Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:44 am

- Decepcionei-me tanto!
A cena da traição era constante, viva na minha mente!
Eu não conseguia me livrar da imagem de Sandra me dizendo tudo aquilo.
Eu a amava, ainda. Não suportei tanta pressão!
Parecia que podia ouvir a sua voz repetindo que o filho não era meu e quê...!
Você não imagina como foi, Raquel.
Eu parecia ver, a todo instante, meu amigo e minha noiva se amando, se beijando abraçados.
Fiquei louco!
Fui fraco, cedi aos impulsos e, mesmo internado, tentei o suicídio.
Breve pausa e completou envergonhando-se da confissão:
- Um enfermeiro me impediu por duas vezes.
- Como? perguntou Raquel, surpresa pelo relato.
- A primeira vez foi cortando os pulsos.
O homem chegou atempo e, bem, fiquei com essas cicatrizes de recordação - explicou mostrando o pulso.
A segunda vez, quase consegui.
Sabe, Raquel, a ideia de morte era fixa.
Eu tinha que me matar.
Eu queria morrer para me livrar das imagens que viviam na minha mente.
Por isso, tentei me enforcar no banheiro e pelo facto de não haver muita distância entre o registro e o chão, por causa da minha altura, amarrei um aponta do lençol rasgado e torcido o mais alto que pude e a outra ponta no meu pescoço e usei meu peso para me asfixiar.
Fui ficando tonto, sentindo um ensurdecimento, enquanto a visão escurecia descreveu com verdadeiro drama.
Tive uma experiência que jamais vou esquecer.
Em poucos segundos, que pareceram eternos, ouvi gritos horripilantes, vi vultos que cada vez se tornavam mais nítidos, fixos, horrorosos!
Fiquei com medo e tentei reagir. Mas não dava.
Meus braços não se moviam, não obedeciam.
Tentei gritar, mas minha voz não saía.
Não conseguia mais ficar em pé, pois não sentia minhas pernas.
Experimentei uma dor horrível no corpo inteiro.
Foi tenebroso! Eu quis voltar atrás e não pude...!
Após ligeira pausa, mais calmo, ele continuou:
- Dificilmente eu conseguirei, um dia, traduzir em palavras aqueles segundos de horror.
Não há linguagem que descreva tal emoção ou sensação macabra.
Eu acho que Deus teve piedade de mim e o mesmo enfermeiro que me socorreu na primeira vez chegou ao banheiro.
Ao me ver roxeando, ele me soltou e me ressuscitou.
Acabaram me transferindo para a ala psiquiátrica.
Mesmo eu contando tudo o que passei e o medo que senti, não acreditaram em mim.
Meus pais, visando minha segurança, me internaram em uma clínica de repouso por um mês.
Fiquei sob vigilância ferrenha.
Saí de lá e, a pedido deles, fiz terapia e...
Bem, estou vivo, né!
A essa altura da conversa, Alexandre sorriu.
Raquel estava séria e incrédula.
- Bem, essa é minha história, Raquel.
O resto é simples. Ah! Ia me esquecendo.
Júlio também me procurou e me agrediu com palavras, tentando mexer com meu brio.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:45 am

Soube que Sandra tirou o filho que esperava.
Eu não sei lhe dizer se aquele filho era meu.
O pai dela a expulsou de casa.
Eles tiveram brigas sérias e ela foi morar com o Júlio.
Não tive mais notícias deles.
Assim que me recuperei, voltei a sair da casa dos meus pais porque, depois de tudo, não conseguia encarar alguns parentes que iam lá pelo prazer de me ver naquela situação, pois a Sandra, talvez irritada por eu tê-la agredido, me difamou para todo mundo.
Principalmente para minha família, alguns tios e primos.
Disse que eu não era homem, inventou que eu tinha um caso com aquele colega, falou que eu não era pai do filho que ela esperava...
Resumindo, foi o maior escândalo.
Alexandre parou, olhou para Raquel, criou coragem e completou:
- Sandra ainda contou que começou a gostar do Júlio porque foi ele quem a consolou quando ela descobriu que eu era homossexual.
Aí eles se apaixonaram.
Raquel ficou perplexa. Paralisada.
Alexandre ainda afirmou:
- Nunca pensei que alguém pudesse mentir tanto e ser tão cruel com quem...
O rapaz deteve as palavras, parecendo ainda magoado e ferido com tudo aquilo.
Raquel, num impulso, sem perceber, tocou-lhe o ombro com suavidade, deixando a mão repousar sobre ele e, com a voz macia, afirmou compreendê-lo:
- Eu sei o que é isso.
Sei o que é encontrar alguém cruel e mentiroso.
- Sabe?
- Ser acusada de algo e não ter como se defender, ser agredida sem merecer, ser rejeitada...
Ah! Sim, eu sei o que é isso.
Alexandre se voltou para ela e a encarou, dizendo:
- Não posso negar que amei muito a Sandra.
Fiz tanto por ela.
Se fosse necessário, eu lhe daria minha vida.
Tudo o que sentia se transformou em decepção e mágoa.
Sinto um asco...
Jurei a mim mesmo nunca mais amar alguém.
Sério, com a testa quase franzida e os olhos brilhantes, afirmou:
- Não quero outra mulher na minha vida.
Você não imagina como sofri.
Nesses últimos dois anos, necessitei de muita força de vontade para continuar vivendo.
Deus bem sabe. Sinto-me amargurado.
Às vezes acho que ainda não encontrei uma razão, um motivo...
Sinto-me vazio, dolorido.
Por isso digo que não tenho amigos, que é preciso tomar cuidado ao falar sobre a moral de alguém.
Embora Raquel não parecesse perturbada, seu olhar expressava uma tristeza infinita, como se recordasse de algo.
Alexandre sentiu que ela fora a única pessoa capaz de entendê-lo.
Por um segundo ele se pegou admirando-a de novo, sem que se forçasse a isso.
Incomodado com o pensamento, examinou o relógio, assustando-se:
- Nossa! Estamos em cima da hora.
- Já?!
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:45 am

- Vamos? - disse levantando-se.
- Claro.
Alexandre sentia-se bem melhor após aquele desabafo.
Desde quando tudo aquilo lhe aconteceu, era a primeira vez que falava sobre o assunto, tão detalhadamente, com alguém.
Eles caminharam lado a lado e após alguns minutos de silêncio, Raquel, sempre delicada e naturalmente sensível, perguntou:
- Por que tira o rótulo do vidro de remédio?
- Para evitar perguntas.
Quando alguém questiona, digo que são vitaminas.
Não gosto de tocar nesse assunto.
Vão perguntar: "Por quê?
Como começou? O que aconteceu?"
- Mas não seria bom alguém saber que você precisa desse medicamento?
- Você! Você sabe, agora - respondeu satisfeito pela preocupação da amiga.
Raquel sorriu e eles voltaram para a seção.
No decorrer do dia, Alexandre ficou pensativo.
Era estranho confiar tal segredo a alguém, nunca fizera isso.
Estava cedendo aos seus impulsos e não sabia dizer se isso seria bom.
"Será que Raquel vai me encarar de outro jeito?", pensava ele.
"Será que é minha amiga?
Passei a acreditar que não tenho amigos, e agora?"
Por um segundo, Alexandre se arrependeu por ter contado sua história, mas era algo que não poderia mudar.
Um pouco mais tarde, passando a observar Raquel, que parecia totalmente voltada para o trabalho, ele pensava:
"Ela está séria demais.
Será que pensa em mim e em tudo o que contei?"
Naquele instante Raquel precisou sair de sua mesa, pois o director a chamou em outra sala.
Pouco depois, a jovem retornou cabisbaixa.
Seus olhos vermelhos e brilhantes denunciavam choro.
Alexandre não conteve seus impulsos; empurrou sua cadeira para próximo da amiga e questionou, quase sussurrando, para que os outros não ouvissem:
- Ei, Raquel! O que foi?
Ao tentar encará-lo, ela não conseguiu deter as lágrimas que começaram a rolar.
- Raquel! - tornou murmurando preocupado.
O que aconteceu?
- Eu não sei... - respondeu a jovem entre os soluços.
Alexandre tentava ser discreto a fim de não atrair a atenção dos outros colegas.
As divisórias que separavam os funcionários não tinham altura suficiente que proporcionasse muita privacidade a ponto de conter o som.
- Como, não sabe? - insistiu o amigo.
Aconteceu alguma coisa.
Você não iria chorar por nada.
- Estou morrendo de raiva. É isso.
- Foi o senhor Valmor, não foi?
A moça acenou com a cabeça e ele sussurrou:
Não se amargure por pouca coisa.
Com os olhos banhados de lágrimas, tentando secar o rosto, Raquel o encarou e o rapaz disse:
- Sabe, chefes como ele, que exigem tudo com imposição, orgulho, cara feia e voz rude, são criaturas incompetentes e incapacitadas que necessitam se impor constantemente para se sentir temidas, pois normalmente não têm valor, capacidade nem moral.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:45 am

Esse é o único jeito de eles terem auto-estima.
Ela perdia o olhar e, pensativa, deixava transparecer certa mágoa.
- Espere - pediu Alexandre, que se levantou e retornou logo trazendo um copo com água e dizendo:
Toma. Isso vai acalmá-la um pouco.
Com as mãos trémulas, Raquel tomou poucos goles e agradeceu ao amigo:
- Obrigada, Alexandre.
Mais refeita disse:
- Estou melhor.
Depois eu conto o que aconteceu, senão sou capaz de começar a chorar novamente.
- Tudo bem. Depois conversamos - afirmou sorrindo e entendendo.
Raquel esboçou um sorriso forçado no rosto avermelhado pelo choro, enquanto o rapaz se afastou e retornou para o seu lugar.
No final do expediente, restavam somente os dois como funcionários no grande sector da empresa.
O rapaz, um tanto entediado com o que fazia, passou a observar a moça, que parecia compenetrada e até nervosa.
Mais à vontade agora, por não haver ninguém por perto e somente, a certa distância, um segurança lendo um jornal, Alexandre aproximou-se dela e falou em tom de brincadeira:
- Com tanta hora extra assim, você vai ficar rica.
A colega sorriu, tirando do rosto o semblante preocupado e sisudo.
- Estou consertando a minha "incompetência".
- Você está mais calma?
- Tenho que estar.
- O que aconteceu?
Raquel sorriu e contou:
- O senhor Valmor me humilhou, me constrangeu e...
- E...? - insistiu diante da pausa.
- Ah! Ele só faltou me chamar de burra - reclamou chorosa.
- Ele não pode fazer isso - disse o amigo mais sério e atento ao facto.
- Pois fez. E na frente de todo mundo na reunião que estava acontecendo.
- Como foi?
- A história é longa, Alexandre.
Você vai se cansar.
Ele pensou um pouco, esboçou um sorriso gentil e falou:
- Hoje eu precisei de um ouvido emprestado para desabafar e você não se cansou. Cansou?
- Não. Claro que não.
Mas é diferente.
Aproximando-se mais, ele pôs-se em frente dela e, virando-lhe a cadeira, insistiu:
- Eu quero saber.
Conte-me, por favor - sorriu usando as mesmas palavras que ouvira dela quando a fez de confidente.
Meio sem jeito, Raquel encorajou-se e relatou:
- Foi mais ou menos assim:
- a Rita saiu de férias.
O serviço dela já estava parado havia uns três dias.
O senhor Carlos me chamou e me entregou o serviço da Rita.
Sabe aquelas planilhas de estatísticas que mal aprendi a fazer?
- Sei.
- Pois bem, aquilo foi passado para a Magda e eu tenho que ensiná-la.
Veja, eu não sei nem pra mim.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:45 am

A Rita lida com sistemas gráficos e eu não sei nada disso.
Então, o que aconteceu:
o serviço que me passaram ontem, já estava atrasado, e hoje, na reunião, eu não tinha nada para apresentar.
O senhor Valmor ficou furioso e disse, olhando para os dois directores financeiros:
"Perdoem a incompetência da nossa funcionária".
E... - Raquel deteve as palavras; seus olhos começaram a marejar.
- E...? - perguntou Alexandre.
- Ai, que ódio!
Debruçando-se sobre sua mesa, Raquel começou a chorar, parecendo mais ser de raiva do que pela vergonha que passou.
Alexandre, muito paciente, aproximou-se ainda mais, dizendo:
- Não fique assim, Raquel.
Ele ia acariciá-la com um afago nos cabelos, mas deteve-se alerta, pois se lembrou de que a amiga parecia não gostar de ser tocada.
Observando que ela não tinha visto seu gesto, ficou despreocupado.
Com a delicada voz abafada e rouca por estar com o rosto entre os braços, ela perguntou:
- Como, não ficar assim?
Ele quer isso tudo para segunda-feira cedo.
- Eu posso ajudá-la.
Isso é, se você quiser e deixar, lógico.
- Como?
- Chegue pra lá - pediu o amigo animado.
Resolverei isso em dois minutos.
Não sei se você sabe, mas já fiz esse serviço antes.
Raquel afastou-se, parou de chorar e ficou olhando o colega que, pacientemente, realizava seu trabalho e a ensinava.
Atenta, a moça permaneceu tranquila e aprendendo.
Algumas vezes, Alexandre ria e até fazia brincadeiras com alguns erros que Raquel cometera.
Ela também achava graça e ria junto.
E foi assim que não perceberam as horas passarem.
Ao terminar, Alexandre, sorridente, ainda brincou:
- Pronto! Prontinho!
Pode fazer o cheque.
- Cheque?
- Claro! Achou que eu ficaria aqui de graça?
- Mal tenho onde morar e você ainda quer tirar dinheiro de mim?
Após o riso descontraído, Raquel se assustou:
- Nossa! Já é essa hora?
- Não se preocupe. Hoje é sexta-feira.
Amanhã você pode dormir até mais tarde.
- Você é que pensa - respondeu, guardando rapidamente suas coisas, enquanto olhava o relógio e dizia:
- Estou preocupada com o ônibus!
- Calma... - tentou dizer Alexandre quando foi interrompido.
- E você? Ficou até agora por minha causa! - exclamava nervosa.
- Raquel, o que é isso?
Não stressa e fique tranquila.
Estou de carro e vou levá-la.
- Não! - respondeu num grito que Alexandre também começou aficar nervoso.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:46 am

- Como não? O que te deu para ficar assim?
Raquel não parava.
Exibindo uma agitação quase incontrolável, arrumou sua mesa, pegou suas coisas e disse, parecendo não tê-lo ouvido:
- Obrigada, Alexandre.
Depois conversamos.
Tenho que ir, pois está tarde e...
Alexandre, cismado com aquele comportamento e pressa, parou na frente dela impedindo sua passagem.
Delicadamente, segurou-lhe o braço e, com o semblante sério, quase sisudo, voz baixa e firme, disse determinado:
- De jeito nenhum!
Não há mais condução a essa hora.
Você não vai sair daqui sozinha, Raquel.
Eu não posso deixar.
Nervosa, com os olhos marejados, Raquel puxou o braço que ele segurava e respondeu com a voz embargando:
- Você não vai me levar em casa.
- Por quê? - decidido, questionou austero.
- Não! - ela gritou alterada.
Sua agitação o incomodava.
Ele não compreendia e insistia:
- Raquel, calma. Por que esse drama?
Se me explicar, talvez eu entenda e a ajude.
Tentando passar por ele, que estava à sua frente, ela falou:
- Tenho que ir.
Deixe-me passar, Alexandre.
Sem exibir agressão, ele a segurou por ambos os braços com generosidade.
Raquel lembrou-se do que sofrera no dia anterior e quase gritou:
- Solte-me!
Largando-a rapidamente sem saber o motivo que a levava àquele desespero, ele pediu, firme:
- Tudo bem, Raquel.
Eu não estou te segurando mais.
Fique calma.
Ela o olhou de modo muito estranho.
Lágrimas corriam pelo seu rosto e seu queixo tremia.
Raquel caiu em um choro compulsivo e ele a fez se sentar.
O segurança daquele sector, que observava tudo a certa distância, aproximou-se lentamente e perguntou a Alexandre:
- Algum problema, senhor?
Alexandre, que esfregava o rosto e passava as mãos pelos cabelos, estava parado na frente de Raquel sem saber o que fazer.
Nesse instante, voltou-se ao homem que aguardava uma resposta e justificou:
- Eu não sei o que está acontecendo.
Estávamos trabalhando e passamos do horário.
Não tem mais condução a essa hora e...
Ela não pode ir embora sozinha.
Quero levá-la e ela não aceita.
O homem parou, ficou olhando para Raquel, e, por fim, opinou:
- Será que ela está chorando por causa do marido, que pode ficar bravo?
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:46 am

E voltando-se para Raquel, tentou consolá-la:
- É comum o pessoal ficar aqui trabalhando até bem mais tarde.
Tem gente que passa a madrugada aqui até amanhecer.
Não fique assim não, moça.
- Não é isso. Ela não tem marido - respondeu Alexandre, que em seguida pediu:
Olha, está tudo bem. Isso é emocional.
Vou conversar mais um pouco com ela e ver o que consigo, certo?
O segurança não disse nada e ficou olhando para a jovem, que só chorava.
Percebendo que o vigia não saía do lugar, Alexandre pediu:
- Pode nos dar licença?
- Claro. Eu estarei ali e... Qualquer coisa...
- Óptimo. Obrigado - agradeceu com sorriso forçado.
Com a distância do segurança, Alexandre viu-se mais à vontade.
Puxando uma cadeira, sentou-se em frente de Raquel, ficou em silêncio aguardando alguns instantes, enquanto reflectia sobre o que poderia estar acontecendo com sua amiga.
Alexandre, com carinho, tentou pegar as mãos de Raquel, que estavam cobrindo o próprio rosto, e colocar entre as suas.
Houve uma reacção imediata quando ela negou:
- Não!
- Tudo bem. Não precisa ficar assim.
Alexandre ficou nervoso.
Levantou-se e andou de um lado para outro.
"Isso não é normal", pensava ele.
"Mas o que está acontecendo?"
Naquele instante, sentia um grande desejo de acalmá-la, enternecê-la, abraçá-la, mas não podia.
Raquel, de meiga, passava a ser quase agressiva quando ele tentava tocá-la.
Alguns minutos se passaram, ela parou de chorar e olhava fixamente para o chão.
Aproximando-se, Alexandre sentou-se novamente à sua frente e procurou encará-la.
Com muita calma, usando ternura na voz, falou:
- Raquel, preste atenção.
Eu não tenho ideia alguma do que está acontecendo com você.
Não posso entender essa reacção.
Talvez seja algo muito pessoal.
Se não quer falar, tudo bem, eu a respeito.
Mas veja, não podemos ficar aqui até amanhecer.
É incabível. Ao mesmo tempo, eu não posso deixá-la ir embora sozinha, correndo riscos que só Deus sabe.
Eu vou levá-la para casa, certo?
- Não.
Alexandre, sem deixar transparecer o seu nervosismo, pensou:
"Oh, Deus! Vai começar tudo de novo.
Ajude-me!" Respirando fundo, sem demonstrar seu descontentamento, insistiu generoso:
- Vou levá-la, sim.
Confie em mim, por favor. Está tudo bem.
O rapaz demorou quase uma hora para convencer Raquel que, a custo, aceitou.
No trajecto para sua residência, ela não conversava a não ser para indicar o caminho, e, às vezes, chorava tentando esconder o rosto.
Ao estacionar o veículo na frente da casa de Marcos, Alexandre ficou assustado com a rapidez com que Raquel desceu de seu carro.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:46 am

- Ei, Raquel? - chamou, saindo às pressas e alcançando-a no portão.
Ela se voltou e agradeceu:
- Obrigada. E, por favor, me desculpe.
- Espere - pediu ao se aproximar.
Você está bem?
- Sim. Estou - admitiu envergonhada, abaixando o olhar.
- Não precisava ter ficado tão nervosa.
Viu? Está tudo bem.
Eu disse que poderia confiar em mim.
- Desculpe-me.
Alexandre esboçou um agradável sorriso, explicando:
- Não tem pelo que se desculpar.
Mas, sabe... Puxa, Raquel, você me assustou.
Ao vê-la sem jeito, afirmou com generosidade:
- É muito bom conversar com você.
Mas é que ali, naquela situação, eu não sabia como agir.
Perdoe-me se fui um pouco duro com você.
Mas eu não podia deixá-la vir embora a essa hora sozinha.
Espero que entenda que eu visava a sua segurança.
Ela não disse nada e ele desfechou:
Agora entre, vai. Eu fico olhando.
Raquel agradeceu novamente e ele ficou observando-a entrar na casa.
De volta ao seu apartamento, Alexandre ficou inquieto.
Tomou um banho e se deitou, mas não conseguia dormir.
"Raquel agiu de modo muito estranho.
O que a fez ficar assim?", pensava.
"Vagner falou que havia 'chegado' nela, será que ele tentou algo?
Crápula nojento!
O que será que aconteceu?
Ela estava muito amedrontada."
Em dado momento, Alexandre falou sozinho e em voz alta:
- Chega! Já me envolvi demais.
Não vou e não quero me meter na vida de ninguém.
Minutos após dizer isso, percebendo que não conseguiria conciliar o sono, levantou-se, foi para a sala, ligou a televisão e começou a procurar algum filme para se distrair.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:46 am

Capítulo 5 - Acusações indevidas

Ao contrário do dia anterior, aquela manhã se fez nublada, cinzenta e uma garoa fina umedecia tudo.
Alice levantou cedo e aguardava, bem ansiosa, a chegada de Marcos à cozinha para o desjejum, a fim de poder contar para o marido as novidades.
Quando o viu, seus olhos brilharam.
Ali estava a oportunidade tão esperada.
- Você viu a que horas a sua irmã chegou?
- Não - respondeu Marcos sem preocupação.
- Eram quase quatro horas da manhã!
- Que estranho admirou-se ele sem expressar espanto.
Depois concluiu:
Raquel não é disso.
- "Não é disso", na sua frente.
- O que você quer dizer com isso, Alice? - perguntou o marido, mais sério e atento, encarando-a.
- Um cara veio trazê-la de carro e ainda ficaram um bom tempo no portão conversando.
Você acha isso normal?
- Acho.
- Ora, Marcos, não seja idiota!
Seria normal para outra moça, não para sua irmã.
- Por que não? Raquel tem o direito de ser feliz.
Tomara que ela encontre alguém que a queira bem, que a respeite e ame.
Você tem algo contra isso?
Com um sorriso irónico e na voz um tom de desdém, Alice respondeu:
- Não tenho nada contra.
Muito pelo contrário.
Só que, todo aquele drama, todo aquele medo e os traumas pelos quais ela diz ter sofrido, sumiram, assim, de repente?
Eu não sou boba, Marcos.
Eu te avisei que a Raquel mentiu para nós e nos usou.
Você foi o único que acreditou naquela história absurda e até se indispôs com toda a sua família.
Levou-a para tratamentos, pagou terapias, médicos...
Interrompendo-a, Marcos interferiu demonstrando nítida insatisfação:
- Aonde você quer chegar, Alice?
Olhando firme em seus olhos, sem pestanejar, Alice falou:
- Não sou boba, Marcos.
Toda aquela história, todo aquele medo foi mentira.
Raquel nos enganou para nos usar.
Ela não teria onde ficar nem apoio de mais ninguém.
Hoje isso ficou óbvio, pois, naquela época, sem ter onde viver nem onde morar, ela teria que fazê-lo acreditar naquele absurdo, por isso encenou todo aquele drama e trauma.
Como justificar, hoje, ela chegar em casa àquela hora e acompanhada por alguém que não sabemos quem é?
Seus traumas sumiram, assim, de repente?!
- Chega, Alice!
- Não, Marcos, não chega.
A prova está aqui, no que aconteceu hoje.
Ninguém faz algo com naturalidade se não está acostumado.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Maio 06, 2017 9:46 am

Escuta o que eu estou falando.
A Raquel vai aprontar, não vai assumir a responsabilidade e vai largar aqui em nossas mãos, como já...
- Como já o quê, Alice?
- Ora Marcos!
Como já fez por aí. Você sabe.
Em defesa da irmã, ele se levantou, aproximou-se de Alice e, com voz pausada, falou manso, contendo seu nervosismo, que podia ser notado:
- Não quero que fale nesse assunto novamente. Eu a proíbo.
- Tá pensando que sua irmã é santa?
- Fique quieta, Alice!
- O que foi? - perguntou Raquel, que surpreendeu o casal em discussão.
- Bom dia, Raquel! - disse Marcos, tentando disfarçar.
- Bom dia. Mas o que está acontecendo?
Eu ouvi meu nome.
- Nada, Raquel - afirmou a cunhada, assumindo uma postura mais natural.
Tome seu café.
Sem dar trégua, Marcos tentou saber o que aconteceu e perguntou:
- O que houve, Raquel?
Você chegou tarde. Estávamos preocupados.
- Tive problemas no meu serviço.
Um colega resolveu me ajudar e ficamos na empresa além do horário, depois fiquei sem condução.
- Foi ele quem veio trazê-la? - perguntou Alice, trocando olhares com o marido, aproveitando que Raquel estava num ângulo que não podia vê-la.
- Sim. Foi ele mesmo quem me trouxe - respondeu com simplicidade.
Marcos, sem oferecer mais atenção, saiu deixando-as conversando.
Com a oportunidade de se ver a sós com a cunhada, Raquel questionou:
- Alice, o que vocês estavam falando quando cheguei?
- É melhor você não saber, Raquel.
A moça sentiu-se gelar.
Um mal-estar pareceu invadi-la subitamente.
Alice, por sua vez, pensou rápido e decidiu não brigar mais com o marido por causa de Raquel.
Aquele método era falho e perigoso.
Marcos gostava da irmã e iria se voltar contra ela.
Então, deveria ser astuciosa e arrumar um jeito de colocar um contra o outro.
Raquel, com as emoções alteradas, sentindo as mãos gélidas pelo suor que verteu imediato, se levantou e pôs-se diante da cunhada pedindo explicações:
- Eu quero saber, Alice.
O que você e Marcos estavam conversando?
Se era sobre mim, eu preciso saber.
Alice fingiu-se embaraçada.
Aquela seria sua oportunidade.
Ela respirou fundo, sem encarar Raquel, enquanto torcia as mãos para demonstrar-se nervosa.
- Vamos, Alice, por favor - insistiu Raquel apreensiva.
- Marcos não quer que eu lhe diga, mas...
- "Mas" o quê? - perguntou Raquel diante da pausa.
- É que ele pediu para eu ficar de olho em você.
Marcos tem medo de...
Raquel empalideceu.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:00 am

Sentiu um torpor estonteando-a, mas se fez firme e encarava Alice esperando mais explicações ao perguntar:
- Marcos tem medo do quê, Alice?
- Raquel, deixe isso para lá.
- Não! Fale logo, por favor!
- Não posso. Se eu lhe disser e você for contar para ele...
Não quero que voltemos a brigar novamente.
Minha vida mudou, não quero mais viver naquele inferno de antes onde as brigas eram constantes e...
- Não vou dizer nada para o meu irmão.
Conte logo.
Olhando Raquel com frieza ao encará-la para que suas palavras parecessem verdadeiras, Alice relatou:
- Marcos tem medo pelo seu passado, Raquel.
Ele pensou bem e...
Eu não sei como foi acontecer, mas, depois de tanto tempo, ele acha que você não foi tão inocente assim.
Raquel sentiu como que sem forças.
Suas pernas adormeceram e quase não se sustentava em pé.
Com a voz enfraquecida e desalentada, a moça desabafou, incrédula:
- Não... Marcos não pode pensar isso de mim.
Ele foi a única pessoa que acreditou em mim e...
As lágrimas brotaram rapidamente nos olhos de Raquel.
Alice aproximou-se, colocando a mão em seu ombro, pediu com voz piedosa, parecendo terna e compreensiva:
- Eu sei. Eu acredito em você.
Entendo como se sente.
Só que não conte nada para o Marcos, por favor.
Se ele souber que falamos sobre isso...
Diante do silêncio da cunhada, Alice continuou:
Não chore. Olha, sente-se aqui e tome seu café.
- Não, obrigada.
- Raquel...
- Fique tranquila, Alice.
Eu não vou dizer nada.
Só estou muito decepcionada.
Isso me machucou demais.
- Não ligue para isso.
Homem é assim mesmo.
Hoje ele pensa uma coisa, amanhã pensa outra e...
Não ligue, tá?
Raquel passou a se preocupar.
O fantasma do passado batia-lhe à porta.
Estava magoada, ofendida por tanta injustiça e incompreensão.
Seu segredo, sua história triste e amarga deveria ser esquecida, mas não.
Na mente das pessoas restavam dúvidas e muitos não acreditavam nela.
Além disso, em lugar distante, a semente dessa história germinava, crescia...
Jamais sendo apagada. Ela não teria paz.
Raquel não desconfiou da crueldade de Alice, que tinha seus planos ardilosos para afastá-la, o quanto antes, de seu irmão.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:00 am

A cunhada não se sentia bem com a presença dela.
Principalmente agora que sua situação financeira estava mais equilibrada por causa da promoção de Marcos e de seu emprego, onde ganhava satisfatoriamente para ela.
Não! Definitivamente Alice não queria a presença de Raquel, seu coração endurecido não reconhecia tudo o que aquela jovem fizera para ajudá-los, nem queria devolver o que ela lhes emprestara, no momento que mais necessitaram.
Aquele fim de semana iniciou-se com inúmeros pensamentos turbulentos nas ideias de Alexandre.
Sozinho em seu apartamento, não tinha muito que fazer.
Pensou em sair e ir ao clube, mas o tempo estava horrível.
Desportos em quadras fechadas não lhe agradavam.
Teve vontade de visitar seus pais, mas não se sentia bem para conversar e sabendo como era sua mãe que, conhecendo-o bem, desconfiaria que estava amargurado e começaria a enchê-lo de perguntas.
Nem o jogo electrónico no computador prendia sua atenção.
Desligou a máquina, ligou em seguida o aparelho de som colocando um CD com músicas suaves.
Lembrou-se de um livro que tinha comprado havia mais de um mês e não tivera tempo para lê-lo.
Apanhou a brochura e atirou-se no sofá, mas, após ler poucas páginas, percebeu que sua atenção se prendia em Raquel.
- O que estou fazendo? - perguntou em voz alta.
Prometi a mim mesmo que não iria me preocupar com ela.
Amargurado, não conseguia controlar os seus desejos.
Levantando-se, colocou o livro sobre um console, pegou uma jaqueta, desligou o som e, por fim, apanhou as chaves do carro saindo rapidamente.
Minutos depois, sob a densa garoa fina que caía, Alexandre se encontrava parado quase em frente à casa do irmão de Raquel.
"Se ela saísse agora...", desejava em pensamento.
"Mas a rua está deserta, está muito frio.
O que Raquel teria para fazer fora de casa agora?"
Segundos depois tornava, preocupado:
"Estou ficando louco!
Tenho que pôr um fim nisso.
O que estou fazendo aqui?"
Quando pensou em ligar o carro para ir embora, uma vontade maior o dominou e uma esperança o prendeu.
Sentia que precisava ver Raquel.
"E se ela aparecer? O que digo?
Que desculpa posso dar?"
De repente, Alexandre vê uma silhueta feminina, ao longe, andando na rua em direcção de seu carro.
A cabeça estava coberta por um capuz que acompanhava o grosso agasalho.
Ele não se importou e continuou a olhar na direcção da casa.
O perfil que ele vira ao longe era Raquel que, mais perto, o identificou.
Aproximando-se do veículo, ela o encarou surpresa e com um leve sorriso.
Alexandre sobressaltou-se e não sabia o que fazer.
- Você aqui? - perguntou a jovem sorridente.
- É, eu... - embaraçou-se o amigo que, descendo rapidamente do carro, não tinha quase o que dizer e nem sabia como se justificar.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:01 am

Colocando-se diante da colega, a cumprimentou, dizendo:
- Oi, Raquel. Tudo bem?
- Tudo. E você?
- Estou bem.
Passei aqui para saber como você estava e...
Alexandre exibia-se um tanto sem jeito e ela perguntou encabulada:
- Ficou preocupado com o que fiz ontem, não foi?
- É verdade. Fiquei preocupado, sim - admitiu amavelmente.
- Estou envergonhada.
Desculpe-me - respondeu constrangida e abaixando o olhar.
- Não peça desculpas.
Você não tem por que se preocupar.
Acontece que...
Bem, não é comum uma crise de nervos como aquela. Entende?
Eu realmente fiquei preocupado e só queria saber como você estava.
- Estou bem. Não sei o que dizer.
Pensando rápido, Alexandre perguntou à queima-roupa:
- Foi o Vagner?
- Como?!
- O Vagner me disse que "chegou" em você.
O que ele fez?
Raquel empalideceu e não sabia o que dizer.
Percebendo sua mudança e nervosismo, ele insistiu mais firme:
- O que o Vagner fez com você, Raquel?
- Nada - respondeu amedrontada.
- Como nada? Por que você ficou assim?
Por que estava com tanto medo ontem?
Ele tentou delicadamente segurá-la pelo ombro, mas ela se afastou.
- Raquel, o que houve? - perguntou Alexandre, alterado e nervoso.
Sou capaz de matar esse cara se ele encostar um dedo em você!
O que aconteceu?
Temendo uma situação difícil, ela resolveu mentir para acalmá-lo:
- Não aconteceu nada.
Por favor, acredite.
- O que ele disse?
- Só me chamou para irmos ao shopping e eu não aceitei.
Ela abaixou o olhar e o colega fitou-a por longo tempo.
Por um momento, ele pensou no motivo que o levava a reagir daquela forma, afinal não tinha nada a ver com a vida de Raquel.
A garoa começou a ficar mais densa.
Eles já estavam quase molhados e Raquel começou a se incomodar.
Não poderia convidar Alexandre para entrar por causa de seu irmão.
O que Marcos não pensaria?
O colega, por sua vez, esperançoso por um convite que não acontecia, decidiu abrir a porta do carro e, mais gentil, chamá-la:
- Vem, entra aqui, vamos conversar.
- Não - respondeu a moça sem jeito.
Justificando em seguida:
Perdoe-me por não chamá-lo para entrar, é que...
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:01 am

Tirando-a do embaraço, a interrompeu educado:
- Não se preocupe. Eu entendo.
Mas venha, vamos dar uma volta.
- Não. Agradeço o convite, mas estou com uma dor de cabeça horrível.
Estou vindo da farmácia, veja - disse tirando do bolso um pequeno saquinho contendo um medicamento -, saí para comprar um remédio porque não aguentava mais.
- Ah, então estou te atrapalhando.
Vá, entre e tome o remédio.
Passei aqui só para saber de você.
- Obrigada. Estou bem.
- Se não fosse a dor de cabeça, não é?
- É sim - sorriu docemente ao concordar.
- Tchau, então - despediu-se.
Alexandre sentiu forte impulso de beijá-la no rosto, como seria comum, mas conteve-se e estendeu-lhe a mão.
- Tchau - correspondeu Raquel sustentando o agradável sorriso.
Após a partida de Alexandre, ela o admirou, pensando:
"Como ele é discreto, generoso..."
Mas, em seguida, anuviou o sorriso e se preocupou:
"Alexandre está muito solícito, dedicado.
Não! Ele não pode estar interessado.
Nunca tive um amigo como ele e não quero perder sua amizade, se isso acontecer... tenho que me afastar dele, mas..."
Raquel sentiu-se muito mal e insatisfeita com o rumo que as coisas tomavam.
Como sua vida mudara.
Ela era independente, trabalhava para sobreviver, mas ninguém a incomodava.
De repente aconteceram tantas coisas que lhe doíam muito.
Alexandre, por sua vez, foi embora satisfeito.
Uma alegria agradável o invadira.
Como desejava, viu Raquel, mesmo que por alguns minutos.
Entretanto, mais tarde, em seu apartamento, se questionava se aquilo estava certo.
Temia estar apaixonado por sua amiga.
Temia sofrer novamente.
Procurando alterar o rumo da situação, começou determinar-se a ser forte e ter uma postura mais vigilante.
Decidido, resolveu que só seria amigo de Raquel.
Na semana que se seguiu agitada, Raquel demonstrava nítida preocupação.
Alice queria que ela a acompanhasse ao "tal lugar", que era denominado assim pelo facto de nem mesmo ser um local onde várias pessoas se reúnem centralizadas com o mesmo objectivo, o que seria um centro.
Esse "tal lugar" era uma residência e, em um quartinho nos fundos, aglomeravam-se altares, velas, flores, cortinas e toalhas de renda.
Uma pessoa, em transe mediúnico, com vestimenta típica e comum àquela seita espiritualista, recebia os que a procuravam.
Esse médium ficava dentro do referido quartinho e atendia um a um dos que esperavam sentados em um banco, no corredor comprido, onde seria um quintal.
Em uma das vezes em que Raquel, só como acompanhante, foi a esse "lugar" com sua cunhada, um espírito sofredor aproximou-se dela e passou a acompanhá-la.
No início, sua presença, suas vibrações, seus desejos e seus pensamentos eram imperceptíveis a Raquel.
Com o tempo, pelo facto de ela ter inúmeras preocupações e nem sequer se socorrer em prece, esse espírito passou a envolvê-la, mas sua presença era ignorada e a moça nem podia imaginar esse envolvimento.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:01 am

Ela não percebeu que recebia vibrações inferiores, pensamentos queixosos e desejos lamentáveis, aceitando como sendo seus alguns sentimentos e vontades.
Raquel não sabia distinguir suas ideias dos desejos do irmão espiritual que a acompanhava.
Aliás, bem poucos o sabem.
Por essa razão, suas preocupações e suas angústias ficavam mais intensas e dolorosas.
Raquel, que já era uma pessoa calada, ficara mais triste do que nunca.
Sua quietude, antes tranquila, exibia-se agora amarga e depressiva.
Alice, ao contrário, mais alegre e extrovertida, em seu serviço revelava-se uma pessoa capacitada e esperta.
Ela não cultivava muitas amizades.
Todas as colegas que possuía eram por interesse.
Alice fomentava a discórdia, sempre falava de qualquer companheira deixando a desejar sobre seu carácter em algum aspecto.
Com o incentivo do espírito Sissa, Alice começava então a se animar em chamar a atenção do gerente de seu sector para si.
Ela era uma mulher de aparência respeitável e bonita.
Você merece coisa melhor do que o Marcos - dizia-lhe Sissa, envolvendo-a a todo instante.
Veja, Alice, você pode ter a oportunidade de ser feliz e ter melhor condição financeira, se quiser.
Sem ouvi-la, Alice passava a ter ideias e desejos daquele nível.
Assim, sempre que tinha oportunidade, jogava todo o seu charme e direccionava olhares de conquista para o referido gerente que, percebendo suas insinuações, dava a entender que estava se sentindo atraído por ela.
A pobre mulher não respeitava seu marido nem seus filhos.
Alice não se amava, porque não respeitava a tranquilidade de sua consciência, pois não cultivava boa moral, preservando-se de futuras harmonizações dolorosas, porque já adulterava em pensamento.
E assim, a cada dia, ela se aproximava cada vez mais daquele homem que lhe correspondia.
Com o passar do tempo, Aldo, o referido gerente do sector em que ela trabalhava, fez um convite a Alice que, sem pensar, aceitou.
Eles começaram a sair juntos, frequentando barzinhos e boates, conhecendo-se um ao outro, enquanto tomavam aperitivos.
Alice fazia de tudo para que ninguém percebesse.
Pelo facto daquele magazine oferecer opções diferentes de horários, ela adaptou-se ao expediente mais propício e, quando se atrasava muito para chegar em casa, desculpava-se dizendo que pegou uma grande venda e que a cliente demorou na escolha.
Ninguém desconfiava. Não havia motivo.
Por outro lado, Raquel, em seu serviço, preocupava-se em demasia.
Vagner tornava a se aproximar dela.
Temendo-o, procurava evitá-lo o quanto podia, mas era difícil, uma vez que seus serviços se interligavam.
Ele agia como se nada tivesse acontecido, lançando olhares que a molestavam pelos desejos que podia perceber.
- Então, Raquel - explicava Vagner muito cordial -, dependo desses valores para poder passar esses resultados.
Raquel o ouvia, mas se sentia ineficiente e insatisfeita.
Vagner a incomodava com sua presença.
Tudo agora estava sendo muito difícil.
- Veja, Raquel, esses primeiros resultados aqui que me passou não estão certos, por isso, após ter pronta toda a resenha, os valores não batem.
Entendeu? - explicava Vagner, com extrema gentileza, tentando conquistá-la.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:01 am

- Eu sei. Já entendi - avisava desalentada, cansada.
O espírito desencarnado que se aproximava argumentava-lhe:
- Para que tanto empenho?
Ninguém nos dá valor.
Qualquer hora vão mandar você embora, mesmo.
Veja, trabalhei tanto para quê?
A vida não vale a pena.
Só temos tristezas e desilusões.
Só vivemos para sofrer e ser incomodados pelos outros.
Raquel não o ouvia, porém, a cada minuto, sentia-se mais desanimada.
Mesmo assim, voltou-se para o colega, explicando:
- Olha, Vagner, não sei o que aconteceu para eu errar isso.
Deixe tudo aí que, após eu terminar esse relatório, vou arrumar.
Aproximando-se mais de Raquel, curvando-se, Vagner mostrou-se gentil e perguntou em voz baixa, quase sussurrando:
- Você está com algum problema, Raquel?
Posso ajudar?
Alexandre, que ocupava a mesa ao lado, que era ligeiramente separada por uma divisória, aguçou os ouvidos tentando entender o que Vagner dizia.
Desde o dia em que divergiram, Alexandre e Vagner só se comunicavam para assuntos de serviço, conversando somente o essencial.
Por não conseguir entender o que o colega dizia para Raquel, Alexandre ficou inquieto e nervoso.
Sentindo seu coração pulsar desordenadamente, pensava:
- "Crápula! Como pode uma criatura ser tão...
Se ele tentar alguma coisa com ela, vou arrebentá-lo.
Será que esse cretino não percebe que é nojento e indesejável?!"
Alexandre sentiu um frio envolvê-lo todo.
Sua impaciência quase podia ser notada.
Procurou ficar atento no que fazia para não se envolver.
Impossível! Ele se torturava acreditando que não podia pensar daquele jeito, afinal, Raquel era só sua amiga.
Mas, contra os sentimentos fortes, pouco podemos fazer.
No olhar de Alexandre, um brilho apaixonado resplandecia, anunciando seu sentimento e seu ciúme.
Quando em vez, mordia os lábios pela raiva que sentia.
Agora, visivelmente nervoso e adivinhando as intenções do colega que sussurrava e deixava poucas palavras serem ouvidas, Alexandre não podia resistir.
- Vamos, vai - dizia Vagner com voz amável, melosa e com meio sorriso, a Raquel, que parecia repudiar aqueles modos.
- Não, obrigada - respondia a jovem exibindo firmeza e insatisfação.
- Não posso aceitar um "não".
Sem poder se conter, Alexandre se virou, ficou olhando para Vagner, que nem o percebia, e reclamou com grave tom na voz:
- Ei, cara!
Dá para respeitar a vontade da moça?
Já estou saturado de ouvi-lo insistir tanto.
Você é surdo? Ela disse: não!
Raquel estremeceu.
Surpresa e confusa, estava atordoada.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:02 am

Vagner franziu o olhar com rancor e inquiriu, estúpido:
- Por acaso você é porta-voz da Raquel?
- Qual é, Vagner?! - retrucou Alexandre.
Coloque-se em seu lugar!
Alguns da seção repararam no tom grave da voz de Alexandre, que aumentou o volume sem se intimidar.
Vagner ergueu o corpo e ia dar um passo na direcção do colega, mas viu-se inibido por um dos directores que se aproximava.
Mesmo assim, Alexandre ficou encarando-o como se o desafiasse com o olhar.
Por sua vez, nervosa e atordoada, Raquel ficou sem saber o que fazer.
Vagner, com o dedo em riste para Alexandre, mas sem fazer alarido nem ser chamativo, ameaçou com voz pausada, baixa e odiosa:
- Você me paga - virando-se, em seguida, saiu.
Raquel, surpresa, não sabia o que dizer e ficou olhando para Alexandre, que se virou, tornando a ficar de frente para sua mesa procurando entreter-se com seus afazeres.
Aquele dia estava sendo péssimo para ela.
Raquel e Alexandre não se falaram mais.
Ao chegar em casa, logo à noitinha, Alice insistia novamente para que a cunhada a acompanhasse.
Raquel, sem opinião própria, acabou cedendo aos caprichos de Alice e lhe fez companhia.
Enquanto aguardava a vez para ser atendida, Alice induzia Raquel:
- Faça uma consulta, boba.
Peça para lhe ajudarem com o emprego, com essa depressão e também para darem um jeito na sua vida.
Se não quiser falar com ele, aproveita hoje que a mulher também está atendendo.
Confusa, Raquel acabou decidindo fazer a tal consulta.
Ao ver-se a sós num pequeno recinto fechado diante de uma mulher que usava roupas alvas, rendadas e fumava um charuto de modo incomum, Raquel sentiu algo estranho.
Seu primeiro desejo foi o de virar as costas e sair correndo.
Mas sentiu vergonha de tomar tal iniciativa.
Sentada em uma banqueta e em meio a alguns apetrechos, a mulher indicou um lugar a fim de que Raquel se sentasse e esta assim o fez.
- Tá cum medo zé-fia? - perguntou a senhora, impostando a voz com sotaque caipira.
Com a respiração alterada, sentindo-se sufocada pela fumaça do charuto, das velas e das ervas que ardiam em um canto, Raquel, um tanto inquieta, respondeu:
- Não sei. Desculpe-me.
- Será que tá cum vontade de ir s'imbora, zé-fia?
Fica assim não. Mia fia tá cum poblema, num tá?
Raquel, instintivamente, decidiu não comentar nada sobre sua vida particular, muito menos sobre o que a afligia.
Com seu raciocínio correto e lógico, acreditou que:
se ali havia um espírito, ele deveria saber de seus problemas, ela não precisaria relatá-los.
- Nem sei por que estou aqui - comentou a jovem com modos tímidos.
Talvez por insistência de minha cunhada.
Raquel, diferente das demais pessoas, não ofereceu directrizes de sua vida que pudessem revelar suas aflições.
Por essa razão, não havia muito que dizer.
Após algumas baforadas de charuto, a mulher falou:
- Zé-fia é forte. Você tem sinar de quem já viveu muito "poblema".
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:02 am

Fez-se pequena pausa para baforar novamente, depois continuou:
É lutadora! Num é, zé-fia?
Oia, toma cuidado qui as pessoa num é sincera cum-cê.
É milho num ter amigo qui tá mar acumpanhada.
Após pequena pausa, ela perguntou:
- Você tem argo pra pidi?
- Não - respondeu Raquel, com modos frios e sentindo-se perturbada.
- Intão, zé-fia, vai té qui si livrar desse mau-olhado, dessa invejaiada toda.
Você vai fazer o seguinte:
Pega essas erva...
Mais tarde, Alice questionava:
- O que você achou?
- Olha, Alice, pra ser sincera, eu não achei nada.
Tudo o que aquela mulher me disse se encaixaria perfeitamente para qualquer outra pessoa.
- Ora! Não seja boba, Raquel!
- É verdade! Ela disse que eu era uma lutadora.
Quem não é lutador nessa vida?
Ela disse que eu vivi muitos problemas.
Quem não teve problemas em sua vida?
Ela falou que há pessoas que não são sinceras comigo. Ora, Alice!
Quem de nós poderá dizer que tem amigos sinceros?
Até Jesus, o símbolo da perfeição humana, foi traído!
- Mas, Raquel, ela tem razão!
Você já lutou muito na sua vida.
Com pouca idade passou por dificuldades terríveis...
Alice queria que Raquel recebesse ajuda a fim de conseguir sair de sua casa, pois queria se ver livre da cunhada.
Raquel, que se incomodava com aquela conversa, repentinamente pediu:
- Não quero mais falar nesse assunto, Alice. Por favor.
- Você perguntou alguma coisa? - insistiu a cunhada.
- Não.
- Ah! Aí está o problema.
Se você perguntasse, ela falaria.
- Se eu lhe perguntasse ela pediria detalhes.
Pedindo detalhes, ela teria uma série de informações, depois iria me dar opiniões como se adivinhasse minha vida.
Sabe, eu deixaria de acreditar do mesmo jeito.
Foi melhor eu ter ficado quieta, assim economizei tempo.
Olha, Alice, quer saber de uma coisa, não vou mais lá!
Para mim chega!
Arrependi-me de ter ido.
Só gastei dinheiro e perdi meu tempo.
Por favor, não me chame mais.
Cheguei tarde, estou cansada e, além de tudo, não gosto de sair à noite.
Alice nada comentou, ficou somente olhando contrariada para Raquel.
Uma sensação odiosa começou a envolver o seu coração que agora, ainda mais, indignava-se com Raquel.
Isso se dava principalmente pelo facto de Sissa estar animando essa discórdia, pois Raquel, apesar de nenhum entendimento, possuía um coração puro e poderia orientar Alice para o que era certo e errado.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:02 am

- Ela não é sua amiga.
Raquel não pode mais ficar aqui.
Ela vai acabar estragando tudo.
Vamos dar um jeito nela.
Naquela noite, Raquel custou a dormir.
Mesmo adormecendo só no meio da madrugada, perturbada por um sonho ruim que era induzido por espíritos inferiores, Raquel passou a dizer:
- Não... Sai de perto... Não!
Até que acordou todos com um grito.
Marcos correu para a sala e, ao lado da irmã, que já estava sentada, a chamou:
- Raquel! Raquel! Está tudo bem! Acalme-se.
Ele tentou abraçá-la, mas Raquel o empurrou.
Ela parecia confusa.
Com a respiração alterada e os olhos arregalados, Raquel circunvagava o olhar pela sala, procurando reconhecer o lugar, enquanto passava a mão pela fronte, que lhe parecia escaldante.
- Calma, Raquel.
Foi só um sonho - dizia Marcos com suavidade na voz, procurando enternecê-la.
Alice, que ficou em pé, olhando friamente a cena, não dizia nada.
De repente ela foi até a cozinha e voltou com um copo com água.
Após tomar alguns goles, Raquel se acalmou.
Passado um tempo, tudo ficou tranquilo e ela voltou a se deitar, depois que se desculpou com todos.
Marcos e Alice voltaram para o quarto e, ao perceber que o marido estava acordado, ela decidiu comentar:
- Marcos, estou preocupada com Raquel.
Interessado no assunto, ele ficou atento para não ceder ao sono, e Alice continuou:
- Não quero magoá-lo, mas você acreditou nesse pesadelo?
- O que você quer dizer, Alice? - perguntou quase irritado.
- Sabe o que é, eu andei conversando com a Raquel.
Coisa de mulher. Entende?
- Não, não entendo.
Dá para ser mais clara?
Exibindo nervosismo e inquietude, Alice torceu as mãos a fim de mostrar ao marido sua preocupação com Raquel.
Tomando cuidado com as palavras, continuou em tom brando e baixo:
- Sabe, Marcos, eu não tenho gostado de algumas coisas que venho percebendo.
Ela vem chegando de carro com um e com outro.
- Que eu saiba, ela só pegou carona naquele dia.
- Não é problema ela pegar carona.
É que a Raquel vem mentindo para nós.
Lembra-se, anos atrás ela apresentava traumas, desequilíbrios emocionais, pesadelos e o que eu te falei?
Sem esperar pela resposta do marido, Alice continuou:
- Falei que não acreditava nela.
Lembro-me de ainda ter dito que, se ela mentiu ou não, não tinha problema, mas o que me irritava era o facto de nos abalar, nos deixar nervosos e preocupados.
- Aonde você quer chegar, Alice?
- Vendo-a chegar de carro com um e outro, eu fui falar com ela.
Raquel me respondeu mal.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:02 am

Disse que fazia de sua vida o que queria.
- Não posso acreditar nisso.
- Então espere um pouco.
Alice se levantou e, sorrateiramente, foi até a sala espiar para garantir que Raquel estava dormindo, caminhou um pouco mais, pegou a bolsa da cunhada, que estava sobre um móvel ao lado da sua, e voltou.
Entrando no quarto, fechou a porta e acendeu a luz.
Sentou-se na cama e, como se revirasse a bolsa que segurava, tirou alguns preservativos e mostrou para Marcos, dizendo:
Para que alguém carrega isso se não vai usar?
Marcos ficou paralisado.
Sentindo-se enganado, não respondeu nada.
- Raquel não é santa, Marcos!
Tudo bem. Ela faz o que quiser da sua vida, mas...
Ela está mentindo para nós.
Ela mentiu o tempo todo.
Marcos ficou alterado.
Levantando-se, andou de um lado para outro do quarto.
- Não posso acreditar que Raquel tenha mentido para mim.
- Agora mesmo, com esse falso pesadelo, ela mentiu para ter a sua atenção.
Mentiu para que não acreditasse em mim, pois sabia que eu iria contar para você sobre seu comportamento e suas mentiras.
Vá lá na sala e veja por você mesmo.
Alguém que acabou de ter um pesadelo, horrível, iria dormir tão rápido?
Inconformado com a apresentação dos factos, Marcos saiu do quarto e foi até a sala onde Raquel dormia profundamente.
Olhando fixamente para sua irmã, comprovou que estava serena e tranquila.
Alice ficou no quarto aguardando.
Sabendo que Raquel tinha o sono perturbado, ela já esperava por aquela oportunidade.
Agora seu plano havia dado certo.
Ela colocara algumas gotas de sedativo na água adoçada e Raquel, nervosa, nem percebeu o que bebera.
Ao voltar para o quarto, Marcos não viu a esposa esconder seu sorriso cínico.
- Viu como tenho razão? - argumentou Alice com voz branda e melancólica.
O marido não respondeu, mas expressava um rosto contraído e sisudo.
Seus pensamentos fervilhavam nervosos nas dúvidas que começavam a pairar em suas ideias.
Pegando a bolsa da irmã, começou a olhar.
Para ele, não seria problema Raquel estar saindo com alguém, sua irritação era por ela ter mentido e criado um conflito de informações no passado.
- Marcos - tornou Alice -, tenho medo que a Raquel nos dê trabalho.
- Que tipo de trabalho?
- Raquel não assume responsabilidade alguma, pelo visto.
Ela não admite estar errada e sempre quer ser a vítima.
E se ela engravidar e abandonar a criança aqui?
Sabemos que já fez isso e nem temos ideia de onde está sua filha.
Marcos, contrariado, pediu:
- Tudo o que acontecer com a Raquel, de hoje em diante, eu quero que me conte.
- Não vá dizer nada a ela. Vá com calma.
Pegue-a no "pulo". Você vai conseguir.
Ele resolveu seguir os conselhos da esposa e concordou.
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Ave sem Ninho

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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:03 am

Algum tempo depois, ao colocar a bolsa de Raquel no lugar, Alice tomou o cuidado de transferir para a sua bolsa os preservativos que usara para acusar a cunhada.
Agora ela agia com inteligência.
Se quisesse Raquel longe dali, tinha de ser astuciosa.
Não haveria mais de impor as condições.
Ela encontraria maneiras de fazer com que Marcos visse o que ela queria.
Na manhã seguinte, Marcos, por não ter dormido bem e repleto de preocupações, apresentou-se sisudo e quase não cumprimentou Raquel que, percebendo-lhe a indiferença, ficou magoada, mas não disse nada.
Sem fazer o desjejum, ela foi para o seu trabalho, torturando-se em pensamentos tristes, principalmente por estar sendo envolvida por aquele espírito que lhe passava ideias lamentáveis, deprimentes e com vibrações pesarosas.
Com o serviço, Raquel não conseguia ficar atenta ao que fazia.
- Droga! - reclamava para si mesma.
Preciso entregar isso hoje.
Parece que nada quer dar certo.
As ideias pessimistas daquele espírito sem instrução cravavam-se cada vez mais nos sentimentos de Raquel.
Mesmo sem ter, nesta existência, ou em vidas passadas, ligações com Raquel, agora, aquele espírito sofredor e tão perturbado ficava próximo da encarnada, que não o percebia, e isso se dava por se afinar com os seus sentimentos, por ter, vamos dizer, gostado dos pensamentos preocupados e tristes que Raquel vinha experimentando nos últimos tempos, sem reagir, sem fé nem esperança que situações melhores pudessem ocorrer.
Ao vê-la nervosa com o que fazia, esse espírito sugeria:
- Não adianta. Você vai se matar para que tudo saia perfeito e depois de pronto ninguém vai valorizar.
- Que droga! - reclamava Raquel.
- Isso não vai dar certo.
Você não é competente e vão colocá-la no “olho da rua".
Eu descobri que só têm valor aqueles que conquistam os chefes, sabia? - ainda argumentou o companheiro espiritual.
Há tempos Alexandre não interferia nos assuntos da colega.
Vendo-a agora embaraçada, não resistiu e foi em seu socorro, oferecendo:
- O que foi, Raquel? Quer ajuda?
- Não estou conseguindo. Veja.
- Dê-me licença - solicitou o colega com brandura e suave expressão no olhar.
Raquel, quase chorando, tinha a visão turva.
Ela se afastou e Alexandre trouxe a solução em poucos minutos.
- Prontinho! - desfechou animado.
Ela, desanimada e embaraçada, nem sabia o que dizer e ficou parada olhando o serviço.
- Vai, garota! Continua agora! - impulsionou alegre e repleto de energia.
Sorrindo ao ver Raquel retomar novamente o trabalho, ele voltou para o seu lugar e ficou olhando-a, admirando-a.
Raquel era bonita, simpática e delicada.
Sua quietude oferecia um ar que o intrigava e atraía.
Ele sentia vontade de ficar perto dela, mas...
Na verdade, desejava poder tocá-la, abraçá-la com carinho...
Raquel era encantadora!
Possuía uma candura sem igual.
Seus pensamentos corriam apressados e Alexandre buscava, sem perceber, uma maneira de conquistar Raquel.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:03 am

Contrariando assim suas promessas de dias anteriores.
"Preciso conhecê-la melhor", pensava.
"Engraçado, sou capaz de sentir sua sensibilidade.
Eu sei, de alguma forma, que ela é frágil, delicada, sentimental, fiel...
Não posso me impor, isso iria agredi-la.
Serei paciente o quanto for preciso."
No final do expediente, Alexandre encorajou-se e, com jeitinho meigo, aproximou-se de Raquel arrastando-se em sua cadeira para junto da mesa da colega.
Curvando-se mais ainda, ele colocou o rosto colado na mesa da jovem, fazendo um semblante piedoso no olhar e sorrindo docemente, pediu com modos engraçados, como uma criança a implorar:
- Vamos ao shopping aqui em frente para tomar um suco?
- Como? - Raquel começou a rir pelo modo como ele se colocava e pedia.
Ainda na mesma posição, ele tornou a dizer:
- Em vez de ir embora para casa, vamos sair um pouco.
Podemos ir ao shopping e tomar um refrigerante ou um suco.
Quem sabe um lanche?
Alexandre ergueu-se ansioso e à espera de uma resposta positiva.
Raquel surpreendeu-se com o convite e ficou atrapalhada sem saber o que responder.
- É que...
- "É que..." - risonho, ele a arremedou diante da pausa, depois continuou animado: - Que nada!
Guarde suas coisas e vamos.
- Desculpe-me, Alexandre...
Olhando-a fixamente nos belos olhos amendoados que irradiavam ternura, pediu:
- Por favor, vamos?
Prometo que não sairemos tarde de lá.
Quero só conversar um pouco.
Estou me sentindo só.
Raquel sorriu timidamente.
Sem entender, viu-se dominada por uma vontade sem igual e, atordoada pelo tom de voz, pelo jeito carinhoso e olhar sereno do colega, que não exibia outras intenções, aceitou o convite.
Logo depois, o casal via-se sentado na praça de alimentação do referido shopping que Alexandre mencionara.
- Que tal um lanche?
Ou prefere uma refeição? - ofereceu animado.
- Não. Você disse que não iríamos demorar.
Alexandre não disse nada nem se expressou fisionomicamente, mas Raquel percebeu sua insatisfação.
- Desculpe-me. Não sou uma boa companhia.
Dizendo isso educadamente, ela se levantou como quem decide se retirar.
O mesmo espírito de outras vezes dizia-lhe que ela não agradava a ninguém e só incomodava os outros com suas preocupações e tristezas.
Alexandre, ligeiro, pôs-se em pé à sua frente e delicadamente a segurou pelo braço, dizendo:
- Por favor, Raquel, fique. Está tudo bem.
Eu vou pegar um suco para nós, certo?
Sente-se, por favor.
- Eu o incomodo, Alexandre.
Percebi, em seus olhos, que ficou contrariado.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:03 am

- Não. Não é isso.
Eu só pensei que, se fizéssemos um lanche agora, eu não teria que comprar alguma coisa para levar para minha casa.
E meio sem jeito, confessou:
- Não tenho nada pronto para comer e pensei em me alimentar por aqui.
Só isso. Está tudo bem.
Eu já venho, tá? Fique aqui.
Raquel se sentou novamente e o aguardou.
De volta à mesa, o rapaz via-se embaraçado e sem saber o que dizer.
Por fim, para brincar, perguntou:
- Está bom? Quer mais açúcar?
- Não.
- Não está bom? - ele perguntou sorrindo e para confundi-la.
- Sim - tornou ela.
- Então vou pegar o açúcar.
- Não! Espera - respondeu agora sorridente e atrapalhada.
Depois explicou:
- O suco está óptimo e não precisa de açúcar, certo?
Eles riram e Alexandre se viu mais à vontade.
Puxando conversa, resolveu saber mais sobre Raquel.
- De onde você é mesmo?
- Sou do Rio Grande do Sul. E você?
- Sou daqui.
Meus pais são filhos de imigrantes italianos.
Engraçado, você não tem sotaque do Rio Grande do Sul.
- Talvez seja por causa da minha mãe.
Ela é de Goiás e foi criada no Distrito Federal.
Só após se casar com meu pai foi para o sul e a sua convivência lá a fez adquirir um pouco do sotaque.
Você também não tem sotaque nem modos italianos.
- Não, não tenho.
Creio que vamos perdendo com o tempo.
Meus pais também não os têm.
Após pequena pausa, continuou:
- Tenho duas irmãs.
Uma é casada e tem dois filhos.
Essa mora no Rio de Janeiro.
A outra é noiva e mora com meus pais.
E seus pais, Raquel, onde moram?
- No Rio Grande do Sul, mesmo.
Meu pai é tetraplégico. Vive em uma cama.
Além disso, ele não é mentalmente capacitado por causa de um acidente que o deixou assim.
Ele e minha mãe moram com meus avós paternos.
Tenho o Marcos e mais dois outros irmãos casados.
Todos mais velhos.
- Seus avós são imigrantes?
Pergunto isso porque, no extremo sul, encontramos muitos imigrantes.
- Meus avós são de um lugar chamado de "Polónia Russa" ou "Reino da Polónia", que sofreu várias invasões alemãs e ataques da Rússia, que reivindicava parte do seu território.
Eles chegaram ao Brasil escondidos no porão de um navio e ganharam a nacionalidade brasileira com o nascimento do primeiro filho.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:03 am

Ao todo, eles tiveram quatro.
Um pouco pensativa, ela completou:
- Os dois primeiros já morreram.
- O pessoal daquela região é muito sério, não é?
- Sabe, Alexandre, eu não sei dizer.
Creio que a seriedade ou a simpatia não depende da nacionalidade, mas sim do coração de cada um.
Mas meu avô é muito rigoroso e...
- E...? - perguntou o colega diante da longa pausa.
- É até cruel - respondeu ela impensadamente e com o olhar perdido.
- Cruel?! - surpreendeu-se.
Alertando-se sobre o que falara, Raquel corrigiu:
- Não foi bem isso o que eu quis dizer.
Eu o acho rigoroso. Ele é duro demais.
Meu avô foi criado naquele costume católico ortodoxo que há na Rússia, e traz consigo muitas exigências.
Com a simplicidade que lhe era própria e sem reflectir sobre o que falava, Alexandre perguntou:
- Ele é rigoroso e a deixa morar sozinha?
Raquel não esperava por aquela questão.
Ela se viu confusa e ficou só olhando-o, sem nada responder.
Alexandre imediatamente se retractou, dizendo:
- Desculpe-me. Por favor, Raquel!
Ao dizer isso, impulsivamente Alexandre colocou suas mão sobre as dela, que estavam estendidas na mesa, completando:
- Eu não tenho nada com isso e...
Raquel sorriu delicadamente e, abaixando o olhar, retirou suas mãos, que ainda estavam envolvidas.
Mesmo percebendo sua reacção, ele não disse nada, porém intimidou-se.
Passaram a conversar, então, sobre alguns assuntos de serviço.
As horas foram correndo e, ao consultar o relógio, Raquel informou:
- Tenho que ir. Já é tarde.
- Oh, Cinderela! Fique tranquila.
Eu a levarei para casa.
Meu carro não vai se transformar em abóbora.
Eu garanto. - brincou o amigo, sorrindo.
- Porquê Cinderela?
- Porque você sempre quer estar em casa antes da meia-noite.
Não são nem nove horas! Eu a levo.
- Não. Por favor - pediu Raquel com voz mansa, sem encará-lo.
- Eu vou dar uma passada na casa dos meus pais.
É caminho.
E, rindo gostosamente, admitiu:
- Além de visitá-los eu janto lá.
Diante da indecisão de Raquel, Alexandre mudou o assunto, impedindo-a de pensar a respeito.
- Então, conseguiu falar com seu irmão a respeito de você sair da casa dele e ir morar em outro lugar?
Novamente um semblante aborrecido figurou no rosto de Raquel, que respondeu:
- Falei por alto, mas...
Marcos não quer concordar.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Maio 07, 2017 11:04 am

Disse que sou a única família que ele tem e...
- Já sei. Você continua ajudando com as despesas e não consegue juntar uma grana para conquistar novamente a sua liberdade.
Raquel pendeu a cabeça positivamente confirmando a conclusão do colega e confessou:
- Não sei o que está acontecendo.
Parece que minha vida fica mais complicada a cada dia.
Seja no serviço, seja em assuntos particulares, tudo é difícil de ser resolvido.
Acho que... - Raquel deteve as palavras.
Alexandre, atento e curioso, ficou aguardando, mas diante da demora, perguntou:
- O que você acha?
Os olhos de Raquel estavam brilhando e, tomando um impulso, ela revelou:
- Nunca dei importância a magias ou coisas assim.
Agora, porém, depois que visitei junto com minha cunhada aquele "lugar", comecei aficar cismada, duvidando.
Desde o princípio, comecei a me sentir mal, com o coração oprimido, triste.
Hoje as coisas estão piores. Nada está dando certo.
- Mas você não está indo mais lá, está?
- Eu disse para Alice que nunca mais volto lá. Não mesmo!
Encarando Alexandre, Raquel revelou:
- No instante em que disse isso, eu senti que Alice olhou-me com uma raiva, com um rancor...
Ela não disse nada, mas eu senti, entende?
- Raquel, dê um jeito de se afastar daquela casa o quanto antes.
- Como? Você não sabe o que é dificuldade, Alexandre.
Por mais que eu tente, não estou conseguindo.
Dependo sempre do maldito dinheiro.
Além do mais, não é só isso.
Você mesmo pode comprovar que, lá no serviço, não estou fazendo nada direito.
Já fui chamada a atenção várias vezes.
Alguns colegas têm me ajudado, mas ultimamente ando tendo ideias fixas de que vou ser demitida, que vão me mandar embora de uma hora para a outra pela minha incompetência, e...
- É...?
- Ora, Alexandre, nem preciso falar.
- Falar o quê? Não entendi.
- Você sabe que o Vagner está insuportável.
Ele começou a insistir e...
Tenho tanto medo - admitiu com sensibilidade ferida.
Alexandre respirou fundo e franziu o semblante, não conseguindo disfarçar seus sentimentos, e ela continuou:
- Não gosto dele.
E você sabe que ele é muito amigo do senhor Oliveira, o director de negócios.
Disseram-me que o Vagner é primo da esposa dele.
Veja, nós estamos sem um chefe no sector porque o Edson pediu demissão.
O Vagner conhece tudo ali dentro, é capacitado e tem um tempo razoável na empresa.
Agora me diz: quem você acredita que será nosso novo coordenador?
Com os olhos arredondados pela surpresa, Alexandre, muito sério, ficou em silêncio, e ela prosseguiu:
- Não vou ceder às investidas do Vagner.
Ele me apavora e enoja...
Não sou tão competente assim com meu trabalho a ponto de ser indispensável para a empresa.
Entrei ali como digitadora e por força das circunstâncias, olha onde estou e sem capacidade.
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Re: Um motivo para viver - Schellida / Eliana Machado Coelho

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