentou:
- Você reparou que minhas cunhadas não conversaram comigo?
- Reparei, sim.
Elas vêm e vão e estão sempre caladas.
- Eles afastaram as crianças também, não deixando que brincassem com a Bruna.
A mulher do Pedro resolveu ir ficar na casa da mãe.
- Eu achei isso estranho, mas...
Pouco tempo depois, após a filha ter dormido, Raquel procurou pelos irmãos, que estavam sentados na escada do outro lado da casa.
- Tadeu e Pedro, eu preciso falar com vocês.
Os irmãos a olharam e ela os chamou:
- Daria para vocês entrarem um pouquinho?
Será melhor conversarmos aqui dentro.
Já na grande sala os três se dispuseram sentados em torno da mesa e Raquel falou:
- Nunca tivemos a oportunidade de conversar assim e ser directos, verdadeiros.
Eu voltei para visitar vocês e sinto que algo está errado.
Gostaria de saber o que é.
Surpreso com a atitude da irmã, que sempre fora calada, Tadeu respondeu:
- Não há nada errado! Bah!
Tu tá vendo coisa que não existe!
- Há sim. Mal vi minhas cunhadas e meus sobrinhos, vocês nem falaram connosco direito e...
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:28 am

- Passamos a manhã inteira com teu marido e mostramos tudo - defendeu-se Pedro.
Fomos a cavalo até o ribeirão da "montanha velha" pra ele conhecer...
Depois, quando voltamos, ele perguntou pra mãe onde tu estavas e resolveu pegar o carro pra ir atrás de ti e de tua guria.
Não houve mais tempo depois disso.
- Eu quero dizer que minha presença parece que os incomoda.
Tadeu abaixou a cabeça e Pedro a olhou.
Tímido, Tadeu resolveu revelar:
- Olha, Raquel, o tipo de vida que tu tens levado não agradou a gente.
- Que vida eu tenho levado?
- Vamos ser honestos, tá? - decidiu Pedro.
Assim que acusou o tio daquilo tudo, nós não acreditamos, é lógico!
- Por quê? - perguntou a irmã sentindo um nó na garganta e imensa vontade de chorar.
- Fazia tempo que o tio vinha nos dizendo que tu irias dar trabalho pra gente.
Que tu ficavas se assanhando pra ele e se estava fazendo isso pra ele, fazia pra os outros também.
Eu mesmo ficava intrigado quando tu sumias.
- Por que não perguntou onde eu estava?
A mãe sabia que eu gostava de ficar na cachoeirinha brincando.
Aquele lugar se tornou um local "encantado", era o meu "castelo", o "mundo" onde eu imaginava brincadeiras, pois não tinha companhia...
- Não sei por que não te perguntei.
Só que, assim que tudo aconteceu, não pudemos acreditar porque pensamos que acusaste o tio pra se vingar das surras que levaste por ele ter avisado sobre o negrinho que te namorava.
Tadeu ficava calado e Pedro continuou:
- O tio sempre foi um pai pra gente, minha irmã.
Ele sempre teve moral.
Não pudemos acreditar naquilo.
Depois de um tempo, a mãe nos procurou e disse que tu estavas morando com o Marcos e mostrou uma carta da Alice, onde ela dizia que tu estavas dando trabalho.
Pedro se calou por uns instantes, mas depois revelou:
- A Alice disse que tu estavas saindo com "um e com outro".
Tadeu, que até então não se pronunciara muito, argumentou:
- Agora, de repente, tu apareces casada e traz uma guria junto.
Tudo tá muito confuso, Raquel.
Olha a idade dela!
Mas tu não tens que dar explicações, não.
Se ele te aceitou... Tá certo.
Sejam felizes! Bah!
A irmã estava decepcionada com o que ouvia.
Raquel respirou fundo, criou coragem e falou com sua voz doce, porém firme e com postura inalterável:
- Pelo que estou percebendo a mãe nunca contou tudo a vocês.
Vamos esclarecer, de uma vez por todas, o que eu deveria ter feito desde o começo.
Os irmãos se entreolharam e Raquel continuou:
Aconteceu assim:
desde pequena, quando eu tinha uns oito ou nove anos, percebi certos carinhos estranhos por parte do tio Ladislau...
Os irmãos, atentos, surpresos e assombrados, ouviram tudo até o fim.
Mesmo com a voz embargando em alguns momentos, Raquel não se deteve e, no final, os irmãos estavam perplexos, boquiabertos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 74032
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 13 de 15 Anterior  1 ... 8 ... 12, 13, 14, 15  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum