Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:28 am

Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, mas depois Pedro virou-se para Tadeu e perguntou:
- Lembra-te que, assim que a Raquel foi-se embora, eu achei o casebre revirado e te chamei para mostrar as amarras cortadas e desfiadas, comida embolorada e água...?
- Lembro! Bah!!! - confirmou Tadeu, atordoado, e completou:
Tinham manchas de sangue e eu até encontrei aquela capa e o bornal do tio, mas não quisemos acreditar, pensamos que o negrinho tinha roubado. Barbaridade!!!
Pedro pendeu a cabeça e Raquel disse:
- Foi lá mesmo, no casebre perto do ribeirão da "montanha velha", que ele me prendeu.
Para me soltar, fiquei quase a noite inteira roendo aquelas tiras com os dentes, igual a um animal.
- Desgraçado! Maldito!!! - gritou Pedro dando um soco forte na mesa.
Eu vi o lugar e ainda pensei...!
Não quis acreditar!
Era mais fácil dizer que tu estavas mentindo pra não ter remorso de não ter te acudido.
Não tinha como desconfiar do desgraçado do tio.
- Calma, Pedro - pedia Raquel.
Não fique assim, não adianta mais.
- Raquel - perguntou Tadeu -, tu tens certeza de que ele é teu pai?
- Foi isso o que ouvi da mãe, quando a procurei desesperada por estar grávida e morando nas ruas com uma indigente.
Se quiserem chamá-la agora para esclarecer tudo novamente...
Estou pronta para esse "frente a frente".
- E tua filha? - tornou Tadeu.
Raquel abaixou a cabeça e respondeu:
- Agradeço a Deus por ela ser perfeita, pois... por ser filha do próprio avô...
Alexandre a assumiu como filha dele.
Ele não quer que Bruna saiba a verdade.
- Teu marido sabe dessa barbaridade, mesmo?! Chê!!!
- Sim. Ele sabe de tudo.
Como eu disse, foi o Alexandre quem me recolheu, fez superar tantos desafios e aceitar minha filha sem lembrar de como a concebi.
Pedro estava inconformado.
Ele se levantou e, quase gritando, esmurrou a mesa novamente ao falar:
- Vou matar aquele desgraçado! Miserável!!!
Raquel foi em sua direcção e o abraçou, implorando:
- Pedro, por Deus, por seus filhos, eu te peço que não faça nada.
O tio já é vítima de si mesmo.
Não suje as suas mãos, por favor!
- Não posso me conformar, minha irmã!
Eu tenho uma filha e...
- Estou te pedindo, por favor, por tua filha...
Ela não merece ter um pai assassino.
Já me vi em muito desespero por causa dessa história, superei medos e traumas, mas ainda vivo alguns conflitos por tudo o que aconteceu.
Não me deixe com mais esse remorso de saber que um de vocês fez algo contra a vida dele por causa do que contei.
Eu temia que soubessem a verdade e reagisse assim, mas não queria que continuassem a duvidar da minha moral.
O Marcos acreditou em mim, mas se deixou levar pelas mentiras de Alice, como eu já contei.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:29 am

Hoje ele sabe a verdade e nós nos damos tão bem.
Gostaria que fosse assim com vocês.
O irmão a encarou sentindo verdadeira compaixão e arrependimento.
Raquel, preocupada, pediu novamente:
Não me deixe com esse peso na consciência, já sofri muito, meu irmão. Por favor.
Alexandre que, vagarosamente, entrou na sala, fazendo-se ouvir pelos passos no assoalho, parou ao chegar próximo da esposa.
Tadeu aturdido ainda olhou para o cunhado e disse:
- Desculpe, Alexandre.
Pensamos muito mal de ti, homem!
Ele deu um leve sorriso forçado sem dizer nada e Pedro, ainda inconformado, reagia:
- Canalha!!! Se pego esse...!
Ele nos enganou!!!
- Pedro, eu te peço, não suje suas mãos.
Não me deixe com esse remorso.
Olhando para a irmã, Pedro falou:
- Não sei como pode pensar assim, Raquel.
- Veja, Pedro, eu estou bem.
Tenho uma filha linda.
Eu a amo muito.
Tenho o Alex, que é um marido maravilhoso.
Sou feliz! E ele?
A punição à qual ele se condenou é pior do que a morte.
Tadeu se levantou e, andando de um lado para o outro, perguntou:
- Por que a mãe nunca nos falou?
- Não a culpe, Tadeu.
Ela se acovardou quando não me defendeu das surras que o vô me dava, deve ter ficado em choque com o que aconteceu, sofrido e sentido muita vergonha, também.
Se quiserem tirar satisfações com ela, aproveitem a minha presença aqui, mas não a condenem.
Contudo quero que me prometam que não vão fazer nada contra ele.
Pedro a encarou, sentindo-se arrependido e a abraçou dizendo:
- Raquel, tu és capaz de perdoar a gente?
Perdoa?! A gente precisa do teu perdão.
- Claro, Pedro.
Eu amo vocês.
Tadeu, mesmo meio sem jeito, a envolveu com carinho e lágrimas nos olhos, mas não conseguiu falar.
Ao se recolherem no quarto, Raquel olhou a filha que dormia tranquila e virou-se para o marido, que estava ao lado, fitou-o por um tempo, até que ele, sem entender, sorriu e perguntou generoso:
- O que foi?
Ela o abraçou com força e disse baixinho:
- Amo você, Alex.
Obrigada por você existir.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:29 am

Capítulo 21 - Doação de órgãos

Na manhã seguinte, bem cedinho, Raquel despertou com o carinho delicado da mãozinha de Bruna, que tocava seu rosto.
Alexandre não estava do seu lado e ela olhou para a filha que sorrindo dizia:
- Bom dia, mamãe!
- Bom dia, meu amor!
- Mamãe - avisou a garotinha com voz doce e meiga -, o papai já levantou.
- É tão cedo, Bruna.
Por que não está dormindo?
- Eu tentei.
Fechei os olhos assim, oh! - disse a pequena espremendo os olhinhos.
Mas não adiantou nada.
Por isso eu vim aqui dormir com você.
Raquel sorriu, levantou-se e foi se arrumar para ir à procura do marido.
Alexandre mexia em seu carro, tentando encontrar o defeito.
Ao ver a esposa parada na escada da varanda, ele sorriu e avisou:
- Você nem vai acreditar!
Foi um cabo da parte eléctrica que talvez, pela estrada esburacada, tenha se soltado de leve por não estar bem preso, por isso a luz do painel acendeu.
Quando o cabo acabou de desligar, o carro "apagou" por completo.
Indo a seu encontro Raquel o beijou e perguntou sorrindo:
- Então posso pegar as coisas para irmos?
- Fique, Raquel! - com jeito seco a mãe pediu, da varanda, enquanto os observava.
Com a educação que lhe era própria, a filha argumentou:
- Obrigada, mãe.
Mas é que, realmente, preciso ir.
A mulher não respondeu nada.
O marido de Raquel, que havia se voltado para o carro, falou quase sussurrando, com a cabeça sob o capo que estava levantado:
- Se quiser, pode arrumar as coisas agora mesmo.
Vou pedir para seu irmão dirigir o meu carro até a casa do seu tio.
Tenho que devolvera pick-up o quanto antes.
Raquel empalideceu imediatamente e o marido tentou tranquilizá-la, dizendo:
- Tudo bem. Fique calma, estarei com seu irmão e voltaremos logo.
Chegando à casa do cunhado de dona Tereza, eles ouviam alguns gritos em meio a gemidos de lamentos.
Ao olhar para Pedro, Alexandre assustou-se ao perguntar, sem palavras, o que era aquilo.
- Não se intrigue! Bah!!! - avisou o cunhado com seu sotaque carregado e bonito, bem típico da região.
É minha tia.
Ficou assim desde que as três gurias morreram.
Após poucos segundos, enquanto Alexandre ainda fechava a pick-up, ele lembrou:
- Agora eu sei o que pesa na consciência.
Ela também jurou contra minha irmã.
Alexandre, ao entrar na casa chamando, viu a cadeira de rodas de Ladislau, que novamente parecia esperá-lo.
Pedro ficou à porta e o cunhado entrou, dizendo:
- Bom dia! Com licença.
Vim devolver as chaves.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:29 am

A camionete está estacionada no mesmo lugar que a peguei.
Obrigado. Muito obrigado, mesmo.
Ajudou-nos muito.
Ladislau moveu-se até ele, pegou-lhe a chave da mão e balançou a cabeça concordando.
Sem ter mais nada a dizer, Alexandre se despediu rápido e saiu da sala seguindo Pedro, que já estava próximo de seu carro.
Ladislau foi até a varanda e antes de vê-lo descer os poucos degraus chamou:
- Ei, rapaz!
Alexandre se virou e ele gesticulou para que voltasse.
- Pois, não? - perguntou sentindo um mal-estar que parecia lhe correr por todo o corpo como um tremor frio que chegava a estonteá-lo.
Encarando-o com modos frios, o senhor curvo, devido à altura, deixando perceber que fora muito forte, perguntou em baixo e grave tom de voz, espremendo os miúdos olhos azuis.
- Eu preciso saber de uma coisa.
Aquela guria, filha de Raquel, é tua filha mesmo, homem?!
Alexandre sentiu-se gelar.
Teve que se conter muito, pois, mesmo vendo-o naquelas míseras condições, sentiu forte desejo de agredi-lo por tudo o que fizera à sua doce e indefesa Raquel.
Rapidamente lembrou-se do que aprendera sobre o perdão e das conversas que tinha com sua irmã Rosana sobre o facto de ter de controlar seus impulsos.
Em pensamento, o rapaz pediu: "Deus, me ajude".
Respirando fundo, olhando-o nos olhos, Alexandre ergueu a cabeça respondeu ponderado:
- Sim. O pai de verdade sou eu mesmo.
Quanto ao pai biológico, esse pouco nos importa.
Dizendo isso, ele sentiu-se tremer pelo nervoso, mas terminou de descer as escadas, entrou em seu carro e se foi.
Que grande prova para Alexandre a de ter que se conter diante daquelas circunstâncias.
São em rápidos e corriqueiros acontecimentos que demonstramos nosso aprendizado e fé.
No carro, Pedro perguntou o que o tio havia questionado, pois ele não conseguiu ouvir.
Alexandre contou, e depois solicitou:
- Atenda ao único pedido que a Raquel te fez, Pedro.
Não faça nada contra ele.
Ela já sofreu muito e não sei o que pode acontecer se ainda tiver esse remorso, pois foi por ela que vocês souberam de tudo.
- Nem cheguei perto do asqueroso por causa disso.
Estou até suando frio! Bah! - expressou o cunhado inconformado.
Não dormi esta noite e ainda estou passando mal.
Após pequena pausa revelou:
- Eu e o Tadeu pensamos que tinha sido o namoradinho que a tivesse prendido naquele casebre.
Essa ideia não me saía da cabeça.
Tu nem imagina como estava o lugar!
Barbaridade! Chê!!!
Alexandre tinha que se fazer firme para controlar os sentimentos, ao ouvir aquilo que tanto o magoava, pois em sua mente passavam cenas de como deveria ter sido.
Pedro não deteve as lágrimas e, após secar o rosto com as mãos num gesto um tanto bruto, devido ao ódio que sentia, esmurrou o painel do carro, dizendo quase num grito:
- Diabo!!! E eu ainda concordei com o Tadeu!
- Como assim?! - perguntou Alexandre que se assustou.
- Não conte nada pra a Raquel, não.
A gente agiu errado.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Maio 24, 2017 10:30 am

- O que aconteceu, Pedro?!
- Eu e o Tadeu demos um fim no negrinho. Pobre moleque!
- O quê?!!! - perguntou o cunhado surpreso, que até parou o carro, pois se sentia mal.
Questionando em seguida, incrédulo:
- Vocês não fizeram isso?!
- Pensamos que tivesse sido ele, porque eu e o Tadeu, quando soubemos pelo tio que ele queria namorar a Raquel, tivemos umas peleia com o cabra.
- Peleia? O que é isso? - perguntou Alexandre.
- Peleia? Ê pega.
Briga. Sova, bah!
Quebramos o guri umas três vezes, numas quebradas por aí.
Por isso acreditamos que ele ficou com raiva e fez aquilo tudo com nossa irmã, prendendo a Raquel lá no casebre.
Depois, pensamos que ela acusou o tio Ladislau de tê-la violentado por vingança pelas surras que levava do nosso vô.
Ficamos com dó da guria, mas tinha que obedecer nosso avô, chê!
Alexandre debruçou-se no volante não querendo acreditar no que ouvia, e Pedro confessou:
- Pensamos que por causa do negrinho a nossa irmã havia se perdido.
Ficamos com tanta raiva do cabra que pegamos ele e demos um fim.
Com a voz embargada, Pedro desfechou:
- O infeliz morreu jurando que não teve nada com ela.
Atordoado, o cunhado perguntou com voz fraca:
- Quem mais sabe disso?
- Agora só tu, né, homem!
Depois de pequena pausa Pedro desabafou:
- Não podíamos deixar do jeito que tava.
Tu tinhas que ver como tava o casebre, tinha que ver como estava a Raquel quando chegou na frente da Casa-Grande da fazenda.
Ela ficou presa lá por seis dias.
Tava toda imunda, machucada e rasgada de dar dó.
Após pensar um pouco Alexandre perguntou:
- Não foram por três dias que Raquel sumiu?
- Não! Bah! Que isso?!
Eu ouvi, ontem, ela falando que ficou três dias lá, mas acho que ela "perdeu o tempo" e não contou direito porque perdeu a noção, desmemoriou, porque ela ficou fora, mesmo, por seis dias.
Tenho certeza!
- Por que não foram conversar com ela quando tudo aconteceu?
Porque não foram até a polícia?
- Não sei, homem - disse Pedro atordoado.
Sabe, nós não conversávamos muito, não.
A mãe sempre separou a Raquel da gente e só agora eu entendo por quê.
O nosso vô sempre deu as ordens e a gente foi acostumado assim.
Hoje é que eu penso diferente.
- Como faz falta um diálogo, Pedro.
Se vocês tivessem conversado mais...
Se tivessem sido amigos...
- Mas ela era guria pequena e miúda.
Não dava pra gente conversar.
Já éramos homens!
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:47 am

- Eu tenho duas irmãs, uma delas que é a mais nova, a Rosana, é minha melhor amiga.
Não sei o que faria sem ela.
Somos companheiros, confidentes, parceiros...
Vendo que não adiantaria mais, pois só poderia torturá-lo, Alexandre se calou.
Ficou perplexo com o que ouvia e não poderia fazer nada, nem mesmo contar para Raquel.
Ela poderia se sentir pior, acreditando ser culpada pelo crime que os irmãos cometeram.
Mesmo perturbado, ele ligou o carro e seguiu decidido a sair dali o quanto antes, entendendo que tudo o que precisava já havia feito e realizado.
Após saírem da fazenda, Alexandre resolveu aproveitar bem as férias.
- Vamos! - dizia ele a esposa para convencê-la.
É uma pousada e tem lindos chalés de madeira e um distante do outro, ao pé da serra, com lareira, tapetes e colchas de pura lã de carneiro, com dois ou três quartos, hidro...
É um lugar lindo!
Principalmente nessa época do ano, onde tudo deve estar florido.
Se não quiser o chalé, ficamos num apartamento.
É bem espaçoso e tem dois quartos, sala...
- Minha vontade mesmo, depois de tudo o que passamos, é voltar pra casa e...
Ah! Quero abraçar seus pais, beijá-los muito, muito, muito!
E me esconder entre eles para me sentir segura.
Agradecê-los por me adoptarem... por me darem você de presente - sorriu feliz.
Alexandre sorriu também, envolveu-a com um abraço e perguntou, com jeito manhoso:
- E comigo, você não se sente segura?
- Seu bobo! Claro que sim!
- Então vamos ficar nessa pousada.
Temos mais de vinte dias de férias pela frente!
Depois você terá todo o tempo que quiser para pegar meus pais e abraçá-los, beijá-los muito, muito, muito!
Mas antes terá que fazer isso comigo, ou não a levo para casa.
Raquel, bem mais alegre e segura, concordou.
Eles passearam e se distraíram o resto das férias, conhecendo lugares maravilhosos que os faziam esquecer tudo o que tinham passado nos dois dias em que ficaram na fazenda.
Ao chegarem à residência do senhor Claudionor, foram recebidos com imenso carinho.
- E lá?! Como foi?! - perguntou dona Virgínia eufórica.
- Obrigado por você ser como é - disse Alexandre abraçando-a.
Puxando também seu pai para um abraço, completou:
Pelo amor que tem por nós, pelo carinho, pela atenção, pelos ensinamentos...
Agradeço a Deus por vocês existirem.
Sem deter as lágrimas, falou com a voz embargada:
- Não conseguiria viver sem vocês.
Sem dizer uma palavra, Raquel entrou no meio deles, os abraçou emocionada e chorando.
Os pais não conseguiam entender, apesar de corresponder ao carinho, e dona Virgínia perguntou chorosa:
- Mas o que houve?
- Precisamos descansar um pouco, mãe.
Depois conversamos e contamos tudo.
Após se recomporem da viagem, Alexandre e Raquel comentaram tudo o que tinha acontecido.
O casal ficou perplexo e o senhor Claudionor argumentou:
- Não fiquem tristes com isso.
Já passou e vocês não perderam a viagem, pois aproveitaram para outros passeios, isso é o que importa.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:48 am

Mas não posso deixar de ficar orgulhoso por sermos uma família de verdade.
Alexandre, Raquel e Bruna não queriam voltar para o apartamento, como se pudessem se sentir mais seguros ali.
Alexandre não deixava a esposa por um minuto, parecendo assumir aquele jeito, como diziam, "grudento", de ficar perto dela, acompanhando-a nem se fosse só com o olhar, a todo lugar que Raquel ia.
Mesmo brincando com a sobrinha, Rosana percebeu o comportamento diferente do irmão e o advertiu baixinho:
- Ela não vai fugir não, Alex. Dá um tempo!
Alexandre estampou um largo sorriso para a irmã e a olhou de um jeito estranho, meio maroto.
- Alex, você está com uma cara de safado!
Não me esconda nada. Alex, o que foi?
- Nada! - respondeu ele sorrindo e, levantando-se rápido feito um moleque, deu-lhe um beijo no rosto e a deixou falando sozinha, indo atrás de Raquel, abraçando-a com carinho.
Após alguns dias, voltando a se acostumar com a rotina, Alexandre retornou ao trabalho.
Duas semanas depois, assim que chegou do serviço e tomou seu banho, Raquel, após deixar a filha entretida com um brinquedo, procurou pelo marido e pediu:
- Alex, não vá brincar com a Bruna agora não, preciso conversar com você primeiro.
- Diga - pediu sorrindo ao abraçá-la e balançá-la de um lado para outro.
- Hoje eu fui acompanhar a Rosana ao médico devido às dores de cabeça que ela anda sentindo.
Havia uma vaga na agenda do médico e eu resolvi passar também.
- Você está bem, Raquel? - perguntou atento, acomodando-se e puxando-a para que se sentasse em seu colo.
- Estou. É que...
Percebendo algo diferente na voz trémula da esposa, insistiu mais sério:
- Você está nervosa, por quê? Há algo errado?
Raquel parecia tensa e atrapalhava-se para relatar o que acontecia, mas Alexandre procurou ficar tranquilo e esperar o desenrolar do caso.
- É que, quando chegamos de viagem, lembra? - ela perguntou.
- Claro, lembro.
Não sei o que, mas lembro que chegamos de viagem - disse ele, quase sorrindo, para deixá-la mais à vontade.
A esposa sorriu e mesmo com sua voz doce comentou apreensiva:
- Decidimos que esperaríamos um pouco para ter um filho, né?
Daí nós fomos ao médico para que me receitasse um remédio contraceptivo, lembra?
- Claro. Lembro, sim - respondeu calmo.
Não suportando a demora, com expectativa perguntou:
E...?
- O médico orientou que eu esperasse alguns dias após o ciclo menstrual para começar a tomar o remédio.
Hoje eu fui lá e ele me pediu para fazer um exame de gravidez, porque esse ciclo não aconteceu até agora.
Nem cheguei a tomar o remédio.
Está bem atrasado.
Acho que foi na viagem... afirmou ao murmurar sorrindo e trémula.
O marido parecia ter perdido o fôlego.
Alexandre não sabia se sorria ou se chorava.
Abraçando-a com carinho, beijou-a com ternura, embalando-a nos braços.
A emoção o fez perder as palavras e só muito depois ele disse emocionado:
- Eu te amo, Raquel.
Eu te amo, tanto. Deus! Obrigado.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:48 am

- Calma - disse a esposa também chorando de emoção - não temos certeza ainda.
Somente quando se acalmaram das fortes emoções, ele perguntou:
- A Rosana já sabe?!
- Não. Eu não contei.
- Nada?! Nem sobre nós...!
- Não. Não contei nadinha! - riu com gosto.
- A Rô vai me matar quando souber!
E você já fez o exame?
- Não - respondeu Raquel sorrindo e chorando ao mesmo tempo.
Estou com medo.
Alexandre não poderia se sentir mais feliz e disse satisfeito ao abraçá-la:
- Amanhã cedinho eu vou com você.
Quero acompanhá-la em tudo, meu amor.
Dois dias depois, Alexandre não cabia em si.
O teste de gravidez dera positivo.
Para fazer surpresa, eles combinaram que ainda não contariam nada e que só no fim de semana dariam a notícia a todos de sua família.
No sábado, ao chegarem na casa do sogro, Raquel pediu baixinho:
- Deixe-me contar pra Rô primeiro e sozinha?!
- Claro! Vai lá!
Dona Virgínia, desconfiada com o comportamento e o cochicho dos dois, perguntou ao filho o que estava acontecendo, ao ver a nora se afastar.
Não conseguindo se conter, Alexandre, que não tirava o sorriso do rosto, chamou seu pai e contou a novidade.
Vilma e Valter, que estavam lá a passeio, compartilharam da novidade e da felicidade, com lágrimas de alegria e muita emoção.
- E a Bruna, ela já sabe?! - perguntou dona Virgínia entusiasmada e chorando.
- Já, nós contamos ontem à noite para ela.
Eles abraçavam o novo pai cumprimentando-o, quando ouviram um grito.
- É a Raquel! - exclamou Alexandre assustado com o grito da esposa, saindo correndo para procurá-la.
Ao entrar no quarto da irmã, ele trombou com Raquel, que gritava:
- A Rosana!...
Alex, a Rosana!
- Onde ela está?! perguntou o marido.
- Aqui! - mostrou Raquel, em desespero, indo até o banheiro.
Alexandre trouxe a irmã no colo e a colocou sobre a cama.
Rosana parecia desmaiada.
Raquel, em crise de nervos, chorava muito ao explicar o que acontecera:
- Eu entrei no quarto, chamei e ela não respondeu.
Bati na porta do banheiro, ainda brinquei que tinha uma novidade, se ela demorasse eu não contaria e fiquei esperando.
Como ela não respondia e eu achei que estava demorando muito, abri a porta e a vi no chão.
Rosana foi levada ao hospital.
As horas de espera deixavam todos aflitos.
Vilma havia ficado em casa com as crianças e dona Virgínia, depois de ter se sentido mal no hospital, fora levada para casa por Valter.
O senhor Claudionor, Alexandre e Raquel aguardavam ansiosos por qualquer notícia que pudesse vir.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:48 am

Preocupado com o estado da esposa, o marido sugeriu:
- Raquel, é melhor eu levá-la para casa.
Você está sem se alimentar, está pálida.
Não é bom ficar aqui.
Faremos o seguinte, eu volto com você, tomo um banho, como alguma coisa, depois o Valter me traz, eu fico aqui e ele leva meu pai.
Não vai adiantar ficarmos todos.
Certo, pai? - perguntou o filho, virando-se para o senhor Claudionor que estava ao lado.
- É melhor sim, Raquel.
Lembre-se do seu estado.
Você precisa descansar, filha concordou o homem.
Decidindo pelo melhor, Alexandre levou a esposa para casa.
Raquel ficou lá e ele voltou para o hospital após um banho e uma alimentação leve.
Dona Virgínia chorava muito e Raquel não se separava dela.
No dia seguinte, a notícia chegou através de Alexandre, que voltou para casa.
- A Rosana teve um aneurisma cerebral.
O silêncio reinou por longos minutos.
Elas ficaram caladas e Alexandre, com olhos vermelhos, nervoso e lágrimas a correr pela face, sentou-se e desabafou:
- Estou desesperado...!
Segurando a fronte com as mãos, apoiando os cotovelos sobre a mesa, ele chorou muito.
Dona Virgínia, incrédula e parecendo não entender, ignorando a seriedade do caso, perguntou meio atordoada:
- Ela vai ficar boa, não vai?
Procurando se recompor, Alexandre segurava o choro, ao dizer:
- O pai precisa de você lá no hospital, mãe.
Lá vão explicar direito pra você...
O motorista da firma está aí, ele vai nos levar porque eu não tenho condições de dirigir.
Chorando, Raquel abraçou-se ao marido, e ele a envolveu com carinho.
Vilma, apesar de chorar aflita, mais uma vez, ficou em casa com as crianças.
Pouco depois eles chegavam ao hospital, onde o médico que solicitou a presença dos pais os aguardava numa sala privativa.
- Sou o doutor Cardoso, neurologista.
Eu e minha equipe estamos cuidando de Rosana desde que chegou aqui.
Ela entrou em coma profundo, diagnosticamos um aneurisma cerebral.
Depois de breve pausa, o médico explicou brandamente:
- Bem, aneurisma é a formação de um saco ocasionado pela dilatação das paredes de um vaso sanguíneo.
O rompimento dele provoca uma hemorragia fulminante.
O médico fez pequeno intervalo, mas continuou comovido:
- Sinto muito. Acabamos de confirmar em Rosana a morte encefálica.
Dona Virgínia, após um gemido de lamento, abraçou-se ao esposo, entregando-se ao choro compulsivo de aflição e muita dor.
O senhor Claudionor tentou ser forte, mas não resistiu, lamentou chorando:
- Deus! Minha filha... nossa filhinha...! Não.
O médico, que também estava em situação difícil, teve que avisar:
- Eu sei que é um momento de dor e angústia, mas não há nada que possamos fazer.
A morte encefálica é irreversível, só depende de horas ou de desligarmos os equipamentos que ainda mantêm poucos órgãos funcionando.
Por essa razão eu tenho que pedir... ou melhor, avisar:
a Rosana é uma doadora incondicional.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:48 am

Diante do quadro que se apresenta, sou porta-voz do pedido de doação de seus órgãos.
Muitos podem continuar vivendo com a decisão de vocês.
Novo intervalo pequeno se fez e o médico perguntou compadecido, com voz meiga, entendendo a dor daquele momento:
- A família autoriza a doação?
Dona Virgínia pareceu não ouvir e o pai de Rosana ficou reflectindo sobre o pedido, depois disse:
- Preciso conversar com meus outros filhos, doutor.
Podemos pensar?
- Claro. Mas, por favor, perdoem-me por ter que avisar, vocês terão que ser breves.
Seus filhos estão aqui?
- O Alexandre e a Raquel sim, eles estão lá em baixo, mas não sei se a Vilma e o Valter chegaram, o Valter talvez... - respondeu ele atordoado.
Dona Virgínia chorava muito e o senhor Claudionor estava como que em choque, tudo fora muito rápido.
Não demorou e Alexandre, Raquel e Valter chegavam assustados por terem sido chamados da sala de espera com urgência.
Após serem avisados sobre a solicitação da autorização para a doação de órgãos, Raquel abraçou-se a dona Virgínia, enquanto Alexandre e Valter ficaram chocados e pensativos.
Forçando-se a se recompor, o irmão perguntou:
- Doutor Cardoso, o que é a morte encefálica?
- É a inibição irreversível das actividades cerebrais.
Ela pode ser causada por uma pancada, que é o traumatismo craniano, por um tumor ou uma lesão, como é o caso de sua irmã.
- Desculpe minha ignorância - tornou Alexandre - mas como se tem certeza disso, digo, como se tem certeza da morte encefálica?
- É possível que diagnostiquemos a morte encefálica com exames clínicos, mas a Legislação Brasileira exige diagnóstico preciso através de métodos sofisticados.
Através dos exames:
electroencefalograma, angiografia cerebral e outros como o electroencefalógrafo, que registra as ondas cerebrais...
Aqui está - disse o médico estendendo-lhe alguns papéis, eu os trouxe para que veja.
Inclusive a arteriografia.
Alexandre pegou os papéis e os olhava atento, acompanhado por Valter, enquanto o médico lhes mostrava melhor e explicava ao mesmo tempo.
O senhor Claudionor parecia ter deixado a decisão para eles.
Alexandre se sentou, olhou para a esposa e para a mãe, passou as mãos pelo rosto e, erguendo o corpo, olhando para o tecto, rogou:
- Deus! O que faremos?
Valter, parecendo estar mais consciente, lembrou:
- Alguém sabe dizer o que Rosana diria em uma situação dessa?
Todos ficaram em silêncio.
Por fim, Alexandre perguntou:
- Doutor, quanto tempo temos?
- Não muito. Após a morte encefálica, alguns órgãos resistem por mais tempo, outros não.
Estamos mantendo as condições de circulação sanguínea e a respiração de forma artificial, através de respiradouros e medicamentos que aumentam a pressão arterial.
Veja, a equipe encarregada para fazer a retirada dos órgãos para o transplante tem que ser accionada.
É uma equipe com treinamento específico para esse tipo de procedimento.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:49 am

Eu não faço parte dela e nem poderia fazer.
Os prováveis receptores têm que ser chamados aos hospitais e cada órgão tem um tempo diferente de duração após a retirada.
Por exemplo, o pâncreas dura de doze a vinte e quatro horas; dois rins, de doze a quarenta e oito horas; um fígado, de doze a vinte e quatro horas; duas córneas, até sete dias; e um coração e dois pulmões, somente de quatro a seis horas.
É uma corrida contra o tempo.
Fora essas dez partes mencionadas, temos ainda as válvulas cardíacas, medula óssea, veia safena etc.
Muitas vidas dependem disso.
Hoje em dia, eu acredito que há cerca de 30 mil ou 35 mil pessoas, ou mais, esperando na lista para receber uma doação.
Mais de trinta por cento morrem antes de conseguir esse "presente de Deus" e somente dez por cento recebem um órgão por ano.
- Doutor Cardoso, - perguntou Valter -, a morte encefálica de Rosana foi diagnosticada só pelo senhor?
E se quisermos chamar um médico de nossa confiança, agora, é permitido?
- Se vocês tiverem um médico de confiança da família, por favor, chame-o imediatamente!
Isso será óptimo!
Contudo, não somente eu, mas também o doutor Reinaldo, outro neurocirurgião, foi accionado assim que diagnosticamos a morte encefálica de Rosana.
Ele não está aqui no momento, pois atende a uma emergência, mas, junto comigo, ele diagnostica e atesta.
Como devem saber, são dois médicos, que não façam parte da equipe de remoção e transplante de órgãos, que precisam chegar ao mesmo parecer, o da morte encefálica, para que seja solicitada a doação.
Fora isso também se admite a presença de um outro médico de confiança da família.
Um médico sozinho não pode atestar a morte encefálica para a solicitação do transplante de órgãos.
Decidido, Alexandre avisou:
- Prefiro que seja assim.
Dê-me alguns minutos, vou telefonar para meu médico.
- Por favor.
Chame-o o quanto antes - incentivou o neurocirurgião.
Enquanto aguardavam a chegada do cardiologista accionado por Alexandre, Valter procurava saber, com o neurocirurgião que atendia Rosana, maiores informações.
- Doutor, - perguntou Valter muito interessado -, pode me dar uma orientação?
- Mas é claro!
- Quem pode ser doador de órgãos?
- Todos, desde que não sejam pessoas portadoras de doenças infecciosas incuráveis, câncer generalizado, diabetes, Aids ou tenham comprometido o estado do órgão.
Não é muito fácil ser doador se observarmos a causa da morte ou em que condição esta se dá, a demora para a retirada... e tudo mais, inúmeros factores comprometem todo o roteiro a ser seguido.
Por esse motivo há muitos na fila de espera para doação.
Isso sem contar com aqueles que não admitem ser doadores.
Por exemplo, se a Rosana tivesse outro tipo de morte, um acidente, por exemplo, e seu corpo fosse trazido para cá sem que fossem mantidas as funções vitais para os órgãos, como a circulação sanguínea e a respiração, muito mal poderia se aproveitar as córneas, porque, após a autorização da família, precisamos ainda accionar a equipe especializada para a retirada dos órgãos, e esta equipe nem sempre está próxima.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:49 am

A equipe de atendimento do hospital não pode fazer o procedimento de retirada dos órgãos.
- Doutor - tornou Valter - por exemplo, nós estamos aqui com esse dilema de doar ou não.
Nesse instante, a família ou as famílias dos possíveis receptores estão sabendo do caso e há um interesse, ou uma pressão, vamos dizer assim, sobre os médicos desse hospital para que nos convençam a fazer a doação?
- Não há como isso ocorrer.
Logo o médico perguntou:
Qual é seu nome mesmo?
- Valter.
- Pois bem, Valter.
É preciso que as pessoas saibam que a doação de órgãos sob a óptica da Legislação Brasileira não pode ser feita para uma pessoa específica. Isso é crime.
Como eu já disse, quando há morte encefálica e essa pessoa é um doador potencial, primeiro são mantidas as funções vitais dos órgãos, pois se é o cérebro que comanda tudo, a manutenção do corpo tem que ser feita por meios artificiais, se não, em pouquíssimo tempo, esses órgãos vão parar de funcionar.
Constatada a morte cerebral, a família é avisada e consultada sobre a possibilidade de doação.
Se não foram realizados exames como electroencefalograma, angiografia cerebral ou arteriografia, a família deve exigi-los. Isso é lei.
Mesmo se os equipamentos necessários para esses exames não existirem no hospital, eles podem e devem ser trazidos.
Além disso, a família pode pedir a presença de um médico de sua confiança para acompanhar o caso e dar um parecer.
Como eu ia dizendo, Valter, após o consentimento da família, o hospital onde está o doador potencial notifica a Central de Transplantes, que por sua vez pede a confirmação do diagnóstico da morte encefálica e a autorização da família e, somente a partir daí, iniciam-se os testes de compatibilidade entre doador e os possíveis receptores da lista de espera.
A Central de Transplantes acciona a equipe de remoção e transplante e o pessoal de apoio deslocando-os para o hospital onde o doador estiver.
O possível, ou possíveis, receptor para cada órgão só então é comunicado e vai ao hospital onde ele será atendido, o qual também já deverá estar de sobreaviso.
Então veja, se você quer doar o seu coração para mim, é bem provável que não possa.
Existem as compatibilidades entre o doador e o receptor, que é escolhido por Deus.
Na lista de espera, não podemos ficar felizes quando somos o suposto primeiro, pois o décimo dessa mesma lista pode receber um órgão antes de mim, por não ter aparecido um doador compatível comigo. Entendeu?
- Só mais uma coisa, doutor.
Isso nos terá algum custo, caso desejarmos doar?
- Absolutamente, não.
Vocês não pagam nem a manutenção, nem qualquer outra despesa do procedimento.
- Eu sei que não é o caso, mas se tivéssemos um familiar na lista de espera e quiséssemos doar para ele, agora, poderíamos?
- Não. A família não pode indicar um receptor.
Este é sempre indicado pela Central de Transplantes, com base nas urgências, na compatibilidade, na semelhança de tecido etc.
A chegada do cardiologista que fora chamado por Alexandre interrompeu o assunto, e ambos os médicos se retiraram.
Naquela sala, onde todos esperavam confusos, sofridos e aflitos, o silêncio imperou absoluto.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:49 am

Dona Virgínia, abraçada à nora, parou de chorar e fitava ao longe, com o olhar perdido.
Raquel ficou quieta, ela estava chocada com tudo o que acontecia e, às vezes, incrédula.
Valter não conseguia se sentar.
Ele, vagarosamente, andava de um lado para o outro, ora olhava os parentes, ora fitava pela larga janela.
O senhor Claudionor estava perplexo, inconformado.
Alexandre, com os olhos vermelhos, observava a esposa querendo que ela ficasse perto dele, pois sentia-se muito mal com aquela perda.
A irmã era uma pessoa que significava muito para ele.
Em alguns minutos, ele sofria crises de choro, mas logo procurava se controlar para não abalar os demais.
Cada um, à sua maneira, recordava gestos, risos, detalhes, cenas onde Rosana, espirituosa e irreverente, contagiava todos com sua alegria, sempre procurando ajudar, sempre associando concórdia, amor e ideias salutares em todas as situações.
Jamais lembravam dela triste, melancólica, isso raramente ocorria.
Era triste e doloroso pensar que não mais teriam Rosana junto deles.
Minutos se passaram e Vilma abriu vagarosamente a porta e os olhou como que incrédula.
Alexandre se levantou, abraçou-se a ela por longo tempo sem dizer nada.
Eles choraram muito.
Depois, Vilma ajoelhou-se em frente de sua mãe e Raquel.
Não havia palavras que os confortassem naquele momento.
Valter, mais próximo, perguntou:
- E as crianças?
- Chamei a dona Leila para ficar com elas.
O marido a abraçou depois informou sobre a solicitação da autorização para a doação dos órgãos.
Vilma virou-se para o senhor Claudionor e perguntou:
- Papai, o que você decidiu?
Com lágrimas a correr na face, ele falou como num lamento:
- Eu não sei o que fazer, filha.
Preciso de vocês.
- Chamei meu cardiologista - disse Alexandre.
Ele está com o doutor Cardoso.
Dona Virgínia, desnorteada, perguntou:
- Não há possibilidade de terem errado e Rosana estar viva?
- Pelo que entendi, não, - respondeu Alexandre.
- E se doarmos e houver comercialização dos órgãos? - insistiu a mãe.
- Essa possibilidade é bem remota, porque tem que se seguir normas e obedecer à legislação.
Esse é um hospital credenciado e que tem regras a seguir.
Nem se sabe quem será o provável receptor.
Isso são rumores que, infelizmente, podem diminuir o número de doações.
Já ouvi falar de comércio de órgãos duplos, como o rim, mas o doador é consciente e se beneficia com alguma verba, mas isso é proibido por lei no Brasil - informou Alexandre.
- O que faremos?
Precisamos decidir - pediu o senhor Claudionor, como que implorando uma decisão.
- Alguém sabe dizer o que Rosana queria? - insistiu Valter firme.
Raquel olhou para todos e falou com a voz trémula e chorosa:
- Outro dia, não faz muito tempo, eu estava intrigada pelo facto de Sandra ficar procurando pelo Alex...
Raquel foi interrompida pelo choro e pelos soluços que não obedeciam à sua vontade.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:50 am

Todos aguardaram que se recompusesse e depois ela continuou:
- Eu estava dizendo isso para a Rô, então ela me disse que a mãe de Sandra contou para a dona Virgínia - e olhando para o marido ela lembrou, naquele dia em que chegamos e elas estavam conversando no portão.
Ela falou que a Sandra estava com problemas renais e necessitava fazer hemodiálise, que estava também na lista de espera para doação...
Rosana disse para eu não me preocupar porque ela deveria estar arrependida, ou coisa assim, e talvez quisesse conversar com o Alex sobre isso.
Em dado momento, a Rosana ficou penalizada com o facto e disse:
"Se eu pudesse doaria um rim para ela".
Depois, ela falou daquele jeito todo animado:
"Quando eu morrer, podem doar tudo, não vou precisar mesmo.
Aí eu não corro o risco de ser enterrada viva".
Raquel caiu em um pranto copioso e Alexandre a abraçou, tentando não deixá-la mais nervosa.
- Eu também a ouvi dizer o mesmo - informou Vilma.
- Mas, gente - argumentou a mãe em aflição - e se houver uma chance?
Se os médicos tiverem errados?
Será que ela vai sentir dor?
Valter, mais ponderado e consciente, avisou:
- Aqueles exames constataram a morte encefálica e esta é irreversível.
Se desligarem os aparelhos que mantêm os órgãos ainda em condições, todos vão parar em pouco tempo e tudo se perde.
- Acredito ser quase impossível os médicos errarem.
Vamos lembrar que serão três os pareceristas responsáveis e a um deles eu confio minha vida - lembrou Alexandre.
- Quanto à dor disse Valter , o que faz o corpo sentir, ou melhor, reconhecer um estímulo de dor é o cérebro.
Se este está morto, o corpo físico não sente nada.
Vilma se levantou e, impelida por uma força interior, falou:
- Gente, nós temos que parar de dar valor à matéria quando esta não nos serve mais e sermos nobres e caridosos para ajudar os outros.
A morte faz parte da vida.
E melhor acreditarmos em Deus agora e lembrar que Ele deve ter inspirado os homens a desenvolver processos médicos e científicos, não só para prolongar a vida terrena, mas, principalmente, para sermos mais caridosos e menos egoístas, crescendo espiritualmente.
Não vamos pensar que estamos fazendo um acto grandioso, nem vamos esperar por um retorno de bênçãos.
Vamos pensar que essa é a nossa prova de desapego material, prova de amor ao próximo como a si mesmo.
Se eu um dia tiver todas essas abençoadas qualidades de ser uma doadora potencial como a minha irmã, não hesitem, autorizem a doação.
Se fosse o caso de um de nós precisarmos, rogaríamos a Deus por essa oportunidade.
Pediríamos que houvesse pessoas nobres e corajosas.
Não interessa quem vai receber, não interessam as mentiras ou as verdades que dizem sobre o comércio ou o privilégio daqueles que não deveriam ser favorecidos primeiro.
Só receberá a doação quem realmente precisar, e devemos crer que este será responsável e terá que corresponder à altura, pela nova oportunidade que teve.
Não cabe a nós esse julgamento.
Devemos só fazer a nossa parte, a nossa caridade e por amor.
Vamos lembrar que não estamos doando a Rosana, e sim o que ela usou.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:50 am

Assim como faremos com suas roupas e suas outras coisas.
O que acontecerá com esses órgãos se não doarmos?
Apodrecerão, com certeza.
Seremos tais quais os vermes que os devorarão, se formos egoístas agora.
Eu estou sentindo uma imensa dor por saber que vou ficar longe da minha irmã, mas eu sei que em algum lugar ela vive e ficarei feliz por saber que a sua roupa humana é utilizada por alguém.
Não consigo entender por que nós nos negaríamos a doar se não vamos precisar mais.
Será bom pensarmos o quanto a Rosana foi e ainda será útil para as pessoas, para outras famílias, que ficarão alegres, que por causa dela vão continuar a se abraçar a se beijar e até a gerar novas vidas.
Por mim, vamos doar e acabou!
Nada mais importa.
O que queríamos era tê-la connosco.
Enterrar o corpo inteiro ou faltando algumas partes dele não vai trazê-la de volta.
Vilma foi interrompida por um soluço e não conteve as fortes emoções, que não a deixaram prosseguir.
Ela parou de falar, abraçou-se ao marido e escondeu o rosto para chorar.
Meio atordoado, Alexandre ainda lembrou:
- Eu li, há poucos dias, num livro que ela me deu, O Livro dos Espíritos, que "O corpo é uma máquina que o coração põe em movimento.
O corpo se mantém enquanto o coração fizer o sangue circular, e para isso não necessita da alma".
Creio que é a questão 152.
Se assim for, Rosana deve estar longe agora e em lugar melhor.
Nesse momento, a porta da sala se abriu e, em poucas palavras, o médico de confiança da família confirmou o que os outros atestaram.
O doutor Cardoso olhou para o senhor Claudionor, pedindo uma resposta com o olhar piedoso.
O pai, chorando, não conseguiu articular nenhuma palavra e, em um olhar para Alexandre, pediu-lhe que falasse em seu nome.
Chorando, Alexandre se levantou e disse, entre os soluços que embargavam sua voz:
- Vamos doar a alma de nossa irmã a Deus e a vida dos seus órgãos àqueles que ainda podem viver.
Que Jesus os abençoe.
O médico sentiu que poderia chorar; não resistindo às emoções, seus olhos marejaram e, estapeando as costas de Alexandre, o doutor Cardoso teve que se controlar para dizer:
- Preciso que assinem a autorização - mas traído pela emoção das palavras de Alexandre, ele abaixou a cabeça para esconder as lágrimas que deslizaram.
A família decidiu pela caridade de doar os órgãos sobreviventes e úteis no corpo que fora de Rosana.
Na espiritualidade, Rosana, como que adormecida, já havia sido desligada do corpo que lhe servira enquanto necessitou provar aquela existência terrena.
Conduzida com inenarrável ternura e tratada com muito carinho, ela estava longe dali.
Por ter sido uma criatura sem apego à matéria corpórea, caridosa e amável, o que ocorria com o corpo de carne não lhe importava.
Ela era preparada para a vida espiritual, onde haveria, com toda certeza, de se satisfazer com a decisão de seus queridos ainda encarnados.
Tempo depois o corpo foi liberado para os familiares, que cuidaram do enterro.
Ricardo fora avisado, mas não conseguiu chegar a tempo.
Somente sua família compareceu ao enterro.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:50 am

Aquela que seria a sogra de Rosana estava inconformada.
No velório, dona Virgínia teve crises de choro, mas recebia um alento indefinível que durava cada vez mais tempo.
Sua consciência estava livre de culpa por egoísmo.
Ela, lá no fundo, sabia que, naquele momento, sua filha estava "salvando" outras vidas.
Alexandre se preocupava com Raquel, ela estava muito sofrida, Rosana foi a sua única e melhor amiga.
Elas eram confidentes e se davam muito bem.
Raquel estava como que paralisada, não conseguindo mais chorar, e com o semblante triste, olhos vermelhos, não dizia nada.
Bem mais tarde, ao chegarem à residência do senhor Claudionor, todos estavam abatidos e somente as crianças, que tinham ficado com a empregada, por não entenderem o que ocorrera, estavam animadas.
Pouco depois, Ricardo, o ex-noivo de Rosana, chegou desesperado, acompanhado pelo pai.
O rapaz chorava muito.
Após abraçar a todos, ele pediu para ir até o quarto da noiva.
Lá, Ricardo dobrou os joelhos no chão e se curvou sobre a cama que fora da moça, inconformado, chorou muito.
Sua aflição comovia a todos.
Raquel agora estava estranha.
Pelo cansaço, ela pediu ao esposo que a levasse para casa.
Quando ele avisou sua mãe que iria embora, a mulher reagiu, pedindo de forma melancólica e comovedora à nora que estava abraçada ao seu filho:
- Fique, por favor, Raquel.
Um dia a Rô, num exemplo, previu que se eu ficasse sem ela você seria minha filhinha amiga.
Por favor, filha, fique comigo agora.
- Mãe, eu estou preocupado com o estado da Raquel.
Se estamos esgotados, imagine ela? - avisou Alexandre sensível.
Lembre-se, Raquel está no início da gravidez e...
- Toma um banho e vá se deitar, mas fique aqui.
- Não, mãe. Ela precisa de sossego.
A tia falou que vem para cá, as crianças não param e a Raquel não terá sossego, ela está abatida.
É melhor irmos. Amanhã cedo voltaremos.
- Eu não quero que a afastem de mim - dizia dona Virgínia chorando desesperada.
Deixe a Raquel comigo.
Já perdi a Rosana...
A jovem, ouvindo o pedido lamurioso, decidiu falando com delicadeza:
- Vamos ficar, Alex. Será melhor assim.
Também quero ficar com ela.
O clima estava triste e depressivo.
Somente bem mais tarde, exaustos, conseguiram se deitar.
Após ir ver a filha dormindo, Raquel deitou-se ao lado do marido, que a abraçou, e disse:
- Você deve estar muito cansada.
Precisa de sossego, Raquel.
Quer ir embora agora?
- Não. Vamos ficar.
Não posso deixar sua mãe num momento como esse.
Devo tanto a ela, Alex!
Ela é minha mãe.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:50 am

Eles ficaram em silêncio até que a esposa começou a chorar e disse:
- Nunca escondi nada da Rô...
Eu não contei nada pra ela, nem sobre nós...
Quis fazer surpresa sobre a gravidez e...
- A Rô já está sabendo, Raquel.
Não fique assim. Procure dormir.
Precisa descansar. Pense no bebé.
- Mas foi a Rô quem mais me apoiou e... não soube por mim!...
Ela era minha única amiga - falava chorando amargurada.
Alexandre a abraçou e não tinha palavras que a confortassem naquele momento, pois ele próprio tinha que se fazer firme para não expressar seus sentimentos perto da mulher, que já estava muito abatida.
As crises de choro de dona Virgínia fizeram com que Raquel e Vilma se levantassem na madrugada para ficar com ela.
Bem cedo, Alexandre decidiu:
- Pai, preciso ir pra casa.
A Raquel não descansou, estou preocupado com ela que deve estar exaurida.
Não dormiu e... Mais tarde eu volto.
- Vá, Alex, eu cuido de tudo por aqui.
Sua mãe parece melhor.
Deixe a Bruna aqui para brincar com os priminhos.
Será melhor para a Raquel poder descansar.
- Não, pai. É bom ela ir com a gente.
Ter nossa filha perto é um motivo para a Raquel não ficar pensando...
Com o coração apertado, Alexandre se despediu de seu pai sem muitas palavras e, beijando-lhe o rosto, apertou-o contra si com força, prometendo retornar à tarde.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:50 am

Capítulo 22 - O mundo dá voltas

Chegando ao apartamento, Alexandre, fazendo-lhe um carinho, pediu-lhe:
- Raquel, tome um banho e vá se deitar.
Passando a mão no ventre que nem se avolumara, ele falou:
Precisa cuidar do nosso neném.
Descanse que eu olho a Bruna.
- Preciso preparar algo para almoçarmos.
Não tenho nada pronto.
- Vamos fazer o seguinte, daqui a pouco eu saio e compro alguma comida pronta.
Certo? - ele decidiu.
Raquel concordou.
Ela tomou um banho e se deitou.
Não dormiu, mas ficou quieta em seu quarto.
O marido distraía a filha, procurando não incomodar Raquel.
Após alguns minutos, ela começou a se sentir mal, mas acreditou que fosse pelo cansaço.
Suas pernas doíam muito.
Ela sentia algo em suas costas, na região dos rins, como que uma contracção, mas achou que fosse pela má acomodação das últimas horas.
Mais tarde Alexandre foi vê-la e ao perceber que estava acordada, falou:
- Pensei que estivesse dormindo.
- Não consegui.
- Você está bem?
- Estou muito cansada. Sinto tontura.
- É melhor eu levá-la ao médico.
- Ele vai dizer que é para eu descansar, não precisa.
Não quero ir. Com lágrimas que brotaram imediatamente, ela falou sentida:
Não consigo parar de pensar na Rô.
- Nenhum de nós consegue.
Eu também...
Ele parou de falar, ao perceber que poderia não conter sua emoção.
Raquel, muito sensível, lamentou:
- Ela foi minha única amiga.
Minha melhor amiga...
Alexandre a abraçou com ternura e pediu:
- Não fique assim, meu bem.
Eu sei que está sofrendo.
Eu sei que a ama...
Mas procure ficar tranquila.
Não se desgaste mais.
Pense no nosso filho.
- Eu não contei pra Rô.
- Nós não contamos para fazer uma surpresa.
Não foi por egoísmo.
Alexandre apoiou-a em seu ombro e ficou afagando-lhe até percebê-la mais calma.
Passados alguns minutos, vendo-a serena, avisou:
- Está na hora do almoço.
Preciso ir comprar algo, a Bruna deve estar com fome.
- Vá. Eu estou bem.
- Tem certeza?
- Tenho.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:51 am

Ele beijou-lhe a testa e avisou:
- Eu já volto.
Vou levar a Bruna comigo.
- Não, bem. Deixe-a aí.
Alexandre ficou pensativo e depois decidiu:
- É melhor, assim volto mais rápido.
Ela está quietinha brincando lá na sala com um quebra-cabeça que a... ele deteve as palavras, ao lembrar que fora um presente de Rosana.
Raquel percebeu, mas nada comentou, e pediu:
- Deixe a porta do quarto aberta.
Daqui eu escuto o que está acontecendo e dou uma olhadinha.
Beijando a esposa antes de sair, ele insistiu:
- Você está bem?
- Só minhas pernas doem.
Estou cansada. Mais nada.
Fique tranquilo.
- Eu já volto, tá? - prometeu generoso.
O tempo foi passando e Raquel achou que o marido demorava muito.
As dores, que antes sentia de modo a suportar, agora aumentavam de
intensidade e outras contracções, muito fortes, na região do baixo-ventre, começaram a acontecer.
Ela não sabia o que fazer.
Mesmo sentindo-se mal, Raquel levantou-se apoiando nos móveis e foi até a sala, onde Bruna Maria distraía-se com o brinquedo de montar.
Indo até a cozinha à procura de um analgésico, lembrou-se de que não poderia tomar qualquer remédio devido à gravidez, então decidiu voltar para o quarto.
Sentindo-se gelar teve um torpor que a deixou tonta.
Curvada pela dor que a arrebatava, Raquel chegou até a porta entre a sala e a cozinha e falou para a filha, com voz fraca e ofegante, que mal saía:
- Filha... Liga pro papai...
- O que foi, mamãe?
- Diga pro papai vir logo... que a mamãe não tá bem.
Raquel perdeu as forças e caiu.
Bruna, assustada, sacudiu-a chamando e, por não ter resposta, decidiu telefonar para o pai, mas não conseguia.
Por iniciativa própria, a menina telefonou para os avós.
- Dona Virgínia - dizia a empregada -, telefone pra senhora.
Desolada, a mulher solicitou educada:
- Pede pra a Vilma atender pra mim, por favor.
- Mas é a Bruna e ela está chorando avisou a empregada.
- Bruna?! Dê-me aqui, por favor.
A mãe de Alexandre se assustou com a notícia e atendeu rapidamente a ligação:
Aqui é a vovó, filha.
O que aconteceu?
- Vovó, a mamãe pediu pra eu ligar pro papai, mas eu não estou conseguindo - dizia a garotinha, com voz de choro.
Eu ligo, ligo, ligo e não acontece nada.
Ele não responde.
- Onde está a mamãe, Bruna? - perguntou a avó quase desesperada.
- A mamãe caiu aqui na sala e não se mexe.
Ela também não responde.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Maio 25, 2017 9:51 am

- E o papai?
- Ele disse que já volta, mas está demorando.
Ele foi comprar o nosso almoço.
Nesse momento, Valter e o senhor Claudionor, que chegavam na sala, ficaram preocupados e atentos à conversa.
- Bruna, filhinha, fique quietinha aí que a vovó já está chegando, tá?
- Vovó?
- Fala, querida.
- Eu estou com medo.
A mamãe está cheia de sangue em volta.
Dona Virgínia teve que arrancar forças das entranhas da alma para se manter calma e aconselhar:
- Bruna, querida, faça o seguinte, pegue um cobertor e cubra a mamãe, ela pode estar com frio.
Ponha também um travesseiro embaixo da cabeça dela.
Faça isso, mas não desligue o telefone, volta para você ficar conversando com a tia Vilma até a vovó chegar aí.
Você entendeu, meu bem?
- Entendi.
Mas estou com medo.
- Olha, Bruna, se você cobrir a mamãe, você não vai mais ver o sangue e ela vai ficar quentinha.
Agora seja boazinha e vai pegar uma coberta, está certo, meu bem?
A menina concordou e dona Virgínia contou a todos o que havia acontecido.
Vilma ficou conversando com Bruna por telefone, enquanto o senhor Claudionor, Valter e dona Virgínia foram rapidamente para o apartamento do Alexandre.
Ao chegarem lá, Raquel ainda estava desfalecida.
Bruna cobrira a mãe conforme o pedido, mas chorava porque só conseguiu trazer o lençol que estava sobre a cama e não alcançara o cobertor que estava em um lugar alto no armário.
- Venha, querida, vem aqui com a vovó.
Isso não tem problema.
- Meu Deus! - alarmou-se Valter ao pegar a cunhada desmaiada elevá-la para o quarto.
É uma hemorragia muito forte, dona Virgínia, não podemos perder tempo.
Pegue a bolsa dela com os documentos e vamos para o hospital agora!
Ainda sem sentidos, Raquel foi levada para o hospital às pressas.
Minutos depois, trazendo a refeição que fora buscar, Alexandre chegou ao apartamento e estranhou ao encontrar no corredor um lençol com manchas de sangue.
- Raquel! Bruna!!! - chamou ele em desespero.
Ao entrar em seu quarto, observou que havia sangue também sobre a cama.
Alexandre sentiu-se mal.
Ele começou a esfriar quando o telefone tocou, e precisou de muita força para reagir e atender.
- Vilma...!
A irmã o avisou sobre tudo e ele perguntou gritando:
Para onde eles a levaram?!
Assim que soube, ele saiu em desespero para o hospital.
Ao chegar lá encontrou-se com Valter, pois seu pai havia levado dona Virgínia e Bruna para casa, uma vez que a menina ainda estava assustada.
- Calma, Alex.
- Como calma! gritou aflito esfregando o rosto com as mãos.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 26, 2017 10:04 am

- Sente-se aqui pediu o cunhado, tentando conduzi-lo com a mão sobre seu ombro.
Alexandre aceitou o pedido e Valter acomodou-se a seu lado ainda com a mão sobre seu ombro para confortá-lo.
- Você falou com ela? perguntou Alexandre brando.
- Não. Quando chegamos, ela estava sem sentidos.
Nós a trouxemos para cá o mais rápido possível.
Fitando-o, Valter avisou:
O médico virá daqui a pouco falar com você.
Alexandre estava pálido, parecia exausto.
Diante de seu silêncio, Valter perguntou:
- Você está bem?
Está sentindo alguma coisa, Alex?
Após alguns segundos, o cunhado respondeu de forma mecânica e desanimada:
- Acho que estou.
Não sei o que estou sentindo.
- Como assim? - tornou Valter, olhando-o assustado.
- Estou sentindo um torpor.
Não sei se é cansaço físico, emocional...
- Seja forte, Alex.
A Raquel vai precisar. Você sabe...
A gravidez é muito recente e...
Ela ficou muito nervosa.
A Rô era sua melhor amiga e...
Se todos nós estamos assim, imagine ela, grávida, tão sensível...
A hemorragia foi muito forte.
Você foi ao apartamento e deve ter visto.
Ela perdeu muito sangue.
- Eu sei. Já pensei nisso.
Tendo passado poucos minutos, Alexandre argumentou:
Como a Raquel vai reagir se...
Não suportando a angústia e a aflição, ele começou a chorar escondendo o rosto entre as mãos, e revelou:
Eu quero tanto esse filho!
Quero tanto a Raquel!
Se algo acontecer a ela... Deus!
Valter não sabia o que dizer.
Não havia palavras que pudessem confortar Alexandre naquele momento.
Ele somente passava-lhe a mão no ombro em sinal de apoio.
O cunhado sofria muito com tudo o que lhe ocorria.
Como se não bastasse a perda da irmã, agora a esposa e o filho, tão desejado, poderiam estar correndo sério risco.
Após alguns minutos o médico surgiu e perguntou:
- O marido de Raquel é?...
- Sou eu, doutor - apresentou-se.
Meu nome é Alexandre.
- Senhor Alexandre - disse o médico com modos frios e sem rodeios - sua esposa acaba de perder o bebé.
Eu sinto muito.
Só que necessitamos fazer uma curetagem.
- Como ela está?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 26, 2017 10:04 am

- A dona Raquel recobrou os sentidos.
Ela está nervosa, muito assustada e não se deixa examinar, mesmo após o tranquilizante que ministramos.
Precisaremos lhe dar uma anestesia geral.
Ela teve uma hemorragia muito forte e perdeu muito sangue.
Isso é perigoso.
- Posso vê-la, doutor?
O médico pensou um pouco e respondeu:
- Só por alguns instantes antes que a levem para a sala de cirurgia.
Venha comigo.
Alexandre esteve com a esposa por alguns minutos.
Ela chorava muito e quase não conseguia falar.
Realmente Raquel estava em desespero.
Retornando para a sala de espera Alexandre ficou com Valter aguardando notícias, até que o cunhado observou:
- Alex, eu não estou gostando de vê-lo como está.
Daqui a pouco terei que fazer a sua internação, também.
Somente nesse momento Alexandre ofereceu um leve sorriso e falou:
- Estou bem. Não se preocupe.
Decidindo avisou:
Vou telefonar.
Quero saber como está a Bruna e é proibido o uso de celular em hospitais, interferem nos equipamentos médicos.
Dias depois, Raquel já estava em casa recuperando-se.
Deprimida, ela não queria ver ninguém.
Vivia fechada no quarto e parecia se sentir bem somente com a presença da filha e do marido.
Às vezes, chorava muito.
Marcos, quando foi visitá-la, procurou Alexandre longe da irmã e perguntou:
- Minha mãe escreveu para vocês?
- Não. Desde que voltamos, não tivemos mais notícias.
- Se chegar alguma carta, é melhor você não entregar para a Raquel.
Do jeito que ela está...
- Por quê? estranhou o cunhado.
- Minha mãe não está bem.
Primeiro ela me escreveu e eu já achei estranho.
Nesta semana, o Pedro mandou uma carta me explicando tudo.
- O que está acontecendo? - tornou Alexandre.
- Minha mãe escreveu dizendo que estava feliz.
Ela disse que viu tudo o que queria.
Eu não entendi e escrevi pra lá.
Depois de uma boa espera, o Pedro me contou tudo.
Ele disse que após vocês saírem de lá, minha mãe passou a visitar, com frequência, o tio Ladislau.
Ela o torturava dizendo que a Bruna era filha dele.
Que ele matou as outras três e que as duas filhas que lhe restavam eram...
Raquel e Bruna, que elas herdariam tudo...
Alexandre abaixou o olhar e Marcos não completou o que iria dizer, mas por fim prosseguiu:
- Minha mãe disse que ele perdeu as filhas e ficou aleijado por castigo de Deus, que a mulher iria atormentá-lo enquanto vivesse.
Ela disse coisas baixas sobre eles e...
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 26, 2017 10:05 am

Além disso, falou que a Raquel estava bem, que em breve iria morar naquela fazenda junto com você e o colocaria para fora...
Pedro disse que o homem não suportou e, numa manhã, deu um tiro na esposa e depois se suicidou.
- Sério?! - perguntou Alexandre empalidecendo.
- Agora, de uns dias para cá, minha mãe anda assustada, diz que vê vultos...
Ela vai todos os dias à igrejinha para rezar.
À noite ainda acorda assustada, mas não sabe dizer o que é.
Ela precisa de tratamento, Marcos.
- Ainda não terminei.
O Pedro falou que, mesmo com tudo isso, ela ainda vive torturando meu avô, que fica lá indefeso ouvindo-a.
- E seus irmãos deixam?
- Eles têm que cuidar das coisas por lá!
Não podem ficar atrás dela o dia inteiro.
Diante do silêncio do cunhado, Marcos pediu:
Não conta nada pra Raquel.
- Claro que não!
Por favor, nem você, hein!
- Lógico - concordou o cunhado.
pós algum tempo, Alexandre perguntou:
- E você, Marcos, o que vai fazer?
- Quanto à minha mãe, eu não sei.
Pretendo fazer algo por mim e por meus filhos.
Sabe, um director lá de onde eu trabalho, o senhor José Luiz, foi demitido.
Quando ele foi se despedir de mim, eu perguntei:
"O senhor está a fim de administrar um hotel-fazenda?".
Alexandre sorriu largamente, pois fora ele quem dera aquela ideia para o cunhado, que completou:
- Então ele aceitou e no mês que vem vamos pra lá.
- Genial! - admirou Alexandre satisfeito.
Como eu lhe disse, com a extensão da agência de turismo, faremos óptimos pacotes e daremos preferência e destaque para vocês, claro!
- - Obrigado, Alexandre.
Espero poder retribuir tudo o que está fazendo por nós.
- Espero não precisar! - respondeu sorridente.
- Você soube da Alice? - perguntou Marcos mudando o assunto.
- Não. Como ela está? - interessou-se Alexandre.
- O juiz a declarou capacitada e ela não receberá pensão.
Os meninos ficarão comigo por causa de sua moral.
Não sei se você soube, mas o Valmor morreu.
- Morreu?!
- Morreu.
E os filhos dele a despejaram do apartamento, pois, como herdeiros, eles tinham esse direito porque o apartamento foi comprado antes da união deles.
- E agora? - perguntou Alexandre perplexo.
- Nem te conto.
Olhando para Alexandre, Marcos ficou observando sua reacção e disse:
A Alice, para poder sobreviver, está levando uma vida fácil.
- O quê?!
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 26, 2017 10:05 am

- Isso mesmo.
Estou até com pena por ela, não conseguiu arrumar emprego em lugar nenhum e não lhe restou alternativa.
A Alice parece que não encara a realidade, não vive a vida como ela é.
Conversando com ela, até achei que está perturbada, pois disse que os guias lhe disseram que ainda vai conseguir muita coisa na vida, vai ser rica, conhecer alguém que lhe dê muito dinheiro.
Vive acreditando em simpatias e coisas do género.
Para mim, uma pessoa que vive como ela está vivendo, depois de tudo o que viu acontecer, não está normal.
Alexandre ficou em silêncio tamanho foi seu espanto e Marcos continuou:
Ela me procurou, mas como é que posso aceitá-la de volta? Jamais!
Mas, para ela não morrer de fome, mesmo sem ter a obrigação, eu estou lhe dando uma pensão.
- E a fazenda que você herdou, ela não tem direito?
- Não. A Alice só tem direito ao que construímos juntos após o casamento.
Antes ou depois, não.
Essa herança já era minha antes de me casar e não se deu por consequência do casamento.
Depois de breve reflexão, Marcos comentou:
- É, Alexandre, esse mundo dá voltas, mesmo.
Não podemos fazer nada contra alguém, pagamos aqui mesmo.
Alexandre nem tinha o que dizer e se manteve calado.
Os meses foram passando, Raquel e dona Virgínia se davam muito bem.
Agora elas sempre estavam juntas.
Rosana, certa vez, havia dito à mãe que Raquel poderia lhe ser como filha, amiga e companheira e estava sendo.
A mulher se apegara muito à nora, que parecia também necessitar de seu carinho.
A esposa de Alexandre ainda se recuperava da perda da amiga e do filho que esperava, dedicando-se a tarefas na Casa Espírita que frequentava.
Ela sempre levava consigo dona Virgínia, que passou a se integrar no trabalho de assistência social e sentia-se menos deprimida pela ausência da filha e recebia, nas palestras, conforto ao seu coração bondoso.
Um dia, quando estavam no Centro Espírita arrumando, carinhosamente, uma bela embalagem de enxoval de bebé, dona Conceição, a senhora que coordenava aquele trabalho, se aproximou com o semblante triste e Raquel percebendo, perguntou:
- O que foi, dona Conceição?
A senhora está chateada?
- É. Estou.
- O que aconteceu? - preocupou-se a moça.
Sem ter mais com quem falar e por se achar isenta de alternativas, a colega revelou, quase como uma confissão:
- Há dois meses, minha sobrinha sofreu uma violência sexual.
Foi registrada a ocorrência e...
Bem, ela engravidou e o juiz deu permissão para o aborto.
Minha irmã, que é viúva, não entende o que eu venho lhe explicando e vai levar a menina para fazer o aborto.
Hoje eu as trouxe aqui para a palestra da tarde.
Elas estão lá no salão.
Mas minha irmã está irredutível.
Raquel, tomada de uma força incomum, pediu:
- Posso ir falar com elas?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Maio 26, 2017 10:05 am

- Para que, Raquel?
O que você diria? - perguntou com simplicidade.
A companheira ignorava detalhes sobre a vida de Raquel e esta falou:
- Talvez eu possa ajudar.
- Como, filha?
- Eu posso! Acredite! - afirmou com delicado sorriso no belo rosto.
Pela insistência e convicção de Raquel, dona Conceição procurou um local apropriado e reservado, deixando as três conversarem por longo tempo.
Dona Virgínia, inquieta, às vezes se preocupava.
Curiosa com a demora, dona Conceição não sabia o que fazer.
Mais de uma hora depois, Raquel abriu a porta da sala onde estavam exibindo um largo sorriso.
Mãe e filha saíram abraçadas e foram ao encontro de dona Conceição que, sem palavras, com os olhos lacrimejando, olhou para Raquel ignorando o que dizer, pois entendeu que ambas aceitaram a criancinha que estava para chegar.
A mãe da moça voltou, abraçou fortemente Raquel, beijou-lhe o rosto e se foi junto com a filha, após se despedir da irmã.
Mais recomposta da forte emoção, dona Conceição procurou por Raquel e lhe perguntou:
- O que foi que você disse a elas, Raquel?
- Eu contei a minha história e no final fiz uma pergunta.
- Que história, Raquel?
Que pergunta?
- Dona Conceição, no momento eu estou emocionada e não queria chorar mais.
Se me permite, vou resumir o que disse a elas.
- Claro. O que é?
- A senhora conhece a minha filha, a Bruna?
- Lógico!
- Ela foi concebida num estupro.
A mulher ficou paralisada e Raquel continuou:
Eu contei tudo como foi e as dificuldades que enfrentei, as misérias que vivi.
Porém, a minha vida actual não seria assim se eu não tivesse a Bruna, minha filha.
Depois eu mostrei essa foto - disse ela exibindo novamente a fotografia -, e perguntei se hoje alguém teria a coragem de esquartejar a minha menina só por causa do modo como ela foi concebida.
Só por ela ser minha filha, por consequência de um estupro, não merece viver?
Merece ser sacrificada?
Esquartejada ou sufocada?
Ainda aconselhei que se, por acaso, não quisessem a criança, deixassem-na encontrar uma família de verdade, mas que lhe dessem uma chance, pois foi isso o que Deus deu a cada um de nós.
Ainda contei que, hoje, a minha filha é minha maior alegria.
Bruna é a razão da minha vida e a do Alexandre também.
Ainda em choque, a mulher argumentou:
- Raquel, eu não sabia.
Ela até se parece com seu marido.
- Mesmo não sendo o pai biológico, ele é o pai de verdade.
Sabe, dona Conceição, a Bruna é o motivo de eu ter o Alexandre, que, na minha vida, foi a maior bênção, depois dela, que eu recebi de Deus.
A mulher a abraçou com carinho e com lágrimas a correr-lhe pela face, beijou-lhe por várias vezes o rosto, que prendeu entre suas mãos.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

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